quarta-feira, abril 08, 2015

Os bares morrem numa quarta-feira


Paulo Mendes Campos

Um amigo de Kafka conta que este arquitetava o seguinte: um homem desejando criar uma reunião em que as pessoas aparecessem sem ser convidadas.

As pessoas poderiam se ver ou conversar sem se conhecerem. Cada uma faria o que lhe aprouvesse sem chatear o próximo.

Ninguém se oporia à entrada ou à saída de ninguém.

Não havendo propriamente convidados, não se criariam obrigações especiais para com o anfitrião. E o espinho da solidão doeria mais ou menos.

É possível que Kafka não haja escrito esta alegoria por ter percebido que a mesma já existia corporificada sob a forma de cafés, restaurantes e bares.

Mas o episódio pode levar-nos a considerar com súbita estranheza o mil vezes conhecido: os bares já eram kafkianos quando surgiram no mundo.

Ou este, o mundo, é que foi o primeiro bar, quando se encontraram num jardim duas criaturas desconhecidas, e à mulher, buscando comunicação, ofereceu ao homem uma fruta.

Naquele Garden Bar principiaram os equívocos. Foi o primeiro ponto de encontro. E não durou muito.

Pois os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem. Morrem numa quarta-feira, como dizia Mário de Andrade.

O obituário dessas casas fica registrado nos livros de memórias.

Recordá-los, os bares mortos, é contar a história de uma cidade. Melhor, é fazer o levantamento das cidades que passaram por dentro de uma única Idade.

Mesmo num lugar como Paris, que apesar dos pesares procura preservar a imagem histórica, os cafés de Léon-Paul Fargue não foram os cafés de Alphonse Daudet, e este não respirou atmosfera dos cafés de Stendhal.

O curioso é que os bares do presente, por seus serviços e por sua frequência, podem merecer até o nosso entusiasmo, mas não recebem jamais o nosso amor.

O bom freguês só ama o bar que se foi. Só na lembrança os bares perdem suas arestas e se sublimam.

João do Rio tinha sete anos e se batia contra um enorme sorvete na Confeitaria Paschoal quando ouvia a Baronesa de Mamanguape exclamar encantada: “Oh! Senhor Olavo Bilac!”

Esta cena não se passou conosco, mas é como se tivesse sido. Seu conteúdo emocional repetiu-se na existência de todas as pessoas que frequentaram bares e confeitarias. E repetiu-se para o próprio João do Rio, que num livro de 1912 já escreve sobre a decadência das casas de chopes; ou simplesmente chopes, como eram chamadas.

Conta como esses chopes surgiram e morreram, partindo a invenção da Rua da Assembleia, nas mesas de mármore do Jacó, onde estetas, imitando Montmarte, inauguraram o prazer de discutir literatura e falar mal do próximo. Por esse tempo, uma mulher com a voz de barítono, chamada Ivone, montou um cabaré satânico na Rua do Lavradio, com tudo o que havia de mais rive gauche, inclusive recitativos macabros de Baudelaire. Era o Chat Noir, que perdeu o fôlego por falta de verba.

Outros chopes apareceram nas ruas da Assembleia e Carioca, esmerando-se os proprietários na invenção promocional; seus chamarizes são inventariados nessa ordem cronológica de João do Rio: tenores gringos de colarinho sujo e luva na mão, acompanhados ao piano; grandes orquestras tocando trechos de óperas e valsas perturbadoras; depois, árias italianas servidas com sanduíches de caviar, um chope chegou a apresentar uma harpista capenga mas formosa.

Foi aí que um empresário genial estreou um cantor de modinhas. Foi de endoidar: “A modinha absorveu o público. Antes para ouvir uma modinha tinha a gente de arriscar a pele em baiúcas equívocas e acompanhar serestas ainda mais equívocas. No chope tomava logo um fartão sem se comprometer. E era de ver os mulatos de beiço grosso, berrando tristemente: 'Eu canto em minha viola ternuras de amor, mas de muito amor...' E os pretos barítonos, os Bruants de nanquín, maxixando cateretês apopléticos”.

Na Rua da Assembleia, à meia-noite, Catulo da Paixão Cearense erguia um triste copo de cerveja para soluçar dorme que velo, sedutora imagem.

Tudo isso é narrado ainda no comecinho do século já em afinação de nostalgia; pois os chopes tinham morrido no início da segunda década. Uns poucos anos antes, só na Rua da Carioca eram uns dez; na Rua do Lavradio ficavam de um lado e do outro; alastraram-se pela Riachuelo, pela Cidade Nova, Catumbi, Estácio, Praça Onze. Num relampejar brilharam e sumiram as estrelas daquelas noites, esquecidas pela cidade, “a mais infiel das amantes”.

Mas o chope deu um jeito e conseguiu sobreviver; só mudou de cara e personalidade. Quando cheguei ao Rio, era chope o que se tomava em muitos bares famosos, hoje mortos: Túnel da Lapa, 49, Nacional, Brahma...

Aí se misturavam pequenos empregados do comércio, a gente de boa roupa e até os derradeiros malandros. No antigo Vermelhinho as mesas eram ocupadas por escritores, jornalistas, pintores, gente do palco e estudantes da Escola de Belas-Artes.

Suas figuras mais constantes eram Santa Rosa, com o cigarro pendurado na boca, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Lúcio Rangel, João Cabral de Melo Neto costumava chegar, conversar um pouco e, já alegando dor de cabeça, dar um pulo à Farmácia Normal.

