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terça-feira, janeiro 16, 2007

ROBERTO PIVA OU A ARTE DE TRANSGREDIR



João Silvério Trevisan (*)


A história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai, no interior do Estado de São Paulo. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961, quando tinha 23 anos. Nessa mesma época, integrou a famosa Antologia dos Novíssimos, de Massao Ohno, na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes, que depois desenvolveram uma obra poética de importância. Piva formou-se em sociologia.

Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau, costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. Foi um professor de muito sucesso, com rara vocação como pedagogo. Nos anos de 1970, tornou-se produtor de shows de rock. Piva mora em São Paulo, cidade que lhe parece apocalíptica, exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente, mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. Tem medo de avião.

Por isso, raramente se distanciou demais da capital, de onde foge sempre que pode, de ônibus ou carro, sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo, refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico, o gavião.

A genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira, formando uma mistura-fina que é única por sua erudição, mas também por sua transgressão. Começa com Dante Alighieri. Ainda na década de 60, por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poético-filosófico: marcou para sempre sua visão de mundo, sua política e sua poesia.

Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses, sobretudo William Blake, Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior.

A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo, que deixou de ser circunstancial quando, ainda na década de 60, Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido, no Brasil do período: Friedrich Nietzsche.

À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Mas nem só de espírito, nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva, que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont, recebendo a influência desses dois poetas visionários, que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias.

A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. Das vanguardas do começo do século 20, Roberto Piva absorveu lições do surrealismo, na vertente francesa de André Breton, Antonin Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. A partir de Artaud, Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida.

O dito artaudiano “para conhecer minha obra, leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna), acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra, através da onipresente marca do jazz e da bossa nova, duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. Uma é a beat generation americana, da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico, mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo.

Na década de 70, a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini, protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. Dos poetas brasileiros, essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes - com seu surrealismo intenso, expontâneo e sensorial, ao contrário dos franceses intelectualizados - e Jorge de Lima, sobretudo aquele barroco, visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico.

Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira, ambas nos arredores de São Paulo, além de Jarinu, no interior do estado, selaram sua ligação sagrada com a natureza.

Essa sacralidade é, para Piva, a única salvação possível ao mundo moderno, que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico, enquanto forças da natureza, Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza, foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade, mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé. Ele não só cultua seus orixás (Xangô, Yemanjá e Oxum), mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico, o gavião.

Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado, Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. Dois: o culto a uma erótica homossexual, resgatando para a modernidade o amor grego, como um componente de transgressão do desejo.

Tome-se, como referência, seu "Poema XIV", de 20 Poemas com Brócoli, dedicado ao Carlinhos:

"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas

coxas imberbes & brancas.

vou dilapidar a riqueza de tua

adolescência. vou queimar teus

olhos com ferro em brasa.

vou incinerar teu coração de carne &

de tuas cinzas vou fabricar a

substância enlouquecida das

cartas de amor." (20 Poemas com Brócoli, 1981)

Os traços mais presentes na obra de Roberto Piva giram em torno dessas influências ou ao menos partem delas. Trata-se, antes de tudo, de uma poética de transgressão: na abordagem, na temática e na quebra de fronteiras entre os contrários. Portanto, uma transgressão que desemboca no paradoxo - por exemplo, entre carne & espírito, vida & obra, contemporâneo & arcaico. Sua expressão poética persegue o rastilho da escrita automática de extração surrealista: recuperar para a poesia os estados primitivos do sonho e da loucura.

No caso de Roberto Piva, talvez fosse mais adequado falar em escrita delirante. Essa prática levou, também no caso do poeta brasileiro, à utilização do método da livre associação de idéias, a partir da crença na importância poética do inconsciente. Resultado: metáforas explosivas que Roberto Piva articula com estonteante propriedade. Do seu poema “A vida me carrega no ar como um gigantesco abutre”, veja-se o final delirante:

"minha dor é um anjo ferido

de morte

você é um pequeno deus verde

& rigoroso

horários de morte cidades cemitérios

a morte é a ordem do dia

a noite vem raptar o que

sobra de um soluço". (Coxas, 1979)

Ou, no início do seu "Poema VII" de 20 Poemas com brócoli, note-se a homenagem embutida numa metáfora explosiva, que mistura elementos de sensualidade contraditória:

"mestre Murilo Mendes tua poesia são

os sapatos de abóboras que eu calço

nestes dias de verão." (20 Poemas com brócoli, 1981)

Outro traço marcante na obra de Roberto Piva é o total desmantelamento da versificação métrica, influência modernista que, no seu caso, caotiza-se, na tentativa de transpor para a poética escrita o ritmo sincopado do jazz e a respiração do músico de jazz.

A rítmica entrecortada, a batida imprevista e a respiração irregular, com notas se sucedendo lânguidas, são traduzidas inclusive numa distribuição desordenada dos versos o espaço da página. Veja-se como o poema dança, neste seu "O Robot Pederasta":

"Não vale

sair

com asas

onde

o cra cra cra cra cra cra cra

cra cra cra cra cra cra

se amassava

nas

velas apagadas

quem

quer

o telhado

de lágrimas?

beberei veneno

contra

teu temperamento

alegria que se

espera

raio X de gente que

desce do alto

porta acesa

olhar inchado no escuro

Signorine, la danza della Morte è servita

algumas ficaram

LOUCAS" (Piazzas, 1964)

Depois, veio a influência do cinema. Trata-se de uma obra pontuada por cortes cinematográficos que remetem ao cinema experimental, com passagens abruptas de espaço, tempo e imagética. Confira-se neste “Ganimedes 76”:

"Teu sorriso

olhinhos como margaridas negras

meu amor navegando na tarde

batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de

fuligem

cabelos ouriçados como um pequeno deus de um salão

rococó

força de um corpo frágil como âncoras

gostei de você eu também

amanhã então às 7

amanhã às 7

tudo começa agora num ritual lento & cercados de

gardênias de pano

Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde

de São Paulo como um desejo espetacular tão

dopado de coragem

marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti

assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem" (Abra os olhos e diga Ah!, 1976)

