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sexta-feira, julho 20, 2018

Millôr Fernandes, o melhor humorista do Planeta


Considerado um dos maiores frasistas brasileiros, Millôr Fernandes morreu no dia 27 de março de 2012, aos 88 anos. Ele sofreu um acidente vascular cerebral em sua casa, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, durante a madrugada. Segundo o filho de Millôr, Ivan Fernandes, em entrevista ao G1, o escritor teve falência múltipla dos órgãos. 
De acordo com a família, o corpo do escritor foi velado no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária do Rio, e depois cremado. Millôr Fernandes era o único irmão do jornalista Hélio Fernandes. Ele deixou mulher e dois filhos.


Jornalista, escritor, ilustrador, dramaturgo, fabulista, calígrafo, humorista, desenhista, tradutor de Shakespeare, Molière e Brecht, inventor do frescobol, vice-campeão mundial de pesca ao atum na Nova Escócia em 1953 e “medalha de ouro no concurso para ele mesmo” (como uma vez se definiu), Millôr Fernandes foi, ao longo de mais de sete décadas de carreira, uma figura pública única no Brasil.

Um frasista brilhante que via no humor “a quintessência da seriedade”, como gostava de resumir, Millôr passou grande parte da vida profissional ameaçado pela censura — e debochando dela em comentários que iam do nonsense à crítica social aguda no espaço de poucas palavras.

Com passagens marcantes por veículos como O Cruzeiro, O Pasquim e Jornal do Brasil, entre muitos outros, ele participou de algumas das principais transformações da imprensa brasileira no século XX e se tornou um dos mais queridos cronistas do país.

Filho de Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes, Millôr Fernandes nasceu no Méier, bairro da Zona Norte carioca ao qual só se referia como “Meyer”, em 16 de agosto de 1923. A data de nascimento que constava de sua carteira de identidade, no entanto, era 25 de maio de 1924.


Outra confusão deu o nome com que se tornou conhecido. Seus pais queriam chamá-lo de Milton, mas o nome, escrito à mão, acabou lido e registrado no cartório como Millôr. Ao descobrir o engano, já com 17 anos, resolveu adotar a nomeação acidental.

Perdeu o pai e a mãe cedo, e a orfandade, dizia, o fez chegar não só à conclusão de que Deus não existe, como lhe proporcionou o que ele chamou de “a paz da descrença”: “Você nunca viu 10 mil incrédulos invadirem o país de outros 10 mil incrédulos para impor sua descrença”, escreveu, muitos anos depois, para defender sua posição.

Ainda jovem, começou a ler quadrinhos (aos quais, mais tarde, se referiria sempre como sua “maior influência intelectual”) e, logo, a fazer tiras e desenhos.

Em 1938, ganhou um concurso de crônicas da revista A Cigarra, onde foi trabalhar com o editor Frederico Chateaubriand.


Num dia em que um anunciante não enviou as quatro páginas de publicidade prometidas, Chateaubriand encarregou o jovem recém-chegado de preencher o espaço em branco: Millôr assinou como Vão Gogo e o sucesso foi tanto que o pseudônimo ganhou espaço permanente na coluna “Poste escrito”. Foi o início de um sucesso editorial sem precedentes na imprensa brasileira.

Após um período como diretor de A Cigarra e O Guri e colunista no Diário da Noite, Millôr foi em 1941 para O Cruzeiro.

Sua coluna “Pif Paf”, ainda assinada como Vão Gogo, dividia as páginas da revista com as reportagens de David Nasser (que Millôr definia como um péssimo caráter, mas um grande talento), as fotos de Jean Manzon (responsável pelas únicas imagens feitas do bailarino Nijinski internado no hospício), e desenhos de Carlos Estevão e Péricles, criador do “Amigo da Onça”.

Nessa fase, a circulação da revista saltou de 11 mil para 720 mil exemplares. Só por ter feito parte desta equipe, Millôr já teria garantido seu nome na história da imprensa e do humor brasileiros.


Mas conseguiu outras façanhas, graças ao seu espírito independente e crítico, que lhe renderam tantos problemas quanto admiradores: a saída de O Cruzeiro, em 1963, foi provocada por uma sátira ao Gênesis.

Sua “Verdadeira História do Paraíso”, em que ele critica Deus em verso (“essa pressa leviana/ demonstra o incompetente/ fazer o mundo em sete dias/ com a eternidade pela frente”) foi atacada em editorial publicado na própria revista, enquanto o humorista estava de férias.

Àquela altura, chamar Millôr de humorista era reduzir o alcance de suas atividades.

Ele já tinha se iniciado no ofício de tradutor de peças que o levaria a verter para o português um total de 74 obras teatrais, entre elas Hamlet, de Shakespeare, O Jardim das Cerejeiras, de Tchekov, Assim é se lhe Parece, de Pirandello e Antígona, de Sofócles.

Sua primeira peça, Uma Mulher em Três Atos, estreou em 1953.


Na mesma década, com um grupo de amigos de praia, ajudou a criar o frescobol, uma das criações de que mais se orgulhava. Num mosaico de azulejos de sua autoria na Praça Sarah Kubitschek, em Copacabana, homenageia a atividade: “único esporte com espírito esportivo, sem disputa formal, vencidos ou vencedores”.

Depois da saída de O Cruzeiro, Millôr continuou a variar suas atividades. Criou um quadro na TV Excelsior, Lições de um Ignorante, censurado por Juscelino Kubistchek (“Fui censurado por todos os governos, com exceção do Dutra”, disse ele em uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no fim dos anos 80).

Transformou a Pif-Paf em revista, mas a censura e a repressão após o golpe militar de 1964 fizeram com que a publicação fosse fechada após poucos números.


A experiência justificou o pessimismo do artigo de estreia em O Pasquim, semanário criado em 1969 por um grupo de jornalistas que não conseguia espaço para publicar, como o cartunista Jaguar, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Ivan Lessa e Tarso de Castro: “Se este jornal for independente, não dura três meses. Se durar três meses, não é independente”.

O Pasquim durou mais do que três meses, e manteve a independência — o que fez Jaguar classificá-lo de “o verdadeiro milagre brasileiro”.

O semanário tornou-se um sucesso por atacar a ditadura com uma ironia que muitas vezes escapava aos censores e espalhou para o resto do país o espírito do que se convencionou chamar de “a patota de Ipanema” — até o censor do jornal, de certa forma, orbitava em torno da aura do bairro: o militar era pai de Helô Pinheiro, que inspirou a música “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

A maior parte da equipe ficou dois meses presa no fim de 1970 — e Millôr, um dos que ficou de fora, assumiu a direção do jornal e tornou-se também ghost-writer dos colegas, escrevendo algumas seções no estilo deles, como forma de evitar que a publicação parasse, durante o que se chamou de “gripe do Pasquim”.


