Sábado, Novembro 28, 2009

Omelete de boto tucuxi


Lucimar Mamão e Neisa Andrade carregando Gilberto Mestrinho durante um comício na Compensa

Agosto de 1982. Depois de passar 18 anos sem participar de um comício em Manaus, Gilberto Mestrinho, candidato a governador pela segunda vez, está na ponta dos cascos para iniciar sua campanha vitoriosa. O primeiro comício será realizado no bairro da Alvorada.

A fim de consolidar a mística de “queridinho do mulherio amazonense” atribuída a Gilberto Mestrinho, seu secretário particular e responsável pelo guarda-roupa do candidato, Luiz Pacheco, treinou exaustivamente quatro guerreiras para a hercúlea tarefa de carregar o boto tucuxi no meio da multidão: Lucimar Mamão, Nega 70, Mariona e Neisa Andrade. Elas decoraram a coreografia direitinho.

No dia e na hora combinada, assim que o Opala preto estacionou nas proximidades do comício e Gilberto colocou as pernas fora do veículo, Lucimar Mamão e Mariona enfiaram as mãos entre as pernas do candidato, lhe levantaram que nem um paneiro de farinha, o acomodaram nos ombros e saíram desfilando pelo meio da multidão. As fogosas Neisa Andrade e Nega 70 iam na frente, abrindo caminho entre as pessoas.

O candidato começou a contorcer a cara de dor e gemer monocordicamente:

– Aiiiii, Pachequinho!... Aiiii, Pachequinho!... Aiiii, Pachequinho!...

Preocupado com a situação, Pachequinho saiu desesperado em busca de um médico, entre as dezenas de candidatos perfilados no palanque. Só faltava aquela: o boto ter uma nova crise renal no seu primeiro comício...

Quando Lucimar Mamão e Mariona conseguiram chegar ao palanque, Gilberto já estava pálido que nem defunto e suando frio. O médico Paulo Henrique Freitas, um candidato a deputado estadual convocado às pressas pelo Pachequinho pediu pra pessoas se afastarem do candidato majoritário enquanto ele tentava descobrir o que havia acontecido.

– Rapaz, eu não via a hora de chegar logo nesse palanque! – explicou Gilberto, enquanto procurava se recompor. “Da próxima vez, Pachequinho, você me dá uma cueca Zorba. Em dia de comício, está proibido você me equipar com cueca samba-canção...”

Só então a ficha caiu.

Por causa da folgada cueca samba-canção, na hora do pega pra capar os ovos do boto tucuxi ficaram presos entre o ombro da Mariona e sua própria perna.

E a tortura chinesa havia demorado quase cinco minutos. Acontece.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Ó nóis na fita travez!


Teodorico é sucesso na TV e no rádio, em Santarém (PA)

Responsável pelo melhor blog da região do Tapajós, o jornalista, professor e blogueiro Jeso Carneiro mandou esse toque simpático, que reparto com vosmecês:

Muito bom esses, digamos, causos do Pedrinho, a quem tive o prazer de conhecer aqui em Santarém.

Parabéns ao blogueiro pela reprodução de tais casos e que, como quelônios que vc. degusta com prazer vascaíno, “explodam” sempre por aqui, com propósito de nos fazer sorrir e gargalhar.


Jeso também repostou uma dos causos no seu blog, que deve ir ao ar neste sábado, no programa radiofônico Calafetando, como se depreende do diálogo virtual abaixo:


1. Theo Neves (foto) comentou:

Booooooaaaaa!!!… hehehe… Ei Jeso, será que posso pedir pro velho mandar essa sábado no Calafetando? Muito boa pqp... hahahaha!!! (27/11/2009)

2. Jeso Carneiro comentou:

Theo, pode mandar o velho “calafetar”. Vou ficar na “mutuca” para ouvi-lo. Abs (27/11/2009)

O “velho”, a quem os dois se referem, é o engraçadíssimo Velho Antenagildo, 86 anos, personagem criado pelo radialista Theo Neves, um dos âncoras do humorístico Calafetando (Tapajós FM), líder de audiência aos sábados na cidade (das 12 às 15h).

O Velho Antenagildo divide o microfone com o não menos engraçado Teodorico, do programa humorístico “Teodorico na TV”, exibido na TV Santarém (Band), aos sábados.

Calafetando está no ar há 5 anos.

Isso quer dizer o seguinte: Pedrinho Ribeiro está mais famoso do que nunca, pelo menos na região do Baixo Amazonas. Te mete!

Pedrinho Ribeiro em cinco tempos


O músico Pedrinho Ribeiro estava coletando apelidos de cabocos na zona rural de Parintins para utilizar em uma versão atualizada da sua famosa “Ópera Cabocla” e, para não chamar a atenção dos seus reais propósitos, se fazia passar por um representante do Banco Brasil.

Um dia, ele chegou de canoa numa pequena comunidade no Paraná do Ramos, já nos contrafortes de Barreirinha.

Foi recebido pelo líder da comunidade, um caboco simpático e gentil, dotado de um defeito físico incomum: andava jogando uma das pernas, como se precisasse de uma muleta para apoiar um dos ombros e manter aquela perna nervosa sob controle.

Feitas as apresentações, Pedrinho iniciou a conversa:

– Sêo João, o senhor tem algum agrado, algum apelido, algum nome mais popular, que o identifique mais intimamente aqui na comunidade?...

– Não, parente, eu não tenho nenhum agrado! – cortou o caboco, enquanto consertava uma rede de pesca.

No jirau, a mulher do cidadão estava preparando o café, com o ouvido pregado na conversa.

Pedrinho insistiu:

– É que eu tenho um plano de financiamento do Banco do Brasil para comunidades carentes, mas eles pedem o nome e depois o apelido, pra facilitar a identificação do proponente...

– É, seu Pedrinho, mas num tenho apelido não! – avisou o caboco.

O compositor não se deu por vencido:

– É um financiamento a fundo perdido para ser aplicado em agricultura familiar no valor de R$ 5 mil. Não tem burocracia nenhuma. Eu anoto aqui o seu nome, o seu apelido e daqui a uma semana chega o dinheiro...

– É muito bom, seu Pedrinho, é muito bom. Pena eu não ter nenhum apelido! – argumentou o caboco mais uma vez.

A mulher do cidadão, já pressentindo que a bolada poderia ir embora por causa de um detalhe insignificante, gritou, lá do jirau:

– Mas, João, meu velho, diz logo pro seu Pedrinho que o teu apelido é “Cu de Arraia...”

Quase que começa uma briga conjugal na comunidade.

2

Logo após um show de Pedrinho Ribeiro em Santarém (PA), o tecladista Paulinho de Santarém apresentou o músico parintinense para o saxofonista Nem, um dos grandes talentos da cidade.

Sessentão, Nem havia se separado da esposa e casado com uma menina de 18 anos, mas Pedrinho ainda não sabia.

Daí, quando ele viu aquela jeitosa cunhantaí se enxerindo para o lado do saxofonista, cresceu o olho gordo, pegou delicadamente na mão da menina e mandou bala:

– Mas e essa cunhan tão bonita é sua filha, companheiro Nem?...

– Não, é minha mulher! – devolveu Nem, de bate-pronto.

Pedrinho tentou consertar o estrago:

– Me desculpe o ato falho, parente, mas é que eu achei ela muito novinha...

O saxofonista jogou a pá de cal:

– Parente, mulher é que nem cerca. Ela vai ficando velha, a gente vai trocando...

3

Pai do músico Pedrinho Ribeiro, o velho Pedro só usava cuecas samba-canção porque, segundo dizia, “gostava de criar o bicho solto”.

Daí, que depois de uma pequena apresentação em Belém (PA), o músico resolveu presentear o pai com meia dúzia de moderníssimas cuecas Zorba.

No dia seguinte, Pedrinho acordou com os gritos de sua mãe, Dona Marilza, discutindo asperamente com seu pai, no quarto do casal:

– Mas Pedro não é desse jeito!... Não tás vendo que não é assim, criatura?... Ô, Pedrinho, vem aqui ensinar teu pai a vestir direito essa coisa...

Pedrinho entrou no quarto. Seu Pedro insistia em usar a abertura da cueca para colocar o passarinho pra fora, mas estava achando aquilo meio esquisito.

– Olha, pai, essa abertura aí a gente só usa quando vai mijar! – explicou o músico. “Coloque a besteira dentro da cueca virada pro lado esquerdo!”

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Ficou que nem uma xereca de mula parida, com os colhões prum lado e o pau pro outro...

– Bom, então experimente colocar a besteira pro lado direito, junto com os colhões! – explicou Pedrinho.

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Ficou apertando os colhões demais da conta e dando uma dor da muléstia...

– Bom, então experimente colocar a besteira pra cima, no rumo do umbigo! – insistiu o músico.

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Não vai dar, rapaz, não vai dar... Essa porra vai ficar o tempo todo de pescoço pra fora...

– Olha, pai, então o jeito é o senhor colocar a besteira pro rumo de baixo...

Seu Pedro se encrespou:

– Vamos parar por aí, vamos parar por aí... Negócio de pomba no rumo do cu não vai dar certo... Ainda mais que eu posso acabar sentando em cima dela...

E, na mesma hora, devolveu a coleção de cuecas Zorba para o filho.

Pelo visto, seu Pedro tinha uma besteira tipo king size.

4

Aproveitando que o músico Pedrinho Ribeiro estava se apresentando em Óbidos (PA), os compositores Eduardo Dias e Nelson Vinenti (parceiro do violonista Sebastião Tapajós) o levaram para conhecer uma das atrações da cidade: um boteco que possuía estacionamento de cambada de peixes.

Óbidos vive, naturalmente, da pesca. Mas, sobretudo, do comércio com o interior, graças à sua posição estratégica junto do rio. O mercado municipal funciona, se a cheia do rio o permitir, quase todos os dias até ao final da manhã. E o dono do boteco visitado pelos músicos, localizado próximo do mercado, havia tido uma idéia genial.

Ele colocara do lado de fora do bar uma imensa placa de compensado cheia de pregos numerados. Assim, quando os cachaceiros vinham do mercado com suas enfiadas de peixes, bastava pendurar cada uma delas em um dos pregos e ir biritar com tranqüilidade. Como cada um sabia do número de seu prego, não havia confusões na saída.

Pois foi nesse boteco diferente que Pedrinho Ribeiro conheceu o sanfoneiro Valdevino Carvalho, auto-intitulado “o homem mais azarado do mundo”. Eis algumas de suas histórias.

O sanfoneiro morava na margem do rio Amazonas, na beira de uma encosta. Um dia, logo após detonar uma suculenta caldeirada de gujuba (o nosso cuiu-cuiu), ele sentiu uma preguiça disgramada. Foi até a varanda, amarrou a rede e estava se balançando, esperando o sono chegar.

De repente, no meio do rio, um gavião pegou uma arraia pequena e levantou vôo. A arraia começou a se debater. O gavião soltou a presa. A arraia caiu dentro da rede de “seu” Valdevino e lhe arpoou a costela. Ele passou 24 horas urrando de dor.

De outra feita, o sanfoneiro estava bastante adoentado, tossindo muito e com uma pequena febre intermitente, quando, por insistência das filhas que suspeitavam de pneumonia, resolveu procurar o médico da família.

Na hora em que estava atravessando a rua em direção ao consultório médico, um urubu teve um passamento no ar, ficou desgovernado, lhe atropelou abruptamente, ele caiu e quebrou uma perna. Ficou seis meses no estaleiro.

O sanfoneiro viajou para Manaus, para morar na casa de uma filha no bairro do São José, enquanto aguardava a marcação de uma cirurgia na perna quebrada, que seria realizada no hospital Adriano Jorge.

Como sua filha e o genro trabalhavam no Distrito Industrial e seus netos passavam o dia na creche, “seo” Valdevino ficava sozinho em casa.

Um belo dia, ele estava sentado numa cadeira de balanço, na varanda da casa, matutando solitariamente, quando um motoqueiro parou diante da residência.

Sem dizer uma palavra, o sujeito apeou da moto, abriu o portão, se aproximou dele e cataplum! Deu-lhe um murro no meio da cara, que o levou a nocaute, e escafedeu-se.

Sua filha chegou em casa algumas horas depois e levou um susto ao encontrar o pai com o nariz fraturado e ainda sangrando copiosamente.

Imediatamente ela chamou um táxi, o levou ao pronto-socorro, seu Valdevino foi medicado, e, quando retornaram à residência se depararam com o motoqueiro no portão.

Pedindo mil desculpas, o sujeito explicou que havia cometido um equívoco. Ele havia ido ali a pedido de um prestamista amigo seu que vinha sendo enrolado por um caloteiro há mais de seis meses. A porrada era para o vizinho da casa ao lado.

– Porra, seu Valdevino, mas o senhor deu o troco no motoqueiro, não deu não? – questionou Pedrinho Ribeiro, visivelmente irritado.

– Olha, parente, o rapaz me pediu perdão com tanto jeito que eu acabei perdoando...

Aí, como se estivesse purgando todos os pecados do mundo, concluiu:

– É que eu sou mesmo muito azarado, “seo” Pedrinho, muito azarado...

5

Na companhia de meia dúzia de músicos, Pedrinho Ribeiro estava participando de uma roda musical improvisada, em um bar de Oriximinã (PA), quando um senhor bastante idoso, mas vestido com aprumo, se aproximou da mesa, pagou uma rodada de cervejas pra moçada, arrastou uma cadeira, sentou-se e começou a contar seu drama pessoal.

– Olha, meus filhos, desculpa eu invadir a praia de vocês, mas é que eu tenho muita inveja da vida de músicos. Eu tenho pouco estudo, sempre trabalhei na roça tomando conta do sítio da família, de forma que sempre sonhei um dia ser músico profissional, mas nunca pude. Meu avô tocava clarinete, meu pai tocava violão e eu, na minha juventude, toquei muito cavaquinho. Mas depois que fiquei viúvo, parei de tocar. Dos meus quatro filhos, nenhum quis saber de música. A minha filha mais velha foi pra Belém estudar. Depois de cinco anos, voltou pra casa com um diploma, o Netinho, que eu estou criando como filho. Minha outra filha foi morar em Santarém. Depois de três anos, voltou pra cá. Veio já se vestindo de jogador de futebol, falando grosso e cuspindo no chão. Já vieram me dizer até que ela é sapatão. O meu filho mais velho, o Zé Raimundo, não pode ver um gado na beira do Amazonas que rouba. Já foi preso quatro vezes. De tanto eu ir lá pagar fiança pra soltar ele, fiquei amigo do delegado. O único que pensei que fosse dar para o que preste foi o caçula. Ele foi estudar odontologia em São Paulo e haja eu a vender gado pra custear seus estudos. Agora, no fim do ano, ele me mandou uns retratos. Está usando brinquinhos, cabelo colorido e posou só de sunga numa festa com um bando de machos.

Aí, num misto de resignação e fatalismo, concluiu:

– Já vieram me dizer até que ele é gái...



PS: Pedrinho Ribeiro vai fazer um show musical no próximo dia 5, sábado, no Fino da Bossa, ali na entrada da Cidade Nova, onde vai contar dezenas de causos. O show vai se chamar “Canto Geral” em homenagem ao poeta chileno Plabo Neruda. No repertório, além de standards da Bossa Nova e MPB, clássicos de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Trini Lopez et caterva. Agende. Eu recomendo.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Hip Hop para principiantes


Afrika Bambaataa (esquerda) e Kool Herc, pioneiros do hip-hop, no lançamento de “Hip-Hop Won’ Stop: The Beat, The Rhymes, The Life”, pela Smithsonian Institution, em 2006

Via e-mail, o auditor fiscal José Fernando Menezes, atualmente morando em Salvador (BA), relembra algumas de nossas presepadas durante as famosas "brincadeiras" na Cachoeirinha e aproveita para fazer uma provocação:

Mas meu caro Simon People, o hip hop está fazendo trinta anos e você ainda não deu uma notinha a respeito... Será que vosmicê resolveu renegar nossas origens black? As histórias, causos, chistes, whatever, estão muito legais, mas estou sentindo falta de novos textos sobre música negra da velha guarda. Quebra essa castanha, rapá!

Devagar com as fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, Zé Fernando, porque quem está completando 30 anos é um disco 12 polegadas que mudou o mundo da música – e não o hip hop.

A bolachinha em questão é Rapper’s Delight, uma música de 15 minutos do Sugarhill Gang. Aliás, ela não foi a primeira faixa do hip hop em vinil como muitos acreditam (o posto é de King Tim III, do Fatback Band).

No entanto, foi definitivamente o disco que fez o hip hop crescer, o trampolim para o sucesso de muitos garotos que nunca acharam que conseguiriam antes.

Baseada em outro clássico - Good Times, do Chic (o instrumental foi tocado de novo por outra banda, Positive Force, e, pelo menos oficialmente, nenhum sample da original foi usado) - consiste em três caras tagarelando sem parar (no Brasil saiu com o apelido Melô do Tagarela) sobre festas, carros, mulheres, hotéis, motéis. Pura diversão. Nem todo mundo estava feliz, no entanto.

Sylvia Robinson era uma dona de selo que chamou três caras sem ligação profissional com o mundo do hip hop - Big Bank Hank, Wonder Mike and Master Gee - para gravar a faixa. Quem estava na cena desde o começo de tudo ficou puto - como três fanfarrões estão vendendo milhares de discos?


Alguns ainda dizem que foi o dia em que o hip hop morreu, e que Rapper’s Delight sequer tinha alguma das principais características do chamado verdadeiro hip hop: “nenhum DJ fazendo a base para as rimas, nem rivalidade ou competição com outros grupos, nem perspectiva de shows ou plateias para entreter. (...) Levaram o hip hop das ruas pro mainstream, do palco pro estúdio, do centrado no público pro centrado no rapper, do ativo pro passivo” (verbete do Urban Dictionary).

Dizem também que um dos membros do Sugarhill Gang roubou versos de um dos rappers do Cold Crush Brothers para a faixa, e que o cara não ganhou nem grana nem créditos.

A questão é: certa ou errada, boa ou ruim, não fosse Rapper’s Delight e talvez não tivéssemos muito do que temos hoje na cultura do DJ, musicalmente ou tecnicamente.

Segundo: se os caras que estavam lutando antes achassem que eles mereciam a oportunidade, deveriam ter pensado comercialmente antes e tentado lançar em vinil, mas nenhum acreditou que isso poderia dar certo, pelo menos até esse disco ter sido lançado.

Aliás, a maioria deles teve sua fatia do bolo mais tarde, e como sabiamente disse Grandmaster Flash no livro “Last Night A DJ Saved My Life”, de Bill Brewster and Frank Broughton: “Fiquei tipo... ‘Droga, eu poderia ter sido o primeiro.’ Não sabia que a arma estava carregada assim. Estourou. Foi um enorme sucesso pra eles (...) Tudo bem, porque a gente viria depois... A gente tinha talento, eles não”. Alguém se atreve a discordar?

Mas mudando de chinelo pra tamanco, o movimento hip hop - historicamente - acaba de completar 35 anos agora em novembro. Esta história está devidamente destrinchada no meu livro “Funk – A música que bate”, lançado em 2002, que teve suas duas edições esgotadas aqui na taba e se transformou em bíblia sagrada dos moleques da periferia de Manaus.

Bom, mas como estou com preguiça de procurar o texto original para postar aqui no mocó, limito-me a transcrever uma saborosa reportagem do Israel do Vale, intitulado “Yo!” (a mais conhecida saudação do mundo black), publicado em janeiro de 2005, na revista Superinteressante, que praticamente esgota o assunto:


O hip hop não cabe em si. Das trilhas de novela ao top ten das rádios, das paradas de videoclipe às campainhas de celular, das principais premiações musicais a anúncios de marcas de cerveja ou de tênis, ele extrapola, dia após dia, a imagem desgastada de cultura de gueto e se torna figurinha fácil, onipresente, sutil ou abertamente.

Astros como Eminem cobram cachês na casa do milhão de dólares por um show. De acordo com a revista Rolling Stone, em 2003, ano em que não teve disco lançado, ele embolsou cerca de 20 milhões de dólares com turnês, discos anteriores, merchandising, entre outros meios – quantia que chega a quase um quarto dos 84,1 milhões de dólares faturados pelos Rolling Stones no mesmo ano.

Um dos mais vistosos fenômenos do rap feito por branquelos, Eminem enfileira controvérsias em sua carreira, com peripécias que incluem um processo aberto pela própria mãe contra ele e brigas públicas com gente como Michael Jackson.

Velho truque da indústria pop, a pose de menino mau ajudou seu disco mais recente, Encore (lançado em 2004), a superar, em dois dias, o que Britney Spears havia vendido em uma semana, na Inglaterra. Placar: 122 459 cópias para o bad boy e 115 341 para Britney.

Eminem é um sintoma da escalada do rap no mundo do consumo, como ilustra a guerra dos tênis. Gigantes como Nike, Adidas e Reebok travam batalhas inclementes usando popstars do rap no pelotão de frente das campanhas publicitárias. Há dois anos, por exemplo, a Reebok ganhou fôlego com a contratação de Jay-Z.

Pela primeira vez a campanha de uma coleção de tênis teve um rapper como protagonista. Conjugada a uma investida no mercado asiático, a ação ajudou a catapultar o faturamento da empresa para 3,5 bilhões de dólares em 2003, 11% a mais que em 2002.

E consolidou o espaço dos rappers com uma parceria com o fenômeno 50 Cent – que contabiliza 12 milhões de cópias de seu primeiro disco – para a linha de footwear G-Unit Collection by Rbk.


Ninguém tem dialogado nesse universo como Jay-Z. No Natal de 2003, o rapper ganhou uma edição especial do modelo 3300 do celular Nokia. Batizado de Black Phone, o aparelho chegou às lojas com faixas de seu Black Album, além de papéis-de-parede para o visor do telefone com sua imagem e mensagens com sua assinatura.

A publicidade é a ponta reluzente desse iceberg chamado hip hop. A expansão dos diferentes elementos que compõem a cultura de rua pela moda e o comportamento grita aos olhos num momento em que o rap é, nos Estados Unidos, a bola da vez da indústria da música – uma das armas de marketing mais eficientes de todos os tempos.

