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quarta-feira, dezembro 13, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (26)


Por Jefferson Peres

Waldemar Pedrosa era muito mais jurista do que homem de letras. Dividia com Leopoldo Péres o mais prestigioso escritório de advocacia da cidade. Dizem que nas causas criminais ficava a seu cargo a fundamentação jurídica, cabendo a Leopoldo o combate no Tribunal do Júri. Infelizmente, não enfeixou em livros todos os seus pareceres e arrazoados, que, em sua maioria, jazem perdidos em arquivos mortos, à espera de algum pesquisador que se anteceda às traças e aos cupins.

Político, teve uma passagem brilhante no Senado Federal, onde se distinguiu pela participação ativa na reunião de um dos órgãos da ONU em Paris, e pelo célebre parecer de sua lavra, favorável à cassação dos mandatos dos parlamentares eleitos pelo Partido Comunistas Brasileiro. Argumentou que, havendo o Tribunal Superior Eleitoral cancelado o registro do PCB, que deixou, assim, de ter existência legal, entendia como automática a perda dos mandatos dos senadores e deputados eleitos sob a legenda desse partido.

Com base nesse parecer, o Congresso, em reunião tempestuosa e dramática, procedeu à cassação dos mandatos dos comunistas, inclusive de Carlos Marighella, deputado, e de Luiz Carlos Prestes, colega de Waldemar no Senado, onde representava o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Com isso, Waldemar caiu no índex das esquerdas, que passaram a ferreteá-lo com a pecha de reacionário.

Mas não foi a impressão que me ficou daquele senhor baixinho, encanecido, afável e simpático que, senador da República, primeiro, e mais tarde ministro do Tribunal Superior do Trabalho, aparecia nos comícios da Cruzada Amazonense de Resistência e da Frente Nacionalista, para me abraçar e se dizer solidário com a nossa luta. E como poderia ser de outro modo, em se tratando de um homem que eu havia conhecido anos antes, já advogado famoso, de cabelos grisalhos e pai de filhos adultos, no pátio de sua casa na Sete de Setembro a empinar papagaio com um entusiasmo infantil.

Huascar de Figueiredo disputava, com Leopoldo e Waldemar, o título de maior advogado do Amazonas. Seu escritório, na Rua Barroso, era frequentado por uma grande clientela, em busca de seu patrocínio para causas, principalmente cíveis, que dificilmente perdia. Comentava-se que guardava profunda mágoa pela morte prematura de sua primeira mulher, vítima de hanseníase. Quando despertei para o mundo, ela já havia desaparecido, mas era mulher elegante e de grande beleza, segundo depoimento de todos que a conheceram.

Entretanto, nas poucas vezes em que pude observar Huascar, não cheguei a perceber nele nenhuma sombra de tristeza, a menos que a dissimulasse, extravasando-a somente para os íntimos. Ao contrário, parecia um homem extrovertido e alegre, bom contador de anedotas, que narrava sem medir palavras, arrancando gargalhadas dos que o ouviam.

Irreverente, causou grande constrangimento ao poeta Sebastiao Norões, quando este lhe foi apresentado, ao disparar: “Norões?! Que boa rima para colhões!” E soltou uma gargalhada. Norões, muito tímido, sorriu amarelo e engoliu em seco. Mas parece ter guardado mágoa para o resto da vida, pois era visível o seu mal-estar quando lembravam o episódio.

Esse destempero verbal era uma das suas características, não poupando sequer os clientes, se lhe atazanava a paciência. Um dia foi procurado por um comerciante português, homem rico, mas conhecido por sua avareza, que lhe encomendou a elaboração de um contrato. Huascar, pediu que ele voltasse daí a duas horas. Decorrido esse tempo, o português voltou e recebeu o contrato pronto. Ao perguntar quanto devia, ouviu como resposta uma quantia que lhe pareceu exagerada e reclamou: “Tudo isso por um serviço que lhe custou duas horas de trabalho?!” Huáscar então explodiu: “Olhe aqui, sêo filho da puta, para redigir este documento em duas horas, eu precisei estudar mais de vinte anos. Pague ou procure outro advogado!” O homenzinho pagou, mas naquele dia ele perdeu um cliente.

Tal como Adriano, não deixou nenhum livro. Sua obra se encontra dispersa em conferências, artigos de jornal e, sobretudo, editoriais nos vários órgãos de imprensa com os quais colaborou. Estes últimos são irrecuperáveis, porque impossível identificar a sua autoria. É fora de dúvida, no entanto, que sua pena contribui para manter elevado o nível do editorialismo na imprensa local. Para perpetuar sua memória, a municipalidade deu seu nome ao trecho da Rua Saldanha Marinho entre a Avenida Getúlio Vargas e o Igarapé de Manaus, onde nasci e passei minha infância.

Peço licença, agora, para colocar a modéstia de lado e falar um pouco do meu tio, Leopoldo Carpinteiro Péres. Aos olhos da comunidade, ele formava, juntamente com Péricles e Adriano, embora mais novo do que eles, a Santíssima Trindade do mundo intelectual amazonense. Orador fulgurante, conseguiu brilhar em quase todos os ramos da oratória: literária, parlamentar e judiciária. Tão grande o seu prestígio, que era solicitado, como profissional, até pelos seus desafetos.

Certa vez, foi procurado para aceitar a causa de membros da família Brasil, de Boa Vista, cujo patriarca, coronel Bento Brasil, se tornara inimigo irreconciliável de seu pai, e meu avô, quando este lá servira como juiz. Leopoldo então procurou o pai, que o liberou para agir profissionalmente. O mesmo brilho demonstrava como professor e ainda hoje suas aulas são recordadas com saudades pelos seus ex-alunos. Mas assim como dominava a arte do bem-falar, não se descuidava igualmente do bem-escrever. Era um estilista, de prosa escorreita, fluente, elegante. Pode-se dizer que escrevia como falava.

Lamentavelmente, os dois livros em prosa que nos deixou, além de um outro de poemas, póstumo, constituem apologias do Estado Novo e de seu criador. Como diz o povo, queimou boa cera com um mau defunto. Mas se redimiu amplamente desse pecado, quando, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, fez inserir na Constituição de 46 o famoso artigo 199, que destinava 3% da receita da União ao desenvolvimento da Amazônia. Se mais não tivesse feito, já teria justificado o seu mandato.

Mas tudo o que se disser de Leopoldo será inútil para quem não o tenha conhecido. O forte dele era a personalidade, o encanto que sabia irradiar. Fisicamente não impressionava. Baixo, quase gordo, óculos de aros de tartaruga, passaria despercebido, não fora a requintada elegância no modo de ser e de dizer. Causeur admirável, dominava todas as rodas, nas quais se tornava logo o centro das atenções, quaisquer que fossem os seus integrantes. Não é de admirar que tenha colecionado muitas conquistas femininas, pois nem os homens escapavam ao seu fascínio.

Uma de suas muitas aventuras amorosas quase se transforma em tragédia quando, ao sair de sua residência, teve de arrostar a fúria de um marido ultrajado. A custo, alguns transeuntes desarmaram o agressor, salvando-lhe a vida, mas não a tranquilidade, afetada pelo escândalo. Um aristocrata, sabia receber os humildes com a mesma simpatia que dispensava aos importantes. À sua casa iam diariamente pessoas de condição modesta, às quais distribuía, generosamente, dinheiro que lhe fazia falta. Um esteta, sua preocupação descia a pormenores.

Certa vez, em conversa com Péricles Moraes, pronunciou o nome de Anatole France, com o “o” fechado (Anatôle). No dia seguinte Péricles, inconformado, lhe telefonou para indagar por que ele se pronunciara assim o nome do escritor francês, que para ele, Péricles, devia ser pronunciado com o “o” aberto. Leopoldo deu uma gargalhada e respondeu: “Ora, Péricles, porque é mais eufônico”. Por ocasião do meu nascimento, ao ser informado de que me seria dado o nome de José Jefferson, estranhou: “José Jefersson? Zé-jé? Não soa bem”. E aconselhou que eu fosse batizado apenas como Jefferson. Mas o parto ocorrera a 19 de março, dia de S. José, e minha mãe decidiu manter o prenome duplo, em homenagem ao santo.

Por lhe parecer de péssima concepção arquitetônica, detestava o edifício-sede da Associação Amazonense de Imprensa, na esquina de Eduardo Ribeiro com 24 de Maio, que só chamava de horrendo caixote. Para minha tristeza, convivi pouco tempo com ele. Deixou-nos muito cedo, aos 47 anos, fulminado por um derrame cerebral. Morreu praticamente na tribuna parlamentar, provavelmente como gostaria.

Num livro de memórias, Afonso Arinos de Melo Franco, testemunha ocular, conta como aconteceu. Reunida a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, Leopoldo lia um parecer, quando, a certa altura, sua voz foi ficando pastosa, seus movimentos descoordenados e logo, para estupefação geral, caiu no chão e foi levado ao hospital, onde morreu horas depois. Sepultado no Rio de Janeiro, até hoje seus restos não foram transladados para Manaus.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (27)


Por Jefferson Peres

Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier era o seu nome completo. Como que antevendo a vocação literária do filho, seu pai lhe deu os nomes de célebre poema épico hindu e do seu autor presumível. Não sei por que Ramayana acabou por estudar Medicina. Dizem seus contemporâneos da faculdade que em suas provas orais ele já fazia verdadeiras dissertações. Formado, guardou o diploma e nunca exerceu efetivamente a profissão. Seu mundo era o das letras e da boêmia, como ele próprio confessava.

Tribuno excepcionalmente dotado, era capaz de discorrer durante horas sobre qualquer tema. Quando ele voltou do Rio, após longos anos de ausência, procurei-o, em nome do Diretório Acadêmico, para convidá-lo a pronunciar uma conferência na Faculdade de Direito. Deixado o tema à sua escolha, decidiu na hora: Democracia Libertária.