Millôr podia parecer subversivo para os militares — mas não aceitava de imediato qualquer novidade que parecesse uma subversão das regras vigentes, se não fosse bem justificada.

Foi por isso que o autor teatral de É... (grande sucesso de Fernanda Montenegro) desconfiou de Antonin Artaud e desdenhou do teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa. E o admirador de Bernard Shaw, defensor da liberdade das mulheres, criticou o movimento feminista.

O fundamental era manter a liberdade de pensar, para o escritor que, àquela altura, já escrevia para a revista Veja (da qual seria colaborador de 1968 a 1982 e, depois, de 2004 a 2009) pensamentos como “O natal vem aí: QUE HORROR”.

Quando o número 300 do Pasquim foi apreendido por ordem do então ministro da Justiça, Armando Falcão, em 1975, Millôr defendeu que Falcão fosse o alvo preferencial das sátiras do número seguinte.

O resto da equipe discordou, e ele deixou o jornal.


Foi também por não querer transigir com os diretores da revista Veja na campanha eleitoral para governador em 1982 — a primeira eleição direta para o cargo executivo desde 1964 — que Millôr saiu da Veja.

A revista queria que ele não defendesse a candidatura de Leonel Brizola e ele recusou-se (mais tarde, não se deteve em criticar o líder pedetista).

Mudando para o Jornal do Brasil, publicava charges, pequenos textos e poemas em um espaço quadrado na página de opinião do jornal.

Foi a partir do quadrilátero que acompanhou e criticou a transição do regime militar para a Nova República, e, empossado José Sarney como presidente, dedicou-se a atingir o político maranhense onde mais doía — na sua atividade literárias.

Quando Sarney publicou Brejal dos Guajás, Millôr ironizou frase por frase o início do romance, empenhado em demonstrar como nenhuma delas fazia sentido.


Ao lado de Sarney, Fernando Henrique Cardoso foi outro presidente alvejado pela produção intelectual — o alvo foi sua obra mais famosa, “Dependência e desenvolvimento na América Latina”.

As sátiras aos dois foram reunidas em “Crítica da razão impura ou o primado da ignorância” (L&PM).

“Fernando Henrique, o Lula barroco”, foi como se referiu certa vez ao ex-presidente, para irritar tanto petistas quanto tucanos.

Desenhista admirador de Saul Steinberg, Millôr teve exposições dedicadas a sua arte visual no Museu de Arte Moderna em 1957 e 1977, foi um dos primeiros artistas gráficos a usar o computador para suas criações, e migrou sem problemas para a internet: criou um site e, nos últimos tempos, havia aderido ao Twitter.

Em seu perfil, seguido por mais de 350 mil pessoas, distribuía as frases que o tornaram famoso, ou que adquiriram fama própria, longe do autor. Eis algumas delas:


“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”
“O otimista não sabe o que o espera”
“Eu também não sou um homem livre. Mas muito poucos estiveram tão perto”
“Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade”
“Brasil, condenado à esperança”
“Brasil; um filme pornô com trilha de Bossa Nova”
“Todo homem nasce original e morre plágio”
“O dedo do destino não deixa impressão digital”

“Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”
“Repito um velho conselho, cada vez mais válido, sobretudo pro Congresso: Quando alguém gritar “– Pega ladrão”, finge que não é com você”
“Quando os eruditos descobriram a língua, ela já estava completamente pronta pelo povo. Os eruditos tiveram apenas que proibir o povo de falar errado”
“A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida. E cada dia fica mais velho”
“Não devemos odiar com fins lucrativos. O ódio perde a sua pureza”
“Um Homem só é completo quando tem família; mulher e filhos. Desculpe: completo ou acabado?”
“Deus é realmente um ser superior. Não há nada nem parecido no Governo Federal”
“Prudência: E devemos sempre deixar bem claro que nenhum de nós, brasileiros, é contra o roubo. Somos apenas contra ser roubados”
“Feliz é o que você percebe que era, muito tempo depois”
“Aprenda de uma vez: Se você acordou de manhã é evidente que não morreu durante a noite. A felicidade começa com a constatação do óbvio”

“Nem só comer e coçar é questão de começar. Viver também”
“Os ateus têm um Deus em que nem eles acreditam”
“O melhor do sexo antes do casamento é que depois você não precisa se casar”
“Tudo na vida tem uma utilidade – se não fosse o mau cheiro quem inventaria o perfume?”
“Voto de pobreza, obviamente só pode ser feito por rico”
“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”
“O problema de ficar na fossa é que lá só tem chato”
“Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor”
“Se durar muito tempo, a popularidade acaba tornando a pessoa impopular”
“Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira pra matar”
“O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda”
“A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades”
“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”


“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”
“O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima”
“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”
“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”
“De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência”
“Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”
“Se todos os homens recebessem exatamente o que merecem, ia sobrar muito dinheiro no mundo”
“Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos”
“O mal de se tratar um inferior como igual é que ele logo se julga superior”
“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é”




Sergio Porto, o melhor humorista das Américas


Sergio Porto com suas três filhas

O cenário é um café. Um alemão “forte pra cachorro” está tomando umas e outras. De repente, ele provoca: “Aqui dentro não tem homem pra mim!” Um turco, igualmente forte, se apresenta, leva um murro e vai ao chão. Então um português, ainda mais forte, parte pra cima do alemão.

A mesma coisa: um murro e o lusitano tomba sem sentidos. Depois foi a vez do inglês, do francês, do norueguês apanharem. E sempre depois de nocautear um desafiante, o alemão repetia que ali não tinha homem pra ele. Até que um brasileiro magrinho levantou-se lá no fundo, perguntou “é comigo?”, o alemão disse “pode ser”, e o brasileiro foi chegando cheio de ginga pro lado do teutônico, parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma traulitada na cabeça que o deixou arrebentado.

A história acaba aí “que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros”. Este é um resumo da crônica “Vamos acabar com esta folga”, do Stanislaw, a fina flor dos Ponte Preta, publicada em Tia Zulmira e Eu, seu primeiro livro. Ele não suportava esse defeito do brasileiro de ser assim tão folgado.


