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quinta-feira, março 08, 2018

Ai de ti, Copacabana!



Por Rubem Braga

Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

Antes de te perder eu agravarei tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Amanhecer em Copacabana



Por Antônio Maria

Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.

As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono.

O banhista Orlandeli, gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.

Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.

Rio, 12/09/59

Poetas oficiais



Por Ivan Lessa

Os ingleses gostam de futebol, mas praticam a poesia. Tenho a impressão que já li, ouvi ou, quem sabe?, escrevi esta frase em algum lugar.

O que ela quer dizer é que o futebol pode ser o esporte das multidões, mas é de poesia que eles, os ingleses, são bons.

Assim como é covardia citar Pelé ou Garrincha em matéria de futebol, covardia também é citar Shakespeare ou W.H. Auden na poesia.

Na poesia, eles, os ingleses, têm cintura, malícia, jogo de corpo, tudo aquilo, enfim, que falta à seleção mesmo ganhando (como ganhou recentemente) da Alemanha de 5 a 1.

Vai daí que uma das coisas mais comuns aqui no Reino Unido é o cargo de “poeta em residência”.

O que e quem é essa figura? É mais ou menos feito o Poeta Laureado: tem o encargo de versejar sobre temas de ocasião e a propósito.

Em segundo lugar – e isso é importante –, o poeta ganha pouco, muito pouco.

Seja laureado pela rainha, seja em residência no Banco da Inglaterra, que aliás não sei se tem ou não um poeta em residência compondo sonetos em louvor da libra ou, mais controvertidamente, em louvor do euro.

Fato é que notícia desta semana anuncia que a polícia britânica não só inaugurou, em Humberside, o cargo de um poeta em residência como também este produziu seus primeiros versos.

Trata-se de Ian McMillan, que, aliás, frise-se, possui alguma experiência do cargo, uma vez que já fixou residência também num time de futebol, o Barnsley, modesto em resultado de jogo, mas rico de rima.

Um porta-voz da polícia de Humberside explicou que a intenção era fornecer “uma visão alternativa do policiamento ostensivo.”

Parece-me uma solução das mais inteligentes.

Não só seria uma maneira de calar para sempre essas pessoas que vivem dizendo que a poesia, por mais bonita que seja, não dá camisa a ninguém, como ainda há a distinta possibilidade da poesia comover e dissuadir os malfeitores de seus nefandos propósitos.

E se é para ficar no Brasil imitando (mal) o “gangsta rap”, por que não tentar uma solução elegante?

O soneto policial petrarquiano condenando os traficantes de drogas e assaltantes de uma forma geral.

Os bons anos 80



Tom Hanks e Denzel Washington no filme Filadélfia (1993), que aborda o drama da aids no início dos anos 80

Por Rafael Galvão

Lembrei uns dias atrás de um dos tantos motivos para odiar os anos 80, esses que os últimos tempos têm edulcorado e levado a uma reapreciação degenerada da sua música horrível, da sua moda tenebrosa, do seu cinema cheio de maneirismos infelizes.

Aquela década viu a primeira geração a chegar à puberdade sob o fantasma aterrorizante da Aids.

Para quem nasceu nos anos 90 a Aids é uma doença grave, incurável, e que condiciona em maior ou menor grau a vida sexual de todos. Mas naqueles tempos um diagnóstico de Aids era uma sentença de morte quase imediata, e dolorosa. Eu ainda lembro da confusão que cercou a sua descoberta, a maneira como as pessoas inicialmente a chamavam de “praga gay”, e de como o pânico se espalhou aos poucos, mas com firmeza, ao verem que gays não eram suas únicas vítimas.

Uns anos atrás, conversando com Almir Santana, coordenador da luta anti-Aids em Sergipe, comentei que o número de contaminações parecia estar diminuindo. Ele, delicadamente, me deu uma aula e tentou me ensinar a não falar besteira sobre o que eu não entendo. Este blog é prova de que ele não conseguiu.

O que mais me surpreendeu foi a informação de que, depois de anos em declínio, o número de infecções vinha aumentando em três segmentos: jovens gays do sexo masculino, velhos e mulheres casadas. Os dois últimos me pareceram bem lógicos: os velhos ganharam o presente inestimável do Viagra, mas não os novos hábitos; mulheres casadas não costumam usar preservativos com seus maridos, mesmo os que têm um pé fora do armário.

Eu só não consegui entender imediatamente o caso dos jovens, que eu achava terem aprendido com o sofrimento dos que lhes precederam — até lembrar que adolescente é animal idiota, e essa juventude usa camisinha principalmente para evitar filhos, não para evitar morrer. Além disso, o fato de que aparentemente pode-se viver hoje normalmente com o vírus faz com que a urgência em evitá-lo diminua.

A geração anterior à minha lembrava dos tempos anteriores, tempos perdulários de fartura e exuberância e alegria de viver; e por isso os mais odaras tentavam entender o que se passava, os mais místicos viam a Aids como uma espécie de punição pelo desbunde dos anos 70. A minha, que não tinha vivido nada disso, tinha apenas o medo e a obrigação de desenvolver uma visão nova sobre a moral sexual, algo que tentasse combinar a liberdade alcançada com a ameaça constante de morte.

Isso se tornou pior quando Henfil e seus irmãos foram condenados à morte por receber transfusões de sangue contaminado. Alguns anos depois, como se a situação já não fosse crítica o suficiente, Magic Johnson anunciou que tinha o vírus e nós levamos um golpe fatal no pé do ouvido, coitados de nós, que então nos víamos diante da prova definitiva de que era possível pegar Aids com mulheres. “É, gente. Ferrou de vez.”

Lembrei dessas coisas que o tempo deveria ter enterrado porque vi uns trechos de uma série recente da Globo, ambientada no início dos anos 80, que tinha entre seus personagens uma moça morrendo de Aids. Me impressionou a maneira como ela era bem tratada, como as pessoas bebiam do seu copo, beijavam sua boca. Tão bonito.