No geral, temos uma temática muito diversificada, que parte do urbano e quotidiano, passando pelo erótico e carnal, até atingir o metafísico e o sagrado. Confira-se neste trecho do seu "Beija-flor badulaque":

"nus & feéricos/ olho no gatilho meia-lua/ nado esta

manhã a favor da correnteza/ à deriva/ no miolo do

furacão/ eu era uma Sibila entre os gonzos da lingua-

gem/ Samba-Vírus/ exus nanicos carregando cabaças

de pedra da lua no portal do meu ouvido/ cruzamento

das Avenidas Assassinato & 69/ garoto-pombinha no

balcão da lanchonete/ esperando o pernilongo da Mor-

te/ estrelas rachadas gotejam leite dos deuses/ é com

este que eu vou sambar até a Pradaria -Kamikase/ no

trecho Belém-Brasília da Teogonia" (Quizumba, 1983)

O resultado geral é uma expressão poética fragmentada, que resume exemplarmente as soluções expressivas, as inquietações e encruzilhadas da contemporaneidade. Assim, Roberto Piva inaugurou traços singulares no contexto poético brasileiro, que fazem de sua obra uma das mais originais e inovadoras dentro da poesia brasileira contemporânea. Como sempre esteve eqüidistante das escolas conhecidas, pode-se dizer que ele é sua própria escola.

Roberto Piva persegue e vive o ideal do poeta-profeta, como menciona em seu "Poema Vertigem":

"Eu sou uma metralhadora em

estado de Graça

Eu sou a pomba-gira do Absoluto".

No espelho da poesia, sua imagem é daquele que reflete, de modo nem sempre aceitável, os paradoxos da contemporaneidade, através dos seus próprios. Define-se a si mesmo como um anarquista de direita. E, muito contemporaneamente, ama as corridas de carros, ainda que criticando o culto à tecnologia. Com suas transgressões na vida e na poesia - que formam um só organismo - Piva veio para confundir.

Por ser incômodo, recebe mais pedras do que reconhecimento dos seus contemporâneos. Para não falar da conspiração de silêncio da qual sua obra poética tem sido vítima.

Como gente demais no Brasil não o conhece, encerro com mais um exemplo da sua contundência. Saboreiem este festival de musicalidade, ritmo e delírio expressivo em seu

"Piazza V", um dos poemas mais emblemáticos da sua obra emblemática:

"Oswald Spengler tem uma

porta no seu tornozelo

& nuvens através dele

limpando a pele

que projeta

um velho cachecol marrom

em seu olho

eu penso

pelos seus

líquidos compassos de sátiro

até

um cenário de músculos

impedido de esmagar

o carvão de

vidro verde

que aquece

a estrela nua de

anteontem

Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo

batendo

até

altas horas" (Piazzas, 1964)



(*) João Silvério Trevisan (Brasil, 1944). Ficcionista, ensaísta e tradutor. Autor de livros como Em Nome do Desejo (romance, 1983), Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986), e Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998). Palestra proferida na Biblioteca Mário de Andrade, 24/04/96, em São Paulo. Posteriormente publicada em Pedaço de mim (Ed. Record, 2002).

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Ultimate Fighting: Luiz Alberto Machado entrevista Ulisses Tavares


Luiz - Como você descobriu a poesia?

Ulisses - Hiii, faz muito tempo. Como fui o que hoje se chama de criança super dotada, mas, na época, apenas chamavam de pentelho - porque eu gostava mais de ler e escrever que brincar de bola - encontrei logo na poesia o refúgio para minha sensibilidade. Mas me encantei mesmo foi por volta dos 9 anos. Como estou com 52, foi no final da década de 50, século passado. Havia grande agito com movimentos de poetas declamando seus poemas em ruas, praças e faculdades. Assisti aquilo e resolvi ser como eles. Comecei a declamar em público e expor meus poemas em varais nas praças. Agora, uma outra motivação mais prática e prosaica é que eu era tarado pela professora do primário e ela se encantava com os poemas daquele garoto precoce, seu aluno. Não comi a professora, mas continuei fazendo poemas e nunca comendo ninguém por causa disso. A maioria das garotas, ontem como hoje, de coisa escrita gosta mesmo é do valor que você é capaz de escrever num cheque. Demorei décadas para conhecer as exceções. Tem uma música das Frenéticas que resume isso: "quanto mais a mulher jura/gostar de homem erudito/tanto mais ela procura/um tipo burro e bonito."

Luiz - Só poeta lê poeta? Como se dá isso a seu ver?

Ulisses - Não é nada difícil de entender. O mundo está mais democrático no acesso a informação, mas também a maioria é cada vez mais abrutalhada e insensível. Metade do planeta é shopping center, a outra metade um templo religioso medieval. Com algumas ilhas atlântidas, faróis, aqui e ali. Cúmplices e vítimas ao mesmo tempo, um jogo milenar e cruel da humanidade. Carinha que cresceu ouvindo pagode quanto tempo vai levar para aprimorar o ouvido para melodias mais ricas e elaboradas, seja clássico, jazz ou dodecafônica? A poesia é, assim, pragmaticamente falando, mais acessível aqueles que a praticam e a lêem. No jogo do mercado, então, nem tem discussão: entre um Paulo Coelho da vida e um poeta- por melhor que ele seja- fica-se com o que dá lucro imediato e certo. Principalmente aqui no Brasil onde tem uma massa de pessoas que precisa de dicionário para entender a revistinha da Mônica. E boa parte de nossa elite é analfabeta por opção. O que me faz otimista é que parece que está vindo uma nova geração que é estimulada a curtir poesia desde cedo. Meu livro de poesias para crianças, o Viva a poesia viva, da Editora Saraiva já vendeu mais de 50 mil exemplares. Também, anteriormente, o Caindo na real, da Brasiliense ficou mais de ano entre os mais vendidos e o Aos Poucos Fico Louco, da Editora Globo, esgotou rapidinho. Sem contar o Livro/Agenda da Tribo, voltado para os jovens e no qual colaboro há 13 anos, que nunca tira menos de 150 mil exemplares. Agora, alcançar o povão mesmo, fica na nossa utopia: o pão da carne é uma necessidade, o pão do espírito, a poesia, portanto, um luxo que pode esperar. Ainda bem que temos dois olhos. Um vê o futuro, o sonho, e sorri, o outro vê a realidade e chora.