De acordo com estimativa da Riaa, a associação da indústria fonográfica americana, o rap perde apenas para o rock (que fatura 3 bilhões de dólares) e faz circular cerca de 1,5 bilhão de dólares por ano nos Estados Unidos – e isso apenas com a venda de discos.

A disseminação da cultura de rua vai muito além disso. O estilo largado das roupas, o jeito alargado de andar e gesticular, a cadência canto-falada das músicas, o tom reivindicativo das letras, o apelo social consciente, isso tudo transborda de um canto a outro, contamina aqui (na dança, nas artes visuais, no audiovisual) e influencia acolá (no trabalho das ONGs, no modelo pedagógico das escolas), até mesmo em círculos que sequer sabem o que diferencia hip hop de rap.

Conhecimento

O DJ Afrika Bambaataa e o videomaker Bob Bryan, durante um agito em Los Angeles

E o que distingue um do outro, afinal? Bem, o rap (junção das iniciais de rhythm and poetry, ou música e poesia) é a faceta musical do hip hop. E só. Parece óbvio, mas muita gente que ouve rap diz por aí que adora dançar hip hop. E não tem como. O rap é apenas um dedo entre os cinco da mão que balança o berço do hip hop.

É verdade que quando o berço foi construído falava-se em quatro dedos – ou, na linguagem do movimento, quatro elementos: DJ (responsável pelas bases da música) + MC (quem rima), o dedo musical, break, o dedo corporal, e grafite, o dedo visual.

Mas eis que, nos anos 80, o homem que deu sentido ao termo hip hop achou por bem ampliar o cardápio, enxertando um item novo que unifica todos os demais: o conhecimento.

Esse homem é Afrika Bambaataa, um dos nomes fundamentais no nascimento e, principalmente, na conceituação do hip hop. Ele, porém, não passaria no teste de paternidade do termo.

Criada por Lovebug Starski, a expressão hip hop (ao pé da letra, balançar os quadris) surgiu a reboque do jogo de palavras típico do rap. Era, à época, uma espécie de lema gritado ao microfone para inflamar a pista durante as festas.

Parece que foi ontem, mas o fenômeno acaba de completar 30 anos de idade, comemorados em Nova York, o grande pátio de escola em que os conceitos e a prática do movimento foram exercitados.

O marco simbólico, 12 de novembro de 1974, é a data do primeiro aniversário de fundação da Universal Zulu Nation, a organização criada por Bambaataa para disseminar o receituário mundo afora.


Desde que ele e seu colega Grandmaster Flash popularizaram o modelo de festa de rua que o jamaicano Kool Herc levou aos subúrbios nova-iorquinos em fins dos anos 60 e resolveram usá-lo para mediar os conflitos de gangues no bairro do Bronx (propondo que as disputas fossem resolvidas em combates de dança), nem as rixas nos guetos nem a música foram os mesmos.

Com o passar do tempo, alguns artistas saídos de gangues enveredaram pelo chamado gangsta, o estilo barra-pesada que começava em tiroteio verbal e muitas vezes ia para as vias de fato. E pelo menos dois nomes importantes morreram em decorrência disso na década de 1990: Notorius B.I.G e Tupac Shakur.

O tom dominante no rap nacional, no entanto, é o avesso do gangsta ou de sua face mais comercial, o “rap luxúria” que se vê em boa parte dos clipes americanos. Em vez da ostentação (carrões, correntes de ouro, mulheres mil), o foco é o da reivindicação de direitos e da denúncia social.

“É um discurso político da maior importância”, diz o produtor André Midani, ex-diretor da gravadora Philips e nome fundamental da indústria musical no país.

Talvez o melhor termômetro do alastramento do hip hop pelo Brasil seja a televisão. Artistas como o rapper carioca MV Bill, crítico ferrenho do abismo social, ou a dupla Helião e Negra Li, militantes do rap paulista engajado, ganharam visibilidade em programas como o Faustão.

“Um dos mais importantes artistas do rap nacional”, como disse o apresentador, Bill ficou no ar durante 40 minutos. “Nunca vi uma jovem liderança tanto tempo ao vivo na tevê, num programa que fala para 70 milhões de pessoas”, diz o antropólogo Hermano Vianna.

DJs e trancinhas

O legendário DJ e ícone do hip hop Grandmaster Flash divulgando seu primeiro álbum inédito nos últimos 20 anos, “The Bridge: Concept Of A Culture”, em fevereiro deste ano

Marco Aurélio Paz Tella, doutorando em antropologia pela PUC-SP, defendeu em sua dissertação de mestrado que a fase em que o rap era consumido apenas pela periferia – para a qual serve de voz – é parte do passado.

“De alguns anos para cá, os principais DJs de rap tocam nas casas noturnas de bairros nobres paulistanos como os Jardins, Vila Madalena e Vila Olímpia porque tem gente com dinheiro que consome rap”, afirma Marco.

A linguagem do hip hop transbordou para outros segmentos da música, do rock ao eletrônico. “O hip hop cria a cultura de DJs. A figura do DJ como entendemos hoje é oriunda do Kool Herc, do Grandmaster Flash, do Bambaataa, que desenvolveram a idéia de criar música a partir de dois toca-discos”, diz Eugenio Lima, DJ da Soulfamily e diretor do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com trabalho voltado para o que chama de teatro hip hop – um cruzamento da pesquisa teatral brechtiana com os elementos da cultura de rua.

O uso de trancinhas coladas ao couro cabeludo mostra que as influências do estilo hip hop vão dos pés à cabeça. Característica dos astros do rap e do basquete americano, elas disseminaram-se no Brasil para além do circuito de iniciados. O estilo já extrapolou os limites raciais.

“Faço trança em japonês, loira, branco de cabelo liso, gente de qualquer tipo e de todas as raças”, diz Fátima Aparecida de Abreu, cabeleireira do salão e loja de roupas 4P, dos rappers KLJ (DJ dos Racionais MCs) e Xis. Com 20 anos de atividade na área, Fátima contabiliza hoje oito homens entre cada dez clientes que fazem trança.

A 4P, também um selo musical, funciona na meca da black music paulistana, a Galeria 24 de Maio, conhecida como Galeria do Rock, mas cada vez mais chamada de Galeria do Rap.


Síndico do prédio e comerciante no local há 30 anos, Antonio de Souza Neto, o Toninho da Galeria, afirma que foi ali que a cultura de rua tomou corpo em São Paulo.

“O pessoal se encontrava aqui e ia para o largo São Bento”, diz, em referência ao local onde as rodas de break ganharam popularidade, nos anos 80, depois do período embrionário na própria 24 de Maio.

“O hip hop saiu daqui, foi pra periferia e tomou o asfalto”, afirma. Toninho vê o movimento como “possibilidade de revolução cultural no país”. Na sua leitura, o rock tornou-se “pequeno em relação ao hip hop”.

Se o dedo musical amplia cada vez mais as suas influências, dança e artes visuais não ficam atrás. Fundador e coreógrafo da companhia mineira SeráQuê?, o dançarino Rui Moreira formou-se entre aulas de dança moderna e os bailes black de São Paulo e vê com interesse a absorção da dança de rua pela dança moderna e contemporânea.

Segundo ele, o gestual da rua se incorporou à dança no fim dos anos 60 a partir de coreógrafos americanos como Alvin Ailey. E, na década seguinte, houve um reflexo no trabalho de criação do Grupo Corpo, assim como no do Ballet Stagium, que incorporaram o que na época era chamado de jazz de rua.

“No cenário contemporâneo, os bailarinos buscam cada vez mais o diálogo gestual com os b-boys, como forma de ampliar as possibilidades de uso dos planos espaciais”, diz Rui.

Sinônimo de dançarino de break, o b-boy dá mortais, gira e rodopia dentro de parâmetros do vocabulário da dança de rua. Assim é também com os outros dois estilos principais da dança hip hop: o locking (movimentos que imitam um robô) e o popping (influenciado pelos passos do funk), um sistema de códigos corporais que se reproduz por todo o mundo.

“Cada um se destaca no seu estilo, como no futebol”, afirma Nelson Triunfo, mestre na dança de rua e pioneiro das jornadas empreendidas pelos b-boys nos calçadões do centro velho paulistano desde 1984.

Depois da grande visibilidade dos anos 80, oferecida pelos concursos em programas de auditório como o de Barros de Alencar ou por participações em humorísticos como Os Trapalhões, a dança de rua já não desperta o mesmo interesse na mídia, mas deixou como resíduo a incorporação, até hoje, de cursos de break em academias de dança voltadas para a classe média.

A vez do grafite


O vocabulário visual do hip hop também demarca seu espaço em outros territórios. Muito além das frases de protesto e das guerras de ego de adolescentes que carimbam com spray os muros, pontes e edifícios das cidades, a pichação e o grafite ganham respeito, deixam de ser vistos como “caso de polícia” e contaminam outras linguagens, como o design gráfico e a publicidade.

O esforço de compreensão do abecedário dos pichadores e das crônicas visuais dos grafiteiros rende estudos acadêmicos e projetos vinculados ao poder público, como é o caso do Guernica, focado em oficinas de arte, mantido pela Prefeitura de Belo Horizonte desde 1999.

“A pichação é uma escrita aparentemente sem memória e conteúdo, mas temos de aprender a ler essa escrita porque os jovens estão querendo dizer alguma coisa”, disse o prefeito Célio de Castro à época.

Desde então, o estigma deu lugar a aulas, ministradas por alguns dos “fora-da-lei”, e a prática dos murais públicos grafitados ganhou reconhecimento entre a população e as empresas – gerando parcerias que já resultaram em curtas-metragens ou em balões dirigíveis e totens estampados com a linguagem do grafite.

O hip hop atualizou, em versão urbana, uma prática secular. “O grafite existe há, no mínimo, 30 mil anos”, afirma Pedro Portella, autor do ensaio “Memórias Escritas da Cidade Inscrita”.

De acordo com ele, os aborígenes australianos sopram pigmento para contornar suas mãos nas grutas até hoje, como ocorreu em Lascaux, na França, e em algumas grutas da Patagônia.

“Eles dizem que muitas vezes fazem isso para expressar uma demanda, um impulso de criação, e não para assinar a parede da gruta, como pensavam muitos arqueólogos”, diz Pedro.

O trânsito do grafite pelo circuito de museus e galerias tem pelo menos duas décadas. O interesse pela linguagem das diferentes formas de intervenção visual que se multiplicaram pelas cidades alcançou seu ápice nos anos 80, nos Estados Unidos.

Bajulados por revistas como a respeitada Artforum, artistas surgidos nas ruas e estações de metrô, como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring, ganharam notoriedade e foram rapidamente integrados ao circuito de marchands e galeristas. Não demorou para que a indústria cultural tomasse os signos e ferramentas da arte de rua para si.


Para o designer gráfico Rico Lins, que já fez trabalhos para a Time e a Newsweek, o uso dessa linguagem é bastante perceptível, “especialmente quando (o produto) é direcionado ao público jovem, na propaganda, em capas de livro, CDs, camisetas etc.”.

Rico vê forte ascendência da cultura urbana em geral – e do hip hop em particular – sobre seu estilo. “As pichações e grafites estão presentes em trabalhos que eu faço.”

Essa intersecção entre áreas levou a uma mutação no jeito de se fazer grafite. Se de um lado a origem “artesanal” e única da inscrição no muro proliferou e perpetuou-se, de outro as possibilidades técnicas de manipulação e circulação da imagem abriram novas frentes.

Conhecida como stencil art, a técnica de criar uma “fôrma” sobre a qual o spray era aplicado, muito usada na década de 1980, desembocou nos stickers, adesivos desenvolvidos muitas vezes em computador, com imagens e/ou mensagens, encontráveis em postes, latas de lixo e telefones públicos de centros urbanos.

A idéia? Disseminar o dedo visual do hip hop. Mas, também, estampar, com um grafismo peculiar e para todo mundo ver, que o hip hop ultrapassou qualquer gueto. Como se diz na quebrada: tá tudo dominado.

Roupas e acessórios


A popularização da moda de rua, a chamada street wear, feita de roupas tão grandes quanto as letras do rap, é o aspecto mais visível do impacto do hip hop. Basta contabilizar a lista de pesos pesados que têm suas próprias grifes.

Eminem é dono da Shady, 50 Cent sócio da G-Unit, e Andre 3000, do Outkast, lançou a Designs by Benjamin Andre. Eles seguem a trilha de rappers como Jay-Z, proprietário da Rocawear, e de Chuck D, do Public Enemy, que, nos anos 90, estampou o próprio nome em diversos modelos de roupa.

No Brasil, grifes como a 4P, de KL Jay e Xis, e a Ice Blue, do MC de mesmo nome, dos Racionais, ocupam seu palmo de terra no latifúndio black das Grandes Galerias, no centro de São Paulo, melhor termômetro de música, moda e comportamento jovem do país.

Essa vitrine musical acomoda apenas no piso inferior 75 lojas de roupas, discos, acessórios, artigos para grafiteiros e cabeleireiros. Quase tudo em torno do universo hip hop. “Roupas largas viraram sinônimo de visual moderno”, afirma o antropólogo Hermano Vianna.

Nino Brown, entretanto, dançarino das antigas, defende que a roupa não faz o monge. “Essa coisa de que tem que vestir uma roupa para ser do movimento, essa coisa da moda... Quem faz a moda é a gente”, diz ele, que não se sente à vontade com as calças largas típicas dos rappers.

Hip hop e educação


Considerada a primeira pesquisa acadêmica sobre rap publicada no Brasil, o livro “Rap e Educação”, organizado por Elaine Nunes de Andrade e lançado em 1999, apresenta textos de 14 estudiosos do assunto.

Uma das autoras, a educadora Ione Jovino, mestranda pela Universidade Federal de São Carlos com o tema “Escola e Hip Hop para Alunos Negros de Ensino Médio em São Paulo”, entende que o rap é cada vez mais absorvido por classes variadas, em escolas de fora da periferia.

“Desenvolvi uma metodologia com a linguagem do rap para trabalhar literatura, com a finalidade de sensibilizar os professores para essa cultura”, diz ela.

A diretora e coordenadora do Programa de Educação da ONG Geledés, Cidinha da Silva, vê na valorização da escola uma das grandes contribuições do hip hop para a sociedade brasileira.

Segundo ela, a busca do conhecimento por parte da juventude negra é a diferença fundamental entre o hip hop brasileiro e o norte-americano.

“O hip hop americano desvaloriza a universidade”, afirma. “Para eles, ler é coisa de branco.” Aqui, de acordo com Cidinha, isso não acontece. “É uma grande novidade essa valorização vinda da periferia”, diz ela.

Referência na luta pelo direito à educação para os jovens de periferia, o rapper Preto Ghóez, morto em acidente de carro em setembro passado, defendia o diálogo entre o hip hop e o poder público.

Da iniciativa do MC do grupo maranhense Clãnordestino surgiu o projeto de implantação de bibliotecas Fome de Livro na Quebrada – Preto Ghóez, já funcionando em oito capitais brasileiras.

Street dance


A dança contemporânea fala, cada dia mais, a língua da rua. Companhias como a hispano-francesa Montalvo-Hervieu construíram sua boa reputação com a mistura de sotaques e dançarinos de origens variadas – entre elas, da street dance.

Caminho semelhante é seguido no Brasil pela mineira SeráQuê?, do coreógrafo Rui Moreira, nome de primeira grandeza no elenco do Grupo Corpo nos anos 90.

“Comecei a dançar na rua, em rodas de break com os amigos”, conta o bailarino francês Rachid Ouramdane, que posteriormente se formou pelo Centre National de la Danse.

Focado na dança contemporânea, Ouramdane enverga no currículo dobradinhas com criadores de peso como a coreógrafa norte-americana Meg Stuart.

A adoção do hip hop pelo circuito tradicional de dança se expandiu no Brasil há pouco mais de dez anos com a criação da modalidade Dança de Rua em eventos como o Festival de Dança do Triângulo Mineiro e o Festival de Joinville.

“Em pouco tempo ela se espalhou por todo o Brasil”, afirma Fernando Narduchi, diretor da Cia. de Dança Balé de Rua, uma das mais respeitadas no segmento país afora.

Originário da cidade mineira de Uberlândia, o grupo é composto apenas por dançarinos autodidatas, formados pela escola pública das praças e calçadas.

No início deste ano, apresentou-se no festival francês Suresnes Cité Danse, um dos mais ativos na aproximação da dança contemporânea com o hip hop. Para Fernando, o break está se tornando uma área de especialização na dança, com códigos tão específicos quanto os do balé clássico.

O código da tribo


Gíria não tem certidão de nascimento nem endereço fixo. Os “manos” do rap que o digam. O que se supõe é que mano seja uma derivação de hermano, “irmão” em espanhol, que, por sua vez, remete a brother, termo usado com frequência pela música negra norte-americana desde a soul music, nos anos 60. Mas mano, hoje, é água corrente na boca de tribos variadas, de origem e condição social idem.

Para a professora de língua portuguesa Elaine Ferreira dos Santos, que defendeu em 2003 uma tese de mestrado sobre o discurso dos rappers, “a gíria tanto pode ser um instrumento de defesa da população marginal como uma manifestação de agressividade da juventude, um reflexo do conflito de gerações”.

Sua pesquisa começou com a percepção do uso de gírias em sala de aula. “Só depois é que fui identificar que isso vinha das letras de rap”, diz.

O estudo enfocou alunos da classe média de 16 a 17 anos. “Eles usam muito ‘mano’ e se cumprimentam com o aperto de mão característico dos rappers”, afirma a professora, em referência ao movimento de ir e vir com a mão sem apertá-la, puxando de leve os dedos e batendo os punhos fechados na altura do peito.

Funk Buia, MC do grupo paulista de rap Z’África Brasil e morador de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, acredita que há gírias “bairristas”, de sentido local, que soam estranhas quando faladas por modismo em qualquer lugar. Para ele, o pára-quedista de gíria acaba se denunciando: “Quando determinada expressão não faz parte da pessoa, dá para perceber que ela não é do movimento”.

Veja algumas das gírias:

Crocodilagem: traição
Entrar numas: se meter em confusão
Firmeza: tudo certo
Fita de mil grau: história muito bacana
Ganso: traidor, dedo-duro
Quebrada: bairro
Sangue-bom: camarada, boa gente
Treta: briga
Truta: amigo
Vacilo: erro, pisada na bola

Linha de tempo na conexão South Bronx-Brasil


Run-DMC no American Music Awards, nos anos 80. Da esquerda para a direita, Joe Simmons (Run), Jason Mizell (Jam Master Jay, 1965-2002) e Darryl McDaniels (DMC)

1969 – O DJ Kool Herc, jamaicano criado no Bronx, introduz nos EUA as disco mobiles, equipamentos móveis de som populares na Jamaica. Esse é também o ano do surgimento das gangues de break, promotoras de batalhas de dança em lugar das brigas entre rivais.

1972 – Kool Herc realiza a primeira block party, festa de rua que conjugaria os diferentes elementos do hip hop. No ano seguinte, Afrika Bambaataa funda a Universal Zulu Nation, base para a escolha do dia 20 de novembro de 1974 como dia oficial de nascimento do hip hop.

1978 – Fundação da Funk & Cia., a pioneira posse de break do ex-agricultor pernambucano Nelson Triunfo (ainda hoje na ativa) e de Nino Brown, entronizado por Bambaataa como King Zulu, o representante oficial brasileiro da Universal Zulu Nation.

1979 – O grupo norte-americano Sugar Hill Gang lança o primeiro disco de rap, com o sucesso “Rapper’s Delight”. Um ano mais tarde, Miéle grava “Melô do Tagarela”, versão em português que entraria para a história como o primeiro registro de um rap no país.

1982 – Bambaataa se populariza como artista solo e o rap de cunho social se consagra com o álbum The Message, de Grandmaster Flash and the Furious Five. As gangues de break começam a se reunir periodicamente na rua 24 de Maio, no centro de São Paulo.

1983 – Michael Jackson lança o álbum Thriller, fonte musical para coreografias apoiadas no moonwalk, o passo arrastado que ajudaria a popularizar o break e daria origem a concursos de dança em programas de auditório da TV brasileira como o de Barros de Alencar.

1986 – Public Enemy lança seu primeiro álbum, Yo! Bum Rush The Show, e se torna um dos grupos mais influentes do período. A dupla de rappers Run DMC lança o LP Raising Hell, que vende 2 milhões de cópias, um marco para a época.

1988 – Lançamento da coletânea Hip Hop - Cultura de Rua (selo Eldorado), primeiro vinil brasileiro de rap, com nomes como o dos pioneiros Thaíde & DJ Hum. Chega ao mercado Consciência Black, disco inaugural do selo Zimbabwe, que lançaria mais tarde Racionais MCs.

1990 – Inspirados no Public Enemy, entre outros, os Racionais MCs lançam o primeiro disco, Holocausto Urbano, e sacodem a periferia paulistana.

1992 – Snoop Doggy Dogg, gangsta-rapper californiano, estréia em The Chronic, de Dr. Dre. No ano seguinte, lança Doggstyle, um dos álbuns mais vendidos da história do rap. Gabriel, o Pensador estoura com “Tô Feliz, Matei o Presidente”, com referências a Fernando Collor de Mello.

1994 – Tupac leva cinco tiros à queima-roupa em Nova York, mas sobrevive. O atentado é atribuído aos rappers Notorious B.I.G. e Puff Daddy. A guerra entre rappers das costas leste e oeste dos EUA culmina com o assassinato de Tupac, em 1996, e Notorius B.I.G., em 1997.

1998 – Lançamento de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, recorde de vendas do rap no Brasil, com 500 mil cópias oficiais. O rap americano vende 81 milhões de discos, superando todos os demais gêneros nos EUA no ano.

1999 – Fundação da Casa do Hip Hop de Diadema (SP), a primeira no gênero criada pelo poder público, em parceria com a Zulu Nation Brasil. lançamento do CD Traficando Informação, do carioca MV Bill. Lauryn Hill, ex-Fugees, recebe cinco prêmios Grammy por disco solo.

2000 – Eminem lança The Marshall Mathers e vende quase 2 milhões de cópias em uma semana. Mallokeragem Zona Leste (BMG), do Doctor’s MCs, é o primeiro disco de rap feito por uma multinacional no Brasil. O clipe “Isso Aqui É uma Guerra”, do grupo paulistano Facção Central, é censurado.

