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quarta-feira, março 07, 2012

A Lei de Murphy e o vibrante Candiru


A primeira Lei de Murphy diz que “se alguma coisa pode dar errado, dará”.

E não é só isso: “Ela dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”.

Essa lei foi formulada para corroborar um princípio de design defensivo.

Por exemplo, não faça uma interface de dois pinos simétricos e ponha o rótulo “Este lado para cima”.

Se realmente importa o lado pelo qual a interface deve ser ligada, então você deve criar um design assimétrico para que ela não possa ser ligada erroneamente.


Em 1949, Edward A. Murphy era um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em piloto de aeronaves, realizados pela Força Aérea Americana (USAF), através do projeto MX981.

Para poder fazer essa medição, ele construiu um equipamento que registrava os batimentos cardíacos e a respiração dos pilotos.

O equipamento envolvia um conjunto de 16 acelerômetros montados em diferentes partes do corpo de um voluntário.

Havia duas formas pelas quais cada sensor podia ser colado em sua base e somente uma era a correta.

O aparelho foi instalado por um técnico, mas simplesmente ocorreu uma pane generalizada e Murphy foi chamado para consertar o equipamento.

Como era de se esperar, todas as 16 peças haviam sido fixadas de maneira errada.


Foi quando Murphy formulou pela primeira vez essa sua famosa lei universal.

O cobaia do experimento, major John Paul Stappem, contou a presepada durante uma conferência de imprensa alguns dias mais tarde.

Dali a alguns meses, a Lei de Murphy tinha se espalhado por várias culturas técnicas ligadas à engenharia aeroespacial e, em pouco tempo, muitas variações da lei foram criadas pela imaginação popular:

* Todo corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone.

* A informação mais necessária é sempre a menos disponível.

* A fila do lado sempre anda mais rápido.

* Se a experiência funcionou na primeira tentativa, tem algo errado.

* Você sempre acha algo no último lugar que procura.

* Toda partícula que voa sempre encontra um olho.

* Se está escrito “Tamanho único” é porque não serve em ninguém.

* Não é possível sanar um defeito antes das 17 e 30h da sexta-feira. O defeito será facilmente sanado às 9 e 01h da segunda-feira.

* A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete.

* O gato sempre cai em pé.

* Não adianta amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no carpete. Provavelmente o gato comerá o pão antes de cair em pé.


Esse nariz-de-cera todo foi apenas pra dizer que bugs técnicos durante a execução do site pela Vortex provavelmente vão impedir que o Candiru penetre vibrantemente em seu compu nesta quinta-feira, Dia Internacional da Mulher.

Para não deixar os leitores na mão, estamos publicando provisoriamente o Blog do Candiru, como um simples aperitivo do que vem pela frente.

Percam o medo e deem uma zoiada lá.

A luta continua, companheiros!

Ecad cobra taxa mensal de blogs que utilizam vídeos do YouTube


A saga de cobranças inusitadas do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) ganhou mais um capítulo na semana passada.

Os rapazes do blog Caligraffiti receberam na última terça-feira um email da entidade arrecadadora avisando que teriam de pagar direitos autorais pelos vídeos do YouTube e do Vimeo que apareciam no site.

Surpreso, Uno de Oliveira, um dos responsáveis pelo blog, ligou para o escritório do Ecad em São Paulo, pois nunca tinha ouvido falar nesse tipo de cobrança.


“Eles disseram que o YouTube paga, pois é um transmissor, mas os blogs são retransmissores e também têm de pagar”, conta o designer. “O Ecad está dentro da lei, não estão cobrando indevidamente. Mas a lei é totalmente desfasada. Eles se baseiam na lei para achar alguma brecha e ganhar mais dinheiro”, critica.

O Caligraffiti é um blog sobre design, arte, tecnologia e cultura.

Tem boa visibilidade num nicho específico, com mil a 1.500 acessos por dia, mas não rende lucro para nenhum de seus sete colaboradores (esse meu mocó rende mais de 2 mil acessos diários e também não ganho porra nenhuma).

A chamada para anúncios no lado direito do blog é voltada apenas para troca de apoios, prática comum na blogosfera.

Cada um dos blogueiros tem seu próprio emprego.


Para um blog sem fins lucrativos, o valor cobrado pelo Ecad não é nada leve: R$ 352,59 mensais.

O Caligraffiti foi classificado na categoria de webcasting, ou transmissão de programas originários da própria internet.

Existem também as de podcasting (trechos de programas publicados na internet que podem ser baixados em mp3), simulcasting (transmissão simultânea inalterada) e ambientação de sites (uso de fundo musical no site).

Essas informações foram enviadas pelo próprio Ecad por e-mail a Uno, que pediu explicações sobre o motivo da cobrança.

Ele critica o fato de a entidade cobrar por pacote, e não por vídeo exibido, como “uma espécie de legalização para publicar os vídeos”, independente da quantidade de músicas utilizadas em cada mês. “Essa cobrança vai contra um princípio básico da internet, que é compartilhar e divulgar as coisas”, argumenta Uno.

Por orientação do advogado, Uno tirou o site do ar na semana passada, enquanto o caso era analisado.


Num post publicado na última sexta-feira, ele diz que voltou após conversar com “blogueiros, advogados especializados e formadores de opinião” e “todos concordam que esse tipo de atitude inibiria a blogosfera brasileira, que utiliza muito material compartilhado de grandes canais de vídeo online. Por opiniões unânimes decidimos recolocar o site no ar e encarar a briga, caso realmente eles queiram isso”.

A assessoria do Ecad confirma que, pela lei, os blogs são obrigados a pagar por vídeos embedados do YouTube.

De acordo com a interpretação da entidade, os sites são retransmissores, pois “o uso de músicas em blogs se trata de uma nova execução”.

Além disso, o Ecad argumenta que “não há cobrança em dobro, pois as diversas formas de utilização são independentes entre si”.

“O direito de execução pública no modo digital se dá através do conceito de transmissão existente na lei e presente no art. 5º inciso II da Lei 9.610/98, que transmissão ou emissão é a difusão de sons ou de sons e imagens, por meio de ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor; meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético, portanto isso inclui a internet”, afirma a assessoria do Ecad.


A entidade nega que haja um trabalho de cobrança focado em blogs e sites, mas alerta que “todo usuário que executa música publicamente em site/blog ao ser captado, pode receber um contato”.

O Ecad diz ainda que o seu foco é “a conscientização e o esclarecimento quanto à necessidade do pagamento da retribuição autoral, não somente por conta da exigência legal, mas pelo respeito aos autores e suas obras, não sendo blogs e sites nas características sugeridas nesta pergunta alvo de ação judicial”.




