sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Estação Primeira de Mangueira


Eis aí uma trindade santificada por todos os mangueirenses: Carlos Cachaça, Maçu e Cartola. Marcelino José Claudino, o tio Maçu, foi o primeiro mestre-sala da escola, temido pelas magistrais pernadas que sabia aplicar quando se formava uma roda de samba. Um bamba de verdade.

Estação Primeira de Mangueira


Não há nenhum exagero em se afirmar que o morro da Mangueira é uma comunidade a serviço do samba. Por entre os seus barracões, nas vielas tortuosas e lamacentas, nas conversas entre famílias, nos papos de passatempo, entre uma cerveja e outra, à volta do balcão do boteco Só Para Quem Pode, o samba é o denominador comum. Ele soma, junta reúne, nunca divide, pelo menos de maneira irremediável.

A sede da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira – o Palácio do Samba – assemelha-se a uma fortaleza vigilante, uma atalaia que se ergue sobre o morro, atraindo a todos de lá e de fora, quando o apito trila e surdos e tamborins, tal como sinos dobrando festivos, anunciam que o samba vai começar.

Lá por volta de 1927, quando a grande força do carnaval carioca eram os blocos, existiam no morro de Mangueira três grupos que mediam forças: os Arengueiros, Mestre Candinho e Tia Tomásia, sendo os dois últimos terreiros de macumba que reuniam os seus filhos-de-santo no carnaval e saíam como blocos. Aos atabaques e agogôs juntavam-se cuícas e pandeiros, e as saias engomadas e brancas das baianas rodopiavam ao som de um samba sacudido, em geral curto e de coro fácil.

Os Arengueiros tinham esse nome porque os seus componentes não dispensavam uma catimba, uma arenga em boas condições, se bem que fossem muito bons de samba. Faziam parte do bloco alguns “moleques bambas”, denominação comum na época para alguns que depois fariam sucesso como compositores. E entre eles basta citar Angenor de Oliveira e Carlos Moreira de Souza, ou melhor, Cartola e Carlos Cachaça.

Naquela época, os blocos, além da força que representavam no carnaval, eram também uma demonstração da unidade dos bairros onde eram formados. Famílias inteiras, de ruas inteiras, saiam para visita de cordialidade a outras ruas e outros bairros numa animação contagiante e crescente.

Como o morro de Mangueira estava tripartido, criando uma competição que o enfraquecia, Cartola propôs e conseguiu a fusão dos três blocos, tendo surgido então o Bloco Carnavalesco Estação Primeira de Mangueira, no dia 28 de abril de 1929. O nome do bloco foi dado pelo próprio Cartola, mas as cores verde-e-rosa foram escolhidas por dona Lucíola Ribeiro de Jesus, que na época saía nos Arengueiros e até hoje sai na Mangueira.

Daí para cá a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira veio acumulando prestígio e vitórias, criando em torno de sim uma aura alimentada pelos seus integrantes e pelo povo que aplaude a sua passagem no desfile e canta os seus sambas com vigor e ardor.

“Ô, ô, ô, ô, a Mangueira chegou, ô, ô!!!”


TALVEZ HAJA SILÊNCIO,

MAS NUNCA TRISTEZA.

DAQUI A POUCO COMEÇA

TUDO OUTRA VEZ...

Dona Neuma e outros bambas


Na difícil arte de improvisar versos numa rodada de partido alto, muitos tentam e poucos se destacam. Xangô da Mangueira, nascido Olivério Ferreira, é um dos que mais se destacaram e que tem o seu nome pronunciado com respeito por todos os sambistas.

Foi na Portela que ele se impôs como partideiro quando, em 1935, fazia parte daquela escola. Com a saída de Paulo da Portela para a Lira do Amor, ele acompanhou o mestre só entrando na Mangueira em 1939, onde está hoje.

Depois de ter entrado para a ala dos compositores, Xangô foi também o puxador de samba-enredo no desfile até 1951, quando passou o posto para Jamelão. Daí em diante ele assumiu a direção de harmonia da escola, substituindo Cartola, e está firme até hoje comandando o canto e a evolução de passistas, pastoras e alas. E na hora de tirar um partido, é com ele mesmo:

Cantei muito samba
Eu já fui batuqueiro
E na roda de samba
Fui diretor de terreiro!


Neide e Delegado: um autêntico “pas-de-deux” proporcionado por dois bailarinos populares, num misto de ritmo, elegância e alegria.


A bateria da Mangueira é reconhecível à distância. Desde 1935 que ela é dirigida pelo mesmo homem: Waldomiro José Pimenta, para quem nenhum instrumento de percussão tem segredo. Ele encoura e toca qualquer um, em pleno desfile é capaz de saber se um ganzá sobrou na virada do samba ou se um agogô errou na batida do tempo forte.

Em mais de 40 anos de atividade hoje Waldomiro já é um mito em frente à bateria, mas não pense que lhe falta vigor. Ele é ainda capaz de ensinar a tocar um tamborim ou um repinique e está sempre preocupado em formar novos percussionistas.


A Mangueira tem muitos motivos para justificar o orgulho, um deles é a sua Ala de Compositores na qual pontifica, por exemplo, o Darci, cuja consagração já seria suficiente com este simples dado: é um dos autores do samba “O Mundo Encantado de Monteiro Lobato”, com o qual a escola desfilou o primeiro lugar em 1967.

Outro motivo de orgulho para a Estação Primeira é sua ex-pastora Clementina de Jesus, contemporânea de Heitor dos Prazeres, Paulo da Portela, Gradim e outros pioneiros, frequentadora da casa de Tia Ciata, cantora de novenas, ladainhas, jongos e pontos de macumba.


Além da sede da escola, há outro local que congrega todos os acontecimentos sociais, recreativos e até mesmo sentimentais do morro: é a casa da dona Neuma, mangueirense histórica, filha de Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da agremiação, e desde jovem pastora sestrosa. Nenhuma visita é válida, nenhuma pesquisa será completa, nenhuma informação será integral, se dona Neuma não for consultada.

Apesar de ter uma família numerosa, dona Neuma é o poço comum para onde convergem todos os problemas, todas as aflições, todas as dúvidas do pessoal da Mangueira. Na preparação do carnaval a sua colaboração é inestimável, na época das eleições o seu apoio é cortejado por todos. E ela está sempre com o sorriso à mostra, animando confortando, com uma palavra de carinho ou uma cervejinha gelada.

Até bem pouco tempo o seu telefone era o único existente no morro, o que dava à sua residência um permanente ar de festa. Era gente entrando e saindo, para falar ao telefone ou buscar um recado. A um recém-chegado não informado a impressão era que todo mundo pertencia à família de dona Neuma dado a intimidade com que todos tratavam e eram tratados. O fato de já haver atualmente outros aparelhos instalados não significa que o panorama mudou. A casa de dona Neuma continua sendo o centro nervoso do morro, antes, durante e depois do carnaval.

