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quinta-feira, novembro 23, 2017

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (4)



Por Luiz Carlos Miele

Voltei ao Beco vinte anos depois. A boate, o Little Club, ainda está lá. Fui à tarde, a casa vazia, não tenho vontade de voltar lá à noite, não sei como os fantasmas queridos vão me receber. O mesmo palquinho ainda está lá também.

Como era possível que ali coubessem piano, baixo, bateria, Elis, Gaguinho e Marly Tavares? Ao mesmo tempo. Pois cabiam, cantavam e dançavam para as 40 pessoas que lotavam a casa. Um orgulho para os artistas e produtores, todos em início de carreira.

Mas o sucesso de Elis foi vertiginoso. Em poucas semanas, ela passou a ser requisitada para shows em todo o Brasil. Não havia como segurá-la, e ela passou a faltar sempre nos fins de semana, deixando todo mundo louco.

Não havia dinheiro para os cartazes, e o muro que ficava no fundo do Beco era o nosso outdoor. Lá ficava, em toda a extensão do muro, o anúncio “Hoje: Elis Regina”. Ronaldo pegou um balde de piche e um pincel, e “pichou” o nome da Elis, colocando um ponto final na temporada.

Foi a partir dessa atitude, quando toda a turma passou a comentar: “Rapaz, você viu só? O Bôscolli pichou a Elis Regina”, que a expressão ficou famosa no Rio de Janeiro.

Ronaldo nunca recusou a autoria e, ao contrário, tornou-se a maior autoridade latino-americana do “piche”. Ficou temido por isso e também passou a ser muito pichado. Como ele já nos deixou, o trono dos pichadores foi assumido com brilho e maldade insubstituíveis até o momento por Dori Caymmi.

Elis, é claro, ficou uma fera. E jurou horror eterno ao Ronaldo. Algum tempo depois, passado o primeiro ano do enorme sucesso de “O fino da bossa”, programa comandado por Elis e Jair Rodrigues, Manoel Carlos, que era o produtor, achou que estava na hora de se transformar num dos maiores autores de novelas do Brasil, e deixou o programa.

Luizinho Eça, que era diretor musical do programa, sugeriu a contratação da dupla Miele & Bôscoli. A reação da Elis foi imediata. Foi ao Paulinho de Carvalho, dono da TV Record, decidida a justificar o apelido de Pimentinha que foi dado a ela por Vinicius.

– Paulinho, eu soube que a Record está pensando em contratar Miele & Bôscoli. Pois bem, se eles vierem pra cá, para qualquer programa, mesmo que não seja o meu, eu vou para a Tupi.

É claro que nossa contratação foi adiada, mas o Luizinho continuou a campanha a nosso favor e, além dos arranjos, procurando a harmonia certa com a Elis. Finalmente, ela concordou. Em parte.

– OK, Paulinho. Pode trazer a dupla dinâmica. Mas eu só falo com o Miele. Com o Ronaldo, nem pensar. Ele que dê as idéias, faça os textos, e o Miele dirige o programa.

No primeiro encontro, na casa do Luizinho, criou-se uma situação ridícula. Criávamos uma nova canção para a abertura do programa. A Elis e o Luizinho numa sala, o Ronaldo em outra. Luizinho tocava as primeiras frases musicais e gritava para o Bôscoli: “Tá ouvindo daí, Ronaldo?” E o Ronaldo gritava de volta: “Alto e claro, deixa comigo” e escrevia o primeiro verso da letra. Eu levava o verso para o Luizinho ler e a Elis aprovar. Luizinho tocava as frases seguintes, Ronaldo escrevia os versos seguintes, eu levava os versos para serem aprovados. E era uma composição “para viagem”.

Durante essa palhaçada, Vinicius de Moraes, que entrava sem bater, tanto nas casas quanto no coração da gente, abriu a porta da rua e se deparou com aqueles personagens. Deu meia-volta e foi escrever “Eu sei que vou te amar” em outra freguesia. Na décima viagem, eu disse ao Ronaldo que aquela situação, além de absurda, estava ficando cansativa.

– Não esquenta não, Miele. Assim que ela me cumprimentar, eu caso com ela.

E casou. Eu fui um dos padrinhos, junto com o Dener e a Laurinha Figueiredo. O casamento foi na capela Mayrink, na Floresta da Tijuca. Na hora da cerimônia, o sacristão faltou, o padre me entregou um livrinho e me avisou:

– Cada vez que eu fizer um sinal com a cabeça, você lê uma das frases do livro.

Assim, eu participei da cerimônia de terno preto e barba no altar. Talvez, por isso, o repórter da Folha de S. Paulo escreveu: “Estranhamente, o casamento de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli foi oficiado por um padre católico e um rabino.”

O casal foi morar numa casa linda, na encosta da avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro, com uma tremenda visão do mar, de onde Elis, numa das discussões com o Ronaldo, atirou no próprio (no mar, não no Ronaldo) toda a maravilhosa coleção de LPs do Sinatra, que “o velho”, como ela o chamava (o Ronaldo, não o Sinatra), adorava. Foi engraçado, eu vinha chegando de moto e vi passando toda aquela coleção de discos voadores. E logo do Sinatra.

O casamento durou pouco para uns e até muito para outros. Eram dois temperamentos altamente combustíveis e explodiu logo. Outros casamentos vieram para eles, outros filhos. Ronaldo já se foi, Elis também. Ruy Castro escreveu que “Miele enxugou as lágrimas e foi em frente”.

Agora, eu ligo às vezes para o João Marcelo Bôscoli, diretor da gravadora Trama, ouço o CD do Pedro Camargo Mariano, ou vou assistir ao show da Maria Rita. E vou em frente.

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (5)



Por Luiz Carlos Miele

Elis Regina foi a única artista com cujo talento eu não me acostumei. Mesmo no último dia do show que fizemos durante nove meses nos teatros do Rio e São Paulo, eu me surpreendia emocionado, na coxia, enquanto esperava a minha vez de voltar ao palco.

Meu entusiasmo chegou ao limite numa entrevista que dei ao jornal O Globo. Quando a repórter perguntou quais eram as três maiores cantoras do Brasil, eu respondi: “Elis Regina”. A garota do jornal achou que eu não havia entendido, mas eu confirmei:

– Entendi sim. Acho que a Elis é a primeira, a segunda e a terceira maior cantora do Brasil.

Essa declaração me deu a maior dor de cabeça, pois eu dirigia outros espetáculos, nos quais participavam outras excelentes cantoras. Mas acho que elas também concordavam, pois nenhuma reclamou.

Na segunda vez que Elis foi para o Olympia de Paris, eu fui também, para gravar para a TV Record um programa especial sobre ela. Na sua primeira apresentação, Elis fazia apenas três números, entre um domador de ursos e um grupo de ciganos enganadores.

As programações do Olympia seguiam o mesmo padrão, 30 minutos de “variedades” – urso, Elis, cigano etc – 30 minutos do que eles chamam etoile américaine, uma hora de um grande cartaz francês: Aznavour, Becaud etc…

Na primeira vez da Elis, a estrela principal era Zizi Jean Maire. Na sua segunda participação, ela já era a tal américaine. Eram 30 minutos muito bem cuidados, com o quinteto liderado pelo Menescal e a orquestra francesa conduzida pelo Erlon Chaves.

Alguns dias antes da estréia, Elis foi convidada a participar de um programa que apresentaria três atrações: Barbra Streisand, Charles Aznavour e ela. Cheguei com a notícia de que a gravadora já havia providenciado o intérprete e, para minha surpresa, ela ficou admirada:

– Ué, Miele, intérprete pra que? Já passei duas semanas aqui no ano passado, e já cheguei há quase um mês. Será que eu sou alguma idiota que não aprendeu a falar francês?

E foi e fez a entrevista de dez minutos. Sem sotaque, é claro.

O Olympia sempre foi uma sala de espetáculos populares. Em Paris, existe a Salle Playel, que exibe apenas espetáculos de música clássica ou então um popular extremamente sofisticado. Paralelamente à temporada da Elis, apresentava Art Blakey, baterista extraordinário, líder do Jazz Messengers.

Tinha chegado da África, onde ficou muito tempo pesquisando os ritmos da parentada. Voltou cheio de idéias, mas achou que faltava alguma coisa para dominar todos os ritmos. E essa alguma coisa estava nas mãos e, principalmente, nos pés de Wilson das Neves, que era o baterista da Elis.

O pulo do gato, a diferença do samba entre os bateristas brasileiros e americanos, está no uso do bumbo e do contratempo do pé esquerdo. E foi isso que o Art Blakey foi checar, lá no Olympia.

Seu show começava mais cedo. Ele chegou e nem quis ficar na platéia. Ficou lá na coxia, mesmo, para ver de lado a performance do Das Neves. Depois do show, fomos jantar, e ele, que tinha ido apenas para ouvir a batida do samba, ouviu a Elis.

– Essa menina que canta com vocês é muito boa. Acho que ela é uma das dez maiores cantoras brancas do mundo.

Como todos os músicos americanos, ele também fazia essa distinção:

– Barbra Streisand, Peggy Lee são grandes cantoras, mas são “brancas”, Carmen McRae você sabe que é negra na primeira nota.

Ele voltou na noite seguinte, daí sentou na platéia, viu o show todo. Depois comentou comigo:

– Lembra do que eu falei sobre o fato da menina ser uma das dez melhores cantoras brancas do mundo? Diga a ela que negra também.

Negros e brancos estavam em guerra feia naquele momento nos Estados Unidos, com a movimentação do temível e violento grupo dos Panteras Negras. Enquanto isso, em Paris…

Fazia parte do show, no Olympia, um grupo de balé americano. O arranjo de orquestra, bem como a regência, era de Cy Oliver, que já havia feito dois álbuns com Frank Sinatra. Achando que faltava alguma coisa no número, ele ligou para os Estados Unidos, pedindo um trio vocal feminino.