Os artistas pretos – Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Solano Trindade, Abdias Nascimento – sentiam-se em casa nas cadeiras de palhinha do Vermelhinho, assim como os estrangeiros trazidos pela guerra.

Carlos Drummond de Andrade, deixando o Ministério da Educação, só passava de fininho pela Rua Araújo Porto Alegre.

Depois uma parte da turma atravessou a rua, pegou o elevador e se instalou no ajardinado terraço da ABI, passando a tomar uísque de fato escocês, porém milimetricamente dosado pelo garçom suíço Stuckert – o Estuca.

O que não se dava nas mercearias enxertadas de uisquerias. Nessas – Pardellas, Lidador. Grande Ponto, Casa Carvalho, Vilariño – o uísque era generoso, apesar de amplamente discutível sua autenticidade.

Grande animador desses bares foi o médico pernambucano Eustáquio Duarte, criador do gabarito fosfórico: pleiteou e conseguiu que a dose chegasse à altura de uma caixa de fósforos colocada em pé ao lado do copo.

Eustáquio (Totó Borum para os íntimos) intitulava-se o proletário e era autor de elaborada classificação psicofísica das mulheres (a pebologia); essa teoria era o enlevo de todos os frequentadores, notadamente do poeta Vinícius. Era ainda o médico (mas atribuía a paternidade a um tal de Fernando C. Pessoa, gerente de hotel na Bahia) autor de sonetos pornográficos da mais pura linhagem bocagiana.

Andou por esses bares ilustres – falo apenas dos que melhor conheci no centro da cidade – toda uma geração de vários sotaques.

Eneida (que, antes do Baile dos Pierrots, criou no Vermelhinho um forró carnavalesco de portas cerradas) era vista a todo momento, com seus balangandãs tilintantes, entrando no Instituto Nacional do Livro ou dele saindo.

Rosário Fusco era onipresente, deixando à porta de todos os bares um táxi à espera. Hoje esse dom da ubiquidade pertence ao corretor Luís Antônio Pontual.

Zé Lins do Rego era detectado à distância por sua gargalhada.

Com ar de menino levado e lavado, Lamartine Babo já entrava trauteando uma canção amena.

Ari Barroso, pelo contrário, turbilhonava para dentro do bar com gestos e gritos homéricos: parecia que a guerra fora declarada ou que um ônibus passara por cima dele; mas não era nada.

Por ali, entre Presidente Wilson e Almirante Barroso, circulou o Rio artístico, do fim da guerra à guerra fria, mas a verdade histórica manda dizer que a falta de transporte no fim da tarde foi também uma determinante desse comportamento boêmio.

Em dezembro de 1949 foi inaugurado o Juca's Bar, na Rua Senador Dantas: era o alívio do ar refrigerado que chegava.

Lá se instalaram rapidamente assessores do Presidente Juscelino, os irmãos Conde com o Jornal de Letras, os irmãos Chaves, que atraíam os nordestinos itinerantes.

Olívio Montenegro era contumaz e Gilberto Freyre costumava dar as caras.

Era uma mistura sensacional, estimulante. Ali todos os setores tinham suas embaixadas. Dou uns poucos exemplos:

Rubem Braga representava a prosa e Vinícius de Moraes o verso; Stanislaw Ponte Preta, o humorismo; Carlos Leão representava a arquitetura renovadora, passando a noite a desenhar mulheres mais em bom papel que um bom mineiro comprava na papelaria ao lado; o Coronel Amílcar Dutra de Menezes representava o Estado Novo em geral e o DIP em particular, mas soube tornar-se amigo de velhos inimigos; Antiógenes Chaves falava em nome das classes empresariais; Zé Lins, em nome do Flamengo; o Comandante João Milton Prates representava com classe a Presidência da República; às vezes aparecia Agildo Barata ou outro rebelde histórico; Luís Jardim, chupitando seu uísque com o relógio em cima da mesa, era o próprio secretário da UDN; a jornalista Jane Braga vinha em nome do Texas; Di Cavalcanti era o ponto alto das artes visuais, embora só admitisse, por tema de conversa, literatura e mulheres bonitas; estas, por sua vez, estavam muito bem representadas na pessoa de Tônia Carrero, enquanto Araci de Almeida era o samba em pessoa.

Mas algumas brechas iam se abrindo no trânsito compacto do crepúsculo e os boêmios começaram a deixar a cidade mais cedo e a criar alma nova na Zona Sul. Em bares que iam igualmente brilhando, apagando-se e morrendo. Ou pelo menos morriam para eles.

É o caso do Alcazar e do Maxim's, em Copacabana; do Jangadeiro e do Zeppelin, em Ipanema; do Clipper, no Leblon.

No Alcazar (em cima morava o poeta Augusto Frederico Schmidt) ia o pessoal que não perdia o cinema das dez e muito menos o chope da meia-noite às duas da manhã; o Maxim's, com Sílvio Caldas e Araci à frente, absorveu todos os musicais do Vilariño; no Jangadeiro aparecia Lúcio Cardoso; ao Zeppelin afluía aos domingos uma boa torrente das reuniões da casa de Aníbal Machado; no Clipper imperavam Antônio Maria (fragorosamente) e Dorival Caimmy (de mansinho).

Mas estes bares morreram ou mudaram de personalidade como do uísque para a água, o que é mais antipático que a morte. Como morreram muitos outros que conheci no breve espaço de um entardecer que durou vinte anos.