Se existem coisas que contando ninguém acredita, o carioca Stanislaw Ponte Preta é uma delas. Ele nasceu robusto de zombaria e irreverência em 1951, na redação do Diário Carioca. Jacinto de Thormes deixara vaga a coluna social do jornal e Sérgio Porto foi convidado a ocupá-la. Sérgio não aceitou, mas criou (com a ajuda de Rubem Braga, dizem) o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (inspirado no Serafim Ponte Grande, livro de Oswald de Andrade), para que “Stan não prejudicasse o Sérgio. Isto é, eu, Sérgio, queria escrever coisas sérias; o Stanislaw deveria abordar assuntos inconseqüentes”. A apresentação de Stanislaw ficou assim:

Tremei, cronistas menores, moçoilas que volitais em nossas ribaltas, regozijai-vos! Eis que cá está o mais vivo dos Ponte Preta, o mais fero dos colunistas, o mais noticioso dos noticiadores. Nada puderam contra mim as manobras golpistas que tramavam a derrubada daquele que representa a vontade popular. Stanislaw, exilado em si mesmo, para evitar despesas de viagem, esperou o momento oportuno e aqui está, para gáudio de seus leitores, empunhando sempre em defesa do interesse comum, a sua intemerata e brilhante pena: uma intimorata Remington semiportátil! E após esse intróito tão impregnado de modéstia, no estilo dos colunistas modernos, Stanislaw passa, muito a contragosto, a falar dos outros!

E como falou! Desancou todo mundo. O Lalau era fogo na jacutinga. Ele se dizia um “humorista a sério” e definia seu estilo como “lírico-espinafrativo”. Falava tudo na bucha e não fazia prisioneiros. Gozava até dos “coleguinhas” de imprensa. O colunista social Ibrahim Sued era seu alvo favorito e Lalau não perdia a chance de espinafrar o “famoso escritor líbano-carioca”:

Imaginem vocês que Ibrahim – agora em viagem pela Europa, para desmentir definitivamente a máxima “quem viaja aprende” – vem de publicar uma notinha das mais importantes. Diz o mestre de Jeff Thomas, o inspirador de Pouchard, que andou conversando com o Duque de Windsor. Para castigar um pouco de modéstia no seu escrito, o famoso dramaturco explicou que não conversou em português, o que, aliás, deve ser verdade, pois o duque fala um pouquinho de português, mas Ibrahim não.


O Festival de Besteira que Assola o País – FEBEAPÁ, para os íntimos – começou a ser anotado no livro Garoto Linha Dura, de 1964, o ano da “redentora”, que era como Stanislaw chamava a revolução militar, que deu um grande impulso ao Festival. Dois anos depois, o febeapá ganhava um livro próprio. As notas foram recolhidas da sua coluna “Fofocalizando”, na Última Hora, e editados “na base da bagunça, pra respeitar a atual conjuntura”, como ele explicou no prefácio. Eis alguns tópicos:

Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava um programa de televisão e avisava ao público: “Estarei aqui diariamente às terças e quintas”.

Em Belo Horizonte, um delegado espalhou espiões pelas arquibancadas dos estádios porque “daqui pra frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso”.

Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: “Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas”.


Encontro de bambas: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto, Carlinhos de Oliveira, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino

Em sua luta contra a burrice reinante, Stanislaw combatia entrincheirado nas areias de Copacabana, que ainda era a “Princesinha do Mar”. Era onde lia os jornais, pescando notícias para comentar em sua coluna. Enquanto teve fôlego, foi o goleiro do Lá Vai Bola, time da praia que na linha tinha João Saldanha e Heleno de Freitas. Adorava futebol, inclusive o de botão, e torcia pelo Fluminense. Na Copa do Mundo de 1962 a Fatos & Fotos queria matérias “diferentes” e mandou Stanislaw para o Chile. O embate é contra o México. Sente o drama:

Começa o pega. (...) O Brasil está nervoso. Tá parecendo o misto do Campo Grande em dia de treino. (...) Só no segundo tempo Pelé se lembrou que era Pelé: apanhou a leonor no meio do campo, puxou todos os mexicanos para a direita (vieram todos, de Juarez ao Trio Los Panchos) e deu um passe a Zagalo lá na esquerda, que só teve o trabalho de testar para o véu da noiva. Depois Pelé dava outro passeio pela vereda tropical e da entrada da área venceu o goleiro Carbajal. E foi só.

Que delícia, heim? Vamos então relembrar, com narração do Lalau, os melhores momentos desta conquista, pois vale a pena:

Brasil 2x1 Espanha
Os espanhóis (estão) encolhidos, e não é por causa do frio, é tática mesmo. Do lado da equipe brasileira a bola só vai no fim do mês, pra receber o ordenado. Mas o que a gente pensava que ia ser um carnaval carioca virou uma fiesta brava. (...) Bola no peito de Zagalo, que estica, o lotação Vavá-Largo da Abolição entra no seu itinerário e atropela um pedestre com a camisa da Espanha. O major Puskas dá uma cipoada em Mauro e é advertido. Mas estava escrito e o major apanha a bola, estica pelo meio, Mauro ainda estava pensando numa bobeada anterior e deixa o número 18 deles entrar livre e abrir a contagem. Foi chato. (...) Os nossos estão fazendo o possível, mas pra ganhar este jogo melhor seria fazer o impossível... e é gol! Zagalo foi genial. Depois eu explico, agora de jeito nenhum. Melhorou o Brasil, até Mauro faz uma jogada certa. (...) Garrincha vai devagarzinho, de repente vira foguete, é João pra tudo quanto é lado. Ele centra, Amarildo dá de testinha. É gol, meninada!

Brasil 3x1 Inglaterra
Bate Zagalo, pula seu Mané, pequenino, no meio de diversas Torres de Londres. E é gol dele! (...) Didi come Norman por cima, à la Dominguin, e dá o melhor passe do campeonato para Amarildo. (...) Garrincha oferece um cocktail party no meio da área deles e por pouco não coloca a leonor lá dentro. (...) Greaves dá de balãozinho para dentro da janela de Gilmar, a bola bate na veneziana, volta para Hitchins e é gol. Deles. (...) No segundo tempo, Garrincha continuou garrinchando e deu um gol pra Vavá fazer e parar de gritar pedindo a bola. O jogo tá tão fácil que vovô Nilton Santos sai passeando com os netinhos pela alameda de Sausalito.