Chegaram dois dias depois, três mulheres negras e lindas. Uma delas, ex-esposa de Sammy Davies Jr. Não se conheciam. Encontraram-se pela primeira vez ali no ensaio, receberam as partituras e saíram fazendo um vocal maravilhoso. No ato.

Então, partimos para o segundo ato. Todos os participantes do espetáculo hospedavam-se no Hotel Pasquier. Tipo pensão, com a dona dando injeção na gente etc. Bruno Kokariks, dono do teatro, queria que a Elis ficasse no Plaza Athenée, mas ela não queria se afastar do grupo, e ficamos todos juntos.

Na noite seguinte, alguns da nossa turma saíram com as garotas do tal trio vocal. Elas não tinham os cabelos black power dos panteras, mas usavam as perucas que identificavam o movimento.

Na França, porém, acho que houve uma pausa político-racial, e parte do nosso grupo se deu muito bem. Na manhã seguinte, no café da manhã, o resultado. As três moças apareceram bem machucadas. Um lábio cortado, um olho roxo etc.

“Poxa (pensei eu), foi corpo a corpo mesmo”, mas não era nada disso. Indignado com a confraternização, o coreógrafo responsável pelas americanas aplicou o que chamamos aqui de “corretivo”.

Ficou um clima péssimo, e eu fui encarregado de conversar com ele, mentir um pouco sobre a falta de preconceito racial no Brasil, mostrar que o nosso grupo era formado de branco e negros.

Ele não quis conversa no começo e marcou comigo um encontro num daqueles bares com o leão-de-chácara abrindo a janelinha da porta, ouvindo o nome de quem me esperava e liberando a minha entrada no salão onde eu era o único branco. Africanos, argelinos, americanos. E, no fundo da sala, ele esperando por mim.

Não foi um papo muito confortável, mas, no fim, ele topou uma trégua. Mas sem a autorização para que a nossa turma voltasse a mexer nas perucas das moças. A gente não mexia nas perucas delas e elas não mexiam nas nossas… Bom, deixa pra lá.

De qualquer maneira, foi bom ele ter concordado. Pois era um cara enorme. No tamanho e no talento. Cantava e dançava à frente do grupo. Chamava-se Lester Wilson. Fiquei seu fã, e depois, ao assistir ao filme Os Embalos de Sábado à Noite, li nos créditos finais que ele foi o coreógrafo dos números do Travolta.

E mais tarde, outro filme, com a prova definitiva de seu talento. Quando ele montou os números musicais de Whoopi Goldberg, aquele show com as freiras em Mudança de Hábito.

Mas estávamos em Paris também para trabalhar e gravei lá um programa de trabalho. A equipe de gravação se resumia a Miele e um operador de câmera. Sem iluminação ou iluminador, o som direto na câmera, tínhamos que aproveitar a luz do dia para as cenas externas: Elis na Torre Eiffel, Elis no Louvre, Elis no Sena. E gravar às escondidas do sindicato francês no Olympia.

Monsieur Kokariks entrou no jeitinho brasileiro e gravamos um número por noite, com a câmera no meio do público. Mas era apenas um documentário. Preparamos um roteiro com textos gravados. Era uma grande viagem da Elis, em todos os sentidos. Ficou muito bonito, a TV Record exibiu num bom horário, mas a fita se perdeu num daqueles incêndios da emissora.

Elis, Miele & Bôscoli realizaram bons trabalhos juntos. O mais importante de todos, na TV Globo, Elis Especial. Ganhamos vários prêmios com esse programa. E Elis, sem saber, participou diretamente da minha entrada em cena.

Durante uma festa, creio que na casa de Olivia Hime, ela estava brincando ao piano com Luizinho Eça. De repente, como acontece quando dois grandes talentos se encontram, aconteceu um daqueles grandes momentos.

Elis cantando Minha, uma canção maravilhosa de Francis Hime e Ruy Guerra, Luiz Eça no piano de cauda. Como num filme, a festa foi ficando em câmera lenta, as pessoas foram se aproximando encantadas. Quando ela terminou, aplausos quase religiosos.

Eu, na sala ao lado, sem ter percebido o que acontecia, conto uma piada para a Wanda Sá, que ri muito alto, eu também começo a rir. E alguém reclama e grita:

– Pô, que chato, Miele, está atrapalhando. Se você quer aparecer, vem logo contar essa história aqui.

E eu, completamente irresponsável, fui. Cheguei perto da nossa maior cantora e disse:

– Elis, senta aí um pouquinho que eu vou contar uma historinha pra rapaziada.

Era um sacrilégio. Alguns pensaram: “O Miele enlouqueceu de vez.” O Luizinho ia sair correndo do piano, mas eu o segurei:

– Guenta aí, Luizinho que eu preciso que você me ajude no som de um maestro alemão.

Enquanto o pessoal resolvia se me arrancava dali à força ou me entregava o Oscar de idiota do ano, a própria Elis resolveu a questão. Em lugar de ficar indignada como deveria, sentou no chão e ordenou:

– Péra aí, turma. Vamos ouvir o Miele. Vai ver, é engraçado mesmo.

E riu, e aplaudiu, e me salvou.

No dia seguinte, quando eu e Ronaldo pensávamos em quem iríamos convidar para fazer o show ao lado da Tuca, cantora com muito talento, também como comediante, Ronaldo olhou para mim e disse:

– Quer saber de uma coisa. Não vamos chamar ninguém, não. Você faz aquelas bobagens que fez ontem na festa, bolamos outras tantas e pronto: Com vocês, pela primeira vez no palco, Luiz Carlos Miele.

Colocamos um título que ficou feliz: Uma noite perdida com Tuca & Miele. Foi um sucesso.

Marta Alencar, atual senhora e na época namorada de Hugo Carvana, escreveu uma coluna para o jornal Última Hora e, de pura molecagem, comentou que eu deveria ser candidato ao prêmio de melhor ator do ano.

Sergio Bittencourt, que tinha uma coluna no jornal O Globo, ficou indignado, e respondeu: “Pode ser que Miele, que estreou agora, esteja até divertindo no show, ao lado da Tuca, mas chamar o Miele de ator é no mínimo um desrespeito com Ítalo Rossi, por exemplo.”

Não era. Era só uma brincadeira da Martinha, mas as duas notas provocaram a curiosidade de muita gente que foi ao show para conferir, e o espetáculo teve uma carreira bem interessante.

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (6)



Por Luiz Carlos Miele

Elis com Miele & Bôscoli no Teatro da Praia. Era o título do espetáculo com o qual iríamos inaugurar o teatro. Como esse show, segundo a crítica, “Elis deu o salto”. Ela dançava, sapateava, fazia humor, e principalmente, é claro, cantava.
No começo era para ser apenas uma performance dela, mas Elis pensou em trocar de roupa entre alguns números, e Ronaldo sugeriu que eu entrasse no palco e contasse uma história qualquer.

Bem, eu entrei e contei a primeira, a Elis se divertiu muito, sugeriu outras participações minhas, e eu acabei quase dividindo o show com ela, o que considerava um absurdo, em face da condição de estrela que ela tinha.

Mas era tudo uma grande festa, entre mim, Elis, Ronaldo, Menescal e o conjunto, e acredito que isso tenha sido passado para o público, pois ficamos em cartaz durante nove meses, cinco no Rio, quatro em São Paulo, no Teatro Maria Della Costa. Durante esse período, fomos a segunda bilheteria da cidade, perdendo apenas para a peça Hair, que era uma superprodução.

Mas a nossa “produção” começou de uma maneira muito irresponsável, como era a nossa vida. O prédio onde se instalava o Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, estava ainda em fase final de construção. Eram treze andares inacabados e, na cobertura, eu e Ronaldo instalamos um precário local de trabalho, pois tínhamos que acompanhar de perto os detalhes de acabamento do teatro.

Algumas caixas de cervejas faziam às vezes de cadeiras (é claro que nós mesmos esvaziávamos as caixas, pois, afinal, tínhamos que sentar em algum lugar). Aquela tampa de mesa com cavaletes, um fio de telefone de vinte e cinco metros que vinha do andar de baixo e, para completar a decoração, montes de areia, pilhas de tijolos, sacos de cimento, ferramentas etc. Um luxo.

Uma tarde, em meio ao sagrado e sofrido processo de criação artística, toca o telefone. Enquanto Ronaldo pensava em como Elis ficaria maravilhosa vestida de Carlitos, eu atendi.

– Monsieur Miele está, por favor? Aqui é da presidência da Air France.

Como, pelo menos para a Air France, eu não devia nada naquela época, estranhei um pouco, mas ela (a voz com sotaque), explicou:

– Aqui é a secretária de monsieur Joseph Halfin, o presidente da companhia, que quer conversar com os Senhores Miele & Bôscoli.

Enquanto eu chamei a atenção do segundo dos “senhores”, que era o Monsieur Bôscoli, o presidente foi me explicando que havia ouvido boas referências sobre o nosso projeto e, como já era um grande fã de Elis, gostaria de estudar a possibilidade de o nosso show fazer o encerramento da festa de entrega do prêmio Moliére aos laureados do ano em teatro e cinema no Brasil.

Era uma oportunidade excepcional. Até então, o prêmio era encerrado com todas as estrelas da TV Record, mais de dez artistas se apresentando, e depois de nós, os grandes astros franceses, como Legrand, Aznavour, Becaud, Distel, Montand vieram como as grandes atrações.

Ainda um pouco assustado, pergunto como iremos nos encontrar, e aí começa uma das aventuras mais absurdas da dupla Miele & Bôscoli.

Eu:

– Ronaldo, é o presidente da Air France que quer comprar o show e vir ao Rio para tratar do assunto, pessoalmente, em nosso escritório.