O bar do Hotel Central, por exemplo, na Praia do Flamengo, que servia rosbife de tira-gosto e era um encanto; a Brasileira, na Cinelândia, que era mais uma confeitaria, mas onde encontrei uma tarde o vigoroso romancista católico Georges Bernanos fazendo um escarcéu de mil diabos porque não podia escrever com o escarcéu que os garçons faziam; o Segunda Frente, em Copacabana, que morreu logo depois que os sócios (um deles era o pintor Raimundo Nogueira) e seus amigos beberam a última gota do estoque antes de entrar dinheiro na caixa.

São muitos outros, mas a História dos Bares do Rio, que deveria ser escrita, precisaria ser contratada por um editor.

Por fim, ultimamente, morreu o famosíssimo Lamas, no Catete. Foi devidamente chorado na imprensa e continuará sendo lacrimejado nas centenas de bares em que se espalham hoje os remanescentes de todos esses antros de perdição.

Pois agora, quando desaparece também o Bon Marché (Avenida Copacabana, esquina de Siqueira Campos), os boêmios do Rio, tangidos pela demolição imobiliária, vivem pelos descaminhos da diáspora. Aguentou 73 anos de existência.

Aquela esquina estava predestinada a libações: em 1892, ao ser inaugurada ali defronte a estação de bondes houve um lauto lunch, com brindes de champagne ao Marechal Floriano Peixoto... à Guarda Nacional... à Armada... ao Exército... à Intendência Municipal... e à diretoria da Companhia do Jardim Botânico.

Não, houve mais um, o de honra, erguido pelo Presidente do Senado ao Marechal Floriano Peixoto e ao engrandecimento da República.

No Bon Marché, Pixinguinha animou bailes de carnaval.

Por ali passaram generais, almirantes, escritores, desembargadores, artistas, jogadores de futebol, milionários, políticos, delegados, sambistas e o sempiterno Gasolina, que aliás não passou e nunca fez nada e não saberá aonde ir quando for removido o último tijolo do prédio.

Viveram no Bon Marché algumas gerações de bêbados ilustres, de gente que bebia e se entendia e que continuará se entendendo.

Pois uma lei rege a harmonia das esferas humanas: Cristo nos convidou a amar o próximo como a nós mesmos; mas a verdade é que só os bêbados aturam os bêbados; e só os sóbrios aturam os sóbrios.

As namoradinhas do prof. Thimpor


Luiz Antonio Solda

Ana

Viciada em naftalina. Quando descobri, ela havia enchido todas as minhas gavetas com aquelas bolinhas ridículas. Fui ao cinema com Ana três vezes e em todas elas o filme estava fora de foco, o lanterninha nos retirou do recinto e roubaram nosso pacote de pipocas.

Nosso romance terminou quando ela se entregou para um vendedor das Casas Pernambucanas. Atormentada pela traição, Ana fugiu para Alagoas três meses depois. Minha paixão por Ana durou até ela tentar vender minha coleção de figurinhas carimbadas para o dono da bomboniére do cinema. Ana foi a única capaz de pagar as contas do hospital quando nossas brigas descambavam para a pancadaria e ela descia a lenha pra valer.


Beatriz.

Beatriz conquistou meu coração e meu colesterol quando amarrou os cadarços do meu sapato no rabo de gato da nossa família, um felino infeliz que acabou se suicidando num sábado chuvoso, depois de passar semanas internado numa clínica veterinária da cidade.

Nossos encontros, a maioria escondidos, se davam sempre na curva do rio, debaixo do pé de eucalipto, quando ambos torcíamos para que o jipe do prefeito não surgisse na estradinha lamacenta e nos desse um flagrante inevitável.

Num desses encontros Beatriz disse que desconfiava do meu amor, que eu não demonstrava uma ponta sequer de paixão, mas eu fiz que não ouvi, peguei minhas roupas e fui embora, sem olhar para trás, tornando as coisas mais difíceis ainda.

Assim, Beatriz passou pela minha vida, balançando o meu coreto e devorando todos os sanduíches de nossos piqueniques.


Clara.

A única dificuldade do nosso namoro foi uma irmã gêmea de Clara, Abigail, com a mesma cara, a mesma persistência e a mesma pinta na coxa esquerda. Quando eu pensava que estava com Clara, estava com Abigail, e vice-versa. Durante todo o tempo eu ficava tentando descobrir com quem estava saindo e nem podia prestar atenção no filme.

Acabei descobrindo que Clara era a voz fanhosa por acaso, ao ser esmurrado violentamente pelo amante de Abigail, um alemão parrudo, com um trinta-e-oito deste tamanho. Desiludido, pedi mais um conhaque e me apaixonei por Diana.


Diana.

Conheci Diana na Churrascaria do Julião, ao ser atingido por um cupim mal assado, arremessado por um bêbado atrevido. Diana foi quem segurou o bêbado, pagou a conta e me tornou um vegetariano incontido. Hoje passo ao largo quando ouço falar em bife a cavalo.

Tudo o que restou do nosso romance foi uma samambaia mal cuidada que enfeita a sala de costura de titia.


Gilda.

Era a única disponível na festa, estava alucinada e não sabia dançar. Mas o sábado foi magnífico e se não fosse um tango mal acabado o fim de semana teria sido perfeito.


Hortênsia.

Ela se recusou a dizer seu nome durante semanas e foi nesse período que gastei todas as minhas economias em pescarias insossas e pacotes de algodão doce, sem falar nos pés-de-moleque. Uma paixão passageira, mas gratificante.


Lúcia.

Apaixonou-se subitamente pelo Caubi Peixoto, arrumou as malas e viajou para Minas, levando parte da minha vida e o dinheiro do aluguel da quitinete.