E tão falso. Era tudo mentira. Esse cenário quase idílico, do amor superando a incompreensão e a ignorância, não existiu. Naqueles anos 80 a regra era o medo, e a falta de certezas. As pessoas tinham medo. Medo de abraçar, medo de apertar a mão, medo até de respirar o mesmo ar que o “aidético”, era assim que os portadores de HIV eram chamados, respirava. Certo, não demorou tanto assim para entendermos que abraço não transmitia Aids. Mas nenhum pesquisador tinha certeza absoluta de que beijo não transmitia. E o medo continuou por muito tempo.

Já faz um bom número de lustros, isso. Os anos passaram, a cura não veio mas o pânico passou. E como o esquecimento leva sempre a distorções, hoje as pessoas até acreditam piamente que os anos 80 foram uma época boa.

Mas os que vivemos aqueles anos sombrios temos uma missão diante das novas gerações. Temos o dever cívico e moral de descortinar a tragédia daqueles dias. Esses eram os anos 80, os bons anos 80 em que sentíamos que a vida tinha nos pregado uma peça de muito mau gosto e encerrado a festa justamente na hora em que conseguíamos driblar os leões de chácara e entrar. E como se não bastasse, toda essa tragédia se desenrolava ao som da música desgraçada de Rosana, Yahoo e Kátia Cega.

quarta-feira, março 07, 2018

Na areia



Por Ruy Castro

É engraçado chegar de noite ao terraço do apartamento, contemplar a areia iluminada lá em baixo e lembrar que, no passado remoto, à luz apenas de um quarto-minguante, aquele naco da praia do Leblon fora o palco de dois ou três ardentes encontros amorosos num Rio ainda sem motéis. E, mesmo que os motéis já existissem, quem tinha cacife para frequentá-los? Não um garoto de 18 anos em 1966.

Namorar na praia era quase um ménage à trois entre o rapaz, a moça e a areia, embora eu não tenha nenhuma recordação dolorosa daquelas pequenas noites de loucuras ao ar livre. Ao contrário. Apesar da pressa, do medo do guarda e da sensação de proibido – ou por isso mesmo –, a volúpia e plenitude ao fim de cada sessão eram avassaladoras.

Os anos seguintes foram generosos em termos de conforto para esse esporte. Já não era mais preciso recorrer a escapadas noturnas em praias desertas (exceto uma vez ou outra e por vontade própria, para desafiar o perigo) ou à beira de estradas, sob a proteção de manguezais. O mar é tremendamente excitante, e mais ainda à noite, quando o sal e o iodo parecem penetrar por cada poro. O marulho compõe uma trilha sonora morna e úmida e tudo isso a distância, vindos das profundezas. Ou talvez tudo isso seja uma ilusão auditiva e esses ruídos estejam sendo produzidos por nós mesmos ou pelos estranhos animais marinhos que nos invadem nesses momentos.

Nada disso me passava pela cabeça aos 5 ou 6 anos na praia do Flamengo, então limitada a uma humilde nesga de areia na altura das ruas Paissandu e Barão do Flamengo, muito antes do aterro que construiria a praia artificial. Um paredão separava a praia da rua e, para mim, o universo feminino se limitava às primas pouco mais velhas, em seus maiôs inteiros e adolescentes.

Um dia, no futuro próximo, os horizontes se abririam a revelariam Copacabana, onde descobrir que o universo feminino era habitado por milhares de espécimes do gênero, e seus maiôs deixavam entrever um vasto território de pele entre as partes de cima e de baixo. (Hoje, um daqueles duas-peças conteria tecido para fabricar pára-quedas, mas é incrível como a imaginação dos garotos conseguia torná-los sumários.)

Infelizmente, cheguei tarde para a glória de Copacabana, que já tinha se dado nos anos 40, quando Millôr Fernandes e sua turma estavam inventando o frescobol. Também perdi o auge do Arpoador, 1955-65, onde super-homens caíam n’água e voltavam com monstros de grandes guelras espetados nos arpões, para gáudio de moças tão livres e avançadas que, quando seus relógios marcavam uma hora da tarde, ainda era 1931 no resto do país.

Aqueles eram os domínios da bela Ira Etz, namorada do heart-throb Arduino, e de seus amigos, íntimos de Rubem Braga, Tom Jobim e do pescador Kabinha. Era também Ipanema e tudo o que Ipanema representaria na cultura brasileira.

Quando apareci no pedaço, Ipanema já era a Montenegro – a praia defronte à rua de mesmo nome, hoje Vinícius de Moraes. Ponha aí fins dos anos 60, com o Brasil sob a fase braba da ditadura e bunkers sendo construídos na areia para resistir a ela.

Da Montenegro, saíram a Banda de Ipanema, Leila Diniz, a revolução sexual, a Passeata dos Cem Mil e O Pasquim. Era a praia adulta, livre e responsável. Mas essa cena logo iria mudar. Por volta de 1970, a 300 metros dali, uma armação de ferro e madeira – um píer, para a construção de um emissário diante da rua Farme de Amoedo – despertou ondas violentas no mar e atraiu os surfistas.

No rastro deles, viram as gatas, os hippies, os músicos, os poetas, o fumacê e o ácido, estes estranhamente tolerados num período de sufocante intolerância: a era Médici. Enfim, um Woodstock à beira-mar, inclusive com a volta do piolho. Nunca fui da turma do píer – quando ela começou, eu estava indo morar em Portugal; quando voltei, em 1975, já tinha acabado. E, a partir de 1977, ela seria superada pelo melhor ponto de praia que já existira no Rio: o Sol Ipanema.

O qual se chamava assim não por causa de um recém-inaugurado hotel com esse nome, mas porque, tipo espigão, o prédio era uma referência fácil. O Sol, perto de onde fica o Posto 9, foi o palco da pacificação nacional. Ali, no verão de 1979, a abertura política que se ensaiava tornou-se ampla, geral e irrestrita, com a anistia, a volta dos exilados, a tanga de Gabeira, o topless e a “amizade colorida”. Tudo sob as bênçãos do psicanalista Eduardo Mascarenhas, que libertou a alma dos cantores, atrizes, cineastas, socialites, diretores de TV e jornalistas habitués do Sol, para que seus corpos abusassem do prazer sem culpa.