Ronaldo:

– Chuta que o nosso escritório está sendo reformado lá na avenida Rio Branco, avisa que os móveis ainda não chegaram da Oca, aquela loja chiquérrima porém pouco pontual, e que estamos atendendo provisoriamente aqui mesmo, no teto do edifício do teatro, que outros irresponsáveis também ainda não terminaram.

Acertado o encontro para o dia seguinte, eu e Ronaldo já nos encontrávamos nas nossas instalações, Ronaldo olhava o mar, do alto dos trezes andares, e propôs uma instigante questão:

– Miele, será que se eu soltar uma galinha daqui de cima, ela voa até a praia?

– Claro que não voa, Ronaldo. Galinha não voa essa distância e dessa altura. (Quatro quarteirões até a praia, vão prestando atenção.)

– Claro que voa, Miele. Galinha é pássaro, ave, sei lá.

– Não voa, Ronaldo.

– Claro que voa, porra.

Voa, não voa, aproxima-se o contrarregra do teatro, que tinha ido comprar cervejas.

Contrarregra:

– Com licença, chefia. Galinha voa, sim senhor. Eu já trabalhei em granja, e tô por dentro.

Ronaldo:

– Falei que voava, porra.

Miele:

– Não voa, Ronaldo. Esse contrarregra entende menos de galinha do que de teatro.

– Voa.

– Não voa.

– Aposto que voa.

– Tá legal. Vale cem pratas.

E mandamos o contrarregra até a esquina, para comprar uma galinha. Enquanto isso, chega o presidente da Air France, Joseph Halfin.

Nós já havíamos nos esquecido um pouco do encontro, em face do fascinante tema posto em questão. Nós o recebemos com toda fidalguia que marcava o comportamento Miele & Bôscoli. Monsieur Halfin era o único presidente da Air France em todo mundo que não era francês. Não era francês, mas era romeno, quer dizer, era europeu, culto e extremamente educado.

Ficou instantaneamente horrorizado com a chegada às nossas “instalações”, naquele elevador de obra com as grades de ferro, em companhia do crioulo descalço, com a lata de cimento na cabeça, que dividia a chegada com ele.

Desceu do elevador, tentou tirar a poeira daquele terno caríssimo, aceitou com européia relutância o caixote que lhe foi oferecido para sentar, recusou avec elegance a cerveja e o café da térmica, e passamos a discutir o evento, profissionais que éramos do show business.

Enquanto nos detínhamos nos pormenores, Ronaldo recusando a passagem de primeira classe da Air France, explicando ao presidente da companhia que tinha horror de avião, chega o contrarregra com a galinha embrulhada num jornal, e faz um sinal de que tem de ser agora, porque vai escurecer.

Imediatamente, como era um assunto da maior seriedade, pedimos licença ao contratante:

– Monsieur, dá licença um minutinho que a gente vai até ali o parapeito e já volta.

Miele:

– Bom, Ronaldo, casa aí as cem pratas na mão do contrarregra, e joga a galinha.

– As cem pratas tão aqui. Mas joga você a galinha.

– Você que falou que voava. Joga a galinha, porra. Mas eu garanto que não voa.

– Voa.

– Não voa.

A essa altura, Monsieur Halfin não suportou a curiosidade e veio até o parapeito.

Ronaldo:

– Monsieur Halfin, há aqui uma aposta. O senhor acha que galinha voa ou não voa?

Monsieur Halfin (já antecipando a tragédia e razoavelmente preocupado):

– Não tenho a menor idéia, senhores. Mas acho que não voa.

– Tá vendo, Ronaldo. Joga, mas não voa.

Ronaldo:

– Não jogo. Mas voa.

Contrarregra:

– Deixa que eu jogo.

Não voava.

A galinha tentou um vôo de mais ou menos um metro para a frente do parapeito, veio de volta para o andar de baixo, deu azar, pois a janela estava fechada, com aquele vidro com o “x” traçado a cal.

Voar, não voou, mas deu um mergulho fatal até a marquise, sob os aplausos dos operários, que não contavam com aquela canja inesperada. A não ser, talvez, o contrarregra, que mentiu, porque já sabia da autonomia de vôo da pobre galinha, e queria mesmo era comê-la.

– Falei que não voava, Ronaldo, passa as cem pratas.

E completamente alienados daquela selvageria, convidamos Monsieur Halfin a voltar aos nossos caixotes para continuarmos nossa negociação (ele, um tanto ofegante e pálido, reconheço), até o dia seguinte, mas, de qualquer maneira, recebi uma passagem para São Paulo e fui até lá para os últimos detalhes.

Na chegada ao elegante edifício da rua São Luiz, toda diferença do primeiro encontro. O elevador exclusivo da presidência, a recepcionista que me conduziu ao elegantíssimo escritório com a foto do Arco do Triunfo atrás da mesa presidencial, o gentil oferecimento de champagne (por mim recusado, já que ele também não havia aceitado o café e a cerveja).

E um novo diálogo.

Monsieur Halfin:

– Senhor Miele, o senhor está com pressa?

Miele:

– Absolutamente. Estou em São Paulo às suas ordens, só para tratar do show do Moliére.

– Ótimo.

No interfone:

– Monique, faça, por favor, entrar o Mr. Thompson.

Entra um senhor muito mais elegante do que ele.

Monsieur Halfin:

– Senhor Miele, este é meu amigo, Mr. William Thompson, presidente do Banco da Inglaterra. Peço que o senhor repita para ele a história da galinha, pois, durante o nosso jantar de ontem, ele me chamou de mentiroso, dizendo que era impossível que aquilo pudesse ter acontecido durante uma reunião sobre o espetáculo do prêmio mais importante do teatro brasileiro.

Bem a história aconteceu, o show também, e foi um enorme sucesso.

Creio que Joseph Halfin acreditou que aquela insanidade fizesse parte do processo criativo dos brasileiros e levou em consideração apenas o nosso trabalho. Tanto que eu permaneci como o mestre-de-cerimônias do prêmio Moliére por mais de 10 anos.

Mas sem a galinha.

Camelot às avessas



Por José Nêumanne
O que aconteceu no Rio de Janeiro no fim da semana passada não pode ser levado, como o tem sido ultimamente, na conta de algo grave, mas corriqueiro, que pode cair, se não no esquecimento, no mínimo naquela sensação de que pior do que está não pode ficar. Ou ainda que mais dia, menos dia as coisas se resolverão a contento. Pior do que está pode ficar, sim! E nada será resolvido se não forem tomadas providências pesadas e urgentes imediatamente, pois a lei da gravidade nunca é solução para nada e muito menos quando se manifesta de forma assim tão grave.

O ocorrido não foi inesperado. Ao contrário, resulta apenas de uma situação anômala que vem sendo revelada há muito tempo e precisa ser revertida para não alcançar graus insuportáveis não apenas para a ex-Cidade Maravilhosa e seu Estado. Não é corriqueiro um político da importância de Sérgio Cabral Filho já ter sido condenado a 72 anos de prisão, acusado de crimes que podem levá-lo até a 300, segundo cálculos de especialistas.

Ele foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), senador e governador duas vezes, numa era que foi de bonança, mas que resultou na mais abjeta miséria. É também o líder inconteste do PMDB local, cujo centro gravitacional gira entre o topo do poder e o pré-sal da impopularidade. Antes de completado o giro de 180 graus, ele elegeu o governador Luiz Fernando Pezão, manteve o Tribunal de Contas do Estado (TCE) sob sua órbita e fez da Alerj um puxadinho do palácio, onde instalou uma espécie de reino de Camelot às avessas, com direito a transformar sua mulher, Adriana Ancelmo, advogada próspera, em rainha da ostentação.

Primeiramente, urge advertir que os acontecimentos deploráveis que levaram o Rio ao miserê não foram produzidos só por vícios e delitos endógenos, mas também são sintomas da doença ética, econômica, administrativa e política que assolou o Brasil inteiro nestes últimos sete anos de cleptocracia da associação maligna de PT com PMDB, ante a indiferença comprada não apenas dos partidecos da chamada base, mas também do PSDB e de seus satélites, que fingiram ser oposição.

É verdade que o PT não conseguiu furar o bloqueio do PMDB no caso fluminense, mas será uma ilusão analítica não perceber que tanto o PT foi aliado e beneficiário da derrama do Rio quanto o PSDB, de importância política debilitada no Estado, também foi cúmplice por omissão comprada. Cabral foi uma espécie de administrador de uma colônia de corrupção, imoralidade e cinismo de uma metrópole devassa, estroina e irresponsável, sob o comando de oportunistas insaciáveis como Lula, Palocci e Patinhas e de coadjuvantes amorais como Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Como não podia ser diferente, o Congresso se comportou sempre como extensão da cleptomania do Rio. Isso não se deveu apenas a gente como Rodrigo Maia, atualmente presidente da Câmara dos Deputados e número dois sacramentado do governo Dilma na atual fase sob as ordens do sócio Michel Temer, pois este é o caso mais evidente, mas não o único. Mais grave é o do órgão máximo do Judiciário, que atua decisivamente para manter incólumes as raízes fincadas do poder dos bandidos locais com suas máfias.

Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, com seu voto de Minerva, deusa romana da sabedoria, liberou o vale-tudo geral nas corruptas Assembleias estaduais, sendo a do Rio a mais notória. E agora deixou até de exercitar seu gosto por belas alocuções, nem sempre acompanhadas de efetivas ações corretivas.

Marco Aurélio Mello liderou a votação concluída com o voto dela, libertando Aecinho para noitadas fora do lar doce lar, e agora veio a público tentando desvincular seu voto “garantista” da decisão cínica da Alerj em relação aos delinquentes flagrados Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi.

Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), recorrendo à condição de “deixa que eu solto”, negou-se a permitir a mudança do chefão Cabral para um presídio federal, apesar de todas as evidências, além de ter dado habeas corpus ao “rei do ônibus” Jacob Barata Filho, logo depois desmascarado em outra derrama de propinas.