Luiz - A poesia pode tornar a vida suportável ou isso é apenas um jogo de palavras no desvario poético?

Ulisses - Qualquer coisa em que a gente acredite, bote fé, curta, pode tornar a vida mais suportável. Poesia, como tudo, também é droga, também vicia. O velho Freud chamava isso de sublimação. Eu prefiro chamar de paixão. A natureza é sábia: nem tudo que a gente quer a gente consegue, mas tudo que a gente sonha é possível. A poesia é a corporificação/materialização do sonho. Orgasmo não existe apenas através dos genitais. É algo tinhoso e amplo que pode até nos acontecer por algo imaterial como a palavra escrita. Poeta que é poeta não goza apenas com o pau e buceta, goza até com a caneta. Êpa, acho que cometi um poema.

Luiz - O que você imagina que aconteceu com a poesia, foi a banalização ou você atribui uma outra causa para que ela esteja, digamos, tão ausente do alcance do leitor?

Ulisses - Isso que chamamos de leitor, a indústria cultural chama de consumidor de literatura. A poesia, dentro dos gêneros literários, hoje é o patinho feio que, mesmo sendo cisne, fica no seu cantinho, hostilizado pelos demais. Já foram os poetas mais apreciados, é certo, mas isso foi na Grécia antiga, na revolução russa, no império islâmico do tempo em que eles não espalhavam bombas e ignorância pelo mundo. Bobagem, a meu ver, ficar preocupado com isso. Melhor e mais efetivo é colocarmos a pouca leitura da poesia onde ela deve estar: no contexto da política e da educação do povo. Não dá pra poesia concorrer, e vencer, em uma cultura de bundas, materialismo, consumismo e comunicação de massa. E, também, relax: se os políticos e os membros da elite dirigente fossem como os poetas, que batalham, discutem e se preocupam pra caralho, tudo estaria melhor. O tempo que nos coube viver é assim mesmo, mudanças e trevas, bem misturadinho. Talvez um dia a revista Caras fotografe a biblioteca de alguém e esse alguém se declare orgulhoso pela biblioteca e não só pela riqueza, bíceps e silicone acumulados.

Luiz - O que você observa da poesia depois que Adorno sentenciou que não podia mais haver poesia depois de Auschwitz?

Ulisses - O ser humano é maior que seu pessimismo, mesmo quando tem uma visão deprê como quase todas de Adorno. Aquilo que denominamos poesia talvez seja a aspiração maior e mais plena do melhor que existe em nós. O homem é, sempre foi e será, uma grande tragédia e uma grande esperança. E também uma grande piada, claro. Lamentamos por Auschwitz mas não vamos deixar de fazer e apreciar a poesia por isso. Se fosse assim, a poesia teria acabado na primeira guerra e ou na primeira peste. E foram tantas, né?

Luiz - A seu ver, arte pela arte ou um engajamento na atitude do poeta?

Ulisses - Engajar, colocar, a poesia pró ou contra qualquer movimento social é sempre um risco para qualquer artista. A poesia, e a arte como um todo, é fortuita, gratuita e doidivanas. A causa pode ser boa, meritória, polarizadora, o escambáu, mas o que importa é que a poesia é que tem de ser boa, enquanto literatura, independente de seu momento ou objetivo. Pessoalmente, quanto mais leio e escrevo, mais me convenço que, de todos os métodos de comunicação, a poesia é a mais fraquinha para mudar alguma coisa na história humana. Melhor o ensaio, o jornalismo e até a propaganda, esta sim, eficiente, infelizmente. Poesia não é remédio, não precisa de rótulo e bula.

Luiz - Você é bem versátil, transita por diversas áreas. Como você concilia poeta, escritor, professor, multimídia?

Ulisses - Atualmente, fiz minha opção Robin Wood, pelos pobres, e o mais pobre que posso ajudar e conheço de perto sou eu mesmo. Vivo de/para literatura 25 horas por dia. Meu padrão de vida despencou. Ando com um Fusca 75, mas vivo de meus direitos autorais. De vez em quando, a vida material me obriga a voltar a exercer uma das minhas sete profissões. Daí eu vou, faço palestras, treino executivos, dou aulas, crio campanhas publicitárias, escrevo artigos e crônicas para revistas e jornais etc. mas volto cada vez mais rapidinho para minha paixão maior, que é escrever. Escrevo muito, agito sempre - estou com mais de 74 livros publicados. Venço pela insistência. Se os leitores não curtiram um livro, lanço outro, sobre outro tema. Meu lema é igual daquela churrascaria de Arkansas, famosa por servir o maior bife do mundo: "Se não gostar, pode comer outro grátis", he, he. Dou graças a Deus por ter sido riponga. Não preciso de muitas coisas materiais para ser feliz. Nem de ter livros. Alugo ou empresto de bibliotecas.

Luiz - Que experiência você traz das alternativas que você usa desde a geração mimeógrafo marginal até o advento da Internet?

Ulisses - A principal experiência é que, seja mimeógrafo ou internet, trabalhar e divulgar poesia nunca é fácil. Embora seja um entusiasta da Internet (já sou um dinossauro da web- afinal fui estrategista do segundo provedor brasileiro, o SBT On Line, e ocupante da primeira cadeira de pós-graduação em web na América Latina (na Fiam)- acho primordial se ler poesia em silêncio, naquela coisa mágica que só o papel proporciona. A vantagem, hoje, é de escala. Eu coloco um poema novo na rede e, em instantes, ele é quintuplicado em inúmeros blogs, chats e sites.

