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sábado, janeiro 08, 2011

Forte Apache e os cowboys da Cachoeirinha


O texto do Fabiano Onça sobre os Sioux me foi enviado pelo advogado Danilo Lemos, de Vila Velha (ES), depois que soube pelo mocó que eu gostava de gibis de faroeste.

Confesso que li o material com um certo desconforto, já que não conhecia os detalhes da carnificina perpetrada pela cavalaria ianque durante a colonização do Oeste americano.

Explico melhor. Minha infância no bairro da Cachoeirinha foi povoada pelas figuras míticas do Velho Oeste.

Era muito difícil algum moleque não ganhar no dia de Natal ou no dia do seu aniversário um revólver a espoleta.

Os mais abonados, além do revólver, ganhavam chapéu de cowboy, cartucheira e insígnia de xerife.

Nas brincadeiras de “camone boy” (corruptela daquela frase recorrente em filmes de faroeste, “Come on, boy!”, “Vamos lá, garoto!”, dita dois segundos antes de o mocinho sacar a arma e detonar o bandido durante um duelo), todo mundo queria ser o mocinho (Zorro, Durango Kid, Wyatt Earp), alguns mais recalcitrantes aceitavam ser os bandidos, mas ninguém, absolutamente ninguém, queria ser um índio.

Dependendo do bandido a ser encarnado (Jesse James, Butch Cassidy, Gringo, etc), o sujeito podia ter uma sobrevida mais longa e escapar das emboscadas dos homens da lei.

Índio, não. Os índios sempre entravam pelo cano no final das aventuras.



De qualquer forma, o sonho de consumo de todos os meninos da minha idade, nos anos 60, era possuir um Forte Apache.

Com ele era possível simular situações em que os índios venciam os soldados da cavalaria e incendiavam o Forte Apache - coisa que nunca era mostrada no cinema.

Historicamente, o principal cenário dos combates entre os apaches e o Governo dos Estados Unidos era o território do Arizona.

Neste território, três fortes faziam a linha de frente no combate aos apaches: Forte Whipple, Forte Verde e Forte Apache

Os três fortes eram ligados por uma estrada denominada “Crooks’s Trail” em referência ao General Crook, por duas vezes comandante máximo do exército naquela região.

O Forte Apache foi ativado em maio de 1870 (teve outros nomes antes de se chamar “Apache”) e desativado em 1924.

Ao longo de seus 54 anos de atividade foi um forte onde se deu pouca ação e sem nenhum fator de destaque especial na história geral da conquista do oeste.

Era um forte sem paliçadas, como a maioria dos fortes do velho oeste.

Devido à sua localização geográfica, o Forte Apache possuía uma proteção natural representada por um rio e um pequeno vale, difícil de atravessar, que passavam em torno de uma boa parte do forte.

Afora isto, era um conjunto de casas de oficiais de um lado (officers’ row) e alojamentos de soldados, sargentos e cabos do outro, construídos em torno de um pátio de manobras denominado “parade ground”.

Atualmente o Forte Apache fica na reserva onde vivem parte dos remanescentes dos apaches e é aberto à visitação pública.

Nele restam, basicamente, as casas dos oficiais e o “parade ground”.

No local onde ficavam os alojamentos de soldados foram construídos prédios que abrigam uma escola.

O começo da mística


Em 1948, o diretor John Ford decidiu filmar uma trilogia em homenagem à cavalaria do exército dos Estados Unidos e seu papel na conquista do oeste.

Por razões desconhecidas, decidiu dar ao primeiro dos três filmes o título de “Fort Apache”. Evidentemente, a ação se passava em um hipotético Forte Apache.

O filme foi rodado no magnífico Monument Valley, que fica na divisa dos estados de Utah e Arizona, uns 500 quilômetros ao norte de onde ficava o Forte Apache original.

O filme foi um sucesso, é considerado um clássico, consagrou John Ford, ajudou a projetar a carreira de John Wayne, e até hoje é assistido por muitos em DVD e VHS. Evidentemente, o Forte Apache virou moda. O ator principal do filme era Henri Fonda.

Logo no início dos anos 50, a televisão americana lançou a série Rin Tin Tin, um sucesso que seria produzido ao longo de cinco anos, e que seria exibido nas televisões do mundo todo por décadas.

O cenário de Rin Tin Tin era o Forte Apache. Parece claro que a opção por passar a ação no Forte Apache ocorreu para pegar carona no sucesso do filme de John Ford.

Rin Tin Tin foi fundamental para impulsionar e eternizar na memória das crianças a mística do Forte Apache. O forte da série possuía paliçadas e é desta forma que iria fazer sucesso no mundo dos brinquedos.

Como uma coisa puxa a outra no mundo dos negócios, em 1952 a empresa americana Marx lançou o Forte Apache de brinquedo no mercado americano. Era o auge de Rin Tin Tin. Foi um estouro.


A Marx produziu modelos de plástico e de latão, mas nunca de madeira. As figuras que acompanhavam o Forte Apache da Marx eram sempre na cor do plástico, jamais pintadas a mão.

O forte era um conjunto de paliçadas encaixáveis, inspirado na série de TV. Poucos se preocupavam com o fato de o Forte Apache verdadeiro não possuir paliçadas.

Calcula-se que tenham sido vendidas em torno de 50 milhões (isto mesmo) de unidades de Forte Apache no mercado americano.

Diziam que não era possível reabastecer as prateleiras das lojas na mesma velocidade em que os consumidores adquiriam o produto nos anos 50, 60 e 70.

Hoje, o Forte apache não é mais produzido regularmente nos Estados Unidos, mas, de tempos em tempos, é lançada uma série especial para colecionadores.

O brinquedo Forte Apache foi, e ainda é, produzido no mundo inteiro. Em alguns locais a denominação apache foi mantida.

Na maioria das vezes, os fortes ganharam outros nomes como: Fort Worth, Fort Texas, Fort Cheyenne, Fort Cherokee, Fort Custer, Fort Oklahoma, Fort Grant, Fort Federal, etc.

No Brasil, o Forte Apache foi lançado em 1964 pela empresa Casablanca.


A Casablanca foi fundada pelo imigrante espanhol Mariano Lavin Ortiz, que aportou em terras brasileiras em 1959.

Antes disto, o Sr. Lavin já possuía uma fábrica de brinquedos na cidade de Madri, e já havia lançado o Forte Apache em terras espanholas.

A Casablanca foi instalada em um prédio de esquina, na Rua Madre de Deus, 627, em São Paulo (SP), e produziu o Forte Apache de 1964 a 1969, quando parou de atuar.

Na verdade, ninguém sabe o que aconteceu com a Casablanca e as razões pelas quais ela saiu do mercado.

No final de 1969, foi construída em São Caetano do Sul a fábrica de brinquedos Gulliver, que pertence à mesma família (filhos do Sr. Mariano) proprietária da Casablanca, e deu continuidade à produção do Forte Apache no Brasil.

Mas o fim da Casablanca permanece um mistério para os colecionadores do brinquedo.

Há uma tese relativamente corrente de que a Casablanca teria sido destruída por um incêndio, mas pesquisas nos arquivos da Folha de São Paulo indicaram não haver nenhuma notícia sobre a ocorrência deste sinistro.

Muitos dos antigos moradores da vizinhança da Casablanca se lembram da fábrica, se lembram dos produtos, mas nenhum se lembra da ocorrência de um incêndio, fato que teria com certeza marcado suas memórias.

O estado atual do prédio onde funcionava a Casablanca também evidencia que não houve destruição por fogo. Desta forma, o mistério persistirá – o que ocasionou o fim da Casablanca?

Até onde se sabe, a Casablanca nunca desenvolveu figuras próprias. Todas as suas figuras de faroeste eram baseadas em figuras de fábricas estrangeiras, tais como Elastolin, Reamsa, Jecsan, Comansi, entre outras.


O processo de produção de figuras era interessante. As figuras eram produzidas/injetadas nas instalações da Casablanca, e distribuídas para moradores da região (basicamente senhoras e, às vezes, famílias inteiras) que se encarregavam da pintura.