Maria.

Argentina. Maria Ornitorrinco sumiu quando voltei com os ingressos para o teatro. Quem souber do seu paradeiro é favor avisar que a peça estava ótima.

Um parlamentar mudo


Félix Valois

Pensei que já havia visto de tudo nesta vida. Nos festivais, os bois voam; na República, os ladrões são senhores; no mundo, o terrorismo bota banca. O quê, então, haveria de me faltar à contemplação?

Assim pensando, eis que sou tomado de monumental surpresa, que veio acabar com essa minha tola pretensão de onisciência, digo melhor, de onivisão, porque de conhecimento mesmo, bem sei das minhas limitações e carências.

E qual teria sido o fato causador de tamanha perplexidade, capaz de abalar a serena placidez da minha velhice?

É simples: li nos jornais que, na Câmara Municipal de Manacapuru, os ilustres edis aprovaram uma resolução (não sei o termo técnico é exatamente esse), por via da qual proibiram um de seus pares de usar da palavra por noventa dias.

O homem pode até comparecer às sessões do augusto parlamento, desde que mantenha a boca rigorosamente fechada, sem nem ao menos piar, sob pena, suponho, de que lhe cassem a palavra, ou, talvez, o mandato.

Meu caro leitor, eu lhe pergunto: onde é que já se viu uma coisa destas? Um parlamentar que não pode discursar é tão escasso quanto um trevo de quatro folhas, sendo que estes parece que surgem por simples deformação genética no reino vegetal, enquanto a outra espécie decorre de deliberada decisão de seres supostamente pensantes.

Cícero, que empolgava o senado romano com sua oratória fulgurante, há de estar repetindo no túmulo sua tradicional advertência: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”

Claro que nunca deve ter passado pela cabeça do tribuno amordaçar o encrenqueiro Catilina.

Admitamos que a verificação de presença, lá na Câmara de Manacapuru, seja feita pela chamada nominal de seus eméritos componentes.

Quando chegar a vez de o mudo responder “presente”, cuido que só lhe restam algumas alternativas, todas elas bizarras: levantar-se e orgulhosamente bater com a mão no peito, para indicar que está cumprindo sua obrigação elementar; ou levantar uma placa, onde se leia “estou aqui”, agitando-a freneticamente para que o secretário realize a devida anotação.

Pode ele, ainda, se dispuser do artefato, enviar mensagem por código Morse, valendo-se do tradicional telégrafo, que ainda deve ser usado por quem conseguiu realizar a proeza de que se cuida.

Na remota hipótese de que a modernidade cibernética já tenha batido às portas daquele parlamento, poderá então o sem língua usar um celular ou um computador, enviando a tal mensagem de presença por via de uma dessas invenções, úteis mas chatas, a que os aficionados do ramo chamam SMS, e-mail, ou, no amazonês mais puro, simplesmente zapzap.

Essa pândega me fez recordar outras situações folclóricas que a tradição popular incorporou.

Conta-se que, em certo tribunal brasileiro, o acúmulo de papéis estava adquirindo proporções alarmantes. Centenários autos de processo se amontoavam em depósitos insalubres, colocando em risco a saúde do infeliz funcionário que com eles tivesse que lidar.

Foi instituído o clássico “grupo de trabalho” para diagnosticar a situação e sugerir medidas que pudessem resolver o problema. Pagaram-se jetons e diárias, houve reuniões extraordinárias e peritos de alta especialização foram ouvidos. Ao cabo de mais de seis meses de ingentes esforços, o chefe do grupo orgulhosamente assinou o relatório final, recomendando de maneira singela que os papéis que já não tivessem utilidade (o que era praticamente a totalidade) fossem incinerados.

Foram-no? Acredito que sim, pois foi do seguinte teor o despacho final, com a deliberação do presidente da Corte de Justiça: “Tendo em vista que no bojo do material a ser destruído, podem existir documentos que sejam de interesse histórico, autorizo a incineração, desde que todos os papéis sejam devidamente fotocopiados e arquivadas as fotocópias correspondentes. Cumpra-se”.

As cópias, por serem novas, não haveriam de estar mofadas, de forma que Sua Excelência matou dois coelhos com uma só cajadada.

Por essas e outras é que não me provocou espanto a leitura de um texto engenhosamente elaborado por um poeta de língua portuguesa.

Dado à contemplação dos fenômenos naturais, o vate sempre se extasiava com os crepúsculos matutino e vespertino, admirando-lhes a fulgurância das cores e restando empolgado com o processo repetitivo do nascer e do pôr do sol.

Mas era um filósofo o nosso bom poeta. E a dúvida, essa fazedora de sapiências, foi crescendo em seu íntimo, acutilando-lhe a curiosidade.

Resolveu traduzi-la na forma em que era mestre, legando à humanidade estas preciosas reflexões: “Uma coisa neste mundo/ Que não posso compreender/ É o sol nascer de dia e de noite se esconder/ Dia é dia, ora essa/ Que vem cá o sol fazer?/ De noite, sim, que é escuro/ É que devia aparecer”.

Temos, pois, que o episódio de Manacapuru, coloca a terra de Ajuricaba na vanguarda do parlamentarismo moderno.

Acabamos de criar o primeiro parlamento do mundo em que é proibido discursar.

Se tomarmos como exemplo o que acontece no Congresso Nacional, a partir de algumas legislaturas e tendo como parâmetro certos pais da pátria, seremos forçados a convir em que a medida não é de todo descabida.

