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segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Uma permanente usina de criatividade



Juarez Machado nasceu em Joinville (SC) em 16 de março de 1941.

É pintor, escultor, desenhista, mímico, caricaturista, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e designer.

Passou sua infância em Joinville na companhia da mãe Leonora e de seu irmão Edson.

Seu pai era caixeiro viajante, trabalho que o ausentava bastante do lar.

Aos 14 anos, Juarez Machado trabalhou em uma oficina gráfica, no setor de produções de rótulos de remédios, embalagens e cartazes para laboratórios.

Nesse processo de criação, entre pincéis, tintas e papéis, um profissional estava sendo formado.

Como sua cidade natal era muito pequena, com características do velho mundo (grande parte da população era de origem alemã sendo, consequentemente, sua arquitetura semelhante a da germânica), Juarez Machado resolveu explorar outras cidades, indo assim para Curitiba aos 18 anos.

Matriculou-se na Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

Logo ao se formar, realizou sua primeira individual na Galeria Cocaco de Curitiba, dando início a sua carreira de contínuo sucesso.

Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro – cidade que, como São Paulo, tinha maiores oportunidades e era onde tudo estava acontecendo – conseguindo, aos poucos, conquistar seu espaço.

Na Cidade Maravilhosa, se tornou amigo de Millôr Fernandes, Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Claudius, Zélio e de toda a turma do Pasquim, do qual se tornou colaborador.

Mudou para Paris em 1978, onde fez seu terceiro ateliê – deixando o de Joinville e o do Rio de Janeiro (ambos em atividade) – mas antes, visitou Nova York, Londres, Itália, Dinamarca, Chipre, Israel e Grécia onde tomou partido dos acontecimentos do universo artístico de cada região.

Ganhou o prêmio da 5ª Bienal de Arte da Itália, prêmio Cenários em Televisão, o prêmio “Barriga Verde” de Artes Plásticas de Santa Catarina, o prêmio Nakamori (Japão) pelo melhor livro infantil, entre outros.

Sua cidade natal, deu-lhe o título de Cidadão Honorário em 1982, e o presidente da República concedeu-lhe a Ordem do Mérito de Rio Branco, em 1990.

Entre os sucessos de suas exposições, sua única reclamação é sobre o conservadorismo dos museus que, até hoje, não valorizam artistas do Novo Mundo provocando uma certa ausência de artistas da América do Sul.

Em relação a sua vida pessoal, Juarez Machado é orgulhoso em afirmar seu forte apego à família.

Seus filhos, influenciados pela profissão do pai, optaram por seguir áreas de comunicação como produção de vídeos, cinema e TV, computação gráfica e desenhos animados.


No texto “A arte de ser artista”, Juarez Machado conta um pouco de sua história. Curtam:

O primeiro foi Fritz Alt, o segundo Eugenio Colin, ambos mortos.

Portanto, hoje, sou o mais velho artista joinvilense vivo.

Título que não tem grande valor, também não quero que beijem o meu anel e nem se ajoelhem para pedir a benção.

Apenas me dou o direito de contar uma pequena história aos jovens artistas de Joinville.

Sentindo-se ameaçados, têm medo de fantasmas e não conseguem dormir.

Traumas antigos da história de nosso povo, colonizados versus colonizadores.

Aprendi vendo isto como uma grande avenida de duas mãos.

Os negros americanos fizeram da música dos brancos – Bach, Mozart, Schubert, e outros – a melhor música do mundo, o jazz.

Na América Central, da música africana misturada à dança de salão, entre a valsa e minueto, fizeram o melhor ritmo do mundo, a salsa.

No Brasil, os escravos, com os restos da comida dos brancos, fizeram o melhor prato do mundo, a feijoada.

Toda avenida também tem contramão.

Os ingleses no começo do século passado vieram ao Brasil trazendo o futebol.

Rapidamente aprendemos e jogamos ainda melhor.

Nos tornamos “O País do Futebol”.

Hoje perdemos até para os franceses, vergonha que ainda sinto.

Éramos o País do Café, considerado o melhor do mundo, desde o século 18.

Hoje o mundo toma café no “Starbucks”, americano, com fama de ser o pior.

No período do cacau foi a mesma coisa.

Nossa música, a bossa nova, foi para os Estados Unidos e foi tomada pelos americanos.

Os músicos brasileiros estão procurando suas origens e esqueceram que já tínhamos encontrado a nossa identidade.

Perdemos mais um título.

É vendo os erros e as experiências alheias que se aprende.

Aproveitem a minha disponibilidade que é extremamente passageira.

Não vim ao mundo para impor, mas deixar transparecer.

Na beira dos meus 70 anos, com a cara cheia de rugas, cabelos ralos, barba branca, porém com todos os dentes numa boca bastante afiada, digo a frase inicial:

– A vida é um grande espetáculo, cheia de surpresas e muitas ironias.

Em 1960, lá longe na história de Joinville – e minha também –, a nossa querida cidade só tinha uma rua principal, uma igreja católica, outra protestante, dois cinemas, uma sorveteria, um bordel, dois times de futebol, alguns bares e um só hotel, sem nenhuma estrela.

O prédio mais alto da cidade era a torre do Corpo de Bombeiros, que é nosso orgulho até hoje. Duas rádios, um jornal...

Ah! sim, ia me esquecendo, um rio Bucarein, bonito e limpo, com três clubes de regatas, um movimentado porto com navios de bom calado e uma pequena praia.