Essas senhoras não eram muito familiarizadas com faroeste e, no início, as figuras da Casablanca possuíam pinturas um pouco atípicas para o “velho oeste”.

Posteriormente, as figuras eram recolhidas para que, na fábrica, fossem embaladas junto com os demais componentes dos conjuntos.

Não se sabe quantas unidades de Forte Apache foram vendidas na época da Casablanca, mas é certo que o brinquedo foi um sucesso, transformou uma empresa iniciante num dos maiores fabricantes de brinquedo do Brasil, e levou-a a incomodar os líderes do mercado na época, como a Estrela e a Troll.

O Forte Apache da Casablanca foi o precursor de uma linha que se completou com a Caravana do Oeste, Fazenda Ponderosa, Acampamento Apache e Virgínia City.

As caixas dos sets Casablanca traziam coladas por dentro uma folha de papel amarelo onde era apresentada toda a linha de brinquedos de faroeste da marca.

A Casablanca possuía uma preocupação com detalhes. Desta forma, todas as figuras, cabanas, carroças, etc. eram numeradas e identificadas pelo nome nesta folha amarela. Por exemplo: 017 – Kid Kansas, 011 – Tenente Rip Masters, 125 – Buffalo Bill, 053 – Touro Sentado. Identificar as figuras fazia parte da brincadeira.

Em 1968, a Casablanca lançou aquele que é considerado o forte mais bonito de todos e, também, um dos mais difíceis de encontrar.

O produto inovou no visual, em relação aos modelos produzidos até então, que eram praticamente os mesmos desde 1964.

O Grande Forte Apache possuía duas guaritas de madeira ao lado do portão e era o que mais se aproximava do tradicional Forte Apache da série de televisão “Rin Tin Tin”.

Meu contemporâneo de Ida Nelson, Regilson Aguiar, irmão da Reni e da Renê, foi o primeiro moleque do bairro a possuir este modelo.

Sempre que podia, eu ia para casa dele, na rua Santa Isabel canto com a Urucará, me maravilhar com aquele brinquedo mágico.

Um cão pra chamar de seu


Pra quem já esqueceu, Rin Tin Tin era um cachorro pastor alemão que estrelou em várias séries e filmes, tornando-se muito conhecido na TV, principalmente no Brasil.

Supostamente, Rin Tin Tin teria sido descoberto por Corporal Lee Duncan, juntamente com outros filhotes de pastor alemão, que sobreviveram a um bombardeio fora de seu canil, durante a guerra em Lorraine, na França, durante a Primeira Guerra Mundial.

Duncan decidiu manter dois filhotes para ele, um macho e uma fêmea e os outros foram dados aos outros soldados americanos para lhe trazerem sorte.

O cachorro macho foi chamado de Rin Tin Tin e a fêmea de Nannette.

Duncan iniciou os treinamentos dos filhotes, atrás do acampamento militar e logo ficou impressionado com a inteligência e capacidade dos cães em aprender rapidamente as lições.

Quanto a guerra já estava entrando em sua fase final, Duncan trouxe os dois filhotes de volta para sua casa nos Estados Unidos, Los Angeles.

Infelizmente no retorno a fêmea Nannette acabou morrendo, mas Duncan continuou os treinos apenas com o macho, principalmente para ser apresentado em espetáculos onde conseguiu chegar ao cinema.

O primeiro Rin Tin Tin estreou como artista em 1922 tendo sua primeira aventura no cinema em 1923, no filme “Where The North Begins”, quando ele contracenou com a atriz do cinema mudo Claire Adams.

Com esse e outros filmes o cão se tornou um astro da Warner Brothers, rivalizando em popularidade com o ator John Barrymore.

A série televisiva mais famosa, exibida originalmente entre 1954-1959, num total de 164 episódios e intitulada “As Aventuras de Rin Tin Tin”, era ambientada na segunda metade do século 19, pouco depois de terminar a Guerra de Secessão.


Ela contava a história do menino Rusty e seu cão que perdem suas famílias em um ataque dos índios apaches.

Eles são salvos pela patrulha do Tenente Rip Masters que decide mantê-los no Forte Apache sob sua tutela tornando Rusty o cabo do Forte e uma espécie de mascote da corporação.

A partir daí, o menino Rusty e seu cão Rin Tin Tin vivem várias aventuras ao lado da patrulha enfrentando bandidos, índios, ex-soldados sulistas dispersados e contrabandistas de whisky.

Entre os militares tínhamos o atrapalhado Sargento O'Hara, o Cabo Boone, o Major Swanson e o Coronel, interpretado por John Hoyt.

Sempre que havia algum problema e Rusty necessitava da ajuda de seu amigo canino ele gritava “Yo ho Rinty!” e Rin Tin Tin aparecia para os ajudar.

A série de TV seguiu os cânones tradicionais do gênero western, com muita ação e impacto. Cada episódio durava três dias de filmagens.

Segundo a lei americana não era permitido que uma criança trabalhasse mais de quatro horas diárias, com isso a produção enfrentava um grande problema já que a maior parte das cenas da série eram com o ator mirim Lee Aaker.

No seriado, Rin Tin Tin foi interpretado por três cães, onde o mais conhecido deles era Júnior, responsável por todas a cenas gravadas com os atores.


Júnior era o cão que aparecia publicamente e participava das seções de fotos, mas os diretores tinha dificuldades de mantê-lo calmo em cenas onde ele teria que atuar ao lado de cavalos, e assim os produtores conseguiram um cão apenas para as cenas em que Rinty corria ao lado da cavalaria.

O terceiro cão, chamado de Hey You, realizava as cenas de luta, mas não podia ser filmado em close pois tinha um problemas nos olhos.

A tribo de índios apaches ganhou notoriedade em função de filmes de sucesso como o já citado “Fort Apache” e, principalmente, pela série de televisão “As Aventuras de Rin Tin Tin”.

Embora outras tribos norte-americanas talvez tenham aspectos mais relevantes do ponto de vista da história dos Estados Unidos, os apaches são mais “famosos”.


Cochise (foto), Gerônimo e Mangas Coloradas foram chefes apaches que se notabilizaram pela bravura e coragem em defender seus territórios.

Os apaches foram a última tribo a se render oficialmente ao governo americano em 1886 (embora os sioux/ dakota tenham enfrentado o exército pela última vez em 1890 na batalha de Wounded Knee).

Como já foi dito, o sucesso da série de brinquedos da Casablanca iniciou com o Forte Apache, mas logo o público consumidor precisou de novos conjuntos que pudessem ser integrados nas brincadeiras, ampliando o universo possível de aventuras.

O Acampamento Apache veio nesta linha e se tornou um grande sucesso, mas acabou por fazer uma série de confusões históricas. O novo brinquedo trazia no conjunto chefes de outras tribos, como os sioux Touro Sentado e Cavalo Louco.

Os índios do Acampamento Apache utilizavam tanto roupas apaches como roupas de outras tribos inimigas, incluindo moicanos e cherokees.

As tendas não eram do modelo efetivamente utilizado pela tribo apache (1ª foto abaixo), mas pelos índios cheyennes e sioux (2ª foto).





O acampamento tinha um totem, objeto característico das tribos mais do norte dos Estados Unidos, como os iroqueses e os algonquinos.

Os apaches povoaram as planícies na parte central e no sudoeste, nos atuais territórios do Arizona, Colorado e Novo México.

Em seu auge a linha de faroeste da Casablanca possuía os seguintes produtos: Grande Forte Apache, feito de madeira, com 35 figuras, e Forte Apache, de plástico, com duas guaritas de plástico e 41 figuras.






O Acampamento Apache possuía 34 figuras, onde se destacavam os índios Urso Alto, Falcão Negro, Coiote Cinzento, Alce Veloz e Flecha Vermelha. Formado por cinco cabanas, o conjunto possuía uma base circular de papel que simulava o terreno e um rio.





A Caravana do Oeste possuía cinco carroças de madeira e 61 figuras, entre cowboys que defendiam o comboio e índios que o atacavam. As carroças possuíam caixas e sacos de suprimentos.