Eu estava lá. E, se você quiser saber, não tenho saudade de nada. Não ficou nada sem fazer.

Os Amantes



Por Rubem Braga

Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando.

Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse. Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distante de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador.

Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.

No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos, e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho.

O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais. Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.

O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas. Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.

No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar.

O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas. Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro.

Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante. Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha.

Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”. Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam? Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos.

Fiquei um instante parado, encostado a parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago. Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança.

Soneira e Preguiça



Por Antônio Maria

Não sei, mas com esse tempo assim, essas nuvens pesadas, meu peito opresso, daria um conto e seiscentos para ser Augusto Frederico Schmidt e não precisar trabalhar. Falar nisso, onde anda Augusto, que nunca mais me telefonou? Comunistizou-se, na certa. Sempre achei que Augusto daria um militante da Quinta Casa.

Com esse tempo assim, se pudesse; subiria a Petrópolis (uma Petrópolis, é claro, avant les roses), pegaria um Simenon, protagonizado por Maigret, e não sairia da cama. Sinto uma soneira, uma preguiça! Por que será que não tenho coragem de enriquecer? Quase todos os meus colegas de imprensa enriqueceram, acordando cedo, indo à cidade e vendendo suas palavrinhas, a um conto e quinhentos. O jornalismo, bem administrado, é tão bom negócio quanto a especulação imobiliária e o jogo da bolsa. Querendo, a gente vende bem aquilo que publica e, melhor ainda, aquilo que não publica.

Outro negócio que eu poderia fazer, sem grandes canseiras, era agiotagem. Ah, daria um grande agiota! Às vezes, me olho no espelho e vejo o agiota. Eu tenho os olhos pequenos do agiota magnífico. A matéria-prima da agiotagem, como sabeis, é o dinheiro... e dinheiro, com as amizades que tenho, seria canja conseguir. Tomaria, nos bancos, a 1% e emprestaria a 7%. Com o físico que Deus me deu (e quase tira), exigiria bons avalistas — do gabarito de Walter Moreira Salles para cima.

Deixa de besteira, Antônio. Vai trabalhar. Teu combustível é a preguiça. O "autêntico real, o cerne da tua filosofia", como disse Novalis. Não fosses tão preguiçoso, estarias ainda botando esterco, com as mãos, nos canteiros de cana da usina Cachoeira Lisa. Escreve, Antônio. Escreve sobre o Nada, suas causas e consequências.

No Nada, por exemplo, há uma senhora nua, tocando cavaquinho. Um menino montado num leão. Uma cobra de salto alto. Fazer poesia é mais fácil do que carregar um piano — do que tocá-lo, como os dedos de Leon Fleisher. Para que chegues à poesia, basta que te aprisiones em ti mesmo e cuspas vigorosamente a face dos outros. O poeta tem que ignorar o próximo e odiar a si mesmo. (Palavra de honra, jamais escrevi frases tão estúpidas. Mas vão ficar, porque se retirá-las a crônica ficará menor.).

Passando do Nada ao Tudo. Isto é, voltando à realidade, telefonei para a rádio, a televisão, e soube que estava em greve. Eu estou em greve, meus amigos. Meus companheiros se batem por salários que não irão aumentar os meus e por um aumento de programação ao vivo, que só aumentará, em muito, minhas obrigações. És um homem lamentável, Antônio. Viva a greve!

Thatcher: A Dama de Mármore



Por Ivan Lessa

Os britânicos não são muito chegados a estátua. Mesmo assim, de dimensões modestas e de pessoas já falecidas. Os britânicos preferem placa. Faz sentido: é prático e cumpre a mesma função de homenagear uma pessoa.

Estátua é conosco, brasileiros. De preferência, equestre.

Outro dia mesmo, soube, pelos jornais, que o colunista social Zózimo Barroso do Amaral ia ganhar, numa praça de Ipanema, onde morava, uma estátua em tamanho natural.

Quase que sugeri, em crônica para jornal carioca, botarem o pobre do Zózimo num cavalo, já que o cronista costumava frequentar a Hípica.

Os britânicos estão começando a abrir exceções. Já está pronta a estátua da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, cognominada, pelos então soviéticos, de A Dama de Ferro.

Dama de Ferro prestes a se tornar em Dama de Mármore. E mármore dos bons, de Carrara.

A versão Século XXI da agora Baronesa Thatcher, terá 2 metros e meio de altura e pesará uma tonelada e meia. Para muitos, uma visão grandiosa. Para outros, apenas assustadora.

A nova versão deverá ornamentar – se é esse o verbo – o saguão da Câmara dos Comuns, onde Thatcher comandou as ações, por assim dizer, durante 11 longos e saudosos anos, segundo muitos conservadores atualmente desiludidos com o partido e desesperançados de tão cedo voltar ao poder.

Esses vão ter que se contentar com a estátua.

A Dama de Mármore de Carrara posou apenas 8 vezes para o responsável pela obra, o escultor Neil Simmons, que a ela se refere como “uma modelo brilhante com quem se pode falar de tudo”.

A Dama de Mármore de Carrara custou mais ou menos 75 mil dólares a um doador que, misteriosamente, insistiu em permanecer anônimo.

No Parlamento, a estátua fará sombra a outras figuras importantes da vida política britânica: Disraeli, Lloyd George, Asquith, Balfour e até mesmo Churchill.

Com um detalhe importante, nenhum deles leva uma bolsinha – ou bolsona – dependurada no braço direito.

sexta-feira, março 02, 2018

Guerra ao Demônio



Por Felix Valois

Pelo zapzap me chega informação sobre um evento que pode ter importância transcendental e ajudar a mudar a história do mundo. Vai ele ter lugar no dia 14 de abril próximo, em Cuiabá.

Na capital do Mato Grosso e naquela data, os pastores Alex M. e Alexandre M. vão ministrar o “Curso de Libertação e Expulsão de Demônios na prática”. Prometem, na resenha, “estudo bíblico aprofundado”, para o que contarão com moderna tecnologia, vez que realizarão “relatos práticos com auxílio de vídeos e imagens”.