NOTA DO EDITOR DO MOCÓ

Por que o Congresso Nacional ainda não colocou o Ecad em um vaso sanitário e deu descarga?!

terça-feira, março 06, 2012

Fúria de Titãs: banda paulistana comemora 30 anos


Pedro Antunes

Naquele abril de 1986, o estúdio Nas Nuvens, do produtor Liminha, no Rio de Janeiro, estremeceu com uma barulheira vinda de São Paulo.

Era o punk de oito malucos de roupas pretas e cabelos esquisitos, que respondiam pelo nome de Titãs.

E pensar que, um mês antes de os coturnos e as guitarras cheias de distorções invadirem o estúdio, o Paralamas do Sucesso havia gravado lá Selvagem?, disco essencial na discografia da banda – e no rock nacional.

Na ocasião, o clima era outro, bem praiano, reforçado pelas influências de ska e reggae do trio de Herbert Vianna.


Depois do álbum Televisão (1985), o octeto criaria naquele ambiente pouco condizente com seu visual – Branco Mello, por exemplo, praticamente cozinhava em seu paletó de lã – o disco Cabeça Dinossauro, tão seminal para a música brasileira quanto Selvagem?.

Revisitando esse disco na íntegra, o Titãs, atualmente formado por Branco Mello (baixo), Paulo Miklos (guitarra base), Sérgio Britto (teclados) e Tony Bellotto (guitarra solo) – e com Mário Fabre na bateria desde a saída de Charles Gavin, em 2010 –, participa do projeto Álbum, do Sesc Belenzinho, com sete datas de shows.

Os 3,5 mil ingressos disponíveis para os dias 8, 9, 10, 14, 15, 16 e 17 de março (500 por dia) se esgotaram em poucas horas, na quinta-feira.

É um começo promissor para a comemoração dos 30 anos de carreira da banda.


O ano de 2012 será titânico.

A turnê do Cabeça Dinossauro será levada para outras cidades do Brasil e se estenderá por todo o primeiro semestre do ano.

Só será interrompida pela participação deles no Rock in Rio Lisboa, em maio, novamente ao lado da banda portuguesa Xutos & Pontapés, para reeditar a roqueira apresentação realizada no mesmo festival, na edição carioca de setembro do ano passado.

Aquele encontro no Rio, aliás, ganhará um DVD pelo selo MVA, que deve ser lançado em maio simultaneamente no Brasil e em Portugal.

“Temos uma mesma banda inspiradora, que é o The Clash”, diz Bellotto. “Já fizemos turnê com os caras em 87 e 88, abrimos shows deles.”


Ainda dentro das celebrações, no segundo semestre, a cereja do bolo virá com uma turnê que percorrerá algumas capitais, com convidados especiais, além da participação dos titãs dissidentes Charles Gavin, Nando Reis e Arnaldo Antunes.

“O show do Cabeça é só um pontapé inicial. Estamos trabalhando bastante para fazer ótimos shows de 30 anos. Talvez até vire um DVD”, afirma Miklos.

O Titãs não é uma banda que vive do passado.

Os roqueiros envelheceram com dignidade, com discos inéditos, e querem continuar assim, produtivos.

Depois da turnê, será a vez de lançar o sucessor do disco Sacos Plásticos, de 2009.


“Sabemos que precisamos fazer uma coisa por vez. Soltar o disco agora seria bobagem, mas é legal para mostrar que não somos uma banda que gosta de ficar no passado”, diz Bellotto.

Até 1986, o Titãs era o que Bellotto chama de new wave brega, dadas as misturas de sonoridades promovidas pelos garotos paulistanos.

Duas situações foram fundamentais para o nascimento do Cabeça Dinossauro.

Televisão, disco anterior, não foi tão bem quanto o primeiro, Titãs (84), e foi arrasado pela estreia do Ultraje a Rigor, com o divertido Nós Vamos Invadir Sua Praia.

Era um álbum mais pop, apesar de Massacre e da faixa-título, pesadas.

Televisão não decolou.

Ao mesmo tempo, Tony Bellotto e Arnaldo Antunes foram presos por porte de drogas, em 85.

A insatisfação contra todo o sistema convergiu para um disco mais objetivo: Cabeça de Dinossauro é crítico, ácido, pesado, punk, revoltado.


Uma metralhadora com foco certo: a instituição católica (em Igreja), a política (em Bichos Escrotos e Homem Primata), a organização policial (em Polícia) e os próprios valores morais da época (em Porrada, Tô Cansado, Família e Dívidas).

Era também um momento em que a sociedade brasileira estava mudando com o fim dos duros anos da ditadura militar.

Ainda com a censura em vigor, Bichos Escrotos era pedido e executado nas rádios.

Era o povo respondendo.

“As bandas dos anos 80 estavam mais maduras”, conta Bellotto. Paulo Miklos completa: “Foi com esse álbum que nós nos encontramos com o nosso público. Até então, era difícil entender a gente”.


Entre as lembranças de Miklos sobre o Cabeça, está a cena de Branco Mello se benzendo segundos antes de cantar Igreja, com os versos: “Eu não gosto do papa/ Eu não creio na graça do milagre de Deus/ Não tenho religião”.

“Ele vai repetir isso nos shows do Cabeça. É a melhor cena da música brasileira”, diz Miklos, às gargalhadas.

Os anos podem ter passado e integrantes, partido.

Mas eles ainda parecem ser jovens brincalhões e barulhentos.

Como naquele 1986.

domingo, março 04, 2012

Apocalipse macho


Connery antecipa a inominável sunga-colete de Borat em Zardoz

Ronaldo Bressane

Os boatos sobre a derrocada do homem-alfa têm sido apressados. Mas atenção: há inquietantes sinais de fumaça. Pensata-playground publicada na revista Vida Simples de maio de 2010

É fato: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino, está com os dias contados. As más notícias foram trazidas por cientistas australianos. “O cromossomo Y tem uma larga faixa de DNA, mas está cheio de ‘lixo’, e há apenas 45 genes nele. Não dá para comparar com o os 1345 genes do cromossomo X“, despreza a doutora Jenny Graves, da Universidade de Canberra.

Observando a fauna australiana – incluindo cangurus –, o laboratório australiano descobriu que a cada milhão de anos 7.8 genes Y são perdidos. “Há 166 milhões de anos, o cromossomo Y também tinha 1345 genes“, explica. Ou seja – o crepúsculo do macho está em pleno processo. Mas vocês não vão se livrar de nós tão cedo, garotas: “A essa velocidade, o cromossomo Y vai desaparecer em 6 milhões de anos“, sentencia a australiana.