Três escolas públicas e um único colégio, o Bom Jesus, somente até a oitava série e nada mais.

Universidade? Ninguém sabia o que era. Museus?... Nem pensar. Teatro?... Muito menos.

Recém-inaugurada, uma biblioteca, e na fachada, um painel do nosso primeiro artista, Fritz Alt.

Menino, fui um dos primeiros associados para ver figuras, ler e emprestar livros.

Nas prateleiras, não havia um só livro de história da arte, biografia de artista ou museus do mundo.

Nas paredes das casas dos moradores de Joinville, nenhum quadro.

Salvo uma reprodução da “Santa Ceia” de Michelângelo na sala de jantar e outra reprodução sobre a cama do dono da casa, “Jesus refletindo solitário no Monte das Oliveiras”, e na cozinha, um calendário do Laboratório Catarinense com as fotos dos Alpes Suíços.

A cidade era feita apenas de fábricas e operários, e o tempo era medido pelo apito de cada fábrica.

A palavra arte era sinônimo de “peraltice de criança”.

Cultura era confundida com tradição.

Da festa da cerveja com música tirolesa até a quermesse da igreja nos dias santos, ao som de músicas religiosas e sertanejas no serviço de autofalantes, nada de mais emocionante acontecia.

Tainha no inverno, caranguejo no verão e goiaba no pé o ano todo, e assim o tempo ia passando.

Os eventos mais próximos da cultura eram a Festa das Flores uma vez ao ano, nos salões da Sociedade Harmonia-Lyra.

Aos domingos a banda do 13° BC (Batalhão de Caçadores), tocando marchas militares e até mesmo algumas músicas clássicas no coreto da Praça Lauro Müller.

Aos 19 anos, eu já estava de malas prontas para partir em busca do meu sonho maior...

Ser um artista completo.

Pintor, escritor, poeta, escultor, desenhista, ator.

Conhecer museus, catedrais e monumentos.

Caminhar por cidades, vilas e países.

Conversar com pessoas – amigas, estranhas, professores, curiosos, poetas, sábios e loucos.

Navegar em palácios, castelos e avenidas.

Ir além da linha do horizonte e atravessar mares, rios e montanhas.

Descobrir novos paladares além da torta de banana da padaria Brunkow.

Escutar sons mais melodiosos do que o apito das fábricas.

Sentir refinados perfumes, além do Leite de Rosas que minhas primas usavam.

Ser alguém bem informado e um aluno genial da mais reputada escola de arte do mundo: a Escola de Florença.

Com uma mala de papelão, uma pasta com alguns desenhos e oito dinheiros no bolso, em pé, dentro de um ônibus da Cia. Penha, depois de seis horas de viagem, cheguei em Curitiba.

Só tinha feito 120 quilômetros.

Para chegar em Florença, na Itália, ainda faltavam dez mil quilômetros e mais tantos zeros nos meus oito dinheiros.

“Faço uma pequena parada, estou com fome”, pensei.

Na própria rodoviária comi o mais gostoso sanduíche da minha vida.

Pão com duas fatias de sardinha em lata.

Jamais esquecerei.

Foi a luz do meu caminho.

O Norte da minha bússola.

Foi o canto dos anjos.

Uma hora depois, me matriculei na escola de Música e Belas-Artes do Paraná.

Paguei adiantado dois meses por um quarto de pensão de estudantes, com direito a comida e roupa lavada... et voilà!

O começo tinha sido dado.

Por ironia, todos os meus professores tinham sido da Escola de Florença.

Eram italianos ou alemães.

Fui o último aluno desta culta geração de mestres.

Muito jovem, feliz, tinha encontrado o meu ambiente, os artistas e outros jovens que pensavam como eu.

Em Joinville, meus amigos eram filhos de operários ou filhos dos donos das fábricas.

Havia até mesmo uma certa discriminação por eu não querer ser engenheiro ou médico, e muito menos trabalhar numa fábrica.

Na minha sede de conhecer, estudei, pintei, modelei, fiz cenário para televisão e teatro, desenhei para jornais e revistas.

Fiz minhas primeiras exposições, ganhei meus primeiros prêmios em salões de arte.

Nas férias, não voltava para Joinville, apesar de ter deixado uma namorada me esperando que já estava namorando um outro, um estudante de medicina (que bom para ela).

Aproveitava este tempo para viajar. Ir para o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, centros urbanos importantes culturalmente.

Visitar museus, ir aos teatros, visitar as oficinas de gravuras em metal e pedra, me deslumbrar na Bienal de São Paulo, fazer estágios com artistas mais experientes, novas técnicas, novos materiais.


Cinco anos depois, formado pela escola de Música e Belas-Artes do Paraná, agora, com um jogo de cinco malas em couro negro e várias pastas e rolos com meus trabalhos, fui morar no Rio.

– Que maravilha!

Começar tudo de novo.

Outras amizades: cartunistas, jornalistas, arquitetos, músicos, diretores de teatro e cinema, escritores.

Todos em Ipanema ditando o novo comportamento de vida para o Brasil inteiro em plena ditadura militar.

Orgulhoso, sentia que como artista eu fazia parte da história de um novo tempo.

Revolução total.

Nas ruas, o Exército confronta com cassetetes as manifestações dos estudantes e intelectuais.

Nas praias euforia total, revolução sexual, liberação das mulheres, psicanálise, chopinho, Bossa Nova, rock e muita maconha.

Novas ideias, novas informações, novas exposições.