Portela, nunca vi coisa mais bela!


Três pilares sobre os quais se erguem as tradições, as lutas, as conquistas e as glórias da Portela: Paulo da Portela, Antônio Rufino e Antônio Caetano.

Paulo, também conhecido como Príncipe Negro, foi o introdutor do enredo nas escolas de samba, Rufino criou as finanças da Portela e Caetano é o autor do símbolo da escola: a águia.


Entre 1924 e 1925, na casa de dona Ester, em Osvaldo Cruz, ensaiava o Bloco Come Mosca. A rapaziada do local, muito alegre e desinibida, contava com a boa vontade da dona da casa e, no quintal, se divertia fazendo passos de samba e improvisando versos.

Mais tarde, no mesmo bairro, surgiu o Bloco Osvaldo Cruz, frequentado pela chamada “turma de Bento Ribeiro”: Heitor dos Prazeres, Manuel Gonçalves Natalino José do Nascimento, o Natal, e Paulo Benjamim de Oliveira, que entrou para a história do samba como Paulo da Portela.

O bloco além de brincar pelas ruas do bairro, desfilava na Pra Onze, tendo ganho em 1927 uma taça que veio decorada com fitas azuis e brancas, cores logo adotadas pelos integrantes, e que seriam mais tarde as da Portela.

Pouco depois o bloco mudou de nome. Passou a se chamar Bloco Vai Como Pode, e venceu os concursos da Praça Onze, organizados pelos jornais A Pátria e A Nação, nos anos de 1929, 1930,1931 e 1932.

Foi em 1925 que o então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, o Dr. Pedro Ernesto, oficializou os desfiles de carnaval. Blocos de diversos bairros apresentavam-se lá na Praça Onze, na época o maior reduto do samba e do carnaval. A disputa era acirrada, os ânimos também.

No final, quando o resultado era proclamado, e o era logo após o desfile, as discussões degeneravam em conflito e muita gente mergulhava – ou era mergulhada – no canal do Mangue, numa antecipação do agora conhecido refrão: “Quem samba fica, quem não samba vai embora.”

Naquele ano, o primeiro dos desfiles oficial, o Vai Como Pode foi campeão com o enredo O Samba Dominando o Mundo, tendo ficado em 2º lugar a Mangueira, em 3º, Prazer da Serrinha (atual Império Serrano) e em 4º lugar, a Vizinha Faladeira.

A esta altura já havia uma grande confusão nas denominações bloco e escola de samba. O Vai Como Pode já era conhecido não-oficialmente como Escola de Samba Portela, já que o outro título não agradava ao delegado Dulcídio Gonçalves, autoridade encarregada de dar licença para as agremiações desfilarem. Mas só em 1939 é que foi adotado definitivamente o nome de Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela.

Pioneira e renovadora, a Portela foi a primeira escola a usar corda para evitar intrusos, e também a primeira a apresentar alegoria, porta-bandeira e mestre-sala, comissão de frente, enredo, bateria fantasiada e surdo de marcação. É também a única escola heptacampeã (1941 a 1947).

Natal da Portela e outros bambas


Uma das figuras mais importantes e características na história mais recente da Portela é o Paulinho, atualmente um dos diretores de harmonia da escola e que já foi um passista notável, de ginga elegante e passos surpreendentes. É um portelense nato, tanto assim, que para a alegria dos seus amigos de vez em quando ainda diz alguma coisa no pé.


Dois compositores que ajudam a manter viva a legenda da Portela de possuir um caudaloso naipe de autores de samba de quadra e enredo.


José Flores, Zé Flores, Zé Quentinho, Zé Kéti, um dos primeiros compositores de escola de samba a romper o cerco das gravadoras, que durante muito tempo impediu que autores de talento e músicas de verdadeira origem popular chegassem ao grande público.

Ainda muito menino foi levado para a Portela pelo Armando Santos que também era compositor e depois foi presidente. Em contato com Alvaiade e outros compositores ele foi desencabulando pouco a pouco até ter coragem de mostrar um samba seu. E agradou muito.

Lá vem a Portela
Com suas pastoras
Alegres a cantar
Oba ioiô, oba laia,
Não tememos o vento
Nem a tempestade,
Nem as lindas ondas do mar.
Chega, deixa isso pra lá.

A carreira de Zé Kéti como compositor é de todos conhecida. Leviana, A Voz do Morro, Opinião, Máscara Negra, são apenas alguns dos sucessos que todos cantam e cantarão sempre. A sua linguagem é simples, mas nem por isso desprovida de intenção e poesia.


Nos primitivos desfiles era muito comum a ala das baianas vir engrossada por alguns homens. Na Portela houve duas “baianas” famosas: seu Ventura e seu João da Gente. Os dois foram também notáveis tiradores de versos e puxadores de samba enredo, quando ainda não se usava microfone e amplificação. Era no gogó.


Até hoje a Portela é das escolas que tem uma respeitável ala de compositores. Na chamada Velha Guarda estão alguns verdadeiros craques como Manaceia, Chico Santana e Walter Rosa, todos atuando com a mesma disposição e o mesmo talento dos primeiros dias do Conjunto de Osvaldo Cruz.


Três bambas da Portela desde os seus primeiros dias: Alcides Dias Lopes, também conhecido como Malandro Histórico, porque sabe de cor toda a história da escola, Ernani Alvarenga, autor de Lá Vem Ela Chorando, o primeiro samba que a Portela cantou na Praça Onze e Osvaldo dos Santos, o Alvaiade, um dos primeiros puxadores de samba da Portela.


A Portela deu ao samba uma figura definitiva e dificilmente superável: Natalino José do Nascimento, o Natal. Um dos fundadores da escola e batalhador incansável até o dia em que faleceu, 8 de abril de 1975, ele foi um líder inconteste.

Paulista de nascimento, tendo nascido na cidade de Queluz, em 1905, Natal antes de conhecer o Rio conheceu Madureira. E lá foi sua fortaleza e cenário para a sua vida que conheceu os extremos da pobreza e tranquilidade do dinheiro farto. Ele mesmo declarou certa vez: “Meu dinheiro ia uma parte para minha família, outra para a escola e o resto eu distribuía para quem precisasse.”

Figura humana que impressionava no primeiro contato, Natal viu criar-se em torno dele um folclore vasto e rico. A sua vida, o seu entusiasmo, cevaram-se na paixão que ele porejava pela sua escola, a azul e branco, a da águia alva e altaneira. Carnavalesco convicto, sambista indomável, sem nunca ter composto um samba, tocado uma caixa de fósforos ou sambado num terreiro, poucos fizeram pelo samba o que ele fez.

Dava gosto vê-lo nos confortáveis chinelos, paletó de pijama, chapéu à cabeça, tendo o cumprimento dado pelo braço que lhe restava ser disputado por autoridades, políticos, madames de sociedade e componentes de outras escolas, no dia do desfile. Ele vinha à frente de sua gente, jamais houve melhor abre-alas, era um símbolo de força e de amor. De amor à sua escola, ao seu enredo, ao seu samba, ao nosso carnaval.

Natal costumava contar que se fantasiou somente uma vez em toda a sua vida. Foi num banho de mar à fantasia em Copacabana (Posto 4), organizado pelo jornal A Noite, e mesmo assim ele vinha dentro de uma burrinha (disfarce que dominou o carnaval carioca durante uma época).

Primo de Paulo da Portela e de quem se considerava um discípulo, nos primeiros desfiles da Praça Onze ele era da brigada de choque da Portela. Não enjeitava parada. E assim foi até o último dos seus dias, quando foi acompanhado até a derradeira morada por uma multidão incalculável que acenava lenços brancos, como a sua águia, que tantas alegrias lhe deu.

Império Serrano


A primeira escola de samba a apresentar um destaque na forma em que conhecemos hoje, isto é, com muito luxo e requinte, foi a Império Serrano. E foi uma mulher quem apareceu com a novidade. Olegária dos Anjos Filho, casada com Calixto, que inventou os pratos de metal na bateria de escola de samba. Como se vê, um casal que uniu nome à escola.


Compositora desde os doze anos de idade, na época em que se homem metido no samba era malvisto, imaginem mulher, dona Ivone Lara custou a ver o seu talento reconhecido. Mas valeu a pena esperar. Hoje ela é uma autora requisitada e uma intérprete aplaudida. Tocando o seu cavaquinho ou rodopiando a sua fantasia de baiana, é uma alegria vê-la com seu passo miudinho e o seu sorriso largo.


Para Décio Antônio Carlos, o Mano Décio da Viola, bastaria o samba-enredo Tiradentes para colocá-lo em lugar de distinção na galeria dos grandes sambistas. Acontece que a sua participação na história do Império Serrano é também importante e intensa. Descobridor e parceiro de Silas de Oliveira, o Império já desfilou 19 vezes, e em muitas foi campeã com sambas de sua autoria.


Cada arte tem um mestre, e na arte de fazer samba-enredo Silas de Oliveira foi um mestre. Pegue-se ao acaso um samba seu e estaremos diante de uma obra de inspiração e acabamento quase artesanal. Só ou com parceiros, dos quais Mano Décio foi o mais constante, Silas deixou um legado que honra a todos os sambistas.

GRES Império Serrano


O morro da Serrinha, em Vaz Lobo, já foi um ponto importante na geografia carnavalesca da cidade. Houve certa época em que, no mês de outubro, já se ouvia os primeiros trinados do apito que comandava os ensaios frequentados religiosamente pelas moças e rapazes da vizinhança. A brava e simpática escola de samba Prazer da Serrinha reunia um grupo dedicado e animado, do qual faziam parte Alfredo da Costa, o fundador, Delfino Coelho, Cafua do Trombone, Mano Décio da Viola, Fuleiro, Carlinhos Bem-te-vi e Sebastião de Oliveira, o Molequim.

Foi no carnaval de 1945, quando depois de ter ensaiado o samba-enredo A Conferência de São Francisco, de Mano Décio e Silas de Oliveira, aliás, o primeiro samba da dupla, a escola foi obrigada a cantar outro intitulado Alto da Colina, por ordem do presidente Alfredo Costa, que houve a cisão. A escola foi desclassificada e o mal-estar que já havia contra a ditadura do seu Alfredo cresceu e explodiu.

Na Quarta-feira de Cinzas daquele mesmo ano, durante o almoço de confraternização, tradição que ainda hoje é cultivada por algumas escolas de samba, Sebastião Molequim fez um samba, e samba-protesto, narrando o incidente que tanto prejudicou a Prazer da Serrinha. Não foi difícil arranjar um lápis e um papel para que o próprio Molequim recrutasse as assinaturas dos que estavam de acordo com a formação de uma outra escola de samba, e ali mesmo nascia a Império Serrano.

O Mano Elói (Elói Antero Dias), que acabava de participar da extinção de outra escola de samba, a Deixa Malhar, e tinha todas as peças da bateria, aderiu imediatamente à nova agremiação, que elegeu como primeiro presidente o João de Oliveira Gradinho e tinha na diretoria figuras como o Sebastião Molequim, o compositor Silas de Oliveira, o próprio Elói e muitos outros.

A primeira reunião da nova escola foi realizada na casa de dona Eulália Nascimento, e lá foram escolhidos o nome da escola e as cores do seu pavilhão. Sebastão Molequim sempre afirmou que a escolha do nome teve relação direta com o titulo de uma outra agremiação, a Império da Tijuca, e foi ele quem propôs as cores azul e amarelo-ouro, que não foram aceitas.

A sugestão do verde-e-branco partiu de Antenor Rodrigues, autor do primeiro samba da escola, que diz:

O branco é a paz,
O verde, esperança.
Diz o ditado
Quem espera sempre alcança
E alcancei.
Império, por ti tudo farei.

Acadêmicos do Salgueiro


O Salgueiro, este mar vermelho-e-branco que invade as ruas no domingo de carnaval, tem compositores cujos trabalhos têm dado muita fama aos seus componentes. Aqui está um quinteto de autênticos cobras, criadores de indiscutível talento: Duduca, Iracy Serra, Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Noel Rosa de Oliveira.

Muitas obras-primas eles fizeram, dessas que o povo canta sempre, o que determina a sua permanência na memória coletiva. Citemos apenas alguns dos seus sambas: Navio Negreiro (1957), de Djalma Sabiá; Vida e Obra de Aleijadinho (1961), de Duduca e Bala; Chica da Silva (1963), de Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho e História do Carnaval Carioca (1965), de Geraldo Babão.

Na ala dos compositores do Salgueiro ainda tem gente como Zuzuca, Bala, Nilson Nobre, Ney Lopes e Zé Di. Todos integrados no dístico da escola: Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente.


Quando o Salgueiro, Sal para os íntimos, levantou o seu primeiro campeonato, em 1963, com o famoso enredo Chica da Silva (antes, em 1960, numa decisão do então Departamento de Turismo e Certames, considerada política pelos sambistas, o Salgueiro dividiu o primeiro lugar com Mangueira, Portela, Unidos de Lucas e Império Serrano), o diretor de harmonia da escola era Joaquim Casemiro, grande figura e líder do morro, falecido quando dirigia um ensaio e que ficou na história do samba como Casemiro Calça Larga.


Em 1927, Lindenbergh cruzava o Atlântico, o Spirit of Saint Louis invadia o mundo, Sacco e Vanzetti eram executados, o espírito da solidariedade comovia o mundo, Leon Trotsky era expulso do Partido Comunista, o espírito da dissenção preocupava o mundo. No morro do Salgueiro, eram vários os agrupamentos de samba, o mundo nem tomava conhecimento.

O Bloco Terreiro Grande, que levava as cores azul e rosa, reunia a preferência da maioria: nas batalhas de confete que se realizavam na Tijuca sempre fazia bonito. Foi Antenor Gargalhada quem liderou uma ala dissidente do Terreiro e fundou o bloco Azul e Branco do Salgueiro. A estas alturas o Terreiro mudou o nome para Unidos do Salgueiro, conservando, no entanto, as cores azul e rosa. Outro bloco surgiu ainda, o Depois Eu Digo (verde e branco), aparecendo como tertius na opção que os habitantes do morro podiam fazer.

Esta multiplicidade de blocos levou o sambista Totico a sugerir, em 1953, a fusão dos três para fortalecer o samba no morro. Mas os Unidos do Salgueiro não aceitaram a idéia que, entretanto, foi subscrita pelo pessoal do Azul e Branco e do Depois Eu Digo, nascendo então o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, existente na Chacrinha, local vizinho ao morro do Salgueiro e que, motivado e sensibilizado pela escola de suas cores, também aderiu aos Acadêmicos.

A fundação oficial deu-se em março de 1953, tendo sido eleito como primeiro presidente Paulinho de Oliveira, que se dedicou inteiramente à total integração do Salgueiro. No carnaval de 1954 a escola obtinha o terceiro lugar com o enredo Romaria à Bahia. Daí em diante, o Salgueiro marcou sempre a sua presença nos desfiles, até que em 1959 chegou em terceiro lugar com o enredo Viagens Pitorescas Através Do Brasil, que ficou conhecido como “Debret”.

Os figurinos, ou riscos, como os denominam os componentes das escolas de samba, e as alegorias foram um trabalho do casal Dirceu e Maria Luisa Nery, artistas plásticos de inquestionável vivência popular. O inspirador do enredo foi Nelson de Andrade, que a partir dali abria uma enorme senda e fixava um marco na história das escolas.

Unidos de Vila Isabel e Beija-flor de Nilópolis


Martinho José Ferreira pode dizer que é graduado em escola de samba. Desde menino que travou conhecimento e intimidade com todos os instrumentos de percussão. Não há mistérios pra ele. Quando saiu dos Aprendizes da Boca do Mato e foi para a Unidos de Vila Isabel, chegou com o curso feito, tornou-se o Martinho da Vila, cantor do povo, das alegrias e das aflições, da gente quem ele nunca renunciou.

GRES Unidos de Vila Isabel


É na rua Teodoro da Silva, onde o compositor Noel Rosa nasceu e morreu, que ensaia o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Única no bairro tido e havido como um dos redutos do samba urbano, a Vila congrega os moradores do local, além de muitos do Grajaú, Andaraí e Tijuca, que desfilam ou simplesmente torcem pelas cores azul e branco.

O seu fundador foi Antonio Fernandes da Silveira, o China, que veio do morro do Salgueiro, onde pertencia à escola verde e branco. Com a sua experiência e capacidade de arregimentação, não foi difícil criar as bases de uma nova escola, que seria fundada no dia 4 de abril de 1946 com o nome do novo bairro que ele tinha adotado. Como sempre, os primeiros elementos provinham de um bloco, célula primeira de todas as escolas de samba, e nesse caso particular foi o Azul e Branco, que brincava no Boulevard 28 de Setembro e ruas adjacentes.

Com cerca de 200 componentes, a Unidos de Vila Isabel desfilou pela primeira vez na Praça Onze, em 1947, com o enredo Escrava Rainha. Na bateria iam uns 30 ritmistas, quantidade que na época já dava para impressionar um pouquinho. O prêmio oferecido pela Prefeitura do então Distrito Federal era de trezentos cruzeiros, mas isto para a Vila não teve a menor importância, porque ela foi classificada em 13º lugar. Mas não desistiu.

De 1946 para cá a Vila começou uma trajetória nem sempre muito fácil ou brilhante. Em 49 consegui o 6º lugar com o enredo Iracema, em 1950 subia para o 4º posto com o enredo Baía de Guanabara. Em 1951 o tema escolhido foi Liberdade do Trabalho, em homenagem ao Presidente Getúlio Vargas, mas no dia do desfile caiu um aguaceiro daqueles e os carros alegóricos não conseguiram chegar à cidade, fato que prejudicou a escola, que voltou para o nono lugar.

Em escala descendente, a partir daí, a Vila baixando, baixando, até atingir o 18º lugar em 1954, com o enredo Último Baile da Ilha Fiscal, e quase foi mesmo... Mas o ânimo do pessoal não arrefeceu, o lema era o verso do poeta Noel:

A vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também!

A escola só voltou a conhecer o gosto da vitória em 1960, quando conseguiu o primeiro lugar na Praça Onze com o enredo Poeta dos Escravos. Entre idas e vindas pelos grupos que compõem os desfiles oficiais, a Vila nunca obteve o primeiro lugar entre as supercampeãs, mas já fez carnavais de grande beleza, como em 1977, quando Arlindo Rodrigues apresentou o tema Ai, Que Saudades Que Eu Tenho!

Assim como a Unidos de Vila Isabel, outras escolas ainda não conheceram a alegria de uma vitória consagradora, não obstante os bons enredos e os belos sambas levados à Avenida. É o caso da Unidos de São Carlos, da Em Cima da Hora, da União da Ilha do Governador, da Mocidade Independente de Padre Miguel e da Imperatriz Leopoldinense. Mas todas, nos seus esforços, contribuem para o momento grandioso que é um desfile das escolas de samba.


O Salgueiro foi campeão em 1969 com o enredo Bahia de Todos os Deuses, sem dúvida uma das grandes vitórias da escola pela ousadia de suas concepções e a coragem de arriscar em conceitos nada ortodoxos. Naquele desfile houve duas criações memoráveis, uma Iemanjá prateada concebida por Arlindo Rodrigues e os adereços usados pelos componentes, imaginados e executados por Joãozinho Trinta, ex-bailarino do Teatro Municipal e habilidoso criador artesanal.

Até então anônimo, João começou a se destacar graças ao seu talento sempre incentivado por Fernando Pamplona e Arlindo. Alguns anos mais tarde, com a saída deste dois do Salgueiro, Joãozinho assumiu a função de carnavalesco e fez enredos tão memoráveis quanto discutidos: As Minas do Rei Salomão (1974) e Rei da França na Ilha da Assombração (1975).

Foi a ida de Joãozinho Trinta e Viriato Ferreira para a Beija-flor que deu a grande virada nesta escola. Profundo conhecedor do carnaval e de sólida cultura popular, João realizou com o tricampeonato da azul e branco de Nilópolis uns dos mais belos desfiles de toda a história das escolas de samba.

GRES Beija-flor de Nilópolis


O ano era 1945, mês de maio, fim da Segunda Guerra Mundial, o povo comemorava cantando e sambando. Pelas ruas de Nilópolis um bloco famoso fazia a sua peregrinação de bar em bar, era o Bloco do Irineu Perna-de-Pau, que costumava sair durante o carnaval. Tempos depois Irineu faleceu e os seus liderados ficaram desnorteados.

Na noite de Natal de 1948, em casa de D. Eulália de Oliveira, os remanescentes do bloco estavam reunidos e, entre copos de vinho tinto e rabanadas, resolveram fundar a Associação Carnavalesca Beija-flor, o pássaro preferido de D. Eulália, que foi quem sugeriu o nome.

Seu filho Milton, o Negão da Cuíca, foi aclamado presidente e já no ano seguinte saia às ruas do local o novo bloco com as cores azul e branco, herdadas do agrupamento do finado Irineu. Com a adesão de mais gente e o inevitável crescimento a Associação tornou-se escola de samba em 1951 desfilando, com o enredo Libertação de Nilópolis. Começava ali a grande trajetória da escola que estava destinada a terminar com a hegemonia das chamadas quatro grandes (Mangueira, Portela, Império e Salgueiro).

Somente em 1952 é que a Escola de Samba Beija-flor desceu à cidade e apresentou-se no desfile da Praça Onze, entre as do segundo grupo. Ora subindo para o primeiro, ora descendo para o segundo, a escola foi adquirindo forma e coesão, até que em 1974 firmou-se entre as do desfile principal com o enredo Brasil Ano 2000. Mas o grande acontecimento deu-se em 1976, quando Joãozinho Trinta tendo saído do Salgueiro, foi convidado pelo presidente Nelson Abraão David e fez na Beija-flor o enredo Sonhar Com Rei Dá Leão, focalizando com malícia e espírito cariocas uma das grandes instituições do Rio de Janeiro: o jogo do bicho.

Ninguém resistiu à beleza dos figurinos de Viriato Ferreira e às alegorias do Joãozinho, animadas por um contagiante samba de Neguinho da Vala. E a Beija-flor foi a campeã de 1976, quebrando uma escrita de anos, rompendo o cerco das quatro que se revezavam no primeiro lugar. Em 1977 e 1978, o fato viria se repetir e o ex-bloco de Irineu Perna-de-Pau, agora é uma poderosa escola, que tornou-se tricampeã do carnaval carioca.

Sonhar Com Rei Dá Leão (1976), Vovó e o Rei da Saturnália (1977) e Criação do Mundo na Tradição Nagô (1978) são enredos que se tornaram inesquecíveis pela concepção e pela realização.


Poucos conseguem fazer ritmo de samba numa caixa de fósforo como Elton Medeiros, compositor-fundador da Unidos de Lucas e autor de sambas de inconfundível caráter e personalidade, onde ele expõe com lucidez e precisão a sua visão do mundo e do samba.


A via férrea que passa em Parada de Lucas dividiu por muito tempo o samba do local. Esta divisão não era somente geográfica, era muito mais. Era a irreconciliável rivalidade entre duas escolas de samba que disputavam a preferência dos habitantes daquele subúrbio.

Os encontros, evitados sempre que possível, degeneravam numa pequena batalha onde partilhavam todos, e que só terminava quando cada grupo recuava até a linha divisória.

No dia do desfile, o grande objetivo das duas não era propriamente o primeiro lugar, mas sim a colocação na frente da outra. Era um campeonato particular.

Esta disputa durou apenas 33 anos, até que, em 1º de maio de 1966, foi homologada a fusão e, dai em diante, Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela transformaram-se na escola de Samba Unidos de Lucas.

A idéia da fusão já existia há uns vinte anos, mas nenhuma diretoria de qualquer das duas agremiações aceitava consumá-la. Muita conversa ao pé do ouvido, emissários que iam e vinham de lado para o outro, papos nos botequins da redondeza, mas quando parecia que tudo estava resolvido aparecia sempre alguém para dizer: “Fusão sim, mas só se a sede for em cima da linha do trem!”.

José Serrão, mais conhecido como Cartola, atesta que a escola Aprendizes de Lucas foi fundada em 1933, em frente à padaria da esquina das ruas Cordovil com Lucas Rodrigues, onde a turma que jogava pelada todos os domingos se reunia ao cair da noite. O nome da escola foi conhecido pela primeira vez em 1935, quando com cerca de 200 pessoas ela participou do desfile na Praça Onze.

A criação dos Aprendizes determinou o nascimento, na outra margem da linha do trem, dos Unidos da Capela. Isto em 15 de Janeiro de 1933. Já existia no local a agremiação Capela Futebol Clube, desde 1928, e em 1926 o bloco virou escola desfilando pela primeira vez com enredo Sonho de Ópio, sendo campeã em 1950 com o enredo Homenagem ao Esporte Nacional.

No carnaval de 1968 surgia no desfile da Avenida Presidente Vargas uma nova escola e com as cores amarelo e vermelho: Unidos de Lucas, batizada na Matriz São Sebastião de Lucas e tendo como padrinhos a cantora Elizete Cardoso e o poeta Vinicius de Moraes que, impedido de comparecer, foi representado por outro poeta: Hermínio Bello de Carvalho. Em diversos carnavais Elizete desfilou com a Unidos de Lucas, mesmo quando a escola desceu para o segundo grupo.

À Unidos de Lucas, se não tivesse outros motivos para ter o seu nome inserido entre aqueles das escolas que acrescentaram fatos positivos à história do samba, bastava um: o samba enredo História do Negro no Brasil, mas conhecido como Sublime Pergaminho, de autoria de Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madruga. É uma das mais perfeitas sínteses e um dos mais pungentes cânticos da saga do negro em terras brasileiras.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Batuque é privilégio...


O jornalista Samuel Wainer conferindo as rotativas do Última Hora

Por Lan

A Samuel Wainer, devo a oportunidade de ter ficado no Brasil, a partir de 1952. E não é para esnobar não, mas integrei sua equipe ao lado de companheiros como Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Otto Lara Rezende, Nélson e Augustinho Rodrigues, Joel e Paulo Silveira, Justino Martins, Hélio Peregrino, Nassara e tantos outros monstros sagrados da imprensa brasileira.

Seu jornal, Última Hora, e mais tarde Flan, o excelente semanário que também fundou, nasceram na Praça Onze. Infelizmente, não a antiga, aquela sentenciada no imortal samba de Herivelto Martins e Grande Otelo: “Vão acabar com a Praça Onze/ Não vai haver mais escolas de samba, não vai...”, e sim a outra, a do samba de Waldemar Ressurreição e Evaldo Rui: “Tu fostes antigamente a Praça Onze/ Teu bonde de tostão era ideal...”.

Praça pranteada antes e depois da avenida Presidente Vargas pedir passagem. Mas que continua existindo na encruzilhada de todos os caminhos da velha boemia carioca, que levam à Lapa, Cinelândia, Praça Tiradentes, Praça Mauá, Estácio (pra não falar em Mangue), e ao lado da Central do Brasil, de onde partem os trens para os pagodes suburbanos, à sombra da tradicional Favela.


Foi nela, na querida Praça Onze, onde, modéstia a parte, começou meu aprendizado carioca, detrás do primeiro bloco de sujos que passou ouriçando o Carnaval de 53.

Nesse ano, as escolas de samba ainda desfilavam numa passarela montada na avenida Presidente Vargas entre Rio Branco e Uruguaiana. Ganhou a Portela. Mas eu não vi. O carnaval tinha me engolido na véspera.

Tive que me conformar em assistir à segunda colocada, Império Serrano, desfilando na quarta-feira de cinzas em Niterói.

Desse primeiro contato com uma escola, guardo na memória a imponente beleza de Olegária, destaque pioneiro da Serrinha, a leveza de seus passistas, o ritmo alucinante de sua bateria, e a roda de samba que alguns integrantes da escola improvisaram alegremente na barca da Cantareira de volta ao Rio de Janeiro.


Entre eles, nomes que mais tarde conheci e que respeito até hoje, como o de Silas de Oliveira – a meu ver, o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos – Fuleiro, Mano Décio, Aniceto, Ivone Lara.

O refrão na boca de todos: “A baiana me pega, me joga na lama, eu não sou camarão, camarão me chamam...ai, baiana!...”.

Negras, mulatas, cabrochas e morenas maravilhosas rindo, provocando, incentivando os partideiros. Bocas carnudas, confortáveis. Olhos rasgados de malícia e sensualidade. Trejeitos de Lundu.

Foi amor à primeira vista.


Amor mais forte e colorido talvez, do que aqueles que em outras etapas da minha vida, fizeram de mim um gaúcho no interior do Uruguai e da Argentina, ao som, das quenas, guitarras, charangos e bombos legueros.

Ou milonguero portenho nos lamentos do bandoneón de Anibal Troilo (Pichuco) em Buenos Aires.

A esse amor, porém, fiquei devendo meu primeiro livro, que é este.

Ainda nesse ano, e pela mão de Édson Carneiro, fui conhecendo o terreiro da Unidos do Salgueiro, seu lendário Casemiro Calça Larga, e um porre mais lendário ainda, de conhaque de Alcatrão.

Mangueira do Buraco Quente e do angu da Ifigênia.


Portela, sua jaqueira e seus admiráveis anfitriões: Caninha Verde, Manoel Bam Bam Bam, Rufino, João da Gente, João Calça Curta, Armando Santos e tantos outros bambas que me deram régua e compasso para esta crônica gráfica das escolas de samba.

Tenho acompanhado a vida de quase todas elas, a partir de 53, e a fantástica trajetória por elas percorrida.

Principalmente no desfile deslumbrante que apresentam no domingo de Carnaval.

Hoje em dia, sem exagero, o maior espetáculo popular do mundo.

Muitas coisas mudaram, algumas para melhor, se considerarmos a riqueza, o luxo, o requinte, a sofisticação com que desfilam a maioria delas, elementos positivos de julgamento.

Outras, infelizmente, aquelas que detalhavam a criatividade do sambista, nos seus aspectos mais subjetivos, nas suas expressões mais autênticas, se não se perderam, diluíram-se no gigantismo das escolas.

Que foram invadidas a partir dos anos 60, por uma verdadeira multidão de entusiastas “ciscadores”, que preferem brincar no carnaval das escolas, a ficar olhando o carnaval das escolas.


E isso, porque o carioca é antes de mais nada um folião nato, que gosta, quer e tem que participar do carnaval.

Não me cabe, neste livro, polemizar sobre este particular, e sim aplaudir, sem pieguismo, mais esta vitória do negro brasileiro que, com seu talento criador, contagiou a cidade inteira e, generosamente, como dizia meu irmão Candeia: “Damos do nosso coração/ alegria e amor/ a todos sem distinção de cor...” e a oportunidade de participar dessa festa.

O gigantismo das escolas, porém, determinou a necessidade inevitável de maior espaço.

Na medida em que elas foram crescendo, o local do desfile cresceu também.

Assim, da antiga passarela, as escolas do primeiro grupo, passaram a desfilar na avenida do Rio Branco, entre Almirante Barroso e Santa Luzia.

Daí, voltaram outra vez para a avenida Presidente Vargas, só que então, ao longo de quase um quilômetro, que é a distância entre a igreja da Candelária e a avenida Passos!

Este foi sem dúvida, o mais digno, o melhor dos cenários oferecidos às escolas, e à multidão de espectadores que se aglomeram anualmente para aplaudi-las.


Acredito ter sido o maior espaço, e a necessidade de se ocupar esse espaço, os grandes responsáveis pela série de inovações apresentadas pelas escolas visual, coreográfica e até estrutural do desfile, nos últimos anos.

Já na avenida Rio Branco, Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, tinham revolucionado totalmente o estilo tradicional das fantasias e alegorias do Acadêmico do Salgueiro, com “Quilombo dos Palmares”.

Deslumbraram a platéia com um desfile de “bom gosto” que deu margem a inúmeras polêmicas entre “puristas” e adeptos dessa verdadeira “bossa nova visual”.

Mas na verdade, o tão controvertido “bom gosto” desses dois admiráveis artistas, que fez do Salgueiro realmente uma escola diferente, foi, a meu ver, a maior demonstração de amor e respeito já oferecida por dois brancos à cultura africana e afro-brasileira dentro de uma escola.

E uma contribuição estética, que jamais pretendeu agredir a tão decantada autenticidade.

Pois autenticidade não é sinônimo de ignorância.