Antes que eu jogasse pedra na doutora Jenny por seu catastrofismo, o bioquímico Franklin Rumjanek, da UFRJ, refletia: uma vez que o cromossomo Y se especializou em determinar o sexo masculino, se esse ajuste foi aprovado pela seleção natural o Y pode permanecer entre nós por muito tempo. “O que sabemos é que o cromossomo Y já não tem mais origem exclusiva das gônadas masculinas e, além disso, corre o risco de desaparecer“, diz Franklin, lembrando de um experimento da Universidade de Newcastle que criou espermatozóides humanos a partir de células-tronco originárias de um embrião feminino. “Essa bifurcação evolutiva pode significar o fim da hegemonia masculina. Mas também pode ser o arauto da extinção da espécie“, afirma o bioquímico.


Os sinais da derrocada macha se demonstram em estudos biológicos e também em narrativas contemporâneas – como a sensacional graphic novel Y: O Último Homem (Vertigo), de Brian Vaughn e Pia Guerra, que enquadra um mundo em que uma catástrofe exterminou todos os homens do planeta à exceção de um, o perseguido Yorick Brown.

Pobre Yorick: enquanto a macharia teima em largar a toalha molhada na cama, berrar palavrões na arquibancada e encerar o capô do carro, a trilha evolutiva desdenha e olha para o outro lado da rua. O deus-nos-acuda agora vem de um estudo comportamental publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society: mulheres de sociedades mais civilizadas se interessam por homens que não pareçam tão homens assim.

Usando o site faceresearch.org como base, Ben Jones e Lisa DeBruine, da Universidade Aberdeen, na Escócia, mostraram 20 pares de rostos masculinos a 4.800 mulheres de 20 países. No frigir dos ovos, o par de especialistas constata que “em ambientes onde doença e alta mortalidade infantil são altas, as mulheres preferem tipos mais masculinos. Nos EUA ou na Inglaterra, onde analisar planos de saúde é mais importante do que brigar contra uma infecção, homens efeminados são mais competitivos“.


Ainda suspeito se essa pesquisa funcionaria em países latinos como o Brasil – mas, a julgar pela nova tendência emogótica, as moças estão mais para Robert “alérgico a vaginas” Pattinson que para Clint Eastwood. É a evolução, estúpido!

A queda é tão iminente que, além do decantado metrossexual e do homem-fofoleto do estudo acima, a revista Slate reportou a tendência: o macho ômega. O herói-broxa é o pesadelo de consumo de mulheres que se desinteressaram tanto pelo ultracompetitivo alfa quanto pelo confortável beta e partiram para o fim da fila – a raspa do tacho, onde ainda sobrou alguma rebeldia recendendo a testosterona.


Seu símbolo é o Ben Stiller do filme Greenberg (inédito no Brasil). O quarentão Greenberg xaveca uma gracinha de 25 anos dizendo que, quando criança, sonhava ser astronauta; hoje, mal dirige. Desistiu de ser músico e agora abraça a causa de carpinteiro, mas nada sério: como diz aos amigos, “está fazendo nada por um tempo“. A Slate toma Greenberg como estereótipo do homem que, no começo dos anos 2000, sentiu o baque da recessão econômica e, confuso com as mudanças no comportamento feminino, reinventou-se num tipo charmosamente desajustado, loser. Segundo a ótima matéria da jornalista Jessica Grose, eis os subtipos ômega:

• Brejeiro. Bobo-alegre, quando habita os comerciais de cerveja, no caso de ser boa-pinta ou acreditar em seu ideal de solidariedade masculina selada por um tintim. Ou triste, quando percebe a roubada em que se meteu: gosta dos amigos, é leal à esposa e aos filhos, mas sente que a vida poderia ser muito melhor – caso tivesse a mínima idéia de como;

• Gameboy. Nerd que não toma uma atitude adulta na vida a não ser que, como em um game, seja obrigado. Se trabalha, é com videogames ou em sites pornôs;

• Inútil Paisagem. Veste-se bem, parece gay, mas não é: ao se contentar com a própria beleza, não carrega a menor expectativa em relação às mulheres. Narcisista que habita academias, clubes, bares descolês e espelhos – principalmente na hora do sexo;

• Gênio em Crise. Tipo o Caio Blat no recente filme Histórias de Amor Não Duram 90 Minutos, em que interpreta um escritor que não consegue escrever nem se decidir entre a mulher autosuficiente e uma perigosa peguete (que aliás está pegando a sua mulher);

O homem é a nova mulher


Pobres homens. Sua confusão é tão generalizada que existe até um Movimento Anti-Xoxotização do Homem Ocidental, MAXHO (o manifesto é de rolar de rir). O demônio do movimento é a mulher solteira chefe-de-família. É a principal responsável pela fixação dos homens contemporâneos em raspar os pêlos, cuidar da casa e doar seu esperma para bancos que fertilizam… mulheres solteiras chefes-de-família.

Reza o MAXHO: “Há poucos homens de verdade… um homem que pode trabalhar com seu próprio carro; que sabe dirigir e gosta de carros velozes; que sabe atirar, montar, desmontar e limpar sua própria arma; que sabe os princípios básicos da medicina; que sabe selar e montar um cavalo; que sabe ler e escrever em ao menos duas línguas; que conhece defesa pessoal; que se vira na matemática e na gramática; que sabe ler, discutir e escrever ensaios sobre política, filosofia e literatura; que se mantém em boa condição física; que se mantém na linha, é heterossexual, não mente, trapaceaia nem rouba; que sabe tratar uma mulher e cuidar de uma família“. Bom, eu sei controlar o nunchuk do meu Wii, mas isso talvez não baste aos simpatizantes do movimento.

O que faz de um homem um homem?

Segundo as pesquisas do Ibope, o homem brasileiro de 2010 “sente-se mais companheiro e presente na família; quando casado, realiza tarefas domésticas e faz compras; quando solteiro, mesmo financeiramente independente, não deixa a casa dos pais; preocupa-se com a aparência, a alimentação, usa produtos de beleza e já pensa em cirurgia plástica; é grande consumidor de mídia; quer fazer tudo de uma forma diferente“, determina Flavio Ferrari, CEO do Ibope.


O que faz de um homem um homem?

Uma dica do MAXHO, “que sabe como tratar uma mulher“, ou, como cantaria o Robertão, “Todo ama que sabe o que quer/ sabe dar/ e querer da mulher“, pode ser uma trilha para que cavalguem os novos pensadores da macheza contemporânea. A fim de manter uma saudável equidistância entre os escribas, necessária mesmo entre as quatro linhas destas elegantes páginas, escolhemos como normanmailers tupiniquins um carioca, um gaúcho e um cearense. É preciso solidariedade para com esses cabras machos que se debruçam sobre tão tenebroso tema.