Brasil 2x1 Tcheco-Eslováquia
Os tchecos não chegaram à final por acaso, eles dominam a leonor com a mesma facilidade com que o Cartola da Mangueira domina o telecoteco. (...) E lá vai Manuel, o Venturoso. Tem quatro cercando ele, mas é pouco. (...) Mauro bobeou e Masoputz botou o camarada do placar pra trabalhar. E é gol, Amarildo, nem bem eu tinha acabado de escrever a frase acima e Amarildo... ah, menino bom! (...) Zito de vez em quando diz pro Didi güenta aí que vou ali mas já volto e seu Mané dá o primeiro grito de carnaval da tarde. Chutou raspando. (...) Seu Mané escorregou e caiu. Nervoso não é, porque Garrincha só fica nervoso nas peladas de Pau Grande. (...) Amarildo foi à linha de fundo e com calma impressionante esperou que um se colocasse. Quando Zito chegou foi só alçar a infiel por cima da muralha eslava. O sol atrapalhou e o lotação Vavá-Largo da Abolição botou a juriti pra cantar. (...) Os chilenos vinham vaiando o maior craque deste campeonato do mundo, mas agora seu Mané ficou com a bola no pé uns 30 segundos. Palmas do estádio inteiro. E acabou. O Brasil é bicampeão mundial de futebol!
(Entra a musiquinha do Canal 100: “Que bonito é...”)

Stanislaw atacava em todas: rádio, televisão, teatro, cinema. É dele o roteiro e os diálogos da chanchada E O Bicho Não Deu, de 1959. Mais tarde, histórias do livro As Cariocas (assinado por Sérgio Porto) também viraram filme. No rádio, escrevia humorísticos para a Mayrink Veiga, como Miss Campeonato, sobre futebol. Os livros com coletâneas de suas crônicas eram best-sellers instantâneos. Acima de tudo, era um mulherólogo. Mulherengo, também. Mulher era sua principal motivação.


Quando Jacinto de Thormes, “no tempo em que se dedicava a essa bobagem de escriba de soçaite, defeito que ele felizmente já corrigiu”, publicou na Manchete sua lista das Dez Mais Bem Vestidas do Ano, Stanislaw, também colaborador da revista – cobrindo (modo de dizer) o teatro rebolado –, pra não ficar por baixo inventou as Dez Mais Bem Despidas. Depois, quando seu pai Aurélio, com ele certo dia no ponto de ônibus, comentou “olha que moça mais certa”, as Mais Bem Despidas viraram As Certinhas do Lalau, que elegia, a cada temporada, as moças mais quentes.

Normalmente, as eleitas eram vedetes do teatro rebolado, como Aizita Nascimento, Gina Le Feu, Rose Rondelli, Esmeralda Barros, Zélia Martins, Carmem Verônica, Wilza Carla, Ilka Soares, Anilza Leoni, Íris Bruzzi, Angelita Martinez, Brigitte Blair, Mara Rúbia, Miriam Pérsia e Virgínia Lane. Eram lindas, mas de um jeito diferente das misses, porque eram bem mais desinibidas. Ao longo de 14 anos, foram 142 certinhas. Sergio Porto comeu quase todas.

Em 1956, Sérgio Porto ficou famoso em São Paulo ao participar, por 16 semanas, do programa O Céu é o Limite, da TV Tupi, respondendo – absolutamente certo! – as complicadas perguntas de Aurélio Campos sobre música brasileira. O homem era uma enciclopédia musical. Faturou o maior prêmio dado pelo programa até então: 300 mil cruzeiros (quanto isso valeria hoje?). Tinha adoração por Pixinguinha. Sua discoteca era imensa, falava-se em 30 mil discos, entre LPs e 78 rotações. Foi ele quem inventou o termo bossa-nova. O jazz era sua outra grande paixão musical, até escreveu um livreto sobre sua história. Gostava de trabalhar ouvindo música e de vez em quando tocava um trombone imaginário.

O filho da dona Dulce era um “boêmio que adorava ficar em casa” e trabalhava feito louco, o que, segundo os médicos, provocou seu primeiro infarto em 1959, aos 36 anos. Dois anos mais tarde, em carta à mulher Dirce, temporariamente ausente do Rio, ele listava o que andava fazendo:

Hoje fui gravar na televisão e antes foi aquela batalha contra as teclas. Estou trabalhando demais, outra vez. Só para esta semana: seis Stanislaws, um Fatos & Fotos, um final apoteótico para o novo programa do Chico Anísio, roteiro e script para aquela bosta chamada Espetáculos Tonelux, depois quadros humorísticos para a TV Rio, Miss Campeonato, Da Boca Pra Fora, o programa de rádio Atrações A-9, além da revisão do livro O Homem ao Lado que será reeditado no próximo mês e da gravação do programa Qual É o Assunto.

Detalhe: Sérgio ainda era funcionário do Banco do Brasil (Jaguar, que ilustrava seus livros, era outro). Pegava às 7 da manhã, tinha um expediente especial, sem obrigação de horário integral – quanto mais rápido ele terminasse sua tarefa, mais cedo saía. Demitiu-se em 1965, depois de 23 anos de serviço, dizem que por perseguição da “redentora”.


Perto do fim da vida, afastou-se da televisão e foi escrever revistas para o teatro rebolado. Numa delas – Pussy Pussy Cats, produzida por Carlos Machado –, Lalau perpetrou um “Samba do Crioulo Doido”, uma magistral paródia de samba-enredo. A gozação era em cima do Departamento de Turismo da Guanabara, que obrigava as escolas de samba a desfilarem apenas enredos baseados em fatos históricos. O samba extrapolou a ribalta e fez o maior sucesso na gravação do Quarteto em Cy. Sintetiza como a chamada “cultura carnavalesca” entende a nossa história:

Foi em Diamantina onde nasceu JK/ que a Princesa Leopoldina arresorveu se casá/ Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes/ e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes/ Lá iá lá iá lá iá... O bode que deu vou te contá/ Joaquim José, que também é da Silva Xavié/ Queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo/ Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo/ e falou com Anchieta/ O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro/ e acabou com a falseta/ Da união deles dois ficou resolvida a questão/ e foi proclamada a escravidão!/ Assim se conta essa história/ Que é dos dois a maior glória/ A Leopoldina virou trem/ e Dom Pedro é uma estação também / Ô-ô-ô-ô-ô-ô/ O trem tá atrasado ou já passou!

O samba originou o Show do Crioulo Doido, uma palestra musical que estreou no início de 1968 e teve mais de uma centena de apresentações pelo País, com um desinibido Stanislaw no palco, contando casos apoiado pelo Quarteto em Cy. Mas isso foi muito depois de ele dar um vexame daqueles na tevê. Foi quando o Brasil estava sendo atropelado pela modernidade e embora a televisão ainda fosse apenas um eletrodoméstico presente em poucas casas, já primava pelo mínimo denominador comum. Stanislaw a chamava de “máquina de fazer doido”. E exemplifica: certa vez assistia ao ensaio de um programa cuja música-tema começava assim: “Times Square é uma esquina...” Ele alertou o diretor que Times Square era uma praça. Mas isso não tinha qualquer importância.