2002 – Lançamento do quinto disco dos Racionais MCs, Nada Como um Dia Após o Outro Dia. O rapper paulistano Xis participa do reality show “Casa dos Artistas”, no SBT. No ano seguinte, Sabotage, um dos grandes renovadores do rap nacional, é assassinado em São Paulo.

2004 – Expoentes do gangsta rap americano, Snoop Doggy Dogg e Ja Rule vêm ao Brasil para o megafestival “Hip Hop Manifesta”. O fenômeno americano 50 Cent faz show no estádio do Pacaembu. Marcelo D2 ganha três prêmios no Video Music Brasil da MTV

Para saber mais


Rap
O jamaicano Kool Herc é tido como o introdutor do conceito do rap nos EUA, a partir da transposição das disco mobiles (equipamentos de festas itinerantes) para o território americano. Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash foram os grandes divulgadores do ritmo.

Na locadora:
Wild Style - Charlie Ahearn, EUA, 1982
Colors - As Cores da Violência – Dennis Hopper, EUA, 1987
Faça a Coisa Certa - Spike Lee, EUA, 1989
Aqui Favela, o Rap Representa - Junia Torres e Rodrigo Siqueira, Brasil, 2003

Na livraria:
Rap e Educação, Rap é Educação - Elaine Nunes de Andrade, Summus/ Selo Negro, Brasil, 1999
Ego Trip’s Book of Rap Lists - Sacha Jenkins et al, St. Martin's Press, EUA, 1999
The Vibe History of Hip Hop - Alan Light,Three Rivers Press, EUA, 1999
Funk: a música que bate – Simão Pessoa, Editora Valer, Brasil, 2000

Na internet:
Decifrando o DNA do Hip Hop - Parte 1 a 5
Decifrando o DNA do Hip Hop - parte 6 a 10
Decifrando o DNA do Hip Hop - Parte 11 a 15
www.bocadaforte.com.br
www.realhiphop.com.br
www.planet-hiphop.com
www.lehiphop.com

Break
A versão mais difundida afirma que o break foi uma resposta artística à enorme quantidade de soldados norte-americanos que voltavam mutilados da Guerra do Vietnã. Passos e gestos quebradiços fariam referência também à crescente robotização das linhas de montagem na indústria, que começara a gerar desemprego massivo.

Na locadora:
Warriors – Os Selvagens da Noite - Walter Hill, EUA, 1979
Flashdance – Em Ritmo de Embalo - Adrian Lyne, EUA, 1983
Beat Street - Stan Lathan, EUA, 1984

Na livraria:
Break Dancing - Terry Dunnahoo e Robert Sefcik, First Books, EUA, 1985
Breakdance: Hip Hop Handbook - Jairus Green, David Bramwell, Street Style, EUA, 2003

Na internet:
www.battleoftheyear.net
www.b-boys.com
www.batalhafinal.com.br

Grafite
Surge em fins dos anos 60, em Nova York, inicialmente como pichação. A disseminação de assinaturas – chamadas de tags – pelas paredes das cidades é atribuída a um americano de origem grega chamado Demetrius, conhecido pelo pseudônimo Taki 183.

Na locadora:
Style Wars - Tony Silver and Henry Chalfant, EUA, 1983
Through the Years of Hip Hop, Vol. 1 - Graffiti - EUA, 2001

Na livraria:
O que É Grafite? - Celso Gitahy, Brasiliense, Brasil, 1999
Graffiti World: Street Art from Five Continents - Nicholas Ganz, powerHouse, EUA, 2004
Street Logos - Tristan Manco, Thames & Hudson, Inglaterra, 2004

Na internet:
www.graffiti.org
www.at149st.com

Discos internacionais:

Rapper’s Delight, Sugarhill Gang, Sugarhill, 1979
Planet Rock, Afrika Bambaataa, Tommy Boy, 1982
It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, Public Enemy, Def Jam, 1988
2Pacalypse Now, Tupac Shakur, Death Row/Interscope, 1991
Licensed to lll, Beastie Boys, Def Jam, 1986
3 Feet High and Rising, De La Soul, Tommy Boy, 1989
Quality Control, Jurassic 5, Interscope, 2000
The Marshall Mathers LP, Eminem, Interscope, 2000

Discos nacionais:

Hip Hop Cultura de Rua, Vários, Eldorado, 1988
Pergunte a Quem Entende, Thaíde e DJ Hum, Eldorado, 1989
O Som das Ruas, Vários, Chic Show, 1988
Sobrevivendo no Inferno, Racionais MCs, Cosa Nostra, 1997
Traficando Informação, MV Bill, Natasha Records, 2000
Rap é Compromisso, Sabotage, Cosa Nostra, 2001
Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, Z’África Brasil, Paradoxx Music/Rapsoulfunk, 2002

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Movimentos discutem melhorias


Thiago Hermido
Da equipe de A CRÍTICA

O que é produzido em termos de cultura no Amazonas? Que políticas públicas culturais podem ser pensadas para região? Ou, ainda, de que maneira os segmentos do gênero podem se beneficiar com incentivos governamentais ou privados?

Esses são alguns questionamentos que serão discutidos no II Fórum Estadual da Diversidade Cultural no Amazonas, que acontece na próxima sexta-feira, das 9 às 18h, na Praça Heliodoro Balbi.

Para esclarecer ao leitor da importância do encontro, A CRÍTICA conversou com agitadores culturais que deram suas opiniões a respeito do debate público, além de discutir sobre a produção cultural realizada na capital e no interior do Estado.

Para Lucimar Weil, representante do Cedeca Pé na Taba, entidade realizadora do evento, o Fórum será um espaço para que os movimentos culturais, a sociedade civil organiza e os representantes do governo possam pensar em políticas públicas que melhor atendam a classe no Estado.

“É o segundo encontro que realizamos com essa proposta e servida de preparatório para a Conferência Estadual e Nacional de Cultura”, revela.

Opiniões

De acordo com o DJ Marcos Tubarão, integrante do Coletivo Difusão - grupo que desenvolve projetos culturais de artes integradas e audiovisuais - é preciso fazer desses debates ferramentas concretas para a produção cultural da cidade.

“Toda discussão coletiva é válida, porém quando se trata de um fórum ou uma conferência é preciso que tida a participação da população seja registrada e cobrada”, descreve o artista.

A sugestão de continuidade que Tubarão cita é um dos pontos analisados por Tom Zé, professor da Universidade Federal do Amazonas, e coordenador do projeto cineclube Cine Vídeo Tarumã.

“A grande discussão que deve ser posta durante esse tipo de evento é porque não consegue articular uma política de continuidade. Aqui são feitas políticas de grandes eventos, que passam e não deixam nada para a população. É preciso garantir que projetos como o cinema, por exemplo, possa ganhar capacitação e incentivo à produção, não apenas um grande festival”, exemplifica.

O escritor Márcio Souza declarou que debates públicos sempre são bem-vindo, principalmente se sugerem determinadas melhorias para um seguimento na população.

“Estamos aprendendo a debater e discutir em conjunto. Acho que bem ou mal, o importante é que essas reuniões desapertem na população o interesse em se posicionar no que ela acha melhor para si”, diz.

O Fórum Estadual da Diversidade Cultural no Amazonas contará com diversas mesas de debates e a participação de Sérgio Mamberti, presidente da Fundação Nacional da Arte (Funarte) e Célio Turino, secretário de Cidadania Cultural do Minc.

FLIFLORESTA Parintins 2009


A partir desta quinta-feira, dia 26, o município de Parintins recebe o Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), evento realizado em Manaus no ano passado e que, este ano, já ocorreu também nos municípios de Itacoatiara e Careiro da Várzea.

Com o apoio da Prefeitura de Parintins, de quinta-feira até sábado, escritores e artistas se dividem em palestras, debates, exposições e apresentações musicais que acontecerão na cidade.

Esta nova edição do Flifloresta leva ao interior do Amazonas o contato com obras e autores da Amazônia e do Brasil.

Ao mesmo tempo em que terá como referência a literatura, o Flifloresta patrocinará discussões e debates sobre questões relativas à leitura e a formação de leitores.

O evento contará com a participação de grandes escritores brasileiros, como Guilherme Fiuza (autor do livro “Meu nome não é Jhony”), Thiago de Mello, Adriana Lisboa, Márcio Souza, Zemaria Pinto, Wilson Nogueira, Marcos Frederico Krüger, Dori Carvalho, Renato Farias de Carvalho, Jorge Bandeira, Ana Peixoto, Ivânia Vieira, Mazé Mourão, Abrahim Baze e Tenório Telles, dentre outros.

O evento acontecerá no Auditório do Parintins Convention Center, onde ocorrerá o Simpósio de Leitura, Café Literário e Sessão de Autógrafos, com a participação dos escritores convidados e intelectuais de Parintins.

Como parte da programação será feita distribuição gratuita de livros na cidade, como forma de incentivar a leitura.

O Flifloresta é um Festival Literário concebido para ser um momento de celebração do livro, promovendo o encontro do autor com os leitores.

Tem como meta ser um ponto de convergência e diálogo entre os artistas da palavra da Amazônia, enriquecido com a presença de escritores de outras regiões.

O que fundamenta a sua existência é, portanto, a defesa do livro, a promoção da leitura e a luta pela construção de uma nova consciência social, fundamentada no conhecimento, nos valores estéticos e defesa da liberdade como condição para construção de um mundo mais justo e solidário.

Escritores e personalidades ligados à literatura são convidados para participar de mesas temáticas, palestras, debates, lançar e autografar suas obras durante o Festival.

Selda Vale e Ediney Azancoth recontam a história do Tesc


Autores do livro TESC - NOS BASTIDORES DA LENDA, os pesquisadores Ediney Azancoth e Selda Vale apresentam a trajetória de mais de 15 pessoas, atores e amigos que desenvolveram uma história do teatro no Amazonas iniciada em plenos anos de chumbo (1968), e que repercute até hoje - apesar de o livro só abarcar até o período de 2003.

Escrito com muito bom humor, o livro conta a história de uma elite “passadista, denunciando, com agressiva alegria, uma nova consciência”, afirma Selda.

O Tesc dos anos 70, o real e o imaginado, são temas para Ediney Azancoth, que dá visibilidade às pessoas, grupos, processos, movimentos, como o movimento teatral do fim do seculo 20.

Os pesquisadores mostram os grupos de teatro que não mais existem, mas que realizaram grandes feitos em sua época.

A história do Tesc continua a ser escrita pela performance do grupo, mas seu passado corria o risco de ser esquecido, por isso, Ediney Azancoth conta as peripécias destas trajetórias, que remonta a tempos passados que não voltam mais e que alguns não desejam ser esquecidos.

O lançamento do livro TESC - NOS BASTIDORES DA LENDA, acontece nesta quarta-feira, dia 25, a partir das 18h15, no SESC, com direito a coquetel, música e poetação a cargo de Dori Carvalho. Agende!

Maiores informações: 3656 1021 / 9602 1906 falar com Profª Dra. Selda Vale

Terça-feira, Novembro 24, 2009

O dia em que Evandro Carreira parou a cidade


Evandro Carreira nasceu em Alvarães, antiga Caiçara, município de Tefé, em 24 de agosto de 1927, se formou em Direito pela Universidade do Amazonas e sagrou-se o melhor orador universitário do Brasil, em concurso realizado na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Ex-presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, foi o segundo vereador mais votado de Manaus pelo PST, em 1959. Reelegeu-se em 1963, no mesmo ano em que Josué Cláudio de Souza, diretor da rádio Difusora, elegeu-se prefeito de Manaus pelo PTB.

Ex-deputado estadual por três legislaturas e ex-deputado federal, o saudoso Josué Pai, que sempre foi um homem honesto e prestativo, pagou um preço muito alto por confiar demais nos seus subordinados.

Ao fazer vista grossa para o balcão de negócios em que seus auxiliares transformaram a Prefeitura, virou um alvo fixo da oposição.

Em julho de 1964, o vereador Rodolfo Vale (PST) entrou com um processo de “impeachment” contra o prefeito, por improbidade administrativa, e foi instalada uma CPI.

Evandro, que era amigo particular de Josué Pai, foi conversar com ele e explicou a situação. O prefeito preferiu acreditar na versão dos subordinados. Os dois brigaram feio.

A Comissão Parlamentar de Inquérito era composta por cinco vereadores, sendo que três deles (João Bosco Ramos de Lima, Zé Marques e Ismael Benigno) eram funcionários da Difusora. Os três votaram um parecer inocentando o prefeito e o parecer foi levado para votação no plenário.

Evandro ficou revoltado com o resultado da CPI.

Às nove horas da manhã, o presidente da Câmara Municipal de Manaus, vereador Zânio dos Reis, abriu a sessão:

– Vamos colocar em votação o parecer...

– Não pode, porque você é filho da puta! – berrou Evandro, partindo pra cima do presidente.

O edil ficou tão assustado que desmaiou. A sessão foi suspensa por quase cinco horas.

Por volta das duas da tarde, o vice-presidente da Câmara, vereador Raimundo Aleixo, retomou os trabalhos. Evandro bateu firme:

– Aleixo, eu sou teu amigo, mas não coloca esse parecer pra ser votado com esses três em plenário. Eles têm de se julgarem impedidos! Tem que ser feito um outro parecer, porque eles impuseram esse parecer na CPI e agora querem impor aqui no plenário. Não pode!

Aleixo reabriu a sessão e colocou o parecer em votação. Evandro arremessou um cinzeiro, que passou tirando “fino” da cabeça do vereador e se espatifou na parede.

Aos gritos de “filhos da puta, bando de ladrões!”, Evandro partiu pra cima da mesa diretora. A sessão foi suspensa de novo.

Os vereadores decidiram matar o “brigão” no cansaço. Começaram a se revezar na Câmara, esperando Evandro se ausentar do plenário. Quando isso acontecesse, eles votariam e aprovariam o parecer.

Seis horas da tarde, um cunhado de Evandro foi saber o que estava acontecendo. Ele explicou a situação e pediu que seu cunhado trouxesse armas e munição. Onze da noite, Evandro continuava na bancada. Passou a noite lá.

No dia seguinte, Aleixo e mais quatro vereadores resolvem abrir a sessão (Manaus tinha onze vereadores na época e a CMM funcionava no salão nobre da antiga Prefeitura). O placar seria de 5 a 1 e dariam os trâmites por findo.

Quando Aleixo abriu a boca, Evandro sacou uma pistola 7.65 e um 38 duplo cano longo, e engatilhou as armas. Não ficou uma alma viva no plenário nem nas galerias.

Duas horas depois, o vereador João Bosco criou coragem e foi falar com ele. Evandro não se fez de rogado:

– Olha, Bosco, eu estou louco! – avisou. “Se vocês colocarem esse parecer em votação, eu vou atirar pra matar! E o primeiro que vai morrer é quem estiver presidindo a sessão.”

Evandro ficou na bancada o dia inteiro, igual a um Bill the Kid anacrônico. A sessão ainda suspensa.

Por volta das nove da noite, chega o vereador Paulo Nery (licenciado e Chefe de Polícia do governador Artur Reis), na companhia de vários oficiais da PM e soldados. Evandro contou o que estava acontecendo.

Preocupado com a zorra que estava acontecendo, o governador queria falar com o “brigão”. Evandro concordou em ir até ao Palácio Rodoviário, desde que fosse garantido que na sua ausência não haveria sessão para aprovar o famigerado parecer.

Paulo Nery telefonou para o governador e ele concordou. Um major e quatro soldados ocuparam o plenário da Câmara.

Quando Evandro e Paulo Nery chegaram na casa do governador, nos altos do Palácio Rodoviário, já estavam lá o general Álvaro Santos, comandante do GEF, e meia dúzia de coronéis.

O general foi logo detonando:

– Em nome de quem o senhor está fazendo essa baderna na Câmara Municipal? O senhor agora virou xerife da cidade?...

Evandro não deixou por menos:

– General, eu estou me comportando assim em nome dos mesmos princípios que o senhor aprendeu na Escola Militar. Porque eu sou segundo tenente, com carta patente do Exército!

O general tomou um susto. Aí, chamou um coronel, conversaram baixinho, e ele voltou à carga:

– E daí? Qual é o direito que dá pro senhor fazer essa arruaça?...

O maninho se arretou:

– O meu direito, general, é o de lutar pelos princípios da revolução! Ou o senhor não fez a revolução?! Há corrupção na prefeitura de Manaus, general...

– Como é que o senhor prova? – insistiu o militar.

Evandro estendeu-lhe um calhamaço, com um parecer técnico proferido por um capitão de engenharia do Exército, confirmando o superfaturamento de obras e a utilização de material inadequado. O general ficou pasmo.

Evandro deixou a casa do governador e voltou para o plenário da Câmara, onde ficou de campana. Passou o resto da noite sem pregar os olhos.

Na manhã seguinte, na abertura da sessão, o vereador João Bosco, líder do prefeito na Câmara, leu a carta de renúncia de Josué Pai.

Só então Evandro deixou a CMM e foi pra casa dormir, depois de passar 54 horas no plenário.

Em outubro de 1964, com base no relatório da CPI, o governador Artur Reis demitiu Josué Pai do cargo de Juiz do Tribunal de Contas e o indiciou pelo crime de responsabilidade.

Absolvido das acusações alguns anos depois, o combativo radialista da “Crônica do Dia” daria a volta por cima, se elegendo deputado federal mais duas vezes.

Evandro Carreira se afastou da política em 68 para exercer a advocacia, sendo considerado durante muito tempo “a voz dos que não tinham vez”, já que não cobrava honorários da população carente.

No início dos anos 70, ele comprou uma briga federal com a Prefeitura durante a desapropriação do lupanar “La Hoje”, onde hoje está localizada a Estação Rodoviária, ganhando a causa e uma bela indenização para o dono, que lhe valeram régios honorários.

Em 1974, foi eleito senador pelo MDB. Ecologista quando ninguém sabia o significado da palavra, Evandro ganhou o apelido de “senador pororoca” pelo discurso caudaloso que fazia (e ainda faz) em defesa da Amazônia. É um santo guerreiro!

Domingo, Novembro 22, 2009

Felix Valois vai em busca do Tri na OAB-AM


Considerado um dos melhores juristas da história do Amazonas, meu brother Félix Valois Coelho Júnior é filho do professor Félix Valois Coelho e de Lucíola Magalhães Coelho, e nasceu em Manaus, no dia 21 de março de 1943.

Criado no bairro de São Raimundo brincando na rua, tomando banho de igarapé e jogando futebol de botão feito de caroço de tucumã, ele iniciou sua carreira jurídica como advogado do Banco do Brasil, em 1965.

Casado com a engenheira química Ilsa Maria, tem quatro filhos: Luiz Carlos (juiz de Direito), Lucíola (promotora de Justiça), Alfredo (médico cirurgião) e Lúcia (advogada).

Na política, o “demônio” já exerceu os cargos de deputado estadual (1982-1986), período em que também assumiu pela primeira vez a Secretaria de Justiça do Estado, de vice-prefeito de Manaus (1988-1992) e, novamente, de Secretário de Justiça e Cidadania (1996-2002).


Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde os anos 60, Felix elegeu-se deputado estadual pelo antigo grupo “autêntico” do MDB, dentro do saco de gatos em que havia se convertido o PMDB.

Com a entrada na legalidade do PCB (atual Partido Popular Socialista – PPS), ele voltou a fazer parte de seus quadros, encontrando-se atualmente fora da atividade partidária.

Professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas por mais de 20 anos, atualmente ele é professor no Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas e no Centro Universitário Nilton Lins

Já tendo exercido a presidência da OAB/AM durante dois mandatos (1975 -1977, 1977-1979), Felix Valois vai tentar se eleger presidente da entidade pela terceira vez no próximo dia 27, sexta-feira, tendo como companheiro de chapa Celso Valério.

Quatro chapas concorrem à eleição da OAB/AM. Além da de Felix Valois, há, ainda, a de Fábio Mendonça e Simonetti Neto, a de Eid Badr e Glen Wilde Freitas, e a de Felix Mello Ferreira e Geraldo Frazão.

Curtam, então, algumas histórias vivenciadas por esse gigante do bem querer chamado Felix Valois.

1

Na época um dos principais editorialistas do jornal A Crítica, Fábio Lucena foi eleito vereador pelo MDB em 1972 e, no ano seguinte, foi logo mostrando serviço.

Discordando do valor do IPTU das casas populares cobrado pela Prefeitura, Fábio Lucena, da tribuna, incitou a população a queimar os carnês de cobrança, no que foi prontamente atendido. Mais de 5 mil carnês foram incendiados.

A ditadura militar subiu nas tamancas e o jornalista foi processado por subversão, com base na Lei de Segurança Nacional.

O jornalista Umberto Calderaro, diretor de A Crítica, resolveu comprar a briga do editorialista e contratou para defendê-lo um dos mais prestigiados escritórios jurídicos da cidade, o lendário “Paiva, Simonetti e Valois”.

Depois de quatro anos de peleja, o julgamento do jornalista finalmente foi marcado para ser realizado na Auditoria Militar de Belém. O advogado Félix Valois foi escalado para fazer a defesa do edil.

Os dois chegaram a Belém uma semana antes do julgamento e ficaram hospedados no hotel Grão Pará, no centro da cidade.

Numa época pré-xerox e pré-fax, todas as anotações oriundas das consultas aos autos tinham que ser feitas na base do muque. Os dois logo estabeleceram uma rotina espartana.

Pela manhã, ficavam copiando o processo e retornavam para o hotel, por volta do meio dia. Depois do almoço, Felix ia estudar as anotações, pesquisar nos livros de Direito e elaborar a linha de defesa, numa tarefa ingrata que só terminava de madrugada.

Fábio deitava na cama, ligava a televisão e pedia um uísque duplo, invariavelmente Chivas Regal. A partir daí, ficava nesta tarefa ingrata de encher a cara de manguaça até de madrugada, já que odiava dormir com a luz do quarto ainda acesa, enquanto Valois trabalhava.

E, nessa rotina espartana, os dias iam se passando.

Na véspera do julgamento, com toda a defesa anotada a mão em quase quinhentas folhas de papel almaço, Felix resolveu relaxar.

Assim que colocou um ponto final no texto e começou a guardar o calhamaço numa pasta, virou-se para o jornalista e suplicou:

– Ô, Fábio. Já que você vai pedir uma outra dose de uísque pra ti, pede uma pra mim também!