À noite, depois de ouvir o discurso de saudação, que coube a mim fazer, tomou a palavra e, por mais de uma hora, discorreu sobre os princípios de um novo regime, que preconizava, bem como sobre o movimento político que estaria sendo articulado para a sua implantação. Ao fim, compreendemos que tínhamos assistido apenas a um prodigioso exercício de imaginação. Mas nem por isso nos sentimos frustrados, pois em compensação nos havíamos regalado com uma bela demonstração de oratória.

Ator nato, tinha um grande pendor para os gestos teatrais. Em 1953 liderou uma ruidosa campanha de arrecadação de donativos em favor das vítimas da enchente. Parece-me vê-lo, ainda em plena Eduardo Ribeiro, sentado no para-lama dianteiro de um velho automóvel, com faixa e alto-falante, a implorar o auxílio da população.

Jornalista de combate, tinha uma pena demolidora, que muito incomodava os adversários durante as campanhas eleitorais. Mas não teve sorte em política, jamais conseguindo galgar nenhum posto eletivo. Em grande parte, talvez, devido ao seu pouco empenho. Levava sua candidatura na brincadeira, como quase tudo que fazia. Gostava mesmo era de varar a madrugada num bate-papo com os amigos, sem preocupação com o tempo. Um eterno menino, que ocupava as horas vagas com trotes irreverentes passados nos figurões da cidade.

Displicente, escreveu apenas dois ou três livros, muito menos do que se poderia esperar de seu enorme talento. Aquele garoto brincalhão quer era Ramayana – oculto na máscara de feições orientais – guardava, no entanto, a mágoa de viver, por circunstâncias diversas, longe do Amazonas, que ele amava com um apego telúrico e uma unção quase religiosa.

Por coincidência ou não, dentre os homens que brilhavam em nosso meio literário, além de Álvaro Maia, também ensaísta e ficcionista, apenas um era, antes e acima de tudo, poeta. Chamava-se Américo Antony. Seu valor intelectual era reconhecido por todos, mas muitos lhe torciam o nariz devido à sua excentricidade. A começar pela figura. Magro, recurvo, cabelos compridos, terno amarfanhado e capa eternamente pendurada no braço, fizesse chuva ou sol.

Formado em direito, foi promotor no interior, mas dedicava aos autos apenas as horas que lhe sobravam da ocupação principal, que era a poesia. Conta-se que quando serviu, em determinada comarca, com Octaviano Mello – pai de Pedro e Anísio Mello –, um homem de letras aprisionado pela magistratura, os dois mantinham o fórum fechado e se deixavam ficar, perdidos, em longas conversas sobre literatura.

Dizia-se, também, com foros de verdade, que umas das muitas mulheres com quem viveu, certo dia entrou na sala em que Américo escrevia um poema e pediu-lhe dinheiro para o mercado. O poeta, indignado com a interrupção, gritou: “Miserável! Espantaste-me as Musas!” Consta que a moça deixou a casa no mesmo dia.

Eu próprio testemunhei uma dessas tiradas de Américo. Certa manhã, quase meio-dia, de regresso das aulas, no colégio Dom Bosco, encontrei Américo cercado de amigos, embaixo de um benjamim, na calçada do Leão de Ouro, esquina de Eduardo Ribeiro, com Henrique Martins. No exato momento em que eu cheguei, ele acabava de declamar um dos seus poemas.

A cerca de dois metros de roda, um jornaleiro, de apelido Ferrugem, entusiasmado, bateu palmas. Ao invés de agradecer, Américo, voltando-se para o rapazinho, perguntou: “Você entende de poesia?” Surpreso, o interpelado meneou a cabeça negativamente, e Américo arrematou: “Pois então não se meta, porque sapateiro não toca rabecão!”

Acho que até hoje, se vivo for, Ferrugem continua sem entender de poesia, e muito menos, das razões do poeta. Mas apesar desse comportamento nada convencional, reprovado pelos mais velhos, os moços reconheciam em Américo um grande talento poético e lhe dedicavam o respeito devido ao artista sério que ele sempre foi.

O último dos monstros sagrados a desaparecer foi Ramayana, já nos anos 70, doente e auto-exilado no Rio de Janeiro. Muito antes havia ocorrido o crepúsculo dos deuses com o fim de uma era em que a sociedade, reverente, cultuava seus intelectuais como figuras do Olimpo.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (28)


Por Jefferson Peres

A vida noturna de Manaus não tinha, é claro, a efervescência das metrópoles. Mas seria um engano supor que as noites se apresentassem vazias e sem opções. Longe disso, se levarmos em conta as dimensões da cidade, as atrações até que eram divertidas e variadas, embora ajustadas ao estilo e ao ritmo de vida da época. Além dos cinemas, naturalmente, havia, em primeiro lugar, as atividades dançantes, concentradas, para a classe média, nos dois tradicionais clubes de elite, Ideal e Rio Negro.

Ambos estão nas sedes que atualmente ainda ocupam, mas o Rio Negro recém-transferido da antiga sede da Rua Barroso, onde mais tarde funcionaram, sucessivamente, a Vara de Menores e a União Estadual de Estudantes, agora em ruínas. Durante quase todos os anos quarenta, os dois clubes se limitavam a cumprir uma programação anual preestabelecida e imutável, com a realização das festas de sempre, Chitão, Rosas Vermelhas, S. Pedro, Glamour-Girl, Réveillon e bailes carnavalescos, em traje passeio ou a rigor.

Somente no final da década o Ideal inovou, inaugurando uma boate, aberta todos os sábados e em roupa esporte. Após reformar um velho porão que servia como depósito, na ala norte, a Diretoria do velho clube deu-lhe um sopro renovador, com a criação da Juventude Idealina. Composta por um grupo atuante de moças e rapazes, à frente Bernardo Cabral, Carlito Cordeiro e Altino Azevedo, a J.I. passou a realizar suas sabatinas na noite que, devido à cor de suas paredes, era chamada carinhosamente de Vermelhinha e, mais tarde, de Moranguinho. Tendo como principal atração o piano de Aristóteles Melo, a boate do Ideal de tornou o ponto de encontro daquilo que os colunistas sociais chamavam de jeunesse doreé, reunindo tudo que Manaus tinha de mais bonito e elegante.

As festas desses dois clubes eram, de modo geral, tranquilas e bem-comportadas, transcorrendo rigorosamente dentro do figurino da época. As moças compareciam, sempre, em companhia de casais, com os quais, igualmente, regressavam a suas casas. Garota sozinha, ou acompanhada apenas de amigos ou namorados, nem pensar. E no decorrer da festa as jovens deviam permanecer sentadas à mesa, à espera de convites para a dança, com pavor de fazer crochet, isto é, de passar a noite sem dançar. Quando isso acontecia, eram alvos de gozação e algumas chegavam a chorar de humilhação.

Os rapazes, por seu turno, podiam sofrer, também, o vexame da recusa. Normalmente, o interessado procurava fazer sinal para a garota, de longe, e já ia na certa. Mas sempre aparecia algum mais ousado que resolvia correr o risco, sem prévio entendimento. Se dava sorte, a moça aceitava o convite e saía, educadamente, mesmo o contragosto. Mas às vezes a ousadia era castigada com um peremptório não e, nesse caso, o recusado fazia o caminho de volta no salão, sob olhares de zombaria, rubro de vergonha. Muitos abandonavam a festa, de cara no chão.

Os dirigentes dos clubes eram muitos zelosos da ordem e do decoro, que deviam ser preservados a qualquer custo. A vigilância sobre os participantes era bastante severa, principalmente no Rio Negro, que tinha em Aristóphano Anotny um férreo guardião da moral e do bons costumes. Não se permitia agarramento – há quanto tempo não ouço esta palavra –, beijos na boca nem passos de gafieira. Os infratores eram punidos sem apelação. Abordados discretamente, por um diretor, eram convocados à sala da diretoria, onde recebiam o convite para deixar a sede. Em outras palavras, eram simplesmente expulsos da festa. E obedeciam sem discussão, porque o rosto sisudo de Aristóphano não estimulava resistência nem protestos.

Tocava-se exclusivamente música romântica. Eram os foxblues americanos, como Summertime, Moonlight Serenade, Mona Lisa, Blue Moon, Again, Tenderly; ou foxtrotes, como Cheek-to-Cheek e Tea for Two; ou bolerões do repertório de Pedro Vargas, Gregorio Barrios e Lucho Gatica, ou, ainda, canções francesas, como Les Feuilles Mortes, La Mer, La Vie en Rose, Douce France e J’ Attendrai. A orquestra, ou o conjunto, tocava em surdina e deslizava-se no salão. Festa era uma oportunidade para se dançar, ouvir música e conversar. Conversavam os grupos, em voz baixa, nas mesas, e conversavam os pares, sussurrando, na pista de dança.

No final do período de que falo, abriu-se uma nova opção com a inauguração do Hotel Amazonas. O primeiro edifício de linhas modernas e, também, o primeiro hotel de categoria que aqui se construiu, fez de saída um enorme sucesso com o seu Mandy’s Bar, refrigerado, com instalações confortáveis e apesentando um serviço que a cidade desconhecia. Além disso, o hotel logo deu início às reuniões dançantes dos domingos, na Varanda Tropical, que ocupava todo o primeiro andar do edifício, aberta e agradavelmente arejada. Começavam à tardinha e se estendiam até às vinte horas. Com Aristóteles ao piano, tornaram-se um prolongamento da Moranguinho, completando os nossos fins de semana.

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, a rotina da cidade, em matéria de divertimentos, foi quebrada com a abertura, em setembro de 45, da Feira de Amostras. Um empreendimento ambicioso, que se tornou possível graças à conjunção do arrojo de Gebes Medeiros, do capital (pouco) de Coriolano Lindoso e do talento de Branco e Silva. A idéia inicial era fazer apenas uma grande exposição de produtos regionais. Logo o projeto se ampliou, para incluir um parque de diversões e um teatro de variedades.

Obtido o apoio do governo do Estado, insuficiente, Gebes caiu em campo para vender stands da feira a empresários daqui e do Nordeste, conseguindo, com muita dificuldade, os recursos para tocar a obra. Em pouco tempo foram erguidas as construções em madeira, no terreno da Manaos Harbour, cedido gratuitamente, que se estendia desde o local onde hoje se encontra a Capitania dos Portos até o Trapiche Teixeira, próximo ao edifício da Alfândega.