Luiz - Você acha que a Internet tem contribuído para a difusão da poesia? Ela tem melhorado, tem possibilitado reconhecer novos poetas?

Ulisses - Claro que sim, indiscutívelmente. A Internet, ao contrário do que achavam os profetas do apocalipse, vem ampliando a capacidade e necessidade de todo mundo, principalmente os jovens, de terem um melhor vocabulário, escreverem fluentemente, de aprenderem a ler e escrever, enfim. Mas, não nos iludamos: quem gosta de poesia, vai ter mais facilidade de encontrar poesia na net. Quem não gosta, vai fazer o que faria sem a web: procurar bundas e paus. Não há tecnologia, por si só, que faça um upgrade imediato das cabeças e espíritos. E poema ruim com flash é apenas um flash bem feito.

Luiz - A seu ver, o que há com o poeta que ele não consegue atingir melhor o público, ficando restrito às rodinhas que ainda se renova mas as caras que são as mesmas sempre em recitais, em saraus? Como ampliar esse universo? Essas práticas são antiquadas e o poeta precisa buscar novas fórmulas ou é a poesia mesmo que não chega?

Ulisses - Já fiz, e faço, trocentos recitais de poesias, de todo tipo, em todo lugar. Com música e sem música. Com teatro e sem teatro. Com pintores e performáticos e a seco. A verdade/realidade é chata mas é isso aí: poesia é coisa para iniciados. Quem não gosta, ou não está acostumado, vai preferir mesmo é um forró, um bailão, uma outra atração qualquer. Recital de poesia é igual teatro alternativo: ninguém é contra, mas ninguém vai nem amarrado. Quem tem saco pra ouvir poeta declamando, de duas uma: ou é poeta, e está louco por uma chance de mostrar também seu poema, ou é alguém que de fato curte poesia. Se é que consola, quem vai a um recital de poetas está pronto para achar aquilo bonito, e isso é bacana. Não sei sinceramente, nem como marketeiro e publicitário, como aumentar esse universo. Acho que temos tentado de tudo um pouco- misturar com vídeo, som, pintura, performance, body art etc. Mas lutamos contra um fato intransponível no atual momento: poesia ainda não dá ibope e pronto. Quem sabe, queira Deus, os ventos da fortuna mudem. Mas, dái, o mundo também terá mudado. A seu ver, o público é conservador ou a vanguarda que não encontra base em suas utopias? Vanguarda tem que ser, claro, vanguarda. Mas não deve ser prepotente. A vanguarda entende e interpreta muito bem o que a maioria, a retaguarda, não consegue entender e interpretar, nem bem nem mal nem mais ou menos. Como esperar, então, que o povo coma hoje, já, agora, os finos biscoitos que ela fabrica? Paciência, humildade e compreensão, pois, mais caldo de galinha. Quem aposta na utopia tem que esperar a viabilidade da utopia. A seu ver, que atitude ou compromisso deve ter o poeta do nosso tempo? De preferência, nenhum. O compromisso do poeta é com sua poesia. E já é o bastante se conseguir cumprir. O resto é cosmética, jogo de mercado, veleidade, ego. O que você destaca como uma excelência poética hoje? Poderia citar, literalmente, dezenas de nomes. Leminsky, Antunes, Frederico Barbosa, Ademir Assumpção, Glauco Mattoso, Bráulio Tavares, Drummond e tantos outros. Mas, quando comparo ao que se fez antes, bem antes, um Bocage, um Arentino, um Dante, um Virgílio, acho tudo muito pobrinho e tôsco. Poesia é soda mesmo. Quanto mais eu leio, mais exigente fico. Tanto que, até dos meus mais de mil poemas, eu só dou nota 5 para dois ou três no máximo.

Luiz - O que você teria a dizer aos que estão entrando hoje, engatinhando ainda, na senda da poesia?

Ulisses - Ufa, finalmente uma pergunta fácil: escrevam o que quiserem, publiquem e apresentem como quiserem, inclusive aproveitando as facilidades de edição e exposição de hoje. O único conselho que posso dar, depois de tanto tempo brigando pela poesia, e pode ser válido e ajudar é: fodam-se! Quem mandou escolherem a poesia como alternativa de vida? Poesia é a coisa mais fácil e complicada que existe. Quem quer moleza e sucesso imediato que vire cantor sertanejo. Ou político. Ou traficante. Ou coma baratas num big brother da tv.

ULISSES TAVARES: O CAIXEIRO-VIAJANTE DA POESIA


Ulisses Tavares nasceu em Sorocaba (SP), em 1950, e fez sua estréia literária em 1959, com a publicação de poemas nos jornais Folha de Sorocaba e Diário de Sorocaba. Em 1963 realizou exposição de poemas em varais, em praças públicas de São Paulo. Em 1977, publicou Pega Gente, seu primeiro livro de poesia independente e um clássico da “geração marginal”.

Em 1978, lançou o jornal/movimento Poesias Populares - O Jornal do Poeta, que teve mais de 20 edições e reuniu cerca de 350 poetas de todo país. Entre 1978 e 1990 foi editor do Núcleo Pindaíba Edições e Debates, com Aristides Klafke, Arnaldo Xavier e Roniwalter Jatobá, em São Paulo, e, de 1980 a 1985, responsável pela coluna “Notícias do Poetariado” (sobre poesia marginal), do jornal Leia-Livros.

Ulisses Tavares ficou famoso nacionalmente quando, no início dos anos 80, um personagem da novela “O Amor é nosso”, da rede Globo, inspirado nos “poetas marginais”, começou a declamar seus versos para todo o país.

No período de 1982 a 1989 publicou os livros de ficção Garcia Quer Brincar, Dias Azuis Claros e Escuros e Sete Casos do Detetive Xulé, além do álbum de quadrinhos SUBS, com desenhos de Julio Shimamoto.