Eram quase dez horas da noite. Fábio Lucena já havia detonado uma garrafa inteira de Chivas, mas, ainda assim, respondeu de bate-pronto:

– Uma porra, Félix, uma porra! Não peço um uísque pra ti nem pelo caralho! Amanhã é dia do meu julgamento! De repente, tu acordas de ressaca e me fazes uma defesa de merda, daí quem se fode todo sou eu! Meu irmão, você pode até ficar puto, mas não vou deixar você beber não! Com esses macacos fardados não dá pra gente facilitar!

E não pediu o uísque para o causídico.

No dia seguinte, sem ressaca e com uma argumentação brilhante, Felix conseguiu a absolvição do jornalista.

Os dois, na companhia de Umberto Calderaro, Alberto Simonetti, José Paiva e de vários jornalistas, políticos e intelectuais, que haviam viajado a Belém somente para acompanhar o julgamento, comemoraram a vitória no bar do hotel Grão Pará, tomando um porre de juntar crianças.

2

Orlando Farias, Chicão Cruz, Rogelio Casado, Felix Valois, Mário Adolfo, Anchieta meio encoberto pelo Façanha, Pedro Paulo e esse vosso escriba

Félix Valois era candidato a senador pelo PPS e seus cabos eleitorais estavam panfletando no Bar do Armando, conhecido reduto de intelectuais da cidade.

Um sujeito, com ar superior, pegou um dos panfletos, leu o currículo do candidato, embolou o panfleto na mão, jogou no chão e, antes de pegar o copo de cerveja para ingerir, falou bem alto, com ar triunfal:

– Eu não vou votar no Félix Valois porque ele só defende assassinos, ladrões, bandidos e traficantes!...

O promotor público Francisco Cruz, que bebia numa mesa ao lado, não perdeu tempo:

– Quer dizer então, ô ignorante, que o Félix só deveria defender homens de bem?... Porra, deixa de ser besta! Homens de bem não precisam de advogados, ô idiota! - detonou Chicão.

O ignorante, besta e idiota deu um riso meio amarelo e passou o resto da noite sem abrir a boca.

3

Em meados dos anos 60, Felix Valois estava defendendo um cliente acusado de várias falcatruas cabeludas (incluindo participação em estelionato, homicídio qualificado e formação de quadrilha).

Advogado em início de carreira e ainda sem condições financeiras de freqüentar um dos famosos escritórios jurídicos da cidade para esclarecer suas dúvidas, Felix convocou sua esposa, a engenheira química Ilsa Valois, para trabalhar informalmente como assistente de defesa.

Era Ilsa que pesquisava, naquele cipoal de livros jurídicos existentes na casa dos dois, a jurisprudência necessária para sustentar a linha de defesa utilizada pelo marido.

No dia do julgamento no Tribunal do Júri, o promotor apresentou provas irrefutáveis sobre a participação do sujeito nos crimes imputados e pediu 137 anos de condenação ao réu.

Felix Valois não duvidava da culpabilidade do sujeito, mas teve de suar sangue para conseguir convencer os jurados a reduzirem a pena do cliente, já que este é o dever moral de qualquer advogado que se preze.

Ao chegar em casa depois do julgamento, ainda exultante pela argumentação consistente que havia utilizado, Felix foi abordado pela esposa:

– E aí? Como é que foi a nossa defesa? – quis saber ela.

– Boa, muito boa. Eu diria até que excelente. Ele foi condenado a oito anos de prisão! – explicou Felix.

Ilsa tomou um susto. Irritadíssima, detonou o marido:

– Oito anos?... O nosso cliente pegou tudo isso?... Oito anos?... Mas como?... Não acredito... Onde foi que nós erramos?... Me conta: onde foi que nós erramos?...

Felix passou uma semana sem dirigir uma palavra à assistente.

4

Magela e Georgina Andrade, Nestor Nascimento, Felix Valois e eu, everybody looking for flying saucers in the sky

Maio de 1984. Professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas, Félix Valois estava dando uma aula sobre o instituto do “estado de necessidade”, para uma turma de quase cinqüenta pessoas.

– Nosso Código Penal diz que “se considera em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”.

– Traduza para o português, mestre! – apartou um aluno meio dentuço, cabelo de corte militar, os olhos mortiços escondido atrás de caprichosos óculos com lentes bifocais fundo-de-garrafa, ostentando um rosto cheio de espinhas, calça jeans detonada e camisa negra com estampa do Iron Maiden, enquanto se contorcia na cadeira para melhor roer as unhas. Em suma, o sujeito era um nerd profissional, ou melhor, um brasileiríssimo cdf.

Félix resolveu dar um exemplo simples.

– Imaginem dois náufragos em um pequeno bote inflável perdidos na imensidão do mar. A costa está a 200 milhas, mas a água potável disponível na embarcação é insuficiente para que ambos consigam chegar até lá. Entretanto, a água é suficiente para que apenas um deles realize a proeza. Neste caso, o mais forte pode matar o mais fraco, para tentar se salvar, que o crime não lhe será imputado. Isto, porque o Estado opta por preservar uma vida, em vez de simplesmente perder as duas...

– É evidente que nesta circunstância hipotética, o senhor está apenas emulando uma questão de fundo! – bazofia o cdf, crente que vai encurralar o professor numa sinuca de bico. “Eu estou olhando aqui no Código Penal Brasileiro e ele diz que o ato só se justifica se por outro meio não puder ser evitado...”

– Foi o que eu acabei de falar! – diz Félix, enquanto consulta o relógio com impaciência.

– Como o senhor já disse em outra ocasião, nós precisamos observar a questão por todos os ângulos! – insiste o cdf. “Será que não existe um outro meio de se evitar a tragédia?...”

– Neste caso hipotético, não, não existe. Foi para legislar sobre uma situação igual a esta que se instituiu o “estado de necessidade”... – explica Félix, pacientemente.

– Eu não acredito. O senhor está absolutamente convencido de que não existe uma segunda ou uma terceira alternativa, e de que, neste caso, a única solução admissível é o mais forte matar o mais fraco?... – continua o sujeito

Félix pensou um pouco.

– Para ser franco, nesse caso específico existem apenas duas outras alternativas possíveis! – corrigiu o professor, aumentando o volume da voz para 130 decibéis. “O mais fraco pode se safar se tiver aprendido a voar, como os passarinhos, ou se tiver aprendido, como o Pai Eterno, a caminhar sobre as águas...”

O resto da turma explodiu numa gargalhada só.

O cdf ficou tão transtornado, que trancou a matrícula e nunca mais foi visto. É bem capaz de hoje ser juiz classista aposentado em alguma comarca do interior.

5

Dr. Santana, Rui de Carvalho, Conceição, Celito, Heloísa Chaves, eu, Flávio Lauria, Humberto Amorim e Felix Valois

Agosto de 1989. Ainda no papel de professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas, Félix Valois, na época vice-prefeito de Manaus, estava explicando para os alunos a eficácia das leis brasileiras sob a ótica do princípio da nacionalidade.

– De acordo com o princípio da nacionalidade, um Estado pode exercer jurisdição sobre seus nacionais, inclusive sobre atos por eles praticados fora do território do Estado, regra que suscita muitos conflitos de jurisdição internacional entre os Estados – explicou ele. “O fundamento deste princípio é a preservação de regras de direito interno, seja daquelas que garantem direitos fundamentais aos seus cidadãos, seja daquelas que tipificam condutas antijurídicas indesejáveis, catalogadas na categoria de crime. Alguém tem alguma dúvida sobre isso que acabei de falar?...”

A garotada parecia estar em estado de transe. Félix esperou mais alguns minutos e como ninguém se manifestou, ele foi em frente.

– Em matéria penal, o direito brasileiro dispõe sobre a jurisdição brasileira, sem prejuízo de convenções internacionais, tratados e regras de direito internacional, equiparando o crime cometido no estrangeiro por nacionais ao crime de nacionais cometido em território nacional – afirmou. “Considera a lei nacional como local do crime o lugar ‘onde ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado’ (art. 6º do Código Penal), sendo punido pela lei brasileira, embora cometido no estrangeiro, os crimes elencados no art. 7º do referido Código desde que, respeitadas as exceções previstas na lei, o agente adentre em território nacional, o fato seja punível também no local do fato, estar o crime entre aqueles que o Brasil permite a extradição, não ter sido o agente absolvido ou perdoado no estrangeiro e não estar extinta a punibilidade segundo a lei mais favorável. No que se refere à extradição, a Constituição Brasileira de 1988 trata do assunto entre as cláusulas pétreas (art. 5º, LI; 60, §4º, IV), determinando que ‘nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei’”.

Os alunos continuavam quietos, como se estivessem travando contato pela primeira vez com a Lei da Relatividade, de Einstein. Félix resolveu resumir a verborragia jurídica para português de botequim.

– Como vocês puderam perceber, o Código Penal brasileiro diz que o cidadão que comete um crime em outro país será punido no Brasil, mesmo que ele já tenha cumprido pena no lugar onde cometeu o crime. Aqui os legisladores pisaram na bola. O certo seria “processado” no lugar de “punido”...

– O senhor está dizendo que o código está errado? – espantou-se uma menina de vestido tomara-que-caia, sentada na primeira fila.

– Estou, minha filha! – garantiu Félix, consultando o relógio com impaciência.

– E por que então não se conserta o código?... – insistiu a menina.

– Não faço a menor idéia! – garantiu o professor, enquanto juntava seus papéis e abandonava a sala de aula.

Além de demoníaco, Félix Valois sempre foi um defensor incorrigível do mote “para perguntas imbecis, respostas de igual calibre”.

Ah, sim, o código continua “errado”. Quem sabe se o futuro Congresso Nacional não toma uma atitude e corrige a “mancada”...

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

A disciplinada hierarquia Isper


Acram Jr., Acram Isper e Karime, no tempo em que eram todos jovens

Karime Isper

Desde que me entendo por ser pensante as coisas lá por casa funcionam da seguinte maneira: o que é do meu pai passa pro meu irmão e o que era do meu irmão automaticamente passa pra mim. Nessa ordem imutável.

E isso compreende as coisas mais variadas, começando por produtos eletrônicos, passando por carros e terminando em confortáveis camisas de botão, que os quilinhos a mais os impedem de usar – e eu adoro como roupa de casa o estilo “peça da escola pro dia dos pais”.

Não me entendam mal, isso é maravilhoso! Principalmente quando o assunto é gadgets eletrônicos, tecnologia de ponta e produtos de última geração que eu nem supunha existir.

Meu pai é um tecnology junkie e o Acram Jr. é uma cópia cuspida dele. Desde pequeno, meu irmão montava e desmontava um monte de coisas: carrinhos de controle remoto, videogames antigos, computadores do papai...

Ele sempre foi bastante curioso e cheio de idéias mirabolantes para o monte de fios coloridos colados em placas verdes que, a partir de seu toque pessoal, garantia, iria deixar o objeto “mais rápido, mais definido, mais alto, mais tudo”.

O primeiro videocassete da cidade foi comprado pelo meu pai. Ele trouxe “do estrangeiro”, numa de suas inúmeras viagens aos EUA, e passou vários dias brincando de descobrir todas as maravilhosas funções daquele aparelho revolucionário. E isso foi só o começo.

Perdi as contas de quantas vezes vi o laser disc do Michael Jackson servir de bucha de canhão para que papai testasse o som, que tinha que ser sempre no volume mais alto, de um novo produto adquirido. Se as paredes da casa não vibrassem como durante um terremoto, alguma coisa estava errada...

E quando estávamos, enfim, entrando no clima do “moon dancing”, ele pausava o aparelho, mexia nos fios lá atrás, invertia a posição de alguns conectores, voltava, recomeçava... E lá íamos nós tentar entrar no clima de novo.


Acram Isper, ao lado de Fredinho, após dar um susto da gota serena nos seus milhares de fãs, no ano passado

As experiências do meu irmão com videogames foram incontáveis. Ele começou com o Atari e não parou mais. Nintendo, Super-Nintendo, Gameboy, Turbo-Express, Game Gear, todos eram comprados por ele assim que eram lançados e, evidentemente, sempre acabava pagando mais caro. Pior: não demorava muito, era lançado um outro que deixava aquele, digamos assim, obsoleto. Era aí que eu entrava.

Mr. Acram Jr., mestre supremo das negociações, trocava o seu novíssimo videogame por um determinado número de favores meus em um determinado período de tempo. Ele ficava bem na fita, já que posava de “bom moço” pro patriarca e ainda ganhava, de brinde, o novo aparelho que ele queria. E eu, por outro lado, torcia pra ele ganhar um novo aparelho porque sabia que um dia aquele também seria meu.

Os anos foram passando e, com isso, os interesses. Videogames já não me atraiam mais e foi a vez dos computadores. Eu “precisava” de um computador no meu quarto para trabalhos escolares e, lógico, passar horas conversando com amigos no mIRC.

Mais uma vez o maravilhoso desktop do meu irmão veio parar no meu quarto enquanto ele se deliciava com o que o papai tinha transferido para ele e o papai, por sua vez, abria as caixas do seu mais recente objeto de desejo.

Foram anos e anos até que eu percebesse que seria mais prático um notebook e daí já dá pra imaginar o que aconteceu...

Quando fiz 18 anos, o carro próprio era a meta. Herdei logo o rejeitado Scenic vinho de meu irmão. Não sabia muito bem como dominar aquela máquina e bati logo na segunda semana, aliás, pela segunda vez. A primeira foi um “arranhãozinho” lateral no portão de casa.

Quando o Scenic foi pro conserto, emprestei o Audi A3, fruto de uma penosa negociação com meu irmão, mas que, fugindo à regra, ainda estava virtualmente sob o controle do meu pai. Quando voltou o Scenic... Bem, evidentemente, eu já não queria mais saber dele.

Televisão foi uma das coisas de maior rotatividade. Até pouco tempo, a minha era uma fantástica Toshiba Lumina Line de 29”, que durante alguns anos reinou soberana e absoluta no quarto ao lado, até o aparecimento das incomparáveis televisões de plasma.

Não demorou muito para os geeks se sentirem ultrapassados pela concorrência e comprarem logo duas televisões de plasma, uma pra cada um.

No rescaldo dessa nova reciclagem, eu acabei trocando a minha Mitsubishi de 21”, que havia ganho num sorteio da feira de ciências da escola, pela lindona e bunduda Toshiba de 29”.

Bem, dessa vez (cá entre nós), o upgrade tecnológico demorou mais do que o previsto. Eu sempre me perguntava, olhando para o céu: “Quando será que o papai vai se cansar da TV dele pra dar pro Acram Jr. e eu, por conseguinte, ficar com a dele?”.

O tempo passava, o tempo voava, a poupança Bamerindus se afundava e o dois continuavam satisfeitíssimos com suas televisões de plasma. Por força das circunstâncias, eu aprendi a amar de coração a minha vintage.

Finalmente, meu pai se encantou por uma televisão maior e, por supuesto, ainda melhor. A caixa ocupava mais da metade da sala e, enquanto os dois se divertiam com os milhares de fios multicoloridos para serem conectados, eu dava pulinhos de alegria.

Meu irmão não contou história e foi logo trocando a dele pela antiga tevê do velho e em pouco tempo eu já estava com a minha maravilhosa TV de plasma com polegadas jamais antes experimentadas pelo meu humilde aposento.

E viva a vida em alta definição!

Um morcego na porta principal


Jamari França

O morcego na porta principal marcou a carreira de Jards Macalé de uma maneira tão forte como o rótulo de maldito, uma invenção da imprensa capaz de irritá-lo a ponto de gritar “maldito é a mãe!”, desabafo registrado pelos diretores Marco Abujamra e João Pimentel no documentário “Jards Macalé - Um morcego na porta principal”.

O documentário mostra como Macalé é uma figuraça já nas primeiras cenas em que ele duvida da capacidade dos diretores de retratá-lo devidamente e ameaça processá-los.

João Pimentel comenta que neste dia de filmagem, Marco Abujamra foi sozinho e registrou o desabafo diante da possibilidade de se ver inteiro na tela.

Apesar da bronca, Macalé ficou feliz com o resultado:

- Me senti muito bem porque sou eu, se fosse outro apedrejava (risos). Brincadeira. O que está ali não me agride, só me revela. Gosto da história que foi contada. Tem momentos bonitos como eu e minha mãe na rede. Eu mostrei para ela que disse: "meu filho tem coisas que nem eu sei" - conta ele numa entrevista por telefone depois do ensaio do show "Olho de lince", um tributo a Waly Salomão apresentado no Teatro Rival com Adriana Calcanhotto e Omar, filho de Waly .

Macalé flertou com o tropicalismo mas nunca aderiu, embora nada mais tropicalista que sua apresentação no Festival Internacional da Canção de 1969 com “Gotham City”, parceria dele com Capinam, uma forma de denunciar o clima sufocante da ditadura com as metáforas do morcego e do abismo na porta principal. E da caça às bruxas nos telhados das casas da cidade do Batman nas histórias em quadrinhos.

- Na época eu estava preocupado em estudar música. Aprendia violoncelo com Guerra Peixe. Quando o Caetano voltou de São Paulo com o disco “Tropicália” e me mostrou eu disse que não gostara. O que me atraiu foi a indignação e depois fiz “Gotham City” que era pós tropicalista. Eu fui pré e pós tropicalista, meu lance é só pra contrariar - discorda.

Outro momento marcante foi o “Banquete dos mendigos” em 1973 no Museu de Arte Moderna do Rio para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, outra forma de protesto contra a ditadura com as alusões do documento contra a censura e a tortura.

Ele teve a companhia de Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Gal Costa e outros com o MAM cercado pela polícia. Macalé conta que o show era em benefício próprio porque estava no vermelho mas, depois de pagas as despesas, ele continuou duro.


No documentário estão depoimentos de Ivan Junqueira, que era assessor de imprensa da ONU no Rio, e Paulinho da Viola, participantes do Banquete.

- O Cosme Alves Neto que era diretor da Cinemateca me disse que tinha um lance no museu alusivo aos 25 anos da Declaração e sugeriu que eu juntasse tudo. “Banquete dos mendigos” foi inspirado no nome do disco dos Rolling Stones (“Beggar’s banquet”, de 1968) porque o país sem direitos humanos era de mendigos mesmo - explica.

Macalé tem histórias muito boas registradas no documentário e vale contar pelo menos uma. Dori Caymmi conta que Macalé ficou três anos sem falar com ele porque introduziu um acorde na música “Tarde demais” que ele odiou. Dori conta que saiu da casa de Macalé e pegou um lotação para ir até Copacabana. De repente, entra Macalé no coletivo todo bichona e paga para o Dori que ele o tinha traído “com a safada daquela mulher” e desceu sem dar a menor indicação de que estava brincando. Dori conta que foi até Copacabana no maior constrangimento com todo mundo olhando para ele. Foi a vingança pelo acorde indesejável.

Entre os diversos depoimentos do documentário estão os de Gilberto Gil e do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa. O primeiro contemporiza em torno da questão de fazer uma carreira sem concessões, com afirmações de que nada se pode fazer sem diálogo com o outro, o que já pressupõe uma concessão.

Já Zé Celso faz elogios arrebatadores: “Macalé não é maldito, ele é um luxo. A sociedade tem um encaminhamento muito ordinário, muito vulgar no campo da produção e se perde o que se tem de melhor”, vocifera.

- Eu conheci o Gilberto Gil como administrador de empresa, de terno e pasta, empregado da Gessy Lever. Gil mostra a visão dele como o grande administrador que fez dele próprio. Eu escolhi o risco, ele é formal dentro da administração pessoal dele, não tem problema nenhum - afirma.


O documentário mostra ainda a fase de Macalé com Moreira da Silva, o rei do breque e da malandragem, com quem tinha uma identidade absoluta:

- Com o Moreira eu aprendi a ser brasileiro, a ser carioca. Andava com ele pela rua e aprendia, foi uma lição de vida. Tudo que está ali é verdade - conta, lembrando a vez em que quase foi preso apesar dos esforços de Moreira, que tinha fãs entre os policiais de uma cidade do interior.

Depois de tentar tudo, Moreira chegou no ouvido dele e falou: “Acho que agora você se fudeu”. Mas não foi daquela vez, os canas aliviaram.

Macalé fez papéis no cinema, alguns mostrados no documentário junto com vários shows e intervenção delirante do amigo Waly Salomão com o genial poema “Jet legged”, num trecho em que as opiniões sobre Macalé se superpõem num emaranhado de sons e imagens. Um deles foi o show do MAM em 1973 em que ele tocava sentado numa privada.

- Me deram uma sala que tinha um elevador de carga. Coloquei todas as cadeiras viradas para o elevador, de onde saía para a privada que ficava no lado oposto e a platéia tinha que virar as cadeiras para ver - explica.

Ele diz que o objetivo da privada era provar que estava tudo uma merda. “Incluindo o show?”, provoco.

- Não, o show era genial (risos).

“Cidadão Boilesen” investiga industrial que financiou a repressão


Carlos Helí de Almeida, do Jornal do Brasil

Em abril de 1971, o empresário dinamarquês (naturalizado brasileiro) Henning Albert Boilesen, então diretor do grupo Ultragás, foi executado por militantes da esquerda, acusado de financiar a repressão militar contra a guerrilha urbana.

Sugerida em filmes (Pra frente Brasil, de Roberto Farias, Lamarca, de Sérgio Rezende) e peças (Sonata tropical, de Roberto Elisabetsky), a associação entre empresários brasileiros (particularmente os paulistas) e a ditadura militar (1964-1985), um tema tabu no país, é investigada a fundo no documentário “Cidadão Boilesen”.

Escrito e dirigido pelo jornalista Chaim Litewski, o filme tem como fio condutor a biografia do executivo, que veio para o Brasil no fim dos anos 30 e fez fortuna no país.

Anticomunista ferrenho, Boilesen não só teria estado à frente da caixinha dos empresários que levantou fundos para financiar a Operação Bandeirantes (Oban) – a agência de repressão aos opositores dos militares – como também teria participado pessoalmente das sessões de tortura na sede do DOI-Codi de São Paulo.

“Cidadão Boilesen” recorre a depoimentos de parentes, amigos, historiadores, políticos, militares e ex-integrantes da luta armada para traçar o perfil do controverso industrial, que frequentava as altas rodas e as colunas sociais e, supostamente, tinha o perverso hábito de visitar os porões da ditadura.