Ao final, com o necessário espaço para as indagações da plateia, farão uma “demonstração prática da oração de libertação e expulsão de demônios”. Esse fenômeno começa às dezenove horas e trinta minutos, sendo certo que o “investimento” para as três horas de aula foi fixado em cinquenta reais, com direito a “coffee break incluso” e um “kit de anotação”.

Que maravilha! Tendo em vista que o demônio tem sido personagem presente desde tempos imemoriais, só agora nossa gente vai ter a oportunidade de aprender a lidar com ele de forma eficiente, preparando-se para evitar as tentações e, ao fim, mandar o indesejado para as profundas do inferno, de onde nunca deveria ter saído.

Cuido que o valor cobrado está compatível com o mercado satânico e, em certos casos, ouso mesmo dizer que é uma pechincha. Sim, porque se o meu parco leitor não percebeu, não se trata de lidar com apenas um demônio, mas com vários (ou todos), já que a publicidade se refere a tal ente no plural.

E, se é certo que existem demônios de segunda categoria contra os quais uma simples jaculatória ou um salpico de água benta resolvem o problema, outros, ao contrário, ocupam cargos elevadíssimos na hierarquia infernal.

Ora, aprender a enfrentar os membros dessa aristocracia das trevas por somente cinquenta contos é algo tentador e eu mesmo lamento não poder estar presente para me qualificar como cruzado dessa nova legião de combate ao mal.

Imagine, por exemplo, que você tenha a desventura de, no recesso de seu lar, receber a indesejada visita de Allocer. Segundo a Wikipédia, trata-se de “um demônio cuja posição hierárquica é de um Grande Duque do Inferno e que tem trinta e seis legiões de demônios sob seu comando”.

Seria preciso aplicar tudo o que os pastores lecionarem no curso, pois esse nobre capiroto, com suas feições leoninas e os olhos flamejantes, desmonta de seu enorme cavalo para induzir as pessoas à imoralidade. Perigosíssimo.

Não menos temível é o demônio conhecido como Adramelech. Aqui, será necessária toda a atenção na parte culinária do curso, pois esse infeliz, que é “um dos dez sephiroths negativos, age sob o comando de Samael, o qual, por sua vez, se orgulha de ser conhecido como “Anjo do envenenamento”. Faltam-me informações sobre o eventual fornecimento pelos pastores dos antídotos adequados.

Igualmente pavoroso é um tal de Astaroth que, além de demônio, ainda é exibicionista pois se apresenta como “um homem desnudo com mãos e pés de dragão, asas com plumas, levando uma coroa e segurando uma serpente com uma das mãos”. Na Idade Média, houve quem o encontrasse como um enorme cavaleiro negro, montado em um escorpião.

E o que dizer de Belzebu? Da pior estirpe a criatura, jactando-se de ser “príncipe dos demônios, senhor das moscas e da pestilência”. Todo cuidado com ele é pouco, uma vez que “na demonologia cristã, trata-se de um dos sete príncipes do inferno e a personificação do segundo pecado, a gula”.

Também é conhecido como “O Quarto” por se curvar somente perante Lúcifer, Satã e Belfegor, sendo “o irmão mais velho de Lúcifer, descendente da geração de Behemoth, pai de Belial, um dos maiores demônios do inferno”.

Impossível esquecer Asmodeus. Também é um dos sete anjos do inferno e, ao que consta, está abaixo somente de Lúcifer, competindo-lhe difundir o pecado da luxúria. Em um conto judaico, “é visto como o homem mais impuro já nascido e aquele que guiou Sodoma à luxúria”.

Já dá para ver que a coisa é séria. O demônio, que conseguiu o fenômeno de reunir os católicos do Papa, os protestantes de Lutero e os presbiterianos de Calvino no empreendimento de caça às bruxas, não está para brincadeiras.

Ardiloso, matreiro, falso, o coisa-ruim exige do comum dos mortais as mais severas precauções. Por isso, esses dois santos homens de Cuiabá tem uma árdua missão pela frente. E não esqueça: por apenas cinquenta reais.

Só fico me perguntando: por onde andam a polícia de costumes e os psiquiatras?

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Sim, é apenas um comentário sobre a foto...



Por Ismael Benigno

Independentemente de quem mandou intervir na segurança do Rio de Janeiro (e foi o Vampirão, por razões óbvias e outras inconfessáveis), as forças armadas estão na rua. Se formos todos sinceros, vamos admitir que ninguém sabe no que vai dar. Em sendo o local o Brasil, a chance de dar merda é altíssima.

Apenas um comentário sobre a foto que correu a internet hoje, de crianças pequenas tendo mochilas revistadas por soldados do Exército. Vi dezenas de pessoas, amigas ou não, indignadas com a situação. E não consigo resistir a perguntas tão óbvias quanto a situação deprimente da segurança brasileira.

Primeira: vocês acham que as crianças das favelas não têm contato diário e próximo com fuzis como os da foto? Talvez a diferença seja apenas a do FAL brasileiro, dos soldados, para o AR-15 americano, dos bandidos.

Vocês acham que a violência da cena da foto é inaugural para essas meninas e meninos? Ou para piorar ainda mais a conjectura: se o destino de crianças em favelas brasileiras é conviver com homens armados, soldados do Exército ou bandidos, sem direito a uma terceira opção, o que vocês escolheriam? Ou os bandidos não invadem casas e violentam meninas – muitas vezes filmando – nas favelas?

Vamos combinar, para começo de conversa, que favela nem deveria existir. Mas soluções de longo prazo não são pro bico do Brasil, então esqueçamos.

Depois, criança perto de fuzil nunca ornou muito qualquer paisagem de país que se preze. A diferença, aqui, é que o fuzil da foto está ali para proteger a criança, e não para ameaçá-la.

Pra falar a verdade, nenhum fuzil assusta mais ninguém nos morros cariocas. E essa é a grande tragédia brasileira.

Concordo totalmente que a população se arme de celular, gravador e filmadora para monitorar qualquer abuso nas abordagens à população.