O que aconteceu na antigamente gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro na sexta-feira 17 resultou dessa trama demoníaca de hipocrisia, desfaçatez e arrogância. O Tribunal Federal de Recursos da 2.ª Região (TRF-2), do Rio mandou prender o presidente da Alerj, Jorge Picciani, o líder do governo, Edson Albertassi, que, num gesto que parecia ser o cúmulo do desafio à lei, foi nomeado para substituir bandidos presos e proibidos de exercerem seus cargos no TCE, e Paulo Melo.

Em menos de 24 horas, após serem recebidos pelo godfather Cabral em Benfica, onde este liderou uma salva de palmas para o ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) Arthur Nuzman, um reles funcionário do Legislativo estadual compareceu ao presídio para soltá-los, sem que os desembargadores tivessem sequer sido avisados. Ou seja, os gatunos afanaram a chave da cadeia, soltaram os “parças” e viajaram de volta ao lar conduzidos por cinesíforos e gasolina de semoventes pagos pelo povo.

É impossível encontrar registro histórico de um desafio de tal porte. E o escândalo é tal que os meios de comunicação passaram a registrar queixumes anônimos dos “supremos” magistrados que, incapazes de corrigir a própria conduta, tentam transferir sua culpa para os vassalos de Cabral, Picciani, Albertassi e Melo. Nada que impeça novo habeas corpus concedido por algum dos mui disponíveis “soltadores gerais” desta República da leniência e da conveniência.

Esse desafio à Justiça e à democracia merecia uma reação dos membros da corporação, mas esses senhores de terno e toga preferem silenciar no caso, guardando fôlego para berrar contra quaisquer iniciativas que reduzam seus vencimentos e seus privilégios. Ficam inertes e silentes.

A situação desastrosa do Rio já exige dos maiorais desta República de desmiolados medidas severas e rigorosas, embora dentro da lei vigente. Mas não é só o Rio que está em jogo. A metástase da lei Marco Aurélio-Cármen Lúcia – garantia do inviolável direito à farra dos mandriões da cumbuca emborcada – vai muito além das manifestações esporádicas de Assembleias que elegeram o corporativismo como única mostra de defesa de seus direitos invioláveis à violação da lei.

Em artigo no Globo de domingo, o professor Joaquim Falcão, da FGV Direito do Rio, lembrou que “quando os Poderes e órgãos de controle do Estado são dominados por um mesmo grupo de interesses, inexiste separação de Poderes. Ou Estado Democrático de Direito”.

De fato, há muito tempo os ensinamentos do velho Montesquieu sobre a autonomia dos Poderes de uma República de vergonha foram simplesmente negligenciados ou cinicamente usados para benefício de uns e outros malandrinhos mandatários. E isso está além da gravidade em todos os seus sentidos.

Estamos na floresta sem cachorro e acuados pela cachorrada açulada por capitães-do-mato. A solução à vista para a situação seria o governo federal intervir no Estado. É impossível, diz-se, porque não se votariam reformas constitucionais com um Estado sob intervenção.

As reformas urgem mais do que a crise no Rio? Isso pode ser verdadeiro. Mas definitiva é a absoluta falta de autoridade moral do presidente Michel Temer, não somente um dos acusados por Rodrigo Janot de pertencer ao mesmo “quadrilhão do PMDB” em que militam os peemedebistas do Rio, mas também uma citação permanente de acusados que se dispõem a revelar verdades desconfortáveis.

É o caso, por exemplo, de Job Ribeiro Brandão, que, parecendo não ter a paciência atribuída a seu xará bíblico, ofereceu à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal (MPF) informações preciosas sobre sua rotina de contador de dinheiro a ser lavado dos irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima no closet da mãe de ambos.

Homologada sua delação, a batata do presidente seria chamuscada: por Geddel, seu sempre íntimo lugar-tenente de confiança de Temer, que demitiu do Ministério da Cultura Marcelo Caleiro, que acusava o vulgo Carainho da Odebrecht de prevaricar (o que está sendo provado pela descoberta de que ele era sócio da construtora), e pelo mano Lúcio, combatente da base que trocou a blindagem do chefe por cargos e benesses.

Até Deus terá dificuldades para nos proteger nesta hora infausta.

quarta-feira, novembro 22, 2017

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (1)



Por Luiz Carlos Miele

Sempre pensei que as histórias que fazem parte deste livro divertiriam um pouco meus amigos de várias épocas, em várias situações: nas salas de aula, na hora do recreio, durante os ensaios, na beira do campo, nas mesas de bar, na saída da praia, no quarto de hóspedes, atrás das grades, depois da missa, na cama, na lama, no estúdio, no palco e na plateia.

Coloquei muitas delas nos shows, acrescidas de alguma fantasia e, esporadicamente, escrevi artigos para algumas revistas. Nunca pensei em escrever um livro, mas, de um tempo para cá, várias pessoas passaram a sugerir que as histórias fossem todas reunidas e publicadas. Quando as sugestões passaram do círculo familiar e das rodas dos amigos do fim de semana, achei que poderia arriscar.

Descobri como é difícil escapar das armadilhas do auto-elogio, e se ainda assim acontecer algum, peço desculpas. Não quis aceitar nenhuma ajuda de editores de texto profissionais, já que as histórias não têm a menor pretensão literária. Nem mesmo autobiográfica – embora, pelo adiantado da hora e da idade, seja inevitável que façam parte da narrativa algumas memórias do tempo em que “pena que a nossa televisão não seja a cores”.

Espero que sejam divertidas. Eu, pelo menos, me diverti muito enquanto relembrava algumas histórias. E só uma coisa me deixa muito chateado: é que a vida não tenha uma segunda edição.

A vida é um show, mas às vezes, nem tanto. Na verdade, comecei a minha vida em São Paulo, e o show no Rio de Janeiro. Acho que desde criança de colo, tive minha trajetória determinada, pois meu avô, ao convidar os parentes para a festa do meu segundo aniversário, escreveu no cartão: “lembrança do meu segundo ano de circo”.

Minhas aventuras infanto-juvenis no rádio e na TV já estavam escritas em outros capítulos desta despretensiosa narrativa, quando os editores sugeriram que o livro deveria ter uma cronologia por mínima que fosse. Assim, acho que posso começar pela minha chegada ao Rio de Janeiro.

Trabalhando na TV Continental, estreei meu show, que eu espero, ainda esteja em cartaz quando o livro for publicado.

De toda a equipe que veio de São Paulo para operar a recém-inaugurada TV Continental, creio que ninguém conseguiu receber os salários em dia; se é que alguém conseguiu receber algum salário. Era uma época de extrema dureza, morávamos seis em um quarto, as camas enfileiradas como num quartel. Sem o sargento, é verdade, mas também sem o rancho, café da manhã, almoço etc.

Eu odiava o Rio de Janeiro. Não via a menor graça em ficar enclausurado entre Laranjeiras e Catete, sem um tostão para ir conhecer Copacabana. Eu já sabia que Copacabana era “a princesinha do mar”, mas ainda não havia sido informado que “Ipanema era um estado de espírito” e nem estava preparado para responder que, em compensação, “em São Paulo se come melhor”, e outras bobagens daquela época.

Um dia, também não deu para pagar o tal quarto com as seis camas e assim fomos todos para lugar nenhum.

De repente, o José Miziara, ator e diretor dos primeiros teledramas da Continental, conseguiu um apartamento que tinha uma linda vista para o alto. Ou seja, era no andar térreo e a janela dava para o paredão do prédio vizinho, mas era um cinco estrelas para a época. Gentilmente (ou com dó), ele cedeu um espaço para mim e Roberto Maya, também ator e apresentador, cujo nome verdadeiro era Robert Clement Altman.

Descendente de alemães, seu tio era o querido Walter Foster, e ele, o Robert, era incapaz de perder a fleuma e a dignidade, mesmo quando em outra ocasião jogamos a roupa pela janela dos fundos de um hotelzinho na Lapa. Deixamos a mala e saímos tranquilamente pela portaria para pegar as roupas na rua de trás. Mas, para nossa surpresa, demos de cara com uma versão de Chão de estrelas. E as nossas roupas comuns dependuradas nos fios elétricos pareciam um estranho festival.

Não teve jeito, e voltamos para o quarto-e-sala do Miziara, que carinhosamente nos oferecia o espaço. Mas não havia camas. Dormíamos no chão, até que ele passou a receber inúmeros roteiros para serem encenados na TV. Bem, os roteiros tinham centenas de páginas, que passaram a nos servir de colchões, sendo que o melhor no qual eu dormi foi, sem dúvida, Sindicato de Ladrões, que nós corajosamente encenamos.

Miziara era o Marlon Brando; o Maya, o Karl Maden; e eu, o Lee. J. Cobb, quase o elenco original. Resolvida a questão da moradia, ficou faltando a da alimentação. Havia o restaurante Lamas, ainda no Largo do Machado, mas, depois de alguns meses sem receber, o garçom que bancava nossa comida, resolveu suspender essa regalia, inclusive porque foi despedido por isso mesmo. Salvou-nos então (às vezes) a perícia do Miziara na sinuca. A gente reunia os eventuais trocados até fazer um mínimo razoável para que ele pudesse desafiar os craques locais.

Miziara não era nenhum Toquinho ou Paulinho da Viola, mestres do violão e do taco, mas quebrava um galho. Então ficávamos eu e o Maya dormindo pelos bancos da sinuca, durante a madrugada. Caso o Miziara ganhasse, sopa, ou ainda o “picadinho iugoslavo”, espécie de pot-pourri de tudo que levasse carne no dia anterior. Se perdesse, sanduíche de mortadela (ótimo). Algum tempo depois, alguém (Daniel Filho?) usou essa situação como argumento de um filme.