Antidemocrática, inusitada e inexplicável, mas… da maneira como discursam alguns parlamentares…

Convenhamos mesmo.

terça-feira, março 17, 2015

Algumas idéias para peças de teatro


Luiz Antonio Solda

João Maria tenta desesperadamente escrever uma peça de teatro para participar de um concurso. Folheia livros, consulta anotações. A campainha toca, ele vai atender. É Fausto, acompanhado do Diabo.

João Maria esperava Godot, mas diz nada. Fausto, que firmara um pacto com o Diabo, quer que João Maria o ajude a procurar Margarida, expressão de pureza a virtude. João Maria se recusa. Tem que lavar toda a louça e levar as crianças no colégio.

Mefistófeles, escondido atrás da cortina, ouve toda a conversa. Misteriosamente, o telefone toca.

É Goethe. Começa o bate-boca. A mulher de João Maria reclama do barulho. João Maria vende a alma a Goethe, que lhe promete a juventude eterna, a satisfação dos desejos e dois ingressos para o show da Rita Lee.

A empregada, encarnando o conflito humano entre a matéria e o espírito, ignorando a situação, pede aumento.

Surge Godot, não se sabe de onde, representando as obras de cunho universal. Alguém tenta servir o cafezinho. As luzes se apagam. Mefistófeles passa a mão na empregada. Tumulto. O inspetor Poirot invade o apartamento. Fica no ar aquele cheiro de carta rasgada.

***

Bentinho e Capitu estão almoçando. Em outra mesa do restaurante, Tom Jones, o andarilho generoso e irreverente, interrompe o licor e observa a salada dos Irmãos Karamazov. É sábado. Um baiano reclama da feijoada.

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Um rei é assassinado. No velório, os presentes refletem sobre as paixões humanas, a harmonia social e a moral da sociedade. Três feiticeiras horrendas mandam um pombo-correio para Riobaldo, General do Exército Real, avisando que ele será o futuro soberano do Nordeste.

Sem saber de nada, Riobaldo come o pombo. Chove em todo o sertão. Riobaldo, com disenteria, mata o Rei Duncan, tornando o clima sombrio. Intriga. Medo. Violência. Todos vão ao McDonald’s mais próximo.

***

João é noivo de Maria. Trocam carícias no velho sofá desbotado. O retrato do pai os observa. Dona Rosinha prepara o jantar. Dalton Trevisan passa pela sala na ponta dos pés, tropeça num lugar comum e cai nos braços do vampiro de Curitiba. Mistério. Tchekov e Maupassant zombam dos leitores. Trevisan, observador atento dos pormenores da realidade, se afoga. Um moço em Curitiba só tem um remédio: afogar-se. Pára a música, fecham-se as cortinas e ninguém mais toca no assunto.

***

O Grande Vazio da Alma Humana está na sala vendo televisão. A Fantasia Exótica Magistral volta da feira e encontra os Traços Primitivos fazendo algazarra no banheiro. O Grande Vazio pergunta pelo salsão. Não havia salsão na feira.

A Fantasia Exótica chama todo mundo e faz uma descrição do mundo tal como ele realmente é. Tolstoi, apavorado, foge de casa. O Compêndio de Gramática explica que o artigo é a parte da palavra que serve para exprimir a extensão em que o substantivo será tomado.

Pânico no palco. A omissão do Artigo Definido acaba incriminando a Formulação do Plural, que foge do país.

O Grande Vazio da Alma Humana continua vendo televisão.

Pequeno manual do sexo virtual seguro


Reza a lenda que nos anos 1980, quando os formatos VHS e Betamax disputavam a hegemonia do vídeo doméstico, foi o apoio da indústria da pornografia que determinou a vitória do primeiro.

Vinte anos mais tarde, em 2013, estimava-se que os sites pornô eram mais acessados do que Netflix, Amazon e Twitter. Juntos.

A nova safra de capacetes de realidade virtual, como o Oculus Rift do Facebook, ainda está em processo de desenvolvimento, mas já tem gente pensando em aplicações de sexo virtual imersivo nesses universos ficcionais altamente verossímeis. Coisa que, aliás, o cinema com sua mania de prever o futuro meio que já sinalizou no passado recente em filmes como O Demolidor.

A verdade, embasada por esses e outros dados, é que a gente gosta de uma putaria virtual.

Sexo e tecnologia sempre andaram juntos. Na verdade, é possível estender essa máxima: sexo e todo o resto sempre andaram juntos. Tudo que facilita, viabiliza ou aponta para uma oportunidade de ir para a cama com outra pessoa captura a nossa atenção. Mais que isso, muitas vezes, torna-se o norte das nossas ações.

Aldous Huxley, autor de clássicos como Admirável Mundo Novo, disse que “um intelectual é alguém que encontrou algo mais interessante que o sexo.” Essa nossa obsessão, tão bem sintetizada por Huxley, é compreensível. Afinal, sexo é bom demais.

É fascinante como sexo e tecnologia percorrem caminhos improváveis, tal qual um casal apaixonado e cheio de tesão, a fim de se encontrarem. Fascinante e um pouco intrigante, dado que a tecnologia, com suas telas azuis e (esperamos) assépticas seja quase sempre vista como uma interface fria, o oposto do calor aconchegante que uma transa proporciona. O que explica o sucesso dessa dupla à primeira vista improvável?

O prazer mediado por telinhas

Apesar dessa aparente contradição, a tecnologia serve muito bem e em diversas frentes ao sexo. Com uma ajudinha da imaginação, mesmo a mais básica delas, a menos rica em feedback sensorial, funciona. Tomemos como exemplo o sexting.