Joinville tinha ficado distante, porém, sempre pensava com muito amor na minha querida cidade, e se um dia voltaria para abrir uma escola de arte para os jovens solitários e abandonados artistas.

Em direção oposta, comecei a fazer minhas primeiras viagens ao exterior.

A primeira foi Israel.

Conhecer e viver a cultura de um kibutz, a vida comunitária.

De lá parti para Chipre, depois Grécia.

Tudo parecia ser um filme de grandes aventuras de viver.

Cada ano uma nova viagem: Paris, Strasbourg, Londres e Nova York.

Nunca como turista, mas como um sedento vampiro sugando todas estas culturas para depois digerir dentro de minha formação, meus valores, meus conceitos e até preconceitos e tentar ampliar os meus limites.

Hoje tenho total certeza que a arte se alimenta da própria arte.

Tal qual uma enorme serpente que começa a comer a ponta de seu rabo até chegar a sua cabeça.

Todos os movimentos artísticos – os gregos, romanos, etruscos, fenícios, arte africana, oriental, impressionista, dadaísmo, enfim, todas as correntes de todas as civilizações – , fizeram o corpo desta imensa cobra, até mesmo a arte contemporânea que já não é mais tão atual.

Tudo começou lá, na pontinha do rabo da tal serpente.

Bem longe na história, um fulano, ainda meio macaco, pintou com o dedo um bisão nas paredes de pedra de sua caverna.

Foi o primeiro pintor, muralista ou até mesmo o primeiro grafiteiro.

A maravilha da vida e da humanidade é contada por meio da arte.

A tarefa do artista é, com talento, registrá-la.

Continuei a trabalhar, viajar e vampirizar tudo que fosse possível.

Sem mais voltar para minha querida e pequena Joinville do meu tempo de menino.

Agora Florença tinha me ensinado a observar a vida, através de um microscópio ou telescópio, e fazia parte de minha rota habitual.

Já com quase 50 anos, com apenas uma pequena maleta e uma imensa bagagem artística/cultural, fui morar definitivo em Paris, terra dos artistas.

E começar tudo de novo.

É muito mais excitante disputar com pessoas maiores do que você, por que tirar pirulito de criança é covardia.

Somente para todos terem uma ideia, na França estão inscritos no sindicato (la maison des artistes) 50 mil artistas do mundo todo, e todos de alto nível.

Sem deixar por menos, mais trabalho, mais viagens, montei atelieres em Montmartre, depois Veneza, Boston, e Los Angeles.

Hoje faço de três a quatro exposições por ano em várias partes do mundo.

Publico livros, tenho vários colecionadores pelo mundo e sou chamado respeitosamente de “cher maitre”.

Voltei para Joinville somente alguns anos atrás para pintar o mural de entrada do Centreventos Cau Hansen, “O Grande Circo”.

Qual a minha grande e agradável surpresa?

Joinville tinha mudado, tinha crescido, tinha ficado culta.

Só se falava em arte, ballet, teatro, festivais, artistas, museus, escolas de arte, me senti muito feliz, Joinville tinha sido salva da mediocridade.

E eu se tivesse esperado um pouco mais, teria a escola de Belas-Artes de Florença na minha própria esquina.

Não teria sacrificado tanto minha família e principalmente o menino sonhador e solitário de Joinville.

Fico muito feliz pelos meus caros jovens artistas joinvilenses.

Parabéns, vocês conseguiram!

Não tenham medo de aprender e conhecer culturas, quanto mais melhor, para depois criarem a sua própria linguagem.

Cada um terá o seu próprio estilo.

Cultura é fundamental, e confesso: “Jamais faria o transplante do meu coração, caso fosse preciso, com um médico doutor autodidata.”

























O melhor cartunista da imprensa nanica



O compositor Moacyr Luz e Nani, com o garçom Pedro Henrique, do Lamas

Mineiro de Esmeraldas – cidade bem pequena perto de Belo Horizonte –, Ernani Diniz Lucas, mais conhecido como Nani, nasceu em 27 de fevereiro de 1951.

Nani começou sua carreira em BH, em 1971, publicando charges em O Diário.

Em 1973, mudou-se para o Rio de Janeiro. Colaborou com O Pasquim, a partir do qual, junto com seis outros artistas, criou O Pingente.

Foi também chargista do Jornal da Globo e colaborou na MAD brasileira.

No Rio, sua presença também está marcada no Jornal dos Sports (no qual “herdou” a cadeira do Henfil), Última Hora, Diário de Notícias, O Dia e na Tribuna da Imprensa.

Nani já foi premiado em Salões de Humor em Montreal, Niterói e Piracicaba. Sua revista própria é O Nanista.

É autor dos livros “Feliz e orgulhoso, envaidecido mesmo”, “Cachorro quente uivando para a lua”, “A traça de A a Z” (livro que ensina as crianças a se familiarizar com o alfabeto), “Jornal do menininho” e “Se arrependimento matasse”.

Pela L&PM já publicou “Batom na cueca”, “É grave, doutor?”, “Foi bom pra você?”, “Humor politicamente incorreto” e “Orai Pornô”.

Em entrevista a L&PM Editores, Nani fala sobre seu início na profissão de cartunista, os anos de participação no jornal O Pasquim – o mais importante veículo de oposição à ditadura militar no Brasil –, a censura na época da ditadura e a censura atual, que para ele é velada. “O politicamente correto está contaminando toda a cultura”, afirma.


L&PM – Quando você começou a desenhar e como o humor entrou nos seus desenhos?