O tempo foi passando, o Miziara foi se especializando na TV, e também em algumas vedetes da época, que ele passou a namorar, com sucesso. Sobrou para mim e para o Maya, que ficamos novamente com duas mãos na frente e duas atrás. Acabou o luxo de dormir em cima de grandes autores.

Houve uma época em que encaramos as tubulações que estavam sendo usadas para a construção do Aterro do Flamengo. No início, pensei em dormir na praia, mas um colega milionário como eu me avisou: “Na praia não, que eles levam o teu tênis.”

Até hoje não sei por que o Maya se recusava a aceitar aquelas acomodações, e ficava mais bravo ainda, porque eu conseguia repousar com a maior tranquilidade.

– Porra, como é que você consegue dormir nessa situação?

Acho que ele não gostava daquelas baratinhas d’água, que também ocupavam o domicílio.

Passado um tempo, apareceu um novo trabalho para nós. As dublagens dos seriados americanos.

Fazíamos vários personagens, e o único que dublava o ator protagonista era o Daniel Filho, que fazia O Último dos Moicanos.

E então chegamos ao nosso Waldorf Astoria. Daniel nos acolheu num apartamento em frente ao Antonio’s (que ainda não era o maior bar do Brasil). Um endereço nobre no Leblon, e tinha cinco quartos.

Ocupavam os luxuosos aposentos: Daniel, Hugo Carvana, eu, o Maya e um decorador e cenógrafo chamado Joel. Emocionados com aquela fartura de camas, tratamos logo de povoar aquele espaço.

Ruy Guerra, um dos gurus do Cinema Novo, estava sempre por lá. Havia feito um tremendo sucesso com o filme Os Cafajestes, do qual o Daniel participava. Assim, era normal que aspirantes ao sucesso procurassem o Daniel.

Por alguma razão, resolvemos concentrar nossas atenções no futuro das atrizes do nosso cinema, deixando para outros batalhadores da nossa cultura a incumbência de selecionar os elencos masculinos do cinema nacional.

Uma das coisas mais cafajestes que antecederam o Cinema Novo foi o “teste da índia Kalu”. Eu já tinha ouvido falar muito, mas nunca, até então, havia participado.

Uma incauta futura candidata à estrela ligou para o apartamento, para saber se estavam fazendo o tal teste para um próximo filme. Não sei quem deu o telefone, nem quem atendeu o próprio. Digamos que foi a comissão técnica. Avisada da importância do momento, pois estaria presente o célebre diretor americano Vincent Minelli (Minelli é quase Miele, ou não é?), a moça chegou rapidamente.

Um amigo nosso chamado Raul (o Raul Vovô, que depois se tornou personagem de Ipanema) fez as vezes do mordomo do diretor americano. Ele era alto, louro, de grande porte e estava mais bonito ainda, pois envergava a casaca do pai do Daniel, que havia encantado plateias como grande cantor de tangos. Bem, tudo que aquela garota esperava estava longe da figura de um louro de um metro e oitenta, de casaca, e que abriu a porta recebendo-a com um inglês impecável, que, aliás, tanto fazia, pois ela não falava uma palavra do idioma (também não era muito forte no nosso).

Introduzida no luxuoso apê, deparou com o Maya, o Hugo e o Daniel atarefadíssimos, com o script todo espalhado pelo chão, todos discutindo o roteiro do filme, enquanto um ridículo Minelli/Miele, de cachimbo e robe colorido, martelava a máquina de escrever. (O robe também fazia parte do acervo portenho do pai do Daniel.)

A situação era absolutamente verossímil para qualquer pessoa. Afinal, interpretando seus papéis, estavam ali alguns dos futuros melhores atores e diretores do Brasil.

Entusiasmada com o ambiente (e com o próprio roteiro do filme), nossa heroína se imaginou como a própria Kalu, a personagem principal. Como todo mundo sabe, Kalu, a Índia, deveria ter um corpo escultural e nada mais justo que a convidada para o teste, revelasse à produção as suas possibilidades físicas.

Ainda um pouco inibida, ela própria sugeriu um strip-tease, para o qual pediu uma música ambiente que liberasse um pouco mais a sua sensualidade. Imediatamente, Charles, o mordomo, foi chamado. Sentou-se elegantemente ao piano, ajeitou a casaca, como convém aos concertistas. Porém, infelizmente, além daquela ser a primeira vez na qual envergava uma casaca, era também a sua estreia ao piano, de maneira que a música tema, que serviu de fundo para aquela cena erótica, ficou restrita à execução de La Paloma, tocada com um dedo só.

De qualquer maneira, a índia era uma beleza e sua perfomance convenceu imediatamente um dos componentes da equipe de produção, que, num ímpeto cinematográfico, arrastou a índia para uma das nossas cinco tendas.

Terminada a sua primeira experiência com os bastidores da indústria cinematográfica nacional, Kalu dirigiu-se ao chuveiro para um banho revigorante. Quando, de repente, a cortina de plástico é afastada. É evidente que ela não conhecia Alfred Hitchcock e a famosa cena de Psicose, por isso não gritou imediatamente. Mas ficou indignada ao deparar com o nosso mordomo que, na ocasião, vestia apenas uma sunga e a parte de cima da casaca. Portava também um Martini, numa elegante bandeja, e ofereceu a bebida a ela, ainda com seu inglês irreparável.

– Do you like a drink, madam?

Ela não só entendeu, como não aceitou, e ainda saiu correndo porta afora, carregando as roupas, vestindo-se pelo caminho e gritando:

– Eu não vim aqui pra dar pro empregado de ninguém.

Bobagem dela.

O mordomo era muito mais bonito que todos nós, e depois, não foi nem original, pois todo mundo sabe que essa frase “eu não vim aqui pra dar pro empregado de ninguém” foi dita, pela primeira vez, em Hollywood por Doris Day.

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (2)



Por Luiz Carlos Miele

Em 1950, eu cheguei aos estúdios da TV Tupi de São Paulo, no Sumaré. Usava calças curtas e vinha da rádio Excelsior de São Paulo, onde havia terminado uma série de programas escritos por Mario Donato intitulados Meu filho, meu orgulho.

O programa contava a história de grandes figuras da vida brasileira, como Carlos Gomes, Santos Dumont etc. Eu era o filho, ou seja, o orgulho quando criança, e estava muito contente com aquela estréia no rádio, que me assegurava o apelido de “Luiz artista” no time infantil do glorioso Esporte Clube Rubens Sales, na Vila Clementino.

Mas minha mãe, que era cantora e rádio-atriz, Regina Macedo, recebeu um convite da rádio Tupi e me incluiu no pacote. Assim, eu estava jogando bola no quintal da emissora, ao lado de três garotos prodígio daquela época: Walter Avancini, que saiu daquelas peladas para se transformar no mais temido diretor da TV brasileira pela esquerda (festiva) e Régis Cardoso, de tantos sucessos com as novelas da Globo (ele dirigiu a nossa primeira novela em cores), na lateral direita. Mas nós, naquele tempo, estávamos mesmo em preto e branco, tanto que o centroavante era o Erlon Chaves, no futuro um tremendo maestro e arranjador, preso, anos depois, exatamente por ser negro.

Ele fez um enorme sucesso num dos festivais da canção com a música Eu quero mocotó, que o Jorge Bem (que ainda não era Benjor) escreveu para ele.

Em meio às apresentações, uma loura lindíssima deu-lhe um beijo na boca, o que indignou várias senhoras brancas e mal-humoradas, e também a senhora de uma alta patente de nossas forças armadas. A tal senhora achou um absurdo a loura beijando um negão daqueles no horário nobre. Isso valeu ao Erlon uma inesperada visita durante os ensaios do programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi do Rio de Janeiro.

Quando Erlon ia começar o ensaio com a orquestra, um dos rapazes preocupados com nossa ordem política e social gritou “um instante, maestro”, enfiou um saco na cabeça do próprio, jogou-o no banco de trás da viatura e o levou para alguns dias de férias num daqueles simpáticos quartéis da zona norte do Rio de Janeiro. Depois de alguns dias, Flávio Cavalcanti descobriu o paradeiro do maestro e conseguiu soltá-lo.

A prisão não adiantou nada, pois, algum tempo depois, outra loura maravilhosa apaixonou-se perdidamente por ele. Erlon já se foi, a loura transformou-se numa das maiores estrelas da nossa TV e cinema, e continua a brilhar até hoje em nossas telas.

Viram só? Em menos de uma página, passei de uma TV Tupi para outra, com 25 anos de diferença. Como não havia videoteipe naquele tempo, nós ainda não sabíamos editar muito bem as “imagens que continuam povoando nossa imaginação”, como diria o autor de uma novela de segunda.

Corta novamente para a pelada da Tupi do Sumaré, no intervalo de um programa chamado Clube do Canguru Mirim, quando, de repente, interrompendo nosso recreio, a televisão chega ao Brasil.

Conforme Hebe Camargo pode confirmar, pois estava presente, Assis Chateaubriand comemorou o evento quebrando uma garrafa de champanhe numa das duas câmeras presentes. Quebrou a garrafa e a câmera, inaugurando assim, na verdade, a esculhambação.

Bendita esculhambação, que formou toda uma geração de profissionais. Sem nenhuma escola, foram obrigados a descobrir uma linguagem própria e, começando pela Tupi, criaram uma espécie de tupi-guarani na TV universal. Programas e programas de índio, a TV brasileira colocou-se em diversas oportunidades entre as melhores do mundo. Mas que o começo foi divertido, ah, isso foi. Corte ou fusão para TV Continental (Rio).

Telegrama Três Leões apresenta Orfeu do carnaval, direção de David Conde. No final, Eurídice Maximira Figueiredo morre. Sonoplastia sobe música de Tom e Vinicius: “Mulher amada, martírio meu. É madrugada, sereno dos teus olhos já correu.”