Foi na máquina de fazer doido que Stanislaw teve seu único e retumbante fracasso. Isso em 1961. O programa que estreava na TV Rio chamava-se Noite de Gala, era ao vivo, e Stan era seu mestre-de-cerimônias. Acontece que ele morria de medo de encarar uma câmera de televisão e quando chegou a hora agá ele simplesmente travou, emudeceu de tanto nervosismo. Dizem que foi um dos maiores desastres da história televisiva brasileira. Mas Noite de Gala foi em frente e fez tanto sucesso que acabou levando alguns cinemas do Rio a cancelarem as sessões nas noites de segunda-feira, quando o programa ia ao ar.

Lalau, claro, não era mais o apresentador. Devido a este trauma de câmera surgiu a idéia de ele ser focalizado apenas por trás, eliminando assim a causa do problema – e então nasceu o segmento Stanislaw Ponte Preta de Costas para a Fama, com ele batucando uma “datilográfica” e tendo uma “Certinha” de maiô ao fundo, fazendo poses sensuais enquanto ele fazia seus comentários sarcásticos.

Stanislaw escreveu alguns episódios para a série de tevê “Alô, Doçura!”, com John Herbert e Eva Wilma, e participou do Jornal de Vanguarda (que estreou na TV Excelsior, depois foi para a Tupi e em 1965 estava na Globo), comentando as notícias lidas por Cid Moreira ou Luiz Jatobá, comentários que invariavelmente levavam todos no estúdio a dar risada. Depois teve seu próprio programa, o Stanislaw Ponte Preta Show, na TV Tupi.

É provável que seu peculiar senso de humor tenha sido herdado de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, cuja revista A Manha foi fechada pelo presidente-marechal Dutra em 1947 (fazer humor no Brasil sempre foi perigoso). Que frasista excepcional era o Barão: “O mundo é redondo, mas está ficando chato”, “O tambor faz barulho, mas é vazio por dentro”, “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”. Torelly tentou recomeçar com o Jornal do Povo, e foi lá que Sérgio Porto deu início a sua carreira, fazendo crítica de cinema.

Sua última peripécia foi o “semanário hepático-filosófico” A Carapuça, tablóide lançado em agosto de 1968. No título do editorial de primeira página, um cacófato proposital: “Fé de Ofício”. No rodapé, o pensamento da semana: “Se Pilatos usasse luvas não teria lavado as mãos”. Na seção “O bicho que está dando”, ele comentava opiniões alheias. Seu amigo Paulo Francis havia dito que um tal político, que conseguiu seis milhões de votos, não se elegeria nem vereador, e isso só Freud explicaria. Lalau: “Não é só isso, Francis. Qualquer espiroqueta entendido em democracia explica isso com a mesma facilidade com que o Ibrahim gagueja nas proparoxítonas”. O jornaleco morreu na quinta edição, em setembro, junto com Stanislaw, pouco antes do AI-5 dar o pontapé inicial nos anos de chumbo. Foi de infarto, o terceiro, aos 45 anos. Conta a lenda que morreu flertando com a enfermeira. “Tunica, eu tô apagando” foram suas últimas palavras.

O Pasquim, legítimo herdeiro de A Carapuça, foi para as bancas em junho de 1969. Seu primeiro número era dedicado à memória de Sérgio Porto, “o santo maior do nosso altar particular”. O resto, como se diz, é história...


Stanislaw Ponte Preta foi um inovador na imprensa brasileira. Sua prosa era cômica, concisa e popular, sem pedantismo ou empolação e sem concessões à mediocridade. Suas crônicas retratavam os hábitos e costumes de um Rio de Janeiro que não mais existe, de um tempo em que a favela ainda estava em processo de romantização, aquela demagogia do “barracão de zinco sem telhado, sem pintura, sinfonia de pardais anunciando o alvorecer”. Era um Rio mais carioca, gozador, “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”, como dizia a marchinha carnavalesca. Em sua breve vida, Lalau veio para nos divertir.

O fabuloso Sylvio Redinger


Fevereiro de 2004. O jornal O Globo traz uma pequena notinha na quarta página de seu caderno de variedades, edição de sábado, intitulada “Morre o cartunista Sylvio Redinger, conhecido como Redi”:

O cartunista sofreu um infarto na madrugada desta sexta-feira. Redi estava com 64 anos. Há 25 morava em Nova York, mas morreu no apartamento dele no Rio de Janeiro. Fez diversos trabalhos na TV Globo. O enterro está marcado para 13h, deste domingo, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense. As duas únicas ilustrações de capa da história do jornal The New York Times foram feitas por Redi.


No mesmo sábado, dia 14, o também cartunista Ricky escrevia no seu blog pessoal:

Eu ia fechar o sábado com o Jaguar, mas acabaram de me telefonar dizendo que o Redi teve um enfarte enquanto dormia e morreu.

Redi era um personagem. As coisas mais improváveis aconteciam com sua rotunda figura. Ana dizia que fisicamente ele se parecia com o Jeremy Hillary Boob, o Nowhere Man do Yellow Submarine.

Redi era um exímio cartunista e ilustrador. Criou tantos cartões para a Requinte e outras empresas que para toda uma geração suas figuras cartoony eram sinônimo de cartão de aniversário e outras ocasiões.

Ilustrou as melhores publicações brasileiras dos anos 60 e 70, depois foi pra New York onde seu grafismo evoluiu mais ainda e tornou-se conhecido por especialistas do mundo inteiro.

Os leitores brasileiros mais novos pode ser que o conheçam pelas suas crônicas na revista Bundas contando justamente suas desventuras em NY.

Aí resolveu voltar ao Brasil. Se reestabelecer no Rio. Seria um dos jurados do novo Salão Carioca de Humor, mas - típicamente Redi - na última hora não pode ir.

O episódio de sua não ida, claro, foi outra história mirabolante resultando nele ficar retido na Barra e... bem, a maneira dele avisar que não poderia chegar a tempo foi assim:

Ele ligou pro Jaguar perguntando: Jaguar, será que se eu não for no julgamento, o Chico Caruso vai ficar puto?

Aí ligou pro Caulos: Caulos, se eu não for no julgamento o Jaguar vai ficar puto?

Aí ligou pro Chico Caruso...

Isso foi nesta semana.

Aí me ligaram. Amanhã de manhã será enterrado no Cemitério Israelita em Vilar dos Teles. A pessoa que me ligou ainda comentou: Pô, mas o Redi até pra morrer é complicado. Arrumou um cemitério longe pra cacete!

Amanhã escreverei mais sobre Sylvio Redinger.

É mais um da turma do Pasquim que se vai...