Em 1994, fundou a UTI Edições Criativas. Sua obra poética abrange os livros O Eu entre Nós (1979), Caindo na Real (1984), Aos Poucos Fico Louco (1987) e Pulso (1995). Ulisses Tavares é um dos poucos polígrafos da literatura brasileira, ou seja, escreve sobre diferentes assuntos e em diversos formatos (de poesia a romances, de contos a histórias em quadrinhos, de crônicas a ensaios).

Além da literatura, ele atua como professor de criatividade aplicada à redação, propaganda e marketing, compositor, dramaturgo, roteirista de cinema e de televisão, especialista em marketing político, professor de jornalismo digital e um autor de sucesso, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos de seus livros, prestes a chegar a publicação do seu 100º livro.

Autor de "Diário de uma paixão" e "Histórias quentes de bichos e gentes", ambos pela Geração Editorial, Ulisses Tavares mora em uma fazenda ecológica próxima de São Paulo e cria cachorros da raça english springer spaniel.

A poeta Leila Míccolis assim escreveu sobre a sua (dele) obra: "Numa linguagem urbana, direta, muitas vezes óbvia, (Ulisses Tavares) questiona, provoca, agride, sem subterfúgios nem entrelinhas: quem gostar, bom proveito, quem não, se retire. Sendo seu trabalho de resistência, de denúncia, de crítica, se propõe a ser ativo - função de toda 'poesia necessária', para empregar uma expressão usual.".

Desculpe, Cecília

eu canto porque o instante existe
mas minha vida não está completa.
sinto gozo, sinto tormento,
sei que a canção não é tudo.
ainda sou gente, embora poeta.

Maravilhas da Fauna

Vacas de açougue,
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.

Maravilhas da Flora

Pinheiros natalinos sintéticos,
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.

[1,75m de não faça isso,]

1,75m de não faça isso,
68kg de não faça aquilo,
é dose:
meu irmão já nasceu adulto precoce.

[papai e mamãe]

papai e mamãe
moram separados.
como só tenho um coração,
cada um mora de um lado.

[rola a bola]

rola a bola
livre o drible
defesa surpresa
apela na canela
salta uma falta
sem tevê juiz não vê
escorrego já no prego
chute estoura pra fora
craque no ataque
quero e recupero
sede de rede
fé no pé
cara a cara
com o goleiro
pronto o apronto
chutar pra marcar
puxa vida
apitaram
o fim da partida
do gol que quase fiz
cumprimento a torcida
lembranças à mamãezinha do juiz.

Biografia

quando sozinho, sofro.
com gente, finjo.
se amado, fujo.
amante, disfarço.
permanecendo, inquieto.
calado, penso.
pensando, calo.
tocado, tremo.
tocando, recuo.
vencedor, desinteresso.
vencido, odeio.
quase morto,
vivo assustado.
quase vivo,
morro de medo.

Conteúdo

No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.

Esquizo

Tem um cara dentro de mim
Que faz tudo ao contrário:
Não temo amar, ele se borra
Sou esperto, ele é otário
Não amolo ninguém, ele torra
Acredito em tudo, ele é ateu
Sou normal em sexo, ele tarado
Agito sempre, ele fica parado
sou bacana, ele escroto
quem me faz infeliz e torto
É sempre ele, nunca fui eu.




[achada a garrafa]

achada a garrafa,
não tinha dentro gênio nenhum
para atender meus três desejos:
boca para encher de beijos
bolso onde sobrasse algum
alegria repartida à esmo.
mas tinha muita pinga
o que vinha a dar no mesmo.




Roupas

se me protegesse.
se me enfeitasse.
mas apenas me esconde.


Santo nome em vão

o ruim de ser povo
é avalizar um empréstimo novo
em Calcutá
sem nunca ter ido lá.


Poeminha Machista

lutei tanto para transformar
você de mulher em posse,
só o que consegui foi uma
ejaculação precoce.


Toque

alguma coisa estranha acontece
quando se toca em gente.
experimente.


Meditação Transcendental


para meditar,
o homus modernus ocidentalis
cruza as pernas
deixa as costas eretas
os braços relaxados
concentra a atenção num ponto
e, assim imóvel em
pensamento e ação,
liga a televisão.


Luzir


deixar crescer o amor.
olhar o amor que cresce.
pegar então o amor,
esse balão,
subir com ele até
bater a cabeça no céu.
agora, soltar o amor,
deixar subir o amor,
subir sozinho.


Daltonismo


olhe de novo:
não existem brancos.
não existem amarelos.
não existem negros.
somos todos arco-íris.


Certas Religiões


olhar para o alto.
tão alto que se tenha
um torcicolo eterno
e nunca mais se possa
olhar direto para o próximo.


UFO

está todo mundo
vendo disco voador.
mas Eu que é bom
ninguém repara.


My God

nada sei sobre a vidinha do
pernilongo que mato
indiferente na parede.
mas desconfio que era
a única que ele tinha.



Soneto desbundado

a poesia pode ser quadrada
enquadrada para sê-la
camisa-de-força rimada
fazer ouvir estrelas.

nada impede também a poesia
de não falar coisa com coisa
igual jacaré escrevendo na lousa
em vez de preta, da cor do dia.

por que não a poesia, menina
cantando detalhes simples
um beijo, pulo na piscina?

tímida, pirada, sortida
negócio de poesia é este: riiip
rasgar o coração da vida.



Religião

olhar para o alto.
tão alto que se tenha
um torcicolo eterno
e nunca mais se possa
olhar direto para o próximo.

Por um triz

a gente perde um amor por
tão pouco.
o lugar que não se foi
olhar não cruzado
rua desviada
frase não ousada
mão recolhida instantes após.
amor que perdi
quem me ensinou.



Refazendo

a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.



Sôfrego

meu medo é ficar sozinho.
abraço o primeiro copo
agarro o primeiro corpo
e amo na mais completa solidão.