Em recente crônica n’O Globo, o argentino-carioca João Paulo Cuenca aventa: “Que o homem é a nova mulher até o cinema norte-americano já descobriu“. O autor de O Único Final Feliz de uma História de Amor é um Acidente (Cia. das Letras) compara o priapismo de Porky’s, clássico cafajeste de 1982, com 500 Dias Com Ela, de 2009, “fita que leva o macho em crise ao paroxismo, com seu protagonista indie-genérico prometendo amor eterno entre choramingos e muxoxos“, e com Crepúsculo (2009), em que o herói “seduzido pela mocinha da fita passará pelo menos dois longa-metragens e meio evitando mordê-la ou levá-la para a cama“.

O “vampiro-fofo” de Cuenca nasce de uma demanda feminina, cristalizada no cinema e materializado no “galã-amélia, cozinheiro de mão cheia, companheiro para todas as horas, conselheiro para tardes de compras no shopping e futuro ex-namorado-melhor-amigo“. O viagra Van Helsing para esse draculette estaria embutido no appetite appeal de estrelas pornôs como Belladonna, em atrizes de cinema como Angelina Jolie ou musas do funk como Deise Tigrona. Para Cuenca, somente essas poderosas mulheres teriam a capacidade de mostrar de volta o caminho de casa aos novos Bogart, Peréio, Sinatra, Valadão – se é que eles existem (e se é que ainda existe o caminho de casa).


Por sua vez, o poeta gaúcho Carpinejar aposta na canalhice. Segundo aprendi na Caras, via Deonísio da Silva, canalha vem do italiano canaglia, da raça dos cães, radicado em cane, cão, mais sufixo depreciativo, designando o que é infame, vil. O aprendizado da macheza, para o poeta, estaria no retorno às origens como vira-latas, cão sem dono sempre disposto a fuçar no lixo, entrar no cio ou uivar para a lua.

Pistoleiro solitário, este espécime contemporâneo de canalha, “quando domesticado, acaba revelando que não era canalha… A canalhice é um excesso de imaginação. A saída é desejá-lo! O canalha procura uma mulher capaz de entendê-lo e que não tente ajustá-lo“, filosofa o poeta. Este novo canalha é um animal nascido na geração do divórcio, “de quem foi criado pela mãe e tem mais intimidade com o mundo feminino. Nunca vai ser um coitado: ri de si mesmo e tem capacidade camaleônica de se adaptar“, fecha o autor de, claro, Canalha (BertrandBrasil). Ele faz questão de distinguir o canalha do cafajeste e do pilantra. “O canalha não coleciona mulheres; realmente as ama. As mulheres se apaixonam porque se descobrem nele, se enxergam nele. Na verdade, a mulher se apaixona por si mesma…“, se safa Carpinejar.


A metáfora canina também é mordida pelo cearense Xico Sá em seu novo CHA-BA-DA-BA-DÁ – Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que Se Acha (Record). Mas aqui, como negativo: “Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais (aqueles que só usam roupas com encosto de brechó). Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa, uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras“, escreve Xico.

E aí, como registra este canalha lírico, são as mesmíssimas mulheres que pedem uma esmola do coração dos mesmíssimos homens. Ironicamente, os mesmos que, afirma o Movimento Anti-Xoxotização do Homem Ocidental, teriam sido corrompidos pelos desejos das mulheres modernas demais. Para ilustrar, o seguinte diálogo pescado por Xico entre duas moças espertas num bar de São Paulo:

“– Antes um bom canalha de ressaca do que um saudável bom moço perfumado com a boca sempre cheirando a antisséptico! – Guta vai mais longe ainda.

– Nesses tempos de homens frouxos, quando não se pede mais ninguém em namoro, a canalhice é o nosso parque de diversões! – Lu ataca novamente.”


O que faz de um homem um homem? Prefiro lembrar de uma imagem simples, criada por Cormac McCarthy em sua obra-prima A estrada (Alfaguara). Não que ele esteja exatamente respondendo à minha pergunta; McCarthy é um contador de histórias, e esta é sua narrativa mais seca, precisa e emocionante, portanto sua fábula mais poderosa no oco deixado pela sugestão de inquietações. No romance, que se passa um cenário pós-apocalíptico, um pai e um filho atravessam seu devastado país do norte gélido ao esperançoso sul. Um diálogo entre os dois (que remete também ao final de outro livro de McCarthy, Onde os Fracos Não Têm Vez):

“Nós vamos ficar bem, né, pai?

Sim. Vamos.

E nada de mau vai nos acontecer.

Isso mesmo.

Porque estamos carregando o fogo.

Sim, porque estamos carregando o fogo.”

O que faz de um homem um homem? Quando o bicho pegar, sempre vai ser necessário um homem que carregue o fogo. Para acender o cigarro da dama, para aquecer o rango de todos – ou simplesmente para tocar fogo no circo.


Era uma vez um homem

Bela – e necessária – tese sobre o espécime em extinção, escrita por Millôr Fernandes e publicada n’O Pif-Paf/O Cruzeiro em 1953, com a colaboração de Luís Lopes Coelho e Antonio Maria

Decálogo do Machão

1. Machão vai à caça, passa seis meses na floresta, quando volta a mulher telefona, ele diz: “Não”.

2. Machão não come mel, come abelha.

3. Machão, na hora da morte, não confessa: vai pro inferno logo.

4. Entre um sorvete de creme e um uísque, o machão não hesita: mistura.

5. Machão não tem automóvel: faz ligação direta no primeiro que encontra.

6. Machão não se deixa levar pelo destino: segue enredo próprio.

7. Machão jamais é encurralado no apartamento pelo marido inesperado: anda sempre de pára-quedas.

8. Machão não fuma, não bebe, não joga: usa maconha.

9. Machão não casa: cumpre pena.

10. Machão, ao ir pra cama, não se descalça. Trepa de chuteira e tudo.

sábado, março 03, 2012

Eu gosto mesmo é de mulher!


Minha tia Maria Pessoa, irmã do papai, morava na rua Parintins, entre as ruas Waupés e General Glicério, região pra mim tão distante e inacessível quanto o território do Novo México, habitado pelos perigosos comanches.

A partir de 1963, entretanto, quando eu já estava com sete anos de idade, fui morar com ela.

Sua casa era imensa – sala de visitas, quatro ou cinco quartos, corredor, sala de jantar, cozinha e banheiro.

Parecia uma estância particular.