Devolvendo ao negro brasileiro o que o próprio negro criou, em forma de esculturas, máscaras, adereços, vestimentas etc., eles mostraram o que de mais nobre e belo herdamos dessa cultura.


Uma escola de samba, por outro lado, não tem compromisso folclórico cristalizado.

Ela participa de uma competição, e da maior ou menor criatividade que apresente em cada um dos quesitos julgados, depende seu sucesso.

Daí, toda inovação que não agrida suas origens é válida.

A beleza visual que Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, trouxeram na avenida, despertou tamanho apoio popular, que mesmo a revelia, as campeoníssimas Portela, Império Serrano e Mangueira, tiveram que modificar a tradicional ingenuidade de seus figurinos e alegorias, para concorrer com Acadêmicos do Salgueiro.

Sobreveio assim a necessidade de se contratarem profissionais do “metier”, cuja vivência de escola era pouca, ou quase nenhuma.

Os resultados logicamente nem sempre foram felizes.

A visão ocidental desses improvisados “carnavalescos” transformou o desfile muitas vezes em verdadeiros shows, dignos do Folies Bergère ou da Broadway.

Mas como se diz hoje em dia: tudo bem.


As escolas continuam num processo irreversível de faraônico deslumbramento, cujo extraordinário sucesso, torna obsoleto qualquer argumento em contrário.

Como bem disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo”.

E no meio do luxo, cabe acrescentar, de continuar descobrindo seus ídolos: Fuleiro, Wilma, Xangô, Neide, Benício, Paula, Delegado ou André, à frente da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Pois “batuque é privilégio” e, enquanto isso acontecer, haverá Escolas de Samba.

Esse livro nasceu em Paris, no ano de 1966.

Lembro uma carta oral que Vinícius de Moraes enviou a Tom, e que ouvi na casa de Francette de Rio Branco.

Nela, falava que a saudade do Brasil quando se vive no exterior, se sente mais em forma de samba tradicional, do que no estilo “bossa nova”.

Nada mais certo.

“Aquarela do Brasil” continua arrepiando a gente lá fora.

Quanto mais, ouvindo a bateria da Portela, gravada num disco que achei por acaso no apartamento de Samuel Wainer da Rue Davioud!


Foi lá que surgiu o primeiro desenho, ao compasso do surdo de marcação.

O desenho das baianas que ilustram este depoimento, e que vendi a meu inesquecível amigo Horacinho de Carvalho, para arredondar o preço da passagem de volta ao Rio de Janeiro.

Doze anos depois, graças a um portelense santista Toninho Nahas, o “Turco”, filho de árabes dos quais não herdou nenhum poço de petróleo, e sim, umas dez “refinarias de sensibilidade”, cumpro a promessa que fiz a mim mesmo, de dedicar meu primeiro livro às escolas de samba.

Livro sem lantejoulas nem paetês.

No estilo “desesperado de la ternura”, que é a caricatura, inspirada no convívio pele a pele com toda essa gente maravilhosa.


Nos terreiros, nas favelas, nos barracos dos morros, ou nas casas suburbanas.

Onde nunca falta um São Jorge na parede, um violão, uma cerveja geladinha, e principalmente, amor.

Simplicidade.

Filosofia de vida que nossos poetas populares esbanjam nos seus sambas, e que poucos aproveitam.

Infelizmente.

Pelo muito que me ensinaram, pelo muito que aprendi, gostaria de agradecer um por um.

Mas são tantos, que os reúno num nome só, onde cabem todos.

Candeia, obrigado.



IMPORTANTE:

Esse texto é o posfácio do livro As Escolas de Lan, com desenhos do cartunista Lan e texto de apoio de Haroldo Costa, atualmente fora de catálogo, que está sendo postado a conta gotas aqui no mocó.

Os posts anteriores (com exceção do texto do Moacyr Luz) também fazem parte da obra.

Meu Virgílio da Divina Comédia Carioca


Por Haroldo Costa

Em dia de sol e azul total, ele estaciona sua nuvenzinha ao pé do Pão de Açúcar e vai a praia.

Como todo carioca.

De preferência, ao lado de alguma certinha, o que no Rio não é difícil.

Só dá certinha.

Em dia de chuva, ele sobe mais um pouco e vai se encontrar com Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Ismael Silva e com Natal na cabeceira, improvisam um partido alto.

Mais alto do que nunca.

O resto do ano, fica ali mesmo.

Ancorado em qualquer parte da Guanabara, paquerando a cidade, que também é mulher.

Autor do antológico “Samba do Crioulo Doido”, que foi o melhor caricatura já feita, de compositores de escola de samba, não podia deixar de entrar nesta homenagem, pelo tanto que fez por todos eles.

Seu nome não foi, é Sergio Porto, ou se preferirem, Stanislaw Ponte Preta.

Haroldo Costa, meu verdadeiro Orfeu negro


Por Vinicius de Moraes

Conheci Haroldo Costa em Paris, em 1954, quando ali esteve com o grupo folclórico negro “Brasiliana”: idéia sua que Miecio Askanazy empresariou e levou adiante.

O pioneirismo da iniciativa e o relato circunstanciado das extraordinárias aventuras por que passou o conjunto, sobretudo em sua turnê sul-americana, fizeram-me de saída amigo de Haroldo: e boas risadas demos à lembrança das trapalhadas em que andou metido.

Cozinhei-lhes uma feijoada – e se tivesse dado a cada um seu peso em ouro não teriam saído mais felizes.

Dois dias depois ele me mandava dizer de Bruxelas que ainda tinha na boca o gostinho do molho de pimenta que eu lhes tinha servido.

Pudera! Tratava-se de uma pimenta africana que eu tinha encontrado na “Maison Hediard”, ali na Madeleine: fogo puro!

Em 1956, quando consegui financiamento para minha peça “Orfeu da Conceição”, foi em Haroldo Costa que finalmente nos fixamos, o diretor Leo Jusi e eu, para o papel-titulo.


Ele aliava ao physique du role um grande refinamento natural, que o levou a trabalhar sua personagem num sentido mais poético, como queríamos: um deus do morro, que com seu violão e seus sambas dilacerava o coração de todas as mulheres, acabando por atrair sobre si a tragédia e a morte.

Era uma iniciativa também pioneira, pois o teatro negro no Brasil limitava-se ainda aos corajosos esforços de Solano Trindade e Abdias Nascimento, e tudo teve que ser feito a bem dizer do nada.


Oscar Niemeyer largou seus projetos em andamento e veio fazer o cenário que lhe pedimos.

Antônio Carlos Jobim sentou-se ao piano e compôs sua primeira ouverture, além dos primeiros sambas de nossa parceria.