Vale de lágrimas

triste sina de gerações:
perdendo o medo de trepar
descobrimos o medo de amar.



Os Jovens Bandeirantes

(Um soneto sujo de sangue)

Depois dos portugueses ladinos infantes
Enganando e trucidando ingênuos silvícolas
E depois dos destemidos bandeirantes
Esmagando cocares cabeças e clavículas

Ficou estabelecida a sangrenta tradição:
Tivemos 500 anos de branca supremacia
Levando tudo do índio que ficou na mão
Sem terra, sem árvore, sem alforria

Mas foi todo o acontecido pouco
Nesta terra de manos cruéis e loucos
Inventaram uma nova moda, por esporte

Com fogo, pedras e chutes, diverte-se a escória,
Os novos bandeirantes continuando a história,
Dando aos índios a saída de sempre, a morte.


(São Paulo, Brasil, 8 de janeiro 2003, dia do assassinato do caingangue no Rio Grande do Sul.)


quinta-feira, janeiro 04, 2007

POESIA MARGINAL: TRINTA ANOS ESSA NOITE

Chacal in Concert no CEP 20.000


Há 30 anos, a antologia "26 Poetas Hoje" reuniu expoentes da literatura brasileira. A obra provocou bastante burburinho no meio acadêmico nacional ao definir aquele que, mesmo após décadas, ainda pode ser considerado o último rótulo significativo quando se fala em poesia no país: marginal

Por Carlos Juliano Barros

Chacal já tinha tomado três ou quatro batidas de limão, o que certamente contribuiu para deixá-lo menos envergonhado. Parecia bastante empolgado com o movimento de uma feira de artes que ele e alguns amigos organizavam no espaço da livraria Muro, a pedido do próprio dono. As pessoas que perambulavam pela loja localizada em Ipanema, bairro badalado da zona sul do Rio de Janeiro, estavam entretidas com a projeção de um vídeo sobre índios nativos do Brasil. As imagens eram acompanhadas pela reprodução da batucada do Cacique de Ramos, tradicional bloco carnavalesco carioca. Não havia microfone ou qualquer outro aparelho que aumentasse a potência de sua voz. Mesmo assim, Chacal não resistiu à súbita vontade de emendar "Papo de Índio", poema de tom coloquial e dinâmico publicado em 1971, quatro anos antes daquele evento realizado em Ipanema:

"Veio uns ômi de saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepetirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistirum e nós comemu eles"


Chacal compara sua atitude à declamação de "O uivo", feita por Allen Ginsberg, em 1956, numa galeria de São Francisco. A performance do poeta norte-americano é considerada um marco para a chamada beat generation, cujos valores revolucionaram o comportamento dos jovens dos Estados Unidos no período do pós-guerra. Em busca de uma vida recheada de emoções e aventuras, eles se atiravam na estrada e atravessavam o país de ponta a ponta, preparados para o que desse e viesse. Esse movimento de contracultura surgido na metade do século 20 conquistou corações e mentes do mundo inteiro.

Impossível não reconhecer a herança do ideal beat no espírito da poesia que Chacal e seus jovens colegas do Rio de Janeiro praticavam em 1975. Afinal de contas, eles não queriam parecer com Carlos Drummond de Andrade, mas sim com Bob Dylan. Não almejavam apenas fazer poemas, mas viver poeticamente. Contudo, havia referências ainda mais fortes para compreender esse fenômeno literário que criou raízes sólidas na zona sul da capital fluminense, e que acabou se espalhando por diversas cidades do Brasil. "A nossa geração é embebida em Beatles, um lance mais hippie", explica Chacal, que também é autor de teatro, roteirista de televisão e compositor musical.

No ano seguinte à apresentação na livraria Muro, outros versos de sua autoria fizeram parte de uma antologia chamada "26 poetas hoje", organizada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda. A obra provocou bastante burburinho no meio acadêmico nacional ao definir aquele que, mesmo três décadas depois, ainda pode ser considerado o último rótulo significativo quando se fala em poesia no Brasil: marginal. "O livro levantou uma questão que precisava ser colocada naquele momento: o que é literatura? Ele irritou porque pôs em dúvida os paradigmas, derrubou explicitamente o mito da grande poesia", afirma Heloisa. Nomes conhecidos, como Torquato Neto, Waly Salomão e Ana Cristina César, figuram entre esses 26 poetas. Há outros escritores importantes que não foram relacionados, como o curitibano Paulo Leminsky, mas cuja produção também guarda semelhanças com a do grupo que compõe a antologia.

O termo "marginal" foi cunhado pela própria professora e não remete à noção de fora-da-lei, como poderia supor o leitor mais desavisado. Na verdade, ele se aplica a autores que tinham dificuldade para emplacar suas obras em editoras de grande porte. Não é à toa, portanto, que eles foram imortalizados pela expressão "geração do mimeógrafo", já que se valiam dessa máquina para levar ao público consumidor, de forma ágil e barata, livros de pequena tiragem bancados por conta própria. Entretanto, "26 poetas hoje" é emblemático porque fez justamente o contrário: abriu as portas do mercado editorial para a maioria dos que participaram da antologia. Além disso, marginal era aquele que traduzia em versos de postura anti-intelectual os problemas do seu cotidiano, revelando sintonia com as mudanças políticas e comportamentais por que passava o país. Uma época de repressão e censura impostas pelo governo militar, mas também um período de assimilação da cultura pop, que o Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil ajudou a introduzir.

É necessário fazer uma importante ressalva ao se analisar essa produção literária que marcou os anos 70. Falar de poesia marginal não implica falar apenas de jovens inebriados por cinema, cartoons e shows de rock. Ela não diz respeito somente a pessoas como Chacal e Charles, que organizavam bem freqüentados recitais – as famosas "artimanhas" – e mergulhavam de cabeça no ambiente de psicodelia típico daquela década. A antologia lançada por Heloisa Buarque de Hollanda é prova disso. Constam dela escritores de pelo menos três gerações diferentes, com valores e ideais distintos, mas que se irmanavam pela insatisfação com os anos de chumbo da ditadura. Também se aproximavam pela utilização de "uma comunicabilidade direta, uma linguagem cotidiana e nada rebuscada para expressar aquela realidade", explica Flávio Aguiar, professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP), que também participou dos "26 poetas hoje".