É que além de ter uma família grande (meus primos Cazuza, Raquel, Rossicler, Rosinete e Socorro), tia Maria sempre estava abrigando vários parentes oriundos de Santarém (meus primos Francisco, Raimundinho, Ronaldo, Macário, Manuel e Querubim eram hóspedes constantes do lugar).

Eu dividia um quarto com o Cazuza, que acabou, sem querer, me transformando em um voraz consumidor de histórias em quadrinhos – vício pelo qual lhe serei eternamente grato.

A casa tinha um quintal imenso, cheio de fruteiras, plantas de todos os tipos e flores a dar de pau (tia Maria gostava de cultivar flores).

No fundo do quintal, havia outra casa onde morava a Elaine, uma menina de quatro anos.

Seus pais saíam para trabalhar e ela ficava sozinha em casa, porque ainda não estudava.

Durante vários anos, Elaine acabou sendo minha parceira favorita nas brincadeiras de “patrão e empregada”, “médico e enfermeira” e “engenheiro e estagiária”, mas sem a conotação sexual que estas expressões adquiriram nos últimos anos, bando de tarados!

Como éramos as duas únicas crianças do pedaço, era natural que acabássemos bons amigos.

Sim, a gente se bolinou algumas vezes por mera curiosidade, mas nunca tentei colocar o meu “pipi” na sua “florzinha”, apesar de ela ter quase me implorado de joelhos pela iniciativa.

Naquela época, eu tinha juízo – depois de adulto foi que perdi.


Minha tia Maria era muito bonita, meiga e carinhosa.

Comecei a gostar de mulher mais do que de qualquer outra coisa porque um dia queria ter uma esposa igual a ela.

Era uma questão de tempo - o que não significa porra nenhuma quando você tem apenas dez anos.

Do lado esquerdo da casa da tia Maria morava o quituteiro Bolota, homossexual assumido, figura simpaticíssima e, também, afetadíssima, cozinheiro de mão cheia (os ingressos para suas feijoadas no restaurante do aeroporto da Ponta Pelada eram disputados a tapa), que vivia me pedindo pequenos favores (comprar um quilo de sal ou uma lata de azeite de oliva na taberna da esquina) e me recompensando regiamente pelas gentilezas.

Eu guardava os trocados recebidos em uma caixa de sapatos e quando conferia a féria no final da semana tinha grana suficiente para ir ao cine Ypiranga, comprar meia dúzia de gibis e ainda pagar os ingressos para vários amigos.

Aquele Bolota era um sujeito pai-d’égua, mas foi responsável indireto pela minha primeira desilusão amorosa.

Explico melhor.

Apesar de morar na casa da Tia Maria, eu costumava passar os fins de semana na casa dos meus pais para entregar às minhas irmãs os gibis surrupiados do Cazuza.


Um dia, retornando pra casa dos velhos, depois de uma sessão matinal no cine Ypiranga, uma garota me chamou pra conversar.

Ela perguntou como eu me chamava, onde morava, quem eram meus pais, aquelas coisas.

No começo, eu fiquei meio cabreiro, mas depois que ela me convidou pra entrar na sua casa e me serviu um copo de ki-suco de cereja, minhas desconfianças cessaram.

Eu estava com nove anos de idade e era bem mirradinho.

Ela devia ter uns 19 e possuía um corpo de potranca.

De repente, ela falou:

– Mas você é um menino muito lindo! Posso te colocar no colo?

Concordei, meio sem jeito.

A garota começou a me ninar.

Aí, sem mais nem menos, ela levantou a blusa e colocou uma de suas mamonas assassinas em minha boca.

Não me fiz de rogado e comecei a sugar avidamente aquele bico intumescido.

Depois de alguns minutos que me pareceram horas, ela, sem parar de cantar velhas músicas infantis (“Eu fui no Tororó” era uma delas), retirou a primeira e colocou a segunda mamona assassina na minha boca.

Fiquei alucinado.

Alguns minutos depois, ela baixou a blusa e me tirou do colo.

– Pronto. Agora que você está bem alimentado, já pode ir embora. Eu é que vou ficar mais um dia com fome porque não tenho nada pra comer em casa...


Ela falou aquilo com tamanha tristeza nos olhos, que quase comecei a chorar na mesma hora.

Lembrei-me que ainda tinha alguns caraminguás no bolso, do troco do ingresso do cinema.

Em valores de hoje, uns R$ 3.

Peguei as cédulas amarfalhadas, estendi a ela e falei, sem muita convicção:

– Eu acho que isso dá pra comprar pelo menos um ovo!

Seu rosto se iluminou.

Aquela grana dava pra comprar uma dúzia de ovos!

– Muito obrigado, meu príncipe, muito obrigado! – ela repetia, enquanto me cobria de beijos. “Eu vou ficar aqui em casa te esperando todo domingo! Você é muito lindo, você é muito lindo!”

Deixei a casa da garota mais agoniado do que menino novo com frieira nos pés.

Que porra era aquela?

Eu não fazia a menor ideia, mas as lembranças daqueles bicos rosados em minha boca me perturbaram o juízo durante a semana inteira.


No domingo seguinte, nem esperei para ver o segundo filme (“Hercules, Sansão, Maciste e Ursus”), abandonei o cinema no meio da sessão matinal e fui direto pra casa da minha deusa.

Depois do ki-suco de cereja e de uma nova mamada, eu lhe passava parte dos caraminguás recebidos do Bolota e ia pra casa feliz da vida.

Nessa época, o papai fazia um “rancho” mensal na cooperativa da Copam, que resultava em uma quantidade indescritível de enlatados (conservas de todos os tipos, salsichas, almôndegas, feijoada, etc.) amontoados em três caixotes de madeira na cozinha de casa.

Inocente, puro e besta, eu comecei a roubar alguns produtos para mitigar a fome crônica de minha amada.

Uma lata de corned beef aqui, uma lata de salsicha acolá, um pacote de arroz numa semana, uma lata de óleo Salada na outra.

A minha deusa ficava tão feliz que já me recebia em casa só de camisola transparente e calcinha.

Eu ficava alucinado.


Aquela mulher ia ser minha esposa, eu não tinha a menor dúvida.

Ocorre que a mamãe começou a perceber o sumiço dos mantimentos e resolveu me marcar de perto, durante minhas visitas semanais.

Uns três meses depois, ela deu o “flagra”, quando eu tentava escapulir pelo quintal com uma lata de aveia Quaker.

Na hora em que o papai chegou da refinaria, ela contou a presepada pro velho.

Depois de me dar uma surra de “sola” para eu deixar de ser ladrão, ele me levou até a casa da minha amada onde armou um acampamento de barracos.

Foi uma desmoralização federal.