Nani – Como profissão, eu tive um estalo quando aos 13 anos, vendo uma revista de humor chamada Vamos Rir – que publicava cartuns estrangeiros variados –, eu disse: isso eu sei fazer. Na mesma hora sentei e fiz meu primeiro cartum, com um desenho (muito ruim) de dois piratas com ganchos, um dizia para o outro: “Conheço essa região como a palma da minha mão”. A partir daí, eu desenhava freneticamente nas horas vagas, bolando cerca de quarenta cartuns por dia. Procurava temas nos cartuns das poucas revistas que chegavam em Esmeraldas, cidade do interior de Minas, e no jornal O Cruzeiro, com influência do Millôr, Carlos Estevão e do Henfil. Daí que resolvi batalhar para ser cartunista, pois eu pensava: se há tantas pessoas desenhando humor é porque isso é uma profissão.

L&PM – Você começou a publicar seus trabalhos profissionalmente em Belo Horizonte. Quando aconteceu sua aproximação com O Pasquim?

Nani – Dos 13 anos aos 18 morei em Esmeraldas. Desenhando todos os dias, eu fui de certa maneira me formando como cartunista. Quando fui para Belo Horizonte, em 1969, encontrei O Pasquim nas bancas, ano em que o jornal havia surgido. Foi uma epifania, era naquele jornal que eu queria estar um dia. Aos 20 anos comecei a publicar no jornal O Diário, de Belo Horizonte. Meu humor chamou a atenção de um editor que me convidou para ir ao Rio de Janeiro para trabalhar no O Jornal. Ao chegar lá, tive contato com Henfil, que me mandou ir para a redação do Pasquim e me colar no Jaguar. “Jaguar sabe tudo”, me disse Henfil. E eu fui encher o saco do Jaguar. Fiquei no Pasquim até o seu final.

L&PM – Como foi a sua experiência de trabalho nessa imprensa alternativa, em plena ditadura?

Nani – Minha geração cresceu com o pecado original da ditadura. Fazer charges no período era mais complicado por causa da censura. No Pasquim tínhamos que mandar o triplo de material para que, depois do feroz crivo dos censores, sobrasse material para o jornal ser feito. Não mandávamos originais porque eles vinham rabiscados com pilots – não havia respeito pela obra de ninguém. Se o Picasso mandasse um desenho que os censores não gostassem, eles rabiscariam também. Os tempos eram de terror, Ziraldo dava o nome de advogados para as esposas e namoradas dos cartunistas, para que, caso alguém sumisse, procurassem ajuda. O humor que fazíamos era humor de guerrilha. A censura era ridícula. Uma vez saiu uma notícia que dizia que no Pão de Açúcar havia urânio. Alguém escreveu uma dica dizendo que ia testar usando o contador geiger. Censuraram alegando que estavam chamando o Geisel de contador e ele era general. Alguém escreveu “uma próspera comuna mineira”. Os censores cortaram o comuna, achando que se referia ao comunismo.

L&PM – Você pode dar mais exemplos das contrariedades cometidas contra a imprensa nessa época?

Nani – O Pasquim foi bombardedo, jogaram uma bomba na casa onde o jornal funcionava. Bancas foram explodidas. Isso afetava as vendas, pois os jornaleiros se recusavam a vender o jornal. Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Fortuna, Flávio Rangel, Luís Carlos Maciel, Sergio Cabral foram presos. Outros veículos alternativos como Opinião e Movimento também sofriam por causa da censura. Mas o Pasquim foi importante porque entrevistava os exilados, apoiou a anistia e lutava desde o primeiro número contra a ditadura. Outros temas também foram lançados pelo jornal, como a ecologia. O Pasquim foi o primeiro a falar sobre a causa ecológica.

L&PM – Atualmente, existe algum outro tipo de censura?

Nani – Hoje a censura é pior porque ela é velada, é a censura do politicamente correto. Humor que pede licença não é humor. O politicamente correto está contaminando toda a cultura. Cada vez mais grupos, grupelhos, guetos, classes, pessoas públicas e privadas reivindicam imunidade contra a crítica. O humor tem que ser crítico, ora. A liberdade de opinião é cada vez mais filtrada, o que temos hoje é uma liberdade “Melita”.  Isso afeta os meios de comunicação, que ficam se cercando, adivinhando processos que podem sofrer se vão contra o politicamente correto.

L&PM – Você faz humor, escreve e faz cartuns... Como é administrar essas diversas manifestações de um mesmo talento?

Nani – Precisamos do humor para não morrer de realidade. Penso a vida através do humor. O humor é o menor caminho entre duas pessoas. A primeira coisa que o pai faz com o filho é um ato de humor: faz careta para o filho rir. Todos querem o riso através da vida, o riso que pode ser traduzido em felicidade. O espantalho é colocado na plantação não para espantar os pássaros, mas para que eles riam e achem o fazendeiro um cara legal. Como artista é o que eu gosto, levar o riso às pessoas – este riso que envolve crítica, conhecimento, poesia e simples divertimento. Daí eu expressá-lo desenhando, escrevendo para ser lido ou interpretado. Gostaria de ter mais veículos para mostrar muita coisa que tenho inédita. Minhas gavetas estão cheias. A única coisa que não fiz em humor foi escultura, mas um dia ainda pretendo fazer uma escultura engraçada.

L&PM – Como o cartum conseguiu ter um espaço tão grande na imprensa sendo, muitas vezes, contrário ao editorial?