Mas pergunto, pra finalizar, aonde estavam os protetores dos direitos das comunidades das favelas, quando o caso era flagrar, filmar, denunciar e expor as atrocidades cometidas por traficantes contra os inocentes dos morros?

É mais do que salutar vigiar o poder público para evitar as atrocidades e as arbitrariedades que os militares brasileiros já mostraram saber fazer no passado.

Mas seria também muito bem-vindo que os blogueiros, youtubers e humoristas da paz se dispusessem a ir vigiar o comportamento de quem sempre mandou nos morros, de fuzil na mão, sem representar absolutamente nada que fosse benéfico para os morros.

Do fim da ditadura militar, em 1985, foram-se mais de 30 anos. Fazer experimento acadêmico tornando o Exército o bandido invasor, em homenagem a uma época em que a maioria dos ativistas de hoje nem sonhava um dia nascer, é muita falta de vergonha na cara.

A gente sabe, claro, que brasileiro não sabe ser mocinho o tempo todo. Provavelmente vai dar merda, mesmo.

Mas se indignar com soldado armado e não dar um pio para bandido armado é o suprassumo da covardia de quem não tem contato com nada desse mundo cão dos morros, a não ser pelo cigarrinho de maconha que finge não saber de onde e a que custo chegou na sua rodinha de violão.

Foi por muitas outras coisas, porque a coisa é complexa demais, mas também foi com o violão e a cara de paisagem de muita gente que a imagem dessa foto foi ganhando cores tão tristes.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Canção de Fim de Ano



Por Antônio Maria

Que dia maravilhoso haverá, aquele em que for possível telefonar para os melhores amigos e dizer-lhes que houve um ligeiro engano, que não teria sido preciso escrever coisa alguma? E que, dali em diante, nada mais se escreverá, a não ser os nomes e os números necessários das pessoas e das coisas.

Que boa impressão a de ser-se uma parte do coral, um grito em meio às vozes que clamam o gol, um gemido noturno, entre os muitos e repetidos gemidos, na imensa e fria sala do hospital de indigentes! E que absurda e amiga paz a de saber-se que a lua e a flor, o rio e a queixa, nada foi mais lua ou flor, mais rio ou mais queixa, por causa do que se disse. A própria mulher foi sempre bela ou fêmea, antes e a salvo da minha poesia e das minhas mãos!

Vivi entre o que viveu. Fui multidão e povo, um lugar ocupado, uma rescendência de suor, uma voz que pediu licença, um olhar que mendigou prazeres e uma parte milesimal dos pés que povoaram. Das minhas mãos, prefiro não contar, a não ser na custosa confissão de que foram mãos vadias. De bem, fizeram a bênção e o carinho... mas o carinho é vadio e, em toda vez que se aparta de Deus, é proibido. Prevalece, portanto, o existente da multidão, o corista, aquele que não foi o solista de beleza alguma e que, por isso, se sente irresponsabilizado dos erros de maneira especial e destacada!

Sou o rosto fora de foco de uma fotografia em que dezenas de pessoas aparecem em segundo plano. Posso ter ou não a barba crescida; posso trazer ou não uma flor no peito; posso chorar até, e ninguém botará reparo. A fotografia passará de mão em mão e todos os que comigo estiverem desfocados só serão odiados quando não houver mais nada a odiar em primeiro plano.

Só assim é – se o homem real e constante – o que sente o gosto e o cheiro da vida. A maioria se evade de sua condição real, para fazer ou imitar o êxito. Entretanto, só o êxito casual é verdadeiro. Exemplo de êxito casual: a beleza. Exemplo de beleza: a mulher bela. Uma mulher sentou-se à minha frente. Tinha luz própria... E tanta, que um fanal de evidente claridade iluminou minhas mãos, quando em gestos inúteis (as mãos) procuravam supor os seus múltiplos encantos. Mas não me quero perder além do homem real e constante, portanto, desenvolto.

Só farei, sem pudor e remorso, aquilo que fizer com desenvoltura. Principalmente, a poesia e o amor. O amor ou é desacanhado, destro, irrefletido... ou é suor. A poesia também. Por isso volta-se a multidão, vivem-se as imunidades corais e espera-se a vinda casual da poesia e do amor.

Sou o homem real, que sua, que mente, que disfarça, que teme, que inveja e cobiça. Tive e tenho os meus momentos de suicida. Não gosto que me conheçam aquém e além de um homem constantemente exposto ao erro e ao crime. É dever do ser humano pressentir em seu semelhante um sem-número de intimidades inconfessáveis. O grande e verdadeiro amor ao próximo é aquele que ama os erros mostrados e pressupostos.

Além da verdade, só existe a multidão, que exime o homem das proclamações e o ampara das consequências de sua coragem. Depois de cumprida a Verdade, ter-se-á conquistado o silêncio. “O silêncio alcançado à custa de sempre dizer a mesma coisa” (João Cabral de Melo Neto).

Só creio em dois estados de lucidez: o dos bêbados e dos poetas. Ambos são negados. Mas essa negação ainda não é a definitiva. Lucidez não é, por exemplo, comprar-se uma vitrola por cem dólares e se vendê-la por vinte contos. Isto seria melhor chamado de “paciência”... ou “organização”... ou ainda “paciência organizada”.

Lucidez não é ainda ir-se hoje para Brasília e voltar-se, daqui a três anos, com cem milhões. A isto eu chamaria de “disciplina para fazer o fácil”.

A grande lucidez dos poetas estaria, por exemplo, neste verso de Fernando Pessoa: “Em tudo quanto olhei, fiquei em parte”. A lucidez dos bêbados é difícil de defender, porque existem mil bêbados diferentes na humanidade. Mil que partem de dois: o bom e o mau. Ambos são lúcidos e, se um desagrada, é porque sua natureza repele o estado angelical e luzente da bebedice.

O conhecimento incessante da verdade faz com que o homem caminhe para o anjo. Chegarão primeiro os que mais depressa conheceram ao seu semelhante, tanto quanto a si mesmo. Nunca foi impossível o exato conhecimento próprio. É necessária, porém, a coragem bastante, para que cada qual se veja e se pegue, se espie e se apalpe, em cada um dos seus mais íntimos espaços físicos e morais.

