quinta-feira, setembro 03, 2015

Amor sob encomenda


Nos anos 80, no Recife, inaugurei um serviço especial de “poemas de amor sob encomenda”, que eu apelidei de “Miss Corações Solitários”, como no livro de Nathanael West, que acabara de ler. Marketing da necessidade de um escriba só o couro e o osso, que olhava a sua própria sombra magra e tinha medo. A estratégia foi um sucesso. Depois de um anúncio no “Diário de Pernambuco”, eu não dava mais conta dos pedidos e passei a terceirizar sonetos e acrósticos, tarefa fácil na terra de Manuel Bandeira e João Cabral.

 Ajudei a começar romances, reatar namoros, dar esperanças, iludir “boyzinhas”, parabenizar amadas, encorajar amantes, suspirar viúvos, incendiar mancebos e reacender o fogo de lindas afilhadas de Balzac. A felicidade não se compra, como já nos avisou o cinema, mas que amealhei algumas patacas, amealhei. Recife virou uma festa, melhor do que a Paris de Hemingway.

O motivo dessa crônica, no entanto, não é o de ficar apenas mascando o chiclete da nostalgia. Nada disso. O motivo é de arrepiar. E se chama Marina Cavalcante. Pernambucana de Olinda, hoje habitante do bairro de São Matheus, na zona leste de São Paulo, tinha 20 anos quando me encomendou um poema para o namorado.

Agora com 39, viu este mal-assombro que vos escreve no programa de TV do Lobão – o “Saca-Rolha”, que passa no canal 21 de SP – e, via email, me contou a sua história. “Ele, Roberto, achava que eu o traia, por isso pedi o poema sobre a minha fidelidade, pra fazer ele chorar, lembra?” ela pergunta. Claro que não recordo. Eram tantos casos. O poeta Jaci Bezerra, velho amigo e testemunha ocular da história, que o diga.

E aí, conta logo, Marina: “Ele, Roberto, acreditou em mim, vivemos um lindo amor por cinco anos, o amor da minha vida, por isso a minha felicidade de achar o sr. na televisão, pra agradecer, tanto tempo depois”.

Homem que é homem chora bonito, chora mais alto. Não me contive com o episódio. Marina casou com outro aqui em São Paulo, hoje está separada, e diz que não esquece o motivo daquele velho poema. Bela história. Deu até vontade de retomar as encomendas, as costuras para fora. Bom saber que a poesia comove até um macho à moda antiga, do tipo que ainda manda flores, caso do amor de Marina. (XS)

segunda-feira, agosto 31, 2015

O livro de Andressa Urach


No livro “Morri pra Viver”, sobre sua trajetória de “fama, drogas e prostituição”, Andressa Urach, que diz ter sido uma das garotas de programa mais caras e desejadas do país, conta que cobrava R$ 15 mil por duas horas de sexo. Esta realidade certamente continua a alimentar o luxuoso mercado de prostituição hoje, mas com outras jovens ambiciosas – e iludidas – novas protagonistas em busca de fama. Nos relatos que antecipou, ela diz que esteve com “centenas, talvez milhares de homens” e que muitos deles eram famosos.

“Morri Para Viver” fala da vida de uma celebridade de corpo escultural que foi de vice-Miss Bumbum a evangélica, depois de quase morrer por causa de uma infecção. Trechos do livro já foram divulgados pelo jornal britânico Daily Mail: “Protagonizei as cenas mais humilhantes para qualquer ser humano. Eu encontrei satisfação em infligir e receber dor em atos sexuais. Estava obcecada com o prazer em ser submissa e joguei fora minha honra como um pedaço de lixo”.

Andressa conta ainda que se encontrava clientes em casas noturnas, onde fazia presenças vip. “Eu dava um sim ou não para cada proposta antes de fechar o negócio. Havia uma regra: jantar, fotos ou vídeos não eram permitidos. Ficava duas horas dentro do quarto de hotel e o pagamento tinha de ser feito antes do sexo”. Se o que diz for verdade, Andressa era o cão chupando manga.

“Eu não usava lubrificante para fazer sexo anal e cobrava mais caro por isso”, “Meu primeiro orgasmo foi com um cachorro”, “Perdi a virgindade fazendo sexo com meu irmão”... Para, louca, para! Não queremos saber dessas coisas! Não queremos ouvir essas loucuras! Não temos nada a ver com a vida sexual de ninguém. E muito menos, claro, com a de Andressa Urach, autora dessas pérolas da baixaria sexual explosiva.

Desculpe, Andressa, mas temos um título melhor para esse livro: “Exagerei para vender”. E não, não lemos a obra e vamos continuar não-lendo. Mas ele é tão cheio de loucuras que todos os dias nos deparamos com uma nova na internet. E cada maluquice escrita vira matéria. “Pai de Andressa se diz chocado com revelação de incesto”. “Conheça o mundo da prostituição de luxo do qual Andressa fazia parte”. “Andressa fez pacto com mãe de santo”. “Cristiano Ronaldo nega que tenha enrabado Andressa”.

Chega! Ninguém merece saber detalhes de como alguém teve um orgasmo com um animal ou fez sexo com o irmão. “Não me venha com confidências”, dizia uma camiseta antiga da marca da Rita Wainer. Não somos obrigadas a aguentar tanta informação sobre a vida sexual de Andressa Urach nem sobre a de ninguém. Por isso, nesse blog  e no Maskate você não vai ler uma entrevista com a Andressa, nem uma resenha do livro e muito menos textos sobre a repercussão da “obra” entre familiares e famosos citados por Andressa.

Cansamos. Chega! Tapamos os ouvidos e fechamos os olhos e gritamos: não queremos ouvir! Quer dizer, a não ser que ela resolva dar pra gente e fazer todas essas loucuras de graça, numa boa. Aí, sim, a gente conversa, entrevista, dá destaque na primeira página, porque ninguém aqui é de ferro. De leve...

domingo, agosto 30, 2015

Bem-vindos ao reino da Carençolândia


Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram a Carençolândia, no tempo em que tudo era apenas o fogo e o verbo. Mas foram os machos, porém, que se firmaram, nos dias que correm, como os mais legítimos cidadãos carençolandeses.

Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais (aqueles que só usam roupas com encosto de brechó). Fracos, não aguentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa, uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras.

O macho carançolandês não passa meia hora separado, não vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da bunda - a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. 

Ele vai lá e agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como ocorreu ao meu amigo Sizenando, aquele mesmo que trabalhava como galhudo-mor nas crônicas de Rubem Braga. Enquanto o manequim era levado de um lado a outro da rua, para uma troca de vitrines, ele abofelou-se com a loira gessificada e a entope de gala até hoje.

Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência. Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade... d´alma.

A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax – diga 33!!!

Carençolândia não tem sequer feriado. Um programa populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os compromidos foram postos em toda a rede de água de Carençolândia... Adicionados ao sal, ao açúcar... Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato lisérgico de Alice.

Aquele sertanejo que ficou milionário da noite pro dia cantando a própria sofrência pavloviana, digo pabloloviana está certo: a Carençolândia é o beco sem saída do macho moderno (XS)

A grande resposta da professora das filhas de Veríssimo ao cachorrinho de madame que virou pitbull de quadrilheiro


No dia 20 de agosto, o jornal gaúcho ZH publicou a crônica em que Luis Fernando Verissimo informa que não vê diferenças entre manifestações de rua contra o governo e matilhas de vira-latas.  No mesmo dia, a leitora Rosália Saraiva, que foi professora das filhas do patriarca dos humoristas estatizados, encaminhou ao blog do jornalista Políbio Braga uma carta endereçada ao pai das ex-alunas. A resposta, merecidíssima, é de envergonhar até quem perdeu a vergonha de vez.