Nani – O desenho foi importante no início da imprensa quando não havia fotos. As charges sempre fizeram parte de um jornal. No Brasil houve um tempo que ela era chamada charge editorial porque saía na página dos editoriais. Na época da ditadura, as charges diziam coisas que as matérias dos jornais não podiam dizer, daí os jornais que não tinham, passaram a ter. Quando acabou a censura alguns jornais dispensaram os chargistas. Tirando algumas exceções, a charge hoje é ilustrativa do fato do dia, poucas charges têm opinião. A charge de opinião sumiu dos jornais brasileiros, talvez já sendo um reflexo do politicamente correto. Sendo a charge uma manifestação crítica e símbolo da liberdade de imprensa, eu acho que é muito importante um jornal tê-la em suas páginas, porque mostra a independência desse jornal. A charge é a quarta leitura que o leitor faz do jornal. Primeiro a pessoa lê a manchete, depois lê a notícia, depois o comentário de um articulista ou o editorial e depois vê a charge, que é a quarta leitura e, às vezes, a mais verdadeira sobre o fato.

NOTA: para acessar o site do cartunista clique aqui


O cartunista Nani agora é do PSOL

Caro Sombra! Estive na noite de terça-feira no famoso Bar dos Cartunistas para receber, diga-se de passagem com imenso prazer, a ficha de filiação no PSOL do cartunista Nani.  O bar está localizado no alto viaduto da Borges e é parte do patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre. Nani, além de servir diariamente almoço a preço popular, é conhecido por imprimir em suas charges críticas ácidas e engajamento político. Forte abraço!

Pedro Ruas











sábado, fevereiro 16, 2013

Bem vindos à roda do Fortuna



Reginaldo José de Azevedo Fortuna nasceu em São Luís no dia 21 de agosto de 1931 e tinha como codinome o próprio sobrenome.

Considerado um dos maiores cartunistas do Brasil, ainda criança conheceu o semanário A Manhã, que se transformou em uma de suas publicações favoritas.

Aos 14 anos, após perder o pai, Fortuna mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro.

Seus primeiros trabalhos na imprensa foram publicados no final da década de 40 na revista infantil do Sesi (“Sesinho”), A Cigarra, O Cruzeiro e Revista da Semana.

No final da década de 50, o estilo inconfundível de Fortuna apareceria nas belíssimas páginas da revista Senhor.



Em 1964, às vésperas do golpe militar e em parceria com Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Claudius e Sérgio Porto, lançam o quinzenário colorido O Pif-Paf, publicação que sobreviveu até o oitavo número e serviu de base para o mais importante jornal de oposição à ditadura, O Pasquim.

Nessa época também foi chargista no jornal carioca Correio da Manhã.


Quando o Correio da Manhã foi extinto no final dos anos 60, eis que surge O Pasquim, produzido por Fortuna, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, o novato Henfil e dezenas de outros colaboradores.

No início dos anos 70, Fortuna mudou-se para São Paulo e assumiu o posto de diretor de redação da revista Cláudia, onde passou a dar conselhos às leitoras sob o pseudônimo Ana Maria.

Em seguida tornou-se editor de arte e capista da revista Veja, onde ficou até 1975.

Nesta mesma época, em parceria com Luiz Gê, Paulo e Chico Caruso, Laerte, Cláudio Paiva e Nani, Fortuna lança a revista O Bicho, pioneira das histórias em quadrinhos inteiramente nacionais e, como ele dizia, “não-enlatadas”, onde surge com a personagem “Madame e seu bicho muito louco”.

A partir de 1998, os dois personagens se transformariam no símbolo do troféu HQ Mix, o mais importante das histórias em quadrinhos do país.

Em 77, Fortuna vai para A Folha de São Paulo fundar com Tarso de Castro o suplemento “Folhetim”, uma espécie de Pasquim encartado no próprio jornal.

A partir daí inicia uma nova fase como chargista editorial.

Fortuna saiu da Folha em 84, logo depois da campanha das Diretas, e ficou um longo tempo fora da grande imprensa, retornando com charges semanais para a Gazeta Mercantil.


Foi considerado um dos 100 melhores cartunistas do mundo em 1977 pela Casa do Humor e Sátira de Gabrovo, da Bulgária.

Participou das antologias “Seis desenhistas brasileiros de humor” (Ed. Massao Ohno, 1962), “Hay  gobierno?” (Ed.Civilização Brasileira, 1964), “Dez em humor” (Ed. Expressão e Cultura, 1969).

É autor dos livros “Aberto para balanço” (Ed. Codecri, 1980), “Diz, logo tipo” (Kraft/Studioma, 1990) e “Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo, não)” (Ed. Anita Garibaldi, 1992).

Na sua série “Retratos 3X4 de alguns amigos 6X9”, Millôr Fernandes assim o definiu:
“Fortuna tem trinta e poucos anos de altura, a personalidade dele mesmo, riso hipotético, traço desconfiado e é tarado por coisas que detesta. Perfeccionista nato, entre suas descobertas estão o furo da rosca, o oco exterior e a moeda sem coroa. Profundo humorista, fica triste sempre que o levam a sério: acha que nunca foi tratado com a hilariedade que merece. Infelizmente, está com seus dias contados – 15.980 para sermos exatos.”

Millôr só não foi exato nisso: Fortuna morreu 25 anos depois, aos 63 anos, de um fulminante ataque cardíaco, no dia 5 de setembro de 1994, em São Paulo.