Há décadas os mistérios envolvendo a personalidade e a trajetória de Boilesen fascinavam Letewsk que, num primeiro momento, pensou em escrever um livro sobre o empresário. O jornalista chegou a recortar e guardar obituários publicados em jornais e revistas da época.

Anos mais tarde, no entanto, soube da publicação de uma biografia do executivo na Dinamarca, intitulada Likvider Boilesen, de Henrik Kruger. Letewski desistiu de escrever um livro e começou a pensar num documentário biográfico sobre o dinamarquês.

– Cada descoberta só fazia aumentar meu interesse pelo personagem. Boilesen é um ser quase ficcional, parece que viveu uma dicotomia tipo Jekyll e Hyde, noite e dia – compara o diretor, radicado em Nova York.

– O interesse por ele me acompanhou por muitos anos. Em 1994 comecei a me organizar no sentido de realizar um documentário sobre Boilesen e seu tempo. O grande problema de qualquer pesquisador é saber quando parar, botar um ponto final na pesquisa. Isso só aconteceu dois anos atrás, quando recebi a pasta dele do SNI (Serviço Nacional de Informações) – explica.

Sobre a memória de Boilesen pesam acusações consideradas absurdas pelo filho do empresário, um dos depoentes do documentário. Militantes da esquerda atribuem ao presidente da Ultragás a criação de um instrumento de tortura que emitia choques elétricos graduais, acionado por um teclado, que ficou conhecido como Pianola Boilesen. O empresário também teria sido colaborador da CIA, a agência de inteligência americana.


Depoimentos de políticos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, religiosos como dom Paulo Evaristo Arns, ex-agentes da Oban, e ex-guerrilheiros são costurados numa tentativa de evitar a absolvição ou a condenação de um personagem vilanizado pela esquerda brasileira.

– De maneira alguma esse projeto deve ser visto, considerado ou percebido como revanchista ou revisionista. A ideia foi sempre incentivar o maior número possível de opiniões. Isso foi feito através de dezenas de entrevistas e fartamente ilustrado com cine-jornais, arquivos de TV, filmes de ficção, documentários, arquivos oficiais e particulares e outros materiais iconográficos – defende-se o diretor. “Não partimos de conceitos predeterminados. Os diferentes pontos de vista foram articulados e respeitados.”

Não faz muito tempo, o Uruguai alterou a Lei de Anistia contra militares e a Argentina determinou que eles sejam julgados na Justiça Comum. Litewski espera que “Cidadão Boilesen” pelo menos contribua para jogar luz sobre um dos períodos mais tristes e obscuros da história brasileira recente:

– Para ser absolutamente sincero, não tenho ideia do tipo de impacto que esse documentário possa causar na sociedade brasileira. Espero que sirva para que se estude mais profundamente o tema. Isso já seria uma grande vitória – avalia.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Duas histórias do meu brother Antonio Belém


No começo dos anos 90, um gaudério se estabeleceu em Parintins e abriu uma mercearia inspirada nos rincões gaúchos. A nova taberna ficava em frente da casa de Antonio Belém, irmão do Vicente Matos, ex-presidente do bumbá Garantido.

Pra quem não sabe, Antonio Belém é um sujeito com porte de halterofilista, mas incapaz de matar uma borboleta – provavelmente porque tem o coração maior do que o corpo.

Quando ia na bodega em busca de cervejas, ele até achava engraçado surpreender o gaudério repetindo, contritamente, a oração criada por D. Luiz Felipe de Nadal, bispo de Uruguaiana:

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença do Patrão Celestial. Vou chegando, enquanto cevo o amargo de minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso campear por outras invernadas e repontar do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa. Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida, se não se estriba na proteção do Céu. Ouve, Patrão Celeste, a oração que te faço ao romper da madrugada e ao descambar do Sol: tomara que todo o mundo seja como irmão! Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim. Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira a fora... Êta potrilho chucro, renegado e caborteiro... Mas eu te garanto, meu Senhor, quero ser bom e direito! Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu. Socorre-me, São Pedro, Capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer meu Deus, mas somente para ti, que tua vontade leva a minha de cabresto pra todo o sempre e até a querência do Céu. Amém.”

Para Antonio Belém, a tal oração fazia parte das extravagâncias do novo morador da cidade, ao lado das bombachas, do laço de maragato no pescoço e da cuia de chimarrão fumegante sempre presente na mão direita do sujeito. Ele não morria de amores pelo gaudério, mas o tratava com uma cordialidade civilizada.

Um dia, durante um churrasco que oferecia para seu cunhado, Belém atravessou a rua que o separava da mercearia, em busca de meia dúzia de cervejas geladas, e, ao cruzar com o gaudério, dentro da bodega, tentou ser gentil:

– E aí, parente? Degustando o seu chazinho?...

Enquanto colocava as seis garrafas vazias sobre o balcão, Belém foi surpreendido pelo vozeirão agressivo do gaúcho:

– Escuta aqui, tchê! Eu nunca falei mal dessa merda dos bois bumbás de vocês! Nunca me meti nessa cultura de guampas de vocês! Sempre achei esse atoleiro de bumbás o mesmo que um sapo morto estirado nos arreios, mas nunca falei nada! Então, tchê, me respeite! Respeite a minha cultura! Isso aqui não é chazinho não! Isso aqui é chimarrão, animal! Isso aqui é chimarrão!!! Respeite a minha cultura como até hoje eu tenho respeitado essa cultura de merda de vocês!

Sem esconder o constrangimento, Antonio Belém não disse nada. Ele pegou as seis cervejas, pagou, recebeu o troco, atravessou a rua e, na hora em que ia entrar em casa, a ficha caiu.

“Como é que um filho da mãe daquele tinha vindo do cu do Rio Grande ganhar dinheiro às custas dos parintinenses e ainda se metia a cagar regras na Ilha Encantada?”, matutou.

Foi conta de multiplicar. Ele encostou as seis cervejas no muro da casa e voltou pra falar com o gaudério, cuspindo fogo. Quando entrou na mercearia, deu uma palmada no balcão, que quase desmonta a bodega:

– Escuta aqui, porra! Isso aí que tu tá bebendo é chá! É chá, é chá, é chá, e se você disser que não é chá, eu vou quebrar essa merda toda! (Belém dizia isso dando palmadas violentíssimas em cima do balcão).

A mulher do gaudério entrou em pânico. O sujeito ficou mais amarelo do que gema de ovo caipira. Belém, agora possuído por Xangô, o orixá das Tempestades, foi direto na jugular. Mirando o gaudério nos olhos, enquanto derrubava no chão uma das gôndolas da bodega, perguntou:

– O que é que tem aí nessa cuia de tacacá? Responde logo, porra, antes que eu comece a acabar com essa espelunca... É ou não é chá?...

– É, chá, gente boa, é chá!... É chá, isso aqui é chá!... Como você falou antes, isso aqui é chá!... – respondia o gaudério, se tremendo nas bases.

– Diz de novo, porra: o que é que tem aí nessa cuia de tacacá?... – insistia Antonio Belém, derrubando no chão uma nova gôndola.

– É, chá, gente boa, é chá!... É chá, isso aqui é chá!... Como você falou antes, isso aqui é chá!... – devolvia o gaudério, quase se ajoelhando aos pés de Xangô.

Depois de aterrorizá-lo por dez minutos (e colocar no chão umas 12 gôndolas), Antonio Belém, com a certeza do dever cumprido (onde já se viu sacanear com os bumbás de Parintins dentro da cidade?), atravessou a rua para continuar a celebração do churrasco na companhia do cunhado.

O comerciante ficou tão assustado que não teve coragem de dar queixa na polícia. Alguns meses depois, o gaudério escafedeu-se da cidade. Com chá, aliás, chimarrão e tudo.

2

Com ar de quem não quer conversa com ninguém, Antonio Belém está no bar da Confraria do Vivaldo tomando uma cachacinha no balcão, em pé, de costas para a rua, matutando em silêncio. O resto da curriola está ocupando as poucas mesas do mocó e conversando animadamente.

De repente, um casal de missionários adentra o recinto.

– Bom dia! Nós estamos anunciando a boa nova de que Jesus está voltando porque a Terra clama por Jesus e nós queremos que todos sejam salvos! – diz o pastor, enquanto distribui exemplares da revista “A Sentinela”, das Testemunhas de Jeová, para as pessoas presentes.

– A ordem do Senhor é ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura, como está escrito em Marcos 16, versículo 15! – diz a acompanhante do pastor, enquanto distribui exemplares da revista “Despertai!”.

Antonio Belém recusa polidamente a revista entregue pela missionária:

– Dona Menina, pelamor de Deus não me venha com esse papo... Eu hoje amanheci de cabeça quente e vim aqui pra esfriar a cabeça...

A missionária não se dá por vencida:

– Escute, meu senhor, esse sofrimento seu não existe... Isso tudo que o senhor está sentindo é obra do demônio... Se entendermos que Cristo nos amou e morreu por nós quando ainda éramos pecadores, como está escrito em Romanos 5, versículo 8, e tudo isso porque ainda estávamos vivendo como filhos da ira, como diz em Éfeso 2, versículo 3, não vamos ter dificuldades de amarmos os discípulos como eles são. Devemos recebê-los como Cristo nos recebeu, para glória de Deus, conforme está dito em Romanos 15, versículo 7. Não esqueça, meu senhor, que Jesus vai voltar!

Belém começou a ficar impaciente:

– Dona Menina, a senhora me desculpe, mas ele não volta! Ele não volta!

A missionária, nem aí:

– Ele vai voltar, claro que ele vai voltar, meu senhor. Diz a Bíblia, em Mateus 25, versículos 31 e 34: Quando vier o Filho do Homem na Sua majestade e todos os anjos com Ele, então dirá: Vinde benditos de meu Pai! Entrai na posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque quando Jesus vier pela segunda vez, Ele vai ressuscitar os mortos de todos os tempos, que tiveram uma convivência de amor com Ele, para estarem eternamente juntos.

Belém tomou uma nova dose de cachaça e contestou:

– Ele pode ir pra Marte, pra Júpiter, até pro Sol, mas aqui pra Terra ele não volta mais não, Dona Menina, porque aqui só tem filho da puta!

A missionária tomou um susto.

– Ele vai voltar, meu senhor, ele vai voltar! – insistiu ela, sem esconder o constrangimento.

– Como vai voltar? Colocaram nas costas dele uma cruz de massaranduba de três metros e meio... Eu tiro madeira e sei como aquilo é pesado, não tem cristão que agüente carregar uma tora daquelas por mais de meia hora... Ele carregou por quase duas horas... Antes disso, apanhou que nem boi ladrão... Levou até chute nos ovos... Colocaram nele uma coroa de espinhos... Em vez de lhe darem conforto, lhe deram lambadas nas costas... Depois, pregaram ele na cruz com pregos Galiota de cinco polegadas... Quando ele estava quase morrendo, pediu um pouco d’água e lhe deram vinagre... Se não bastasse isso, dois soldados arpoaram o peito dele... Dona Menina, se isso fosse com a senhora, a senhora voltava?...

A missionária, aparentando nervosismo:

– Eu, não! Mas ele vai voltar, meu senhor, ele vai voltar!

Belém tomou uma nova dose de cachaça e resolveu encerrar o assunto:

– Dona Menina, ele não volta! Se ele quiser voltar é porque é um bom filho da puta, mas o Pai dele não deixa! O Pai dele não deixa! Ele não volta nem pelo caralho!

Dito isso, Belém entornou mais uma dose de cachaça.

A missionária saiu quase correndo de dentro do bar, como se tivesse visto o demo em pessoa.

Boca livre em Manaus


Após quinze anos sem lançar um trabalho solo, o músico Célio Cruz apresenta o CD Floresta Minha - coletânea de canções amazônicas, o segundo álbum de sua carreira.

O CD será lançado nesta quinta-feira, 19 de novembro, a partir das 19h30, na Saraiva Megastore, no Shopping Manauara, com entrada franca.

Segundo o artista, esse disco é um trabalho feito à mão, costura a costura, artesanal, com composições em parceria e canções de outros compositores, representando ao todo cinco Estados da Amazônia: pelo Amazonas, Célio Cruz, Sérgio Albuquerque, Torrinho e Luiz Bacellar; pelo Pará, Nilson Chaves e Carlos Correia; pelo Acre, Sérgio Souto e Amaral Maia; pelo Amapá, Enrico di Miceli e Joãozinho Gomes; e por Roraima, Armando de Paula, João Aroma, George Farias e Zeca Preto.

As músicas do álbum são todas cantadas por Célio Cruz, com a participação especial do compositor e cantor cearense Eudes Fraga.

Neste ano, o músico amazonense comemora 25 anos de estrada artística e, de acordo com ele, esse disco "representa também a comemoração da música na minha vida".

Respondem pelos arranjos os compositores e músicos Minni Paulo Medeiros e Humberto Araújo, com o auxílio luxuoso de músicos destacados de Belém do Pará e do Rio de Janeiro, completando a alma e a intenção de brasilidade da música resultante, apesar do bandolim e do violão de sete serem tocados por um argentino: René Rossano. O engenheiro de som também é argentino: Javier Nasceu.

Célio afirma que o álbum Floresta Minha contém músicas bem diferentes do que se ouve nas nossas rádios e mergulha na alma de um Brasil ainda desconhecido, amazônico, mas universal.

"Tom Jobim disse certa vez que 'quem quiser ser universal que fale sobre o seu quintal'; pois é sobre isso que falo neste novo trabalho - sobre o meu quintal". "O pedaço mais verde do Planeta", como disse e escreveu o poeta Thiago de Mello.

"Este CD é uma árvore, um rio, um bicho, vistos de dentro, e confessados para corações abertos, e olhos e ouvidos atentos", diz o músico.

Boca livre em Nova York


Caro amigo,

Gostaria de convidá-lo para a minha primeira exposição individual em Nova York, Time and Color, que será apresentada no Piola (48E, 12th Street ).

O cocktail de abertura será nessa quinta-feira, 19 de novembro, a partir das 18 hs.

Gostaria de dividir com você este momento especial.

Ficarei muito feliz de contar com a sua presença.

Convide seus amigos também!

Um abraço,

Arnaldo Garcez

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

O marco zero do novo Festival de Parintins em três takes básicos

Take 1

Por falta de grana (leia-se patrocínio), até o início dos anos 90 os bumbás de Parintins faziam um único enredo do boi, que era apresentado aos poucos.

No primeiro dia, exibiam 70% do enredo. No segundo dia, 80%. No último dia, 100%.

Ou seja, as tribos, destaques, itens oficiais e alegorias do primeiro dia, salvo pequenas modificações, também entravam na arena no segundo e no terceiro dia.

Era preciso um cuidado extremo durante as apresentações para as fantasias não se danificarem.

No dia 28 de junho de 1991, numa noite de céu estrelado, o bumbá Garantido fez uma apresentação medíocre, abaixo da crítica, e saiu da arena quase vaiado.

O bumbá Caprichoso percebeu a oportunidade de decidir a disputa logo no primeiro dia e entrou no Bumbódromo com força total: as melhores fantasias, as melhores alegorias e as tribos mais bonitas foram convocadas quase às pressas.

Assim que o touro negro iniciou sua evolução, levando a galera azul e branca ao delírio, o pessoal do contrário intuiu que o título tinha ido pras cucuias e começou a deixar o Bumbódromo.

De repente, sem que ninguém esperasse, caiu um aguaceiro infernal pra Noé nenhum botar defeito.

Durante cinqüenta minutos, um temporal diluviano varreu a ilha, provocou queda de energia no Bumbódromo e, literalmente, detonou as alegorias, fantasias, capacetes e cocares das tribos do Caprichoso.

A maioria dos índios ficou só com a pintura de guerra no corpo.

Quando, no meio do temporal, o levantador de toadas, Arlindo Jr., começou a cantar uma pungente toada, que dizia “Nossa Senhora, não molhe mais esse chão”, a galera do Caprichoso começou a chorar copiosamente.

O apresentador do bumbá, Gil Gonçalves, ficou mudo, incapaz de comentar o que estava acontecendo.

A Marujada de Guerra só faltou esfolar as mãos para retirar algum som dos tambores encharcados de água.

Sem energia elétrica na arena, a galera teve que levantar as toadas no gogó.

O título daquele ano, literalmente, tinha ido pro brejo.

A galera do Garantido voltou em peso para a arena, a fim de comemorar a desgraça do contrário.

Para salvar algumas das fantasias para o desfile da noite seguinte, a diretoria do Caprichoso transformou o entorno do Bumbódromo em uma feira de exibições de compressores.

Mas era impossível secar as penas sem destruir ainda mais as fantasias. Foi um tratamento de choque.

O Caprichoso desfilou nas duas noites seguintes apenas para cumprir tabela.

A diretoria do touro negro decidiu, então, que, a partir de 1992, haveria um enredo para cada noite. O Garantido copiou a idéia e o formato se mantém até hoje.

O temporal diluviano que detonou o touro negro virou o marco zero do “big bang”, que deu início à profissionalização do festival.

Take 2

No dia seguinte ao temporal que acabou com o bumbá Caprichoso, o padre Francisco Lupino liga para o prefeito de Parintins, Enéas Gonçalves, irmão do apresentador Gil Gonçalves.

– Enéas, me dê telefone de Gil!...

– Padre, o Gil ainda está muito abalado – explicou o prefeito. “A informação que eu tenho é que ele está sedado na casa dele. O senhor sabe o que aconteceu com o Caprichoso...”

– É sobre isso que eu quero falar! – interrompeu o padre.

O prefeito deu o telefone. O padre ligou para o apresentador.

– Gil, eu estou lhe ligando para que você tome uma providência com a direção do Caprichoso agora e já!

Ainda meio zonzo, o apresentador ficou intrigado:

– Uma providência?... Qual, padre?...

– É ir à comissão julgadora e anular o festival! – avisou Lupino, categórico.

– Porra, padre, o senhor então é um dos nossos?... – vibrou o apresentador.

– Estou lhe dizendo isso em coluna, fique guardado... – observou Lupino, que logo abriu o coração. “Gil, eu estava no Bumbódromo. Seu irmão me deu uma cadeira especial na Tribuna de Honra. E lá estava eu sentado, com meu escapulário na mão, rezando, rezando, quando viu o Caprichoso lindo! Caprichoso lindo! Caprichoso acabando Garantido na arena! De repente, parece que um dilúvio caiu na terra! São Pedro abriu as portas e esse dilúvio caiu! Eu olhava pra baixo, e era pena caindo, pena jogada no chão, Arlindo chorando, Gil, você chorando pro lado, eu fiquei em pé, olhando aquela cena, não me contive. Dei três passinhos pra frente, fechei os olhos e disse: Meu Deus, ninguém gosta mais desse boi do que eu!...”

Torcedor assumido do Caprichoso, o padre Francisco Lupino faleceu na Itália, no início de 2003.

Take 3

Primo do músico George Jucá, o agitador cultural Cacá Ferreira (aka “Cacá do Bar do Boi”) só tinha um sonho de consumo: desfilar no Bumbódromo como tuchaua luxo do boi Caprichoso, ostentando um magnífico capacete (aquele tipo de cocar gigantesco que mais parece uma cangalha).

Cacá ficava simplesmente deslumbrado com a disputa que todo ano eletrizava as galeras e encantava os turistas: os monumentais capacetes de Antonio Faria e Fernando Sérgio, o “Gudu”, do Boi Garantido, contra os não menos monumentais capacetes de Afrânio Gonçalves e Douglas Carmona, do Boi Caprichoso.

O luxo, a criatividade e o glamour de cada um daqueles capacetes daria um nó nas tripas de Evandro de Castro Lima e Clóvis Bornay, se algum dia os dois carnavalescos tivessem assistido a um Festival dos Bumbás de Parintins.

Um belo dia, Zezinho Cardoso, Sérgio Viana e Mercinha Marinho resolveram transformar o sonho de Cacá em realidade.

Eles se cotizaram e contrataram o respeitado artista Edivan Oliveira para construir o mais arrebatador capacete da história de Parintins.

De cara, avisaram ao artesão que dinheiro não seria problema.

Edivan não se fez de rogado. Encomendou 10 mil penas de pavão, 10 mil penas de faisão, 10 mil penas de rabo de galo e 10 mil penas de avestruz, além de dezenas de quilos de strass, paetês, canutilhos, cristais, pedras, luzes, espelhos e miçangas.

Intitulado “O Apogeu das Guerreiras Icamiabas no Lago da Lua”, o capacete tinha quase três metros de altura, pesava cerca de 50 quilos e, simplesmente, contava em detalhes a lenda das guerreiras Amazonas, incluindo a batalha contra os espanhóis de Francisco Orellana na foz do rio Nhamundá. Um luxo só!

Para suportar a cangalha monumental e fazer bonito na arena, Cacá teve que fazer seis meses de musculação na academia Cagin, em Manaus, onde adquriu 10 kg de massa corporal.

Ele desembarcou em Parintins na ponta dos cascos. Seu corpo de Schwarzenegger era uma das atrações do curral do Touro Negro.

Mas o destino é imprevisível. Assim que pisou na arena para acabar de uma vez por todas com a concorrência e inscrever seu nome definitivamente na história do festival, Cacá foi surpreendido pelo dilúvio que se abateu sobre Parintins.

Sim, era a fatídica noite do dia 28 de junho de 1991.

Por volta das 5 da manhã, a maioria dos diretores do Caprichoso estava reunida no Lanche do Falcão para lamber as feridas em virtude da desgraceira ocorrida, quando, de repente, surge Cacá, chorando copiosamente, abraçado a uma pequena sacola plástica da Marcly, que ele apertava febrilmente contra seu coração despedaçado.

– O que foi que aconteceu, Cacá? Cadê o teu capacete? – perguntou Ari Cavalcanti.

Sem dizer uma palavra, Cacá apenas mostrou rapidamente a sacola, e apressou o passo, com o rosto se esvaindo em lágrimas.

Pois é. Dentro da pequena sacola plástica estava tudo aquilo que sobrara do monumental capacete “O Apogeu das Guerreiras Icamiabas no Lago da Lua”: meia dúzia de penas de pavão e alguns paetês.

Foi uma consternação geral.

Cacá Ferreira daria a volta por cima 10 anos depois, quando desfilou no 1º Boi de Rua do Caprichoso, fantasiado de Zeca Xibelão, o maior tuchaua da história do Diamante Negro.