O bom Ciro Monteiro meteu sua caixa de fósforos no bolso e encarou que lhe com a maior seriedade em cena aberta.

Léa Garcia, antes do seu excelente desempenho no filme “Orfeu Negro”, extraído (a meu ver mal) da peça, era uma figura inesquecível, um figurino vermelho de Lila Bóscoli contra o ciclorama estrelejado.

E uma surda exclamação uníssona de admiração ergueu-se da platéia quando, ao som dos últimos acordes da ouverture de Jobim, o pano-de-boca abriu sobre o cenário de Niemeyer, na elegante noite de estréia no Teatro Municipal totalmente lotado.

“Orfeu da Conceição” marca o inicio do aproveitamento em larga escala do artista negro brasileiro, no teatro e em shows de boate.


E Haroldo Costa, pelo rigor seu profissionalismo e dignidade do seu desempenho, constitui certamente um exemplo para seus colegas de profissão.

A compostura do seu comportamento humano e artístico, aliado a uma inteligência arejada e despreconcebida, fazem dele, também, um autêntico líder de sua gente.

Mas não líder metido a tal.

Um que se fez porque sente o drama de sua raça e procura sempre levantá-la através das manifestações mais validas de sua contribuição à cultura brasileira: o ritmo, a música e a dança.


Trabalhador incansável, sua atuação em TV e nas boates tem sempre a distingui-la esse traço de amor à arte e aos mitos negros, mas sem qualquer preconceito e vasto amor pela beleza e pela cultura, no sentido de um Brasil cada vez mais humano e integrado.

Para mim, Haroldo Costa estará sempre ligado à imagem do meu Orfeu Negro, tal como o criei, com todo o patético do mito grego transportado para o morro e o carnaval carioca.

Somos amigos fraternos, e o melhor que dele poderia dizer é o que ele mesmo cantava em cena:

Se todos fossem iguais a você

Que maravilha viver...

Lan, caricaturista notável, cidadão carioca.


Trio de ouro do cartum tupiniquim: Chico Caruso, Lan e Jaguar

Por Sergio Porto

Claro, eu nasci ali, na primeira transversal à esquerda como, aliás, todos os meus irmãos. Mudei-me para aqui e aqui fiquei. Sou, portanto, um caso raro – só me mudei uma vez em toda a minha vida. Sou carioca e tenho diversos amigos cariocas, nesta cidade de tantos brasileiros.

Vinicius de Moraes nasceu na Gávea, Lúcio Rangel na Tijuca, Di Cavalcanti em São Cristóvão – que naquele tempo era Chistovam –, Haroldo Barbosa, como Noel, é da Vila, Millor Fernandes do Meier, Anna, minha babá, que ontem aqui esteve de visita, nasceu, batizou-se em Copacabana.

Somos todos cariocas, nascidos Porto, Morais, Rangel, Cavalcanti, Barbosa ou Fernandes, como provam nossas respectivas carteiras de identidade e, no entanto, muitas vezes me tenho perguntado se seremos tão cariocas quanto Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi, natural de Firenze, criado em Montevidéu, formando em Buenos Aires e que, neste momento, pode ser encontrado em algum lugar de Santa Tereza.

Segundo o escritor Luiz Jardim – que sinal é de Garanhuns – todo brasileiro que vem para o Rio carioquiza-se e todo brasileiro que não vem não sabe o que perde.

Nós – os de casa – não nos preocupamos muito em conhecer nossa cidade (e se vocês prometem não contar pra ninguém eu lhes confesso que nunca subi ao Pão de Açúcar).

Às vezes nos tomamos de amores por ela, ficamos líricos, fazemos um verso, uma crônica, e os que vêm de Pernambuco, de Alagoas, Acre ou Paraná são, quase sempre, mais apaixonados do que nós ou, pelo menos, mais exuberantes em sua paixão.


Nada disso, porém, acontece com Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi. Ele não nasceu aqui e nem descobriu o Rio – era um carioca predestinado.

Um dia confessou-me que, desde menino, pensava em poder morar no Rio, falar português (hoje ele não fala português, fala carioca), mergulhar nas ondas de Copacabana, subir o Morro da Mangueira, dançar um samba na “Estação Primeira”. Perdeu-se pela música. Principalmente pela música.

Quando menino, em Montevidéu, aguardava o dia inteiro um programa do rádio local, onde somente tocavam sambas. Chamava-se – e ele nunca mais esqueceu – “Ritmos Cariocas”.

Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi voltou para a Itália, reviu Florença, passou por Milão e surpreendeu-se a comparar a Baia de Nápoles com a Guanabara que ele nunca tinha visto. E era preciso conhecer.

Lanfranco voltou para a América, trabalhou em Buenos Aires e quando a oportunidade chegou, saltou na Praça Mauá perguntando onde morava o Cartola.

– Que Cartola? – indagaram.

E Lanfranco Roserri Vaselly Rossi-Rossi, admirado de não saberem, explicava que Cartola era o grande sambista de Mangueira, o mesmo que era exaltado toda hora nas letras dos sambas modernos.

Uns não sabiam, outros diziam que já morrera e houve quem dissesse que Cartola enlouquecera.

O que fora sempre um entusiasta do samba não acreditou.

Quis ver para crer.


Subiu o morro, conheceu muitos sambistas, ficou amigo de todos, e acabou descobrindo Cartola – o Angenor de Oliveira, de quem ouvia os sambas lá em Montevidéu, com o ouvido pregado no rádio.

Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi tem um leve sotaque, mas sabe todas as gírias, assobia qualquer samba do falecido Geraldo Pereira e eu duvido que Mangueira não abra seu salão, quando por lá aparece.

Lanfranco conhece todas as ruas de Copacabana, passeia pela Zona Sul como eu, que aqui nasci.

Morou no Leme e na Rua do Riachuelo.

Agora este em Santa Tereza, mas vai mudar-se para Paquetá.

Se ele estiver parado numa esquina do Leblon e você perguntar onde fica Mangueira, ele explica direitinho: toma-se o “Estrada de Ferro-Leblon”, salta-se na cidade, pega-se o “Mauá-Inhaúma”, mas que seja Via Jacaré, etc., etc.


Mas se você estiver em Portela e quiser ir ao “Sacha’s”, pergunte ao rapaz loiro e de óculos, que está a um canto desenhando num papel os passos das cabrochas.

Ele explica direitinho.

A cidade não tem segredos para Lanfrenco, de família Rossi-Rossi.

Se é verdade que todos somos cariocas, até mesmo os prefeitos que antecederam ao atual, se é verdade o que diz o escritor Luiz Jardim, então – caramba! – mais de nós todos é Lanfranco ou, se preferem, o Lan, caricaturista notável, cidadão carioca.