No 22º. Salão de Humor de Piracicaba, realizado em 1995, foi criada e concedida a Medalha “Reginaldo Fortuna” aos maiores destaques do humor da cultura do país, entre eles os cartunistas Jaguar, Claudius, Ziraldo e Millôr Fernandes, o palhaço Arrelia e a comediante Dercy Gonçalves.


Em 2009, Fortuna foi homenageado pelo 2º Salão Internacional de Humor do Rio de Janeiro como “O cartunista dos cartunistas”.

No prefácio do livro “Hay Gobierno?”, que reuniu Fortuna, Claudius e Jaguar fazendo charges contra el gobierno, Paulo Francis enche a bola de Fortuna: “Dos três humoristas, Fortuna me parece o mais político. Seu desenho é sombrio, às vezes fantasmagórico, criando a atmosfera ideal, pelo contraste, para seu ponto de ataque, sempre direto e conciso.”

Ele foi um dos maiores cartunistas (uma espécie em extinção) não do Brasil, mas do mundo. O casamento da ideia e do traço nos seus cartuns é perfeita. Na medida certa.

Perfeccionista, como disse Millôr, levava horas, às vezes dias, redesenhando ou reescrevendo. 

Escrevia tão bem quanto desenhava. A ponto de ser um dos poucos humoristas que ousou fazer trocadilhos sem tropeçar: “em terra de olho quem tem um cego, errei”, obra prima do gênero.

Quando escrevia, assinava Professor Reginaldo. 

E deles dois (Fortuna e o professor) fala Chico Caruso: “O último livro que os dois lançaram juntos, Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo não), é um livrinho pequeno e saboroso. Das conclusões a que chegaram sobre várias coisas, uma delas: não foi Cabral quem descobriu o Brasil, mas o marinheiro que gritou lá de cima da gávea “terra à vista!” O desenhista era como esse marinheiro, que via as coisas primeiro e definitivamente. O professor anotava e teorizava.”















É um homem de aço? Um avião? Não, é um Pelicano!


Irmão do falecido cartunista Glauco Vilas Boas, o engenheiro civil, cartunista e publicitário César Augusto Vilas Boas (aka “Pelicano”) já teve seus trabalhos publicados na maioria dos jornais e revistas de Ribeirão Preto, onde reside, além de ter colaborado com O Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal da Unesp, Guia das Profissões da Unesp, Correio Popular de Campinas e Jornal Comércio de Jahu.

Em 1984, ele publicou em edição nacional a revista Prato Feito pela editora NovaSampa e, em 1986, desenvolveu charges animada para a EPTV Ribeirão Preto veiculadas no Jornal Regional.

No ano de 2001 produziu a TV Pelica com charges animadas diárias para o programa Clube-Verdade.

A qualidade de seu trabalho fez com que Pelicano recebesse muitas premiações, dentre elas cinco premiações no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e o Prêmio de Melhor Cartum Nacional no Salão de Humor do Piauí.

Atualmente, ele produz charges diárias para a Rede Bom Dia de Jornais (São José do Rio Preto, Bauru, Jundiaí e Sorocaba), para o Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, para o Jornal Comércio de Jahu, de Jaú, e para o portal Movimento das Artes.


É no Jardim Ouro Branco que fica a única igreja do Santo Daime de Ribeirão Preto.

O templo, chamado Rainha do Céu, é o lugar onde os daimistas da região, cerca de 200, vão para rezar seus hinos e tomar o chá de ayahuasca (o popular Santo Daime), a fim de “viajar” em um mundo de espiritualidade.

O Daime é uma religião sincretista, com componentes presentes no catolicismo, espiritismo e umbanda.

São santos e guias espirituais, todos reunidos numa só cerimônia, embalada pelo ayahuasca.

A bebida é tida como alucinógina, mas, para os daimistas, é um simples “expansor de consciência”.

“É difícil explicar para quem nunca tomou. O cartunista Laerte fez um resumo que eu achei muito legal. Ele disse que ‘se viu lá’. E acho que é isso, com o Daime as pessoas conseguem se ver...”

A explicação é do cartunista Pelicano.

Ele é um dos dirigentes da igreja de Ribeirão Preto.

Pelicano conheceu a religião com o irmão Glauco, assassinado em março de 2010 por um frequentador da igreja Céu de Maria, em São Paulo.

Hoje, mais que um líder do Daime, Pelicano é um difusor da religião no interior do Estado.

“Antes, grupos de Franca e Ariranha vinham à Rainha do Céu. Mas eles fizeram suas próprias igrejas”.

Curtam abaixo alguns de seus trabalhos:











segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Aparecida é a grande campeã do Carnaval 2013



Com o tema “Uma Viagem pelo rio das Ykamiabas”, a Mocidade Independente de Aparecida levou o título de campeã do desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial de Manaus deste ano.

A escola levou nota máxima em todos os itens.

A apuração começou na tarde desta segunda-feira (11).

Em segundo lugar foi a vez da Unidos da Alvorada, Reino Unido da Liberdade em terceiro e A Grande Família em quarto.

A escola Presidente Vargas foi rebaixada para o grupo de acesso.

Luiz Pacheco, o presidente da agremiação prometeu dois dias de festa na quadra da Escola, localizada no bairro de Aparecida, Zona Sul de Manaus, para comemorar o título.

“Fizemos uma análise crítica dos nossos desfiles nos anos anteriores e este é o resultado de um ano árduo de trabalho. Foi um espetáculo, nós fizemos um espetáculo”, comentou o presidente.