Fiquei tão envergonhado e traumatizado que passei uns seis meses sem colocar os pés no cine Ypiranga.

E nunca mais tive coragem de passar em frente da casa da minha deusa.

sexta-feira, março 02, 2012

Da série todo mundo curtiu isso: Jambalaya (On the Bayou)


Por Virgilio Freire

Numa tarde de verão, há alguns anos atrás, eu estava de férias e aluguei um carro em Miami.

Dirigimos até New Orleans, na Louisiana.

Quando estávamos chegando perto de New Orleans, o rádio do carro ligado, de repente, começou a tocar um tipo de música diferente, parecido com o country americano, mas um pouco diferenciado.

E mais surpreso fiquei quando o locutor começou a falar – em francês.

Em pleno Sul dos Estados Unidos, uma rádio em francês!

Achei incrível aquilo e fui me informar mais a respeito.

Descobri que a Louisiana é o único Estado nos EUA que não adota a jurisprudência inglesa e sim as leis napoleônicas, que é um estado bilíngue, onde se fala inglês e francês, e que os descendentes dos franceses se chamam “Cajun”.

No mapa abaixo você vê a área de cultura Cajun no Estado da Louisiana.


Tudo começou em 1604 quando os franceses fundaram uma colônia chamada Acádia, no Canada, na região onde hoje se encontram as províncias de Nova Escócia, New Brunswick e Ilha do Príncipe Edward.

Primeira colônia a ser estabelecida pela França na América do Norte, ela ficava em Port-Royal, em uma pequena ilha chamada Ile-Ste. Croix.

Durante o século 17, cerca de sessenta famílias francesas se estabeleceram em Acádia.

Os colonos estabeleceram relações amistosas com os índios Mi'kmaq, utilizando as técnicas de pesca e caca dos índios.

Entre os anos 1756 a 1763, a Europa foi envolvida na Guerra dos Sete Anos, em que de um lado ficaram a Inglaterra, a Prússia, Portugal e a Irlanda, contra a França, Rússia, Suécia, Saxônia e a Espanha.

No dia 12 de Setembro de 1759, o general inglês James Wolfe cruzou suas tropas através do rio St. Lawrence, no Canadá, em frente à cidade francesa de Quebec, e enfrentou as tropas francesas na Planície de Abraham, no que ficou conhecido como a Batalha das Planícies de Abraham.

Os franceses eram comandados por Louis-Joseph, Marques de Montcalm.

Os dois comandantes morreram na batalha, mas os ingleses foram vencedores, e tomaram Quebec.

Em menos de quatro anos, os franceses haviam perdido para os ingleses todos os territórios que haviam colonizado no Canadá.


No tratado de Utrecht, em 1713, a França cedeu grande parte da Acádia, onde hoje está a Nova Escócia, aos ingleses.

Em 1754, o governo britânico exigiu que todos os cidadãos acadianos prestassem um juramento de fidelidade à coroa britânica, o que implicava em serviço militar no exercito inglês.

Os acadianos se negaram, ate porque isso comprometeria sua fé católica, já que a Inglaterra era anglicana e protestante.

O coronel Charles Lawrence então ordenou a deportação em massa dos acadianos.

Segundo o historiador contemporâneo John Mack Faragher, os ingleses fizeram o que atualmente chamamos de “limpeza étnica” na Acádia.

Cerca de 14.000 acadianos foram deportados, no que ficou conhecido como “A Grande Expulsão” (Le Grand Derangement).

Suas casas foram queimadas, suas terras confiscadas.

Famílias foram separadas, e os acadianos dispersados por todas as terras britânicas na América do Norte.

Gradualmente, alguns conseguiram emigrar para a Louisiana onde mantiveram o nome de “Acadiens” que os ingleses e norte-americanos pronunciavam como “Akeidians”.

Dessa palavra veio a abreviatura “Keijum” ou, na grafia atual, “ Cajun”.

Os Cajun da Louisiana guardam ate hoje suas raízes, sua cultura francesa, a língua, a música, a religião católica, o hábito de famílias grandes.


Em 2003, a pedido dos representantes acadianos, o governo do Canadá emitiu uma proclamação reconhecendo a deportação e estabelecendo o dia 28 de julho como data de comemoração e reconhecimento do fato.

Em 1803, a presença francesa na América do Norte foi definitivamente extinta, com a venda do território da Louisiana (muito maior do que o atual estado da Louisiana. Estendia-se desde o Canadá até New Orleans.).

Até esta data, apesar de haverem perdido suas colônias no Canadá, os franceses ainda tinham cerca de 23% do que é hoje o território dos Estados Unidos.

Napoleão Bonaparte aceitou uma oferta do presidente Thomas Jefferson e vendeu por apenas 23 milhões de dólares em valor atual todo o território da Louisiana.

A área total vendida foi de 2,1 milhões de quilômetros quadrados.

Para se ter uma idéia da extensão da área comprada pelos Estados Unidos, nela estão hoje os Estados de Arkansas, Missouri, Iowa, Oklahoma, Kansas, Nebraska e parte de Minnesota, grande parte de Dakota do Norte, quase todo o Estado de South Dakota, o noroeste do Novo Mexico, o norte do Texas, e partes de Montana, Wyoming e Colorado, e, claro, o Estado de Louisiana, incluindo a bela cidade francesa de New Orleans.

O mapa abaixo mostra a área comprada pelos Estados Unidos.


Com isso, os Cajun se tornaram cidadãos americanos, mas de novo mantiveram sua cultura, sua identidade e sua língua.

A cozinha Cajun é completamente diferente da americana, bastante apimentada, e inclui muitos frutos do mar.

Um dos pratos mais típicos é exatamente a Jambalaya, uma caldeirada de frutos do mar, cuja receita você tem abaixo.

A Jambalaya é preparada em uma grande panela onde vão frango, linguiça (andouille ou defumada), legumes, arroz, tomates, peixes, crustáceos e a santíssima trindade (cebola, salsa e pimenta verde) de todos os pratos Cajun.

Deixa-se ferver por cerca de 20 a 60 minutos, dependendo da receita.

Depois é coberta e abafada por pelo menos meia hora.

Outros pratos típicos Cajun são o Fillet Gumbo e o Etoufée, que também levam crawfish, lagosta e camarão.

Às vezes usa-se carne de jacaré (“alligator”), que é um animal presente nos pântanos da Louisiana, os “Bayous”.