O termo “sexting” foi cunhado em 2005 por um jornal australiano e é uma combinação das palavras “sex” e “texting”, esse último, numa tradução livre, sendo algo como mandar mensagens de texto via SMS, pelo celular. Já deu para sacar do que se trata, certo?

Em vez de avisar o seu colega que você irá se atrasar para a reunião, ou mandar uma mensagem à sua mãe dizendo que a viagem foi tranquila e você chegou bem, as pessoas passaram a dizer sacanagens umas às outras porque... bem, por que não?

Posteriormente, com o MMS e a chegada dos smartphones e seus inúmeros apps de bate-papo com suporte a fotos, vídeos e mensagens de áudio, o sexting se modernizou, virou multimidiático.

Você provavelmente já se emocionou lendo um texto na tela do computador, ou vendo um filme na TV. Talvez já tenha desabado em lágrimas e sorrisos com a imagem chuviscada de um projeto de pessoinha numa máquina de ultrassom. As telas, ou o que aparecem nelas, mexem com a gente. Por que excitar-se com um celular na mão seria diferente?

Praticar sexting exige imaginação, uma pitada de coragem e confiança irrestrita no parceiro, mas apesar desses poréns é uma coisa natural. Para Jenna Wortham, é natural e generalizado. Em um belo ensaio na revista digital Matter, ela sentenciou: todo mundo manda sexting.

No projeto, Jenna pediu a voluntários, conhecidos ou não, que enviassem fotos deles mesmos nus e contassem suas histórias de sexting. As motivações, como se pode ler nos 16 relatos selecionados, variam. Mas é notável, em vários deles, a preocupação com a exposição, com possíveis vazamentos, com as consequências de se desarmar e se expor tanto a outra pessoa acarretam.

Casos de revenge porn, vazamentos em grupos no WhatsApp e invasões com a finalidade de encontrar e divulgar imagens íntimas são comuns. Mais do que imaginamos.

Para cada Scarlett Johansson que tem sua privacidade exposta, existe um punhado de mulheres anônimas que “caem na rede”, que são violadas de uma maneira vil, sem chance de defesa, muitas vezes sem sequer saber de onde veio o ataque.

Em boa parte dos casos, a origem desses vazamentos anônimos é o sexting. Não encare isso como um grande sinal de proibido, como sua tia conservadora que sempre joga a culpa na vítima quando casos do tipo aparecem no jornal. Entenda como um alerta gentil de alguém que vê com naturalidade a exteriorização do prazer, mas que está ciente dos riscos potenciais.

Queremos, com este texto, dar dicas objetivas para você curtir essa experiência íntima mediada por smartphones. É possível, é o que faremos, mas seria irresponsável não avisá-lo de antemão que não existe tecnologia 100% segura.

Nada, do ponto de vista técnico, garante que suas fotos íntimas estarão a salvo de olhos que você não quer que as vejam. Esteja sempre ciente disso. Certo? Ok, vamos em frente.

Preparando o terreno para o sexting seguro


A traição do seu companheiro de sexting não é o único vetor para vazamentos, nem deve ser a única fonte de preocupações. Na real, terceiros são mais perigosos. Eles podem estar à espreita, apenas aguardando uma brecha ou criando iscas para fisgar os menos precavidos.

Contra eles, existem dois cuidados, não concomitantes, mas que podem (devem!) ser usados em conjunto: conectar-se a redes seguras e usar apps com criptografia. Dizendo assim parecem coisas altamente complexas, mas na prática é bem provável que você as use e nem saiba.

Uma rede segura é uma protegida por senha e de procedência conhecida – dica do Google.

Um ponto de acesso Wi-Fi pode ser configurado de diversas maneiras, com ou sem senha e, se com, usando protocolos diversos como WEP (fraco) e WPA2 (recomendado).

Redes particulares, essa que você talvez use em casa, saem na frente por barrar, a princípio, a entrada de estranhos e ser algo certo, conhecido.

Usar uma rede pública aberta (sem senha) é arriscado já na conexão: nada garante que ela não seja uma falsa, criada para atrair vítimas. E mesmo que não seja o caso, a presença de mais pessoas na mesma rede em que você navega é um perigo em potencial.

Pode ser que nada aconteça; pode ser, porém, que alguém esteja interceptando toda a comunicação não segura (sem criptografia) na esperança de conseguir algo valioso. É por isso que todo especialista de segurança desaconselha o uso delas para atividades delicadas, como transações bancárias e, sim, o sexting. (Caso seja entendido pode apelar para uma VPN, mas isso está além do que a maioria está disposta a lidar.)

A criptografia anula as consequências de uma eventual interceptação de dados. Caso dados criptografados caiam em mãos erradas, o dono delas teria um punhado de bits desordenados e sem sentido.

Transmitir dados criptografados significa que apenas as duas pontas da conversa conseguem decifrar a mensagem. Qualquer um que interfira terá um trabalho enorme para ter acesso ao conteúdo desses dados. Às vezes, tão grande que não compensa o esforço.

A Electronic Frontier Foundation tem uma tabela bem bacana sobre a segurança e privacidade de um punhado de apps e serviços de troca de mensagens – provavelmente mais do que os que você conhece.

É curioso notar, por essa lista, como os mais seguros são os menos populares (e mais complexos) e como alguns que vendem a ideia da privacidade não são lá tão seguros. Vide o Snapchat.