Histórias dos beiradões


Fevereiro de 1985. Eleito pelo PDS, o prefeito Raimundo Sobrinho, de Boa Vista de Ramos, estava tendo dificuldades para “rolar” a dívida do município e pediu ajuda ao deputado estadual Átila Lins, para agendar um encontro dele com o governador Gilberto Mestrinho.

O ajuste fiscal que o boto navegador estava promovendo no estado estava tirando o sono dos alcaides.

Na manhã de uma sexta-feira, o telefone do prefeito tocou. Do outro lado da linha, Àtila Lins:

– Prefeito, estou aqui em Urucurituba. Pega uma voadora e se manda pra cá, que o governador vai lhe receber em audiência.

No início da tarde, Sobrinho chegou a Urucurituba, debaixo de um temporal diluviano. As ruas de barro haviam se transformado em cachoeiras de lama.

Para não sujar a imaculada calça de linho, o prefeito enrolou a bainha da calça até o meio da canela.

Quando o prefeito entrou na sala da Prefeitura, onde o governador estava realizando as audiências, o deputado percebeu que ele ainda estava com as calças enroladas.

Átila Lins se aproximou discretamente do prefeito e sussurrou no seu ouvido:

– Abaixe a calça, prefeito!

Sobrinho levou um susto.

– Já?!! – reagiu. “Eu pensei que a gente pudesse primeiro negociar...”

O deputado teve um trabalho do cão para desfazer o mal entendido.

2

Junho de 1994. Ex-Secretário Estadual de Educação, o deputado federal José Melo (PFL), candidato à reeleição, está fazendo uma reunião com pais, alunos e professores na cidade de Benjamin Constant, em uma das escolas públicas do município. A quadra da escola está completamente lotada.

José Melo começa um discurso inflamado sobre a necessidade de manter nas escolas as crianças entre sete e 14 anos, mas percebendo a indiferença da platéia resolve mudar de tática:

– Aqui vocês têm escola digna do nome? – vocifera

– Não! – a platéia berra, num coro ensurdecedor.

– Aqui vocês têm fardamento decente?

– Não! – a platéia responde, cada vez mais animada.

– Aqui vocês têm merenda escolar?

– Não!

– Aqui vocês têm atividades extra-curriculares?

– Não!

– Aqui vocês têm professores qualificados?

– Não!

Desolado, José Melo encerra seu discurso derrubando o rei:

– Também, quem manda vocês estudarem nessa merda...

Foi o deputado federal mais votado no município.

3

Comício de Amazonino Mendes em Novo Airão. O apresentador oficial do comício, Sambarilove, decora o nome do próximo orador, escrito num pedaço de papel entregue a ele pelo deputado Belarmino Lins.

Sambarilove limpa bem a garganta, enche os pulmões de ar e manda ver:

– E, agora, com vocês, a palavra amiga do nosso grande prefeito Tuuurrrrrrbuuuuliiiino!!!

Uma voz cavernosa nas costas do apresentador, devidamente amplificada pelo microfone aberto, atinge a multidão como uma bofetada:

– Turbulino é a puta que pariu!

O prefeito Antonio Tiburtino queria briga.

Amazonino e Belão quase perderam o fôlego de tanto rir.

4

O prefeito de Eirunepé, Edy Conrado, mandou uma mensagem para a Câmara Municipal criando a Reserva Extrativista de Madeira de Coatá, no rio Gregório, próxima da Área Indígena Igarapé Penedo e Baú. As discussões começaram.

O líder do prefeito, vereador Mundico, elogiou a iniciativa. Depois de tecer loas à visão de estadista do prefeito, ele disparou:

– O que eu posso garantir, senhores vereadores, é que com mais essa medida tomada em boa hora pelo excelentíssimo doutor Edy Conrado, nós vamos garantir que os nossos irmãos que vivem no mato possam usufruir de nossas riquezas vegetais e minerais...

O líder da oposição, vereador Beluzo, pediu um aparte:

– Se é uma reserva extrativista de madeira, nobre colega, me explique como os nossos irmãos vão ter acesso às riquezas minerais...

Sem perder a pose, Mundico deu um corta-luz:

– O nobre vereador Beluzo é mesmo uma besta quadrada, um ignorante. Pois fique sabendo, caro vereador, que lá na reserva o que mais tem é pau-de-ferro, pau-de-chumbo, pau-marfim, pau-terra e outras madeiras de lei. Por isso que falei em riquezas vegetais e minerais...

Beluzo devolveu de trivela:

– Então, sapientíssimo vereador, acrescente no texto do seu prefeito que os nossos irmãos vão usufruir de nossas riquezas vegetais, minerais e fisiológicas...

Mundico ficou irritado:

– Eu não disse? Ele já partiu para a ignorância... Que história é essa de riqueza fisiológica, companheiro?...

Beluzo meteu uma pedalada em direção ao gol:

– É que o nobre colega esqueceu de falar no louro-bosta...

Quase que sai tiro dentro do plenário.

5

Agosto de 1982. Reunidos em torno de uma garrafa de uísque paraguaio, três empresários da construção civil em situação pré-falimentar fazem especulações sobre o futuro político do Amazonas.

– Para governador, eu vou apoiar a candidatura do Josué Filho, do PDS, a pedido do Josué Cláudio de Souza, que é meu amigo há muitos anos – confessa Ézio Ferreira, dono da construtora Solo.

– Eu estou me inclinando a apoiar o Gilberto Mestrinho, do PMDB, a pedido do empresário Adib Mamede, que é meu amigo há muitos anos – diz Amazonino Mendes, dono da construtora Arca.

– Eu ainda não me decidi entre Plínio Coelho, do PTB, ou Osvaldo Coelho, do PT, mas acho que vou acabar apoiando os dois pra matar dois coelhos com uma só cajadada – ironiza Porfírio Almeida, dono da construtora Rodal.

Os três firmam um pacto de cavalheiros. Fosse quem fosse o eleito, aquele que estivesse ao lado do vencedor evitaria que os demais fossem discriminados nas licitações de obras públicas do governo.

Na eleição de novembro, Gilberto Mestrinho derrota Josué Filho e conquista o governo do Amazonas pela segunda vez.

Em dezembro, o empresário Ézio Ferreira telefona para Porfírio Almeida, sem esconder a euforia:

– Mano velho, nem te conto a maior! O Adib Mamede e o João Thomé Mestrinho estão trabalhando duro nos bastidores para o Amazonino ser o novo prefeito da cidade!

– Ah, corta essa, Ézio! – rebate Porfírio. “É mais fácil um boi voar do que o governador Gilberto Mestrinho nomear o Amazonino prefeito de Manaus... Eles mal se conhecem...”

No início de março de 83, Ézio dispara um novo telefonema para Porfírio:

– Mano velho, tu não vais acreditar... O boi voou!

Gilberto Mestrinho acabara de sacramentar a nomeação de Amazonino Mendes para prefeito de Manaus, dando início a uma das mais vertiginosas carreiras políticas da história do Amazonas.

Lançamento do livro “Uma tela na parede”, de Renato Augusto Farias de Carvalho


A Livraria Valer e a Editoração têm a satisfação de convidá-lo(a) para o lançamento do livro “Uma tela na parede”, de Renato Augusto Farias de Carvalho.

O evento acontecerá no dia 21 (sábado), às 10h, na Livraria Valer, situada na Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro.

Irmão do poeta Carlos Farias de Carvalho, integrante do Movimento Madrugada, Renato viveu parte da sua juventude em Manaus.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde formou-se em Letras e construiu a sua carreira literária em Niterói, onde vive há 30 anos.

As palavras grafadas por ele neste romance fluem por um ideário semelhante ao proposto por Octavio Paz em relação ao poema simbolista e ao quadro cubista – "o visível revela o invisível".

Desde as primeiras linhas as palavras visíveis vão desenhando um invisível mundo de grande sensibilidade: as confissões feitas ao sabor das águas do velho Rio Amazonas, os igarapés de Manaus e personagens verdadeiramente insólitos – Dona Myrtes, Tenâncio, Maria Helena da Chapada e tantos outros – não compõem apenas uma história, mas, ao reverso, dão cor à imaginação, pintando-a com tintas literárias, filosóficas, sociológicas, históricas, geográficas, todas com engenho e arte.

O leitor embarca literalmente num sem-número de viagens – ao Rio de Janeiro, a Lisboa, Berlim, Roma e a muitos universos interiores. Um ir e vir com instantes fantásticos, ao embalo de poemas de Cora Coralina, além de um pouso numa casa mística em Niterói.

Dentro desse tom, Renato Augusto, até nas entrelinhas, vai dizendo para o leitor: "Nossos personagens 'vivem' onde moram as imagens mais íntimas, resguardadas por uma benevolente estrutura gravada no sólido eu-mesmo de cada um. De repente, a gente tropeça. Um chão se anula. E os personagens se extinguem nas fendas".

Fendas de onde saem, ou entram, vidas e vidas que, por instantes, aspiram à felicidade. Vivos e mortos, seres eternizados, numa tela na parede.

Imagens em palavras, palavras em imagens, telas dinâmicas em narrativas que permanecem quando se chega ao colorido verbo do final do livro. Uma tela na parede merece destacado lugar na galeria dos grandes romances.


Sobre o autor


Renato Augusto Farias de Carvalho nasceu em Manaus, no dia 30 de junho de 1935. Em sua terra natal, estudou no Colégio Salesiano Dom Bosco.

Na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para onde se mudou em janeiro de 1952, continuou seus estudos no Colégio Andrews, tendo participado do Grêmio Acadêmico, que ajudou a fundar.

No início de 1978, passou a residir em Niterói (RJ). Graduou-se em Letras (Língua e Literatura – Português/ Francês) na então Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós-graduou-se em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas.

Exerceu diversas funções e cargos na Previdência Social (Direção Geral – RJ), aposentado-se em 1989.

Ocupante da cadeira nº 6 da Academia Niteroiense de Letras, também é membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras e da Associação Niteroiense de Escritores.

Publicou os seguintes livros: Porto de Ocasos (ficção/ memórias. 1998. Editora Cromos), Poesia-do-que-eu-quis (poemas. 2002. Editora Cromos) e Vinho e Verso (poemas. 2005. Ed. Valer).

Entre as diversas medalhas já recebidas, destacam-se a José Cândido de Carvalho (conferida pela Câmara Municipal de Niterói) e a do Mérito Cultural Belas Artes (conferida pala Associação Fluminense de Belas Artes).

Participou, como entrevistado, do projeto “Personalidades de Niterói”, iniciativa da Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB/Niterói.

Autor dos enredos carnavalescos “Jorge Amado – do País do Carnaval à Tieta do Agreste” (1978) e “E agora malandro? – Você ganhou a loteria!” (1979), desenvolvidos para Escolas de Samba de Niterói, e de monografia sobre o Clube da Madrugada (movimento cultural de escritores amazonenses nos anos 1950).

Das muitas palestras proferidas, destacam-se: “Teatros do Brasil” (participação de Beatriz Chacon e Thuany Feu de Carvalho), “Fagundes Varela”, “Cora Coralina e Manoel de Barros (participação de Gracinda Rosa e Lena Jesus Ponte), “Xavier Placer, 50 anos de literatura”, “Adelino Magalhães, e o pré-modernismo”, “Cora Coralina e Florbela Espanca, um encontro tão possível”, “Articulação poética aproximando Luiz Barcellar e Jorge Tufic” e “Lindalva Cruz e suas composições amazônicas”.

É autor de contos e crônicas publicados em jornais e revistas e de alguns prefácios. Possui diversos textos em antologias.


Evento: Lançamento de livro
Livro: Uma tela na parede
Autor: Renato Augusto Farias de Carvalho
Data: 21 de novembro de 2009
Horário: 10h
Promoção: Livraria Valer
Local: Livraria Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro.
Quanto: Entrada franca
Contatos: Valer – 3635-1324

Terça-feira, Novembro 17, 2009

A princesa mulata de fechar o trânsito


Em homenagem à semana da Consciência Negra, vou relembrar um causo de bamba ocorrido em meados dos anos 90 e protagonizado pelo saudoso Luizinho Sá, que hoje comanda animadas rodas de pagode no Paraíso. Tenho (temos) saudades.

Ex-presidente do GRES Reino Unido da Liberdade, o sambista Luizinho Sá havia sido nomeado diretor de Relações Publicas da Associação do Grupo Especial de Escolas de Samba de Manaus (Ageesma) quando recebeu uma incumbência inusitada: ficar como cicerone de Priscila Pantera, uma mulata de quatrocentos talheres que havia sido eleita 1ª Princesa do Carnaval.

Cabia a ele levar a mocinha para os programas de rádio e televisão, entrevistas em jornais, aparições públicas em bandas carnavalescas, visitações nos camarotes vips dos bailes de carnaval e por aí afora.

Além de bonita, a mulata tinha um corpo estilo violão (os avantajados músculos glúteos eram um convite obsceno a luxúrias inconfessáveis) e – pecados dos pecados! – sua voz era rouquenha, dengosa, meio infantil, como se a mocinha estivesse sempre à beira de um orgasmo espetacular.

A princesinha de dezoito anos ficou logo amiga do sambista e o relacionamento deles era como se tivessem sidos amigos desde o jardim de infância.

Luizinho era uma espécie de Personal Trainer da princesa para assuntos de moda, maquiagem e outras bobagens do gênero.

Determinado dia, Luizinho foi apanhar a menina em casa para mais uma de suas (dela) badalações usuais e resolveu levar junto a esposa, Tetê, com outras duas amigas.

Mal a princesinha entrou no carro, toda emperiquitada, já começou a retocar o batom nos lábios carnudos, se olhando num pequeno espelho.

Enquanto guardava as tranqueiras na bolsa, caprichou na voz dengosa e sensual e disparou:

- Lulu, você acha que aquele biquíni douradinho está muito indecente? Se você quiser, eu troco por aquele prateado com apliquinhos de strass...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê se mexeu esquisita na cadeira ao lado do marido.

Cinco minutos depois, a princesa caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual e disparou:

- Lulu, aquela sandalinha prateada machucou o meu pezinho. Ele está cheio de calinho, depois te mostro. Dói que só, Lulu, dói que só...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê deu uma tossida esquisita e começou a se abanar com um leque, apesar do ar-condicionado do carro estar ligado.

Cinco minutos depois, a princesinha caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual, e aí, quase gemendo, disparou:

- Lulu, será que dava pra gente aumentar um pouco a abertura daquela tiara? Sabe, Lulu, ela está muito apertada e minha cabecinha está doendo, doendo...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê começou a procurar no porta-luvas do carro pelo vidro de Lexotan.

Cinco minutos depois, a princesinha caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual, e aí, como se estivesse arfando perigosamente à beira de um orgasmo múltiplo, gemeu num arrulho rouco:

- Lulu...

Ela nem conseguiu completar a frase.

Virando-se para o banco de trás, Tetê se ajoelhou sobre o assento dianteiro e liberou todo o ódio acumulado:

- Lulu é minha buceta, caralho! Vai foder pica, sua puta sirigaita! O nome do meu marido é Luizinho, vagabunda! Lulu é a puta que te pariu!

Antes que Tetê tirasse o sapato de salto agulha e fizesse um estrago na cabeça da princesinha, Luizinho estacionou o carro, tirou a mulata sestrosa de dentro do veículo, parou um táxi e despachou a menina para um lugar incerto e não sabido.

O sambista ficou três meses sem colocar os pés na Ageesma. A querida Tetê não dava ponto sem nó.

Rasputin: louco e superdotado


por Adriana Küchler

De onde vinha o poder de Rasputin, o camponês místico e analfabeto que mandava e desmandava na Rússia do czar Nicolau II entre 1905 e 1916?

Desde abril de 2004, o primeiro Museu Erótico da Rússia exibe, como atração principal, uma das possíveis chaves desse mistério: o pênis de 28,5 centímetros do monge.

“Com ele, paramos de invejar os Estados Unidos, que guarda o órgão de Napoleão Bonaparte”, disse ao jornal Pravda Igor Knyazkin, diretor do museu, que comprou a relíquia por 8 mil dólares. “O membro de Napoleão parece uma vagem perto do nosso.”

Entre os pênis que entraram para a história, o de Rasputin é um dos que mais causaram estrago. Enquanto Napoleão tinha fama de impotente, o monge russo arrasava (apesar da longa barba e do tipão Antônio Conselheiro).


Adepto da seita khlysty, que pregava o pecado como melhor forma de redenção, ele ganhou a confiança do czar Nicolau e da czarina Alexandra ao apresentar seus dotes de curandeiro. Quando o místico estava por perto, o pequeno príncipe Aleksey melhorava da hemofilia.

Com livre circulação pela corte, o monge passou a seduzir atrizes, mulheres de soldados e damas da sociedade – os nobres ofereciam suas mulheres em troca de favores. Suspeita-se até que, enquanto Nicolau II liderava batalhas da Primeira Guerra, a própria czarina Alexandra – neta da rainha Vitória, da Inglaterra – tenha caído em suas mãos.

Mas, em uma noite de dezembro de 1916, seu desejo por mulheres o trairia. Rasputin foi convidado pelo príncipe Felix a conhecer sua mulher Irina, a bela sobrinha do czar, e caiu numa armadilha. Foi envenenado, esfaqueado e jogado nas águas geladas do rio Neva. Seu pênis foi cortado e guardado por um serviçal.

“Ainda hoje, acredita-se que ajude a curar a impotência”, diz o diretor do museu, Igor Knyazkin.

A história do pervertido

A trajetória de Grigori Yefimovich Novykhn tem início na década de 1860. Mas há muitas incertezas em relação ao seu nascimento. Especula-se que tenha sido em 23 de janeiro de 1864, na pequena aldeia de Pokrovskoe, Sibéria. Outras fontes afirmam que o ano de seu nascimento está entre 1869 e 1872.

Pobre e parcialmente alfabetizado, o jovem Grigori atravessou sua infância e adolescência na região natal. Provavelmente, ajudando ao pai camponês nas tarefas diárias, e divertindo-se com mulheres, vodka e envolvendo-se em brigas com vizinhos. Por este motivo, logo ganhou o apelido de Rasputinik (Rasputin - equivalente à Pervertido).


Por outro lado, sua terra natal era de religiosidade e misticismo muito intensos. Principalmente porque ali próximo estavam depositados, numa igreja, os restos mortais de São Simão.

O jovem Rasputin cresceu influenciado por esta atmosfera. Conta-se que, em sua juventude, já dava alguns sinais de possuir uma percepção especial, ou capacidade de predizer fatos futuros.

Certa vez, um político chamado Stolypin passava de carruagem por uma estrada. O jovem Rasputin, que passava ao lado, acenou e gritou ao viajante: "A morte é para você. A morte está se aproximando!". Incrivelmente, no dia seguinte, o político foi ferido por balas e morreu dias depois.

Aos 18 anos, Rasputin teve um encontro com o bispo de Barnaull, o qual reforça-lhe a tendência mística.


Casado com Praskovia, Rasputin teve um filho e duas filhas. Sempre em meio a uma atmosfera de mistérios, um dia Rasputin vê uma santa, que ele diz ser a Virgem Maria.

Depois do ocorrido, Rasputin é aconselhado por um homem místico, chamado Makaria, a fazer uma peregrinação ao monte Atos, na Grécia. Rasputin permaneceu em peregrinação durante dois anos.

Voltando a sua terra natal, Rasputin é recebido de braços abertos pelo bispo Theophan, que lhe abre várias portas.

Em 1902, Rasputin desloca-se para a cidade de São Petersburgo e Kazan, onde agregou alguns discípulos e criou um grupo místico denominado Polite Society, baseado nos princípios da Khlysty.

Sua imagem de camponês simples e sem ambição foi significativa para que conquistasse confiança e simpatia junto aos moradores da região. A influência que a Polite Society exercia e o poder de persuasão de Rasputin, amenizavam a fama que seu envolvimento com prostitutas e bebidas lhe atribuía.

Nesse mesmo momento, as autoridades clericais da Rússia procuravam por um líder que transitasse entre a alta classe da sociedade, a nobreza e as classes inferiores, e pudesse reunir todas elas sob a influência da Igreja. Rasputin trazia todas essas características.

Mas sua fama junto aos czares teve início em 1915, quando Anya Vyrubova, amiga próxima da czarina Alexandra Fedorovna, entrou em coma após ferir-se gravemente quando o trem em que viajava descarrilou.

Ana Vyrubova teve as pernas esmagadas e o crânio fraturado, após um acidente ferroviário. Os médicos já não viam chances da moça sobreviver, até que Rasputin chegou ao local e próximo da moça disse: "Anushka, abra os olhos". No mesmo momento ela os abre, e ele diz: "Ela irá viver, mas ficará aleijada".


Mesmo sendo um homem adorado por muitos, Rasputin também tinha os seus inimigos, os quais diziam que o místico se dedicava na maior parte do tempo a participar de orgias infernais.

Um de seus inimigos era o Monge Iliodor, que um dia mandou uma mulher até a casa de Rasputin o esfaquear. Rasputin foi esfaqueado no estomago, mas assim mesmo sobreviveu.

A despótica e mágica força de Rasputin devia-se, inegavelmente, a sua tremenda potência sexual. O czar e a czarina ajoelhavam-se diante dele. Acreditavam ver naquele monge fatal um santo vivente.

É óbvio que Rasputin encontrou o ânimo dos czares muito disposto, graças ao mago francês Papus (Dr. Encause), médico de cabeceira dos soberanos.

Sempre que o príncipe Aleksey sofria de uma crise hemofílica, Raspuntin era chamado, colocava-lhe a mão sobre a testa, rezava umas orações e a crise passava.

Para evitar a angústia da czarina Alexandra que temia pela vida do filho, Rasputin foi convidado a viver no palácio imperial. Deu no que deu.


A família imperial Romanov

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Se segura, malandro!


A festa estava toda pronta no Maracanã, mas o América-RN veio para estragá-la. E até conseguiu ao fazer 1 a 0, ainda no primeiro tempo.

Porém, mesmo perdendo pênalti (com Elton), o Vasco virou, fez 2 a 1, e, de forma antecipada, conquistou o título da Série B do Campeonato Brasileiro, na noite desta sexta-feira, pela 36ª rodada da competição.

A última conquista do Cruzmaltino tinha sido o Estadual de 2003.