Jambalaya (On the Bayou) – Letra Original

Goodbye, Joe, me gotta go, me oh my oh.
Me gotta go, pole the pirogue down the bayou.
My Yvonne, the sweetest one, me oh my oh.
Son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Jambalaya and a crawfish pie and fillet gumbo
'cause tonight I'm gonna see my ma cher amio.
Pick guitar, fill fruit jar and be gayo,
son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Thibodaux, Fontaineaux, the place is buzzin',
kinfolk come to see Yvonne by the dozen.
Dress in style and go hog wild, me oh my oh.
Son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Jambalaya and a crawfish pie and fillet gumbo
'cause tonight I'm gonna see my ma cher amio.
Pick guitar, fill fruit jar and be gayo,
son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Settle down far from town, get me a pirogue
and I'll catch all the fish in the bayou.
Swap my mon to buy Yvonne what she need-o.
Son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Jambalaya and a crawfish pie and fillet gumbo
'cause tonight I'm gonna see my ma cher amio.
Pick guitar, fill fruit jar and be gayo,
son of a gun, we'll have big fun on the bayou.

Jambalaya (On the Bayou) – Letra Traduzida

Vou embora, Joe, tenho que ir, me oh my oh
Tenho de ir, amarrar a canoa no bayou
(Bayous são mangues da Luisiana, os alagados, onde o transporte é por canoa ou em botes com imensas hélices em cima)
Minha Ivone, a mais doce, me oh my oh.
Companheiro, vamos nos divertir muito no bayou

Thibodaux, Fontaineaux, tá tudo agitado
(Observe os nomes franceses dos povoados)
O povo vem ver Ivone às dúzias
Se arrume todo, se solte todo, me oh my oh
Companheiro, vamos nos soltar e nos divertir no bayou

Jambalaya e torta de lagosta e Fillet gumbo
(filé de peixe preparado com o tempero gumbo, à base de pimenta caiena, da Luisiana)
Pois hoje à noite eu vou ver “ma cher amio”
(francês = minha querida amiga)
Pegue a guitarra, encha a jarra de ponche e fique alegre
Companheiro, vamos nos divertir no bayou

Se acomode longe da cidade, pegue uma canoa
(pirogue, em francês)
E vamos apanhar todo o peixe do bayou
Vou gastar meu dinheiro (mon) para comprar para Ivone tudo que ela precisa
Companheiro, vamos nos divertir no bayou

Jambalaya e uma torta de lagosta e fillet gumbo
Pois hoje à noite vou ver minha querida amiga
(ma cher amio)
Pegue a guitarra, encha a jarra de ponche e se alegre




NOTA DO EDITOR DO MOCÓ


Finalmente descobri uma explicação lógica para o fato de minha ex-mulher Jane Jatobá, professora de francês na Ufam (depois de mestrado, ela agora está fazendo doutorado em língua francesa, te mete!) ser capaz de fazer a melhor Jambalaya da cidade: é culinária francesa, ora bolas!

Que eu me lembre, lhe falei uma única vez, superficialmente, sobre essa espécie de risoto criollo, ela foi pra cozinha e duas horas depois nos serviu (a mim e a Tayra) a melhor Jambalaya do universo.

Caceta, Janão, mas lendo esse texto do Vírgilo bateu uma saudade miserável daquele prato.

Qualquer dia desses, vou aí em Iranduba só pra comer a sua deliciosa Jambalaya – sem duplo sentido, please!

quinta-feira, março 01, 2012

Histórias do Pai Simão


Silene, Simone, Silane, Selane, Pai Simão, Simas e eu

Com o nascimento do Simas, em outubro de 1961, a nossa família se estabilizou em seis curumins: quatro meninas e dois meninos.

Como soe acontecer nessas ocasiões, as brigas por disputa e conquista de espaço territorial começaram a acontecer.

Papai tratou logo de arrumar uma psicóloga para corrigir o mau gênio daqueles pequenos demônios.

Ela era negra, ardida e deixava marcas profundas na pele e na alma.

Tratava-se de uma sola de trinta centímetros, daquelas de amolar navalhas nas antigas barbearias, presenteada ao velho, desconfio, pelo barbeiro Doca.

Uma lapada de sola nas costas doía durante 24 horas.

Era pior do que ferrada de arraia.

A gente podia estar na maior danação, mas ao ouvirmos mamãe ou papai invocar o seu nome (“Vou já buscar a sola!”), nos transformávamos em estátuas de sal.

Talvez por ser o mais fedelho de todos, eu levei algumas surras homéricas do papai (mamãe era mais tranquila) e, ainda por cima, tendo que cumprir o cruel imperativo ditado por ele: “Engole o choro, patife, senão vai apanhar de novo!”.

O velho devia ter lido Sigmund Freud.


Pai Simão e minha mãe Celeste

Um belo dia, a mamãe se queixou para o papai de que a Silene andava “viçando”:

– Ela não pode pegar uma caixa de fósforos que come todas as cabeças dos palitos!

O papai imediatamente soltou o berro:

– Sileneeeeeeee!

(Quando um de nós ouvia aquele chamado, a pele das costas já começava a arder por puro reflexo condicionado)

– Senhor, papai? – acudiu a infante se tremendo de medo.

– A Celeste está me dizendo que tu andas comendo cabeça de palito de fósforo...

A tremedeira da Silene atingiu sete pontos na escala Richter de assombração infantil.

– Sabes o que eu vou fazer contigo? Vou te colocar dentro deste saco de estopilha e vou amarrar na cumeeira da casa, para você nunca mais fazer isso!

Dito isso, ele partiu da intenção pro gesto.

A Silene, já devidamente enfiada dentro do saco de estopa, conseguiu implorar lá de dentro:

– Não faz assim comigo não, paizinho, que eu prometo que nunca mais faço aquilo!

Papai, então, abriu o saco e deixou-a sair.

O velho devia ter lido Jean Piaget.

Nunca mais a Silene comeu uma única cabeça de fósforo, mas é a única da família que tem uma memória fotográfica – desconfio que pela quantidade de fósforo que ela comeu na infância.


Eu, Silane, Selane, Pai Simão, Silene, Simas e Simone

Sempre que podia, isto é, quando o orçamento apertado permitia, mamãe fazia um saborosíssimo pudim de leite com calda de ameixas, que meu pai comia em estado de êxtase.

Certa vez, após o jantar, com todos reunidos à mesa, a mamãe foi até a geladeira buscar a iguaria para servir o primeiro pedaço ao chefe da casa.

A velha levou um susto: estava faltando uma fatia do pudim. Desconcertada, ela avisou:

– Simão, alguém comeu um pedaço do pudim!

Sem se alterar, papai pediu que ela servisse uma fatia para cada um.

Antes que alguém tocasse no doce, ele lançou uma proposta tentadora:

– Aquele que se acusar de ter mexido no pudim vai comer todo o resto que sobrou!