Que as constantes feiúras a encontrar não nos retraia os olhos (no caso, o sentir) e as mãos. Depois, será mais fácil conhecer-se o próximo. E depois, então, mesmo que se minta, só se saberá da utilidade e do consolo da verdade. Faltará ânimo para o fingimento e a fuga, quando acreditarmos em que ninguém engana ninguém e em que somos capazes de conhecer o próximo, desde o instante inicial do primeiro conhecimento.

A sintomatologia do mal é evidente e constante. O homem mau ri errado. Por isso, deve-se viver em multidão. Falar e rir em coro, andar e parar em batalhões. Viver entre os que, simplesmente, estiverem vivendo. A vida coral nos alivia da obrigação do êxito, do êxito que é casual (e verdadeiro) ou é fabricado e cínico. Desconfiai dos feitos que são repetidamente comemorados com jantares e missas de ação de graças!

É esta uma simples canção de fim de ano. Escrevia, confessando-me e comprometendo-me em cada uma das minhas pequenas descobertas. Se não atingi, rondei mais das vezes a insolente verdade dos homens e das coisas. Em vez disso, escreveria uma crônica de Natal... Mas, em tudo o que eu dissesse do Nascimento de Cristo e fraternidade humana, correria o erro constante de repetir: “Natal, Natal, bimbalham os sinos...”.

(14/12/1956)

Instrumento sem dó



Por Ivan Lessa

Depois de mais de duas décadas de Grã-Bretanha, acho que já dá, de vez em quando, para eu enfileirar as coisas que gosto e desgosto aqui por estas ilhas.

As coisas que eu gosto ficam para outro dia, uma vez que aqui aprendi a ter o maior cuidado em não parecer que estou – conforme dizíamos – “puxando o saco”.

Além do mais, se é que estou bem lembrado, basta a gente elogiar uma coisa do estrangeiro, vivendo-se nele, que logo vem alguém para criticar a nossa – e lá vêm aspas de novo – “falta de patriotismo”.

Eu não aceitei diversas coisas ligadas à cozinha.

Outras me souberam ao paladar com a naturalidade de uma média com pão e manteiga.

É o caso do café da manhã reforçado inglês.

Aquele que vem com feijão branco de forno, salsicha inglesa (25% é pão), cogumelos e um tomate quente e sem casca feito na panela. Com um ovo estrelado, claro.

Mas aí já estou falando do que eu passei a gostar. Não é esse, hoje, meu objetivo.

Não gosto de 80% dos programas de humor da televisão. É tudo muito físico demais para meu gosto.

Sou mais os americanos, em matéria de enlatados.

O cinema também não desce redondo. Dele, faço a mesma crítica que os franceses, que juram inexistir cinema inglês.

Há, no entanto, porque o mundo e todos seus habitantes são um poço misterioso, a possibilidade de eu estar criticando exatamente como eles, os ingleses, se criticam. Essas coisas – who knows? – pegam.

Tudo isso para chegar onde eu gostaria de não estar: perto de uma gaita de foles.

Para mim a pior coisa que há na Grã-Bretanha são as gaitas de foles, em todas as suas variações.

Mesmo em situação fúnebre, o lúgubre das gaitas de foles me soa quase que uma palhaçada e um exagero de deboche em meio a uma situação seríssima.

Todos os lugares-comuns me ocorrem: a gaita de foles soa como um saco de gatos protestando contra a iminência de serem jogados no rio.

Eu pensava que gaita de foles só na Escócia. Enganei-me em si bemol.

Elas estão em toda parte. Os irlandeses as manuseiam com – só pode ser – maldade inaudita.

E agora, fico sabendo, no sábado, 6 de abril, Sean Connery, ator que eu admirava, vai liderar 10 tocadores, ou executores, de gaita de foles em Nova York, uma cidade que já teve, do ano passado para cá, coisas bastantes com que se chatear.

Mais: os jornais me informam que as 10 mil gaitas de foles estarão representando 30 países.

Não sei se o Brasil consta da lista. Atenção, cuidado: a gaita de foles é ardilosa.

Se bobearem ela chega ao forró e acaba com ele.

Se isso é ou não desejável, não cabe a mim opinar.

Recado ao sr. 903



Por Rubem Braga

Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador do prédio, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal.

Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003.

Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.

Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua.

Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305.

Nossa vida, vizinho, está toda numerada, e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.

Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela”.

E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

A pajelança de João da Mata


Luiz Lobão e Áureo Petita no Canto do Fuxico

Abril de 1976. Fazia dez anos que o time do Maués, da Cachoeirinha, não ganhava do time do Náutico, do Beco do Macedo, em partidas oficiais pelo campeonato amador, quando Áureo Petita e Luiz Lobão vestiram pela primeira vez a camisa do Maués, na época dirigido pelo técnico Luiz Calango.

Jogando ao lado de Gilberto, Ernâni, Vivaldo, Erasmo, Mário Rato e Alcides, os dois ex-craques do Murrinhas do Egito fizeram uma exibição de gala e o Maués enfiou 4 a zero no Náutico, com três gols de Luiz Lobão e um do endiabrado Áureo Petita, depois de ele ter driblado a zaga inteira da equipe adversária.

Assim que o jogo terminou, João Zaranza, dono do Náutico, chamou Luiz Lobão e Áureo Petita para uma conversa reservada. Se os dois topassem jogar pelo seu time, ele empregaria ambos na Fogás, onde exercia o cargo de gerente da Manutenção. Os dois toparam.

Luiz Lobão foi trabalhar como estoquista e Áureo, como frentista da bomba de gasolina dos veículos da manutenção. Puto da vida, o técnico do Maués, Luiz Calango, passou uma semana inteira andando pelo bairro disposto a enfiar uma peixeira cega no bucho dos dois “traíras”.