Andança de Ciganos


A escola Andança de Ciganos foi a campeã do desfile de carnaval do grupo de acesso e ganha o direito de disputar o título no Grupo Especial em 2014, ano da Copa do Mundo de Futebol no Brasil.

Salve Jorge!

Homenagem à Nhamundá

Contando a história dos primeiros exploradores europeus que se embrenhavam mata adentro atrás das riquezas minerais das Américas, a Aparecida contou a trajetória destes desbravadores pelo rio Nhamundá, que deu nome à cidade.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Pescaria de espinhel, tarrafa e malhadeira



Áureo Petita, Jacó Rastafari, Meio Quilo, Marco Aurélio e Arlindo Jorge, no Bar do Jacó

Junho de 1973. O velho Nagib Bader estava em sua residência, na Rua General Glicério, na Cachoeirinha, em uma sexta-feira, se preparando para fazer sua oração diária do meio-dia (“Zuhr”) com a cabeça voltada para Meca, a cidade santa na Arábia Saudita, quando ouviu alguém batendo na porta da casa com violência.

Ele estranhou aquela visita em horário tão inoportuno, mas ainda assim resolveu abrir a porta e ver do que se tratava.

Era Raimundo Ribeiro da Silva (aka “Lobo”, hoje dono da boate Remulo’s e de dezenas de casas de strip-tease), na época um sujeito tarimbado na arte da sinuca e que dela fazia seu ganha-pão.

– Seu Nagib, eu preciso falar urgente com o Compadre Louro. Ele está aí?... – disparou ele, sem esconder o nervosismo.

O “Compadre Louro” era Marco Aurélio, um dos filhos do seu Nagib, outro sujeito também muito talentoso na sinuca e conhecido nas rodas de malandragem como “Louro do Pezão”.

O velho foi chamar o filho.

– Meu compadre, pegue seus tacos de sinuca que nós hoje vamos fazer uma pescaria de espinhel, tarrafa e malhadeira em Itacoatiara, onde o dinheiro está caindo no chão. Hoje é dia de pagamento das serrarias e a peãozada de lá gosta de uma sinuca valendo dinheiro. O nosso trabalho vai ser só ir lá e ajuntar a grana do chão... – avisou Lobo.

Dois outros amigos de Lobo e também verdadeiras feras na sinuca, Osvaldo Cabeludo e Franklin, já aguardavam ansiosamente dentro do carro pelo quarto elemento.

Marco Aurélio pegou sua caixa de ferramentas e fez uma única exigência:

– O primeiro filho da puta que me chamar de Louro do Pezão, eu vou quebrar o taco de sinuca na cabeça...

Seus parceiros concordaram e eles se mandaram para a Velha Serpa.

Os quatro forasteiros ficaram hospedados na Pensão São Jorge, um muquifo caindo aos pedaços, localizado perto da Rodoviária, e depois foram bater pé pela cidade.

Em uma das ruelas perto da pensão, eles descobriram o Bar do Baiano, que possuía uma mesa de sinuca tradicional, conhecida também como “Bola 7”, em que as bolas são numeradas pela cor na seguinte ordem: vermelha (1), amarela (2), verde (3), marrom (4), azul (5), rosa (6) e preta (7).

Uns 20 capiaus itacoatiarenses estavam disputando a dinheiro a modalidade conhecida como “31”: ganha quem faz 31 pontos primeiro ou perde quem “estourar” os 31 pontos.

Osvaldo Cabeludo entrou na mesa e ganhou 20 partidas seguidas.

Aí, passou o taco para Marco Aurélio, que também ganhou mais 20 partidas seguidas.

Marco Aurélio passou o taco pra Franklin, que também ganhou mais 20 partidas seguidas.

Os capiaus, desconfiados de que estavam enfrentando Lúcifer, Satanás e Belzebu em pessoa, resolveram puxar o carro antes que perdessem até as cuecas.

Com o dinheiro apurado, Lobo, que era o empresário da trinca, alugou um jipe Willys e levou seus “atletas” para o famoso lupanar Cacuruta, uma das glórias de Itacoatiara.

Ele arrendou todas as 47 prostitutas do pedaço, exigiu que elas não arredassem o pé de sua mesa e pagou biritas e tira-gosto pra quem estivesse por perto.

Farrearam até o dia amanhecer.

A pescaria de espinhel, tarrafa e malhadeira estava apenas começando.

No sábado, o quarteto voltou ao mesmo bar.

Uns 30 capiaus estavam disputando o tradicional jogo “Bola 7”, em que as bolas devem ser mortas na sequência (da vermelha à preta).

Nessa modalidade, a partida termina com a vitória de um jogador se ele fizer 61 pontos ou se houver uma diferença de pontos conforme abaixo:

Diferença de 46 pontos entre os oponentes e restam três bolas a serem encaçapadas.

Diferença de 27 pontos entre os oponentes e restam duas bolas a serem encaçapadas.

Diferença de 7 pontos entre os oponentes e resta uma bola a ser encaçapada.

Foi quando, de repente, entrou no bar o vereador Tadeu, considerado o melhor jogador de sinuca de Itacoatiara e um dos comerciantes mais ricos do município, portando sua própria caixa de ferramentas.

Ele olhou de soslaio para a mesa, abriu a caixa de ferramentas, escolheu um taco e foi logo avisando:

– Estou na próxima partida e pago dois por um. Quem a apostar 50 e me ganhar, eu pago 100...