Eurídice devia estar completamente morta, como convém aos que morrem. Mas não. Na queda da nossa heroína, parte das suas lindas coxas ficou à mostra. E, enquanto a câmera avançava para o final emocionante, Eurídice, morta, mas preocupada com a censura da época, ajeitou a saia para cobrir aquele pingo de erotismo.

No telegrama seguinte, tivemos o cuidado de encerrar o programa com um cadáver que usasse calças compridas, e o escolhido foi Francisco Negrão, grande praça, grande amigo, ótimo ator e péssimo dentista. Pois não é que, no final da apresentação, depois de permanecer o mais morto possível, no momento em que entraram os créditos de encerramento, o cadáver simplesmente se levantou, limpando a poeira da roupa e perguntando: “Então, como é que eu fui?”

Foi para onde todo mundo o mandou, é claro.

Novo corte para o canal 5 de São Paulo.

TV Paulista apresentou Hit Parade, direção de Leonardo de Castro. A música colocada em terceiro lugar é Babalu, na interpretação de Johnny Mathis. É claro que não havia grana para os cachês internacionais, a Ângela Maria estava em Portugal, o negócio era alguém dublar a música. Eu fui o escolhido. Escolhido e maquiado de mulato, vestido com aquelas blusas com as mangas bufantes. Cubano, pero no mucho.

Como eu conhecia tudo de Mr. Mathis, foi mole. E eu lá: “Babalu, babalu ayé”. No fim daquela maravilhosa interpretação, alguém me puxa pelo braço e me enfia numa Kombi:

– Vai direto pro Pacaembu, que faltou um locutor pra comercial.

O jogo era Brasil e Argentina, estréia do Pelé na seleção. Assim que eu chego na cabine, me avisaram:

– Ô garoto, cada vez que a bola sair pela linha de fundo, você lê o seu texto.

E eu lá, maquiado de mulato, vestido de rumbeiro e dizendo: “Pneus Goodyear, triple temperado 3T”.

Mas a torcida, que já me viu – a cabine é pertinho do público – não perdoa: “fala, viado”.

De volta aos estúdios. Na noite seguinte, foi a vez da apresentação de um drama de guerra, que mostrava a campanha brasileira na Itália. Numa das cenas de batalha, eu, que fazia uma pequena participação como ator, tive de matar um nazista. O rifle falhou na hora, quer dizer, eu mirei certinho, mas o tiro, cujo ruído deveria vir de fora de cena, não pintou. O jeito foi improvisar:

– Meu capitão, o inimigo foi abatido. A coronhadas, mas foi.

Foi melhor do que aconteceu em outra série, quando, depois de falharem faca e revólver, um dos atores deu um pontapé no bandido, que brilhantemente retrucou enquanto desabava no chão: “Maldito, tu me mataste com tua bota envenenada.”

Também no programa da guerra, os pracinhas deixavam a cidade da Itália depois de uma vitória na cena final. Os heróis principais acenavam para o povo a bordo de um jipe. Um sargento, meu amigo, garantiu que emprestava um, mas só podia chegar na TV depois do primeiro ato. A guerra terminando, e nada do jipe chegar, todo mundo nervoso: “Como é que é, Miele, cadê a porra do jipe?”

Faltando cinco minutos para a cena final, a porra do jipe não chegou mesmo. Eu saí correndo na rua, parei um táxi, que entrou no estúdio e levou para casa os bravos pracinhas que agitavam no táxi a nossa bandeira. Bandeira 2, é claro. Alguns anos depois, quando voltamos da guerra, chegamos ao Rio de Janeiro.

TV Continental apresenta Os Dez Mandamentos, direção de Antonio Seabra, produção de Gilberto Bréa (tio da Sandra). Realmente, Cecil B. de Mille ficaria besta. A cena era a abertura do mar vermelho. A TV Continental tinha uma piscina no meio do estúdio. Ela ficava vazia e era onde deviam cair os filisteus (acho que eram filisteus). O efeito do mar se abrindo era conseguido através de uma rudimentar superposição de imagens.

Mas o Gilberto desconfiou que alguns dos tais filisteus iam ficar com medo do tombo e, depois de vestir-se de Moisés, muniu-se de um imenso cajado feito de cabo de vassoura. Não deu outra.

Na hora em que o mar se abriu, alguns dos figurantes, que deveriam ser tragados para o fundo, se agarram na beira da piscina. Ou seja: se agarraram na água do mar. Insatisfeito com aquele “milagre”, o Gilberto ia passando e dando uma cajadada nas mãos dos infiéis, que, finalmente, desabavam aos gritos para o vazio.

Dos dez mandamentos, acharam melhor desistir a partir do primeiro. Entrou mais um filme do Jim das Selvas, que substituía todo programa que saía do ar. A gente tinha duas opções: Johnny Weismuller ou os desenhos do Pica-pau.

O que não deixava de ser melhor do que alguns vexames da atual programação da tarde em nossa televisão.

Poeira de Estrelas – Histórias de Boemia, Humor e Música (3)


Alberico, Miele e Bôscoli

Por Luiz Carlos Miele

Conta a lenda que no beco localizado na rua Duvivier, no Rio de Janeiro, entre a avenida Atlântica e a avenida Nossa Senhora de Copacabana, as garrafas voavam dos apartamentos por causa do barulho feito pelos frequentadores das quatros boates ali localizadas. Por isso, o beco foi chamado Beco das Garrafas.

Quando eu cheguei de São Paulo, das quatro boates, três delas apresentavam músicas brasileiras e jazz: Bottle’s Bar, Little Club e Bacarat. A quarta boate era a Ma Griffe, que operava com mulheres que nunca cheguei a saber se eram bonitas ou feias, pois, em primeiro lugar, não tínhamos a grana necessária para conferir o talento das moças. E depois, porque só pensávamos em música.

O Bottle’s, assim como o Little Club, pertencia aos irmãos Campana, Alberico e Giovani. Eram anteriormente garçons, que vieram da Itália para descobrir o Brasil. Eram oriundos de Ascoli Piceno e chegaram ao Rio tipo “o poderoso chefão”, como o menino da cidade de Corleone.

Não tinham onde morar, nem trabalhar, dormiram nos bancos da praça Mauá, onde a grande legião de conterrâneos seus (mais ou menos quatro ou cinco rapazes) se reunia. Quando chegaram, acreditavam que iriam encontrar emprego rapidamente.

Alberico havia feito escola de hotelaria e acreditava que isso já fosse suficiente para conseguir se colocar. Nada disso. Procurou por emprego, primeiro nos melhores, depois nos piores bares, hotéis e restaurantes, sem nada conseguir.

Então, quando acabou a grana que trazia, e começou a fome e o sono, entrou desesperado num botequim da Lapa. Foi para trás do balcão, começou a lavar a louça. Ante a surpresa e os protestos do português, dono do bar, gritou com cara de louco: “ou o signore me da uno emprego em troqui de case e comita, ô chiama la polizia.”

Para surpresa, inclusive dele e do português, o apelo teve o maior sucesso, e assim começou a carreira do Alberico no Brasil. Como vamos verificar, tinha uma grande tendência para o show business, tanto que, quando foi para seu segundo emprego, numa pensão em Copacabana, teve sua segunda brilhante atuação.

A pensão tinha uns quinze fregueses, mais ou menos. Depois de algum tempo, o cozinheiro, que era também o dono do negócio, jogou a toalha. Ou melhor, jogou a toalha, as panelas, o fogão e os talheres, e abandonou o negócio. O Alberico, que comandava aquela grande brigada de duas pessoas, ficou com a bomba e a freguesia nas mãos. Achou que valia a pena, mesmo porque, ali na pensão, pelo menos ele comia e dormia.

Mas não dava para contratar outro cozinheiro, de modo que ele passou a empregar um tipo de serviço que jamais teria passado pela idéia dos seus mestres da culinária e hotelaria na Suíça. De madrugada, deixava já preparadas as saladas, massas e os bifes, que compunham o “menu” fixo da casa.

Recebia aqueles quinze fregueses, conforme iam chegando, colocava as garrafas de água e farinha de rosca (farinha na garrafa, não sei qual dos leitores encarou essa) e uma ou outra eventual cerveja para os chefes de seção. Então, gritava para a cozinha vazia “salta ‘dois almoços’ para a mesa cinco”.

Corria para a cozinha, pegava os pratos, colocava na janelinha do salão e gritava lá de dentro “saindo ‘dois almoços’ para a mesa cinco”, dava a volta correndo da cozinha para a sala, pegava os pratos e servia. Ficava nisso até o último freguês.

Não ganhou muito dinheiro, mas desenvolveu excelente preparo físico, que serviu para garantir um terceiro lugar na maratona dos garçons, realizada anualmente na madrugada do Rio de Janeiro. E sobrou também para investir no seu primeiro negócio. O tal Beco da Garrafas, onde Alberico e Giovanni trabalhavam como garçons.

No Little Club, a crooner era Dolores Duran, por quem Alberico foi apaixonado, mas nunca teve coragem de revelar. Dolores cantava em inglês e francês, além de suas próprias composições. Mas não comovia a todos os fregueses, e um deles, de nenhuma sensibilidade ordenava sempre ao Alberico:

“Diz pra aquela negrinha cantar aquele negócio da noite do meu bem, e leva um sanduíche embrulhado pro meu carro, pra viagem.”

Billy Blanco, que também deu uma namoradinha na Dolores, via aquilo e uma noite trouxe para ela letra e música do samba antológico: “Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho…”

Os músicos começaram a freqüentar o Beco, Alberico e Giovanni passaram de garçons a proprietários. Compraram tinta, martelo e pregos, e se transformaram em patrões, maîtres, gerentes e decoradores. Nem sempre com o mesmo sucesso. Prontas as instalações, faltavam as atrações. Dolores tinha partido prematuramente, vítima de um enfarte. Durante toda a vida do novo Little Club, Alberico trocava, a cada noite, a rosa em frente à foto da mulher por quem era, silêncio, apaixonado.