Eu (com o ombro recém-operado por conta de um acidente no município de Borba), Simas e Pai Simão, no concorrido almoço dominical da família

Ninguém disse nada.

– Eu estou falando sério! – insistiu ele. “Quem se acusar, come as sete fatias que sobraram no prato...”

De olho gordo no saboroso acepipe, não tive dúvidas:

– Fui eu, papai!

– Ótimo! – disse ele. “Então devolva a sua fatia pra mesa porque você já comeu a sua, espertinho!”

E confiscou o meu pedaço de pudim.

O velho devia ter lido Melanie Klein.

O mais trágico é que tinha sido a Simone ou a Silene quem detonara o pedaço do pudim guardado na geladeira.

Eu apenas havia entrado de gaiato no navio.


Silane com os filhos Mayara e Bruno

Uma tarde, a gente estava brincando de “cemitério” (aquele jogo que consiste em acertar o adversário com uma bola de borracha e que hoje ganhou o boiolístico nome de “queimada”) no meio da rua.

Da minha equipe, o único que ainda estava “vivo” era eu.

Da equipe adversária, a Silane.

O time dela estava com a bola e tentando me “matar”.

Como em todo jogo de crianças, o cemitério tinha algumas regras pétreas: por exemplo, se você, por algum motivo, gritasse “parei!”, os adversários não podiam lhe arremessar a bola.

Você podia parar o jogo para tirar um espinho do pé, estancar um corte de vidro no calcanhar ou, simplesmente, para tomar fôlego.

Em determinado momento eu gritei “parei!”, perto da linha divisória entre as equipes, e me abaixei para tirar uma pontiaguda pedra jacaré que havia entrado no meu calcanhar.

A Silane, palmo e dentro, pegou a bola e cravou, com violência, nas minhas costas.

Fiquei louco, não pela bolada em si (que doeu pra burro!), mas por ela ter quebrado uma das regras pétreas do jogo.

Parti pra cima dela, para lhe dar umas porradas, mas ela correu pra dentro da casa e se trancou no banheiro.

Tentei arrombar a porta, aos chutes, mas o máximo que conseguiu foi perder a unha do dedão do pé.

Fiquei mais mordido ainda.

Nessa altura do campeonato, papai estava trabalhando na refinaria e mamãe na casa de uma vizinha.

Ela logo foi avisada do que estava acontecendo e veio correndo resolver a encrenca.

Acalmados os nervos, assunto esquecido, vida que se segue, eu e a Silane resolvemos “ficar de mal”, ou seja, resolvemos deixar de se falar pelo resto da vida.


Pai Simão e minha madrasta Dulce em primeiro plano. Atrás, Simas, Selane, Simone e Silane

Alguns meses depois, a história chegou aos ouvidos do papai.

Irritado, ele chamou nós dois na sala e nos colocou frente a frente para fazermos as pazes.

Limitamo-nos a nos fitar, sem esconder o ódio recíproco, como dois cowboys se preparando para sacar as armas em um duelo mortal.

O velho apanhou a sola e comandou o embalo:

– Eu quero os dois de joelhos, um de frente pro outro!

Obedecemos.

– Agora, eu quero que vocês dois se abracem e peçam desculpas um do outro!

Nenhum dos dois se mexeu.

Papai se aproximou com a sola.

Comecei a trincar os dentes, esperando pela lapada nas costas.

De repente, a Silane avançou de joelhos em minha direção, me abraçou e falou:

– Simãozinho, você me desculpa?

– Desculpo! – afirmei, já que não ia apanhar sozinho pelo fato de ela ter se acovardado.

A Silane, ainda de joelhos, voltou a se afastar de mim.

– Agora é a sua vez, patife! – rosnou o velho.

Avancei, de joelhos, em direção a ela, a abracei e pedi desculpas.

Ela me desculpou.

Depois voltei para o meu lugar.

– Levantem-se! – ordenou o velho. “Escutem bem: eu criei filhos foi para serem irmãos e não para brigarem feito cão e gato!”

Foi a última vez que briguei com as minhas irmãs.

O velho devia ter lido Friedrich Froebel.


Silene com Diego Casado no colo. Na frente, Mikaelly, João Ricardo, Thandra e Pablo Casado. 
Pai Simão está lá atrás.

Na época das vacas gordas, quando preservação ambiental era ficção científica, o papai costumava chegar em casa, de madrugada, com duas ou três tartarugas gigantescas.

Apanhadas na época da postura, as tartarugas estavam sempre abarrotadas de ovos.

O arabu, uma gemada de ovos de tartaruga à base de açúcar e canela, logo se transformou em um dos pratos favoritos da família.

Eu odiava aquilo e não comia de jeito nenhum.

Apesar de viciado em carne de tartaruga, sempre guardei uma distância prudente de ovos de quelônios.

No máximo, comia um ou dois ovos cozidos, com sal e limão.

Um dia, a Silene burlou a vigilância da mamãe e pegou meia dúzia de ovos para fazer um arabu básico.

Percebendo a falta dos ovos, mamãe imediatamente denunciou a pequena “ladra” ao velho.

Ele não deixou por menos:

– Pegue todos os ovos de tartaruga e prepare um único arabu!


Simone com a neta Juliana, filha do João Ricardo

Mamãe não se fez de rogada e preparou um arabu utilizando uns dois mil ovos de tartaruga.

Dava um panelão de 10 litros pela metade.

Papai encheu uma bacia de alumínio com a iguaria, chamou a Silene e cantou a pedra:

– Muito bem, mocinha! Já que você gosta tanto de arabu, pegue essa bacia e coma tudo! Só me devolva quando a bacia estiver limpa!

Claro que para a Silene as primeiras quinhentas colheradas foram ótimas.

Ela era louca por arabu.


Pai Simão e sua neta Mikaelly, filha da Selane

Porém, depois que a gula foi saciada, veio a ânsia de vômito.

E, alguns minutos depois, o vômito propriamente dito.

A primeira golfada deu a impressão de que um gêiser se destampara na sua garganta.

Desesperada, ela pediu penico:

– Simone, mana, Simãozinho, mano, me ajudem, por favor, senão o papai vai pegar esse arabu e me enfiar todinho goela abaixo.

Eu e a Simone fomos para o sacrifício, o que deixou o velho ainda mais furioso.

– Se os três não limparem a panela, vão levar uma surra de criar bicho! – avisou.

Mesmo trabalhando em equipe, a gente não deu conta de acabar com aquela merda.

Entramos na sola.

Eu fiquei tão traumatizado que, até hoje, se vir alguém comendo arabu, vomito até a alma.

O velho devia ter lido Adolf Hitler.