Os melhores apps para sexting

Eu adoro o conceito do Snapchat. Acho que ele funciona para bem mais do que sexting, embora essa finalidade seja inegavelmente um dos seus pontos fortes – tanto que já virou negócio nos EUA e uma dor de cabeça para os donos do serviço, que precisam lidar com adolescentes mandando fotos deles mesmos peladões.

É fácil entender por que o Snapchat ganhou essa fama de app para sexting: em tese, ele anula o salvamento da foto e as consequências que essa característica do digital libera, que são a cópia infinita da original e a facilidade em compartilhá-la.

Segundo a tabela da EFF, o Snapchat criptografa as fotos e mensagens quando elas estão em trânsito e teve o código auditado recentemente, mas o conteúdo em si não é criptografado e, pior, apps de terceiros podem ser usados.

O maior problema do Snapchat, entretanto, é de percepção. A premissa, de fotos e vídeos que só podem ser vistos apenas uma vez, pode dar uma falsa sensação de segurança.

Falsa porque nada impede o “print”, nem o uso de ferramentas que salvam, na surdina e sem alertas ao remetente, as fotos e vídeos feitos pelo app. Foi essa permissividade que viabilizou aquele vazamento de imagens no final do ano passado.

Ok, Snapchat é legal, mas tem lá suas falhas. Se você quer segurança absoluta, qual app usar, então? Algumas boas alternativas esbarram no grande dilema da segurança digital, que é equilibrar segurança e comodidade.

Esses dois conceitos costumam ser conflitantes, como se estivessem em uma gangorra. Fazer com que eles fiquem nivelados é um dos grandes desafios modernos.

Não à toa, soluções reconhecidamente seguras, como TextSecure e o PGP (para e-mail) alienam usuários que não sabem ou não querem lidar com camadas extras de complexidade.

Minha indicação, e um dos apps que melhor lidam com essa questão, é o Telegram. Atenção: é o Telegram no modo de chat secreto, que torna a comunicação segura à custa da comodidade (olha aí!) de conversar por vários dispositivos ao mesmo tempo.

Para ativar esse modo, que “corta” a nuvem do papo e coloca os dois interlocutores em contato direto, sem intermediários e por apenas um dispositivo, toque no botão de nova mensagem e selecione “Novo Chat Secreto”.

Telegram

Usando o Telegram no modo chat secreto, ele ganha criptografia de ponta a ponta. E mais: se uma conversa é apagada em um dos celulares usado no papo, ela some no outro.

Além disso, o Telegram também passa a lidar com mensagens que expiram depois de um tempo, da mesma forma que o Snapchat. E vale para texto, fotos, vídeos e arquivos.

Todos os ingredientes para ter um papo mais quente com a segurança que algo assim demanda estão aqui, relativamente acessíveis e fáceis de serem usados.

Outra boa solução é o iMessage, da Apple, combinado com o FaceTime para vídeo chamadas e ligações. Ambos também são criptografado de ponta a ponta e, no caso do iMessage, conta com fotos e vídeos que expiram (ainda que não haja muita flexibilidade em relação a prazos).

O FaceTime é bastante simples de usar, com dois toques se começa uma chamada por vídeo. O problema? Ambos precisam ter um iPhone ou iPad, já que esses apps só funcionam nos dispositivos da Apple.

Existe ainda uma terceira opção, essa feita especialmente para conversas sigilosas (por texto e voz). É o app CoverMe, com versões para iPhone e Android.

Todas as funções que o modo chat secreto do Telegram oferece estão disponíveis aqui, e mais: chamadas privadas, atendimento dependente de senha e uma espécie de cofre digital, que protege suas fotos e outros arquivos salvos no próprio aparelho.

E ele cobre mensagens de texto (SMS) comuns, o que é interessante se você é do tipo old school. Tem fetiche pra tudo nesse mundo, né?

Cuidados extras

Caitlin Dewey, do Washington Post, nos lembra de outra possível brecha do sexting: a rastreabilidade da foto.

É que mesmo que seu rosto não apareça (eis aí outra boa dica!), provavelmente alguma outra informação pessoal ficará vinculada à imagem, como o número do telefone ou o perfil de rede social usado para o envio.

Não é só o que aparece na foto que pode ser identificado. O arquivo digital dela carrega informações reveladoras. São os dados EXIF, meta dados que toda fotografia carrega consigo.

Eles registram num pedaço da foto coisas como data e hora da foto, marca e modelo do smartphone usado e, dependendo da configuração do aparelho, até a localização exata onde a foto foi tirada.

Na maioria dos apps modernos, como Snapchat e WhatsApp, as imagens trocadas perdem esses dados. Elas são redimensionadas, “salvas novamente” (ou nem isso, no caso do Snapchat), ações que criam uma nova foto limpa, sem resquícios da original.

De outro modo, porém, é bom atentar para esses detalhe e não dar margem ao azar. No computador, o próprio sistema (Windows ou OS X) exibe os dados EXIF nos respectivos gerenciadores de arquivos e links para apagá-los.

No smartphone, que é o local que nos importa, apps como TrashExif (iOS) e EZ UnEXIF Free (Android) fazem o serviço. Você pode se antecipar e mexer nas configurações de ambos os sistemas a fim de que eles não salvem informações comprometedoras. Aqui ensina como fazer.

Todas essas dicas são válidas e ajudam a blindá-lo contra possíveis situações chatas – para dizer o mínimo. O principal, e tão importante que vale repetir o alerta, é estar ciente do interlocutor, da pessoa com quem você compartilha tamanha intimidade.