Mas e a música? Alberico já começara a ouvir de alguma maneira aquela coisa moderna que Dolores fazia, e o rádio começava a tocar um ou outro sucesso da Bossa Nova. Ele começou a chamar a rapaziada, que foi chegando e tocando. Sobrava até para uma concorridíssima “Jam session” aos domingos à tarde. Mas o sistema de consumação era o contrário. No início, os músicos não só não ganhavam nada, como ainda tinham que consumir um drinque para poder tocar. Não havia nenhuma maldade nisso, não. Era pura ingenuidade, mesmo.

É claro que isso durou muito tempo, e então nasceram os primeiros “profissionais” do Beco. Principalmente os pianistas – Luiz Eça, Luiz Carlos Vinhas, Sergio Mendes, Toninho, Tenório – e bateristas como Vitor Manga, Dom Um, Chico Batera etc. Desculpem o etc. Mas eu já peguei o bonde, ou melhor, o Beco, andando, não me lembro de todo mundo. Mas me lembro de que as estrelas eram os músicos, e não as cantoras.

Cantor, não haviam nenhum, até a chegada de Simonal e Jorge Ben. Aí, já foi no momento dos shows. Antes os instrumentistas reinavam absolutos. Por exemplo, Flora Purin era casada com Dom Um, mesmo assim, a rapaziada se recusava a acompanhá-la. Era a Flora chegar, e os pianistas desapareceram. A Flora se chateou tanto que largou o Beco, o Brasil, e foi para os Estado Unidos ganhar prêmio de melhor cantora de jazz, segundo a votação dos leitores da revista Playboy. Durma-se com um sucesso desses.

Gato Barbieri, tremendo saxofonista argentino, vivia lá, tentando convencer alguém a gravar seu tema Michelle, que foi feito em homenagem à sua mulher. Gostava tanto dela, que foi colocando o mesmo nome em temas que passou a numerar: Michelle 1, 2, 3, 4, 5, 6 etc.

Quando estava em Michelle 415, sem ter conseguido nada aqui no Brasil, Gato Barbieri desistiu e foi para os Estados Unidos, onde Marlon Brando prestou mais atenção nele do que a gente. Gato compôs a música do Último tango em Paris e ficou por lá mesmo. Parece que ganhou uma boa grana e dedicou-se á música que adora. Já está no Michelle 38.414.

Sacha Distel também apareceu por lá. Os músicos de seu conjunto foram convidados a dar uma canja, mas o Distel, considerado um “canário” careta, ficou de fora.

Leny Andrade era a única mulher respeitada pelos músicos do Beco. Ia sempre acompanhada do irmão, saxofonista, ou com a mãe, que desconfiava dos acordes daquela rapaziada. Leny era da mesma praia e música da turma, tocava piano, improvisava melhor que a maioria deles. Curiosamente, embora cantasse a toda hora, jamais fez seu show lá no Beco. Agora, que ela é a única brasileira que tem anualmente uma semana reservada no Blue Note de Nova York, vou perguntar a ela por quê.

O primeiro show foi o do Trio Tamba. Luiz Eça ao piano, Bebeto ao contrabaixo e o Hélcio Milito na bateria. Hélcio havia inventado também o instrumento de percussão que deu nome ao trio. Acertou quem disse tamba, é lógico. Depois, aconteceu o show de Elis Regina, produzido pelo jornalista Renato Machado, com textos gravados pela Íris Letierim, aquela locutora cuja voz maravilhosa anunciava todos os vôos dos aeroportos do Rio e de São Paulo.

Logo em seguida, quando eu já estava morando na casa do Ronaldo Bôscoli, Sergio Mendes nos chamou para fazer aquele que foi nosso primeiro show. Nosso e do Sergio Mendes. Como todo mundo sabe, Sergio Mendes continuou aqui no Brasil, lutando pela Bossa Nova, e Miele & Bôscoli foram se tornar milionários nos Estado Unidos.

Fizemos muito show lá no Beco. Quase todos, daí para frente, enquanto o Beco durou. Só com o Sergio, produzimos três. Quinteto Sergio Mendes: ele ao piano, Vitor Manga na bateria. (Dom Um Romão, idem), Otávio Baylli no contrabaixo, o Dr. Pedro Paulo (pediatra) ao pistom e Paulo Moura no sax e flauta. Sexteto Sergio Mendes: Sergio piano, Edson Machado na bateria, Otávio Baylli no baixo, Raul de Souza e Maciel nos trombones, Aurino no sax barítono. O sexteto atacou também em outro show com Odete Lara, que foi lindíssima como cantora.

Para os shows do sexteto, os arranjos finais foram feitos por Tom Jobim. O sexteto chamava-se Bossa Rio. O disco gravado com as músicas do show levou o nome de Você ainda não ouviu nada. E não tinha ouvido mesmo. Foi um som muito marcante para a época e, se você comprar o CD que foi editado com nova remasterização, vai ver (e ouvir) que o som é formidável até hoje. Bem, Louis Armstrong é bom até hoje, assim como Ravel etc. Fico pensando em quais dos sucessos atuais da música brasileira serão ouvidos em 2.044. Axé, minha gente bronzeada.

Naquela época, como o Sergio Mendes não gostava de falar, e eu ainda não havia percebido que podia ganhar algum como mestre de cerimônias, Ronaldo e eu tivemos que encontrar uma maneira de “narrar” os shows instrumentais.

No primeiro espetáculos, lançamos os slides, que logo depois se transformaram numa maldição nos show. Por exemplo, quando o conjunto ia tocar Primitivo, nós colocávamos a figura de um dinossauro que tentava comer uma linda mulher. Comer com a boca, tipo Jurassic Park.

Recortávamos as fotos de revistas como Squire, assim como as letras (letra por letra) para formar as palavras. Colocávamos toda essa maravilhosa arte-final em cima de uma toalha vermelha da boate, o Paulinho Garcêz fotografava, o Ronaldo levava o filme para a Manchete, onde o Jaquito deixava que fizesse, no peito, os slides.

Depois dessa maravilhosa primeira idéia, veio o segundo show. É claro que não poderíamos desapontar a seleta platéia, de maneira que criamos outra superprodução: Os pássaros (idéia depois plagiada por Alfred Hitchcock). Para cada canção do conjunto, uma gaiola com um pássaro e o título da música num cartão, pregado na gaiola.

Nana, de Moacir Santos: uma gaiola rústica, com um daqueles pássaros pretos que ficava agitadíssimo durante a canção. “Furaram os óio do assum preto, oi, pra ele assim, oi, cantá miór”. Não furamos os olhos do pássaro, como dizia a canção de Luiz Gonzaga. Quanto aos tímpanos, já não posso garantir.

Primavera, de Vinicius e Carlinhos Lyra: era uma vez de uma gaiola de porcelana, com aquele passarinho de dar corda. Um verdadeiro mimo.

O amor em paz, de Tom e Vinicius: essa música tinha até uma mensagem politicamente correta. Uma grande gaiola, onde havia uma pomba branca. Aquela da paz, perceberam a sutileza? E, sobre a pomba, ameaçador, um obus verdadeiro. A bomba da pomba. Genial.

Uma noite, por alguma razão pela qual não me lembro mais, tive uma briga com o Sergio e, num acesso de idiotice, acabei com metade do elenco, jogando as gaiolas na rua (digo, no Beco). Destruídas as gaiolas, o assum preto e a pomba voaram para longe e levaram consigo até o passarinho de dar corda. Como não encontramos substitutos à altura, o show terminou naquela noite.

Vieram os shows do Simonal, que depois de fazer grande sucesso como crooner na boate Drink, foi convidado por nós para fazer o seu primeiro espetáculo. Ele chegou a arrebentar. Seu primeiro trabalho foi ao lado de Darlene Glória, e a seguir Simonal volta com Rosa, quando lançamos a Rosa Maria, que depois estourou com California dreamin’.

E veio o primeiro show de Elis, com a dupla Miele & Bôscoli. Com o trio de Luiz Carlos Vinhas, um ótimo pandeirista e passista, chamado Gaguinho, e a formidável Marly Tavares, que foi consagrada como estrela num espetáculo chamado Skindô, que foi realizado no Copacabana Palace, com direção de Abelardo Figueiredo, roteiro de Aloysio de Oliveira e produção de Abrahão Medina – pai de Roberto Medina, o criador do Rock in Rio.

Minha paixão pela Elis, assim como os muitos trabalhos que fiz com Simonal, não cabe somente nas modestas medidas do Beco das Garrafas. Peço licença para falar deles em outras páginas.


Fizemos também dois shows com Lennie Dale, bailarino americano que tinha vindo ao Brasil, contratado por Carlos Machado para dançar num de seus espetáculos. Era a grande promessa da Broadway, segundo Hermes Pan, grande coreógrafo, que fez, por exemplo, Cancan no cinema (lembram? Sinatra, Shirley McLane, Maurice Chevalier, Louis Jordan).

Pois bem, o Lennie, que tinha vindo só para dançar, apaixonou-se pela música brasileira e montou um show espetacular, no qual cantava muito mais do que dançava. Ensaiou com o Vinhas durante dois meses, quatro horas por dia. Os músicos queriam matá-lo, ninguém tinha feito isso no nosso tipo de shows, mas o resultado foi maravilhoso. Eu só fui conhecê-lo na noite de estréia e, daí para frente, fiquei completamente envolvido pelo seu talento, como a maioria dos artistas brasileiros.

Assim que terminou a temporada no Au Bon Gourmet, elegante night club do Rio de Janeiro, levamos Lennie para a precariedade do Beco das Garrafas. No Beco, não existia iluminação. Instalamos algumas lâmpadas comuns, envolvidas com um cone de cartolina, que tinha um papel celofane colorido na frente.