Por essa razão, soaria falso caracterizar a poesia marginal como um movimento. Até porque não se percebe uma unidade ideológica, muito menos a manifestação de receitas sobre o modo de se fazer literatura – como propunham os modernistas de 1922, encabeçados por Mario e Oswald de Andrade, por exemplo. Tratava-se da partilha de um sentimento comum sobre uma realidade hostil. "A grande qualidade da antologia da Heloisa foi revelar alguns poetas, mas o defeito consistiu em colocar um rótulo em pessoas muito diferentes que estavam produzindo na mesma época. Eles não se vêem como um grupo", garante Viviana Bosi, professora da USP.

Liberdade e repressão

Há quem diga que o ano de 1968 não acabou até hoje. Em Paris, durante o mês de maio, centenas de milhares de jovens europeus tomaram as ruas da cidade com um objetivo no mínimo ambicioso: mudar o mundo. Protestavam contra a manipulação exercida pelos meios de comunicação de massa, lutavam pelo fim das discrepâncias entre homens e mulheres, defendiam a preservação do meio ambiente. Enfim, clamavam por uma sociedade mais justa e, acima de tudo, livre.

No Brasil, as manifestações de Paris também ecoaram para valer e apimentaram o já temperado caldeirão político da época. O país havia completado quatro anos sob o domínio da ditadura, e a pressão social pela redemocratização se acentuava. No campo das artes, Chico Buarque, com sua peça de teatro "Roda Viva", e Caetano Veloso, através de sua canção "É proibido proibir", funcionavam como porta-vozes dos críticos do regime militar. Entretanto, em reação à crescente insatisfação popular, o general e presidente da república Costa e Silva assinou o Ato Institucional de n°5 (AI5), no apagar das luzes de 1968. Imediatamente, começou um nebuloso período de perseguições e repressão aos inimigos do governo.

As mídias de grande circulação e as manifestações culturais de massa, como o cinema e a música, sofreram mais com a censura dos órgãos militares do que a literatura. "A poesia nunca foi formadora de opinião, e não tinha o poder de fogo das outras artes. Por isso, não existia tanto controle. De qualquer maneira, ela agregou muita gente nos anos 70. Os recitais eram muito concorridos. Hoje isso é impensável", analisa Heloisa. A poesia marginal também seguiu a trilha aberta pela imprensa alternativa, de que se destacam os jornais "Opinião", "Movimento" e "Pasquim". "Havia um clima muito receptivo no país a esse tipo de publicação devido à censura. Era uma forma de resistência cultural contra um mercado editorial considerado anacrônico e contra o controle imposto pelo regime militar", conta Flávio Aguiar.

O florescimento da poesia marginal é fruto do choque entre a atmosfera repressiva, no plano político interno, e a metamorfose comportamental que se verificava em esfera mundial. "Imagine o que é ter 17 anos em 1968, com a ditadura comendo solta? Meu pai foi preso depois do AI5. Aí aparecem o movimento hippie, o festival de Woodstock. Eu precisava de um canal para responder a todas essas informações, e o canal foi a palavra", conta Chacal. Havia um tom de desilusão no ar com relação aos métodos tradicionais de luta pregados pela esquerda – que não pareciam a resposta adequada à violência dos novos tempos. Por outro lado, a liberdade individual defendida pelos jovens de Paris era um convite à rebeldia, não à revolução.

"Foi um momento de demolição de dogmas, uma resposta aos que acreditavam, com a melhor das intenções, que o intelectual era irmão do operário para fazer a revolução. O que os dois tinham em comum? Ambos estavam fora do centro social, mas cada um se encontrava isolado no seu mundo", argumenta Viviana Bosi. O clima de desilusão e de crítica a esse discurso em certa medida populista é evidenciado por um poema de Charles intitulado "Perpétuo Socorro":

"O operário não tem nada com a minha dor
Bebemos a mesma cachaça por uma questão de gosto
ri do meu cabelo
minha cara estúpida de vagabundo
dopado de manhã no meio do trânsito
torrando o dinheirinho miúdo a tomar cachaça
pelo que aconteceu
pelo que não aconteceu
por uma agulha gelada furando o peito"

A ânsia de viver desregradamente, com cara de vagabundo dopado de manhã, rendeu à geração de 70 o adjetivo de "desbundada" – trocando em miúdos, um grupo que queria tão somente curtir a vida. Mas não eram apenas os jovens que enxergavam a necessidade de repensar os métodos de militância política, ao fazer do próprio cotidiano a arma de protesto contra o status quo. Na verdade, a poesia marginal nasceu da aliança entre esses poetas influenciados pelo modo de vida alternativo da contracultura americana e os escritores que vivenciaram o clima de disputa política profundamente ideologizada da década anterior. "Ao ler Chico Alvim (um dos "26 poetas hoje"), que era marxista convicto, percebe-se que ele acha que a retórica do Partido Comunista não tinha mais eficácia para a situação que se armou. Enxerga-se a vontade de buscar uma saída, mas não a saída da revolução comportamental, como fez a geração do desbunde", afirma Heloisa.

Traços estilísticos

À primeira leitura, a poesia marginal dos anos 70 parece resgatar propostas formuladas pelos escritores que redefiniram os rumos da literatura nacional na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo: versos com toque humorístico e linguagem coloquial, que revelam pouca preocupação com a métrica ou com a rima, e que retratam situações bastante cotidianas. Entretanto, os marginais foram além nessa vontade de casar poesia e vida, deixando de lado o politicamente correto e se valendo do efeito libidinoso e dos palavrões – tão corriqueiros, diga-se de passagem, nas conversas entre as pessoas. É o que se pode ver nos versos de "Epopéia", de Cacaso, professor universitário que exerceu uma certa liderança entre os marginais, conquistando admiradores e popularizando esse tipo de produção no meio acadêmico:

"O poeta mostra o pinto para a namorada
E proclama: eis o reino animal!
Pupilas fascinadas fazem jejum"

Abordar temas terrenos e subjetivos consistia numa crítica ao que era considerado cânone na época, como a poesia de João Cabral de Mello Neto, por exemplo. Na concepção de alguns marginais, a literatura do mestre pernambucano tinha um caráter muito maquinal e tecnicista, com versos bem acabados, porém pouco antenados ao dia-a-dia. Também representava uma alfinetada no projeto estético do concretismo, criado pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari, que defendiam a "morte" do verso convencional ao darem mais importância para a espacialização das palavras na transmissão de uma mensagem – uma poesia que privilegiava os efeitos de caráter visual. Além disso, os marginais não se enquadravam no engajamento político-partidário da poesia produzida nos moldes prescritos pelo Centro de Cultura Popular, da União Nacional dos Estudantes (UNE), durante a década de 60.

Mas, se a opção por uma linguagem coloquial e temas pouco complexos já havia sido praticada pelos modernistas, e se a crítica à conjuntura política também já tinha sido feita antes, o que de fato singulariza os marginais? Pode-se dizer que eles "desengravataram" a poesia, que desceu do pedestal e passou a freqüentar ambientes não tão eruditos. O público fiel, composto principalmente de universitários que freqüentavam a zona sul do Rio de Janeiro ou os cinemas de São Paulo, identificou-se com aquela maneira espontânea e inocente de peitar as grandes editoras. "Era difícil entrar no mercado. Mas, com o avanço das técnicas gráficas, fazer um livro de poucas páginas ficou barato, e o mimeógrafo se tornou a forma mais simples de reprodução. Havia dificuldade para comercializar, e isso passou a ser feito de mão em mão, pelo próprio autor, nas portas de restaurantes e teatros. A princípio era uma alternativa, depois virou uma opção de recusa ao mercado tradicional", acrescenta Flávio Aguiar.

Legado

Quando Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia estremeceram a cena da música popular brasileira com a Tropicália, no final da década de 60, estava claro que esse movimento descendia diretamente da Antropofagia criada por Oswald de Andrade, quarenta anos antes. A idéia de devorar as influências culturais vindas de fora, misturando-as ao pastiche de ritmos e expressões genuinamente tupiniquins, demorou a ser digerida pela esquerda tradicional no país. O som da guitarra era visto como uma verdadeira afronta aos valores nacionalistas e por isso causou tanto alvoroço na época. Com a mesma ânsia que Caetano e Gil beberam da fonte de um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, os poetas marginais da década de 70 também se apropriaram do canal de cultura pop desbravado pelos tropicalistas.

O piauiense Torquato Neto, que pertencia à linha de frente daquele movimento, é um dos grandes responsáveis pela disseminação dos novos valores que deram o tom da produção literária desenvolvida ao longo dos anos de chumbo da ditadura. Por essa razão, é considerado um dos pais da poesia marginal. Entre 1971 e 1972, ele assinou a coluna "Geléia Geral" no jornal "Última Hora", com textos que refletiam a efervescência contracultural que já havia contaminado outras áreas, como as artes plásticas. Não é por acaso, portanto, que a homenagem eternizada pelo slogan "seja marginal, seja herói", feita por Hélio Oiticica ao traficante Cara de Cavalo, morto pela polícia em 1966, é considerada uma metáfora da aura inquieta daqueles anos.

Apesar de se encontrarem autores independentes em diversas partes do Brasil, como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, a poesia marginal na verdade é um fenômeno bastante localizado, uma febre que assolou a classe média e universitária, que freqüentava a zona sul do Rio de Janeiro. "Não acho que existisse um grupo coeso de poetas, mas pelo menos havia um grupo. Isso também era devido à liderança exercida pelo Cacaso", afirma Flávio Aguiar. Foi nessa região da capital fluminense que surgiram círculos de autores que se reuniam para lançar publicações de poesia, como a revista "Navilouca" e a coleção "Frenesi", produzidas com recursos próprios e vendidas de mão em mão. É no Rio de Janeiro também que surge a Nuvem Cigana, um grupo formado não só por poetas, como Chacal e Ronaldo Bastos – parceiro de Milton Nascimento em diversas composições –, mas também por pessoas como o cantor Paulinho da Viola e o jogador de futebol Afonsinho, que se reuniam para organizar artimanhas e eventos culturais de todo tipo.

Atualmente, o legado da poesia marginal pode ser visto sob diversos ângulos. No campo específico das letras, o número de teses acadêmicas sobre autores como Chico Alvim e Ana Cristina César só fazem crescer. "É bastante irônico. Na década de 70, eles não eram considerados literatura, mas hoje são parte do cânone, viraram oficiais", afirma Heloisa. Outros buscaram novas formas de expressão artística e acabaram migrando para a televisão, como é o caso de Chacal e Charles, que se tornaram roteiristas da Rede Globo. Além disso, diversas composições de sucesso, consagradas nas vozes de cantores bastante populares como Edu Lobo, Moraes Moreira, Lulu Santos e Adriana Calcanhoto, foram feitas em parceria com os poetas marginais.

É difícil resumir o espírito alvoroçado daquela época, em que a poesia preencheu uma parte do vazio deixado pela repressão ostensiva aos movimentos organizados de contestação política. Os marginais oscilam entre a necessidade de se libertar e a tensão por não se deixar controlar, mas todos são reféns das suas individualidades, o que impossibilita qualquer generalização. "A poesia marginal é um saco de gatos", brinca Chacal. Talvez também seja "como se todos estivéssemos escrevendo um poema a mil mãos", como escreveu Cacaso.


(Publicado na revista Repórter Brasil em 30 de janeiro de 2006)