O rosnado de Verissimo nasceu do medo. O fim da era lulopetista pode custar-lhe a liderança que ocupa no ranking dos autores mais didáticos do Ministério da Educação. Esse possível rebaixamento na lista dos escritores federais oferece motivos de sobra – milhões de motivos – para que um cachorrinho de madame vire candidato a pitbull de quadrilha. Talvez sossegue algum tempo depois do troco, reprisado abaixo, que uma valente professora lhe aplicou no fígado. Confira. (AN)

Prezado LF Verissimo:

Na crônica com o título ‘O Vácuo’, comparaste os manifestantes contra o governo aos cachorros vira-latas que, no passado, corriam atrás dos carros, latindo indignados. Dizes que nunca ficou claro o que os cães fariam quando alcançassem um carro, por ser uma raiva sem planejamento. E que os cães de hoje se modernizaram, convenceram-se de seu próprio ridículo, renderam-se ao domínio do automóvel.

Na tua infeliz e triste comparação, os manifestantes de hoje são vira-latas obsoletos sitiando um governo que mais se parece com um Fusca indefeso, que sabem o que NÃO querem – Dilma, Lula, PT – mas não pensaram bem NO QUE querem no seu lugar. Como um velho e obsoleto cachorro vira-lata, quero te latir (não sei se entendes a linguagem de cachorros) algumas coisas:

1. Independentemente das motivações de cada um, tenho certeza de que todos os cachorros na rua correm em busca dos sonhos perdidos, que, em 13 anos, foram sendo atropelados não por um Fusca indefeso, mas por um Land Rover de corrupção, imoralidades, mentiras, alianças políticas espúrias, compras de pessoas, impunidade, incitação à luta de classes, compra de votos com o Bolsa Família , desrespeito e banalização da vida pela falta de segurança e de atendimento digno à saúde, justiça falha, etc, etc.

2. Se os cachorros se modernizaram e pararam de correr atrás do carro, não foi por se convencerem do próprio ridículo. Foi porque não conseguiram nunca alcançar os carros e isso os desmotivou. Falta de planejamento, concordo. Mas os cachorros de agora aprenderam que se correrem juntos, unidos, latindo bastante atrás do carro, cada vez mais e mais, de novo e de novo, chegará uma hora em que o motor vai fundir. Eles vão alcançar o carro. O motorista vai ter que descer do carro e outro assumirá. Pior do que está não vai ficar, embora o conserto vá demorar muito. Não vai ser fácil, mas os vira-latas vão conseguir se organizar, pelo voto. Não pela ditadura.

3. Não é verdade que o latido mais alto entre os cachorros foi o de um chamado Bolsonaro. Acho que estavas na França gozando das delícias de um croissant na beira do Sena (enquanto os vira-latas daqui corriam atrás do osso perdido) e não viste os vídeos das manifestações. Se bem que a TV Globo e o Datafolha também não enxergaram nada. O que mais cresceu na manifestação foi uma certeza, a certeza que vai fazer esse país mudar: com essa Land Rover desgovernada não dá mais. Os cachorros com seus latidos unidos jamais serão vencidos. E sabem que mais dia, menos dia, esse carro vai parar. É assim que começa, pena que eles não acreditem. Não vai ter mais dinheiro pra comprar brioches para o povo. E o número de vira-latas vai aumentar muito. Quem comandará a corrida? Não sei, só sei que prefiro ser um vira-lata à moda antiga do que um vira-lata moderninho que se rende a uma Land Rover.

4. Te enganas quando dizes que os cachorros de antes corriam atrás dos carros porque a luta era outra. Não, a luta é a mesma, o contexto é diferente. Os cachorros não querem um passaporte bolivariano. O vácuo vai ser preenchido, não te preocupes. Por quem for necessário e aceito, desde que não seja pelo exército do Stédile.

5. Em tempo: essa vira-lata que te fala foi professora das tuas filhas no antigo e admirável Instituto de Educação. Lá aprendi que é importante latir não por latir, mas para defender os sonhos possíveis. E tuas filhas devem ter aprendido muita coisa com os meus latidos. Continuo latindo, agora na rua, para derrubar o que acredito ser um mal nesta nação arrasada: a corrupção e, mais do que isso, um governo corrupto, que perdeu totalmente a vergonha. Eles criaram um “vácuo” de imoralidade e de incompetência que vai ser difícil de recuperar. Mas, vamos conseguir!

Atenciosamente, auauau.


Rosália Saraiva

Os quatro cavaleiros do Apocalipse


Vlady Oliver

Me digam aí: o que existe em comum entre certas torcidas organizadas de times brasileiros, os “gerentes de franquia” dos fast foods de fé, os hierarcas do crime nos presídios brasileiros e os militantes vagabundos do PT e suas franjas? Todos fazem parte de quadrilhas, que se organizam no vácuo policial existente por aqui. Infiltram-se na sociedade pagante e ficam cacarejando, provocando, dissimulando e invertendo o sinal dos valores aqui praticados, com o único intuito de se darem bem. Falta enquadramento nessa cena, meus caros. Simples assim.

Qualquer marola no status vigente e tome uma lei qualquer para proibir a sacolinha plástica, o capacete, a faca de churrasco e outras firulas, para se deixar tudo como está e fingir que algo está sendo feito para coibir esses ajuntamentos. Não está. Falta ao brasileiro a noção de vigília de nossa combalida democracia. Falta a devida fiscalização da vida pública, oportunamente sufocada por todos os bandos irmanados, que não querem transparência em suas condutas delinquentes.

A vida não está fácil nem pra quem quer ser bandido hoje em dia, pois o território tomado de véspera pelos fora-da-lei exige que o meliante seja sindicalizado, pague imposto, dízimo, propina e aliciamento, se quiser exercer a profissão criminosa sem ser molestado pelos demais integrantes desses irmanatos da vigarice. Tirar um ignorante de sua ignorância e torná-lo um elemento crítico desse sistema é muito difícil. Fácil mesmo é torná-lo massa de manobra dos interesses servis de todas essas escumalhas reunidas e fazê-los amorfos aos reais interesses de nossa sociedade.

Não é mera coincidência que estes quatro “cavalos” do apocalipse estejam metidos até a crina na criminalidade que aqui campeia sem lenço nem documento. Por trás de cada um deles, a ginga, a malemolência, a vigarice rematada de várias oligarquias criminosas, todas elas querendo garantir o inferno legislativo e burocrático em que nos encontramos exatamente para manter as frestas por onde eles sobem na vida sem fazer força. Futebol, igreja, roubo e política são quatro álibis perfeitos para acomodar estes antros de picaretas reunidos.

Eles acreditam que a sociedade fará vistas grossas ao tunganato que representam, uma vez que o outro lado do cavalo mostra um “efeito social” que não passa de fachada para a prática impune de delitos. Notem que a passagem da simples contravenção – tolerada e até incentivada pela sociedade – para a criminalidade pura e simples é o moto contínuo dessas sofisticadas organizações criminosas, no caminho do “sucesso” de suas empreitadas larápias. Alguém no final sempre tem que pagar a conta.

Elevada à condição de comitiva presidencial, a quadrilha petista mostra agora toda a sua real natureza: queriam mesmo era se darem bem na vida sem fazer força, às custas dos fiéis, militontos e eleitores. Queriam mesmo é fazer alguns de otários. Praticar pequenos furtos. Aposto que nem eles imaginavam que chegariam tão longe com suas pretensões marretas. A polícia chegaria antes. Até agora, não chegou. E não chegou exatamente pela forma como as coisas se estruturam – ou se desestruturam – por aqui.
Tudo é feito para a polícia não chegar. Para o pau que dá em Chico não dar em Francisco. Para, no máximo, o operador ser preso, sem molestar o mandante. Me parece que um ano inteiro de denúncias diárias de uma Lava Jato vai fazendo a sociedade lentamente acordar para os golpes a que vem sendo vítima. Falta agora chamar a polícia. Falta que ela venha. Todo o resto se resolve a partir daí. Ou vocês acham mesmo que são muito diferentes entre si o bonecão de posto inflável daquele meliante, o bispo flagrado com a bíblia na cadeia, a turma que coloca fogo no carro alegórico da escola de samba dos desafetos e um Marcola, comandando o crime de uma prisão de segurança máxima no interior da nação de incautos em que nos transformamos?

quinta-feira, agosto 27, 2015

Frescura demais enjoa


Naquela Copa em que o Ronaldo Fenômeno teve um fenomenal faniquito, fizeram um casamento antes do jogo Brasil e Noruega e na final, no Stade de France, quem fez a festa antes do Zidane foi Yves Saint-Laurent. Modelos desfilaram no gramado com criações de YSL ao som do bolero de Ravel tocado em tonéis, o que já devia ter nos alertado para alguma coisa.

E eu fiquei pensado naquela roda de pôquer que se reunia semanalmente na mesma casa durante anos. Sempre a mesma roda e sempre a mesma casa, e a mesma mesa. Até que o dono da casa mudou de mulher, e a nova mulher sugeriu que os jogadores usassem descanso para os copos. Assim os copos molhados não deixariam marcas na mesa.

– Não – disse o homem.

– Por que não, bem? – surpreendeu-se a mulher.

– Porque no momento em que eu distribuir descanso para os copos, todos se levantam e vão embora e a roda acaba.

– Mas eu não sou contra o pôquer de vocês. Podem continuar jogando, e bebendo. Só o que eu peço é que usem descansos sob os copos para não...

– Não.

– Mas por que não?!

– Porque seria um primeiro passo. O seu descanso não é um descanso. É um precedente.

– Mas...

– Não insista.

O homem sabia o que os descansos significavam. Depois dos descansos viria o pedido para que usassem cinzeiros, em vez de largarem as cinzas no chão. Logo seria levantada a questão dos restos de comida misturados com as cartas e as fichas. E não demoraria e viria a sugestão para que cuidassem da pontaria na hora do xixi...

O futebol, como o pôquer, precisa manter-se em vigilância constante contra as incursões da frescura. (LFV)

Oração a Nossa Senhora dos que Amam Sozinho


Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto querê-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, a perversa, e cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora!

Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. dos cotovelos da surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???

Não creio, Sr. Albero Moravia. É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas! Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.

A negra lingerie, a sobrancelha feita a lápis, e olhos tais minúsculos aquários de peixinhos tropicais... Eu conheci tantas assim, dessas mulheres que um homem não esquece. E, no entanto, que coisa incrível, esqueci tanto começo inesquecível. Mas sou sincero: tenho alma de artista e tremores nas mãos. Na idade que estou aparecem os tiques, as manias, transparentes feito bijuterias pelas vitrines da Lobrás da alma.

Nossa Sra. da vida alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada. Nossa Senhora!!! Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas. Amor por tê-la, rara. Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.

Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.

Lua cheia, vida crescente, luau de agosto, kriptonita verde, morte e vida severina. Escuto Le Déserteus, Boris Vian, ouviste? Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!

terça-feira, agosto 25, 2015

Os machos dançaram, velho Mailer, acredite!


Diante dos últimos estudos científicos, arrazoados econômicos e observações particularíssimas, creio só nos restar uma saída: a retomada da nossa vocação medieval e agropastoril. A saída está no campo, nas montanhas ou no brejo propriamente dito. É tudo que sobrou para a rastejante criatura do sexo masculino no século XXI. É, amigo, faça como este cronista, comece a comprar  também o seu pequeno rebanho de bodes e cabras. Os sinais da nossa falência como seres modernos partem de todas as fontes e disciplinas.

O economista e jornalista Reihan Salamd, em texto para a revista Forbes já solta o rojão apocalíptico: “Podemos dizer agora, sem medo de errar, que o legado mais duradouro da atual crise financeira não será o fim de Wall Street. Não será o fim das finanças, e não será também o fim do capitalismo. Essas ideias e instituições sobreviverão. O que não sobreviverá é o macho”.

Segundo o mesmo rapaz norte-americano, de apenas 29 anos e uma fortuna no banco, a crise internacional encerrou definitivamente o domínio sobre a fêmea. A tese do moço: até o fim do ano, 28 milhões de homens perderão o emprego e em consequência do baque psíquico estarão mais frágeis e infelizes do que nunca. Não é à toa, diz ele, que na blogosfera de finanças e economia, a situação é chamada de “he-cession”,  um trocadilho em inglês para definir o peso do mundo sobre os ombros masculinos.

Para justificar o seu mote catastrófico, Salamd cita estudos que mostram como a cabeçorra do marmanjo é mais afetada por uma demissão do que a mente feminina. E, além disso, mulher, tem outra coisa, de acordo com o mesmo teórico: boa parte da ajuda dos governos para as instituições está indo para setores dominados pelas meninas – saúde, educação e serviços sociais.

É, amigo, a falência do mundo é masculina e muitas mulheres têm sido eleitas ou nomeadas, tanto na política como na economia, em repúdio às barbeiragens dos canalhas. Repare no caso da Islândia, país varrido pela quebradeira global, que escolheu para o seu projeto de reconstrução a primeira-ministra Johanna Sigurdardottir, pioneira no mundo como grande líder declaradamente lésbica.

O homem lesou e a mulher vai mesmo tomar conta do mundo. No atacado e no varejo. Observe como em qualquer serviço as moças resolvem com mais rapidez e competência. Nas escolas, então, milhares de pesquisas, aqui e na Europa, revelam como as meninas dão couro nos homens abestalhados, incapazes de interpretar um texto.

É, amigo, nos restam as atividades agropecuárias e as trincheiras das guerras, velhas práticas dos selvagens. Os machões dançaram, caríssimo Norman Mailer!

segunda-feira, agosto 24, 2015

As ficções de um falso Don Juan


Trata-se de um compulsivo. Um doente. Nas suas histórias, ninguém escapa. Para ele, não tem mulher difícil. Ele não é de Caratinga, mas assim como o Ziraldo, filho ilustre de tal sítio mineiro, nunca broxou na vida. Terror das casadas, mestre com as viúvas, monstro priápico de todas as donzelas, ele contabiliza mulheres imaginárias com tracinhos riscados na parede da cabeceira da cama. Sim, amigos, vale o velho adágio: cão que muito ladra...

Estamos diante de um Casanova de araque, o falso e doentio Don Juan, um dos personagens mais hilários, para não dizer infantis, dos nossos modos de macho e os seus chabadabadás. O homem, o mito, a fraude. Narrativas eróticas que jamais aconteceram à vera, apenas e tão – somente na garganta, riacho de muitos peixes grandes do contador de vantagens. É o tipo da corrupção que começa logo nos verdes anos, na mentira de que não somos mais donzelos, não somos mais virgens, e daí levamos ao túmulo, incorrigíveis e tarados falseadores.

No princípio, é uma vergonha assumir a virgindade no meio de tantos machões que nos desfiam suas epopéias com o mulherio. Aí contamos também a nossa “vasta experiência”. Não somos nada bocós, naquele momento, para ficarmos com a pecha de meninos puros e bestas.

Um amigo relata no botequim que traçou uma flor do bairro ou a gostosa da firma; ouve de imediato o coro ridículo carregado de chope, caldinho, torresmo e testosterona à milanesa: “Comi muiiito!” Sempre a mesmíssima história. Ah, como somos óbvios. Ninguém quer bancar o antiherói e dizer que mal dá conta dos afazeres caseiros.

O falso Don Juan é a doença infantil e incurável do machismo. Até quem não precisa contar vantagens acaba deslizando na tentação de parecer o supermacho. Basta uma rodada no boteco para que a testosterona desça-lhe à cabeça. Sim, deixa o menino brincar, como cantava o Jorge Ben das antigas, que mal faz o delírio sexual do predador por natureza, essa praga inevitável?!

Ah, faz sim. Não carece propagar aos quatro cantos os seus feitos. Muito pelo contrário. Mais vale a estratégia mineira dos come-quietos ou dos ursos pés de lã que atacam sem que ninguém perceba o alcance do bote. Ademais, é chato para as moças. Não digo pelo velho, careta e surrado “vai ficar mal-falada” na firma, no bairro, na pequena cidade. O ruim é que pode enxovalhar a imagem da senhorita mesmo. Principalmente quando o Pinóquio metido a Don Juan é a maior sujeira na área, aquele com quem nenhuma iria mesmo arriscar a pele na cama. 

Moral popular da fábula: todo homem, assim como todo pescador que se preza, tem sempre uma aventura maior que a vara. (XS)

domingo, agosto 23, 2015

As curvas da perdição masculina


Meu caro leitor, se você não passou os seus últimos 40 anos enjaulado em uma estação de pesquisas na Antártida para observar o acasalamento dos pinguins imperiais, então, já deve ter ouvido falar que brasileiro gosta muito de bunda. Não é nenhuma novidade, claro, e não sei qual é o motivo de tanta surpresa. Afinal, quem é que não gosta de bunda? Não vá me dizer que tem um tipo de homem, lá do Manchúria ou das ilhas da Polinésia, que não gosta tanto assim?...

A bunda é a suprema manifestação da sexualidade. Na sua forma perfeitamente arredondada e na sua projeção sútil e arrebitada estão guardados os melhores sonhos masculinos. O prazer de possuir aquele pedaço de carne, em toda a sua plenitude, é o ponto mais alto do desejo masculino. Não apenas de possuir. De ver, admirar, observar, tocar, cheirar, morder e beijar.

Por que tanto assim?, me indaga a garota, ela mesma com caprichosos e suculentos glúteos. Ora, por que?... A pergunta não é boa e a resposta não pode ser melhor. Porque sim. Mas, por mais que tivesse explicações inteligentes, a garota não mudaria o seu comportamento. Sim, ela sabe que os homens enlouquecem com bundas em geral e, particularmente, com a dela, já que a tem bela e bem dotada.

Por isso, todos os dias, sem exceção, a garota se veste pensando em valorizar seu mais valioso pertence. A calça jeans dá formato arrebitado e consistente. Boa para situações diurnas, incluindo o trabalho. A saia curta revela formas e inspira a imaginação. Boa para as baladas. O shortinho promete surpresas e gestos ousados. Bom para os passeios no parque e na praça.

E assim a garota vai tecendo sua própria política do bumbum, como safadamente denomina e me revela. Não, ela não está se oferecendo. Ela não precisa expor suas qualidades para ganhar adeptos. Mas ela quer, sim, enlouquecer os homens, atiçar a imaginação dos incautos que observam aquele pedaço de pecado requebrar quando passa.

“Ela mexe com as cadeiras pra cá, ela mexe com as cadeiras pra lá. Ela mexe com o juízo do homem que vai trabalhar”, cantou Dorival Caymmi, explicando, com maestria essa questão.

Eu canto o trecho da música e a garota encerra o assunto, como se já tivesse revelado mais segredos do que deveria. E se afasta, mantendo longamente, em meu campo de visão, aquele pequeno, harmonioso e delicioso pedaço de puro tesão. Deus do céu, mas existe coisa mais linda do que aquilo? Não acredito...

quinta-feira, agosto 20, 2015

Por que as mulheres traem?


O advogado Reinaldo Lima, mais conhecido como “Naldo da Bia”, tinha uma relação muito boa com sua companheira, a arquiteta Beatriz Lima, mais conhecida como “Bia do Naldo”. Boa em todos os sentidos. Na cama, era sempre uma aventura de prazer. Nas conversas mais íntimas, o entendimento era completo. Viagens, muitas risadas, tudo era divertimento, companheirismo, prazer e satisfação. Mas então aconteceu… ela saiu com outro cara e Reinaldo descobriu.

Houve todo aquele drama, discussões, brigas, ameaças de vingança e tudo o mais. Ela garantiu que foi apenas uma aventura e que queria continuar com o relacionamento. Ele não conseguia aceitar. Precisava, antes de mais nada, descobrir o motivo pelo qual, afinal, ela o tinha traído. Primeiro, ela disse que foi apenas um tesão repentino que rolou. Depois, ela disse que o cara tinha sido muito gentil e carinhoso. Mais tarde, jurou que foi uma transa horrível, que não tinha nada a ver com o sujeito. E, finalmente, declarou-se arrependida.

Para ele, nenhuma explicação parecia suficiente para justificar a traição. Afinal, tudo o que ela falava parecia uma repetição de frases feitas, com o objetivo apenas de satisfazê-lo, sem sinceridade real. Provavelmente, ela não conseguiria mesmo dar uma explicação de forma objetiva. Essa é a diferença entre homem e mulher, nos casos de traição, pelo menos.

Homem trai por um motivo absolutamente objetivo: desejo sexual. Aquela gostosinha deu mole? Não vai perder essa chance, vai? As mulheres podem até trair por esse motivo, mas é bem raro. Dizem elas que a maioria trai para se vingar. Outras, porque já enjoaram, querem variar ou não têm mais a atenção que tinham antes. Mas dificilmente você vai ouvir uma explicação com essa objetividade da mulher que te traiu.

Mulheres não são objetivas. E se querem trair, simplesmente traem, porque não há de fato nada que as impeça. São elas que têm air-bags fantásticos, porta-malas maravilhosos e outros acessórios que nos piram o cabeção. Fazer o que?... Chifre foi feito pra macho, Reinaldo, boi só usa de enxerido... Volta para casa, pô!

terça-feira, agosto 18, 2015

Por que as bundas são tão atraentes?


Essa parece ser uma questão meio óbvia, mas o óbvio precisa ser dito: por que as bundas provocam tanto fascínio (para não dizer tesão) em nós, brasileiros? Sabemos, por exemplo, que os americanos não se ligam tanto nas rechonchudas, arredondadas e proeminentes partes do corpo feminino. Eles preferem os peitos. Grandes, de preferência.

Uma das explicações é que a mulher americana não tem bunda. São planas, “flats”, na retaguarda. Assim, na ausência, prefere-se o que existe e está disponível. Pode fazer sentido. Já aqui no Brasil somos abundantes em bundas, sem intenção de trocadilhos. Essa característica pode ser atribuída à miscigenação inigualável que tivemos com os africanos, normalmente bem dotados dessa qualidade única — e tão aproveitável. Azar dos americanos.

A bunda é atraente porque é graciosa, feminina e dá uma “quebra”, um suave desequilíbrio sensual à mulher. Daí é que surge o rebolado, aquele movimento natural, despreocupado e altamente eletrizante que tanto nos enlouquece. E como não enlouquecer?

Mas não só isso: bundas oferecem um contato físico insuperável por qualquer parte do corpo. Sentir aquela massa uniforme, rígida e generosa em contato com o seu corpo é uma dádiva da natureza do sexo. É uma questão de consistência e forma.

Por outro lado, nada é mais broxante do que uma bunda murcha. Muitos homens se apaixonam por mulheres com doces e graciosas bundas e, ás vezes, só por isso. Proliferam-se as Raimundas, feias de rosto e boas de bunda, satisfeitas por serem tão procuradas apesar de suas poucas qualidades a não ser essa.

E como evitar aquela conferida básica, fundamental, na franga que veio e agora vai, exibindo seus atributos posteriores? Quem não confere a bunda da gostosa só pode ser otário. Ou boiola.

Bundas são poemas sem palavras, arte sem cores e telas, música sem sons. E, além de tudo tem esse nome, de poderosa sonoridade, evocando sonhos e ideias de noites profundas de prazer. Bunda é a melhor coisa do mundo.

segunda-feira, agosto 17, 2015

Cinco dicas pra quem quer sexo casual


Você quer sexo casual? Ter dias mais divertidos, alegres e frutíferos, sem encucação ou cobranças posteriores? E, nesse sentido, a vida não está sendo muito generosa contigo?... Acontece, meu amigo, acontece… Mas, não deveria acontecer. Hoje, encontrar uma periguete para fazer sexo casual é mais fácil do que encontrar pastel com caldo de cana em feira livre. Elas estão aí para isso: oferecidas, dispostas, interessadas. Se você anda numa fase de “secura braba”, preste muita atenção nessas cinco dicas infalíveis.

1- Sexo é prática. Quanto menos você pratica, menos você consegue. Essa é uma lei da Natureza, não há como mudar. Sendo assim, comece a sua recuperação sem exigir muito. Lembre-se que mesmo aquela gatinha que você não considera tão atraente vale uma carcada. Pegue ela. Você vai se divertir por alguns minutos e começar a entrar no ritmo de jogo.

2. Concentre-se. Não adianta ficar tendo conversas moles com suas “amiguinhas”. Ponha na sua cabeça que o que você quer é resultado. Passar o rodo. Molhar o biscoito. Afogar o ganso. Trepar. Olhe para elas pensando nisso. Converse com elas pensando nisso. Ouça o que elas dizem pensando nisso. Não quer dizer que você tenha que falar isso, mas sim pensar. O pensamento já cria uma energia positiva para seus interesses.

3. Seja objetivo. Não fique enrolando, mandando mensagens românticas ou subjetivas. “Como é que foi o seu dia?” é uma pergunta educada e gentil. Ótimo, mas não exagere. Seja mais intenso: “Que tal passar o domingo comigo na Praia do Arrombado?”. Mesmo que você não tenha de fato essa intenção, já que no domingo vai mesmo é ver o jogo do seu time pela tevê. Se ela topar, significa que ela topa dar para você. Daí é só correr para o abraço.

4- Seja franco. Tenha, sempre que puder, conversas de cunho francamente sexuais. “Qual é a posição que você mais gosta?”. “O que você acha do frango assado com polenta?”. “Já experimentou canguru perneta na cadeira do dragão?”. Não hesite em perguntar. As periguetes adoram falar sobre sexo e, falando abertamente sobre o assunto, cria-se uma intimidade e uma tensão sexual que são muito promissoras.

5- Corra atrás de todas as bolas. Masque encontros com três, quatro, cinco periguetes de uma vez. Há uma grande porcentagem de desistências, tenha certeza, mas aumenta a probabilidade de êxito. Não ponha todos os ovos em uma mesma cesta, senão você vai acabar em casa sozinho. Quer sexo? Acredite nas estatísticas e no seu percentual de sucesso. Aumente exponencialmente a quantidade de paqueras e encontros. Sim, você vai levar muitos foras. Mas também vai pegar muitas xaninhas. Sem contar os plissadinhos. Você não é brasileiro? Então, porra, corra atrás... Brasileiro não desiste nunca!

domingo, agosto 16, 2015

Guerra urbana na fronteira econômica


No tempo da Guerra Fria haviam as fronteiras ideológicas que atravessavam países e continentes, separando o “mundo livre” do outro e dos simpatizantes do outro. Foi para defender a fronteira ideológica na América Latina que a política de contra-insurgência americana patrocinou os nossos governos militares, treinou os nossos torturadores e zelou pelas nossas respectivas seguranças nacionais.

Se apoiou tiranos, pelo menos eram “tiranos do nosso lado”, como os descreveu Jeanne Fitzpatrick, ex-delegada americana na ONU e na época a Passionaria da direita deles. A não ser que visitasse um país comunista ou frequentasse algum aparelho clandestino, você nunca cruzava a fronteira ideológica. Sequer a via. Independente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum delimitado e firme.

Quando a Guerra Fria amainou e as fronteiras ideológicas começaram a desaparecer, nos vimos livres dos generais, mas dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. Estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes – e você as cruza todos os dias. No trajeto entre seu condomínio fechado e seu escritório, ar-condicionado dentro do seu carro importado, você a cruza mais de uma vez. Passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias, e em cada sinal que para, está na Somália.

É impossível defender esta fronteira. A grande questão deste novo século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora. Os americanos não podem ajudar desta vez. A fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. E, afinal, eles não conseguiram invadir todas as somálias.

No Brasil da criminalidade crescente experimenta-se com uma versão da teoria da segurança nacional adaptada às fronteiras econômicas. Enfrenta-se ao mesmo tempo uma bandidagem organizada e a falência de uma organização policial. Mas no fim é uma guerra de contenção, de proteção de perímetro. E os excessos cometidos podem ser defendidos como a sra. Fitzpatrick defendia a política americana: os fins justificam as barbaridades.

As chacinas no campo e na cidade, a liberdade de pequenos tiranos de uniforme para serem arbitrariamente violentos, até as condições subumanas de nossas cadeias, tudo é permitido porque não se está apenas mantendo a ordem, está-se defendendo uma pátria ameaçada, a pátria do privilégio e da insensibilidade social. Tudo é escaramuça na fronteira.

E quem sabe não seremos um laboratório para o mundo? A mão da história indica uma sociedade em que a única solução para os excluídos será mata-los. A não ser, claro, que de uma hora para outra todos os pobres decidam renunciar à sua condição e tornar-se capitalistas instantâneos, como fizeram os comunistas, naquela outra guerra.

sábado, agosto 15, 2015

Um certo lamento feminino


Rafael Galvão

O Hermenauta me manda um texto da Ruth Manus, publicado há algum tempo no Estadão, em que ela lamenta a triste sorte das mulheres hoje em dia, sonhando com um homem inexistente que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

A colunista olha em volta e não encontra esse homem. A culpa é, em última análise, da sociedade, esse ente indefinível que cria homens que fogem de mulheres independentes. Reclama que não ouviu esse discurso de nenhum homem. “Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.”

(Vamos desconsiderar o primeiro parágrafo que só serve para ambientar a situação, a besteira que é alguém sonhar com uma mulher assim. Como seria uma besteira uma mulher sonhar com um homem que trabalhe 16 horas por dia, que viva respondendo a emails ou telefonemas de trabalho extemporâneos e que tenha que fazer serão — com ou sem a secretária — dia sim, dia não. Se é para sonhar, vamos sonhar direito.)

Vamos desconsiderar também o fato de que a última sentença parece indicar que tudo isso é apenas um grande e elaborado lamento por não ter um homem para chamar de seu. O fato é que eu poderia fazer esse discurso, se isso a confortasse. Casado algumas vezes, olho para trás e vejo que nenhuma de minhas mulheres se encaixa no perfil que ela acha que os homens querem. Cozinho melhor que elas; todas tiveram trajetória acadêmica melhor que a minha; a maior parte teve, sim, subordinados em algum momento da vida. Mas isso não é sobre elas, é sobre a inexistência de homens que admitam mulheres que não dependam deles. Talvez por isso, por comparar a minha própria trajetória com a da moça descrita no texto, fiquei me perguntando de que mundo fala a colunista.

Pistas vêm mais adiante. Ela fala da educação que recebeu, dos cursos, do incentivo entusiasmado dos pais para que ela desenvolvesse seu potencial e garantisse independência. Indica também uma mulher bem-sucedida. A combinação específica de salto alto e overload de e-mails (mais adiante ela menciona subordinados) indica uma mulher que certamente não é nem vendedora nem operadora de telemarketing.

O primeiro problema do texto está aí. Ela descreve o mundo quase idílico da classe média — a velha, não a nova. É o mundo daqueles cujos pais lhes possibilitaram (geralmente com pai e mãe trabalhando em tempo integral) acesso a oportunidades variadas em sua formação. Fala daquela parte abençoada da sociedade cujas necessidades básicas, e boa parte de suas aspirações, já são atendidas — justamente porque uma geração anterior de mulheres se sacrificou para garanti-las. O mundo sofisticado daqueles que, em vez de um feriadão na Praia do Forte ou até mesmo quatro noites em Paris pela CVC, almeja uma viagem para o Leste Europeu.

Talvez se ela olhasse para o mundo das comerciárias, das funcionárias públicas, das professoras, visse um mundo levemente diferente. E talvez ela aventasse a possibilidade que esse mundo de homens querendo dondocas dependentes e ignorantes aconteça apenas nas vidas dos super-ricos; nas dos mortais reles, coitados, isso é impossível.

Nesse mundo, as pessoas não apenas precisam trabalhar: elas esperam que as outras trabalhem, também. E nesse mundo, ao que parece a maior parte das mulheres não está preocupada com os problemas que parecem afligir a personagem do texto da Ruth Manus; ou porque já têm o seu merecido quinhão ou porque simplesmente têm mais o que fazer.

Claro que há homens como os que povoam os pesadelos da Ruth Manus. Há piores, na verdade. Esses bichos costumam vir em todos os tipos e cores. Há moços antigos assim e moços modernos, rapazes que querem filhos e rapazes que não os querem, senhores que se pudessem prenderiam a mulher em casa e senhores que dividem a mulher graciosamente com outros, cavalheiros que ajudam em casa e cavalheiros que se especializam na doce arte da gigolagem.

Mas há muito tempo o homem que se vê como provedor único da casa, senhor absoluto da família e da mulher mantida em rédeas curtas, deixou de ser a norma, ou mesmo parte significativa. Não porque eles quisessem ou deixassem de querer, que isso é irrelevante: mas porque a necessidade os obrigou.

A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho a partir da II Guerra alterou, aos poucos mas para sempre, as configurações familiares no mundo inteiro. E assim como a classe média passou a se condoer da situação das empregadas domésticas a partir do momento em que não precisou mais delas — ou, mais acuradamente, não pôde mais mantê-las —, a grande maioria das famílias passou a tomar como garantido o fato de que todos precisam trabalhar para garantir padrões de vida mais ou menos adequados às suas aspirações.

A colunista parece ver seus problemas como resultado do machismo inculcado nos homens desde sempre. Mas certamente não é nessa esfera que está o grande problema causado pelo machismo, pela maneira como a sociedade educou seus varões, e nem vamos falar aqui de outros ainda mais graves, como agressões, disparidades salariais, essas coisas. Aquele tipo de problema é mais facilmente visto nas famílias com filhos, em que normalmente a mulher acaba sobrecarregada. Mas não é disso que o artigo trata.

De vez em quando se vê por aí textos em que mulheres tentam fazer passar suas carências e preocupações idiossincráticas por feminismo, ou ao menos pelo diagnóstico de um problema universal feminino. Esse é um deles. Tenho a impressão de que se essa moça fizesse uma pesquisa rápida e procurasse ver com quem os homens que poderiam interessá-la estão (aqueles comprometidos e satisfeitos com isso, claro), teria uma surpresa desagradável. O mais provável é que os encontrasse com mulheres que incorporassem, ao menos em parte, os predicados descritos no início do texto.

Relações interpessoais são sempre complicadas. E os anos que passam me fazem desconfiar cada vez mais que grande parte desses problemas se devem a desencontros. Mas nesse caso específico, a Manus personifica as reclamações não de homens, mas das mulheres que acham que a vida lhes passou uma rasteira e não lhes deu de presente um conto de fadas moderno. Não parece haver muitos homens por aí lamentando que as mulheres se emanciparam e por isso eles estão solteiros, apesar do MBA em Harvard que ostentam no currículo, apenas porque não encontram mais amélias submissas como antigamente. E é isso que faz desse texto pouco mais que o lamento de uma moça bem sucedida de classe média reclamando que a educação primorosa que teve não lhe serviu para o que era mais importante: arranjar um marido.

sexta-feira, agosto 14, 2015

A CUT anuncia a luta armada para defender a mamata concedida na república dos pixulecos


Valentina de Botas

É normal passear aos domingos, como neste 16 de agosto, um domingo como outro qualquer e isso o torna especialíssimo: é coisa corriqueira cidadãos de um país que buscam a trilha da civilização marcharem contra um governo ladrão e inepto, anormal é não fazê-lo; e é especial porque levou 13 anos para raiar. Somos corriqueiros, portanto reconhecemos quando o destino salpica coisas especiais no nosso cotidiano acostumado a si mesmo.

Então, tudo se perfuma, não é mesmo? São ridículos os atos grandiloquentes, cansativas as falas retumbantes. Há virtude e nobreza em viver na trivialidade. Sonhamos; nascemos; temos na ponta da língua, sem conseguir lembrar, o nome daquele filme com aquele ator que teve um caso com aquela atriz que era a preferida daquele diretor. Que mais? Desperdiçamos nosso tempo e o alheio; perdemos a hora.

Coisas básicas, comezinhas, emprestando algum sentido à realidade que quase sempre se vira sem ele. Dilma Rousseff, continuadora do regime que torna o assalto ao Estado uma normalidade com a qual o brasileiro vinha se ajeitando e dando graças Deus; a presidente que verga, mas não quebra porque lhe foi mais lucrativo quebrar a Petrobras; e que, vestindo a legitimidade do cargo como uma roupa que não lhe serve mais, janta com autoridades dos três poderes rebaixadas no festim escarnecedor para deglutir a institucionalização do país.

A incompetência e a arrogância convictas mantêm Dilma alheia ao agravamento da crise econômica e em confronto com a maioria da população. Assim, o presidente da CUT, nutrida por uma grana da qual está dispensada de prestar contas recolhida até de quem não é sindicalizado, anuncia a luta armada para defender a mamata concedida na república de pixulecos. A grandiloquência da patifaria no Palácio da Alvorada, patrimônio de todos nós que pagamos tudo, ofensiva à democracia verdadeira, louva a democracia fictícia dos vigaristas em mais um ato de escárnio com as instituições e a nação.

Com que armas o sindicalista paramilitar lutará? Compradas onde e de quem? Vai atirar em gente desarmada? Os que marcharemos no domingo não temos sequer as oposições, armados que estamos apenas com a lei e nossa indignação. A presidente encontra-se sitiada pela lei, da eleitoral ao código penal, e não pela “turma do Leblon” ou “dos Jardins”, ao contrário do que vociferou o líder do MTST que fura a fila das moradias populares. Cerzindo a continuidade do mandato com apoios comprados e arrendados, nessa hybris sem volta, Dilma Rousseff insiste em ignorar os anseios por normalidade da população.

Claro, dia 17 seremos ainda um país onde apenas metade das residências tem rede de esgoto, com uma educação desoladora, com uma canalha política gozando a vida, enfim, ainda um país sob a vigência de mazelas curáveis se aplicado o tratamento correto, mas a passividade diante da anomalia chamada PT, o fenômeno mais sórdido da história da república, é vulnerabilidade que agrava todas as outras. Dia 16 só será especial se os indignados marcharmos pela normalidade.

“O medo das ruas” e outras seis notas de Carlos Brickmann


Dilma, ao contrário do que diz a sabedoria popular, está pronta a ceder os dedos para manter os anéis. Aliás, o que Dilma mais teme é a sabedoria popular, aquela que vem das ruas e que deve se manifestar no domingo, 16: para sobreviver, chegou a pedir socorro a Renan Calheiros. Ele tem experiência: foi um dos principais articuladores de Collor, o primeiro a perder legalmente a presidência.

Dilma solicitou a Renan que, no Senado, bloqueie os torpedos disparados da Câmara por Eduardo Cunha. Como os dois são correligionários, pediu-lhe também que neutralize o poder de Cunha no PMDB. Renan concordou e apresentou-lhe um programa de governo, em que o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Se este é o seu programa, ainda bem que não é o presidente.

Dilma almoça hoje com Lula e com o vice Michel Temer ─ de quem não gosta, a quem sempre tratou com descaso e que foi obrigada a engolir fazendo cara boa (o máximo possível). Por Lula, tem o temor reverencial, tem a paixão por ele de todo petista, mas tem o medo de que Lula passe por cima dela. Dilma, embora faça uma força danada para não governar, odiaria ser rainha da Inglaterra.

Dilma busca a saída. Mas deveria reler (ou ler) Alice no País das Maravilhas.

Alice ─ Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?

─ Isso depende muito de para onde quer ir ─ responde o Gato de Cheshire.

Alice ─ Para mim, acho que tanto faz… – disse a menina.

─ Nesse caso, qualquer caminho serve ─ afirmou o Gato.

A dona da ideia

Quem lembrou Alice, um delicioso clássico da literatura, foi uma excelente jornalista, Bety Costa.

E ela nem citou a Rainha Louca, a que cortava cabeças.

Renan em ação

Em 1962, eleito governador de São Paulo, Adhemar de Barros chamou o professor Delfim Netto e encomendou à sua equipe um programa de governo. Delfim, antes da posse, entregou-lhe o texto completo. Adhemar mandou traduzir tudo para o inglês, encadernou as duas versões e disse a Delfim: “Vou botar na biblioteca do palácio. Quero ver agora quem diz que não tenho programa”.

As sugestões de Renan não foram bem trabalhadas como as de Delfim, estão apenas em português, mas seu destino é o mesmo: a prateleira. Não são para valer: apenas servem para dar base à distribuição de cargos e benefícios. Se fossem aplicadas, resultariam em boa melhora das finanças, mas não das públicas.

Socorro, Janot

A melhor saída da crise para Dilma, neste momento (só neste: mais tarde a coisa até pode piorar), depende do promotor Rodrigo Janot. Se ele fizer a denúncia contra Eduardo Cunha, enfraquecerá o presidente da Câmara, hoje líder inconteste da oposição. Mas pode atingir também Renan Calheiros, e tudo muda ─ menos a situação da presidente.

Porque, vale repetir, seu problema não é a crise, não é a política, não é Cunha: seu problema é que ninguém mais a leva a sério.

Do sarcasmo ao deboche

O Piauí Herald (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald), publicação humorística sofisticada, está tratando assim os problemas da presidente Dilma:

“A nova propaganda do PT começou a circular hoje:

“CASAS BRASÍLIA ─ Ciente da gravidade crescente da crise política, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, enviou um recado para toda a base aliada. ‘A presidenta enlouqueceu! Queima total de estoque de cargos comissionados! Garanta o futuro de três gerações de afilhados políticos!’, narrou o petista pelo alto-falante do Congresso, provocando alvoroço.

“O governo prometeu lançar na semana que vem outras propostas gestadas pelo gabinete de crises. ‘Não há tempo para mais nada! Começou o Mandato Maluco! Toda sexta-feira, um promoção enlouquecedora para quem fizer o cartão de fidelidade’, explicou, pausadamente, Edinho Silva num megafone emprestado pela CUT”.

Humor involuntário

Ainda mais estranho que o comportamento da presidente em crise é o da oposição ─ não a oposição real, comandada por Eduardo Cunha, mas a que se proclama oposição, do PSDB. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, disse que cabe ao governo, não à oposição, buscar soluções para as crises política e econômica enfrentadas pelo país. O governador paulista Geraldo Alckmin disse que Dilma “não pode responsabilizar os outros por problemas que ela própria criou”.

Isso explica por que as candidaturas presidenciais de Alckmin e Aécio deram em água de chuchu: se a oposição não tem sugestões para resolver a crise, por que colocá-la no lugar do governo? Por que trocar seis por meia dúzia? A propósito, se a oposição real nasceu dentro do governo, para que oposição?

Atenção ao Supremo!

O Supremo Tribunal Federal inicia amanhã um julgamento da maior importância: decide se é crime ou não portar drogas para uso pessoal. É uma questão constitucional (se o Estado tem o direito de se envolver na vida íntima dos cidadãos) e tem repercussão geral: a decisão vale para todos os casos, em todo o país.

O escândalo é único


José Nêumanne

Que WikiLeaks, que Swissleaks, que cartéis mexicano e colombiano de drogas, que Fifagate, que nada! O escândalo top do mundo hoje é outro. Nada se lhe compara em grandeza aritmética, ousadia delituosa ou desrespeito a valores éticos. E é coisa nossa! Embora nada tenhamos a nos orgulhar de que o seja. Ao contrário!

Após se ter oposto ferozmente à escolha de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral para dar início à Nova República; à posse e ao governo de José Sarney, a Fernando Collor, que ajudou a derrubar; ao sucessor constitucional deste, Itamar Franco, de cuja ascensão participou; e a Fernando Henrique Cardoso, o Partido dos Trabalhadores (PT) chegou ao governo federal com seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva, e se lambuzou no pote de mel do poder sem medo de ser feliz.

O primeiro objetivo caiu-lhe no colo como a maçã desabou sobre a cabeça de Newton. Era de uma obviedade acaciana. Sob crítica feroz da oposição, que o PT comandava, os tucanos privatizaram a Telebrás e, devidamente desossado, o filé apetitoso das operadoras de telefones foi devorado na nova administração. Sob as bênçãos e os olhos cúpidos do padim Lula, a telefonia digital foi entregue a consórcios nos quais se associaram algumas operadoras internacionais, com a experiência exigida no ramo, burgueses amigos e fundos de pensão, cujos cofres já vinham sendo arrombados pelos mandachuvas das centrais sindicais. Nunca antes na história deste país houve chance tão boa para mergulhar na banheira de moedas do Tio Patinhas.

Só que o negócio era bom demais para ser administrado em paz. Logo os concessionários se engalfinharam em disputas acionárias, que mobilizaram a Polícia Federal (PF), a Justiça nacional, os órgãos de garantia de combate a monopólios e até instrumentos de arbitragem internacional. No fragor da guerra das teles, os primeiros sinais de maracutaia dividiram as grandes rotas com os aviões de carreira. Sabia-se que naquele pirão tinha caroço. Mas quem ficou com a parte do leão?

Impossível saber, pois este contencioso está enterrado sob sete palmos de terra. Desde o Estado Novo, os sindicatos operários ou patronais administram sem controle externo caixas que têm engordado ao longo do tempo com a cobrança da Contribuição Sindical, que arrecada um dia de trabalho de todo trabalhador formal no Brasil, seja ou não sindicalizado. Sob a égide de Lula, as centrais sindicais foram incluídas na divisão desse bolo gordo e açucarado. E o sistema financeiro, acusado de ser a sanguessuga do suor do trabalhador, incorporou a esse cabedal os fundos de pensão. Sob controle de dirigentes sindicais, estes ocultam uma caixa-preta que ninguém tem poder nem coragem para abrir.

Só que o noticiário sobre tais episódios foi soterrado pela avalanche de denúncias provocada pelas revelações da Ação Penal (AP) 470, já julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e conhecida popularmente pela denominação que lhe foi dada pelo delator, Roberto Jefferson – o mensalão. Agora, após seu julgamento ter sido concluído e com os réus condenados, este é visto quase como lana-caprina desde a eclosão de outro mais espetacular: a roubalheira do propinoduto da Petrobras devassada pela Operação Lava Jato. Mas a cada dia fica mais claro que os dois casos se conectam e se explicam.

A importância de elucidar um crime ao investigar outro foi comprovada quando, na Operação Lava Jato, a PF encontrou nos papéis de Meire Poza, contadora do delator premiado Alberto Youssef, a prova de que o operador do mensalão, Marcos Valério, deu R$ 6 milhões ao empresário Ronan Maria Pinto, como tinha contado em depoimento referente à AP 470. Segundo Valério, essa quantia evitaria chantagem de Ronan, que ameaçava contar o que Lula e José Dirceu tinham que ver com o sequestro e a morte de Celso Daniel, que era responsável pelo programa de governo na campanha de 2002.

Mas nem essa evidência da conexão Santo André-mensalão-petrolão convence o PSDB a dobrar a oposição do relator da CPI da Petrobras, Luiz Sérgio (PT-RJ), e levar Ronan a depor, como tem insistido a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP). É que os tucanos articulam uma aliança com o atual dono do Diário do Grande ABC para enfrentar o petista Carlos Alberto Grana na eleição municipal de Santo André. E este corpo mole pode dificultar o esclarecimento da verdade toda.

A Lava Jato já produziu fatos antes inimagináveis, como acusações contra os maiores empreiteiros do País e até a prisão de vários deles. É o caso de Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, que presidia o Conselho de Administração da Oi na guerra das teles. Isso revela mais um investigado em mais de um escândalo. Como Pedro Corrêa e José Dirceu, acusados de receber propina da Petrobras quando cumpriam pena pelo mensalão.

A Consuelo Dieguez, em reportagem da revista Piauí, publicada em setembro de 2012, Haroldo Lima, que tinha sido demitido por Dilma da presidência da Agência Nacional de Petróleo, disse que, no Conselho de Administração da Petrobras, ele, a presidente e o ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli só votavam como o chefe mandava. E agora Lula é investigado por eventual lobby para a Odebrecht no exterior em obras financiadas pelo BNDES, a ser devassado em breve numa CPI na Câmara.

E a Lava Jato chegou à eletricidade. Walter Cardeal, diretor da Eletrobrás que acompanha Dilma desde o Rio Grande do Sul, foi citado na delação de Ricardo Pessoa, tido como chefe do cartel do petrolão, acusado de ter negociado doação de R$ 6,5 milhões à campanha da reeleição dela. Othon Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, foi preso ontem, sob suspeita de ter recebido propina.

Teles, fundos de pensão, Santo André, mensalão, BNDES, eletrolão e petrolão não são casos isolados. Eles compõem um escândalo só, investigado em Portugal, Suíça e EUA: é este Brasil de Lula e Dilma.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Domingo é dia de bater lata, moçada!


Manuel Bandeira escreveu um dos refrões nacionais quando ansiou por estar em Pasárgada, onde era amigo do Rei. É o que todos nós queremos. Até dispensaríamos os outros atrativos da terra sonhada pelo poeta – ginástica, bicicleta, burro brabo, pau-de-sebo, banho de mar, beira de rio e mulher desejada na cama escolhida – se tivéssemos a consideração de nosso amigo, o Rei.

Para alguns, ser amigo do Rei significa ter influência no governo, qualquer governo. Para outros, significa ter dado o passo mágico com o qual, no Brasil, os que estão por fora passam para dentro. Ter transposto o balcão que separa os que atendem mal dos que são mal atendidos pelo Estado.

O serviço público é a Pasárgada de muita gente, mesmo que, ao contrário da Pasárgada de Bandeira, não tenha tudo nem seja outra civilização – seja um serviço mal pago com poucos privilégios. Não importa – está-se ao lado do Rei, livre da danação de ser apenas outro cidadão brasileiro.

A amizade do Rei é desejável justamente porque, num país como o Brasil, não basta ser cidadão para ter direitos de cidadão. Nossa grande ânsia por Pasárgada vem desta consciência do Estado não como algo que nos serve, mas como um clube de poucos, do qual é preciso ser membro porque a alternativa é ser sua vítima. Outra Pasárgada é a terra do dinheiro e do pistolão, dos que podem olhar as filas do SUS e a miséria à sua volta como se olhassem outro país, no qual felizmente não vivem.

Agora, Pasárgada mesmo, Pasárgada além da sonhada, é não ser só amigo do Rei, é ser da sua corte. Ser da minoria dentro da minoria que desmanda no país. Estar no centro dessa teia de cumplicidade tácitas que sobrevive a toda retórica reformista e enreda, suavemente, quem chega a ela, por mais bem-intencionado que chegue. É uma confraria sem estatutos ou regras claras, uma confraria que nem bem conhece a si mesma. Você só sabe que está em Pasárgada, e que é bom.

Como existem cemitérios de boas intenções, descartadas na entrada da corte! O truísmo que todo poder corrompe tem sua versão brasileira: aqui o poder, além de corromper, ameniza. Até os meliantes presos são considerados “guerreiros da nação” porque são amigos do Rei.

Para os inimigos do Rei, os fodidos e mal pagos, nosotros que nos chamamos legião, resta apenas o artifício de bater latas, para perturbar a paz da realeza. Domingo é o dia!

quarta-feira, agosto 12, 2015

O verdadeiro técnico da Seleção Canalhinha


Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado?... Errado. Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro e eterno técnico da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas.

Todos os técnicos da seleção brasileira seriam, na realidade, prepostos de Deus, o que explica o seu ar arrogante e sua recusa em aceitar nossos palpites. Só a certeza de terem uma delegação divina explica que os técnicos da seleção ignorem, sistematicamente, os conselhos dos que entendem de futebol mais do que eles – nós – e se julguem os donos da verdade. Nenhum ainda confessou que recebe orientações diretamente de Deus, mas isso está implícito na sua soberba.

Que Deus é o técnico vitalício do Brasil pode ser provado, e não apenas pela quantidade de Copas que vencemos e pela nossa superioridade incontestada no futebol em priscas eras. As próprias derrotas do Brasil são da responsabilidade de Deus, para não dar muito na vista e manter a ficção da sua neutralidade. A derrota de 7 a 1 para a Alemanha foi o jeito que o Todo-Poderoso encontrou para nós voltarmos a encontrar a humildade perdida.

Além disso, Deus, nas alturas, está na posição que todos os técnicos consideram a ideal para ver o jogo. Mas como é onipresente pode estar lá em cima e falando com o seu auxiliar do lado do campo ao mesmo tempo, sem a necessidade de walkie-talkie ou celular.

Se Deus precisa disfarçar, de vez em quando, que é o verdadeiro técnico do Brasil, seus delegados na Terra nem sempre têm esse cuidado. O ar de auto-satisfação do Dunga que tanto irrita seus colegas, o resto da população, é na verdade uma falha no disfarce.

Está na cara do Dunga que ele se reúne periodicamente com Deus para tratar da estratégia da seleção e que nós podemos estrilar à vontade, porque ele só deve satisfações ao seu Chefe.

Agora dizem que a perspectiva de enfrentar o Chile deixa até Deus preocupado. “Essa nem Eu arrisco um palpite”, costuma dizer o Todo-Poderoso, encurvado sobre os seus esquemas. É esperar pra ver! (LFV)