Dito isso, Tadeu atarraxou seu taco de sola francesa, passou giz azul na ponta do taco e, em meia-hora de peleja, já havia derrotado todos os capiaus do recinto.

Osvaldo Cabeludo ficou impressionado com o jogo de Tadeu, dono de uma técnica esmerada e perfeito toque de bola, principalmente nas “puxadinhas”.

Franklin também começou a suar frio, depois que viu Tadeu matar uma bola usando três tabelas e um primoroso efeito contrário na descaída.

Vendo o nervosismo de seus dois “atletas”, o empresário Lobo sugeriu que Marco Aurélio, o mais experiente da turma, enfrentasse o campeão local.

As duas feras começaram a se pegar e os capiaus presentes concordaram em apenas assistir às partidas.

Como o vereador Tadeu apostava valores cada vez mais altos, Lobo começou a se empolgar com aquela verdadeira pescaria de espinhel, tarrafa e malhadeira, e resolveu encher a caveira de birita.

Pelos seus cálculos, a pescaria iria render, no mínimo, uns 50 mil reais (em valores de hoje) porque o vereador era marrento e estava jogando no seu próprio campo, diante de sua própria torcida.

Quando o placar das partidas estava em 7 a 2 para Marco Aurélio, Tadeu ficou com o diabo no couro e, na décima partida, saiu encaçapando uma bola atrás da outra.

Ele passou a bola rosa porque quis fazer gaiatice.

A bola estava a um palmo da caçapa, pedindo um tiro direto e o final da partida.

Tadeu meteu uma rosca transversa com quatro tabelas e apenas raspou levemente na bola rosa.

Rindo estrepitosamente, ele não se deu por achado:

– Caralho, como é que eu fui passar logo uma bola besta dessas?... Anda bem que meu adversário já está fodido... – bazofiou.

Na vez de Marco Aurélio jogar, só restava duas bolas na mesa (a rosa e a preta) e a diferença era de 26 pontos para Tadeu.

As duas bolas estavam distantes uma da outra.

Marco Aurélio enfiou um repinique gregoriano e matou a bola preta (uma jogada de risco, pra não matar a bola da vez).

A bola preta voltou pra mesa.

Marco Aurélio meteu um efeito contrário, matou a bola rosa (a bola da vez) e já ficou posicionado estrategicamente para matar a bola preta.

Aí, meteu uma crivela em zig-zag e matou a bola preta (jogada de bonificação por ter morto antes a bola rosa).

A bola preta voltou pra mesa.

Tadeu simplesmente não acreditava no que estava vendo.

Os capiaus, contritos, silenciosos, alguns rezando em voz baixa, pareciam estar em um velório.

De repente, Marco Aurélio fez uma tacada de segurança só pra desmoralizar o oponente: meteu uma puxada enviesada, que fez a bola preta ficar colada na mesa enquanto a bola branca foi parar quase dentro de uma caçapa longitudinal à bola colada.

Pra quem não manja de sinuca, a puxada consiste em um movimento anormal da bola branca, forçado por giro contrário ao rolamento natural dela, que provoca tendência de retorno em direção contrária à original e altera sua trajetória natural após o contato com a bola visada.

Tadeu ficou no famoso “pé de bucho”, primo próximo da “sinuca de bico”: pra acertar na bola colada, só usando o recurso da tabela.

Ele conseguiu fazer a jogada correta e descolou a bola preta da mesa.

Marco Aurélio só teve o trabalho de encaçapar a última bola e ganhar a partida, após realizar com maestria e frieza o famoso “golpe do 27”.

Empolgado com a reação de seu “atleta” e completamente gorozado, Lobo não se conteve e gritou em voz alta, pra todo mundo ouvir:

– Porra, Osvaldo Cabeludo, mas a gente tem de tirar o chapéu: esse Louro do Pezão é foda! Esse Louro do Pezão é foda! Eu não te falei, Franklin, que o Louro do Pezão é foda?

Ouvindo aquilo, o vereador Tadeu parou de arrumar as bolas para dar início a uma nova partida, se aproximou de Marco Aurélio e disparou à queima-roupa:

– Caralho, você é o Louro do Pezão?! O cara que derrotou Rui Chapéu, Carne Frita e Miguelzinho?! Vai te foder, porra, você é jogador profissional...

Antes que Marco Aurélio abrisse a boca, Tadeu já estava desatarraxando o próprio taco para guardar na sua maleta e dando um aviso fúnebre aos capiaus:

– Se vocês quiserem perder até as cuecas, joguem com esse homem... Só lhes digo isso: joguem com esse homem...

Aí, foi embora do bar, cuspindo fogo.

Os capiaus fizeram o mesmo.

Em quinze minutos, a cidade inteira já sabia que o famoso Louro do Pezão, campeão de sinuca da Red Zone de Manaus, estava em Itacoatiara procurando patos.

Os forasteiros começaram a ser tratados como verdadeiros leprosos nas poucas mesas de sinuca existentes na Velha Serpa: bastava eles entrarem no bar pra todo mundo ir embora.

A promissora pescaria de espinhel, tarrafa e malhadeira “micou” no mesmo dia.

O jeito foi o quarteto levantar acampamento e retornar pra Manaus.

Puto da vida, Marco Aurélio só não quebrou o taco de sinuca na cabeça de seu velho compadre Lobo porque ele estava tão bêbado que nem ia saber o que havia acontecido.

Mas os dois passaram umas três semanas sem se falar.