Na véspera do jogo de estreia dos novos reforços do time, João Zaranza chamou Luiz Lobão e Áureo Petita para uma nova conversa reservada. Os dois teriam de participar de uma sessão de descarrego no Centro de Umbanda Caboco Sete Flexas, em Petropólis, que tinha como babalorixá um outro funcionário da Fogás, João da Mata, empregado de João Zaranza e um dos mais fiéis torcedores do Náutico. Os dois toparam.

A pajelança transcorreu normalmente. Áureo Petita e Luiz Lobão ficaram apenas de cueca em um círculo de pólvora, próximo do congá. Depois de uma sequência de cânticos, o babalorixá João da Mata incorporou o exu Tranca Ruas, que retirou sete moedas de um alguidar e passou as moedas pelo corpo dos atletas.

Depois, de um segundo alguidar, Tranca Ruas retirou uma mistura de mel de abelha, azeite de dendê e gergelim e “engraxou” os pés dos atletas. Finalmente, Tranca Ruas colocou fogo na pólvora e, enquanto recitava um “ponto”, despejou sobre a cabeça dos dois atletas uma cuia contendo “banho de cheiro”, à base de alfazema, erva doce e manjericão. Feito isso, Tranca Ruas foi embora.

Na sequência, o babalorixá João da Mata deu um toque para João Zaranza, única testemunha ocular da sessão de descarrego, sem esconder a sensação de dever cumprido:

– Pronto, meu padrinho, tá tudo amarrado! Tá tudo amarrado! Só vai dar nóis!

João Zaranza se despediu do babalorixá, colocou os dois atletas no seu carro e foi deixa-los em casa.

No dia seguinte, durante o jogo de estreia dos novos reforços, nada parecia dar certo. Luiz Lobão perdeu quatro gols cara a cara com o goleiro, chutando a bola bisonhamente pra fora. Áureo Petita não conseguia dar um único drible, que tropeçava na bola e desabava de cara no chão. Não conseguiu fazer um lançamento decente nem se manter em pé em campo por mais de cinco minutos. Um vexame. O Náutico perdeu de 1 a zero. Puto da vida, João Zaranza foi tomar satisfações com o babalorixá:

– Que porra de feitiço foi aquele, João da Mata, que porra de feitiço foi aquele? O Áureo Petita e o Luiz Lobão apanharam da bola o tempo todo...

– Ué? Eles não são os fodões da Vila Mamão do time do Maués?... – reagiu o babalorixá. – Pois, o exu Tranca Ruas amarrou eles com um nó-de-cachorro da gota serena, que nunca mais aquelas duas pestes vão fazer porra nenhuma dentro de campo...

Foi um parto para João Zaranza desfazer o equívoco. Luiz Lobão e Áureo Petita tiveram que ser conduzidos às pressas para uma nova sessão de descarrego, a fim de reverter a pajelança anterior.

Deu certo. Naquele ano, o Náutico se sagrou campeão, Luiz Lobão foi o artilheiro da competição com 27 gols e Áureo Petita foi eleito o craque do ano. O babalorixá João da Mata era danado.

Aula de Inglês



Por Rubem Braga

 Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

– No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

– Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras – sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

– No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita – mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

– Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

– No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

– Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três – na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

– Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam – vitória! vitória! – e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

– Very well!  Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja, alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

– It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.

(Maio, 1945)

Beber, dever e decorar



Por Ivan Lessa

Escrevo no dia em que, no Brasil, têm início os festejos de Momo, conforme se dizia em minha época. Pior: tríduo momesco, para certos jornais e locutores de rádio.

Em sinal de solidariedade, e já que não há mais bailes decentes no Rio que foi meu e a que pertenci, estarei assistindo o desfile das escolas, em avenida ou sambódromo, e torcendo olimpicamente para que vença a melhor.

Ou seja, como todo mundo com quem me dava, estarei à distância contando com a vitória de Mangueira.

Em Londres, comemorarei os três - ou cinco ou dez - dias de carnaval, bebendo vinho e uísque e comendo coisas preparadas pelo microondas.

Como a ressaca é garantida, irei depois à farmácia para adquirir alguns remédios adequados, vitaminas e, para disfarçar o aspecto acabado de meu rosto, um ou dois produtos de beleza masculina.

O preço disso tudo é de menor importância para mim. Estou me lixando: boto tudo no cartão de crédito.

Na quarta-feira de cinzas, vou procurar mobília nova para a sala, já que, nela, a gata andou fazendo um estrago danado.

A rigor, não vou fazer nada disso. Mas o que é o "a rigor" diante do poderio, diante do charme avassalador das estatísticas?

Acabei de ficar sabendo, pelas folhas, que o dinheiro gasto em bens de consumo não essenciais, tais como os que mencionei há pouco, aumentou em cerca de 30% em termos reais nos últimos dez anos.

E que a dívida média para cada homem, mulher e criança da Grã-Bretanha é de perto de 15 mil dólares.

Isso porque as taxas de juro andam baixas.

Portanto, mais de 60% das pessoas vivem em estado de absoluto desconhecimento dos problemas econômicos globais.

É verdade. Ou deve ser verdade.

Só pode ser por isso que venho envelhecendo melhor do que as mulheres britânicas que vejo todo dia no elevador ou no metrô.

Não que eu tenha notado nada. Mas as pesquisas afirmam isso: a expectativa de vida está aumentando para os homens.

Que é, então, onde o círculo, a carnavalesca serpentina da vida, se fecha: só pode ser a bebida, as dívidas irresponsáveis e o vivo interesse por questões ligadas à decoração.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

O problema do onde



Por Ruy Castro

Uma das maiores preocupações dos garotos de 1968, além da ditadura militar e da guerra do Vietnã, era namorar. Não que faltasse com quem. O problema era onde. Namorar era um eufemismo para fazer amor, o qual era um eufemismo para o muito mais realista fazer sexo. A pílula já era uma realidade e, naquele ano, em certos círculos do Rio, a virgindade feminina se tornara um tabu ao contrário: uma garota que chegasse virgem aos 19 anos tinha vergonha de admitir isso para colegas.