Na sua edição de segunda-feira, o já decadente Jornal do Brasil foi bem menos parcimonioso:

Alguém que sempre amou a vida, com múltiplos talentos e total desprendimento. Assim o cartunista Redi (Sylvio Redinger) foi definido por amigos como Chico Caruso e sua mulher, Eliane, o cantor e compositor Paulinho da Viola, a jornalista Dilma Frate, e os cartunistas Nani e Millôr Fernandes. O cartunista carioca, de 64 anos, que morreu vítima de um infarto sexta-feira, foi enterrado no início da tarde de ontem no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles.

Segundo Luiz Redinger, irmão do cartunista, as muitas histórias contadas durante o velório amenizaram a tristeza da despedida. Uma delas foi relatada por Chico Caruso, que falou sobre a faceta musical do colega, que, morando em Nova York, sempre que podia participava dos shows humorísticos dos irmãos Caruso. “Era um grande reforço com seu tamborim”, disse Chico. “Redi fazia tudo com prazer e humor. No filme ‘Isso é problema seu’, ele fez o papel de um investidor que sai do prédio da Bolsa de Valores e sofre um ataque cardíaco. Acaba cuidando de seu próprio enterro, desce à sepultura batucando no caixão e pedindo: ‘Garçom, me dá uma cerveja que vou beber até viver!’”

Contemporâneo de Redi e co-diretor do curta, o também cartunista Nani completou: “Filmamos em 1974 e Redi era um ótimo ator, mesmo não tendo prosseguido. Ele tinha um humor sofisticado, mas também era muito popular.” E Caruso acrescentou: “Sabe a história da pessoa certa na hora e no momento certos? Redi nunca seguiu isso, era o antioportunista, não pedia nada a ninguém, mesmo com amigos importantes.”

Radicado nos EUA desde os anos 80, Redi trabalhou no New York Times, assinando as duas únicas charges publicadas na capa do jornal desde a sua fundação. Redi conseguiu seu green card graças a uma carta do jornal americano, como lembrou seu irmão. “Nessa carta, que foi lida no enterro por minha cunhada, eles diziam que seria muito difícil achar um americano com tantas qualidades como as daquele brasileiro”, contou o irmão. “Redi tinha particularidades que faziam dele alguém muito especial. Era ambidestro, mas escrevia com a direita e desenhava com a esquerda.”


Na quinta-feira seguinte, na coluna semanal que mantinha no jornal O Dia, o cartunista Jaguar publicou o seguinte texto, simplesmente intitulado “Redi”:

Estávamos, Ivan Lessa e eu, fechando mais um número do Pasquim da redação da Saint Roman quando o Redi adentrou a minha sala. Pelo menos duas vezes por semana, ele ficava andando na frente da minha mesa pra cá e pra lá até eu perguntar: “Que aconteceu desta vez, Redi?”. No que invariavelmente dizia: “Contando, ninguém acredita” e contava uma história inacreditável, mas com ele tudo podia acontecer. Desta vez, foi direto ao assunto: “Estou com dores no peito”, disse para o Ivan. “Acho que vou ter um enfarte”.

“Claro que vai ter”, rosnou o campeão do mau humor. “Mas com tudo que temos direito”, acrescentou. Jogou-se no chão, emitindo roncos apavorantes, rolou no tapete e finalmente estatelou-se com os olhos vidrados, a língua pra fora. Redi ficou tão impressionado que esqueceu o enfarte e voltou para sua prancheta.

Além de ser um cartunista de sucesso internacional, ele era a personificação do judeu errante. Voltou definitivamente de New Jersey inumeráveis vezes. Há 20 anos, era meu vizinho no Leme. Uma vez me pediu para arranjar um professor de tamborim. Liguei para o Gargalhada, o Paganini do tamborim. Às vezes eu passava no apartamento dele e deparava com uma cena que “contando ninguém acredita”: o Gargalhada dando aula, cada um com seu tamborim.

Acompanhou Emilinha Borba numa turnê pelo Egito e fundou em Nova Iorque o conjunto Rio Samba Jazz, que se apresentou na Trump Tower. Depois aprendeu a tocar cuíca e executava o Samba de uma Nota Só nos shows dos irmãos Caruso. Na semana passada, como não tinha o Ivan para avacalhar seu enfarte, morreu. Ou foi para Nova Jersey, o que dá no mesmo. Um dia desses nos encontramos mais uma vez no calçadão do Leblon.


Ainda sobre o Sylvio Redinger, o Redi, o jornalista Nei Lima, seu amigo de longa data, escreveu o seguinte texto:

Era um tipo grandalhão, desajeitado e um puta desenhista. Muito mais do que isso ele também trilhava pelos caminhos da música, à vontade com vários instrumentos. Os de percussão ele tirava de letra.

Pra quem pensa que o Redi só fazia cartuns, ele também, gostava de pintar e fazer desenhos bem artísticos. Fez até uma exposição no passado em Nova York. Já atuou como ator, fez redação de humor para o Pasquim e Rede Globo.

Em março, no dia 1º, ele ganhará uma homenagem durante a abertura do 15º Salão Carioca de Humor, com uma exposição na Casa França-Brasil, onde será também exibido o curta metragem “Isso é problema seu”, que fez com o cartunista Nani, nos anos 70, em que ele participa como ator. Há uma cena em que o carrega o próprio caixão, caminhando pela Avenida Rio Branco.

Aqui vai um trecho do periódico The New York Times, de 3 de abril de 1984, sobre o Redi:

“(...) Durante o ano passado, The Times usou as ilustrações do senhor Redinger em sistema de freelance. Suas ilustrações chegaram até mesmo a aparecer na primeira página do The Times, o que é uma raridade para um ilustrador. Como encontramos no senhor Redinger um artista de alto calibre sob a pressão do fechamento, estamos oferecendo-lhe um contrato de longo prazo, que nos dará o privilégio de nos beneficiar de seus serviços por tempo integral. Nós respeitosamente pedimos ao Serviço de Imigração e de Naturalização que a nossa petição seja expedida o mais rapidamente possível, para que assim o senhor Redinger tenha a permissão de contribuir com a nossa publicação por tempo integral.”

E, abaixo, alguns de seus trabalhos:





quinta-feira, julho 19, 2018

Chico Anysio, o melhor humorista do Brasil


O humorista Chico Anysio, de 80 anos, morreu na tarde do dia 23 de março de 2012, no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio, onde estava internado. O ator sofreu duas paradas cardíacas após sofrer falência múltipla dos órgãos e não resistiu.

Chico Anysio estava internado desde dezembro de 2011, quando apresentou um sangramento intestinal. Ele chegou a receber alta, mas um dia depois foi internado novamente, onde permaneceu sob cuidados médicos até entrar em óbito.