Devíamos ter uns quatro ou cinco desses “refletores”. E duas lanternas, é claro. Lanternas mesmo, aquela “Eveready” de três pilhas. Mas, como se fosse possível, tínhamos um iluminador, que acionava todo esse imenso quadro de iluminação. Era o Zé Luiz, que depois foi diretor da RCA, em Nova York. Havia toda uma preocupação de criação (lembram das gaiolas?), e o público passou a adorar isso.

No show do Lennie, evoluímos em termos de superprodução, tínhamos direito a gastar uma folha de papel vegetal por noite. Colocávamos o papel na frente do balcão do bar, Lennie ficava em silhueta enquanto uma gravação anunciava: “Senhoras e senhores, o Bottle’s Bar, o bar da bossa, orgulhosamente apresenta Lennie Dale, mais um show Miele & Bôscoli”.

A entonação do locutor (eu mesmo, é claro) era pretensiosa, como se estivesse anunciando um grande espetáculo da Broadway, principalmente na parte “esse é mais um show Miele & Bôscoli”. Paramos de fazer isso quando a Tonia Carreiro teve um acesso de riso na platéia. A platéia, que eu digo, eram aquelas mesinhas baixas, com quatro pufes em volta.

De qualquer maneira, o Lennie arrebentava o tal papel e pulava no palco (um estrado de madeira de um metro de largura) e cantava: “Rio Copacabana, Rio Copacabana”. Era um sucesso total, aprendi muito com ele, principalmente quando ele discutia comigo, durante os ensaios:

– Miele, meu amor, tem di mudar o dinâmica desse número.

– Tá legal, Lennie. Vamos ensaiar de novo. Aproveita e me explica o que é essa tal de dinâmica.

Em outra ocasião, Lennie ia cantar O pato. Um dos garçons interrompia o show, trazendo uma salva de prata, emprestada do Au Bon Goumet, é claro. Lennie ficava muito surpreso, abria a tampa, e dentro estava um patinho lindo. Vivo, é claro. Quase sempre, quando se levantava a tampa, o pobre patinho, que já estava preso há algum tempo, grasnava. Lennie, assustado, dizia: “o pato?” E continuava cantando: “vinia cantando legrimente que quem”. Era um sucesso.

Mas o patinho durava pouco. Ou roubavam, ou tinha piores destinos, de maneira que fizemos um trato com uns garotos de morro, que nos traziam um patinho novo, toda noite. Mas acho que a ninhada acabou, porque numa certa noite, quando Lennie abriu a tampa, saiu voando de lá o maior pato que podia caber na tal salva. Saiu voando pela platéia. Filho da pata!

Mas fizemos trabalhos maravilhosos. Além dos seus shows, Lennie deixou uma escola e um estilo da dança moderna no Brasil. Depois fomos para São Paulo, onde montamos um show muito instigante com ele e Maria Bethânia.

Pouco antes da noite de estréia, eu fui informado pela direção da TV Record que deveria ir para Paris, gravar um programa de uma hora de duração com a Elis, que iria começar a temporada no Olympia. Oba, Paris, tudo pago. Ronaldo enlouqueceu:

– Ô Miele, eu não vou porque tenho pavor de avião. Mas você também não vai me deixar aqui sozinho com essas duas feras, o Lennie e a Bethânia.

Deixa eu explicar. Na dupla, Ronaldo era o dono das idéia, mas ficava comigo, em todos os shows, a parte de palco, luz, som, ensaios e neuroses. Assim, sabendo que tinha de deixar alguém em meu lugar, saí pela noite de São Paulo, depois dos ensaios, e entrei no Gigetto, onde a classe artística se reunia. A primeira pessoa que vi, quando entrei no restaurante, foi o Fauzi Arap, que eu só conhecia de vista. Contei a história para ele e pedi que ele assumisse a parte da direção. Sorte dele, e da Bethânia. Aconteceu uma sintonia maravilhosa entre eles e viveram felizes para sempre.

Depois, na minha volta, o Lennie pegou hepatite e deixou o show. Estávamos os dois num café e eu achei que os olhos dele estavam um pouco amarelados. Levei-o a uma farmácia para tomar um remedinho para o fígado. Quando entramos, o farmacêutico começou a gritar apavorado para eu levar aquele homem dali direto para o hospital.

Como nenhum hospital quis aceitá-lo, afirmando que hepatite tem que ser tratada em casa, levei o Lennie para a minha, lá em São Paulo. Qualquer doente desse tipo dá uma boa mão-de-obra, mas um energético, como o Lennie, foi uma verdadeira dor de cabeça, tronco e membros. Mas valeu. Grande Lennie. Em outro capítulo deste livro, eu conto mais histórias dele com Miele/Bôscoli e os Dzi Croquettes.

Entre os shows de Sergio Mendes, Simonal, Lennie, Os Cariocas, Elis etc, eu e o Ronaldo começamos a ensaiar outros tipos de pocket shows. Por exemplo:

Consuelo Leandro & o Bossa3

Consuelo era uma comediante extraordinária. (Imagino como foi o casamento dela com o Agildo Ribeiro. Que dupla, heim?) Fazia o show vestida com um smoking. Era o humor do teatro de revista, acompanhado pelos garotos da Bossa Nova.

Rosana Tapajós & Trio Yrakitan

Esse era diferente mesmo. Rosana era uma manequim e cantora lindíssima, que depois virou estrela e milionária do México. Chamamos para os arranjos Tenório Jr., excelente pianista que adorava jazz e o instrumento da Bossa Nova. Quando começou o primeiro ensaio, Rosana apareceu com um gato angorá no colo, e o Trio Yrakitan cantando: “ô Minie, gato de ti dô, se já skim bim bauim bauei”. Tenório levantou do piano, pediu o boné e se despediu:

– Miele, vai me desculpar, mas nessa do vaudeville eu não estou.

Nunca mais o vi. Infelizmente. Durante uma temporada em Buenos Aires, acompanhando Vinicius e Toquinho, ele saiu do hotel para comprar cigarros, foi confundido com um terrorista, preso e assassinado pela ditadura militar da Argentina. Apesar de todos os esforços de Vinicius, poeta e diplomata brasileiro, Tenório nunca foi encontrado. Muitos anos depois, um elemento da repressão confessou a autoria da sua morte.

Durante muito tempo, fizemos quase todos os shows do Beco. Acho que apenas três deles não foram feitos por nós. No Bacarat, Armando Pitigliani produziu o primeiro show de Jorge Ben. Por causa de você e Mas, que nada começaram a estourar por lá.

Samuel Wainer ia inaugurar o jornal Última Hora em Belo Horizonte e resolveu prestigiar a garotada. Eu e Ronaldo produzimos um show com quem estava disponível e levamos para BH: Sergio Mendes e conjunto, Dóris Monteiro, Walter Santos, um cantor que era o João Gilberto de São Paulo, duas bailarinas que iriam fazer a dança da Bossa Nova. E o Jorge Ben. Fomos de trem, à noite, no Vera Cruz. Marcamos encontro no Beco, mas Jorge Ben chegou partindo, quer dizer, veio para dizer que não ia.

– Olha aí, rapaziada, eu não vou nessa, não. Vou fazer um programa de TV em São Paulo. Pintou uma chance legal, um lance lá na capital, vocês me desculpem.

Desculpar, está desculpado. Jorge Ben era pedra 90, Jorge Ben também continuou sendo, mas como é que a gente ia ficar? Nessa altura, o pandeirista que tocava com ele, Nelsinho, arriscou:

– Ô chefia, eu estou trabalhando com o homem há três meses. Sei todo o repertório e me defendo. Me dá mais uma graninha que eu ataco no lugar dele numa boa.

Beleza, ainda não havia a TV em rede, acho que nem o videoteipe, e em Minas as pessoas haviam apenas escutado, e não visto, os primeiros dois sucessos do Jorge. Atacou o Nelsinho mesmo, anunciado com o nome do patrão. Tem mais. Ficamos hospedados no mesmo hotel que a seleção russa de basquete. Tínhamos uma gravação na qual eu imitava o Nikita Kruschov apresentando a Bossa Nova:

– E agora, diretamente da Praça Vermelha em Moscou, as palavras do premier Nikita Kruschov. E imitava: Kavranski protraika merdinska yavarich the bassanava americana com a banda de Johnn Philipp Souza.

Colocamos a fita no serviço de som do hotel às quatro da manhã e fomos para o saguão, assistir à briga entre o gerente do hotel e o representante dos russos. O gerente achando que era uma molecagem dos jogadores de basquete e os dirigentes soviéticos reclamando da falta de respeito com o seu premier.

Na volta, Pitigliani dirigiu Nara Leão. Nara cantava no Bacarat. Sergio tocava no Bottle’s. As casas eram vizinhas e tivemos que combinar para que a Nara esperasse o Sergio terminar, pois o som do conjunto Bossa Rio atravessava as paredes.

As paredes, pode ser, mas no Beco não se atravessava o ritmo. Outros show foi feito por Aloysio de Oliveira para Silvinha Telles (maravilhosa). Silvinha havia gravado o melhor disco de “cantora & orquestra” naquela época, com arranjos formidáveis de Lindolfo Gaya.

Aloysio apresentou, então, o primeiro show feito com playback no Brasil. Ficava escondido atrás de uma cortina de plástico que mandou pendurar, pois não havia espaço para ocultar aquele enorme gravador de rolo.

Bem, os artistas foram sendo requisitados para a fama e para outros trabalhos, a Bossa Nova foi chegando aos teatros, casas bem mais elegantes começaram a contratar aqueles que ali haviam sido lançados.

Eu e Ronaldo combinamos um novo encontro com o Alberico para dentro de alguns anos, encontro que realmente aconteceu, e então, repentinamente como nessas lembranças, o Beco das Garrafas acabou.