Se fossem solicitados a resolver o problema das meninas, os rapazes estariam sempre dispostos a ir para o sacrifício. Mas, onde? Os motéis ainda não existiam, os hotéis para encontros ficavam na longínqua São Conrado e quase ninguém tinha carro ou dinheiro. No desespero, ia-se para a praia à noite, principalmente a do Leblon. Era escura, deliciosamente mal iluminada, deserta e, exceto por algum guarda enxerido e achacador, com privacidade garantida. Os problemas eram o desconforto e a areia, donde a expressão “sexo à milanesa”.

A alternativa, para os poucos que tinham carro, era a corrida de submarino – uma modalidade esportiva noturna, praticada por casais no banco da frente de seus Gordinis ou Aero-Willys, com os vidros fechados e embaçados, na orla do Arpoador ou do Castelinho. Nunca se viu um submarino ao largo, mas a prática era tão socialmente aceita que uma Kombi do General ficava de plantão nas proximidades, para o indispensável cachorro-quente de depois.

Mais seguras eram as garçonnières dos amigos. Garçonniéres eram quarto-e-salas mantidos por homens casados para suas piruetas extraconjugais. Como não as usavam todo dia, às vezes emprestavam-nas por algumas horas aos amigos e, de repente, sem que soubéssemos como, a chave caía na nossa mão, sob a condição de que fôssemos mais rápidos ainda.

Uma delas, por volta de 1966 ou 67, ficava na rua Paula Freitas, em Copacabana. Ali, muitas vezes estivemos a ponto de morrer de prazer. Pois imagine o susto ao ler nos jornais, em 1969 ou 70, que aquele endereço acabara de “cair”. Fora tomado pelos órgãos de segurança, por se tratar de um “aparelho” da VPR – a Vanguarda Popular Revolucionária, um dos grupos da luta armada –, com ninho de metralhadoras e tudo, debaixo da cama. E nunca soubemos se, desde sempre, o cafofo da Paula Freitas já não era um “aparelho”, só que também usado para fins imorais.

Mais alguns anos se passaram e o romantismo do sexo à milanesa e da corrida de submarino foi substituído pelo profissionalismo dos motéis, com seus tetos espelhados, camas redondas e risco zero. Os nativos se habituaram a esse conforto e assim é até hoje.

Tudo isso foi há muito, muito tempo. Desde então, tivemos a libertação da mulher, duas ou três revoluções sexuais, a ascensão e o declínio da Aids, a incrível volta da camisinha e uma brutal expansão imobiliária, mas, para muita gente, nada mudou – o problema de onde continua. Os adolescentes sempre terão de improvisar nesse departamento, seja de escada de serviço do prédio, entre um andar e outro, ou na hora do recreio, atrás do murundu.

Em 1983, Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio, anunciou que, depois do Sambódromo, mandaria construir um Beijódromo. O qual nunca chegou a existir e ainda bem, porque era uma falsa boa ideia. Todo exibicionismo é bobo, ainda mais quando permitido. Sexo é sempre ótimo, mas, com transgressão e risco, é muito melhor.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

O mocó está de luto: Paulo Figueiredo e Jorge Tufic não moram mais aqui!



Em menos de uma semana, dois grandes amigos atravessaram o espelho. O advogado, professor universitário, jornalista e escritor amazonense Paulo Figueiredo faleceu na madrugada do dia 9, sexta-feira, em São Paulo, após passar por uma cirurgia no hospital Sírio Libanês.

Paulo Figueiredo foi articulista de diversos veículos de imprensa no Amazonas, incluindo um período como colaborador do jornal A Crítica. 

Sua última obra lançada foi “Náufragos da Esperança – Corrupção e Incompetência na República Lulopetista”, na qual analisa, com olhar crítico, os anos de governo do PT no Brasil.

Ele também escreveu “O Cesteiro Inglês” e o “O Golpe Militar no Amazonas – Crônicas e Relatos”.

Além da carreira na comunicação e no Direito, ele também foi secretário de Estado de Relações Internacionais no primeiro governo de Amazonino Mendes.

O Governo do Estado publicou uma nota de pesar pelo falecimento de Figueiredo, prestando “condolências aos familiares e amigos nesse momento de perda”.

A Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Amazonas (OAB-AM), na qual Paulo Figueiredo era registrado com o número 547, também manifestou pesar pela morte dele.

O velório foi realizado no sábado, após o corpo ser encaminhado de São Paulo a Manaus.


Já o jornalista e poeta Jorge Tufic Alaúzo, autor da letra do Hino do Amazonas, morreu nesta quarta-feira, 14, também em São Paulo. Ele tinha 87 anos e lutava contra um câncer no pulmão.

Nascido em Sena Madureira (AC), em 1930, Tufic foi membro da Academia Amazonense de Letras e publicou inúmeros livros.

Aos 12 anos de idade, o escritor se transferiu para Manaus, onde realizou estudos secundários.

Mais tarde, militou na imprensa de Manaus e foi um dos fundadores do Clube da Madrugada, tendo ocupado também a direção da Fundação Cultural do Amazonas.

Em 1976, foi agraciado com o diploma “O Poeta do Ano”, prêmio concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas, em reconhecimento à sua vasta e intensa atividade literária.

Jorge Tufic era sócio-fundador da Academia Internacional Pré-Andina de Letras, em Tabatinga (a 1.108 quilômetros a oeste de Manaus), além de fazer parte do Conselho Estadual de Cultura.

O poeta acreano foi o vencedor do concurso nacional lançado, em 1980, pelo então governador do Estado, Jorge Lindoso, para a escolha do hino do Amazonas.

Desde 1969, Tufic ocupava a cadeira de nº 18 da Academia Amazonense de Letras, que tem como patrono o poeta Jonas da Silva.

Dentre os livros publicados por Jorge Tufic estão “Varanda de pássaros”, “Chão sem mácula”, “Retrato de Mãe” e “Quando as noites voavam”.

A ex-presidente da AAL, Rosa Brito, lamentou o ocorrido. “Sentimos muito, ele era uma pessoa muito competente e querida. É mais um intelectual respeitado que se foi, ele era um excelente poeta. A sociedade amazonense e brasileira perdeu um grande poeta”, disse ela.