Durante todo o tempo em que esteve internado, sua mulher, Malga di Paula, deu informações sobre o estado de saúde para fãs e admiradores. Durante esse período, Chico foi submetido a uma laparotomia exploradora, que retirou um segmento de seu intestino delgado.


No final de 2010, ele foi levado ao mesmo hospital com falta de ar, e ficou internado por 110 dias, sendo liberado em março de 2011. Após ser detectada uma obstrução da artéria coronariana, ele passou por uma angioplastia, procedimento para desobstrução de artérias.

O comediante foi novamente internado no início de novembro com fortes dores nas costas. No fim daquele mês, foi descoberta uma contaminação por fungos, que foi tratada com antibióticos.

No começo de dezembro de 2011, Chico voltou a ser internado, desta vez com infecção urinária. A internação durou 22 dias. O humorista voltou para o hospital no dia 22 de dezembro, vindo a falecer três meses depois.

Chico Anysio nasceu em Maranguape, no Ceará, no dia 12 de abril de 1931. Ele se mudou com sua família para o Rio de Janeiro quando tinha seis anos de idade.


Iniciou a carreira na Rádio Guanabara, onde exercia várias funções, desde radioator até comentarista de futebol. Nas chanchadas da década de 50, Chico passou a escrever diálogos e, eventualmente, atuava em filmes da Atlântida Cinematográfica.

Em 1957 estreou na TV Rio o Noite de Gala. Em 1959, estreou o programa Só Tem Tantã, mais tarde chamado de Chico Total.

Além de escrever e interpretar seus próprios textos no rádio, TV e cinema, sempre com humor inteligente, Chico se aventurou no jornalismo esportivo, teatro, literatura e pintura, além de ter composto e gravado algumas canções como Hino ao Músico e Rancho da Praça XI.

O humorista estava na Rede Globo desde 1968 onde se destacou em programas como Escolinha do Professor Raimundo e Chico City.

Sua galeria de personagens conta com mais de duzentos tipos consagrados na televisão, como o Professor Raimundo, Alberto Roberto, Coronel Limoeiro, Qüem-Qüem, Bozó, Painho, Paulo Brasilis, Pantaleão, Bento Carneiro, Divino, Tim Tones, Nazareno, Preto Velho, Salomé, Coalhada e tantos outros.


Suas últimas participações na emissora foram em 2009 no especial Chico e Amigos e no Zorra Total, em 2010. Pouco tempo depois de receber alta, Chico se apresentou ao lado de Tom Cavalcanti o show Chico.Tom.

“Ainda estou muito debilitado. Para mim, o mês de agosto não passou, fui eu que passei por agosto. Tem três coisas que me deixam muito triste. A principal é não poder andar. Mas, se Deus quiser, até mês que vem já posso fazer isso. Vou começar a fisioterapia agora”, disse Chico antes da apresentação.

Em entrevista à jornalista Maria Beltrão, do programa Estúdio I, da Globo News, Agildo Ribeiro e Jô Soares falaram sobre como era o grande amigo.

“É o chamado luto nacional, o Brasil está mais triste, sem perspectiva de alegria. Morre um herói nacional, um combatente, um homem que lutou até o fim. Estou com meu coração arrebentado, dilacerado, de tanto que amava esse homem. Fiquei doido quando ele disse que eu era o maior humorista nacional”, declarou Agildo Ribeiro, que interpretou o personagem Andorinha, na Escolinha do Professor Raimundo.


“Acho que o Brasil inteiro estava pendurado nessa terrível agonia do Chico. Me lembra a agonia que o país passou com o Tancredo, foi grande ídolo nacional. Espero que ele não tenha sofrido, que tenha passado sem sofrer muito. Tem uma frase que diz que ninguém é insubstituível, mas o Chico é. Foi um grande criador, um dos grandes atores do mundo. Dirigi espetáculo dele onde aprendi demais. Ele sempre pegava a gente de surpresa com cada personagem”, diz Jô Soares.

“Trabalhar com ele na Escolinha era mais que trabalho, foi um aprendizado. Não que ele focasse ensinando, mas via nas suas pequenas reações. Foi importantíssimo para todos nós. Ele criou oportunidade para que uma nova geração confrontasse com a velha geração de comediantes. Aprendemos muito, foi um homem raro. Mais que comediante e ator, foi um homem importante para a história do Brasil”, falou David Pinheiro, que fez Sambarilove na Escolinha.

“A gente se conheceu há 50 anos. O Chico é um dos fenômenos humanos que não se repetem na vida da gente. Nunca mais vai ter um Pelé no futebol e nem outro Chico Anysio. Nenhum ator conseguiu fazer a quantidade de personagens que ele fazia. Ele era muito generoso, levava todos os artistas para os programas dele. A Escolinha do Professor Raimundo era para ajudar um monte de atores e prolongar a vida artística deles. Eu que fazia todos os cartazes de peças dele e as capas de livro. Sempre achei um absurdo não homenagearmos o Chico. Vou torcer muito para ele não ser esquecido. Vamos esperar que ele esteja em paz, pois foi muito tormentoso o fim dele”, declarou o escritor Ziraldo.


Ele foi casado com a atriz Nancy Wanderley, com quem teve o filho Lug de Paula, ex-marido de Heloísa Perissé e intérprete do Seu Boneco da “Escolinha do Professor Raimundo”. Lug nasceu em 1957.

Anos depois, Chico Anysio casou com a vedete Rose Rondelli. Quando Chico se uniu a Rose, ela já tinha o filho Duda, do casamento com Carlos Gil. Chico adotou Duda como filho.

Depois, Rose e Chico tiveram dois rebentos. O primeiro nasceu em 1964 e é Nizo Neto, ator, dublador e mágico. Entre os trabalhos mais famosos de Nizo, estão o Seu Pitolomeu da “Escolinha do Professor Raimundo”, e a voz de Ferris Bueller (Matthew Broderick) na dublagem de “Curtindo a Vida Adoidado” (1986).

O outro filho desse casamento é Rico Rondelli, hoje diretor de TV.

No final dos anos 1960, Chico adotou André Lucas, hoje comediante teatral e último empresário do próprio pai.


Chico e a atriz Alcione Mazzeo viveram juntos nos anos 70. O filho do casal é o hoje célebre Bruno Mazzeo, humorista, redator, apresentador. Com o programa de TV e filme “Cilada”, Bruno tornou-se ainda mais famoso. Bruno nasceu em 1977.

A atriz e cantora Regina Chaves fez parte do grupo As Frenéticas, que esteve no auge no Brasil entre 1977 e 1983. Em 1981, Regina deixou a banda e se casou com Chico, com quem teve Cícero Chaves, nascido em 1983, hoje DJ profissional, envolvido com produção de música eletrônica.