Leia abaixo os relatos emocionados de quatro torcedores do Vasco que dividem seu tempo entre shows e ensaios. E frequentes idas ao Maracanã e ao estádio de São Januário.

Erasmo Carlos, cantor

"Sofri, é claro, quando caiu. Mas o sentimento não pode parar. Nunca parou e jamais vai parar. Estou acompanhando e torcendo para caramba. Nos últimos 20 anos, perdi uns dez jogos. Não tenho dúvidas que vai voltar e tem a obrigação de ser campeão. Perdi meus quatro netos para o Flamengo por culpa das péssimas campanhas do Vasco nos últimos tempos. Não quero discutir o passado, o que importa é daqui para frente. Não quero estar na Segunda Divisão, quero estar entre Real, Barcelona, Manchester".

Teresa Cristina, cantora

"Logo que caiu, foi bem difícil. Como vascaína e carioca, ver um time do Rio descer é sempre muito triste. Mas o Vasco, assim como o Corinthians, se revigorou. Fez um caminho digno de um herói grego. Para expulsar Eurico Miranda, era necessário começar do zero. A era Eurico é algo do passado. Precisamos reencontrar o amor dentro da gente. Deu uma sacudida no brio das pessoas. Hoje, a torcida é mais consciente, lota o Maracanã. Tenho certeza que de 2010 em diante surge um outro Vasco da Gama. Não há mais Eurico e aquele astral pesado. Não perco um jogo do Vasco, mesmo com minha filha de sete meses. Roberto Dinamite soube se cercar das pessoas certas".

Guinga, músico

"Essa queda do Vasco foi uma coisa pavorosa. O terror que eu senti da iminência da queda foi uma tortura, o pior momento que passei como torcedor do Vasco. O time precisava se reerguer. O Eurico fez muito bem ao clube, mas depois passou a ser uma má influência. Roberto Dinamite não enchia meus olhos como presidente, mas ele tem estrela. Dorival Júnior foi garimpando daqui e dali, é um cara batalhador. Ser campeão da segunda divisão não é um título dos mais honrrosos. Mas pode ser um divisor de águas da história do Vasco. O lugar da torcida do Vasco é este. Tem que manter o Carlos Alberto e contratar mais uns dois craques. Há vários surgindo, como Phillipe Coutinho, Souza, Alex Teixeira... Tem que privilegiar as categorias de base".

Francis Hime, músico

"Sou vascaíno desde 1948, um torcedor apaixonado. Choro quando o Vasco perde, e pulo de alegria quando ele ganha. Nos últimos tempos, tenho pulado mais que chorado... Que bom! Acho que a maior conquista vascaína, este ano, foi a de resgatar o amor de sua torcida. Saudações vascaínas".

O dia em que o Dr. Marinho botou um ovo


Edlúcio Castro abatendo uma loura em um boteco de Sampa

Dezembro de 1993. Ainda saboreando o estrondoso sucesso do primeiro programa interativo da tevê brasileira (“Você Decide!”, então em sua segunda temporada), a rede Globo de Televisão resolveu apresentar o episódio nº 30 (“Ídolo Perdido”) diretamente de Manaus. O circo foi armado na Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas.

Sobrinho do jornalista Mário Adolfo, na época secretário municipal de Comunicação, o hoje publicitário Edlúcio Castro, na flor de seus 20 anos, estava dando os primeiros passos na profissão e trabalhava na Oana Publicidade, como responsável pela TV Fiscal da agência.

Enfurnado em um cubículo no porão da agência, seu trabalho era passar o dia assistindo, gravando e identificando todos os programas televisivos da taba para documentar os crimes de calúnia, difamação e injúrias cometidos diariamente contra o recém-eleito prefeito de Manaus Amazonino Mendes – na época, quase um modismo institucionalizado entre os intrépidos apresentadores locais.

No começo da noite daquela quinta-feira, dia em que o programa “Você Decide!” era exibido, Edlúcio estava copiando pra mim uma fita VHS do clássico filme “Behind The Green Door”, com a esfuziante Marylin Chambers (ela parecia com a Cybil Sheppard, a “gata” do seriado A Gata e o Rato… Se você tem menos de 25 anos, morra!), quando sua concentração no pardieiro foi rudemente interrompida.

Repórteres especiais da Secretaria Municipal de Comunicação, Marcelo Dutra (atual secretário municipal do Meio Ambiente) e Joh Farah (atual presidente da ONG Associação Mata Viva), que na época engordavam seus magros salários realizando algum “jabaculê” para os políticos da base aliada do prefeito, ficaram invocados em ver que Edlúcio ainda estava trabalhando na agência – o que, tecnicamente, os impediria de preparar o jabá com cebolas tradicional.

– Bicho, negócio seguinte: amanhã cedo eu vou falar pro Edson Gil que você fica aqui até tarde da noite, gastando as fitas da agência! – disparou Marcelo Dutra, sem disfarçar a irritação.

Edlúcio, que sempre foi um moleque abusado, devolveu no mesmo tom.

– Rapaz, você pode falar o que quiser até pro caralho! Eu estou aqui finalizando uma fita em que o Nonato Oliveira chama o Amazonino de ladrão, contrabandista e passador de cheques sem fundos! E só estou perdendo tempo até agora porque tenho o maior respeito pelo prefeito... Eu já devia estar na praça São Sebastião participando do “Você Decide!” para ganhar o carro importado da rádio Transamérica...

Percebendo que o jabá com cebolas poderia se transformar em uma paella valenciana, os dois repórteres ficaram vivamente interessados pelo assunto. Edlúcio explicou do que se tratava.

De acordo com a rádio, a maior presepada feita em nível nacional utilizando o bordão “Eu sou louco pela Transamérica!” daria ao autor da façanha um carro importado, avaliado em 50 mil dólares.

Edlúcio também explicou que não seria uma tarefa fácil. Um sujeito já havia desfilado pela avenida Atlântica, em Copacabana, com a mulher totalmente pelada e apenas tendo o logotipo da rádio Transamérica pintado sobre a xereca. Quase parou o trânsito.

Um outro havia descido de pára-quedas na final do campeonato paulista, entre Palmeiras e São Paulo, no estádio do Morumbi, interrompendo a partida e exibindo no pára-quedas o logotipo da rádio Transamérica. Quase que as arquibancadas se transformavam em palco de uma batalha campal.

Pelo regulamento da promoção, as presepadas deveriam ser filmadas (ainda não existia essa moleza de celular com filmadora) e enviadas para o estúdio da rádio, em São Paulo. Uma comissão de notáveis escolheria o maior golpe de marketing.

Na maior cara de pau que só um moleque de 20 anos pode ter, Edlúcio explicou que estava programando os equipamentos da agência para filmarem sua participação no “Você Decide!”, declarando seu amor pela emissora. Ninguém nunca tinha tentado aquilo antes.

Com a menina dos olhos quase se transformando em cifrões, Marcelo Dutra e Joh Farah compraram instantaneamente a idéia do jovem publicitário:

– E que merda você ainda está fazendo aqui na Oana? Vamos lá pra praça, porra, que nós já estamos atrasados! – intimou Marcelo Dutra.

Os três embarcaram no carro do Joh Farah e se mandaram.

Como havia uma multidão no entorno da praça de São Sebastião, Joh Farah resolveu estacionar o carro na avenida Eduardo Ribeiro, em frente ao Ideal Clube, e no cruzamento da Monsenhor Coutinho com a Tapajós, avisou pro Ed:

– Desce do carro e te manda, porra! Daqui a pouco, a gente se encontra lá no local do crime...

Boa pinta, ao ponto de ser confundido com os artistas da rede Globo, Edlúcio saiu abrindo caminho entre a multidão, distribuindo beijinhos, autógrafos, apertos de mão e abraços, até se aproximar do cercadinho de corda que separava os pagantes (os futuros entrevistados) dos pipocas (a imensa turba de mortais comuns) naquele bloco carnavalesco da Vênus Platinada.

Sem se perturbar, ele levantou a corda, passou para dentro da área vip e saiu caminhando tranquilamente em direção ao que, supostamente, seriam as pessoas escolhidas pelo programa para darem suas opiniões ao vivo.

Uma bichinha de cabelos compridos e cavanhaque (provavelmente o produtor do programa), portando uma prancheta em que anotava coisas indecifráveis, se aproximou do intruso, irritadíssima, e disparou:

– Que merda você está fazendo aqui dentro, ô palhaço?

Imperturbável como sempre, Edlúcio colocou uma das mãos sobre o ombro da bichinha e, na maior calma do mundo, disparou:

– Quem me mandou vir pra cá foi aquele cidadão ali. Vai lá e conversa com ele...

E apontou para o empresário Philipe Daou, dono da TV Amazonas, responsável pela transmissão da rede Globo em Manaus, que, alheio a tudo, conversava animadamente com a jornalista Elaine Ramos.

A bichinha quase infartou.

Aí, se recompondo, posicionou Edlúcio ao lado do empresário Zeca Nascimento, que já havia sido pautado para dar sua opinião. O aprendiz de publicitário sentiu que estava na fita.

A trama do episódio “Ídolo Perdido” era de uma bovinice atroz. Um ídolo juvenil (Fábio Jr.), em excursão pelo interior do país, sofre um acidente de carro. Ele é encontrado por uma fã (Silvia Buarque), que o trata com carinho. Ele não sabe quem é. Ela sabe.

A questão era a seguinte: Silvia Buarque deveria contar a Fábio Jr. quem ele era antes do acidente ou era preferível ela ficar calada e dar continuidade ao romance entre os dois, já que ele estava enormemente satisfeito com a nova vida.


As apresentadoras Maria João e Virginia Novik

Responsável pelas entrevistas, a apresentadora Virginia Novik começou a passar o texto com os escolhidos. Pros machos, a pergunta era a seguinte: “E se em vez do Fábio Jr. fosse a Vera Fischer?”

Empolgado com a resposta sugerida pela apresentadora, Edlúcio resolveu embolar o meio campo:

– Eu vou dizer que não contaria nada pra Vera Fischer, pra ficar com ela pro resto da vida, mas também diria que preferia ficar com você, Virginia Novik, porque você é uma tremenda gata!

Virginia Novik não gostou da resposta improvisada e vetou a participação daquele cabeludo meio abusado, exigindo mais respeito.

Imprensados no meio dos pipocas, Marcelo Dutra e Joh Farah perceberam o que havia acontecido e começaram a sinalizar pro Edlúcio naquele código universal do “top top”, certos de que ele tinha se fodido.

Edlúcio ficou na dele.

Estava se aproximando o último bloco. Quando a apresentadora Virginia Novik se aproximou de Zeca Nascimento para repassar o texto pela milésima vez, Edlúcio comentou em voz alta:

– Com trinta mulheres pra cada homem aqui em Manaus, duvido que elas não ficassem com o Fábio Jr. sem contar nada do seu passado.... Ele, também, se viesse aqui, não ia nem querer ser descoberto... As amazonenses são loucas por ele...

Ouvindo aquilo, Virginia Novik se aproximou do aprendiz de feiticeiro:

– Você consegue repetir isso sem gaguejar? – indagou a apresentadora.

– Na hora! – devolveu Edlúcio.

No último bloco, Virginia Novik fez a pergunta combinada pra Zeca Nascimento, ele respondeu do jeito combinado.

Satisfeita, ela se aproximou do Edlúcio e fez a mesma pergunta.

O cabeludo não negou fogo e, falando para todo o Brasil (o programa atingia 63% de audiência), mandou ver:

– Com trinta mulheres pra cada homem aqui em Manaus, duvido que elas não ficassem com o Fábio Jr. sem contar nada do seu passado.... Ele, também, se viesse aqui, não ia nem querer ser descoberto... As amazonenses são loucas por ele... Mas eu sou louco mesmo é pela Transamérica!

Como o áudio ambiente era cortado (as pessoas em casa só ouviam a voz da apresentadora e a do sujeito que dava a resposta), a turba rude e ignara não notou o que havia acontecido porque o barulho na praça era realmente ensurdecedor.

Mas Edlúcio percebeu o tamanho da encrenca quando viu Virginia Novik puxar os cabelos e se jogar no chão, ganindo como um cachorro atropelado por um caminhão de mudanças.

A bichinha produtora entrou em surto psicótico:

– Prende esse filho da puta, prende esse filho da puta! – determinou para um meganha, que fazia a segurança do cercadinho de corda..

O sujeito explicou que não poderia deixar o posto.

Enlouquecida, a bichinha produtora saiu em busca do comandante da PM, coronel Lemos, e explicou a situação. Uns seis meganhas agarraram Edlúcio.

Imperturbável como sempre, Edlúcio colocou uma das mãos sobre o ombro do coronel e, na maior calma do mundo, disparou:

– Coronel, eu apenas dei a minha opinião... Eles me pediram para falar e eu falei... Foi apenas isso!

Edlúcio foi liberado pelos meganhas. Na mesma hora, Marcelo Dutra e Joh Farah entraram no cercadinho para resgatar o intrépido soldado bryan.

Como estavam posicionados próximos do carro de transmissão, eles ouviram quando o temperamental José Bonifácio Sobrinho, diretor geral da rede Globo, demitira a bichinha produtora do programa sob uma saraivada de palavrões.

– Te manda lá pro Ideal e fica dentro do carro, que isso aqui vai feder a chifre de boi queimado! – determinou Joh Farah, entregando a chave do carro pra Edlúcio.

Demitida via Embratel pelo todo-poderoso Boni, a bichinha produtora já havia jogado a prancheta na direção da cabeça de Edlúcio e agora estava procurando um trinta e oito com balas dum-dum para descarregar no meio da cara daquele cabeludo abusado.

Com o coração quase saindo pela boca, Edlúcio saiu correndo em direção à avenida Eduardo Ribeiro, atropelando todo mundo, desesperado como um vampiro diante de uma réstia de alho.

A apresentadora Virginia Novik, soltando faíscas pelos olhos, começou a incentivar os presentes a darem uma surra naquele sujeito impertinente que havia transformado Manaus na capital nacional da infâmia.

A praça de São Sebastião estava prestes a se transformar em uma praça de guerra.

Dentro do carro, mais nervoso do que nunca, Edlúcio sintonizou a rádio Jovem Pan.

No mesmo instante, um locutor interrompeu a música “Rhythm is a dancer”, do Snap!, para dar uma informação:

– Porra, moçada, um boyzinho lá de Manaus acabou de fazer o doutor Roberto Marinho botar um ovo... No bloco final do programa “Você Decide!”, o cara meteu lá que é louco pela Transamérica, pra todo o Brasil escutar... Ô lôko, meu!... Nunca mais a Globo vai fazer programa ao vivo em Manaus... Isso, se o doutor Roberto Marinho sobreviver a essa tiração de onda sem precedentes... Que muitas cabeças vão rolar na emissora do Dr. Marinho, não há a menor dúvida.... Aliás, se a Transamérica precisasse fazer um comercial desses, no mesmo programa, em nível nacional, ia gastar uns 10 milhões de dólares.... Ô lôko, meu!... O boyzinho é da pesada!

Edlúcio começou a achar que havia se fodido. Quando Marcelo Dutra e Joh Farah entraram no carro, seu “achismo” se transformou em certeza absoluta.

– Porra, bicho, o pessoal da TV Amazonas está uma arara. Os caras estão putos da vida e brabos que nem siri em lata! E eles são os principais parceiros do prefeito Amazonino Mendes. Não sei não, mas acho que só vai dar pro teu! – avaliou Marcelo Dutra.


Eu e a publicitária Liduina Mendes enchendo a lata em um boteco de Coari

No dia seguinte, no refeitório da Oana, Edlúcio começou a ser tratado como um cão leproso. Ficou sentado sozinho em uma mesa.

Redatora premiada e uma das mais talentosas escritoras da cidade, a publicitária Liduina Mendes se sentou à sua mesa e disparou:

– Porra, moleque, você ontem botou lascando! Foi o melhor golpe publicitário que já vi na minha vida... Parabéns!

Edlúcio, meio constrangido, limitou-se a rir amarelo.

Dez minutos depois, Edson Sena, o encarregado de mídia da agência, sentou-se à mesa:

– Ed, bicho, você é um grande filho da puta! Sacaneou com a TV Amazonas, nossa principal parceira... Fez uma desfeita daquela em nível nacional... Já pedi a tua cabeça pro Edmar Costa... Você só faz merda...

Edlúcio, meio constrangido, limitou-se a rir amarelo.

Liduina saiu em defesa do moleque:

– Escuta aqui, bicho, você trabalha com mídia, mas não deve entender porra nenhuma de publicidade... O que o Ed fez ontem foi um escândalo, foi um escândalo!... Ele colocou o nome da Transamérica na casa de 80 milhões de pessoas... Foi um golpe de marketing incrível...

Irritadíssimo, Edson Sena se levantou da mesa e foi degustar seu café da manhã em outro canto.

Edlúcio, meio constrangido, limitou-se a rir amarelo e, algum tempo depois, já estava encafifado no seu mocó.

De repente, chega a secretária do Edson Gil, um dos diretores da agência, informando que ele exigia a presença de Edlúcio na sua sala.

Nervosíssimo e acreditando piamente que iria receber sua carta de demissão, Edlúcio entra na sala:

– Pois não, doutor Edson!

– Ed, esse aqui é o doutor fulano de tal, presidente do Açúcar Itamarati, e esse aqui é o doutor sicrano de tal, presidente da indústria de Brinquedos Estrela! – avisou Edson Gil.

Aí, se virando para os dois senhores, mais pimpão do que nunca, arrematou:

– Pessoal, esse aí é que é o nosso funcionário Edlúcio Castro, que ontem à noite aplicou um belo golpe de marketing na poderosa rede Globo. Ok, Ed, pode ir embora!

Edlúcio saiu da sala achando que seu emprego estava salvo. Dessa vez, acertou na mosca – tanto que permaneceu na agência até dezembro de 1995, quando partiu em busca de novos horizontes.

Infelizmente, ele não ganhou o carro. O DJ Raidi Rebelo, responsável pela emissora em Manaus, demorou para enviar a fita VHS para a matriz em São Paulo e, quando sua façanha chegou, as inscrições já haviam sido encerradas.

O carro importado foi dado para uma banda de rock que excursionava pelo país com todos os instrumentos pintados com o logotipo da emissora, incluindo o ônibus que transportava os músicos.

Ninguém se lembra mais do nome da banda, mas quem assistiu ao episódio “Ídolo Perdido” nunca mais vai esquecer a presepada do Edlúcio Castro. Você decide...

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Chico da Silva em cinco tempos


Chico da Silva mostrando uma nova toada para o advogado Tagore Arruda

1
Amigo há várias décadas do empresário Murilo Rayol, Chico da Silva telefonou para ele, para contar uma novidade:

– Murilinho? Aqui é o Chico da Silva. Quero te apresentar um amigo meu, compositor, músico e dramaturgo, que acabou de chegar de uma excursão na Europa. É o meu compadre Pedrinho Ribeiro, um dos canários de Parintins. O cara é pedra noventa, compadre!

Murilo Rayol convidou os dois músicos para irem à sua casa, onde estava rolando uma sessão de comes e bebes.

Na casa do empresário, feitas as apresentações de praxe, Chico da Silva e Pedrinho Ribeiro começaram a encher a cara, já que Murilinho é pródigo em tratar bem seus comensais.

Lá pelas tantas, Murilinho se aproximou da dupla, acompanhado de um rapaz portando um violão, e avisou:

– Olha, Chico da Silva, esse aqui é um amigo meu de muito talento, que está começando sua carreira como cantor e compositor de toadas. O nome dele é Carlinhos do Boi.

Chico da Silva cumprimentou o sujeito e este foi logo vendendo seu peixe:

– Sabe, Chico, eu estou com uma toada nova, mas ainda não terminei ela toda, está faltando burilar um pouco. De repente, a gente poderia fazer uma parceria e concluir esse trabalho, que, tenho certeza, vai fazer muito sucesso. O que qui você acha?

Chico da Silva tomou uma dose de uísque, encheu o copo novamente, olhou para o cantor iniciante, que continuava em pé, e mandou ver:

– Toca ela aí...

Carlinhos do Boi puxou uma cadeira, sentou-se de frente para o músico, dedilhou os acordes iniciais e começou a tocar uma música bem animada.

Chico meteu a mão nas cordas do violão, interrompendo a cantoria:

– Pode parar, pode parar! Isso não é toada, meu irmão!... Isso é rock’n roll!... – detonou.

Carlinhos do Boi se levantou e foi embora, puto da vida. A parceria terminou antes mesmo de começar.

2
O radialista Jurandir Vieira estava entrevistando o compositor Chico da Silva em seu programa na rádio Difusora e iniciou a rasgação de seda:

– Esse aqui todo mundo conhece. Além de meu amigo particular, Chico da Silva já foi um dos campeões de audiência do “Fantástico”, da rede Globo, já foi o maior compositor de jingles políticos de Manaus, já foi jogador de futebol profissional, já foi compositor da Alcione, já foi parceiro do Noca da Portela, já foi compositor do bumbá Caprichoso, já foi compositor do bumbá Garantido, já foi membro do Clube do Samba, já foi...

Tomando o microfone do radialista, Chico da Silva reagiu indignado:

– Porra, compadre, me enterra logo!!! Me manda logo de volta pro cemitério São João Batista, que pelo jeito esse seu amigo aqui já morreu e não sabe!!! Já foi, já foi, já foi... Já foi, um caralho!!! Eu sou, porra, eu sou!!!

Jurandir Vieira não sabia onde esconder a cara.

3
Feira do Tururi em Manaus. O compositor Chico da Silva encontra casualmente o cantor de toadas e compositor Alex Pontes, que acabara de se apresentar com o grupo Canto da Mata.

– Escuta aqui, parente, tu conheces o Aurélio? – indaga Chico da Silva.

Surpreso com a pergunta, Alex Pontes titubeia:

– Aurélio?... Que Aurélio?!

– O Aurélio, porra, o Aurélio... – insiste Chico da Silva

Pensando tratar-se de algum compositor da velha-guarda do boi Caprichoso, Alex Pontes resolveu sair pela tangente:

– Olha, parente, eu vou ser sincero: não conheço o Aurélio não...

– Logo vi, logo vi... – fuzilou Chico da Silva. “Porque eu folheei o meu Aurélio de cabo a rabo e não descobri o significado da palavra ‘pararara’. Que porra quer dizer aquilo?...”