Compreendia três grandes pavilhões de exposição, decorados por Branco e Silva, com dezenas de stands; um parque de diversões, transportado do Rio, que apresentava uma grande variedade de brinquedos, conhecidos alguns, novidades outros, como Roda-Gigante, Polvo, Dangler, Gruta do Terros; e um outro, o Water-Shoot, que nunca vi em lugar nenhum; incluía, ainda, um grande teatro ao ar livre, um restaurante em forma de navio – a Nave da Felicidade, na amurada à beira do rio – e mais o próprio Trapiche Teixeira, aproveitando para a prática de jogos de azar, que só viriam a ser proibidos alguns meses depois, no governo Dutra.

Em setembro a feira foi inaugurada, com uma enorme afluência de público, presentes o então interventor Álvaro Maia e o embaixador americano no Brasil, Adolfo Berle Jr., de passagem por Manaus. Tão grande foi o entusiasmo do diplomata ianque, que fez um convite a Gebes para visitar os Estados Unidos, às expensas de seu governo. A viagem não se realizou porque, semanas depois, Adolfo Berle, envolvido num episódio famoso, deixava o país, ao ser considerado persona non grata, por envolvimento em nossos assuntos internos.

A partir daí, durante três meses, a feira foi o grande centro de diversões da cidade, tendo como carro-chefe o teatro, onde se apresentavam os grandes astros da música popular brasileira. Por ali passavam Orlando Silva, Carmen Costa, Ciro Monteiro, Odete Amaral, Dircinha e Linda Batista, as Irmãs Pagãs, Moreira da Silva e Manezinho Araújo, além de um cômico, Canelinha, que se tornou muito popular na cidade, por ele visitada periodicamente. Trazer esses e muitos outros artistas a Manaus, num espaço de tempo tão curto, era uma tarefa quase impossível, não apenas pelos gastos exigidos, mas também pelas dificuldades de transporte.

Naquele tempo não havia linha direta Manaus-Rio. Os aviões faziam o percurso Rio-Belém pelo litoral e, da capital paraense, os passageiros, feito o translado, se deslocavam para cá. Os voos eram poucos e os aviões, pequenos, estavam sempre lotados. Gebes só conseguiu superar o problema porque, através de Álvaro Mais, obteve a proteção de D. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, a Alzirinha, filha do ditador, só deposto a 29 de outubro – que interferiu junto a Salgado Filho, ministro da Aeronáutica, para a concessão de prioridade aos artistas que viajassem a Manaus.

A realização de um empreendimento daquele porte, na pequena cidade dos anos quarenta, é explicada pela tenacidade de um nordestino que aprendeu, desde cedo, a não recuar diante dos obstáculos.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (29)


Por Jefferson Peres

Anos depois, as duas emissoras de rádio locais, a Baré e a Difusora, decidiram explorar o filão descoberto pelos criadores da feira. Antes, à semelhança das emissoras do sul do país, lançaram os programas de auditório, em suas próprias instalações, como a Difusora, que então funcionava em um velho prédio na Joaquim Sarmento, quase defronte à sua sede atual, ou utilizando o Guarany e o Polytheama, como fazia a Baré.

O programa da Difusora se intitulava Tem Gato na Tuba, porque o calouro que se saía mal era advertido com um miado desaprovador. A Baré, sucessora da pioneira Voz da Baricéia, já realizava esses programas desde o tempo em que pertencera ao governo do Estado, adquirida de seus primitivos donos. Com estúdio instalado no prédio da Associação Comercial, foi lá que estreou como calouro o garoto Carlos Augusto Carneiro, que ainda aspirava a fazer carreira como cantor de rádio.

Incorporada à cadeia dos Diários e Rádios Associados, partiu, já na década de cinquenta, para a construção da Maloca dos Barés, um grande auditório descoberto, construído no mesmo terreno em que funcionara a Feira de Amostras. Ali, o show era comandado por animadores como Belmiro Vianez e Josaphat Pires, com distribuição de prêmios aos espectadores, muitos dos quais abiscoitei, ao responder a perguntas de conhecimentos gerais.

Havia, também, apresentações de artistas locais, dentre os quais guardo, como grata lembrança, a figura de Maria de Lourdes – por onde andará a Lourdinha? – terna cantora de música hispano-americana. O espetáculo era encerrado, sempre com a presença de um cantor nacional famoso.

Toda a velha-guarda do rádio brasileiro desfilou no palco da Maloca. Os mesmos que haviam passado pela feira, e mais Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Aracy de Almeida, Marlene, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, com o Trio de Ouro, depois sozinha, Lourdinha Bittencourt, Nora Ney e muitos outros.

A Difusora não ficou atrás e replicou com a Festa da Mocidade, também um grande auditório ao ar livre, primeiro instalado na Rua Silva Ramos, em terreno hoje ocupado pelo BEA, e mais tarde na antiga Baixa do JG, na Avenida Getúlio Vargas, onde atualmente se ergue o edifício Palácio do Rádio.

Havia grande rivalidade entre as duas emissoras e com isso, obviamente, saía ganhando o público. Às vezes, a Festa e a Maloca anunciavam, simultaneamente, duas grandes atrações, deixando-nos em dúvida quando à escolha. De minha parte, eu preferia, quase sempre, a Maloca, onde podia ficar na amurada do rio, perdido em cismas, a contemplar as luzes das embarcações ao longe.

As noites ofereciam, ainda muitas vezes ao ano, os arraiais ou quermesses, promovidos pelas diversas paróquias da cidade. Sucediam-se quase à razão de uma por bimestre, inicialmente com a de São Sebastião, em janeiro, depois a dos Remédios, a seguir a de Aparecida, logo a N.S. de Nazaré, na Vila Municipal e, finalmente, a da Matriz, em torno da Catedral.

Essas promoções eram aguardadas ansiosamente e movimentavam meia cidade, principalmente a juventude, que lá comparecia não apenas atraída pelos mais diferentes tipos de jogos, nem pela ampla variedade de guloseimas que podiam ser encontradas, mas também pela oportunidade de paquerar garotas.

Elas vinham às centenas, das redondezas ou de outros bairros, para encontros com namorados ou para o giro habitual em volta da praça, para o simples flerte ou, quem sabe, para abordagem dos rapazes, que também acorriam, de todas as partes, com o mesmo objetivo. E ali nos plantávamos até o alto-falante emudecer, dando por findo o arraial.

Aos domingos tínhamos um aperitivo, que eram as retretas da Praça João Pessoa (hoje Heliodoro Balbi), com a bem afinada banda da Polícia Militar, no belo coreto que ainda lá se encontra, tocando os sucessos musicais em voga. A praça ficava apinhada, com gente espalhada em torno do coreto, nas alamedas internas e, sobretudo, na calçada, onde se deixavam ficar os rapazes, em grupos, parados, e as moças volteando de braços dados. Saíamos com a banda, quase sete horas da noite, quando voltávamos às nossas casas para jantar e, em seguida sair de novo, rumo ao cinema ou à quermesse, se havia alguma funcionando.

Sempre que possível, nossas noitadas se completavam com serenatas. Nos meses de verão, de julho a novembro, com lua cheia ou mesmo quarto crescente, lá íamos nós preparar a seresta, que dependia da disponibilidade de instrumentistas, poucos e muito disputados na época. Geralmente levávamos dois violões e, quando aparecia, um violino.

Nossos violonistas preferidos eram Clóvis Bacury, excelente companheiro, morto prematuramente, e Domingo Lima, um crioulo bom e pachorrento, com infinita paciência para suportar as nossas desafinações. Sim, porque os cantores éramos nós mesmos. Raramente convidávamos alguns integrantes do cast de uma das emissoras locais. E do nosso grupo, constituído por José Oliva, o Pítias, Luiz Bezerra, Haroldo Costa, Stephano Novelino e Pedro Amorim, apenas este último apresentava uma bem impostada voz de tenor. Os outros variavam de razoáveis a péssimos e não poucas vezes se perdiam em agudos mais puxados, apesar do ligeiro ensaio que sempre fazíamos, na Praça da Polícia, em busca do tom exato.

Em seguida, íamos comer peixada, geralmente no Vasconcelos, uma peixaria no começo da Joaquim Nabuco, onde se servia a melhor caldeirada de Manaus. Por volta da meia-noite saíamos para a seresta, em carro de praça, se as casas eram distantes, ou a pé, se ficavam mais próximas. Normalmente a recepção era boa, pois despertar ao som de violões e violinos satisfazia o ouvido e a vaidade.

O prestígio da moça entrava em alta na vizinhança, e mais ainda se havia coincidência de duas serenatas na mesma noite, coisa nada incomum se a jovem era muito requisitada. Ela própria, aliás, se encarregava de alardear o feito, para acicatar o despeito das rivais. Muito raramente podiam acontecer fatos desagradáveis. Com o nosso grupo, ocorreram pelo menos dois.

Uma noite, íamos tocar na casa de uma garota, na Rua Huascar de Figueiredo, quando Jorge Carim, que nos acompanhava, adiantou-se uns trinta metros e parou defronte à casa escolhida. De repente, soaram dois disparos secos e Carim correu em nossa direção, lívido, a gritar que haviam atirado contra ele. Preocupados, procuramos o dono da casa, que nos explicou o mal-entendido. Ao ver um homem parado, sozinho, em atitude suspeita, disparou para o alto, pensando tratar-se de um ladrão. Esclarecidas as coisas, fizemos a seresta sem problemas, e todos cantaram, menos Carim, que só pensava em encontrar um boteco aberto para se consolar com uma boa cerveja.

Outra vez, estávamos em frente a uma casa, na Vila Municipal, quando parou um carro de praça, do qual saltou um morador, irmão da moça homenageada, que não quis conversa. Corpulento, mal-encarado e cheirando a álcool, nos deu ordem de retirada em cinco minutos. Não foi preciso tanto, pois em muito menos tempo levantávamos acampamento. E nunca mais a irmã do gorila ouviu os saglots longues dos nossos violinos.

Mas tais incidentes, como disse, foram excepcionais. Havia até pais muito gentis, que abriam a casa para servir um drinque aos seresteiros. Nosso grupo não teve a sorte de ser obsequiado dessa maneira. Muitas casas permaneciam fechadas, sem emitir nenhum sinal de vida. Mas em outras, cortinas eram levantadas ou janelas entreabertas, e podíamos divisar os rostos que nos observavam e mãos que nos acenavam. E então regressávamos, felizes e realizados.

Hoje, quando percorro de automóvel as ruas semidesertas, em plena madrugada, parece que ainda os vejo, carregados de instrumentos e sonhos, a palmilhar o calçamento lavado de luar, em sua lírica jornada noite adentro.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (30)


Por Jefferson Peres

Como não poderia deixar de ser, a imprensa de Manaus era um reflexo do meio provinciano em que se inseria. Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, tínhamos apenas quatro jornais permanentes e de circulação diária, ao lado de outros, de vida efêmera ou longa, porém editados esporadicamente, de forma irregular. Ao tempo, alguns circulavam pela manhã, e outros à tarde. Eram matutinos O Jornal e o Jornal do Comércio, e vespertinos, obviamente, A Tarde e o Diário da Tarde.

Mesmo esses quatro maiores não funcionavam, a rigor, em bases empresariais. O parque gráfico era obsoleto mesmo para a época – com exceção, talvez do que imprimia os jornais da família Archer Pinto –, o pessoal era mal remunerado, muitos sequer possuíam vínculo empregatício e as dificuldades financeiras chegavam a ser angustiantes.

O noticiário telegráfico era escasso, predominando as notícias locais, de conteúdo e linguagem que beiravam a ingenuidade. Diariamente eram publicadas relações de aniversariantes, com notas mais extensas sobre alguns, como matéria paga ou por injunções de amizade.

Publicavam-se, também, listas completas de passageiros de aviões e, assim, ficava-se sabendo, obrigatoriamente, quem estava indo para onde. A seção policial se limitava a uma coluna. A de O Jornal intitulava-se Polícia e Ruas, com três ou quatro tópicos que registravam, principalmente, brigas de vizinhos e prisões por bebedeiras.

Em geral, as notícias eram vazadas em linguagem pitoresca, que deliciava, tanto pela repetição de clichês e frases feitas, como pelo emprego de saborosíssimos sinônimos em substituição a palavras de uso coloquial. Assim, água era precioso líquido; todo juiz, ínclito magistrado; toda moça, fino ornamento da nossa sociedade; e toda senhora casada, de classe média, virtuosa esposa do doutor Fulano de Tal, ou então, dama de peregrinas virtudes.

Médico era chamado de esculápio; advogado, de causídico; prostituta, de mariposa ou hetaira; escritor, de beletrista; poeta, de vate ou bardo; bispo, de antístite; ladrão, de lunfa ou larápio. E todo portador de diploma de curso superior era inevitavelmente chamado de doutor. Aliás, se não o fosse, provavelmente se sentiria ofendido e procuraria o dono do jornal, para reclamar do tratamento não condizente com o seu título. Esse tipo de protesto constituía sintomática demonstração de que a imprensa refletia efetivamente a mentalidade da época.

Seria um engano, porém, supor que os jornais fossem inteiramente escritos nessa linguagem bisonha. O nível era outro, quando se tratava de editoriais ou artigos de fundo, como eram chamados, de sueltos e de matéria assinada. Nesses casos a qualidade podia ir de boa a excelente, porque todos esses órgãos, mesmo os menores, contavam com redatores e colaboradores de primeira água.

Na velha-guarda se incluíam homens como Álvaro Maia, Adriano Jorge, Leopoldo Péres e Huascar de Figueiredo. E, ainda, Joao Leda, de impressionante erudição filológica e polemista temível, porque escrevia certo e bem. O que não é, necessariamente, a mesma coisa. Pode-se escrever com acerto e sem nenhum talento.

Outro que se agigantava era Herculano de Castro e Costa, reconhecido por todos os seus ex-companheiros como um dos mais completos homens de jornal que o Amazonas já teve. Meus contatos com ele foram poucos, mas sabia identificar de imediato os editoriais de sua lavra, pela limpidez de estilo e contundência de linguagem.

Não poderia esquecer Genesino Braga, que já surgia como o grande cronista da cidade que fez sua por adoção. Entre os mais novos, já se distinguia Agnello Uchôa Bittencourt, de quem tive a ventura de ser aluno, muitos anos mais tarde, em meu curso de mestrado na Fundação Getúlio Vargas. Amazonense de boa cepa, pertencente a uma estirpe de intelectuais, filho que era do velho Agnello e irmão de Ulysses, foi mais um dos conterrâneos que cedo emigraram, abrindo claros preenchidos por arrivistas de varias procedência. Surgia, também, ainda muito mais novo, o padre Raimundo Nonato Pinheiro, que já despontava como um legítimo sucessor de João Leda, no posto de defensor da pureza do nosso conspurcado idioma.

Um lugar especial era ocupado por Pedro Ubiratan de Lemos, muito jovem, com pouco mais de vinte anos, boêmio e meio irresponsável, foi, possivelmente, a maior vocação de jornalista de sua época. Tinha o faro, a garra e a imaginação dos grandes repórteres. Perseguia a notícia tenazmente e, quando não a encontrava – pecado perdoável pela idade – simplesmente a inventava. Foi ele que reeditou, falsamente, o milagre de Fátima em Manaus, ao engendrar uma aparição de Nossa Senhora no Alto de Nazaré, transformando o covão da Rua Barcelos numa réplica da cova da Iria.

Usando expedientes os mais diversos, ele conseguiu convencer uma parte da população de que a Virgem tinha aparecido a algumas pessoas naquele local, logo convertido num ponto de romaria, onde se reunia diariamente uma multidão de devotos. A farsa movimentou a cidade e rendeu a Pedro copiosa matéria para algumas semanas de reportagens.

Lembro-me de outra vez em que, num dia paupérrimo de notícias, ele escreveu extenso e comovente relato sobre a morte de uma família de caboclos, num naufrágio no Solimões, do qual restara apenas um sobrevivente para contar a tragédia. É claro que essas brincadeiras eram exceções na vida profissional de Pedro, que sabia escrever como ninguém sobre fatos reais. Não foi à toa, mas graças ao seu talento, que logo depois trocava Manaus pelo Rio de Janeiro, onde trabalhou em O Cruzeiro, na sua fase de ouro, e nos maiores jornais da então capital da República, vindo a consagrar-se como um dos melhores repórteres do país.

Outros integrantes da turma jovem do periodismo foram Arlindo Porto, Mendonça de Souza, Áureo Mello, Almino Affonso, Leopoldo Péres Sobrinho, José Cidade, Aluísio Sampaio, Phelippe Daou e Milton Cordeiro, alguns dos quais continuaram por muitos anos no batente. Cito esses nomes ao correr da pena, sob o risco de cometer omissões por falha de memória, sem nada de intencional. Falha tanto mais desculpável quanto jamais tive militância efetiva na imprensa, com a qual sempre colaborei através de artigos assinados. Apenas em anos mais recentes cheguei a escrever os editoriais de A Crítica, mas em caráter não profissional.

A imprensa de Manaus viveu durante muito tempo, sob a predominância dos dois órgãos editados pela Empresa Archer Pinto, o Jornal e o Diário da Tarde. Eram os mais bem equipados, os que contavam com os melhores colaboradores, os de melhor feição gráfica e, disparadamente, os de maior circulação. Seus dirigentes eram cortejados até pelos mais poderosos, conscientes da força dos dois periódicos junto à opinião pública. Um apelo ou advertência de qualquer deles, dirigido ao governo, era seguido de imediatas providências; uma crítica, endereçada a qualquer cidadão, deixava o atingido em pânico. E se as críticas se transformavam em campanha sistemática, como aconteceu com Leopoldo Cunha Melo, então, o jornal precisava ser neutralizado, através de gestões de paz, se a vítima tinha alguma pretensão de fazer carreira.

Curiosamente, o todo-poderoso proprietário desses órgãos de comunicação não parecia tirar proveito disso. Anti-social, o velho Henrique Archer Pinto, fundador e diretor-presidente da empresa, viveu os últimos anos de sua vida recluso em casa. Não comparecia a reuniões, não fazia nem recebia visitas, a não ser dentro de um círculo muito restrito de parentes e amigos. Já adolescente, fui seu vizinho, por mais de um ano, na Praça General Osório, lado da rua Luiz Antony, separadas nossas casas por uma distância inferior a cem metros. Nunca consegui vê-lo, nem por instantes. Falava-se numa doença grave, de que seria portador, mas parece que o boato não tinha fundamento.

Tudo indica que o velho Henrique, por algum motivo, se desencantara com o gênero humano. Por isso, logo passou a direção da empresa aos filhos Aguinaldo e Aluísio, sob a liderança do primeiro. Mas Aguinaldo teria vida curta, morrendo antes de completar quarenta anos. O comando dos jornais se transferiu, então, para a sua viúva, minha amiga Maria de Lourdes, que bravamente os dirigiu, durante mais de dez anos. Mas os tempos eram outros e o encargo pesado demais para os seus ombros. No começo dos anos setenta, deixava de circular o Diário da Tarde e, alguns anos depois, com reduzida circulação e nenhuma influência, desaparecia melancolicamente O Jornal. Logo a seguir, a empresa entrava em liquidação.

Vizinho à empresa Archer Pinto, em prédio contíguo, funcionava o velho Jornal do Comércio, o outro grande matutino da cidade. Até os inícios dos anos quarenta foi propriedade do velho Vicente Reis, pai de Arthur Cezar Ferreira Reis, que o dirigiu com mão de ferro, imprimindo-lhe um caráter austero e conservador. Dizem que o velho Reis era muito severo e exigente no tocante à veracidade do noticiário e instituíra como norma do jornal não desmentir notícia publicada.

Era anedota corrente na cidade, que certa vez, o Jornal do Comércio noticiou, por engano, a morte de um determinado cidadão. Este, indignado, pediu desmentido, que não veio. E, pior, nunca mais viu publicada nenhuma notícia a seu respeito, porque, para o jornal, ele estava definitivamente morto. Corria, também, com foros de verdade, que o velho Vicente não perdoava desafetos. A tal ponto, que seus nomes não podiam ser publicados no jornal, mesmo em listas de passageiros.

Verdadeiros ou não, esses fatos não foram meus contemporâneos, pois quando despertei para o mundo o Jornal do Comércio, já tinha sido adquirido por Assis Chateaubriand e incorporado ao império dos Diários e Rádios Associados, que se estendia por todo o país. Já era dirigido de forma mais impessoal, com diretores vindos de fora, que aqui permaneciam poucos anos, sem tempo de se integrarem ao meio. Não era jornal de minha simpatia porque, fiel à orientação do seu dono, seguia uma linha conservadora e antinacionalista.

Durante a campanha do Petróleo é Nosso, a posição do JC era abertamente contrária ao movimento. Em seu rodapé, quase todos os dias, tínhamos o desprazer de encontrar, em seu estilo inimitável, um artigo de Chatô com violentos ataques à tese do monopólio estatal. Sempre lamentei que uma pena tão brilhante estivesse a serviço de uma causa que, no meu entender, não consultava os interesses nacionais. Nem mesmo depois de criada a Petrobras a posição do jornal de modificou, só vindo a se atenuar após a morte de Chautebriand, Por essas e por outras razões, que não pretendo, aqui analisar, o velho matutino foi perdendo leitores gradativamente. Conseguiu sobreviver, mas sem importância do tempo em que disputava com O Jornal a preferência da chamada Classe A.

O quarto diário da cidade era A Tarde, que se identificava com Aristhópano Antony, seu proprietário e fundador. Era o mais novo e mais modesto de todos. Funcionava no térreo do prédio ainda hoje existente, na esquina da Rua Henrique Martins com Lobo d’Almada. As instalações eram acanhadas, com as oficinas no piso inferior e a redação numa pequena sobreloja de madeira. A impressão se fazia numa velha rotoplana, em tipos graúdos, e precisava ser manuseado com muito cuidado porque a tinta se desprendia com facilidade, manchando roupas e mãos dos leitores. Invariavelmente com quatro páginas, era pobre também de noticiário, tanto local como telegráfico.

Apesar dessas deficiências, o jornal era influente e tinha um público fiel, graças principalmente, senão exclusivamente, a Aristophano. Ele era, creio, o único dono de jornal com militância no batente. Não exercia outra atividade remunerada. Vivia do jornal, que dirigia pessoalmente e no qual escrevia todos os dias. Infalivelmente, lá estava o seu artigo assinado, no canto inferior da primeira página, dividido em três partes, sempre do mesmo tamanho.

Jornalista combativo, que não poupava adversários de ataques frontais e contundentes, seus artigos eram o grande atrativo do jornal. Homem de hábitos conservadores, trajando rigorosamente paletó e gravata, chapéu na cabeça, charuto na mão, fazia diariamente, de manhã e de tarde, o percurso de casa para a redação e vice-versa. Sempre pela Henrique Martins e às mesmas horas. Talvez pelo seu conservadorismo, não pôde, ou não quis, modernizar o jornal, que teve o desgosto de fechar poucos anos antes de morrer.

O ovo de Colombo e outras expressões com ovo


Por Deonísio da Silva

Em 1988, Collor ainda não era candidato a presidente da República, mas foi eleito no ano seguinte. Foi o primeiro ovo de Colombo na sucessão presidencial. O que ele fez, qualquer um poderia fazer. Mas somente ele a fez. Atribuiu todos os males do Brasil ao então presidente José Sarney, tomou para bandeiras de sua campanha os temas que estavam na mídia e ofereceu-se como opção aos dois que lideravam a disputa: Brizola e Lula. Dizem que a História só se repete como farsa, todavia a sucessão do próximo ano está bem parecida com a de 1989, se substituirmos Brizola e Lula por Lula e Bolsonaro.

Mas por que ovo de Colombo, ovo da serpente e expressões assemelhadas que já começam a vir para o proscênio? É que o povo prefere ilustrar seus conceitos com verbos de ação. Baba-ovo (bajular), pisar em ovos (agir com cautela), contar com o ovo no fiofó da galinha (apostar em algo incerto) – eis algumas das numerosas expressões do Português que ilustram esta estratégia.

Algumas são muito antigas e remontam às nascentes da agricultura e da pecuária, quando o homem deixou de ser nômade e passou a conviver com os bichos, fossem ovelhas, vacas, porcos, aves, pássaros etc., não mais ao redor das tendas em que morava, mas no ambiente doméstico, palavra do mesmo étimo de domesticar, que é o que ele fez com os bichos, trazendo-os para perto de si e às vezes para dentro de casa, quando não para a própria cama em que dormia.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago lembrou em seu discurso de posse que seus avós levavam pequenos porquinhos para dormir com eles: “Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável”.

Foi de contextos como este que surgiram expressões que recorreram à agricultura e à pecuária, de que é exemplo também “pôr o carro diante dos bois”, acrescentada mais tarde, quando da antiga vida agropastoril restavam apenas lembranças.

Outra expressão muito lembrada é ovo da serpente, título de um filme do célebre cineasta sueco Ingmar Bergman, que viu indícios da ascensão nazista na Europa, comparando-os ao que se pode entrever num ovo de serpente já fertilizado. Passou a designar um mal que já mostra seus primeiros sinais, ainda que tênues.

Temos também ovo cósmico, expressão criada pelo astrônomo belga Georges Lemaître, designando a matéria altamente compacta que teria possibilitado o grande estouro que criou tudo, o átomo primordial.

Mas de todas elas, uma das mais expressões mais lembradas em que o ovo está presente é o que teria ocorrido com Cristóvão Colombo. Num banquete organizado ainda no século XV pelo cardeal espanhol Pedro González de Mendoza para celebrar a descoberta da América, ao exemplificar que o glorioso feito poderia ter sido obra de qualquer outro, mas que apenas ele a fizera, Colombo tomou um ovo cozido e desafiou que um dos convivas pusesse aquele ovo em pé. Ninguém conseguiu. Ele, então, retomou o mesmo ovo, deu-lhe uma pequena batida e o fixou em pé sobre a mesa.

Um dos cortesãos retrucou: “Assim é fácil”. E Colombo concluiu: “O mesmo ocorreu com a descoberta do Novo Mundo. Tudo que é natural parece fácil, após conhecido ou encontrado. A dificuldade está em ser o inventor, o primeiro a conhecer ou a demonstrar”.

Outros historiadores, porém, argumentam que o arquiteto e escultor italiano Filippo Bruneschini já tinha feito isto antes, ao demonstrar o invento da sustentação de um domo, e que o genovês, conhecendo a história, a repetira diante dos espanhóis.

Seja como for, a estratégia da demonstração foi atribuída a Colombo, assim passou à História e ilustra antigas antologias escolares que tinham o objetivo de instruir os alunos com textos de cultura geral.


É provável que no próximo ano surja um ovo de Colombo na sucessão presidencial.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (21)


Por Jefferson Peres

Mas o xodó e o xexo não eram as únicas opções dos que tinham dinheiro curto. Havia uma alternativa ao alcance de todos, que eram as empregadas domésticas. As caboclas, ou cabocas, como são chamadas ainda hoje, com supressão do “L”, como forma designativa de mais de um segmento social do que de uma categoria étnica ou racial. Cabocla era toda moça empregada em casa de família, fosse do tipo regional, de feições indiáticas, ou fosse mulata ou mesmo branca.

Talvez pela sua condição social, marcada por severas restrições e ausência de vínculos familiares, elas adotavam um comportamento peculiar. Embora dessem preferência a homens de farda, não eram exclusivistas nem faziam discriminação. Na ausência do namorado, substituíam-no tranquilamente por outro, ao qual se davam, generosamente, sem nenhum remorso.

Eram encontradas, em grande número, na Praça da Polícia, para onde iam, depois do jantar, e onde ficavam dando voltas, em duplas ou em grupos de três ou quatro. Para lá se encaminhavam também vários grupos de rapazes com intenção de abordagem. Havia os habitués, chamados de “caboqueiros” porque tinham por elas especial predileção, aliás, compreensível, seja pelo aspecto financeiro, seja pelo menor risco de doença venérea ou, ainda, pelo gosto diferente do sexo não-mercenário.

A aproximação não era difícil, nem tampouco a consecução do objetivo, mas exigia uma pequena encenação, com eles fingindo que desejavam apenas um namoro inocente, e elas fingindo que acreditavam. Até porque elas quase sempre juravam que eram virgens. Às vezes o ato já estava sendo consumado, mas elas continuavam jurando.

É curioso constatar que geralmente eram frígidas, no mais das vezes não alcançando o orgasmo. A facilidade com que cediam aos apelos não era determinada, assim, por um apetite sexual exacerbado. Muito menos por interesse material. Nunca pediam nem aceitavam pagamento, e muitas se mostravam ofendidas se lhes ofereciam dinheiro. Isto leva a crer que se entregavam como uma concessão, em troca do puro prazer da companhia masculina.

O problema com elas podia ser o local de encontro, a menos que o interessado fosse locatário de um pequeno apartamento ou tivesse amigo que lhe cedesse a chave de algum. E sempre havia no grupo dois ou três que, em sociedade com outros, mantinham garçoniéres em velhos edifícios do centro. Quando não aparecia esse quebra-galho, e se havia algum dinheiro no bolso, podia-se ir a uma casa especializada.


Ainda não havíamos ingressado na era dos motéis, mas existiam seus precursores, os rendez-vous, dos quais o mais procurado e acessível era a Pensão Ritz. Situava-se na esquina da Rua Dr. Moreira com o Beco do Comércio e pertencia a Flora Lifsitch, uma bela russa – ou seria polonesa? – que atendia os clientes embalando-se numa rede, com as pernas inchadas de erisipela.

Recebia o pagamento, deitada, e invariavelmente perguntava se a garota era virgem, temerosa de complicações com a Vara de Menores. Ante a resposta negativa, talvez por brincadeira, pedia para fazer ela mesma um exame ginecológico, sempre recusado sem que ela insistisse. A seguir, o casal era encaminhado para um dos quartos, verdadeiros cubículos, divididos por tabiques, com a tradicional cama de ferro no centro. Desconfortáveis e pouco asseados, nem por isso a procura diminuía. Às vezes era preciso esperar na fila.

Havia também o rendez-vouz da Barbadiana, na Cachoerinha, pertencente a uma preta velha que mal falava português e usava o traje que identificava facilmente os naturais de Barbados: vestido comprido, chapéu, meias e uma inseparável sombrinha na mão. Mas sua casa era evitada pela distância, que custava uma boa corrida de automóvel.

Se não havia dinheiro algum, o jeito era apelar para a “pensão calango”, expressão que designava os terrenos baldios e as ruas cobertas de mato. O trânsito escasso, a iluminação deficiente e a abundância de terrenos sem muros, facilitavam a vida dos casais sem dinheiro.

Os mais procurados ficavam nas ruas transversais à Getúlio Vargas, como a Huascar de Figueiredo (então Saldanha Marinho), onde havia até um canavial entre o covão e uma velha estância, e a 24 de Maio. Mas não faltava quem utilizasse até mesmo ruas, como a área em torno do Teatro Amazonas e a ladeira do Pimpão, correndo o risco de flagrantes da Polícia. Quem sabe a circunstância não fosse até estimulante?

O certo é que, raparigas ou cabocas, profissionais ou amadoras, pouco importa que sobre elas recaísse a condenação de toda a sociedade. Para os jovens do meu tempo, elas representaram as boas samaritanas, sem as quais muito de nos teriam penado um longo e sofrido jejum até o casamento.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (22)


Por Jefferson Peres

Eram poucas as quadras e piscinas, e precários os estádios, mas seria um erro supor quase inexistente a prática de esportes. Ao contrário, eu diria que, considerando o tamanho da população e a pobreza do meio, as atividades esportivas surpreendiam pela variedade e intensidade. Como hoje, o futebol já era de longe o esporte mais popular.

Os jogos oficiais se realizavam em dois estádios, o Campo do Luso, nos Bilhares, que conheci em seus últimos momentos, e o Parque Amazonense, no Dispensário Maçônico da Rua Belém, hoje em ruínas, um antigo hipódromo, onde se realizavam corridas de cavalos que os mais velhos recordavam com saudade. Havia ainda o General Osório, do 27º BC, utilizado apenas para treinos e amistosos porque, inteiramente aberto, não permitia a cobrança de ingressos.

Os times eram todos amadores, mas já haviam formas disfarçadas de semiprofissionalismo, que consistiam em dar aos atletas empregos sem obrigações, ou em regime de meio expediente, que lhes permitiam dedicação integral ao futebol. Participavam do campeonato estadual apenas clubes de Manaus.

Havia três grandes, os velhos rivais Rio Negro e Nacional, e mais o Olímpico, fundado no final dos anos 30 e transformado logo numa grande potência do futebol. Em segundo plano, como clubes médios, o Fast e a União, com algumas glórias passadas. Finalmente, dois clubes pequenos, eternos perdedores, o Independência, de José Caitete, e o Genral Osório, formado por militares do 27.º BC. Mais tarde apareceram outros, como o Tijuca, o Barés e o Eldorado.

O palco dos grandes acontecimentos futebolísticos era o Parque Amazonense, ao qual tínhamos acesso através dos velhos bondes, que passavam à sua porta. Nos dias de jogos importantes saíamos de casa depois do almoço para pegarmos o transporte, e ao término das partidas, nem sempre sendo possível tomar o bonde em frente ao estádio, às vezes tínhamos de caminhar até o Entroncamento, no Boulevard Amazonas. Voltávamos pra casa depois das sete horas da noite.


Pouco seguro, com muros baixos em suas partes laterais e traseiras, o estádio era um convite aos furões. Muitas vezes ocorriam verdadeiras invasões, com centenas de pessoas saltando o muro ao mesmo tempo e provocando cargas de cavalaria da Polícia Militar. Muitos pagavam caro a ousadia, ao terem as costas espaldeiradas por lâminas de sabre dos cavalarianos.

Certa vez, o velho Parque, em tarde de gala, foi palco de uma proeza praticada pelo meu saudoso amigo Wilson Câmara. Gaiatíssimo, Wilson gozava tudo e todos, inclusive a si próprio. Sempre que era apresentado a alguém fazia um impagável duplo sentido com as iniciais do seu nome: “W.C., às suas ordens”. Pois foi esse gozador que, num domingo de estádio cheio para assistir a uma partida entre o Nacional e um time de fora, conseguiu paralisar o jogo com uma grande molecagem.

No momento em que o atacante do time adversário, após driblar o zagueiro nacionalino, se preparava para finalizar, Wilson meteu dois dedos na boca e simulou com perfeição o trilo do apito do juiz. Jogo paralisado, confusão, o autor da façanha, descoberto, foi detido por policiais e, mais tarde, liberado por influência de amigos.

Em campo, os times adotavam a formação clássica: dois zagueiros, três médios e cinco atacantes, todos com posições fixas. A terminologia era toda inglesa, sem tradução para o vernáculo. Assim, goleiro era goal-keeper, zagueiro, back; médio, half; comandante de ataque, center-forward; escanteio, corner; falta, foul; impedimento, off-side; locutor, speaker; e até o árbitro era chamado de referee.

O nível do futebol local era modestíssimo até o começo dos anos 40. Os jogadores, além de amadores, eram amazonenses, quase não havia intercâmbio, de forma que o desempenho da nossa seleção, no Campeonato Brasileiro, era sempre decepcionante. Nas eliminatórias nunca passávamos pela seleção do Pará, que nos aplicou algumas goleadas históricas.

O panorama começou a mudar com a vinda do Santa Cruz de Recife, uma verdadeira máquina, como dizem os cronistas esportivos. Tinha craques com nível de seleção nacional, além de um conjunto entrosadíssimo. Foi, talvez, o melhor time de futebol que vi atuar em campos locais. 


Nessa excursão o Santa Cruz se desfez. Dois jogadores morreram de tifo, em Belém, e cinco ficaram em Manaus: Omar, Pelado, Sidinho, França e Pinhegas, este, mais tarde, ponta esquerda do Fluminense do Rio. Sorte nossa, porque, enfim, pudemos formar uma seleção altamente competitiva.

Com os cinco ex-jogadores do time pernambucano, o selecionado ficou assim constituído: Téo, Periquito e Marcílio; Omar, Pelado e Emanuel; Oliveira, França, Marcos, Sidinho e Pinhegas. Partimos, então, para Belém, onde disputaríamos dois jogos. No primeiro, derrotamos a seleção paraense, pela primeira vez em muitos anos, por 2×0.

No segundo, perdemos pelo mesmo escore. Foi necessária uma prorrogação de trinta minutos. Próximo ao final, Pelado, paraense de nascimento, inesperadamente atrasou a bola com um violento chute, marcando um gol contra. Assim, foi eliminado o Amazonas, que poderia, talvez, disputar as finais com Rio de Janeiro e São Paulo. Foi a nossa maior frustação esportiva. Pelado ficou em Belém. Se voltasse a Manaus, provavelmente seria linchado.

De qualquer maneira, a qualidade do nosso futebol melhorou consideravelmente a partir daí, inclusive com o surgimento de craques amazonenses, como os irmãos Onety, Benjamim, Luiz e Paulo. Até hoje, não entendo por que Paulo não se transferiu para o sul do país, onde seguramente teria feito uma bela carreira.

Mas o futebol não era apenas apreciado como espetáculo. Também era praticado intensamente por garotos e adultos em inúmeros campos de peladas. Em pleno centro da cidade havia, por exemplo, a Baixa do JG, no terreno hoje ocupado pelo edifício Palácio do Rádio; os dois campos de Manaus, entre a Lauro Cavalcanti e a Ipixuna, que ficavam descobertos quando as águas baixavam; um campinho situado em terreno baldio, no Alto de Nazaré; o Campo Grande, atrás do Colégio Maria Auxiliadora; e mais as ruas sem calçamento, utilizadas pela molecada tranquilamente, sem risco de atropelamento, como a Avenida Floriano Peixoto.


Mais afastados, tínhamos o campo do S. Raimundo, o da Labor, em Educandos, o da Casa Amarela, na Cachoeirinha, onde hoje se ergue o Palácio Rodoviário, e o da Maria Monassa, na Vila Municipal, entre as ruas Natal e Fortaleza. Eram campos abertos, sem muros ou cercas, em terrenos públicos ou particulares, franqueados a qualquer pessoa, mediante simples permissão verbal do proprietário ou do vigia. Às vezes nem isso, como acontecia com os campos da Baixa do JG e do Igarapé de Manaus.

Joguei em quase todos, sempre demostrando uma completa ausência de talento para o futebol. Basta dizer que, atuando como apoiador ou ponta-direita, nunca consegui fazer um mísero gol. Um recorde difícil de ser igualado.

Nesse tempo as partidas eram disputadas com as bolas antigas, que na verdade eram duas, uma de borracha, que se enchia com bomba de bicicleta, dentro de outra, de couro, que era o seu revestimento externo. O bico era empurrado, entre uma bola e outra, e a abertura da bola de couro amarrada com um cordão, à semelhança de cadarço de sapato. O cabeceio era uma temeridade, porque a testa podia acertar exatamente na parte amarrada, e doía muito.

Nas peladas, dava-se preferência às bolas de sernambi, compradas no Mercado, que podiam ficar inutilizadas no primeiro dia se caíssem num caco de garrafa ou numa ponta de prego. Além disso, com o tempo iam murchando, até ficarem do tamanho de um coco.