A Fazenda Ponderosa, a mesma do seriado Bonanza, era montada sobre uma base simulando uma pradaria e continha, entre outras figuras, casa, cercas, moinho, poço e animais.







E, finalmente, Virgínia City, o maior e mais caro conjunto lançado pela Casablanca.

Era uma cidade do velho oeste, com várias casas de madeira, incluindo banco, saloon e delegacia. Possuía, também, uma diligência e 45 figuras.





Uma delas era o pistoleiro Jesse James com um lenço sobre o rosto, um saco de dinheiro em uma mão e um revólver na outra.

Outra era o xerife Wyatt Earp com um revólver em cada mão.

Sem grana para comprar os conjuntos originais, a gente se virava com as figuras avulsas vendidas na Lobrás e nas livrarias Escolar, Acadêmica e Colegial.



Cheguei a possuir quase 50 figuras, entre cowboys, índios montados em cavalo e soldados da Cavalaria – metade delas roubada das lojas.

Sim, homeboys, aprender a roubar figuras do Forte Apache fizeram parte do aprendizado da minha geração.

O fascínio pelo velho Oeste era quase uma doença.

Havia dezenas de gibis à nossa disposição: Zorro, Buck Jones, Kit Carson, Don Chicote, Rocky Lane, Flecha Ligeira, Durango Kid, Gunsmoke, Bonanza, Cavaleiro Negro, Buffalo Bill, Cheyenne, Wyatt Earp, Roy Rogers, Reis do Faroeste, Aí, Mocinho!, Billy The Kid, Tex, Davy Crockett e muitos outros.

Não bastasse isso, o Cine Ipiranga começou a exibir centenas de filmes dedicados ao gênero.

Em pouco tempo, os pistoleiros Django, Ringo, Sartana, Gringo, Sabata, Keoma, El Cisco, Pecos, Arizona Colt, Navajo Joe, Trinity e El Condor já eram tão familiares quanto os atores que lhes davam vida nas telas do cinema, como Franco Nero, Giuliano Gemma, Lee Marvin, Lee Van Cleef, Terence Hill, Bud Spencer, Jack Palance, Clint Eastwood, Burt Reynolds e outros.

Os conservadores de hoje (os ditos “politicamente corretos”) devem roer as unhas, ter faniquitos e pedir sais aromáticos ao saber que a minha geração era fascinada pela cultura americana – notadamente pela pulp fiction, onde habitavam os gibis –, mas essa é a mais pura verdade.

Não me lembro de nada mais divertido, em 1969, do que aproveitar uma tarde de temporal violento para colocar meus guerreiros sioux enfrentando as corredeiras que se formavam nas sarjetas da rua Borba, tendo como parceiros de gandaia Mário Adolfo, Luiz Lobão, Becão e Renner.

Mesmo se divertindo a tarde inteira naquelas águas imundas, a gente não pegava nem “frieira”, quanto mais uma gripe.

Hoje em dia, basta um moleque de 12 anos receber três pingos de chuva no cocoruto para ser levado a um PSA, onde será submetido a inalação e a uma dose maciça de analgésicos, antipiréticos e descongestionantes nasais.

Se, em vez de videogames e outras viadagens, tivessem aprendido a brincar descalço na terra com as figurinhas do Forte Apache, nada disso aconteceria. Palavra de um especialista.

'Não consigo mais me associar ao Led Zeppelin', diz Robert Plant


O cantor Robert Plant parece mesmo não mais disposto a reviver os velhos tempos à frente do Led Zeppelin.

Em entrevista ao site da revista norte-americana Rolling Stone, o ex-vocalista da banda se diz incomodado com a insistência dos fãs, que querem a banda reunida mais uma vez.

A última vez que isso aconteceu foi no dia 10 de dezembro de 2007, no palco do O2 Arena, em Londres, num show para cerca de 20 mil pessoas.

“Foi uma noite incrível por tudo o que representou e por tudo o que estávamos tentando capturar. Mas (depois) fui tão distante em outra direção que quase não consigo mais me associar àquilo... É um pé-no-saco, para ser honesto. Sei que as pessoas se importam, mas pense nisso do meu ponto de vista. Logo vou precisar de ajuda para atravessar a rua”, declarou o cantor à publicação.

Em setembro do ano passado, Plant lançou “Band of joy”, elogiado projeto que contou com músicos de country e folk norte-americanos.

A música caipira norte-americana tem sido uma influencia importante para o cantor, que lançou um premiado álbum de bluegrass ao lado da cantora Alison Krauss em 2007.

Confira abaixo uma apresentação dos dois:

Nova banda de Liam Gallagher lança primeiro single em fevereiro


O Beady Eye, novo grupo de Liam Gallagher, ex-Oasis, lançará seu primeiro single no dia 21 de fevereiro. A música escolhida é “The roller”.

A faixa faz parte do álbum de estreia do Beady Eye, “Differente gear, still speeding”. O disco tem lançamento previsto para o dia 28 de fevereiro.

Apesar de este ser o primeiro lançamento comercial do Beady Eye, outras duas canções já foram divulgadas pela web: “Bring the light” e “Four letter word”, que ganhou um clipe.

“Different gear, still speeding” terá 13 faixas ao todo. Quem assinou a produção do trabalho foi o músico Steve Lillywhite, famoso por suas colaborações com a banda irlandesa U2.

Esse novo projeto musical de Gallagher conta com a participação dos músicos Gem Archer, Andy Bell e Chris Sharrock, com os quais Liam já trabalhou no Oasis.

Eles começaram a se reunir em maio, após o Oasis anunciar seu fim em agosto de 2009.

Na época, Liam e seu irmão Noel brigaram antes de um show em Paris.

Os primeiros shows da Beady Eye serão realizados a partir de março de 2011.


Polêmico como sempre, Liam Gallagher declarou no mês passado que os integrantes da sua nova banda são “sem dúvida” melhores que os do Oasis.

“Realmente posso fazer mais coisas sem o antigo grupo. Me sinto muito mais livre”, afirmou o artista britânico durante entrevista à revista especializada NME para promover seu último trabalho.

Liam anunciou que algumas das músicas do álbum têm certa conexão com “Definitely Maybe”, o projeto de estreia do Oasis.

“Estou cantando como sempre fiz e acho que as melodias são tão boas como Definitely Maybe, se não melhores”, opinou o músico.

Ele também garantiu que não há a menor chance de o Beady Eye incluir músicas do repertório do Oasis durante suas apresentações ao vivo.

Beady Eve apresentou sua primeira canção do disco, “Bring the light", em novembro do ano passado através do site da banda, onde qualquer usuário podia baixar o arquivo gratuitamente.

Abraços, lágrimas e inéditas: o que esperar dos shows de Amy no Brasil


Braulio Lorentz
Do G1, em São Paulo

Graças a um histórico de atitudes imprevisíveis e shows cancelados de última hora, é sempre difícil prever o que sairá das cinco apresentações de Amy Winehouse em sua turnê brasileira - que começa neste sábado (8) em Florianópolis e passa por Rio (10 e 11), Recife (13) e São Paulo (15).

Trata-se da primeira sequência de shows da inglesa após dois anos de apresentações curtinhas e canjas em palcos alheios aqui e ali, quando tentava se recuperar do vício em drogas e álcool em um resort no Caribe.

Com base em episódios anteriores, o G1 elaborou uma lista do que é possível esperar das performances da diva pelo país. Confira:

Auto-abraços

No dia 16 de dezembro do ano passado, durante seu primeiro show mais encorpado em muito tempo, na Rússia, a cantora passou boa parte das músicas se abraçando, fazendo cara de carente.

Covers quase confirmadas

Regravação da banda britânica de indie rock The Zutons, “Valerie” geralmente aparece perto do fim do show. Outro cover que não deve sair de seu repertório, “Cupid” mostra a devoção de Amy ao cantor americano Sam Cook (1931-1964), que ganhou a alcunha de “rei do soul”.