A economista Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra da Economia do Governo Collor, se casou com Chico no início dos 90. Eles tiveram dois filhos: Rodrigo e Vitória. Zélia e seus filhos vivem hoje nos EUA.

A empresária Malga de Paula foi a última esposa de Chico e a única com quem o humorista não teve filhos. Eles viveram juntos por 14 anos.


Chico teve três irmãos artistas: o compositor Helano de Paula, o cineasta Zelito Viana – pai do ator Marcos Palmeira – e a atriz Lupe Gigliotti, falecida em dezembro de 2011.

Lupe é mãe da atriz e diretora Cininha de Paula.

Cininha, por sua vez, foi casada com o ator e diretor Wolf Maya, com quem teve a filha Maria Maya, também atriz.



Em vida, Chico Anysio assumiu a identidade de dezenas de personagens e ancorou programas inesquecíveis. Nas suas contas, foram 209 personagens, alguns para outros atores – caso do inesquecível Primo Rico, com Paulo Gracindo, em dueto com Brandão Filho, o Primo Pobre. Vamos recordar alguns deles:
Bento Carneiro – O vampiro brasileiro, de sotaque interiorano, se apresentava como “aquele que vem do aquém do além, adonde que véve os mortos”, mas não assustava ninguém. Bordão: “Vampiro brasileiro... pzztt!”.
Hilário – Médico que tem por hábito fazer perguntas constrangedoras.
Alberto Roberto – Galã e âncora de um talk show, se considera um símbolo sexual. Sua marca é uma touca de renda na cabeça. Bordão: “Não garavo”.
Nazareno – Funcionário público que trata mal a mulher por ela ser muito feia. Bordões: “Ca-la-da!”; “Isso não é mulher”.
Popó – Apolônio Trunfas de Pandolé e Pandolé é um museólogo aposentado e ranzinza que diz ter 364 anos. Arrancava gargalhadas devido às brigas com seu amigo Alpamerindo. Bordão: “Alpamerindo, você é idiota. Você é iiidiota!”.

Coalhada – Jogador de futebol estrábico, de bigode e cabelos encaracolados. Apesar de jogar mal, se considera um craque.



Divino – Guia espiritual, líder de uma “seita religiosa”. Dá preferência às mulheres em suas consultas. 
Salomé – Personagem gaúcha ficou famosa por conversar intimamente com o presidente Figueiredo. Bordão: “Eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”. 
Urubulino – Sujeito pessimista e agourento, que sempre acredita que tudo dará errado.
Idalino ou Fumaça – Português e vascaíno, dono de um boteco, conhecido pelo nervosismo. Tem o bordão “Tatata tarariu!”.
Gastão Franco – Homem rico e extremamente pão-duro. 
Painho – Pai de santo homossexual que lê os búzios para baianos ilustres.
Pantaleão – Com visual inspirado em Dom Pedro II, o personagem aposentado vivia em sua cadeira de balanço a contar histórias falsas. Bordão: “É mentira, Terta?”.
Bozó – Diz que trabalha na TV Globo como “diretor-gerente” e usa um crachá para tentar provar. 

Professor Raimundo – O famoso personagem retratava as decepções e as esperanças de um professor brasileiro mal remunerado. Bordão: “E o salário, ó!”.
Haroldo – Personal trainer que tenta convencer todo mundo de que não é homossexual. 
Tim Tones – Personagem era paródia de psicopata fanático religioso. Só queria se dar bem às custas dos fiéis. Bordão: “Que a paz de Tim Tones esteja em todos os lares”.
Justo Veríssimo – Político corrupto que não suporta pobres. Bordão: “Quero que pobre se exploda!”.
Azambuja – Trambiqueiro carioca e ex-jogador de time de futebol. Famoso pelas trapaças em parceria de seu colega Linguiça. Bordão: “Tô contigo e não abro
Baiano – O personagem era uma sátira do cantor Caetano Veloso em sua época de integrante do grupo Novos Baianos. Bordão: “Legal... Tô numa boa. Tá sabendo, Paulinho?”.

Se divertindo nas asas do Pelicano


Irmão do falecido cartunista Glauco Vilas Boas, o engenheiro civil, cartunista e publicitário César Augusto Vilas Boas (aka “Pelicano”) já teve seus trabalhos publicados na maioria dos jornais e revistas de Ribeirão Preto, onde reside, além de ter colaborado com O Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal da Unesp, Guia das Profissões da Unesp, Correio Popular de Campinas e Jornal Comércio de Jahu.

Em 1984, ele publicou em edição nacional a revista Prato Feito pela editora NovaSampa e, em 1986, desenvolveu charges animada para a EPTV Ribeirão Preto veiculadas no Jornal Regional.

No ano de 2001 produziu a TV Pelica com charges animadas diárias para o programa Clube-Verdade.

A qualidade de seu trabalho fez com que Pelicano recebesse muitas premiações, dentre elas cinco premiações no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e o Prêmio de Melhor Cartum Nacional no Salão de Humor do Piauí.

Atualmente, ele produz charges diárias para a Rede Bom Dia de Jornais (São José do Rio Preto, Bauru, Jundiaí e Sorocaba), para o Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, para o Jornal Comércio de Jahu, de Jaú, e para o portal Movimento das Artes.


É no Jardim Ouro Branco que fica a única igreja do Santo Daime de Ribeirão Preto.

O templo, chamado Rainha do Céu, é o lugar onde os daimistas da região, cerca de 200, vão para rezar seus hinos e tomar o chá de ayahuasca (o popular Santo Daime), a fim de “viajar” em um mundo de espiritualidade.

O Daime é uma religião sincretista, com componentes presentes no catolicismo, espiritismo e umbanda.

São santos e guias espirituais, todos reunidos numa só cerimônia, embalada pelo ayahuasca.

A bebida é tida como alucinógena, mas, para os daimistas, é um simples “expansor de consciência”.

“É difícil explicar para quem nunca tomou. O cartunista Laerte fez um resumo que eu achei muito legal. Ele disse que ‘se viu lá’. E acho que é isso, com o Daime as pessoas conseguem se ver...”

A explicação é do cartunista Pelicano.

Ele é um dos dirigentes da igreja de Ribeirão Preto.

Pelicano conheceu a religião com o irmão Glauco, assassinado em março de 2010 por um frequentador da igreja Céu de Maria, em São Paulo.

Hoje, mais que um líder do Daime, Pelicano é um difusor da religião no interior do Estado.

“Antes, grupos de Franca e Ariranha vinham à Rainha do Céu. Mas eles fizeram suas próprias igrejas”.

Curtam abaixo alguns de seus trabalhos: