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quinta-feira, maio 25, 2017

Sem rumo e sem noção


São um insulto aos brasileiros de bem e um escárnio da Justiça os termos da colaboração premiada assinada entre o sr. Joesley Mendonça Batista e a Procuradoria-Geral da República (PGR), já que acintosa e escandalosamente benéficos ao delator. Depois de ter praticado graves e inúmeros crimes, o sr. Joesley recebeu tão somente uma multa de R$ 110 milhões, que, diante do seu patrimônio, é irrisória.

Atônito ficou o País ao saber que o Ministério Público (MP) se comprometeu a não oferecer denúncia contra o sr. Joesley em relação a qualquer dos crimes delatados, em frontal desobediência à lei, que veda esse tipo de benefício aos que são líderes de uma organização criminosa (Lei 12.850/2013, art. 4.º, § 4.º, I).

Não era necessária especial sagacidade à Procuradoria para atinar que o sr. Joesley era, de fato e de direito, o líder da organização criminosa. Nos vídeos gravados pela PGR, a fala do sr. Joesley é explícita a respeito de quem tinha a voz de comando na operação, definindo o que fazer e o que não fazer.

Ainda mais grave que a colaboração premiada foi a reação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, diante dos questionamentos a respeito da lisura e da conveniência de uma delação tão benéfica a um criminoso da laia do sr. Joesley. Evidencia que o País tem hoje um procurador-geral da República desnorteado, que parece desconhecer o seu papel e a sua responsabilidade.

Em artigo publicado no portal UOL, Janot reclama que “o foco do debate foi surpreendentemente deturpado. Da questão central – o estado de putrefação de nosso sistema de representação política – foi a sociedade conduzida para ponto secundário do problema – os benefícios concedidos aos colaboradores”.

Ora, o debate não foi deturpado. É plenamente legítimo que a sociedade questione a razão para se conceder um ilegal benefício ao sr. Joesley. O procurador-geral, no entanto, não está disposto a debater essa questão, e prefere simplesmente reafirmar sua querida tese: “O estado de putrefação de nosso sistema de representação política”.

Eis aí uma deficiência séria que se observa na atuação do Ministério Público. Alguns de seus membros estão deixando de lado o trabalho que lhes cabe – a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, como diz a Constituição – para se ocuparem primordialmente de uma causa política, a demonstração de que todas as instituições, exceto o Ministério Público, estão podres.

Tal visão das coisas não encontra respaldo nos fatos. O sr. Joesley garantiu que não comprava apenas políticos, mas também procurador. Ou seja, o MP não é incorruptível e exige, como qualquer instância pública, controle e acompanhamento.

Com toda essa história, ficou claro que o sr. Joesley conseguiu engambelar perfeitamente o procurador-geral. “Em abril deste ano, fui procurado pelos irmãos Batista”, narra Rodrigo Janot no artigo que publicou em sua defesa. “Trouxeram eles indícios consistentes de crimes em andamento – vou repetir: crimes graves em execução –, praticados em tese por um senador da República e por um deputado federal.”

Como se saberia depois, ele não resistiu aos encantos dos dois irmãos e deu-lhes remissão da pena em troca das preciosas informações que eles tinham para contar. Das quais, por sinal, não verificou a veracidade antes de dar-lhes publicidade.

Melhor seria que o MP não estivesse tão desejoso de receber com facilidade delações e denúncias, e se dedicasse à investigação propriamente dita. Trabalhasse da forma como deveria, sem entrar em choques tão frequentes com a Polícia Federal, o procurador-geral da República não teria tanta certeza, mencionada no artigo, “de que o sistema de justiça criminal jamais chegaria a todos esses fatos (narrados pelos irmãos Batista) pelos caminhos convencionais de investigação”.

É perigoso para um País quando o procurador-geral da República confere mais crédito aos caminhos não convencionais que aos caminhos convencionais de investigação. Como se vê, há mais que indícios de que o sr. Janot já não sabe onde se situa o norte firme da lei e da Constituição.
Se excessos ou omissões há de sua parte, a Constituição prevê caminhos para sua substituição. Afinal, numa República, sempre deve prevalecer a lei e a ela também se sujeita aquele que deve guardá-la.

Sete cervejas bem invocadas


Se você acha que adicionar frutas, nozes e outras especiarias é o bastante para deixar uma cerveja bem diferente do tradicional, saiba que a criatividade dos cervejeiros já desenvolveu receitas bem mais inesperadas. Desde alho e tomates, até um viagra natural e um composto da Cannabis, essas sete cervejas incluem ingredientes nada convencionais. Confira:

Pizza líquida

A Mamma Mia! Pizza Beer foi inventada quase por acaso. Tom e Athena Seefurth, os criadores, gostavam de preparar cervejas em casa. A primeira “pizza beer” foi uma Saison produzida com uma erva de cada tipo que eles tinham no jardim: sálvia, alecrim, manjericão, orégano e hortelã fresca.

No ano seguinte, o casal norte-americano produziu uma cerveja para ser harmonizada especificamente com pizza e então adicionaram à receita manjericão, orégano, tomate e alho. Segundo Tom, a cerveja pode ser harmonizada com cachorros quentes, salsicha, alimentos de origem italiana, peixe frito e camarão. Também pode ser usada para temperar frangos, ou usada para fazer canapés com cerveja.

Bacon engarrafado


Se bacon e cerveja podem ser bons separados, imagine juntos. A cervejaria norte-americana Rogue é a responsável pela produção (atenção, o nome é grande) da Voodoo Doughnut Bacon Maple Ale. De estilo Brown Ale, a Bacon Maple Ale tem uma cor âmbar e aroma adocicado, balanceado pelo sabor picante de bacon defumado.

Segundo a cervejaria, a Bacon Maple Ale é ideal para harmonizar com sobremesas, rosquinhas e, é claro, pernil de porco assado.

Barba, cerveja e bigode


Outro rótulo da cervejaria Rogue, a Beard Beer é feita com um ingrediente bastante peculiar. É produzida com uma levedura criada a partir da barba do mestre cervejeiro John Mayer. Ninguém precisa surtar: cervejeiros usaram leveduras selvagens na fabricação de cerveja durante séculos.

John mantém a mesma barba desde 1978 e há mais de 18 mil cervejas, por isso, diz a Rogue, “não é uma grande surpresa que um fermento natural para a fabricação de cerveja tenha sido descoberto em sua barba”. De estilo American Wild Ale, combina com carnes de gado, sobremesas, pato e porco.

Vai um leite?


Produzida pela cervejaria japonesa Abashiri Brewery, a Bilk é uma cerveja com leite. A ideia surgiu para tentar aproveitar o excedente de leite que acabaria sendo jogado fora pelos produtores de Hokkaido, segunda maior ilha do arquipélago japonês.

Como o leite tem baixo ponto de ebulição, a cervejaria controla a temperatura durante o processo para que o leite não ferva. Depois, acrescenta levedura de cerveja e lúpulo e começa o processo de fermentação. A bebida tem um gosto frutado.

Viagra natural


Maior cervejaria independente da Escócia, a BrewDog lançou em 2011 uma edição limitada da Royal Virility Performance, cuja receita continha o chamado viagra natural (composto de ervas que teria o mesmo efeito do remédio) e outros afrodisíacos. A edição especial foi produzida no embalo do casamento real do príncipe William e Kate Middleton, em abril daquele ano.

De acordo com a cervejaria, a Royal Virility Performance continha viagra natural, chocolate, horny goat weed (“bode tarado”, um tipo de suplemento natural cuja função é aumentar a potência sexual) e uma “dose saudável de sarcasmo”. De estilo India Pale Ale (IPA), foi vendida online na data do casamento real, e a BrewDog enviou uma garrafa inclusive ao Príncipe William.

Peixe, isso mesmo


Geralmente, peixe não é o primeiro alimento que vem à cabeça quando se pensa em bons ingredientes para misturar com cerveja. Pois a Tosa Kuroshio Karyudo Beer é uma cerveja fabricada na cidade de Konan, no Japão, exatamente com este ingrediente.

A cerveja de peixe tem 5% de teor alcóolico e contém farinha de arroz e lúpulo. Os cervejeiros adicionaram dashi, caldo de peixe também usado em sopas tradicionais japonesas. O dashi é feito a partir da combinação de algas e Bonito, uma espécie de peixe semelhante ao atum.

Cânhamo, isso mesmo


A cervejaria californiana Humboldt Brewing produz a Hemp Ale, cerveja de estilo Brown Ale fabricada com sementes de cânhamo tostado que, segundo os produtores, adicionam um sabor de ervas à bebida. De cara, a cervejaria deixa claro que a bebida não é produzida com maconha, mas com cânhamo, e explica a diferença:

“Cânhamo é um termo usado para designar os produtos derivados da planta Cannabis, o que inclui fibras, óleo e sementes. As cepas de cânhamo da planta Cannabis têm porcentagem tão baixa de tetraidrocanabinol (THC) que não podem afetar o comportamento”.

E continua: “Ninguém pode ficar chapado bebendo a Hemp. Você só vai viajar no sabor. E talvez ficar um pouco tonto, mas isso é por causa do álcool”. De estilo American Brown Ale, a Hemp Ale já ganhou quatro prêmios no mercado cervejeiro.

O falso dilema de um bom acordo


Por Rodrigo Janot (*)

Três anos após a deflagração da Operação Lava Jato, com todos os desdobramentos que se sucederam, difícil conceber que algum fato novo ainda fosse capaz de testar tão intensamente os limites das instituições. Mas o roteiro da vida real é surpreendente.

Em abril deste ano, fui procurado pelos irmãos Batista. Trouxeram eles indícios consistentes de crimes em andamento – vou repetir: crimes graves em execução –, praticados em tese por um Senador da República e por um Deputado Federal.

Os colaboradores, no entanto, tinham outros fatos graves a revelar. Corromperam um procurador no Ministério Público Federal. Apresentaram gravações de conversas com o Presidente da República, em uma das quais se narravam diversos crimes supostamente destinados a turbar as investigações da Lava Jato.

Além desses fatos aterradores, foram apresentadas dezenas de documentos e informações concretas sobre contas bancárias no exterior e pagamento de propinas envolvendo quase duas mil figuras políticas.

Mesmo diante de tais revelações, o foco do debate foi surpreendentemente deturpado. Da questão central – o estado de putrefação de nosso sistema de representação política – foi a sociedade conduzida para ponto secundário do problema – os benefícios concedidos aos colaboradores.

Quanto valeria para a sociedade saber que a principal alternativa presidencial de 2014, enquanto criticava a corrupção dos adversários, recebia propina do esquema que aparentava combater e ainda tramava na sorrelfa para inviabilizar as investigações?

Até onde o país estaria disposto a ceder para investigar a razão pela qual o Presidente da República recebe, às onze da noite, fora da agenda oficial, em sua residência, pessoa investigada por vários crimes, para com ela travar diálogo nada republicano?

Que juízo faria a sociedade do MPF se os demais fatos delituosos apresentados, como a conta-corrente no exterior que atendia a dois ex-presidentes, fossem simplesmente ignorados?

Foram as perguntas que precisei responder na solidão do meu cargo. A gravidade do momento, porém, fez-me compreender claramente que já tinha em mim as respostas há pelo menos trinta e dois anos, quando disse sim ao Ministério Público e jurei defender as leis e a Constituição do país.

Embora os benefícios possam agora parecer excessivos, a alternativa teria sido muito mais lesiva aos interesses do país, pois jamais saberíamos dos crimes que continuariam a prejudicar os honrados cidadãos brasileiros, não conheceríamos as andanças do Deputado com sua mala de dinheiro, nem as confabulações do destacado Senador ou a infiltração criminosa no MPF.

Como Procurador-Geral da República, não tive outra alternativa senão conceder o benefício da imunidade penal aos colaboradores, alicerçado em três fortes premissas: a) a gravidade de fatos, corroborados por provas consistentes que me foram apresentadas; b) a certeza de que o sistema de justiça criminal jamais chegaria a todos esses fatos pelos caminhos convencionais de investigação; e, por fim, c) a situação concreta de que, sem esse benefício, a colaboração não seria ultimada e, portanto, todas as provas seriam descartadas.

Para os que acham que saiu barato, anoto as seguintes considerações pouco conhecidas: no acordo de leniência, o MPF que atua no primeiro grau propôs o pagamento de multa de 11 bilhões de reais; as punições da Lei de Improbidade e da Lei Anticorrupção ainda estão em aberto; no que se refere às operações suspeitas no mercado de câmbio, não estão elas abrangidas pelo acordo e os colaboradores permanecem sujeitos à integral responsabilização penal; e, por fim, a colaboração é muito maior que os áudios questionados.

Sem jactância e apesar de opiniões contrárias, estou serenamente convicto de que tomei, nesse delicado caso, a decisão correta, motivado apenas pelo desejo de bem cumprir o dever e de servir fielmente ao país.

Finalmente, tivesse o acordo sido recusado, os colaboradores, no mundo real, continuariam circulando pelas ruas de Nova York, até que os crimes prescrevessem, sem pagar um tostão a ninguém e sem nada revelar, o que, aliás, era o usual no Brasil até pouco tempo.


(*) Rodrigo Janot é Procurador-Geral da República

quarta-feira, maio 24, 2017

Super-Heróis


Por Rafael Galvão        

Acho que ainda não vi ninguém mencionando isso: mas entre as invenções do século XX, uma das mais importantes foram os super-heróis.

Na verdade, considerando que o automóvel, o telefone, a transmissão de energia elétrica e o cinema foram criados no século XIX, os super-heróis são uma das poucas grandes invenções do século passado, provavelmente tão importante quando o computador, a internet e as viagens espaciais. Depois que dois garotos americanos trivializaram um conceito nietzscheano e criaram o Super-Homem, as coisas mudaram definitivamente, e talvez não para melhor.

Até o início do século passado, os heróis eram humanos, sempre. D’Artagnan, o Corsário Negro, Allan Quatermain, Jim Hawkins. Mesmo o Tarzan, se não era comum, era gente como a gente, sem nenhum superpoder. Com a chegada dos quadrinhos, os primeiros heróis seguiam essa risca: o Fantasma, Flash Gordon e o Príncipe Valente eram pessoas normais, com as habilidades possíveis, mesmo que eventualmente exageradas ou em ambientes improváveis, como a selva africana ou o planeta Mongo.

Mas havia um aspecto ainda mais importante, quase antagônico ao panorama atual: o sobre-humano era sempre associado ao mal. Tinha sido assim durante séculos. Dr. Hyde, Drácula, o monstro de Frankenstein: a moral subjacente a todos eles era a de que a busca pelo além não podia terminar bem, como não terminou para Adão nem para Prometeu. O modelo ideal era o humano: imperfeito, fraco, mas familiar e acessível. Um herói era aquele que se superava e fazia, talvez melhor, tudo aquilo que qualquer um pode fazer, e não alguém que tinha grandes poderes e com eles grandes responsabilidades.

Por isso, até o início do século passado um garoto qualquer poderia ter como heróis e modelos alguém que, ao menos em teoria, ele podia ser. Bem ou mal, ele sabia que, com esforço e nas circunstâncias adequadas, poderia sobreviver na selva como um Tarzan, desvendar um crime impossível como Sherlock Holmes, domesticar um lobo como o Fantasma.

O Superman representou uma ruptura nesse modelo e deu início a uma nova era. Mas mesmo ele começou timidamente. O Superman de 1938 era mais forte, saltava mais alto, corria mais rápido, mas ainda era uma evolução apenas, não algo totalmente diferente, e só existia em comparação com o demasiado humano. Apenas com o passar do tempo ele adentraria o campo do improvável, voando, usando uma tal visão de raio X, essas coisinhas do Superman. E ainda assim, os outros heróis mais importantes desse início de era ainda eram “normais”, como o Batman ou mesmo o Capitão América.

Mas já não havia mais havia mais volta. O princípio básico do herói, a sua humanidade, tinha sido rompido ali. Aos poucos outros foram surgindo, como o Capitão Marvel e o Tocha Humana, ainda nos anos 40, e mais tarde o Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha: heróis que já não precisavam respeitar sequer a mínima fímbria de plausibilidade; e talvez como resposta a esse novo que ele tinha anunciado, em pouco mais de dois anos o próprio Superman passou a voar e fazer essas coisinhas do Superman.

Mais que isso, os super-heróis tomaram conta do imaginário como virtualmente nenhum personagem de ficção antes dele. Hoje o Homem-Aranha é mais famoso que Jesus Cristo, e está na psique coletiva de maneira muito mais constante e intensa do que, por exemplo, Aquiles ou o Rei Artur. Eu não perderia um tostão se apostasse que o Batman é muito mais conhecido do que o Barão de Charlus.

Mas acho que algo importante mudou quando os heróis passaram a ter essa dimensão sobre-humana. E não consigo deixar de imaginar que talvez isso tenha algo a ver com essa era estranha, ansiosa e frustrante em que as pessoas vivem. Talvez seja como se o impossível tivesse deixado de ser realmente impossível, e essa noção tenha contaminado, em algum nível muito profundo, a maneira como as pessoas enxergam o mundo. Super-heróis talvez sejam uma face do hedonismo quase mandatório que se tornou a regra das sociedades atuais. Talvez. Certo, mesmo, é que essa invenção do século XX encontrou no século XXI ninho farto para crescer e tomar conta da imaginação de todos.


No século XXI esse processo avançou ainda mais.

Demorou até os super-heróis chegarem adequadamente ao cinema — sem contar desenhos animados como os do Superman pelo Max Fleischer ou a fantasticamente tosca série da Marvel dos anos 60.

Mas em 1979, o primeiro grande filme de super-heróis, Superman, concorreu apenas a Oscars técnicos, como edição, música original, som. Agora, filmes de super-heróis concorrem ao Oscar de melhor filme. É uma mudança significativa não apenas de sua importância na indústria cinematográfica, mas da própria sensibilidade da plateia. O processo de transformação desses personagens feitos com a única intenção de vender revistas e garantir o leite das crianças em mitos se completou.

O século XXI tem sido a era dos filmes de super-heróis por uma única razão: porque agora é possível fazê-los. Não há mais limites. Em 1978 o Hulk de Lou Ferrigno precisava de uma boa dose de boa vontade para ser encarado como tal. Hoje isso não é mais problema, e o Hulk pode ser feito como seus autores o conceberam (por que, mesmo depois de três filmes diferentes, ainda não conseguiram é um mistério para mim).

Mais que isso, o cinema é a nova casa dos super-heróis. As vendas de revistas em quadrinhos caem a cada ano. Não é de admirar: nas bancas — eu sou um ser do século passado; ainda gosto de bancas de jornal —, de vez em quando folheio algumas revistas e vejo um tal de “Aranhaverso” com um bocado de Homens-Aranha, um Peter Parker que agora é o dono milionário de uma empresa de tecnologia, e o Bruce Wayne não é, de novo, o Batman. O mundo dos super-heróis alcançou um nível de pseudo-complexidade que as torna distantes do que eu, pelo menos, entendia como quadrinhos.

Isso me incomodava até que vi a notícia de que a Marvel tinha cancelado os títulos do Quarteto Fantástico, virtualmente apagando a presença da marca nas bancas, para esvaziar a força de mercado dos personagens e forçar a Fox a lhe devolver os direitos cinematográficos sobre o grupo.

Se a Marvel faz isso com um dos seus super-heróis mais queridos — foi o Quarteto que deu início à revolução dos quadrinhos que a ela empreendeu a partir do início dos anos 60 —, a razão é muito simples: hoje, as revistas não são realmente importantes. Os filmes são. Enquanto a venda de revistas lhe gera milhões de dólares por ano, os filmes geram bilhões a cada nova edição — e alimentam a venda de merchandising de todo tipo, que rendem ainda mais. Mais vale fazer um filme do que editar 300 revistas. Não importa que a fórmula pareça estar se esgotando: é para assistir a esses filmes que as pessoas continuam indo ao cinema.


A era das revistas em quadrinhos passou. Mas os super-heróis se tornaram maiores que elas. São novos deuses de uma sociedade cada vez mais descrente. Para o alto, avante e amém.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (11)


Por Jefferson Peres

Em 1945, com a convocação de eleições para Presidente da República e para a Assembléia Nacional Constituinte, a nação se reencontrou com a democracia, após um longo jejum de quase oito anos. Logo se constituíram dois grandes partidos, o Partido Social Democrata (PSD), congregando os políticos egressos do Estado Novo e a União Democrática Nacional (UDN), aglutinando os que se haviam oposto à ditadura. Além desses, surgiu ainda meia dúzia de organizações de menor porte, das quais tinha alguma expressão o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que reunia os getulistas mais fiéis.

As seções estaduais do PSD eram dirigidas pelo ex-interventores, com sustentação principalmente nos remanescentes do coronelismo no interior.  A UND também, mas com penetração bem maior na classe média urbana. Era assim em todo o Brasil, e o Amazonas não fugiu a regra. O grande líder pessedista era Álvaro Maia, que governara o Estado, com pequena interrupção, desde 1930 – uma figura quase mitológica. À frente da UDN, Manoel Severiano Nunes, ex-auxiliar do governador e compadre de Álvaro, com o qual se desentendera por motivos até hoje não muito bem explicados.

A campanha se travou com ênfase nos candidatos a Presidente, o brigadeiro Eduardo Gomes e o Marechal Dutra, com o candidato comunista, Yedo Fiúza, concorrendo sem nenhuma chance. A campanha udenista empolgou a cidade, com seus símbolos e seus slogans, como “o preço da liberdade é a eterna vigilância” e “vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”. Como se não bastasse, era candidato pela UDN a uma das vagas no Senado, outro mito estadual, Adriano Jorge. Tudo inútil. Não obstante a neutralidade do governo, chefiado pelo Desembargador Stanislau Afonso, a máquina pessedista funcionou, elegendo Álvaro Maia e Waldemar Pedrosa para o Senado e Leopoldo Péres, Cosme Ferreira e Pereira da Silva para a Câmara Federal. As outras duas vagas de deputados ficaram com Severiano Nunes, pela UDN, e Leopoldo Neves, pelo PTB.

Promulgada a Constituição, em 1946, no ano seguinte realizavam-se as eleições para a Assembléia Constituinte estadual, para Governador do Estado e para a terceira vaga de senador. A campanha, que se desenrolou nos últimos meses de 46 e nos primeiros dias de 47, foi das mais apaixonantes, pois o povo não escolhia o governador desde 1930, já que a eleição de 1934 fora indireta, pela Assembléia. Os candidatos eram Ruy Araújo ao governo e Cunha Melo ao Senado, pelo PSD.


Do outro lado, uma surpreendente aliança PTB-UDN lançava Severiano Nunes para o Senado e Leopoldo Neves para o governo. O candidato pessedista ao governo era conhecido pela sua integridade moral e franqueza. Ex-chefe de Polícia e ex-secretário-geral do Estado, no exercício dessas funções ganhara fama de não prometer nem tapear, dizendo não tranquilamente quando lhe faziam pedidos que não podia ou não queria atender. Mas exatamente essa virtude era apontada como defeito pelos seus adversários, que o acusavam de tratar grosseiramente os que o procuravam.

Sem competidor, chamado carinhosamente de Pudico, também com fama de homem probo, em pouco tempo conquistou enorme popularidade, especialmente junto à população mais pobre. Para isso contribuiu a exploração habilidosa da palavra “gentinha”, que teria sido empregada por um candidato do PSD em relação ao povo humilde. Uma repetição da técnica utilizada um ano antes contra o brigadeiro Eduardo Gomes, impopularizado pela palavra marmiteiro, que em verdade nunca usou.

Além disso, o interventor federal, Syzeno Sarmento, discretamente favorecia a máquina udenista no interior. Como se não bastasse, os dois jornais de maior circulação na cidade, O Jornal e o Diário da Tarde, desencadearam uma violenta e demolidora campanha contra a candidatura de Cunha Melo. Deram-lhe o apelido de meteco, por ser pernambucano e estar há muitos anos afastado do Amazonas, com ataques pessoais que não lhe poupavam a vida privada, culminando com a publicação, às vésperas da eleição, de uma fotomontagem em que aparecia vestido de Carmem Miranda. O resultado não poderia ser outro senão, como aconteceu, a vitória de Pudico e Severiano.

A grande surpresa foi a Assembléia, para a qual foram eleitos alguns chefes políticos do interior, intelectualmente limitados, mas também um grupo bastante expressivo de estreantes do melhor quilate. Assim, pela UDN, elegeram-se Abdul Sá Peixoto, Paulo Nery, Jaime Araújo e Gama e Silva; pelo PSD, Arthur Virgílio Filho e Aderson Menezes; pelo PTB, Áureo Mello, Plínio Coelho e Aristóphano Antony; e; como solitário representante do PTN, Vicente de Mendonça Júnior.


Neófitos em política, alguns deles, porém, já tinham experiência de lutas estudantis, com militância na Liga da Defesa Popular, um movimento constituído por estudantes de Direito, sob a liderança de Arthur Virgílio e de Paulo Nery, que já era professor de Faculdade. Surgido no final do Estado Novo, o movimento foi tolerado pelo governo, que permitiu a realização dos seus comícios, nas imediações do Relógio Municipal, mas veio a ser reprimido na interventoria de Júlio Nery, desaparecendo a seguir, com o início da campanha eleitoral.

Essa primeira legislatura foi marcada por dois acontecimentos de ampla repercussão. O primeiro, conhecido como o caso da mudança, surgiu quando a Assembléia, já transformada em Legislativa, com a promulgação da Constituição estadual, mudou-se do prédio do Instituto de Educação, onde se instalara a Constituinte, para os altos da Biblioteca Pública, na Rua Barroso. A mudança foi efetuada pela Mesa Diretora e implicou gastos vultosos. Quando se fez a prestação de contas e foi dado a conhecer o montante das despesas, o assunto pegou fogo.

Arthur Virgílio, líder do PSD, fez a denúncia, num discurso inflamado, ao qual a imprensa deu a maior divulgação, e a coisa ganhou as proporções de um escândalo. O novo presidente da Assembléia era o coronel José Negreiros Ferreira, homem de poucas letras, chefe político de Borba, com grandes castanhais e seringais no rio Aripuanã, e fiel soldado da UDN. Mas, diante da pressão, Negreiros decidiu constituir uma comissão de inquérito, que tinha o udenista Gama e Silva como presidente e o próprio Arthur Virgílio, pessedista, como relator.

Os trabalhos se desenrolaram durante semanas, dezenas de depoimentos foram tomados, pilhas de documentos examinados, apurando-se os fatos como a compra de um caríssimo aparelho de som, que nunca fora entregue, e o não recolhimento do pequeno saldo constante da prestação de contas. O aparelho não apareceu, mas o dinheiro foi trazido por um deputado, que o guardara em casa alegando falta de segurança no prédio da Assembléia.

Terminado o inquérito, com relatório conclusivo, apontando todas as irregularidades, Negreiros levou os autos para a casa e, depois de alguns dias, exarou um longo despacho que, pelo seu inusitado, haveria de se inscrever definitivamente em nossa história político-administrativa. Após uma série de considerando, concluía com esta pérola: Considerando, finalmente, que onde há saldo não há esbanjamento. E mandava arquivar o inquérito.

No outro dia Arthur Virgílio dava uma longa entrevista à imprensa contra a decisão esdrúxula e terminava dizendo, em gozação: Quebraram a espada do coronel!

Ao tomar conhecimento dessas declarações, o velho Negreiros tirou um enorme facão que trazia à cintura e comentou: Este aqui ninguém quebra!

Manaus: como eu a vi ou sonhei (12)


Por Jefferson Peres
                       
Outro acontecimento rumoroso foi a cisão do PTB e o rompimento da ala dissidente com o governo de Leopoldo Neves. O núcleo principal do PTB amazonense era constituído pela antiga Colméia, uma agremiação literária informal que se reunia frequentemente na casa do velho Vivaldo Lima, na Rua Rui Barbosa, ainda hoje de pé. Ali, Plínio, Áureo, Kideniro Teixeira e alguns outros se encontravam, a pretexto de debater literatura, mas na verdade para se deliciarem com a comida servida pelo anfitrião, que tinha uma das melhores cozinheiras da cidade. Vivaldo, que se dava o luxo de colecionar cinco diplomas de curso superior, tinha também veleidades literárias e gostava de se cercar de intelectuais. Daí para a política foi um passo.

Com a redemocratização, fundaram o Partido Trabalhista no Amazonas, sob a presidência de Vivaldo, e fizeram o governador, uma vez que Pudico era filiado ao partido, pelo qual se elegera deputado à Assembleia Nacional Constituinte, em 45. Ao tomar posse no governo, cedeu a vaga de deputado federal para Vivaldo Lima, que era seu suplente. Plínio e Áureo, deputados estaduais, em poucos meses se desentenderam com Pudico e passaram a criticá-lo da tribuna da Assembleia. Como Vivaldo permaneceu fiel ao governo, os dois junto com outros, criaram uma ala dissidente do PTB, extremamente aguerrida em seus ataques a governo e à direção do partido.

Áureo, então, fazia um sucesso enorme com sua oratória cascateante, em que as palavras saíam aos borbotões. As galerias ficavam cheias de espectadores curiosos por ouvi-lo. Era também excelente articulista – ainda está bem vivo, graças a Deus, mas não sei se conserva a antiga forma – e escrevia como falava, batendo seus artigos quase sem fazer pausa. Combativo, mas elegante, evitava os ataques pessoais, desde que não o provocassem. Então, virava fera e sabia ser ferino e desagradável. Foi o que aconteceu.

Um dia, Pereira da Silva declarou ter ouvido Vivaldo Lima chamar os dissidentes de patifes, que teriam cometido o pecado da ingratidão. Foi o bastante. Áureo respondeu através da imprensa com um artigo virulento desde o título: Patife és tu! Nesse mesmo dia, após a sessão da Assembleia, Plínio e Áureo entraram no bar Avenida para tomar um refrigerante, quando foram abordados por dois filhos de Vivaldo Lima em atitude hostil. Imediatamente, Áureo sacou o revólver, Plínio ameaçou fazer o mesmo, mas antes que o bang-bang começasse, houve a intervenção de terceiros, que afastaram os contendores, e o incidente morreu ali. Pouco depois, com a morte de Vivaldo Lima, a ala dissidente assumia a direção do partido, com Plínio na presidência.


Muitos encaravam a política como uma guerra, dura, mas leal, com seu próprio código de honra. Outros já iniciavam a vida pública com todos os vícios dos mais velhos, e alguns se desiludiam muito cedo. Foi o que ocorreu com o poeta Kideniro Teixeira, candidato do PTB, que ingenuamente confiou na lealdade de um amigo e concorrente, já falecido, mas cujo nome prefiro omitir. Naquele tempo ainda não havia cédula oficial. As chapas, como eram chamadas, uma para cada cargo, eram impressas e distribuídas pelos próprios candidatos ou seus cabos eleitorais. 

Isto, como é evidente, favorecia em muito o voto de cabresto, porque o eleitor analfabeto, ou quase, recebia dos aliciadores um envelope com um conjunto de chapas que nem examinava. Na cabine indevassável, apenas transferia as chapas para o envelope rubricado pelos mesários, que a seguir depositava na urna, sem saber em quem estava votando. Além disso, o eleitorado era pequeno. Dependendo da legenda, era possível eleger-se deputado estadual com menos de mil votos.

Pois bem, o candidato de quem estou falando conseguiu, com a ajuda de amigos, arrebanhar cerca de duzentos eleitores da Terra Nova e do Careiro, que deveriam votar aqui. Mas tinha o problema do alojamento, já que os eleitores teriam de ser trazidos na véspera da eleição, pernoitando em Manaus, para serem levados no dia seguinte às seções eleitorais. Kideniro estava aflito porque esses votos, somados aos que contava como certos na capital, e mais alguns pingados no interior, seriam suficientes para elegê-lo. Ao narrar o seu problema para um dileto amigo, também candidato, mas pela legenda da UDN, ouviu do confidente palavras de solidariedade e uma oferta generosa.

Sem pedir nada em troca, comprometia-se a conseguir com a diretoria do Clube Amazonense de Regatas, da qual fazia parte, a cessão da sua garagem náutica, no começo da Avenida Joaquim Nabuco. E realmente, horas depois, informava que a autorização fora concedida. Escusado dizer que o nosso candidato ficou radiante e se desfez em agradecimentos. 

Na véspera do pleito, pegou uma lancha e passou o dia recolhendo eleitores, que despejou à tardinha no local cedido e foi dormir, cansado mais feliz, sonhando com a deputação. Acordou bem cedo e dirigiu-se, cerca de 7 horas, à garagem para verificar, com surpresa e raiva que estava deserta. O seu generoso amigo passara mais cedo ainda e levara todos. Ao término da apuração, o nosso candidato estava derrotado por menos de cem votos. Desgostoso, renunciou à vida pública. Quanto ao espertalhão, elegeu-se e continuou deputado por várias legislaturas.


Com a redemocratização do país, em 1945, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) obteve sua legalização após um longo período de clandestinidade. E emergiu montado na crista de uma onda de popularidade sem precedentes. Dois motivos contribuíram para a elevação do prestígio do PCB. Primeiro, a vitória da União Soviética sobre a Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial recém-terminada; segundo, a figura mítica de Luiz Carlos Prestes, ungida de heroísmo por sua participação na legendária Coluna que recebeu seu nome, e aureolada de martírio por sua longa permanência nos cárceres do Estado Novo.

Para a Constituinte de 46 o partido elegeu uma expressiva representação, Prestes à frente, como senador pelo Distrito Federal, e uma bancada de 17 deputados, entre os quais Jorge Amado, Pedro Pomar, João Amazonas, Carlos Marighella e Maurício Grabois, os dois últimos mortos pela repressão na década de 70. No Amazonas não conseguiu eleger um único representante, apesar da vibrante campanha liderada por Ivan Ribeiro, filho de Ribeiro Júnior, candidato à Câmara Federal.

Seu dirigente maior era o jornalista Aldo Moraes, também diretor do jornal oficioso do Partido, “A Luta”, na verdade um boletim semanário mimeografado. Eram filiadas, também, expressivas figuras da comunidade, tais como advogados, médicos, professores e intelectuais, tudo indicando que o Partido cresceria ainda mais, apesar do fracasso nas urnas. Mas logo sobreveio a decisão da Justiça Eleitoral que o jogou na ilegalidade, seguida da cassação dos mandatos dos seus parlamentares. 

A partir daí o PCB continuou vivo como organização ilegal, mas seus quadros começaram a minguar. Aqui, sua direção ficou reduzida a uma dúzia de pessoas, entre as quais, Francisco Alves dos Santos, Letício de Campos Dantas, Gualter Aguiar, Belarmino Marreiro e meu tio Geraldo Campello. Além das reuniões sigilosas, realizadas em diferentes locais, costumavam encontrar-se na barbearia de Belarmino, na Rua Joaquim Sarmento, onde ficavam horas discutindo política e doutrinando fregueses.


Devido à minha participação na “Campanha do Petróleo é Nosso”, eu era tido como um “simpatizante”. Por isso um dia a direção do PCB enviou dois emissários à minha casa para me convidarem a disputar a vereança pelo Partido Social Progressista (PSP). Sem experiência, nem dinheiro, ainda assim anuí ao convite, esperançoso de que o apoio do partido fosse suficiente para me eleger. Ganhei apenas uma segunda suplência e a disposição de nunca mais me candidatar a coisa nenhuma. 

Nos pleitos seguintes, o PCB continuou em suas tentativas de eleger representantes em pleitos locais, até que finalmente conseguiu colocar na Câmara Municipal o vereador Manoel Rodrigues, cassado e preso em 64. Seus dirigentes mais conhecidos, porém, jamais se candidatavam, apenas trabalhavam, com a mais completa desambição, em favor do partido.

Neste particular, creio que Geraldo Campello é uma figura exemplar de idealista inteiramente devotado à sua causa. Demitido injustamente do Banco da Borracha (hoje, Banco da Amazônia) após um movimento grevista, ficou marcado e não mais conseguiu emprego em parte alguma. Passou, então, a trabalhar para o partido em tempo integral e dedicação exclusiva, sobrevivendo franciscanamente graças a pequenas comissões recebidas pela venda de jornais como Imprensa Popular e Voz Operária, revistas como Problemas da Paz e do Socialismo e livros como a História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS. 

Suas únicas atividades de lazer consistiam em assistir, esporadicamente, a brigas de galos e partidas de futebol, aos domingos. Os outros dias da semana eram dedicados ao PCB, de manhã, de tarde e de noite. Sempre em companhia de Maria Pucu, primeiro como namorada, depois como esposa. Jamais os vi em colóquio amoroso ou em discussão sobre assuntos domésticos. Os problemas ideológicos e partidários monopolizavam suas conversas. O partido parecia ocupar todos os seus espaços mentais e temporais.


Por mais de uma vez teve sua casa vasculhada por forças policiais e militares, com apreensões de seus livros jamais devolvidos. Durante o governo Dutra, quando o PCB sofreu dura perseguição, esteve foragido por várias semanas, até ser descoberto escondido num cômodo da Pensão Maranhense, pertencente a D. Verônica, sua amiga de longos anos. 

Preso, foi recolhido à Penitenciária, onde ficou mais de um mês. Ao eclodir o movimento de 64, novamente se evadiu, reaparecendo um ano depois para responder a um IPM, junto com a mulher, em liberdade, mas em permanente sobressalto. Não obstante essas provações, nunca vislumbrei, em qualquer dos dois, sinais de fraqueza ou de arrependimento. Mesmo na velhice, afastados da militância pela idade, e já sem o entusiasmo de antes, continuaram sonhando com um mundo comunista.

No Amazonas, somente Thomás Antônio Meirelles Neto, por sinal primo de Maria, deu mais à causa do que eles, já que sacrificou a própria vida. Thomasinho, como lhe chamávamos, era nosso companheiro da República do Pina e ativista desde os bancos escolares. Anos mais tarde, no Rio de Janeiro, após a edição do AI-5, mergulhou na luta clandestina e nunca mais foi visto, morto em circunstâncias ignoradas, pelas forças da repressão. 
Hoje é o nome de uma rua no subúrbio de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (13)


Por Jefferson Peres

Em 1950, deu-se o esperado confronto entre os dois grandes caciques políticos do Estado: Álvaro Maia e Severiano Nunes, como candidatos a governador. O primeiro apoiado por uma ampla coligação que incluía o PSD, o PTB, o PSP e o PDC. Tinha como companheiro de chapa, para o Senado, Vivaldo Lima Filho, indicado pelos trabalhistas, que assim prestavam homenagem póstuma ao velho Vivaldo, na pessoa do filho. Severiano disputava pela UDN, junto com Leopoldo Neves, que se desincompatibilizara seis meses antes para concorrer ao Senado.

Álvaro Maia, como já disse, era um mito. Poeta, escritor, brilhante orador, dotado de grande carisma, a seu respeito circulavam histórias com sabor de lenda, desde o início dos anos 20, quando pronunciara a muito citada, mas pouco lida Canção da Fé e Esperança. Daí se originaria o movimento glebarista, muito simpático à população porque, embora sem um programa definido, tinha como mensagem a valorização dos homens e das coisas do Amazonas.

Em 1930, sua popularidade aumentaria com a firme posição que tomou contra a repressão policial aos ginasianos rebelados. Depois viriam os quase quinze anos à frente do governo, primeiro como interventor, a seguir como governador por eleição indireta e, em 37, novamente como interventor.

Deixara o Poder em 45, para eleger-se senador e tentava novamente chegar ao governo, desta vez por eleição direta. Pesava contra ele o passado de administrador sem pulso e negligente, além da fama de mau pagador de promessas. Em seu favor, no entanto, de par com o carisma, a aura de liberal, que mesmo durante o Estado Novo, com plenos poderes, jamais agira arbitrariamente para reprimir ou perseguir. O episódio do fechamento do Tribunal, na primeira interventoria, fora uma exceção infeliz, distante e quase esquecida.

Severiano Nunes era um homem comum, sem grandes dotes intelectuais e com uma biografia que não registrava lances notáveis. Mas era tido como homem de atitudes firmes, que cultivava o sentimento de amizade e por isso gozava de enorme prestígio, com um número incontável de admiradores e amigos incondicionais. Seu ponto negativo na campanha era a condição de candidato situacionista. Depois de quase quatro anos de governo, Leopoldo Neves sofrera uma erosão em sua popularidade, pelo natural desgaste do Poder, e isso se refletia na candidatura de Severiano. Tal desvantagem na capital era compensada pelo uso da máquina oficial no interior, o que tornava incerto o resultado da eleição.


Em pouco tempo a campanha empolgou a cidade, com todos tomando partido. Os comícios eram realizados diariamente, com grande afluência e transmitidos pelas emissoras de rádio para todo o Estado. Durante o dia, dezenas de carros percorriam as ruas, com altos falantes, num barulho infernal. O fundo musical eram duas marchinhas exaltando os dois candidatos ao governo. Tão fáceis de decorar que ainda hoje ressoam em meus ouvidos. A do PSD terminava assim: “E viva Álvaro Maia / E fogos e louvor / No dia da vitória / Do nosso libertador”. Ao passo que os udenistas replicavam com a sua, que começava assim: “Severiano Nunes / Nesta pugna eleitoral / Que já venceu / E há de ser / Para o Amazonas / O governo estadual.”

Mas a guerra verbal não se limitava às marchinhas ingênuas. Os discursos eram virulentos, carregados de ataques pessoais, dirigidos principalmente contra os dois líderes. Álvaro era chamado, pelos udenistas, de Cabeleira, embora suas melenas já não fossem tão bastas e viçosas como antigamente, ao passo que Severiano levava o troco, com o apelido de Frasquinho de Veneno, em alusão à sua baixa estatura. Mas o dirigente pessedista era o mais atingido, pois não poupavam sequer sua vida particular. Álvaro não revidava ataques. Seus discursos eram divagações sobre coisas abstratas, como Democracia, Liberdade e Justiça, repassadas de imagens e metáforas. Mas um dia, com a paciência esgotada, mudou de tom.

Foi num comício na Praça dos Remédios, a que assisti. Com a voz alterada, cheio de indignação, depois de relacionar as injúrias e infâmias que lhe eram assacadas, entrou na peroração, usando a segunda pessoa do plural, mas referindo-se, obviamente, a Severiano: Se fui ladrão, então, cobardes (com b mesmo), por que participastes do meu governo? Se cometi indignidades, então, cobardes, por que referendastes os meus atos? Se sou um destruidor de lares, então, cobardes, por que me convidastes para as vossas casas? Se sou um sedutor de moças incautas, então, cobarde, por que me convidaste para padrinho de vossas filhas? E por aí foi, levando a massa ao delírio a cada pergunta que fazia. Ao terminar, foi carregado e triunfo, e no dia seguinte não se falava em outra coisa. Creio que aquele pronunciamento foi uma peça importante na vitória esmagadora que Álvaro alcançaria alguns dias depois, nada fazendo prever o fim melancólico do seu governo.

Com a sua posse, no início de 51, começava um período tumultuado e cheio de incidentes. Na Assembleia, a nova legislatura prenunciava problemas sérios com a presença de dois deputados, um veterano, Alexandre Montoril, reeleito, e um estreante, Deolindo de Freitas Dantas, eleito para um primeiro mandato. Ambos representavam o município de Coari, onde se digladiavam, como adversários irreconciliáveis e rancorosos inimigos pessoais, o velho Deolindo Dantas, pai, chefe da UDN e o próprio Alexandre Montoril, líder do PSD. Poucos anos antes, essa pendência havia provocado um episódio sangrento.


Servia como delegado de Polícia em Coari o tenente Holanda, da Polícia Militar, um homem corajoso, mas violento, a quem conheci pessoalmente, nas duas ou três vezes em que esteve em minha casa, em visita a meu pai, com quem tinha um bom relacionamento, desde Codajás, onde estivera, também como delegado, e o velho, como juiz. Em Coari, o tenente, ligado à UDN e hostil aos pessedistas, gerou um clima de animosidade crescente. Um dia, acuado em sua residência por um grupo de homens armados, partidários de Montoril, reagiu à bala, ferindo dois deles, sendo assassinado, em seguida, a golpes de faca.

Anos mais tarde, aliás, um dos filhos de Holanda, aqui em Manaus, na Rua Lima Bacuri, apunhalou um dos supostos mandantes do crime, o ex-prefeito Edgar da Gama Rodrigues, que sobreviveu ao atentado. Era de esperar, assim, que não fosse pacífica a convivência de Deolindo e Montoril no Legislativo. O primeiro, inteligente, combativo, desde o início fustigou o governo pessedista com denúncias feitas na tribuna. Montoril, calmo, de poucas palavras, raramente discursava. E apesar de ser um homem de reconhecida coragem, e que andava habitualmente armado, por algum tempo evitou o confronto com o adversário.

Até que um dia solicitou um aparte, os dois altercaram, foram aos insultos, e, de repente, Deolindo partiu em direção ao inimigo, sacou o revólver, a dois metros de distância, e disparou, errando o alvo. Surpreendido, Montoril levou a mão à cintura, sendo contido por outros deputados, enquanto seu adversário corria para se abrigar atrás da mesa da presidência.

Ignorava Deolindo que Montoril naquele dia estava desarmado, pois deixara seu revólver num armeiro para consertar um defeito no cabo. Seu gesto de levar a mão à cintura fora puramente reflexo. Felizmente, a partir daí os dois adversários firmaram, tacitamente, um pacto de não-agressão e não houve mais incidentes. Além disso, pouco tempo depois, Deolindo tinha interrompida sua promissora carreira politica, ao perder a vida num acidente de barco nos arredores de Manaus.

Enquanto isso, o governo começava a se deteriorar. Denúncias choviam de todos os lados, principalmente da área de saúde, e um dia os hansenianos ofereceram um espetáculo chocante ao desfilarem pelas ruas da cidade, em protesto contra as péssimas condições do leprosário Antônio Aleixo.

Ainda que a passeata tivesse surgido de manipulações políticas, como querem alguns, o certo é que se a situação fosse boa o movimento não teria obtido a adesão dos doentes. Por isso, Arthur Virgílio Filho, na condição de líder do governo, pediu uma Comissão Parlamentar de Inquérito e se indicou para a presidência da mesma. Depois de amplas investigações, a Comissão apurou graves irregularidades, que não provocaram nenhuma providência da parte do Executivo. Em consequência, Arthur renunciou à liderança e rompeu com o governo.


Seus inimigos o acusaram de ingratidão, por haver, supostamente, recebido benefícios do governo. Sempre cioso da sua dignidade, Arthur escreveu uma carta ao governador, indagando se alguma vez lhe pedira favores pessoais. Álvaro Maia, com a elegância peculiar, respondeu pela negativa. A partir daí, a situação degringolou. Os erros administrativos, agravados pela grande enchente de 53, que causou sérios danos à frágil economia do Estado, levaram as finanças públicas ao colapso.

Atrasaram-se os pagamentos de fornecedores e funcionários, cujas famílias passavam terríveis privações. Havia filas de servidores na então Secretaria de Finanças, em busca de vales, e era comum ocorrerem desmaios de pessoas literalmente com fome. Nas repartições públicas os chefes perdiam o controle sobre os subordinados, a quem tinham de liberar, nas horas de expediente, para que fossem lutar pela sobrevivência. A administração ficou à beira do caos. 

Num quadro assim, é fácil imaginar que o governo, sem sustentação popular, marchasse para um desastre eleitoral. Surpreendentemente, porém, foi quando ocorreu a reaproximação dos velhos rivais, Álvaro e Severiano, que selaram um acordo PSD-UDN, para lançar mais uma vez o nome de Ruy Araújo como candidato ao governo, numa aventura que se delineava suicida.

Do outro lado, o PTB , rompido com o governo, lançava a candidatura de Plínio Coelho, com amplo apoio popular, na capital e forte penetração no interior, onde se beneficiou das inconciliáveis rivalidades paroquiais, que levaram muitos chefes pessedistas e udenistas a se bandearem para o PTB, desgostosos com a aliança udeno-pessedista. 
As urnas deram consagradora vitória a Plínio, que no início de 55 entrava no Palácio Rio Negro, inaugurando em nosso Estado a era populista, sobre a qual não falo por ultrapassar a fronteira que fixei, no tempo, como limite para este trabalho.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (14)


Por Jefferson Peres

“A thing of beauty is a joy forever”, dizia Keats. Só depois de adulto pude compreender toda a verdade contida nesses versos do grande poeta inglês. Realmente, uma coisa bela, por fugaz que seja, fica retida na memória, com um gosto de eternidade, pois nos acompanha pela vida afora, a nos alegrar para sempre.

Hoje, transcorridas algumas décadas, ainda trago vivas comigo as imagens de algumas das mulheres que povoaram os anos da minha adolescência. E foram muitas. Pode-se dizer, sem bairrismo nem saudosismo, que Manaus era uma cidade de moças bonitas, considerando o tamanho da população.

Não me refiro apenas a garotas de beleza comum, com um rosto agradável e um corpo bem-feito, como tantas que encontramos no dia-dia. Falo das mulheres excepcionais, que, além da beleza física, são dotadas, também, por uma prodigalidade da natureza, de elegância, graça, personalidade e charme.

Conheci pelo menos uma dúzia delas. Com nenhuma cheguei a manter qualquer relacionamento mais estreito, até pela diferença de idade, eu, um garoto reservado e tímido, elas, moças feitas, de uma presença esmagadora, a me causar aquele alumbramento que só aumentava a minha timidez.

Com algumas tive rápidos contatos, com outras nunca falei, e houve aquelas que apenas pude ver por momentos. Mas de todos guardo uma lembrança inapagável. Às vezes chego a me perguntar se, decorridos tantos anos, essas imagens não seriam algo irreais, porque favorecidas pela filtragem do tempo.

Mas logo afasto a idéia e me livro das dúvidas, quando percebo que elas não me apareceram de repente, por um esforço de memória, mas são uma constante, gravadas com nitidez em minha mente. Devem mesmo ter sido como eu as vejo agora.


As outras que me perdoem, mas na galeria dos vultos femininos do passado a que presto culto, um lugar especial é reservado à figura de Maria Amália Ferreira. Dos homens da minha geração, muitos poucos terão escapados ao seu fascínio. Como já disse Thiago de Mello, não há como fugir ao chavão: ela marcou época.

Parece que a estou vendo, ainda hoje. Alta, esbelta, cabelos alourados, olhos claros, os lábios repuxados nos cantos, numa expressão irônica e sensual. Mais do que tudo, porém, o andar lhe imprimia a marca inconfundível. Balouçante, gingado, numa cadência graciosa, mas natural, sem nenhuma afetação, presumo que era assim o passo da moça ipanemense imortalizada por Vinícius na canção famosa.

De longe se podia identificá-la, e, quando isso acontecia, a notícia se espalhava com rapidez de fogo em rastilho: lá vem a Maria Amália! E logo a Eduardo Ribeiro se transformava numa vasta passarela, com o público masculino ansioso, na expectativa de ver a deusa passar.

As conversas nas rodas silenciavam, balconistas assomavam às portas das lojas, transeuntes se voltavam, alguns mais afoitos lhe diziam galanteios, e ela passava, indiferente e altiva, mas sem arrogância, com a tranquilidade de uma rainha com direito à homenagem dos súditos.

Incluí-me desde muito cedo em sua corte de admiradores, quando fomos quase vizinhos, na Rua Dr. Moreira, eu ainda menino e ela ainda sem grande notoriedade. Morava com seu pai, o velho Benjamim Ferreira, a madrasta e duas irmãs, numa bela casa antiga, onde funcionou a Pensão Rio Negro, no meio do quarteirão entre a José Paranaguá e a Quintino Bocaiúva.

Depois foi residir, com a família, na casa da Rua 24 de Maio, entre a Costa Azevedo e a Barroso, que tinha sido um escritório da RDC, e era precisamente de lá que saía para desfilar em sua passarela habitual.


Nunca mantive contato com Maria Amália. Simplesmente não apareceu a oportunidade e tive de me conformar com a contemplação distante e silenciosa. Mas sei por informações de terceiros que a personalidade não dissentia do físico. 
Era educada, alegre, inteligente e dotada de um talento artístico que foi sufocado no nascedouro, graças a um episódio infeliz.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (15)


Por Jefferson Peres

Em 1942 chegava a Manaus, de Recife, um alagoano irrequieto e obstinado, que tinha a mania de fazer coisas. Seu nome, Gebes Medeiros. Entusiasmado pelas artes cênicas, e com alguma experiência no ramo, pois fora um dos fundadores do Teatro do Estudante de Pernambuco, sentiu o grande vazio que existia em nossa terra. O Teatro Amazonas inativo, abrigando em seus bastidores o escritório da RDC, as demais casas de espetáculos funcionando apenas como cinemas, ou fechadas, e nenhum grupo teatral organizado.

Um ano depois de sua chegada, já como diretor do DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda), Gebes pôs mão à obra e fundou o Teatro-Escola Amazonense de Amadores, reunindo o velho João Braga (dono da extinta Casa das Sombrinhas), com alguma experiência de direção, Campos Dantas, autor, com algumas peças escritas, Fueth Paulo Mourão e Américo Alvarez, entre outros. Com suas atividades interrompidas dois ou três anos depois de criado, quando Gebes se retirou de Manaus, o Teatro-Escola seria reaberto no seu retorno, cerca de vinte anos mais tarde, já nos idos de 65, durante o governo Arthur Reis.

Por sinal, nessa segunda fase, o grupo passaria por maus momentos, ao ter de encenar, fora do palco, involuntariamente, uma verdadeira ópera-bufa. Sob a direção de Gebes e o patrocínio do MEC, uma trupe de moças e rapazes saiu em excursão pela Amazônia e chegou a Macapá, Território do Amapá, onde encenaria A Prostituta Respeitosa, de Sartre.

Na noite de estréia, com a casa cheia e presente o governador, o espetáculo se desenrolou normalmente até o final. Mas antes de cessarem os aplausos, eis que se levanta o governador, um general, e pronuncia um discurso, dizendo que não interrompera o espetáculo em respeito ao público, mas queria manifestar seu protesto contra a encenação de uma peça imoral e subversiva, e por aí foi, sob constrangimento geral. Em seguida retirou-se, deixando os atores perplexos e deprimidos.

Nesse estado de espírito regressaram ao hotel, para ter uma surpresa ainda maior, ao encontrarem à sua espera um batalhão choque da Polícia, que lhes deu a voz de prisão, recolhendo todo o elenco, Gebes no meio, à Delegacia. Foi necessária a intervenção do coronel Jarbas Passarinho, governador do Pará, e de autoridades do MEC, para que o grupo se livrasse do vexame. Pouco depois dessa infeliz excursão, e por outros motivos, o Teatro-Escola encerrava definitivamente suas atividades.


Mas voltemos ao seu início, no distante ano de 1943. Gebes escolhera, como peça inaugural, Yara Boneca, um texto de Ernani Fornari, leve, um tanto açucarado, bem ao gosto do público da época e adequado ao nível dos atores inexperientes que convocara. Entre eles se incluía Maria Amália, escolhida para o papel-título. Os ensaios duraram meses e Gebes estava exultante com o desempenho da protagonista, que se apresentava muito à vontade, com uma desenvoltura surpreendente para quem nunca pisara num palco. Tudo indicava que tinha potencial para ir muito longe. Se deixassem. Mas não deixaram.

Um dia, a três semanas da estréia, Gebes foi procurado pelo velho Benjamim Ferreira, que lhe comunicou, pura e simplesmente, alegando motivos de ordem pessoal, que sua filha não mais participaria da peça. Gebes entrou em pânico. O prazo para substituição da atriz principal era muito curto e o adiantamento da estréia seria um transtorno. Argumentou tudo isso, insistiu, implorou, mas Benjamim se manteve irredutível. Nem a interferência de poderosos amigos conseguiu demovê-lo. 

O jeito foi arranjar outra moça, Laís Teles de Souza, que se adaptou perfeitamente ao papel, permitindo a estréia na data marcada. Evitou-se o fracasso da peça, mas não o malogro do sonho de Maria Amália, que ainda compareceria a um último ensaio, para se despedir dos colegas, com muita dignidade, sem lamúrias, mas sem conseguir esconder, no rosto abatido, a marca da desilusão que lhe ficara.

Essa grande frustração seria compensada, alguns anos depois, por ocasião do concurso para a escolha de Miss Amazonas, o primeiro que se realizava desde os anos trinta. Mas era eleição direta, por votação popular, usando-se como cédulas cupons estampados em O Jornal, que eram recortados e preenchidos livremente por quem quisesse.


Apresentaram-se cinco ou seis candidatas, mas de saída a disputa se polarizou em Maria Amália e Yeda Zalduando. Esta era uma bonita morena, descendente de bolivianos ou peruanos, que trazia nos olhos ligeiramente amendoados um traço denunciador dos seus ancestrais índios. Conheci-a garota, morando na Marcílio Dias e, mais tarde, nos altos da Funerária Almir Neves, na esquina de Lobo d’Almada com Henrique Martins, em companhia de sua mãe, uma senhora chamada D. Pura, e de seu padrasto, um cidadão americano cujo nome eu jamais soube. Ele era portador de um defeito na perna que balançava ao caminha, e por isso ganhou o apelido de Deixa Que Eu Chuto, que muito o irritava quando era chamado.

O concurso se estendeu por alguns meses e foi empolgante como um campeonato de futebol, com o envolvimento de boa parte da população, que discutia ardorosamente sobre as qualidades das candidatas. Os votos eram apurados diariamente, com Maria Amália sempre na dianteira, terminando com larga margem de vantagem sobre sua rival. Recebeu a faixa numa noite de apoteose, com o discurso de saudação proferido pelo então estudante Almino Affonso, perante um Teatro Amazonas lotado. A partir daí só se fez crescer o número de admiradores de Maria Amália, alguns tomados de paixão vulcânica.

Um desses apaixonados, conhecido por toda Manaus, era o capitão Ubirajara Barbuda Thury. O militar, que não chegava a ser um Adônis, não era correspondido, mas insistia com rara tenacidade. A moça era perseguida em todos os lugares, em festas, em cinemas, nas ruas e em casa, através de telefonemas, sempre com propostas de casamento, que ela delicadamente recusava. Quando Amália encetava um namoro, ele procurava o rapaz a fim de persuadi-lo a desistir, sob a alegação inverídica da existência, entre os dois, de um antigo e sólido compromisso momentaneamente interrompido por um arrufo sem importância.

Contam antigos vizinhos que muitas vezes viram Barbuda, já às seis horas da manhã, encostado num poste em frente à casa de Maria Amália, na ansiosa espera de que ela assomasse à janela, para vislumbrá-la, ainda que fosse por um momento fugaz. Até que um dia o obstinado capitão lhe tributou a maior homenagem que qualquer militar já terá prestado à sua amada.

Vinha ele pela Avenida Epaminondas, a cavalo, no comando de uma companhia que se dirigia ao stand de tiro, quando Maria Amália apareceu, vindo da Praça da Saudade, caminhando em sentido contrário. Tomado de intensa emoção, Barbuda não teve dúvidas, e ergueu a voz de comando: Companhia, alto! Meia-volta, volver! E escoltou-a por alguns quarteirões, até que ela, lisonjeada, mas encabulada, conseguisse escapar, entrando na primeira casa de amigos que encontrou.


Outro obcecado por Maria Amália era Adaucto Rocha, que um dia foi vítima de um episódio hilariante. Adaucto era jornalista e escritor, estudioso de problemas regionais, com dois livros publicados sobre assuntos econômicos. Baixo, desmazelado no vestir, cego de um olho, que procurava ocultar atrás de óculos escuros, não era tipo que impressionasse mulher alguma. Como se não bastasse, fumante inveterado, tinha preferência por um mata-rato de marca Asas, que trazia permanentemente na boca, acendendo um cigarro no outro.

Apesar de sua paixão por Maria Amália, que não escondia aos amigos, Adaucto jamais tentara abordá-la, consciente da sua falta de atrativos físicos. Um dia seus amigos mais chegados, à frente Pedro Ubiratan de Lemos, Alfredo Aguiar e Adel Mamede, resolveram pregar-lhe uma peça. Resumiu-se à expedição de dois telegramas. Um, para Benjamim Ferreira, em nome de Adaucto, comunicando que iria à sua casa, no dia seguinte, às vinte horas, pedir Maria Amália em casamento; outro, para Adaucto, em nome de Benjamim, o qual, dizendo-se sabedor da admiração que sentia por sua filha, tinha a honra de convidá-lo para fazer-lhe uma visita, no dia seguinte, também às vinte horas, a fim de dar início a um relacionamento que era do gosto de toda a família. É fácil imaginar que as duas mensagens tiveram efeitos bem diferentes. Adaucto, perplexo, entrou em êxtase; o velho Benjamim, igualmente atônito, ficou uma fúria.

Qualquer pessoa sensata, no lugar de Adaucto, receberia com incredulidade o insólito convite e trataria de averiguar a sua autenticidade. Mas a sensatez não costuma ser atributo dos apaixonados, que querem tomar como reais os seus desejos, mesmo quando contrariam a lógica e o bom senso. Não é de causa espanto, assim, que ele tivesse acreditado piamente no telegrama e, cheio de emoção, se preparasse para o mais importante acontecimento de sua vida. No dia aprazado, às sete e meia da noite, chegava ao Bar Avenida, onde já encontrou a roda de gozadores formada, à espera do desfecho.

Era um homem diferente, barba feita, cuidadosamente penteado, recedendo a perfume, o velho terno de tropical lavado e passado, e o rosto a espelhar a própria beatitude. Indagado sobre a transformação, desconversou, com um ar de mistério. Seu nervosismo era traído pelas disfarçadas e frequentes consultas ao relógio, enquanto os outros fingiam não perceber e, a muito custo, continham o riso. Perto das oito, despediu-se e se pôs a caminho, seguido pelos amigos tão logo dobrou a esquina da Eduardo Ribeiro com 24 de Maio. Ali ficaram, à espreita, protegidos pelas mangueiras existentes em frente à igreja dos padres agostinianos, enquanto Adaucto batia palmas na casa de Maria Amália.

Atendido à porta pelo próprio Benjamim, puderam perceber, pela gesticulação, que o velho aplicava uma forte reprimenda ao indesejável visitante, sem dar-lhe tempo para explicações. Suspeita confirmada a seguir, quando a porta se fechou e Adaucto empreendeu a melancólica retirada. Rapidamente, os deliciados espectadores, se esbaldaram de rir, voltaram ao Bar Avenida, onde ficaram à espera, como se nada tivesse acontecido. Adaucto chegou, arrasado, mas não deu o braço a torcer. Sentou-se, pediu cerveja e, sem fazer comentários, tomou um pifão monumental.


Meses depois, para a grande tristeza de todos nós, Amália viajava definitivamente para o Rio de Janeiro, onde mais tarde se casaria. Que eu saiba, nunca mais pisou em Manaus. Não sei que mágoas terá levado, para não mais desejar rever a cidade que tanto a amou. Ou, quem sabe, terá preferido que guardemos dela a imagem da esplêndida mulher daqueles dias, que, para adotar uma expressão feliz, encheu a nossa juventude como um clarão. 
Anos depois, ao reencontrá-la no Rio de Janeiro, pedi-lhe uma explicação, mas ela, educadamente, desconversou.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (16)


A poetisa Astrid Cabral, uma das musas eternas do saudoso senador

Por Jefferson Peres

Mas houve outras, também, que não consigo esquecer. Dentre elas, Flacy Mesquita, a suave Flacy, que nos enternecia com seu ar triste e os traços delicados a lembrar aquelas madonas de Boticelli. Morava com sua mãe, viúva, D. Flamícia, ainda bonitona, sua irmã Flacínia e um irmão caçula, na casa da Sete de Setembro, perto do Polytheama, onde residira Waldemar Pedrosa.

Não sei se a sua tristeza resultara da morte do pai, ocorrida num acidente automobilístico em Roraima (então Território Federal do Rio Branco). Nunca tive oportunidade de lhe perguntar. Nesse tempo eu fazia parte de uma turma numerosa de rapazes que circulavam na Avenida Getúlio Vargas, entre os bares Moderno e Normal, nos quais fazíamos ponto, em torno de mesinhas nas calçadas, ou espalhados pelos bancos e no bebedouro de ferro (que fim terá levado?) que ficavam nos canteiros centrais, ou ainda, encostados nas grades da calçada do ginásio. Entre as garotas que frequentavam o local diariamente, lembro-me de Luiza e Lourdes Antony, filhas de Aristóphano, que moravam nos altos do Moderno, onde hoje funciona um cinema; de Maria Luiza Seixas, irmã do Mário, nosso colega; e de Flacínia, também assídua frequentadora.

Flacy, porém, mais velha, nunca se aproximou de nós, e apenas a contemplávamos, de longe, postadas à janela, ou de passagem, em suas idas e vindas. Eram muitos os que a amavam, com ternura, mesmo sabendo-a inacessível. Mas havia um, mais do que todos, obcecado por ela. Era Munir Mamede, irmão do nosso amigo fraterno Adel. Recém-chegado do Líbano, ainda brabo, mal falando o português, Munir era o alvo predileto das gozações da turma, que um dia resolveu fazer com ele uma brincadeira semelhante à que vitimara Adaucto Sampaio.

À revelia de Adel, forjaram um bilhete em nome de Flacy, dirigido ao turco, marcando um encontro para a sessão do Polytheama de domingo à noite. Era uma sessão habitualmente frequentada pela chamada alta sociedade, uma plateia bem vestida e educada. Nesse ambiente a abordagem de Munir era um espetáculo imperdível. E não perdi.

Junto com os outros, debruçado na balaustrada de uma frisa, vimos o árabe se aproximar de Flacy, sentar-se num poltrona vaga ao lado e puxar conversa. Nunca mais vou esquecer os olhos espantados da moça e a curiosidade dos circunstantes, até que Munir exibisse o malfado bilhete, permitindo que tudo de esclarecesse. Mas não aguardamos o final, pois Munir, ao contrário de Adaucto, era um miúra, de força e de gênio. Se pegasse os autores, naquela hora, seria capaz de uma violência. E como todos éramos suspeitos, a debandada foi geral.


Não sei se Flacy veio a conhecer a identidade dos autores da molecagem. Ela continuou distante de nós e um dia casou-se e se retirou de Manaus. Nunca mais a vi e, anos mais tarde, recebi a notícia da sua morte prematura. Doeu-me fundo, talvez por ver perdida para sempre a chance de conhecer de perto alguém que, mesmo a distância, representara tanto para mim.

Gláucia Albuquerque era outra, cuja contemplação nos embevecia. Também quase minha vizinha na Rua Dr. Moreira, onde morava com os pais, bem perto de Maria Amália, é cunhada de Belmiro Vianez, que se casou com uma de suas irmãs. Estatura mediana, corpo escultural, rosto bonito, no qual se sobressaíam os lábios rubros e carnoso, impossível esquecê-la.

Dela guardo, em particular, a lembrança de um domingo de sol, no Parque 10 de Novembro, que frequentava habitualmente. Parecia uma chama viva, com seu maiô vermelho inteiriço. De repente, ao fazer um movimento mais brusco, rasgou-se a parte superior do maiô e ela institivamente se protegeu com os braços cruzados sobre o busto, até que alguém a cobrisse com uma toalha de banho. Foi uma cena banal, sem consequências, pois nem sequer consegui vislumbrar-lhe os seios nus. Mas me ficou, marcada para sempre. Um dia, Gláucia também se foi para o Rio de Janeiro e não mais voltei a vê-la.

Era de longe também que acompanhávamos, enlevados, o deslizar tranquilo de Izete Souza Lima, irmã de Douglas, em direção à sua casa, na esquina da Sete se Setembro com Jonathas Pedrosa. Era igualmente uma das nossas unanimidades. Todos a amavam sem que ela jamais suspeitasse. Recordo como hoje o dia, ao entardecer, em que o céu se pintou de várias gradações de vermelho, como um incêndio cósmico, enquanto Izete atravessa o largo entre a Praça da Polícia e a calçada do Guarany.

Solitária como sempre, vestindo tomara-que-caia branco, que as luzes banhavam de róseo, parecia etérea, indiferente ao grupo de garotos e rapazes que, em torno das mesas do Normal, hauriam aquele instante de beleza. Muito lamentei não ser pintor ou fotógrafo para captar a cena inesquecível. Não sei aonde os caminhos do mundo conduziram Izete, de quem não mais ouvi falar.


Três Ruths não podem deixar de ser lembradas. Uma Ruth Castro, sobrinha do médico Flávio de Castro. Morena clara, alta, cabelos escuros penteados para cima, parecia uma andaluza. Morava com seu tio, no casarão que ainda existe, na Rua José Clemente, onde morou Eduardo Ribeiro. A casa solarenga se compunha perfeitamente com sua figura de porte aristocrático. Vi-a poucas vezes, mas o suficiente para me deixar uma forte impressão. Cedo ela saiu de Manaus e nunca mais o encontrei.

Outra Ruth, a Jobim, conheci mais de perto. Era filha do Desembargador Manuel Anísio Jobim, com quem morava, numa casa hoje reformada, na Praça da Saudade. Amiga de infância de uma das minhas tias, às vezes passava aos domingos em casa de minha avó materna, na Huascar de Figueiredo, onde vivi boa parte da minha infância. Ainda garoto, olhava com admiração aquela moça cheia de charme e graça, a exibir duas fileiras de dentes perfeitos. Embora tenha fixado residência no Rio de Janeiro, veio algumas vezes a Manaus. E, com satisfação pude constatar, pouco antes de sua morte, que a mulher de meia-idade ainda conservava o bonito sorriso de outrora.

Uma terceira Ruth, de sobrenome Monassa, era a rainha da Vila Municipal, um bairro cheio de sortilégios, com sua profusão de verde e suas ruas pejadas de sombra e silêncio. Residia na velha casa da Rua Fortaleza, ainda de pé, rodeada de frondosas mangueiras e de jaqueiras centenárias. Morena jambo exuberante e coquete, mal suspeitava ela que muitos dos rapazes que iam disputar peladas no campo batizado com o nome de sua mãe, usavam o jogo como pretexto para se deliciarem com a visão do seu vulto gracioso na varanda do casarão. Hoje, passados tantos anos, apesar da amizade que me ligava a D. Maria, sua mãe que chegou lúcida aos seus gloriosos noventa anos, e morreu centenária, só uma vez pude encontra-la nas suas rápidas passagens por Manaus, vinda do Rio de Janeiro, onde fixou residência.

Não demorou muito tempo e aquela menina, que eu vira, criança ainda, com a farda do Grupo, surgia agora como esplêndida adolescente uniformizada de normalista. De baixa estatura, mais gorda do que magra, seu forte era o rosto, expressivo, harmonioso, uma cútis de porcelana rósea, onde se engastavam os olhos escuros e brilhantes, e iluminados por um belo sorriso de Ingrid Bergman. Aos encantos físicos se juntava a magia do nome de princesa nórdica: Astrid. Embora o sobrenome fosse bem lusitano: Garcia Cabral.

Em verdade, pertencia à boa estirpe cabocla, pois era neta de Antônio Teles de Souza, professor e diretor, por muitos anos, do Ginásio Pedro II. Orfã de pai, morava em companhia da mãe e do avô, casado em segundas núpcias com D. Eunice Serrano, num velho casarão no centro de um amplo terreno da Av. Sete de Setembro em frente ao Palácio Rio Negro. Como confessaria mais tarde, costumava sentar-se no banco do jardim bem cuidado para ouvir o avô falar das estrelas distantes, enquanto ela se interessava pelas flores bem mais próximas.

Muitas noites deixei o Café do Pina mais cedo, para me postar na segunda ponte, com alguns amigos, a pretexto de ouvir as músicas que saíam dos alto-falantes do Cine Éden. O motivo real, no entanto, era assistir ao “footing” da bela Astrid, que, de braços dados com amigas, ficava passeando de sua casa até a esquina da Jonathas Pedrosa. Encostados ao balaústre, jogávamos gracejos que eram respondidos com olhares cúmplices e risos de aceitação. Mas, sempre fiquei inibido com a presença de tantas testemunhas. Fora dali, numa certa manhã em que ela regressava sozinha do Instituto de Educação, enchi-me de coragem e abordei-a.


Marcamos encontro para o mesmo dia, à tarde, quando mantivemos uma longa conversa, durante a qual Astrid me confessou que rompera pouco antes com o seu primeiro namorado e não estava em condições de iniciar novo “affair” enquanto não curasse aquela “chagrin d’amour”. No decorrer da conversa perguntei: “Mas você não pretende ficar celibatária, não é?” Visivelmente embaraçada, ela respondeu que não. E só muito depois vim a saber que ao regressar a casa, naquele dia, Astrid correu ao dicionário para saber o significado de celibatária, que ignorava, daí a razão do embaraço. Ficamos amigos, mas antes que a ferida cicatrizasse, Astrid se foi. Como ela mesma disse, seu “lado pássaro” prevaleceu sobre o “lado árvore”, levando-a a bater asas para o Rio de Janeiro.

Voltei a vê-la trinta e dois anos depois, aqui em Manaus, por ocasião do lançamento do seu livro de poemas Visgo da Terra. Fui a esse reencontro emocionado e apreensivo, com receio de que os anos lhe tivesse deixado sua marca devastadora. Mas verifiquei, surpreso e feliz, que o tempo, generoso, a preservara. Conservava a mesma silhueta de adolescente, até mais delgada. E o belo rosto quase não mudara, como se um milagre me fizesse ressurgir a menina de três décadas atrás. E para maior alegria minha, pude constatar, com a leitura do seu livro, que se realizava plenamente sua vocação literária manifestada desde muito cedo. Seus poemas maduros demonstram que Astrid já adquiriu o completo domínio de sua arte. Neles, entre irônica e nostálgica, numa linguagem de grande densidade poética, ela fala da Manaus de sua infância. E com tamanha força telúrica que nos faz sentir quão vivo permanece o seu “lado árvore”, de raízes fincadas profundas na terra-mãe.

Um dia, ela surgiu em Manaus, vinda do Rio de Janeiro, onde estudava. Pertencente a família tradicional da terra, filha de Análio de Rezende, advogado de renome e emérito professor de Direito, Elza fez sucesso imediato. Exuberante de formas, cintura fina, quadris largos e pernas grossas, seu corpo se enquadrava nos padrões estéticos da época. Rosto bonito, de traços finos e um ar esnobe, acentuado ainda mais pelo uso de “lorgnon”, que assestava nos olhos míopes com um charme irresistível.

Muitas tarde a vi desfilar nos canteiros centrais na Av. Getúlio Vargas, em companhia do namorado, que eram seguidos pelos olhares invejosos da rapaziada do Bar Moderno. Mas Elza parecia não tomar conhecimento do que se passava em torno, com uma expressão orgulhosa que apenas disfarçava sua invencível timidez. Muito mais tarde, quando passei a desfrutar de sua amizade, nela descobri uma mulher sensível, inteligente e espirituosa, dotada de um rico senso de humor.

Elza despertava também paixões vulcânicas de admiradores que passavam muitas vezes na Rua José Paranaguá, esperançosos de vê-la assomar à janela do belo palacete da família no qual residia. Um desses empedernidos era o poeta Áureo Mello, que conseguiu uma apresentação e, certa noite, decidiu fazer-lhe uma visita que terminou de forma desastrada.

Sentado numa cadeira de balanço, Áureo procurava impressioná-la com a declamação de um de seus poemas. Mas, empolgado, foi deslizando para a ponta do assento, até que finalmente se estatelou no assoalho de madeira, num estrondo seguido da gargalhada que Elza não pode controlar. Depois dessa, não prosperou a corte do poeta, até porque, meses depois, ela se casaria com seu primeiro marido, deixando “viúvos” dezenas de consternados pretendentes.

Várias outras mereceriam referência, como Teresa Santoro Andrade, Maria Helena Cunha e Enila Montezuma. Mas este capítulo já se alonga demais e devo encerrá-lo. Não sem antes manifestar meu pesar por haverem todas essas belas mulheres, sem exceção, por estranha coincidência, deixado Manaus, algumas para uma viagem sem retorno. 
Muitas, provavelmente, não voltarei a ver jamais. Só me resta, como consolo, dizer como Marcel Proust que sua beleza mais real esteve porventura em meu desejo. Elas viveram suas vidas, mas talvez só eu as sonhe.