Covers com menos chance

Vez ou outra, Amy inclui no set list canções de outros artistas: como uma versão arrastada de “Don't look back in anger”, do Oasis, e “Doo wop (that thing)”, de Lauryn Hill.

Chororô aplaudido

Quando cantou “Love is a losing game” no Rock in Rio Lisboa em maio de 2008, Amy repetiu a cena já vista em outros festivais: chorou compulsivamente e foi aplaudida pela plateia. Ela também apareceu quase sem voz no Rock in Rio Madri, em julho.

Mais lágrimas

Outra que pode render momentos emotivos, “Tears dry on their own” tende a ser deixada para o início de suas apresentações.

Versão brasileira

Em junho de 2010, Amy cantou com o músico brasileiro Rodrigo Lampreia em um pub londrino chamado Jazz After Dark. Na ocasião, provou que sabe a letra de “Garota de Ipanema”. Não seria surpresa ouvir um trecho da canção nos shows.


Esqueceram de mim

Em outra canja no ano passado, em julho, Amy surgiu no show de Mark Ronson (produtor do seu disco “Back to black”, de 2007). Cantou “Valerie” sem muito susto, mas ficou muda em várias partes da letra, nitidamente por tê-las esquecido. Não estranhe se ela ficar olhando para os músicos entre uma rateada e outra, em busca de pistas sobre as letras das músicas.

Cabo de guerra capilar

Aconteça o que acontecer, não ouse puxar o cabelo de Amy. Quem agarrou as madeixas da cantora se arrependeu no ato, durante apresentação no festival inglês Glastonburry, em 2008. Embora pacata na maioria das vezes, Amy distribuiu socos discretos na fã que meteu a mão onde não foi chamada, durante o hit “Rehab”.

Reggae night?

Os backing vocals Zalon e Hemisha já avisaram pelo Twitter que canções novas fizeram parte dos ensaios. Após ter músicas recusadas por sua gravadora, por serem reggae além da conta, a cantora diz estar preparando uma nova leva mais parecida com os primeiros CDs. Faixas do pacote reggae e do “mais jukebox”, nas palavras dela, podem aparecer. “It's my party”, de Lesley Gore, gravada para o tributo ao produtor Quincy Jones, é outra possível novidade.

Amy Winehouse no Brasil

Florianópolis
Quando: 8 de janeiro
Onde: Summer Soul Festival, no clube Pacha - Rod. Maurício Sirotsky Sobrinho, 2500, Jurerê Internacional
Quanto: R$ 100 a R$ 600

Rio de Janeiro
Quando: 10 e 11 de janeiro
Onde: HSBC Arena - Avenida Embaixador Abelardo Bueno, 3401, Barra da Tijuca
Quanto: R$ 180 a R$ 700 (os ingressos para o show do dia 11 estão esgotados)

Recife
Quando: 13 de janeiro
Onde: Centro de Convenções de Pernambuco - Avenida Professor Andrade Bezerra, s/n, Salgadinho
Quanto: R$ 200 e R$ 300

São Paulo
Quando: 15 de janeiro
Onde: Arena Anhembi - Avenida Olavo Fontura, 1209, Santana
Quanto: R$ 200 e R$ 500

É bonito isso!


O artista Harwinder Singh Gill, de Amritsar, na Índia, exibe uma mensagem de ano novo especial. Ele esculpiu as pontas dos lápis coloridos e fez uma pequena obra prima. O sujeito deve ter tido uma paciência de Jó, mas valeu a pena.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Machões de Internet

Carlos Cardoso

Na Internet todo mundo é macho, todo mundo xinga muito, faz e acontece. O cidadão do vídeo abaixo fazia o mesmo. Posava de membro de gangue no Facebook, sou radical, tenho street cred, motherfucker!

Problema: O tio dele sabe o complicado que é levar uma vida honesta enquanto boa parte do país já te vê como bandido por ser da cor errada. Tudo será duas vezes mais difícil, e a última coisa que precisam é autosabotagem, idiotas glorificando postura criminosa.

O sujeito exemplou o sobrinho de forma muito bem exemplada. Vejam como se comporta na vida real um machão de internet, membro de gang, copkiller, badass nigga, bla bla bla:

Russan baby yoga

E ainda tem gente que não sabe porque que o movimento hippie não deu certo...

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Relembrando o Studio 54


Se você não está lembrado, dá licença, vou contar: o símbolo da onda disco foi um night-club nova-iorquino localizado na 54th West Street, de Manhattan, que ficou conhecido mundialmente como Studio 54.

O clube funcionou de 1977 a 1980 e o negócio era chegar no pedaço, invariavelmente, vestido (ou despido) para matar, porque lá dentro sexo, drogas e disco music eram de lei .

“Até quando vou ter que pedir desculpas por ter ido ao Studio 54?”, desabafou certa vez, para a revista Billboard, uma muito invocada Bianca Jagger tentando, definitivamente, colocar um ponto final na sua fama de doidivana e “arroz-de-festa”.


Ok, dona Bianca pode hoje ser uma muito comportada senhora, politicamente correta e articulada, com um olho – para não dizer os dois – na presidência da república de seu país natal, a Nicarágua.

Mas, voltando no tempo 33 anos, a eterna ex-sra. Mick Jagger era, por assim dizer, a alma dos embalos do Studio 54.

Até hoje, o Studio 54 e seu tempo respondem por nossas memórias mais remotas de cultura noturna, uma era de hedonismo, de uma sociedade sem culpas, sem perigos.

Na década de 70 vivia-se pós-pílula e pré-aids, quando libertinagem não trazia problemas para ninguém – muito pelo contrário.

A moda completava o vale-tudo e a comunidade gay começava a sair de seu closet (armário).

As “celebridades de um nome só”, como se convencionou chamar a geração de Calvin (Klein), Andy (Warhol), Liza (Minelli), Jerry (Hall) e Halston (Halston mesmo), eram os protagonistas de esbórnias e loucuras que deixariam o mais desvairado clubber de hoje morto de inveja.

Essas imagens chegavam às revistas e se inscreveram em nosso imaginário: o que dizer de Bianca Jagger montada num cavalo branco em sua festa de aniversário?


Foi um garoto suburbano de Queens, Nova York, chamado Steve Rubell que, junto com um amigo, Ian Schrager, e uma promoter ultraconectada, a peruana Carmem D’Alessio, criou o Studio 54. A casa foi um sucesso desde o início.

Nas mãos dos dois ambiciosos empresários, o chão de madeira de um antigo estúdio da emissora de TV CBS virou o palco para a celebração dos novos valores.

Steve Rubell era a parte visível do clube, o proprietário que concebia a baderna e ficava na porta, em pé sobre o hidrante na calçada, selecionando as pessoas que entravam para trás da corda de veludo, num procedimento cuja fama ganhou o mundo.

Muita gente apenas ficava ali, olhando as celebridades chegarem de limousine.

Ian Schrader era o produtor de tudo, o executivo que fazia as coisas acontecerem.


Carmem D’Alessio era responsável pela contratação dos go-go boys e bartenders, que atendiam a clientela de sexo, entre homens e mulheres.

Cocaína, maconha, comprimidos de quaalude, os inalantes “poppers” e gás hilariante, junto com muita bebida, eram as drogas “oficiais” do clube, que tinha como verdadeira sala VIP o seu despojado porão, tão grande quanto a parte aberta ao público. A loucurama pesada rolava ali.

E se as músicas que se tornaram marcos da era disco tocavam no clube, não era graças a ela que as pessoas iam, mas pelo clima de Sodoma & Gomorra high tech que rolava no pedaço.

A curtição para dançar ouvindo boa música acontecia mesmo era em outro clube, o Paradise Garage, onde Larry Levan instalava os fundamentos do culto ao DJ para uma pista literalmente em transe.

Mesmo assim, Sylvester, Evelyn Champagne King, Donna Summer e Was Not Was reinavam sob a luz estrobo do Studio 54, junto à decoração em néon da lua cheirando uma colher de cocaína, que subia e descia na pista. Diversão hardcore para adultos.

A festa parecia não ter data para acabar até que o fisco norte-americano colocou um ponto final na brincadeira.

Em 14 de dezembro de 78, trinta agentes entraram no clube e encontraram no porão sacos de lixo cheios de dinheiro, cocaína e notas fiscais escondidas.

Estimava-se que o Studio 54 dava US$ 70 mil por noite e que seus donos já haviam sonegado US$ 2,5 milhões.

Rubell e Schrager foram presos, pagaram fiança de US$ 50 mil cada e saíram no dia seguinte. Em janeiro de 80 foram finalmente condenados a três anos e meio de prisão.

A 2 de fevereiro, o clube fechou. Liza Minelli cantou “New York, New York” na festa de despedida. Foi o canto do cisne da era disco.

Rubell, que andava mal da cabeça, sob efeito de excesso de drogas, foi uma das muitas vítimas da aids, e acabou morrendo em 1989, em Nova York (dizem que a cidade nunca mais foi a mesma depois da epidemia).

Schrager é hoje um bem-sucedido empresário hoteleiro (Paramount e Delano, entre outros).

A peruana Carmem D’Alessio continua trabalhando nesse ambiente de discoteca e hoje promove a Life, um dos melhores clubes noturnos de Nova York, que tem um momento dedicado à música disco todas as noites.


Além de Bianca Jagger, um outro quarteto da pesada contribuiu para colocar o Studio 54 em todas as mídias da época, do underground chique (Elle, Vogue) ao mainstream mais conservador (Time, Newsweek).

O capitão de equipe era o artista plástico Andy Wharol, verdadeira lenda viva e superestimado como o papa do pop. Andy transformou trash, frivolidade, tédio e autopromoção em arte conceitual. Ele morreu de complicações pós-operatórias em 1987.


Na cabeça-de-área atuava Halston, considerado “o” estilista da América nos dias em que Calvin Klein gastava mais tempo nos folguedos gays de Fire Island do que atrás do balcão da lojinha. Um fiel séquito acompanhava Mr. H. por toda a parte. Eram os Halstonettes. Ele morreu de aids em 1986.


Como beque de apoio, atuava Truman Capote, escritor maldito e homossexual assumido, com uma obra-prima (“A Sangue Frio”) no currículo. Suas noitadas no Studio 54 foram o canto do cisne. Morreu em 1984.

Na zaga, plantada e travada como sempre, Liza Minelli, cantora, atriz, estrela, diva e perua em tempo integral. Não, ela ainda não morreu.

No dia da inauguração do Studio 54, em 1977, o título da reportagem publicada pelo jornal USA Today perguntava: “Studio 54, onde fica isso?”.

Naquela manhã, a casa ainda era mais uma entre as dezenas de clubes que abriam em Nova York com a expectativa de fechar meses depois.

Por volta de 23h, quando todos os repórteres chegaram para a inauguração, a certeza do fracasso era tão grande que eles esperaram apenas meia hora, viram uma dúzia de pessoas perdidas no que, para a época, era um espaço enorme, e foram embora.

Uma hora depois, foram chamados de volta por seus editores: o Studio 54 estava lotado. Frank Sinatra e Warren Beatty ficaram de fora, não conseguiram entrar.


Em certo momento, o empurra-empurra da fila de entrada era tão grande, as pessoas estavam tão coladas umas às outras, que, para aproveitar melhor a situação, os homens resolveram colocar seus pênis para fora da calça e as mulheres fizeram o mesmo com seus seios.

O strip-tease e a esfregação na fila de entrada ganhou a primeira página de todos os jornais.

Desde então – e não só nos dois anos em que o clube ficou aberto, até seus proprietários, Steve Rubell e Ian Schrager, serem presos por evasão fiscal –, o Studio 54 é considerado o maior clube noturno de todos os tempos.


Freqüentava a discoteca todo mundo que importava. E isso em Nova York.

De Liz Taylor a Brooke Shields, de Moshe Dayan (primeiro-ministro de Israel) a Jackie Kennedy, de Gina Lollobrigida a Gloria Swanson (estrela do cinema mudo), de O.J. Simpson a Diana Vreeland, de Bianca Jagger a Truman Capote, de Rod Stewart a Dolly Parton e até Michael Jackson.

Liza Minelli, Halston, Yves Saint Laurent, Paloma Picasso, Anjelica Huston, Jerry Hall, Lauren Hutton, Iman, Diana Ross, Farrah Fawcett, Calvin Klein, David Geffen, Deborah Harry, Margaux Hemingway, Gia Carangi e René Russo também eram habitués.

Todo mundo da Factory de Andy Warhol ia lá, incluindo o próprio Warhol. Quando ele não ia, na manhã seguinte estava ao telefone perguntando quem tinha ido. Para quem não estava quando ele estava, dizia que tinha sido “a melhor noite de todas”.


A cocaína era a droga que deu o tom do Studio 54 e dos anos 70 como um todo. A decoração da casa já entregava tudo: uma lua cheirando sobre uma colher pairava sobre a pista.

Comprimidos de “quaalude” eram distribuídos à chegada, por Rubell. No restrito porão, comprava-se cocaína livremente. Andy Warhol não cheirava cocaína: consumia speed, mais em alta entre os membros da Factory.

Aí, você, que é recém-chegado (leia-se nascido em algum lugar entre 1975 e a transmissão do primeiro episódio de Dallas) mas sai toda noite para balançar o esqueleto, pergunta: “e o que é que eu tenho a ver com isso?” Resposta: tem tudo a ver.

Sim, porque no Studio 54 tiveram início, ou chegaram ao mainstream, alguns dos fundamentos do que hoje conhecemos por cultura clubber.

Primeiro que não tinha essa de chegar assim, na maior, e ir entrando, como era comum nos outros clubes noturnos da cidade. Também não adiantava bater na bilheteria para comprar ingresso, que isso não existia.

Você tinha que passar pelo teste da “door policy”, ou seja, precisava ser uma celebridade (rico, famoso, ou simplesmente “da noite”), estar “montado” (isto é, vestido barbaramente, seja lá o que isso signifique), o porteiro te conhecia ou ia com a tua cara e então “tava limpo e liberado”. Caso contrário, bye-bye.

Era o porteiro (na verdade o dono da casa ou um preposto seu, depois batizado de “hostess”, “anfitrião”) que decidia quem entrava ou não. Uma multidão ficava na porta, todas as noites, implorando para entrar.

Foi nesse clima que surgiu o “the velvet rope”, aqueles cordões de veludo vermelho que servem de “porteira” de night-clubs até hoje.

No Studio 54, ultrapassar aqueles limites significava fazer parte da “the in crowd”, ou seja, da multidão “por dentro”, do povo do “babado”, da turma que realmente contava.


Dentro do clube, o espírito era de Sodoma e Gomorra, porque o mundo de sexo, drogas e dance music girava a mil por hora e ninguém era de ninguém.

Hétero, gay, bissexual, valia tudo. A ordem era pegar alguém.

Havia gente sobre os balcões dos bares, nas escadas de incêndio e, principalmente, nas históricas orgias do porão, onde a imprensa era proibida de entrar.

Os rapazes do bar faziam às vezes de go-go boys, dançando alegremente ao entregar as bebidas.


Numa festa para Halston, foi montada uma pequena Pequim, com as pessoas mais importantes sendo carregadas em liteiras.

Na festa de Dolly Parton foi recriada uma fazendinha, com porcos e ovelhas vivos.

No aniversário de Bianca Jagger, produzido por Halston, um homem pintado de purpurina prateada cavalgava um pônei, junto a Bianca como uma Lady Godiva.

Já no aniversário do estilista Valentino, foi instalada uma arena de circo com areia e tudo, com sereias em trapézios em figurinos emprestados por Fellini.

No aniversário da socialite Carmen D’Alessio, uma brigada dos Hell’s Angels acelerava suas motos de dentro da pista.

No aniversário de Elizabeth Taylor em 78, o bolo era um enorme retrato da atriz – o qual ela cortou a primeira fatia sobre seus seios.


O atualmente badalado ecstasy já estava lá, claro, mas era conhecido por MDMA.

Na verdade, outras drogas eram mais populares, como o angel dust (hoje Special K) e o quaalude (potente anfetamina), além dos poppers, aquele líquido que, quando aspirado, alucina quem está dançando ou transando – o ar do clube ficava impregnado pelo aroma no final da noite.

Para se ter uma idéia da loucura, as reuniões de diretoria do Studio 54 eram defumadas com um baseado gigante, da mais legítima “kaya” jamaicana, o nosso popular “dirijo”.

Certa noite, Diana Ross foi cantar na cabine do DJ. Começou: “I’m coming up...” e, cataplum, caiu pra trás, morta de loucaça.


Mas há outros lances que fizeram a fama do Studio 54 e que agora fazem parte de qualquer cena clubber do novo milênio.

Público Mix: “O Studio 54 era hetero, homo, bi... Era tudo!”, segundo Egon Von Furstenberg, príncipe, socialite e bafonzeiro.

Barbies: Sim, os garotinhos que transavam com garotinhos também já estavam lá. Só que tinham mais cabelo (na cabeça, rosto e torso) e a maioria trabalhava como bartender, garçom, michê ou as três coisas juntas.

After Hours: A noite, claro, não acabava. Os clubs after hours (e after Studio 54, que apresentavam “late-late-late” shows) estavam no Meat District nova-iorquino e ficavam abertos até o meio-dia.

Chill-Out: Alguns eram muitos concorridos. Chez Halston, por exemplo, o próprio e Bianca costumavam ir para a cozinha preparar o breakfast.

Perfumes: Numa era pré-CK-One e Be, o cheiro delas era Opium, de Saint-Laurent, hoje aroma de perua. O deles era Halston 1-12, hoje raridade.

Grifes: Homens e mulheres, bis e homos, caretas e descolados, toda a turma, sem exceção, ia de Halston, Gucci e Fiorucci, como está documentado na música “He’s The Greatest Dancer”, das Sisters Sledge.

Publicação: Vanity Fair ainda não havia ressuscitado, então sabia-se tudo sobre as noites do Studio 54 no “Andy Warhol’s Interview”, cuja encarnação atual não tem um pingo do charme e do wit daquela. Yes, nós, aqui do Brazuca, também tínhamos Interview, que acompanhou a linha do original até 1980. Ambas (matriz e filial) são itens de colecionador.


Musa: Margaret Trudeau. Quem??? Isso mesmo, a ex-mulher do então primeiro-ministro canadense Pierre Trudeau. Entre outras coisas, Margaret teve um caso muito fotografado com Ryan O’Neal e uma noite foi clicada sentada no chão do Studio. A saia subiu e revelou que ela estava... sem calcinha. Por onde andará? A calcinha não, Madame Trudeau.

Top Models: Jerry Hall, Margaux Hemingway, Lauren Hutton, Iman (“O 54 era ótimo, mas ainda bem que acabou”), Rene Russo, Debbie Harry, Gia, Dalma...

A deusa de ébano Iman hoje atende por sra. David Bowie.

O filme “Gia: Fama e Destruição”, mostrando a ascensão e queda da modelo Gia Carangi (e que, de certa forma, radiografa aquele período) pode ser encontrado em qualquer videolocadora decente.

Rene Russo é uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood.

A ex-coelhinha Debbie Harry virou a louraça belzebu da banda Blondie.

Veículo: Black limousine. Or nothing.

Unsafe Sex: Quem iria se preocupar com sexo seguro numa época daquela, onde todo mundo queria trepar com todo mundo? Aids? Ninguém sabia do que se tratava. Camisinha? Apenas um anticoncepcional antiquado.

Então, quem subia para o balcão ou sumia em um dos cantos escuros do clube mandava ver. Valia tudo. Principalmente homem com homem e mulher com mulher.


Mas, como se sabe, a nostalgia é inimiga da memória. Em poucos anos, a atitude de “os anos 70 foram a pior época para a música” virou “nada se compara às festas e ao som dos 70”.

A intensidade com que a década tem inspirado filmes como “Studio 54”, “Last Days of Disco” e “Boogie Nights”, bem como um revivalismo de black music nos clubes atuais, a telessérie “That 70's Show” (na Sony) e os planos recorrentes da TV Globo de produzir um remake de “Dancin’ Days, traduz um tom saudoso de quem acredita recordar-se como era bom cair na gandaia antes da era da aids.

O filme símbolo da década, “Embalos de Sábado à Noite”, guarda hoje conotação politicamente incorreta.

Tony Manero, o personagem de John Travolta, a certa altura do velho filme recusa-se a transar com uma menina porque ela traz camisinhas. Os tempos realmente eram outros.

Sexo e drogas eram uma combinação compulsória. A cocaína, droga da moda dos anos 70, ajudava a dançar como se não houvesse amanhã.

Os funcionários das grandes discotecas eram escolhidos pelo corpo bonito e disponibilidade sexual.

Vivia-se uma grande orgia, ensina o clichê que transformou o Studio 54 em mito.

Parece diferente de agora, não? Mas é engano acreditar que isso era corriqueiro e estendido a todos.

A grande falácia dos anos 70 foi a dita democratização das pistas de dança.

Dizia-se que as discotecas acabariam com os ídolos, transformando o público das pistas nos verdadeiros astros da noite.

O fim do filme Studio 54, com fotos de socialites e famosos, reflete melhor o que foi a badalação das discotecas.

As discotecas ajudaram a conceber uma nova elite, que nos anos 80 ganhou o nome de yuppie.

Na época, era o jet set, gente como Mick e Bianca Jagger, que pegava um jatinho em Londres para dançar em Nova York.

Ajudava a entrar na turma ser amigo de Andy Warhol, mentor da revista que ditava o colunismo social dos novos tempos, a Interview.

O Studio 54 tinha dois ambientes para evitar que a elite se misturasse ao povão.

Na verdade, o apartheid começava já na porta, pela door policy e o dress code, nomes pomposos que significam apenas uma coisa: pobre não entra.

Também se fala muito sobre a integração promovida pela disco music, entre o público negro, gay e branco.

Em 1975, a revista Rolling Stone estimou que existiam duas mil discotecas abertas nos EUA, das quais 300 ficavam na região de Nova York.

Cada casa tinha seu próprio perfil, baseado no status social de seu público-alvo – na prática, era uma segregação declarada.


As gay discos ficavam no West Village, as black discos voltavam-se para a classe média negra (Leviticus e Otello), os ricos e colunáveis não saíam do Regine's, The Gallery e Studio 54, enquanto os brancos trabalhadores tinham discos localizadas no Brooklyn, Queens e New Jersey, comandadas por DJs de descendência italiana.

Existiam, é verdade, discos negras para a população de baixa renda, mas mesmo nelas reinava o código do vestuário. Só entrava quem tinha terno e gravata. Tênis, nem pensar.

E a bebida de preferência não era cerveja, mas conhaque e uísque, consumidos para acompanhar a cocaína.

Apesar disso, a música que tocava nas discotecas era considerada black music.

Em boa medida, porque o estilo surgiu numa gravadora negra, a Philadelphia International, e era geralmente cantada por uma disco diva negra. Mas, em pouco tempo, essa identidade perdeu-se.

Bee Gees e Abba, para ficar em dois exemplos, eram loiros.


Giorgio Moroder, criador dos hits de Donna Summer, um europeu.

E quando Hollywood resolveu filmar a cena, escolheu John Travolta para viver um dançarino de descendência italiana do Brooklyn.

Até os roqueiros britânicos Rod Stewart, Paul McCartney, David Bowie, Elton John e os Rolling Stones gravaram disco music no fim da década de 70.

A alternativa à disco era o desemprego. Milhares de artistas obscuros foram lançados no mercado.

A loucura produziu alguns dos piores LPs de todos os tempos.

Disco music passou a ser vista como algo pejorativo.

Como o gênero dominava as rádios negras, por extensão também a black music passou a ser considerada inferior.

Foi quando veio o punk e o heavy metal para diferenciar ainda mais as classes e as raças dos adolescentes – o rock virou música de branco pobre.

As rádios mais atentas usaram o ódio à disco music para aumentar sua audiência. Entre os slogans criados no período estavam promessas de “um fim de semana inteiro sem disco music”.


Numa promoção de uma rádio de Chicago com o time de beisebol White Sox, em 1979, os fãs ganharam direito de ver uma rodada dupla do campeonato ao levar um LP de disco music para ser destruído no estádio. Doze mil discos foram explodidos.

Hoje, house, trance e techno reinam nas novas discotecas.

A idéia de uma música sem ídolos gerou o culto aos DJs, a segregação ganhou o nome de segmentação, a cocaína virou ecstasy, astros de rock encomendam remixes dançantes e a nova elite, agora chamada os modernos, continua amiga dos colunistas de plantão e freqüentando o espaço vip dos clubes para distanciar-se do povaréu.

O bom de conhecer a história é perceber como o Studio 54 ainda passa fundamentos para a cultura clubber.

Para tratar uma recaída de nostalgia da discoteca, é só ir dançar num club de hoje.

Mas com camisinha no bolso, porque pelo menos uma coisa mudou.

Curtindo a vida adoidado


Aproveitando as férias do curso de mestrado em Design, o vascaíno Marcus Vinicius me avisa que voltou a jogar futebol depois de quase dois anos parado e que fez sete gols na sua partida de estréia - o que me parece um pequeno exagero.

A não ser que a partida tenha sido contra seus colegas de quarto: um casal de chineses, uma mexicana e um australiano.

Conta, também, que viu neve pela primeira vez, mas que não pagou o mico de colocar um pouco no copo e acrescentar suco de groselha para relembrar dos vendedores de rala-rala aqui da taba.

Diz ainda que aprendeu a patinar no gelo, o que também me parece um pequeno exagero dada a sua cômica propensão de tropeçar nas próprias pernas


Por último, avisou que na companhia de sua noiva Juliana (que desembarcou por lá na véspera do Natal), está descendo a Itália em direção a Sicília, onde, desconfio, vai ser batizado em alguma famiglia local.

A vida é boa, zifio! Aproveite enquanto pode...






Breakdance para principiantes


Via e-mail, Silvinha Nascimento, de Campina Grande (PB), depois de elogiar os textos aqui postados sobre hip hop, indaga se é verdade que a breakdance surgiu nos guetos nova-iorquinos no início dos anos 80.

Bom, aquele estilo de dança até pode ter surgido com esse nome no final dos anos 70, início dos anos 80, quando a música “Rapper’s Delight” tirou o hip hop dos guetos e pôs todo mundo pra dançar.

Sua origem, entretanto, tem raízes nos dançarinos de funk dos anos 60, inspirados nas presepadas que James Brown fazia nos palcos.

Três estilos de dança estão na raiz do break.

Os dançarinos porto-riquenhos, como Trac 2, da posse Starchild La Rock, e Crazy Legs, da posse Rock Steady Crew, se inspiraram no “locking”, popularizado pelo grupo funk “The Lockers”.

Quando surgiu nos anos 60, em Los Angeles, o “locking” era chamado de “robot” (seu criador, Don Campbell, se inspirou na série “Perdidos no Espaço”).

Os porto-riquenhos aprofundaram na dança os movimentos de braços, com ênfase nos cotovelos, mãos, dedos e jogo de pernas.

Inspirado em mímica e dança indiana, Boogaloo Sam criou em 1972, na Califórnia, o estilo “poping”, também chamado de “eletric boogaloo”.

A dança compõe-se de passos que dão efeitos de ondas.

Os dois estilos foram adotados pelos dançarinos de Afrika Bambaataa.

Os dançarinos de Kool Herc e de Grandmaster Flash criaram o “breaking” propriamente dito, também conhecido como “free style”.

Seus passos básicos são o “top rock”, que introduz o b-boy no exercício de chão, o “footwork”, com pernas e mãos apoiados no chão e se trançando continuamente, e o “freeze”, que inclui movimentos acrobáticos mas culmina no congelamento.

Atualmente, a break dance, como acabou sendo chamada a dança genuinamente hip hop, está ficando cada vez mais completa e complexa, dizem os b-boys.

Ela incorporou elementos da ginástica olímpica, clown, mímica, dança indiana, dança egípcia, capoeira e kung fu.

Símbolo das grandes cidades, a dança também tem como influências as histórias em quadrinhos e o cinema.

Os filmes de John Woo estão entre os que mais trazem referências de movimentos.

Nos vídeos abaixo é possível conhecer um pouco mais de cada um dos estilos mencionados anteriormente.









terça-feira, janeiro 04, 2011

O negócio agora é pau pequeno


Ivan Lessa

Quem deflagrou a moda foi o ultrapremiado e até mesmo oscarizado galã espanhol Javier Bardem. Na edição de setembro da revista americana Esquire, Bardem declarou (admitir, jactar-se ou confessar é um pouco forte) que tem o pênis pequeno.

Não sabemos em que língua se deu a entrevista nem mesmo se sua excelentíssima esposa, Penélope Cruz (louvada seja), estava presente.

Desconhecemos ainda a reação da dama em questão ao dar com o número da revista e se houve ou não “barulho no chatô”.

Penélope não estava disponível para comentários quando a procuraram pedindo confirmação e maiores detalhes.

Bardem, como muitos que trabalharam com ele sabem, é um tremendo gozador.

Com 41 anos de idade e no pico (arrã) de sua carreira, difícil dizer se estava troçando com o repórter da tradicional publicação.

Espanhol é fogo. Deram para ganhar em tudo. Tênis, futebol, golfe, o diabo.

Agora, no meio da onda ibérica, vem o laureado histrião e se entrega aos bandidos.

Mas terá se entregado mesmo? Será que Javier, com seus 41 anos (e não ficaram claros outros dados pessoais seus, como a extensão e a circunferência do monjolo em questão, por exemplo), não está aproveitando seu momento de fama para lançar uma nova moda só para confundir ainda mais as coisas neste mundo complicado em que vivemos?

Até outro dia, pelo que sei, o quente, o duca era membro viril avantajado.

Meu inbox do computador todo dia me enche com métodos garantidos para acrescentar por uns poucos cobres alguns preciosos centímetros (segundo eles lá) ao meu cheio-de-varizes.

Nunca fui nessa. O que me coube neste mundo sempre deu para o gasto, e não tenho, que saiba, reclamações.

Uma série de indagações sobre a reportagem me veio à mente desconfiada. Não será aquela velha lei da represália, a de que mais cedo ou mais tarde o oposto se opõe ao posto?

No caso, não seria uma reação ao carnaval ou palhaçada ou deboche que o chamado sexo frágil vem fazendo com suas partes íntimas?

Essas depilações, muitas em formato de coração ou com o perfil de um líder político?

Essas tatuagens em torno, do lado e só “O Sombra” sabe onde mais?

Piercing. Piercing, co’os diabos! Isso é, ao menos para mim e para os de minha geração, autoflagelação.

Mais: é agressão física e visual aos possíveis companheiros dos folguedos amorosos no leito de Vênus e até mesmo, quem sabe?, aos passantes.


Googlei aqui e googlei lá e não dei com fotos de Javier Bardem pelado. Nada sei sobre seu tarugo e suas dimensões.

Mistério para mim continuarão a ser (felizmente que a curiosidade mata os gatos, como se diz em inglês) os detalhes do (e segurem aí – no sentido figurado – alguns dos sinônimos daquilo que faz de um homem um homem) falo, pene, alavanca-de-arquimedes, armanho, bacamarte, bate-estaca, bilunga, brachola, cajado, cambão, chechoca, chupica, chouriço, chonga…

E paro pela letra C para não engrossar (sem hi-hi-his, por favor) ainda mais este maroto texto.

Meu dicionário especializado dá uma sinonímia de mais de 80 termos para a peroba, a pemba, a piçoca, o picolé…

E, pronto, já ia eu embarcando de novo nessa canoa feita a … Quase que eu digito “a um sem-número de paus”.

Meu pensamento, malsão que só ele, já prevê o que pode vir por aí se a moda de Bardem pega.

Londres, Paris, Rio, Roma, Madri, todas as grandes capitais que se prezam terão a sua Small Dick Week, assim mesmo, em inglês, como em Fashion Show.

Atores passarão do reforço ao esforço para ocultar, diante ou longe das câmeras, o que já foi chamado, nos meios entendidos, de “mala” e, em países de fala (eu disse “fala” e não “falo”) inglesa, “package”.

De qualquer forma, catei em minha pesquisa algumas celebridades para que o leitor esclarecido pare um pouco para pensar se topa ou não o convite informático e no que vai pedir a Papai Noel neste ano.

Segue uma lista com “jebinhas” e “jebões” de gente conhecida. Não há detalhes centimetrais.

Há que pôr, por mais ou menos doloroso que seja, a imaginação para trabalhar. Peguem aí com carinho e com afeto.

Jebinhas: Hitler, Napoleão, Bem Affleck, Shia LaBoeouf (esse estava na cara e no nome), Jude Law, Daniel Craig (007 cm para quem achar graça), Eminem, Arnold Schwarzenegger, presidente John Fitzgerald Kennedy, Brad Pitt, Antonio Banderas (o que é que há com os espanhóis, afinal? Enrique e o papai Julio Iglesias também estão lá, para não falar no Pedro Almodóvar).

Jebões: Rasputin, Porfírio Rubirosa, Frank Sinatra (Ava Gardner para um produtor: “Ele pode pesar 80 quilos, mas 20 é pemba pura”. Está documentado), Liam Neeson, Willem Dafoe, Milton Berle, Wilt Chamberlain, presidente Lyndon Johnson, Errol Flynn, James Woods, Kevin Bacon, Colin Farrell (que, aliás, está na outra lista também. Tem gente confusa ou confundindo paca por aí), o ex-âncora da rede americana CBS Dan Rather.

Os nomes brasileiros, abstive-me de incluí-los.

Tudo aí é uma lenha, dá bolo, é chute ou acaba em tiro ou processo.

Quem quiser agora que vá mundo afora de fita métrica e pouca-vergonha na cara. Ou, mais simplesmente, que faça um uso profundamente (eu que o diga) constrangedor de um computador.

Mãos à obra, gente!


(texto publicado na revista Playboy de outubro de 2010)

sábado, janeiro 01, 2011

Instituto Moreira Salles lança edição ampliada do livro Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema, de Carlos Drummond de Andrade


O jovem poeta destacou uma página de caderno onde havia escrito o poema e enviou para o Rio de Janeiro, em 1928. O destinatário era Mário de Andrade que à época editava a Revista de Antropofagia.

Meses depois, o poema No meio do caminho é publicado na página 3 da revista e passa despercebido. Ao sair, porém, na edição de Alguma Poesia, em 1930, causou assombro e se tornou um dos textos mais achincalhados, odiados e elogiados da literatura brasileira.

Críticos, modernistas e tradicionais, além de gramáticos, se engalfinharam num debate público que sobrou, principalmente, para o poeta a pecha de “Carlos Pedregoso”, “o poeta da Pedra”, “poeta pétreo”, “provecto poeta”, “Drummond Pedreira” ou coisa do tipo: (...) o mais brilhante cavouqueiro a serviço, no Brasil, da poesia modernista.

“Havia uma pedra no meio do caminho” atravessou gerações, se transformou numa frase comum, corriqueira e descolada do poeta. Mas por décadas suscitou fúria e irritou muita gente.

Gondim da Fonseca, por exemplo, escreveu: “O sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro, não sai nada. (...) Homem, e não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?”

Agripino Grieco afirmou que Drummond “comparou-se ao ferro de Itabira, e a pedra em que ele tropeçou veio a celebrizar-se”.

O mau humor extrapolava e tornava impiedosa a crítica de última hora: “Na literatura o que vemos? Poetas que não fazem nos seus poemas senão imitar muitos anchos dos pedreiros colocando pedras umas ao lado das outras”, escreveu Augusto Linhares num discurso para médicos.

“O que é isso? É poesia mesmo ou é legítima bobagem como a ‘pedra do meio do caminho’ do Sr. Drummond de Andrade?” perguntava Cavadarossi em texto publicado em jornal carioca que tinha como título: A poesia carnavalesca.

A recepção ao poema ficou ainda pior quando Drummond deixou Minas e foi para o Rio de Janeiro como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação e da Saúde. A ira ganha, portanto, proporções políticas.

Drummond seguiu poeta, publicou Rosa do povo, O Sentimento do mundo, Brejo das almas, mas havia uma “pedra no meio do caminho” e quando se queria atacar a poesia moderna, a política de Capanema ou o poeta, o refrão eram os versos de Drummond.

Mário de Andrade achou No meio do caminho um poema “formidável”, mas tascou: “É o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico, de cansaço intelectual”.

Manuel Bandeira caiu de amores pelo poema: “No meio do caminho, poema formidável de desalento e onde no entanto não há mais que uma pedra, ‘uma pedra no meio do caminho’”.

Paulo Rónai chamou Drummond de futurista que “chega ao limite do grotesco em sua rebeldia contra toda a tradição”.

Os gramáticos se revoltaram contra o poema escrito num português “inadmissível” e num “papagueado” esdrúxulo: “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra”.

Drummond não poderia ter escrito “tinha” e sim “havia”. Além de mau poeta era ignorante: o poema tinha um único verso repetido à “irritante exaustão”.

Anos mais tarde, Drummond confessa a surpresa com a celeuma causada em torno de “tão simples pedra” de um “poeminha”.

A pedra tornou o poeta conhecido, era frequentemente desenhado com uma pedra por perto. O poema foi musicado por Francisco Mignone, virou peça de discurso, ganhou paródias debochadas e inspirou outros poemas. Clichê.

No aniversário de 50 anos de No meio do caminho, Drummond vingou-se. Publicou o livro Uma pedra no meio do caminho, uma biografia de um poema com um meticuloso trabalho de recorte de tudo o que foi publicado sobre o poema.

Nos 80 anos do livro Alguma Poesia (1930), sai uma edição ampliada do volume preparado por Drummond pelo Instituto Moreira Salles. É uma edição primorosa organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz e que ganhou uma “biografia da biografia” e novos textos sobre o poema.

O que importa, porém aos leitores de Drummond, é o prazer de ler a história de um poema contada a partir de leitores de uma dada época.

A ironia e o humor saltam das páginas. Observem também os títulos dados por Drummond na divisão do livro. É um caso à parte ver a mão do catalogador de si mesmo e a do poeta juntando os cacos de uma pedra pelo tempo afora.

Serviço

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO - BIOGRAFIA DE UM POEMA

Edição ampliada organizada por Eucanaã Ferraz.
Instituto Moreira Salles
R$ 50


O Poema da Discórdia

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
Numa me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

O que se disse da pedra

“Mas confesso-lhe que me surpreendi ao ver surgir ao lado da minha modesta e atacada ‘pedra no meio do caminho’ um soneto que lhe interpreta e desenvolve o sentido. (...) É uma simples, uma pobre pedra, como tantas que há por aí, nada mais”. Carlos Drummond de Andrade

“Mas estupenda mesmo é a pedra que está no caminho. Vamos sentar nela?” Antonio de Alcântara Machado

“(...) nossos Walt Whitmans do pedregulho que são o nosso orgulho (‘tinha uma pedra’)”. Augusto Linhares

“O poeta da pedra – “No meio do caminho” – e tão sucessoso que se tornou um lugar-comum elogiá-lo”. Paulo Mendes Campos

“Tem algumas ideias fixas, como a da ‘pedra’, que, se é verdade, não chega bem a ser um verso”. Agripino Grieco

“Ah, era um encanto e um gozo, na verdade vos digo, primeiro pela indiferença a todos os cânones e depois pela cara com que ficavam os canônicos”. Mário Quintana


Regina Ribeiro
reginaribeiro@opovo.com.br