Quando o dinheiro não dava para comprar uma bola, fazia-se uma de meia, recheada de pano ou de papel, que era chutada até se desfazer. Mas sem a pelada é que não ficávamos. Com chuva ou com sol. Quase todos os dias.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (23)


Por Jefferson Peres

Tanto quanto me lembre, era quatro, apenas, as quadras existentes na cidade, todas descobertas. Havia a do 27°. BC, na Praça General Osório; a do Ginásio; a do Nacional, nos fundos da antiga sede, na Saldanha Marinho; e a do Rio Negro, não atual, mas uma outra, atrás de sede, da qual se assistia aos jogos, sentados nos batentes. Mas essas poucas quadras eram intensamente utilizadas para treinos, jogos amistosos ou torneios. Raro o dia em que a do Ginásio, por exemplo, não era ocupado por equipes de vôlei ou basquete.

Todos os clubes grandes possuíam times dos dois sexos, pois era grande o número de moças que praticavam esses dois esportes, especialmente o vôlei. Frequentemente se disputavam partidas com guarnições de navios ancorados no porto e com equipes de outros Estados e Territórios.

Certa noite, na quadra do Rio Negro, vi um combinado amazonense de basquete, em exibição de gala, derrotar uma forte seleção de Roraima, integrada por jogadores gaúchos de grande experiência. Não sou um expert na matéria, mas acho que naquela noite teríamos enfrentado a seleção brasileira sem fazer feio.

Quando se fala em esporte, é preciso não esquecer o ciclismo, que fazia parte do lazer diário do jovem amazonense de classe média. Rara a casa que não possuía uma ou duas, de marca Raleigh, Opel ou Peugeot. Tantas, que havia meia dúzia de oficinas de consertos espalhadas pelo centro. Mas quando se tratava de pneu furado, nós mesmos consertávamos, vedando o furo com pedaços de borracha e cola Michelin (que aportuguesávamos pronunciando o “in” no final com o som de in mesmo).

A topografia da cidade e o calçamento das ruas não favoreciam o uso da bicicleta como meio de locomoção normal, mas havia um lugar excepcional para a prática do ciclismo, que era a Praça de São Sebastião. Os dois tipos de calçamento ali existentes, o das ruas que a cercam, liso como asfalto, e o da área em torno do Teatro Amazonas, de paralelepípedos bem ajustados, permitiam que as bicicletas deslizassem suavemente. Apenas eram evitadas as laterais que dão seguimento às ruas Costa Azevedo e 10 de Julho, devido às linhas de bonde.

As demais, raramente percorridas por automóveis, eram usadas tranquilamente, inclusive as rampas do teatro, por onde os mais exibicionistas desciam como bólidos, com os braços e as pernas levantados. Todas as tardes, a partir das cinco horas, em particular aos domingos, a praça ficava coalhada de ciclistas de ambos os sexos, misturados a outros que rodavam sobre patins, igualmente muito utilizados.


O ciclismo de competição tinha seu grande palco no velódromo Álvaro Maia, uma grande pista de corrida, erguida na Cachoerinha, ao lado da Igreja do Pobre Diabo. Concebido e construído pelo engenheiro Deodoro Freire, com recursos próprios e de terceiros, lá se exibiam os ases do pedal, entre os quais os próprios filhos de Deodoro, Pedro e Rira, Vinicíus Silva, filho do pintor Branco e Silva e, dentre os competidores mais novos, meu amigo Haroldo de Oliveira Costa.

Às vezes era usado, também, para corridas de motocicletas, e outras, para apresentações de luta-livre. Armava-se um ringue no centro, onde se engalfinhavam os lutadores famosos da época, como João Isaac, Pantera Negra e Surimã. Com a morte de Deodoro Freire, o velódromo ficou abandonado. Hoje, não sei se restam sequer as ruínas.

Havia também, é claro, o papagaio, empinado por quase todos os garotos e por muitos adultos, sem distinção de classes. Curiosa brincadeira essa que, inclusive, criou todo um jargão, de origem genuinamente popular. Cerol, rabiola, peitoral, banda de asa, maçaroca, famão são termos saborosos, próprios de um esporte que é peculiar não apenas em sua terminologia, mas também em seu caráter a um tempo artístico e lúdico, que se inicia com o prazer de confeccionar o brinquedo, e pode completar-se com a luta e a vitória, no corte elegante e fatal do competidor.

Podia-se comprar, é claro, o papagaio feito, mas a grande maioria fazia os seus. Conseguíamos as talas, que cortávamos nos tamanhos adequados e íamos amarrando com linha zero, formando o esqueleto, que a seguir cobríamos com papel de seda, no modelo desejado. Além do banda-de-asa, muito comum, havia também o de espinho, o de listras, o Rio Negro e o Nacional, estes com as cores dos clubes. Empinavam-se em toda a cidade e de todos os lugares, das ruas, dos quintais, dos pátios e dos telhados. O céu ficava cheio, com milhares de papagaios a nos divertir com a sua graciosa coreografia.

Havia ainda a torcida quando ocorriam as tranças (com cedilha mesmo), especialmente se envolvessem dois famões, isto é, campeões famosos que dificilmente eram batidos. Alguns se distinguiam pela habilidade em colher, quando se formavam os “bolos”. Às vezes, colhiam com tanta rapidez, que conseguiam trazer às suas mãos o papagaio do adversário. Outros ganhavam fama pela eficiência do cerol que usavam.

Embora todos os preparassem com os mesmos ingredientes e da mesma maneira, ou seja, moendo garrafas e vidraças em trilhos de bonde e misturando o vidro moído à cola líquida, o cerol de alguns parecia melhor que o de outros. Isso dava lugar a boatos sobre misteriosas fórmulas usadas pelos campeões.

Lembro-me de Paulo Maranhão, o famão do meu bairro, residente no Igarapé de Manaus, que chegava a cortar de cinco a seis papagaios numa tarde, aos gritos de: “Bota outro, medroso!” Dizia-se, e alguns acreditavam piamente, que ele adicionava urina ao cerol para torná-lo mais cortante. Infelizmente, nunca se saberá a verdade, porque Paulo morreu sem revelar o segredo.


Entre os jogos de salão, nenhum superava o de botões, talvez devido à nossa paixão pelo futebol. Tal como acontecia com os papagaios, esse jogo também nos proporcionava o prazer de fazer o brinquedo com as nossas próprias mãos. Adquiridos feitos, apenas alguns poucos botões de roupa (daí o nome do jogo) e o pente usado para impulsioná-los. Tudo o mais nós fazíamos. A começar pela trave, que montávamos em armações de madeira, com a rede obtida de toucas ou pedaços de véus usados por nossas mães e tias em suas idas a igreja.

O goleiro era feito de chumbo, conseguido de sucata, que derretíamos e moldávamos em caixas de fósforos enterradas na areia. Quando o chumbo solidificava e esfriava, era colocado numa outra caixa de fósforos, que envolvíamos num papel branco, com o escudo do clube escolhido.

Os jogadores, ou botões, eram de vários tipos. Havia os de madeira, que mandávamos tornear em marcenarias e, a seguir, lixávamos e envernizávamos; os de tucumã, que cortávamos ao meio, lixávamos e aos quais dávamos polimento com estearina; os de casco de tartaruga, não muito apreciados; e, finalmente, os de jarina, os mais bonitos e trabalhosos, que nos exigiam uma viagem até as embarcações ancoradas no porto, onde a colhíamos em estado bruto.

Esta exigia um trabalho paciente, que começava com a relação numa superfície áspera – o nosso grupo usava o muro da Beneficente Portuguesa – seguido da raspagem com uma faca de lâmina afiada. Depois, completávamos o serviço, com lixa e polimento. Ficavam lindas, em cores de fundo branco ou creme, rajas de castanho ou marrom, fazendo perfeitamente jus ao nome de marfim vegetal. Nunca mais vi um botão de jarina. Será que ainda é usado?

Finalmente, tínhamos a bola, de cortiça, tirada de rolhas de garrafas, que cortávamos com tesoura e depois íamos lixando, até assumir uma forma perfeitamente esférica. Não utilizávamos mesas como campos, devido ao cansativo trabalho de apanhar as bolas caídas. O jogo era no chão mesmo, em salas, pátios e porões.

Organizávamos campeonatos com turno e returno, cada um adotando o nome de um clube de sua preferência, dentre os grandes do Rio e de S. Paulo. Eu ficava sempre com o do meu amado Botafogo, pelo qual sofro até hoje. Ao contrário do que acontecia no futebol, o jogo de botões me alegrou com muitas vitórias e até alguns campeonatos.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (24)


Por Jefferson Peres

No Reino das Náiades não podiam faltar os esportes aquáticos. O remo era praticado intensamente por três clubes, bem equipados e que mantinham acirrada rivalidade. O Clube do Remo, antigo Ruder, fundando por alemães, tinha sua garagem num flutuante no Igarapé de Manaus, ao qual se tinha acesso através da Passagem Cabral. O Amazonense ficava à margem do rio Negro, no começo da Joaquim Nabuco. E o Náutico tinha sua sede também na orla do rio Negro, mas no início da 7 de Setembro.

Praticavam- se várias modalidades, como skiff, canoa e out-rigger. Na Semana da Pátria realizavam-se as provas do Campeonato Estadual, que tinham lugar na baía do Rio Negro, tendo como ponto de partida uma bóia em frente aos coqueiros de São Raimundo, e, como linha de chegada, flutuadores colocados em frente ao roadway. O cais ficava tomado por um grande público, que vibrava muito com a disputa.

Entre os praticantes, consigo lembrar de Walmir Robert, mais tarde desembargador, e Simão Abnader, que remavam pelo Amazonense, e Francisco Reis Filho, o Chiquito, depois advogado, que defendia as cores do Náutico. Havia também equipes femininas, mas não me ocorre o nome de nenhuma das moças que, surpreendentemente, praticavam esse esporte em época tão distante.

Além do remo, esses clubes cultivavam o water-pólo, em raias armadas ao lado das garagens, e chegaram a formar boas equipes, que disputavam em pé de igualdade com times de navios-escola como o Almirante Saldanha, brasileiro, e o Apollo, de bandeira inglesa. Lamentavelmente, esses clubes não sobreviveram. O Amazonense se acabou quando uma ventania derrubou a sua garagem. Os outros foram derrubados pelo vendaval do tempo.