Alex Pontes riu amarelo e foi embora.

A música “Pararara” (“Agora dance dance dance dance / Vai no gingado na batida do tambor / Pararara... Pararara... Pararara”), composição de Alex Pontes e Mailson Mendes, foi um dos grandes sucessos do bumbá Caprichoso.

E “pararara” foi uma omonatopeia criada pelos dois músicos apenas pra caber dentro dos compassos musicais. Simples assim.

4
Um dia, o músico Guto Rodrigues encontrou Chico da Silva bebendo em um bar na Praça 14, bastante introspectivo e sorumbático. Ele quis saber que mal o afligia e o sambista não se fez de rogado:

– Compadre, eu estou pensando aqui no nome artístico dos nossos músicos. Por exemplo, Paulinho da Viola. Esse é um nome que evoca uma linhagem nobre de instrumentistas, de violeiros, que lembra Mano Décio da Viola, pai do Paulinho. E Paulinho é um nome elegante, altaneiro, sonoro, alegre. Paulinho da Viola. Perfeito. Tem tudo a ver.

Chico tomou outro gole de cerveja e continuou:

– Veja o nome Zeca Pagodinho. Zeca porque é a versão carinhosa de José. Quer dizer, o cara não é nenhum Zé, é Zeca. E Pagodinho porque indica um partideiro de responsa, um bambambam que tem intimidade com os pagodes de subúrbio. Zeca Pagodinho. Perfeito. Tem tudo a ver.

Chico tomou outro gole de cerveja e continuou:

– Veja o seu nome. Guto Rodrigues. É um nome agradável, vistoso, de personalidade forte, que pode ser sinônimo de bancário, de militante comunista, de cantor de MPB, ou de tudo ao mesmo tempo agora. É um nome versátil, eclético, vibrante. Guto Rodrigues. Perfeito. Tem tudo a ver.

Chico tomou outro gole de cerveja e continuou:

– Veja o meu nome. Chico da Silva. Chico lembra Chico Alves, o rei da voz, o cantor das multidões, o canarinho de ouro do samba-canção. Silva lembra de cara a nossa estimada Xica da Silva, aquela escrava negra, bonita, orgulhosa, que bagunçou com a sociedade hipócrita do período colonial. Chico da Silva. Perfeito. Tem tudo a ver.

Chico tomou outro gole de cerveja, limpou a espuma dos lábios e fulminou:

– Agora vê esse nome: Carlinhos do Boi. Que porra é essa?! Que merda isso quer dizer?! Você já viu um nome de artista mais buceta do que esse, compadre?...

Guto Rodrigues preferiu não responder.

5
Considerado o “Rei do Carimbó”, o compositor paraense Aurino Quirino Gonçalves, o Pinduca, encontrou o compositor Pedrinho Ribeiro em Santarém, em 1997, e disse que queria gravar uma toda em que fossem homenageados os bois de Parintins.

Uma semana depois, Pedrinho lhe enviou a toada “Selva encantada”, de sua própria autoria, que Pinduca gravou e fez um razoável sucesso no estado do Pará. O compositor parintinense, entretanto, não recebeu um centavo de direitos autorais.

Em 2000, Pedrinho Ribeiro e Chico da Silva estavam em Belém, envolvidos naquela famosa quizumba para cobrar do PT os direitos autorais pela utilização da música “Vermelho”. Enquanto o nó não era desatado, os dois passavam as tardes na Pensão 77, folheando revistas de mulher pelada ou conversando sobre as toadas de Parintins.

Numa dessas tardes, Chico da Silva, que estava deitado em uma “baladeira”, interrompeu a leitura compenetrada que fazia de uma revista Playboy, se sentou na beira da rede, ajeitou os óculos e fuzilou:

– Naquela tua música, que foi gravada pelo Pinduca, há um equívoco...

Pedrinho tomou um susto:

– Equívoco?! Onde?

Chico da Silva lhe estendeu o violão e falou:

– Quer ver, toca ela aí...

Pedrinho começou a dedilhar o violão e cantar: “No meio da selva encantada / apareceu a ilha Tupinambarana / e o povo parintintim...”

– Taí o equívoco, taí o equívoco! – disparou Chico da Silva, interrompendo a cantoria. “A ilha não apareceu... A ilha já estava lá...”

Marxista empendernido, Pedrinho Ribeiro não se deu por vencido.

– Como assim já estava lá? Olha, Chico, eu não acredito nesse papo de criação vendido pela Bíblia. Isso é conversa pra boi dormir. Aliás, você já deve ter olhado para o céu e perguntado: de onde vieram os planetas, o Sol, as estrelas? Ou olhado para a Terra e perguntado de onde vieram as rochas, os animais, as plantas e os seres humanos? Pra mim, tudo o que existe no universo veio de uma bolha que, há cerca de 10 ou 20 bilhões de anos, surgiu em um tipo de “sopa” quentíssima e começou a crescer, até explodir, dando origem a toda a matéria que conhecemos. Essa bolha era formada de partículas de luz, os fótons, e de outras partículas minúsculas, que se criavam e se destruíam o tempo todo. Essas partículas foram se juntando e formando átomos cada vez mais pesados. Os primeiros átomos a surgir foram os de hidrogênio e os de hélio. Esses elementos se misturaram, formaram nuvens e uma parte delas gerou estrelas. As estrelas deram origem aos planetas, que inicialmente eram muito quentes. A Terra, por exemplo, não tinha água líquida quando se formou. Foram necessários milhões de anos para que se resfriasse. Isso permitiu a formação de rios e oceanos, nos quais os cientistas acreditam que apareceram as primeiras formas de vida, e a partir das quais vieram os bichos, as plantas e o homem. E também foi assim que apareceu a ilha Tupinambarana. Então, porra, a minha letra não tem nenhum equívoco!

Chico da Silva ajeitou os óculos de novo e comentou:

– Porra, meu irmão, agora você viajou pra caralho... Essa era da boa... Legítima manga-rosa do Maranhão...

Aí, se deitou na rede, e voltou a ler a sua revista Playboy.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Uni-duni-tê, a Beija-flor escolheu: é você!



Janeiro de 1993. O GRES Beija-Flor de Nilópolis iria apresentar o enredo “Uni-duni-tê, a Beija-flor escolheu: é você!” e contratara os artistas parintinenses Karu Carvalho e João Afonso para elaborarem os carros alegóricos da escola.

Os dois estavam trabalhando no barracão da escola desde setembro do ano anterior, quando se viram envolvidos em meio a uma discussão sobre o elevado nível de boiolagem presente nos destaques das escolas de samba e nas tribos de boi-bumbá.

Na presença de cerca de 200 trabalhadores dos galpões, incluindo pintores, marceneiros, aderecistas, eletricistas e soldadores, Karu Carvalho foi taxativo:

– Olha, parente, há 90 anos que brincadeira de boi sempre foi coisa de macho. Até a mãe Catirina tem de ser um homem fantasiado de mulher. As mulheres começaram a participar de uns tempos para cá, apenas para embelezar as apresentações das tribos indígenas. Mas, até hoje, boiola não pode participar da brincadeira.

– Quer dizer que boiola não brinca de boi-bumbá? – questionou Osvaldinho Sumaré, chefe dos marceneiros da escola, visivelmente espantado.

– Exatamente! – garantiu João Afonso. “Aliás, os poucos viados que nascem em Parintins logo se mudam para Manaus ou pra Belém... É mais fácil acertar na megasena acumulada do quer encontrar um boiola lá na ilha...”

Depois dessa revelação fabulosa, os dois caboquinhos parintintins passaram a ser tratados pelo pessoal do galpão como elementos exóticos de uma raça superior.

Pois bem. Em janeiro, Laíla, diretor de Harmonia da Beija-Flor, informou a Karu Carvalho que havia convidados os pajés Waldir Santana (Caprichoso) e Helerson Maia (Garantido) para participarem do desfile da escola como destaques no carro abre-alas e que a carnavalesca Maria Augusta havia concordado.

Numa manhã de quarta-feira, Karu Carvalho e João Afonso foram recepcionar os dois conterrâneos no aeroporto do Galeão e, durante o trajeto de carro até Nilópolis, trataram logo de ir catequizando os dois pajés.

– Porra, bicho, você não podem queimar o nosso filme. A gente falou que em Parintins não tem viados e que até os pajés dos bumbás são espadas matadores... Não vão querer soltar a franga lá no meio da rapaziada! – avisou Karu Carvalho.

– É isso aí, parente! Segurem a onda até o dia do desfile... Nada de desmunhecar nos galpões... É a honra da nossa cidade que está em jogo! – garantiu João Afonso.

Mais machos do que nunca, os dois pajés seguiram o script direitinho. Arranjaram até namoradas entre as mais belas passistas da escola.

O pessoal do galpão observava aquele quarteto fantástico de autênticos abatedores de lebres com uma inveja cada vez mais malsã.

Afinal de contas, os caras tinham vindo de uma terra cheia de mulheres bonitas e onde não havia boiolas para encher o saco. Parintins era mesmo o paraíso perdido!

No sábado seguinte, os parintinenses foram convidados pelo presidente de honra, Anísio Abraão David, para assistirem a um ensaio oficial na quadra da escola com a presença de Neguinho da Beija-flor.

Como era em regime de boca-livre total, eles ocuparam uma das mesas próximas do palco e começaram a encher a cara de birita desde as 19h.


Por volta das 21h, Neguinho da Beija-Flor surge no centro do palco, apanha o microfone e solta seu grito de guerra: “Olha a Beija-Flor aí, geeente! Chooora cavaco...”

Com a quadra no maior silêncio, André do Cavaco começou a dedilhar o instrumento.

Assim que escutou os primeiros acordes do cavaquinho, Waldir Santana, com a cabeça cheia de truaca, arrebitou a bundinha pra trás na direção do palco e executou uma inacreditável “dança do créu na velocidade cinco”, acompanhando o fraseado do instrumento.

Instintivamente, Neguinho da Beija-Flor começou a olhar, com um ar divertido, para aquela presepada porque nem a Mulher Melancia conseguiria tremer a bunda daquele jeito.

No mesmo instante, Helerson Maia levantou as duas mãos para o alto como se fosse uma odalisca e começou a executar uma alucinante dança do ventre, sacudindo as cadeiras para os dois lados com violência e rodopiando feito uma pomba-gira em transe mediúnico.

A galera dos galpões, que mantinha uma distância respeitável da mesa dos parintinenses, correu em peso para conferir de perto aquela inusitada transformação dos até então dois másculos e invocados pajés em duas formosas e desinibidas cunhans porangas.

Pegos de surpresa, Karu Carvalho e João Afonso só faltaram se esconder debaixo da mesa, mas não houve jeito de escapar da infâmia e das piadinhas de duplo sentido.

Indiferente ao rebu provocado, as duas cunhans porangas já estavam no meio do salão fazendo a “dança da bundinha” na versão parintinense e se esgoealando, afetadíssimas, para acompanhar Neguinho da Beija-Flor no samba enredo: “Uni-duni-tê, ô / Vem ver o Sol no amanhecer (ê ê, vem ver) / A Beija-Flor escolheu: é você / Se a vida é uma volta na lembrança / Uma roda de esperança / Espalhando amor no ar / Liberte do seu peito essa criança / Dê as mãos na contradança / Vamos juntos cirandar.”

No dia seguinte, o único assunto entre os trabalhadores dos galpões da Beija-Flor era a inusitada transformação dos pajés em cunhans-porangas.

A centenária brincadeira machista do boi-bumbá foi vilipendiada de vez pelo resto da vida.

Maldito cavaquinho!

O inesquecível padre Navarro


Uma vez por ano, o padre Manuel Navarro visitava as comunidades rurais de Caapiranga para realizar o batismo em massa da molecada.

Na pia batismal improvisada no salão comunitário, ele colocava uma lata de querosene cheia de água benta, uma cuia cheia de sal, um calendário religioso, daqueles em que cada folhinha traz o nome do santo do dia, e uma caderneta ensebada, onde ele colocava o nome da mãe, o nome da criança e a data de nascimento.

Era com aquilo que ele providenciaria o registro civil na sede do município e, no ano seguinte, entregaria as certidões de nascimento às respectivas mães.

Entre outras coisas, o padre tinha um horror homicida aos nomes estrangeiros inventados pelos comunitários.

No dia da visitação, o centro comunitário era enfeitado como em dia de festa, e as mulheres se posicionavam em fila indiana, cada uma com seu rebento no colo. Uma a uma, elas se dirigiam à pia batismal do religioso.

O diálogo era mais ou menos assim:

– Como é o nome da criança, dona Ernestina?

– Francisgay Magaivi de Souza Noronha

O padre se encrespava:

– Dona Ernestina, a senhora sabe o que quer dizer Francisgay?

– Sei não, seu padre, sei não.

– Francis é a abreviatura de Francisco. Ou seja, Francis quer dizer Chico. E “gay” é uma palavra estrangeira que significa homossexual. A senhora quer que o nome do seu filho seja Chico Fresco?...

– Quero não, seu padre, quero não.

– Pois então...

Aí o padre escolhia aleatoriamente uma das folhinhas do calendário, conferia o nome do santo e avisava.

– O nome do seu filho será Tadeu, em homenagem a São Judas Tadeu. Não é bem melhor do que Chico Fresco?...

– É sim, senhor, é sim senhor.

O padre anotava o resto dos dados, passava água benta e sal na cabeça do infante e dispensava a senhora.

Chegava uma nova comunitária.

– Como é o nome da criança, dona Amelinha?

– Faloite Karolaine Pereira Lima.

O padre, cada vez mais puto:

– Dona Amelinha, a senhora sabe o que quer dizer Faloite?

– Sei não, seu padre, sei não.

– Falo quer dizer pênis. O elemento grego “ite” significa “doença inflamatória”. A senhora quer que sua filha se chame “pica inflamada”?

– Quero não, seu padre, quero não...

– Pois então...

Aí o padre escolhia aleatoriamente uma das folhinhas do calendário, conferia o nome do santo e avisava.

– O nome da sua filha será Luzia, em homenagem a Santa Luzia. Não é bem melhor do que “pica inflamada”?...

– É sim, senhor, é sim senhor.

O padre anotava o resto dos dados, passava água benta e sal na cabeça da infante e dispensava a senhora.

Um dia, a negra Sebastiana apareceu na fila com seu filho recém-nascido.

– Como é o nome da criança, dona Sebastiana?

– Uóxito Ramalho de Oliveira.

O padre, cada vez mais puto:

– Dona Sebastiana, a senhora sabe quem foi George Washington?

– Sei não, seu padre, sei não.

– George Washington era um grande escravocrata de Virgínia, nos Estados Unidos da América, que gostava de emprenhar as escravas africanas que ele traficava da África. A senhora, que é uma pessoa de cor, vai querer que seu filho seja comparado a um escravocrata filho da égua?...

– Quero não, seu padre, quero não...

– Pois então...

Aí o padre escolheu aleatoriamente uma das folhinhas do calendário, conferiu o nome do santo e avisou:

– O nome do seu filho será Benedito, em homenagem a São Benedito. Não é bem melhor do que o nome daquele escravocrata filho da égua?...

Dona Sebastiana, tímida.

– Olha, seu padre, eu ainda prefiro Uóxito. É que lá em casa todos os meus filhos têm o nome começado por “u”.

O padre Navarro, perdendo a esportiva:

– Nesse caso, dona Sebastiana, é melhor a senhora batizar esse seu crioulinho de "urubu", que tem três “u”...

Dona Sebastiana ficou tão injuriada com a desfeita, que virou Testemunha de Jeová no mesmo dia.

Manaus Reggae Fest vai rolar no sábado


No próximo sábado, dia 14, a partir das 22h, no Aomirante Bar (Rua Padre Agostinho Caballero, próximo a Feira do Produtor - Santo Antônio) acontece o Manaus Reggae Fest, um evento que visa celebrar a cultura da música reggae autoral de Manaus, com a participação das bandas Johnny Jack Mesclado e Deskarados e do homeboy Cileno.

O evento visa contribuir com o fomento da cena “regueira” da cidade e tem um caráter de historicidade, visto que as bandas são ícones do estilo por trazerem consideráveis contribuições ao movimento nos últimos dez anos.

Também vão participam do evento o DJ Marcos Tubarão, com seu set musical que vai do “dub-roots” ao “rap-essense”, intercalando os shows das bandas, e o Grupo de Capoeira Terreiro do Brasil coordenado e dirigido pelo Mestre Ronaldo Vargas, que vai mostrar, ainda, o maculelê e o samba de roda para agitar a galera.

É notório o crescimento do estilo musical reggae na cidade de Manaus nos últimos anos – cada banda cria sua própria cena, gravam discos, videoclipes, se articulam para promover seus trabalhos, tocam e são reconhecidos em outras cidades, ao mesmo tempo em que realizam grandes eventos fazendo valer a independência e a concepção criativa e artística para um público que reconhece e aprecia música autoral produzida por esses protagonistas.

O evento tem o apoio da Baruk - responsável pela sonorização e iluminação dos melhores shows dessa cena alternativa - e do Coletivo Difusão, que visa contribuir com a arte manauense, ambos reconhecendo o ritmo sedutor difundido por Bob Marley, tão hipnótico como as produções de King Tubby e prazeroso de se ouvir – como também uma das autênticas identidades culturais na capital do Amazonas.

Programão imperdível!

Grupo Aldeia do Choro tocará canções inéditas do Maestro Jerê


No próximo domingo, dia 15, a partir das 19h, com entrada gratuita, o Centro Cultural Palácio da Justiça relembrará os velhos tempos onde os boêmios apresentavam-se aos nobres da época do século passado. O local será palco do espetáculo "Chorinho no Palácio", do grupo Aldeia do Choro.

Formado há três anos e com um CD no currículo, o grupo traz no seu repertório os chorinhos dos grandes mestres Pixinguinha, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim e Ernesto Nazareth, além de clássicos de Baden Powell, Gonzaguinha, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Noel Rosa e Cartola.

O Aldeia do Choro é formado por Marcell Mota (cavaquinho), Jeremias Dutra, o Maestro Jerê (violão de 7 cordas), Wilde Fernandes (violão de 6 cordas), Edu Bradizzi (sax e clarineta), Timóteo Oliveira (flauta e flautim), Elizângela Araújo (voz e pandeiro) e Wan Lima (percussão).

“Toda a riqueza da musicalidade brasileira, os seus ritmos, suas melodias, se juntam para dar forma a um dos ritmos mais sonoros de todos os tempos, que é o chorinho”, explica Marcell Mota, líder do grupo.

“E dentro dessa perfeita combinação nós vamos aproveitar para apresentar algumas músicas inéditas do melhor compositor de choro de todos os tempos no Amazonas, Jeremias Dutra, o maestro Jerê”.

Quem perder, é mulher de padre.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Dois perdidos na noite de Maués


O temperamental músico Carlos Castro


O desencanado músico Antonio Pereira

Setembro de 1986. Depois de duas semanas fazendo shows diários em Maués sem ver a cor do dinheiro, o cantor e compositor Carlos Castro resolve fazer um balanço da situação desesperadora e convoca seu parceiro de excursão, o também cantor e compositor Antonio Pereira, para discutir o assunto.

Os dois dividiam uma pequena casa cedida pelo empresário Arisilvio Costa, que os havia contratado em Manaus para uma série de shows no baixo-Amazonas.

Deviam ser umas 11 horas da noite. Cada um numa rede, um punho de cada rede no mesmo armador, uma rede pra lá, outra pra cá. Carlinhos se embalando, Pereira quase cochilando.

– Pereira, eu acho que o Arisilvio quer sacanear com a gente! – vociferou Carlos Castro, com sua voz de trovão.

Pereira fez que não ouviu. Carlos continuou:

– Olha só a merda de casa que ele arrumou pra gente! Está cheia de mofo, a tinta descascando, o banheiro não funciona, não tem geladeira, o quintal está cheio de lixo... Não sei não, mas acho que tem até cobra aí nessa merda... Daqui a pouco a gente está dormindo, uma cobra entra aqui dentro, morde a gente e a gente vai se foder... Aquele Arisilvio é um filho da puta!...

Pereira calado.

Dali a uns cinco minutos, Carlinhos volta à carga, com sua voz ficando cada vez mais grave:

– Pereira?... Pereira?...

– Que é, Carlinhos? – respondeu Pereira, louco pra continuar dormindo.

– Sabe essas meninas que andam contigo pra cima e pra baixo?... Os boyzinhos daqui de Maués comem elas direto... Olha, bicho, eu sei que você pensa que está abafando, que só você é o dono do pedaço... Porra nenhuma!... Os boyzinhos todos comem elas direto... São tudo umas pistoleiras... Tudo umas vagabundas... Não valem nada!... Tu ainda ficas andando com elas de otário... Aliás, elas só não dão pra ti... Porque os boyzinho daqui comem elas direto... Tô te dizendo...

Pereira calado.

Dali a uns cinco minutos, Carlinhos volta à carga, com a voz ficando parecida com a de um Barry White enfurecido:

– Pereira?... Pereira?...

Que é, Carlinhos? – respondeu Pereira, já ficando mordido...

– Eu acho que esse pessoal aqui de Maués tem muito preconceito contra nós dois... Eu noto isso pelo jeito como eles olham pra gente quando a gente está cantando nos barzinhos ou quando a gente anda pelas ruas... A população inteira olha pra gente meio atravessado... Você ainda não notou não?...

– Porra, Carlinhos, deixa de papo aranha e vai dormir! – insistiu Pereira.

Dali a uns cinco minutos, Carlinhos volta à carga, dessa vez com a voz de um Billy Paul meio afônico:

– Pereira?... Pereira?...

– Que é, Carlinhos? – respondeu Pereira, já injuriado...

– Sabe por que esse pessoal tem preconceito com a gente e ficam nos olhando atravessado?... Eu sei, porra, eu sei!... Comigo, porque eu sou preto!... E contigo, porque tu és maconheiro!...

Ouvindo aquilo, Pereira teve um acesso de riso tão disgramado que o armador da rede caiu e os dois se estatelaram no chão.

Pereira foi passar o resto da noite bebendo numa birosca em frente da residência.

No dia seguinte, os dois embarcaram de volta pra Manaus. Nunca mais Pereira quis excursionar ao lado de Carlos Castro.