Naquele tempo existiam apenas duas piscinas de águas paradas, em Manaus, a do estádio General Osório e a do stand de tiro, ambas do 27° BC e nenhuma olímpica. Isso não prejudicava a natação, que era muito praticada nos balneários e no rio Negro. Este era utilizado para provas de resistência por grandes nadadores, como Adalberto, mais conhecido como Morcego, e Miguel Barrela, mais tarde médico e advogado, que em várias oportunidades fez a travessia do rio, para espanto de muitos, que jamais poderiam supor se fosse o Barrela, com o seu físico de triatleta, capaz de semelhante feito.

As provas de velocidade, não muito frequentes, eram disputadas na piscina do General Osório, inadequada pelas suas dimensões. A natação era praticada mesmo, em grande escala, como lazer, nos balneários, ou banhos, dos arredores da cidade, e até nos igarapés do centro, como o da primeira e segunda ponte, bem como o de São Vicente.

Os balneários eram muitos, como a Pomerânia, a Chapada Síria, o V-8, o Igarapé do 40, o então distante Tarumã, e principalmente, acima de todos, o Parque 10 de Novembro, a grande piscina de água corrente, construída com o represamento do Igarapé do Mindú, que Antônio Maia legou à cidade quando prefeito.

Era o ponto de encontro da população, nas manhãs de domingo, quando ficava cheio de casais, mulheres bonitas e crianças num ambiente puramente familiar. Era também procurado por grandes nadadores, como o Húngaro – nunca conseguir saber o seu nome – um gringo louro, de peito protuberante, que ficava a nadar da ponte à represa, e desta até aquela, quase a manhã inteira, numa incrível demonstração de resistência.


Mas, além da piscina, o Parque 10 oferecia, ainda, como segunda opção, cerca de duzentos metros da represa, o Sanatório, um recanto em estado natural, onde as águas se aprofundavam e o sol não penetrava, barrado pela copa das árvores, que se fechavam no alto e nas quais subíamos para saltarmos no igarapé.

O Parque 10 era também o local preferido das nossas “gazetas”. Inexistindo ônibus e sem dinheiro para o carro, íamos até lá de bonde e a pé, por duas vias de acesso. Por Adrianópolis, onde saltávamos na praça N. S. de Nazaré, caminhando cerca de dois quilômetros pela Recife, então estrada de terra batida. Ou então, pegávamos o bonde das Flores e saltávamos em frente à Chapada, seguindo pela estrada do Mindu, hoje avenida Darcy Vargas.

A caminhada era longa, se bem que divertida, porque íamos entrando nos terrenos e colhendo magas, jambos, tamarindos, ingás e, quando não tinha outra coisa, até tucumã-babão. Mas o bom mesmo era tomar banho no Parque 10, com suas águas cor de chá, transparentes, que deixavam ver a areia do fundo. E tão ricas de oxigênio que as piabas, ariscas, chegavam até nós, em cardumes, atraídas pelo miolo do pão que lhe atirávamos.

Hoje, é com prazer que me banho em assépticas piscinas de cloradas águas azuis. Mas, não posso deixar de sentir saudade dos mergulhos em águas douradas e correntes, com os peixinhos nadando ao meu lado.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (25)


Por Jefferson Peres

A cidade possuía, naturalmente, seus monstros sagrados. Aliás, chamados pelo povo simplesmente de “monstros”, termo que, na gíria de então, representava o máximo de elogio. Era aplicado a todos aqueles que tinham uma atuação considerada genial em qualquer atividade, fosse um jogador de futebol ou um cantor. Mas a admiração maior, embevecida e respeitosa, ia para os homens de letras. Cultuados como monumentos vivos, eram saudados nas ruas, com reverência, e apontados como celebridades.

O anúncio de uma conferência, a ser proferida por um deles, era garantia de sala cheia, e no dia seguinte o pronunciamento era o assunto da cidade. O mesmo acontecia com seus artigos e poemas, publicados na imprensa, que rendiam aos seus autores momentos de glória, ao receberem uma chuva de cumprimentos, partidos até de desconhecidos.

Todos eles pertenciam à Academia Amazonense de Letras, o grande templo do saber, no qual entrávamos como se estivéssemos indo participar de um culto religioso. Desde criança me habituei ao contato direto ou indireto com aqueles monstros sagrados. De perto ou de longe, conheci-os todos e deles guardo as mais diferentes impressões.

Como a Grécia, o Amazonas também teve a sua Era de Péricles. Durante cerca de três décadas, até a sua morte, em meados dos anos 50, o grand-seigner da literatura amazonense foi Péricles Moraes. Sua casa modesta, na Rua Henrique Martins, era um local de romaria dos acadêmicos e dos que aspiravam às galas da imortalidade. Uma recomendação sua era um passaporte seguro para os ingressos no Silogeu. Seu veto, ao contrário, erguia uma barreira intransponível às pretensões de qualquer candidato. E um simples elogio seu já constituía uma consagração para qualquer jovem intelectual.

Dono de vasta erudição literária, era fascinado pela França, cujo idioma dominava perfeitamente, como, aliás, todo intelectual de sua geração. Dizem que quase metade da sua opulenta biblioteca era constituída de livros escritos em francês. Encontrei-o algumas vezes em casa do meu tio Leopoldo Péres, de quem era amigo íntimo e que seria por ele biografado numa obra repassada de emoção. Alto, gordo, óculos de aros finos, nariz rubicundo, lembrava a figura de um bispo ou de um avô bonachão. Um perfeccionista, tinha o que ele chamou, certa vez, de martírio flaubertiano da construção do período.


Quando presidia as sessões de recepção de novos acadêmicos, muitas vezes seus discursos de abertura eram mais trabalhados do que as peças oratórias dos principais personagens da noite. Muito apegado aos amigos, comenta-se que sabia ser, igualmente, implacável como inimigo. Ficou famosa a sua inimizade com Raimundo Morais, de quem não era parente, e a quem nunca perdoou, não permitindo que entrasse na Academia e excluindo seu nome no livro que escreveu intitulado Os Intérpretes da Amazônia. Era também muito cioso do próprio valor e infenso a intimidade.

Certa vez, um cidadão bem mais novo do que ele e que frequentava sua casa fazia algum tempo, de repente resolveu tratá-lo por “você”. A reação de Péricles foi imediata: “Dobre a língua! O único jovem a quem eu permito que me trate por você é Leopoldo Péres, e mais ninguém!” O visitante saiu arrasado, com o pito e com a morte das pretensões acadêmicas que certamente alimentava. Como aconteceu, aliás, com muitos outros.

Morreu sem concluir o livro de memórias, do qual, curiosamente, só escreveu o último capítulo. É dedicado à esposa, mas de passagem menciona os momentos angustiosos que viveu durante o assédio a Paris, onde se encontrava em 1914. Ao final, dirige um comovente apelo a Deus para que não o deixasse morrer depois da esposa, pois não gostaria de sobreviver a ela. Deus foi ao encontro de sua vontade e levou-o, em 1956, deixando viúva D. Andrômaca, que sobreviveu a ele por muitos anos, morrendo em idade avançada. Não há dúvida de que, com o desaparecimento de Péricles, se encerrou uma era da história literária do Amazonas.

A liderança de Péricles só era disputada, talvez por Adriano Augusto de Araújo Jorge, fundador e segundo presidente da Academia, posto que manteve até morrer. Mas, ao contrário do seu colega, Adriano era, reconhecidamente, um dispersivo, que deixou pouca coisa escrita e não chegou a publicar um livro sequer. Brilhou, sobretudo, como orador.

O anúncio de que falaria, em qualquer evento, era garantia de público certo, para lhe ouvir a palavra cintilante. Nisso era ajudado por seu físico apolíneo. De estatura mediana, cabelo penteado em topete, olhos mortiços, olhar de cabra morta, como se dizia, impressionava principalmente as mulheres. Mantendo-se solteiro até muito perto de morrer, teve uma vida amorosa marcada por aventuras picantes, que prefiro omitir. Doublé de médico e humanista, sua atividade intelectual não o impedia de exercer a profissão com rara competência.


Clínico geral, com numerosa clientela, seu consultório, na Eduardo Ribeiro, vivia cheio, sendo muito solicitado, ainda, para atender pacientes em casa. Famoso, também, pela generosidade, não costumava cobrar de seus clientes, que pagavam como e quando queriam. Conta minha mãe que durante a epidemia de gripe espanhola, em 1918, que tirou a vida de centenas de pessoas, Adriano era um dos pouquíssimos médicos que não se recusavam a atender chamados. Apesar disso, às vezes não resistia à tentação de fazer humor mesmo que fosse humor negro.

Um dia, chamado por um vizinho nosso para atender seu velho pai, Adriano, ao deparar com um ancião arfante sobre a cama, parou na porta da alcova e disse em voz baixa: “Eu trato de doentes, não de moribundos...” Mas era apenas um blague, pois logo a seguir medicou o paciente, embora sem resultado, porque o caso era mesmo sem jeito.

Como político não foi muito feliz. Candidato ao Senado, em 1945, foi derrotado. Tentou em seguida a deputação estadual, também sem êxito. Conseguiu finalmente, numa terceira tentativa, eleger-se vereador à Câmara Municipal de Manaus. Em seu primeiro discurso como vereador não ocultou uma ponta de mágoa, ao salientar que, dos três cargos eletivos que disputara, havia conquistado exatamente o mais modesto.

Em seus últimos meses de vida, alquebrado, andava claudicante, talvez devido a alguma artrose ou reumatismo. Sem perder o bom humor, aos que perguntavam o que tinha na perna, respondia que era o peso de muitos pecados. Avesso a cemitérios, recusava-se a visitá-los desde que pronunciara a oração fúnebre em homenagem a Heliodoro Balbi, cujos restos foram transladados do Acre para Manaus. Sempre que era convidado, respondia que para lá só iria morto.

Surpreendentemente, no dia de finados de 1948, mudou de idéia e acompanhou a esposa ao São João Batista. À noite, sentiu-se mal e morreu, de madrugada, em sua velha casa da Rua Fortaleza, pobre como sempre vivera. Em sua homenagem, deram ao bairro o nome de Adrianópolis, que o povo, ao peso da tradição, teima em chamar de Vila Municipal.