O amor incondicional de hoje pode virar frustração e raiva em um momento futuro, e esses sentimentos, serem canalizados em ações baixas, como o revenge porn. Nenhuma vítima disso esperava que fosse acontecer, o que nos dá uma dimensão de como somos pessoas imprevisíveis.

Eu sei que duvidar do parceiro pode dar aquela broxada, então a confiança é, além de importante no contexto racional da coisa, um ingrediente indispensável para ter prazer no sexting. Ela é a famosa união do útil ao agradável.

Dizem que há algo de afrodisíaco no risco, mas não se deixe levar totalmente por essa ideia. Mande nudes, troque sacanagens por texto, curta com seu parceiro quando vocês não estiverem fisicamente juntos, mas se a preservação da sua privacidade e intimidade é algo importante para você, não faça isso com qualquer um.

Não existe tecnologia capaz de vencer a vontade de fazer o mal do ser humano.

terça-feira, março 03, 2015

Você não é o Highlander, portanto coma alcoólico é para todos


Lombinha, as 30 doses de vodca e uma trajetória interrompida pelo álcool

Denise Molinaro

Bota um pack de Heineken na minha frente que você vai ver o que eu faço... Embora seja mulher e comporte apenas 1,66m tenho alguma força etílica. Mas também tenho que trabalhar no dia seguinte, senão ninguém paga minhas contas, e aí tudo muda - eu bebo, eu gosto de beber, mas preciso acordar intacta para minhas atividades cotidianas porque não nasci na família Hilton.

Agora, se seu amigo macho falar isso, vem o temor da opressão. Acho idiota como negar uma dose numa roda de homens é afastar-se anos luz da virilidade.

Falando em virilidade, só pra te lembrar: quem enxuga as garrafas tem grandes chances de broxar. Mas, rebobinando...

Todo mundo bebe, porém, somente quando alguém revela essa causa morte que a gente abre o olho para tal realidade. “morreu num acidente de carro voltado bêbado da balada”. Fatalidade? Não: suicídio - e, quiçá assassinato se alguém que não tiver nada com esse porre for atingido pelo carro do bêbado irresponsável. Quem pega o carro fora de si sabe o risco que corre, vamos combinar.

Não recebi com choque a notícia de que o jovem de 28 anos Humberto Moura Fonseca, vulgo Lombinha, morreu após a ingestão de 30 doses de vodca. Aqui: teria sido suicídio?

Valendo-se que todos estavam numa festa OPEN BAR de faculdade posso dizer que foi imbecilidade mesmo.

Opa, péra, não vem você xingar o cara, porque se teu amigo te apertar na happy hour porque você precisa ir embora cedo pra reunião de amanhã aposto que você volta pra mesa e faz o clone do Zeca Pagodinho que não canta pagode e não mora em Xerém, mas que não nega uma birita porque afinal "quem não guenta bebe leite".

Tá, por favor...

Eu não estou nessas linhas querendo pregar o caminho da moral, mas vamos nos atentar para a realidade dos fatos: quem bebe 30 copos de vodca, se não tava rezando pouco e tiver um anjo da guarda 24 horas ganhando em dólar no mundo espiritual vai, no mínimo, conhecer o gelado de um leito de hospital com picadas de glicose na veia. (com a sorte de quem tem plano de saúde, sic sic)
O interessante é como a bebida está diretamente ligada a coragem e a diversão: quem bebe muito é forte, é treta, é resistente. Dá-se ao porre um valor muito maior do que ele tem. Quem bebe até cair tem meritocracia.

Tem uma expressão que eu acho bem curiosa: "você bebe igual macho", porque afinal, beber é coisa de homem.

O que aconteceu com essa cara foi uma morte de brincadeira. Ele colocou em prática aquele ditado que corre solto nos bares: "beber como se não houvesse amanhã". E não houve porque bebida é tão droga quanto cocaína, tão pesada quanto comprimidos alucinógenos feitos em laboratório com o único objetivo de tirar a pessoa do controle da situação.

Talvez essa seja a palavra que tenha faltado na festa universitária: controle. Festas open bar são convites à morte alcoólica. Ninguém vai a esse tipo de evento para intervalar um copo d'água a cada destilado que desce rasgando a garganta.

Interessante é o que acontece depois - um mal estar punitivo da sociedade que julga o acontecido como comportamento desviante.

Sabemos o quanto um porre de cair na calçada é normal entre nossos amigos, mesmo todo mundo tendo ciência que álcool não é milk-shake de ovomaltine, mas como seria se você dissesse aos seus bróders que decidiu parar de beber? Talvez muitos deles vão espalhar que você virou viado. Ou que sua namorada não te deixa mais exercer suas vontades.

Eu vi o vídeo do Lombinha ingerindo a segunda dezena de doses de vodca e o coro dos amigos era: au au au o lombinha é animal.

Da gênese desse episódio eu diria: sim, animais não raciocinam. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Banda da Caxuxa reúne 5 mil foliões num carnaval tipo “paz & amor, bicho!”


Na última terça-feira, 17, cerca de 5 mil foliões se divertiram na Banda da Caxuxa, numa das maiores batalhas de confete já realizadas no mítico cruzamento das ruas Parintins e Borba, na Cachoeirinha.

O lugar é mítico porque foi naquele canto que nasceu o Bloco do Macacão (1973), o imbatível Murrinhas do Egito (1974), o bloco Andanças de Ciganos (1976, hoje GRES Andanças de Ciganos), o invocado Setembro Negro (1977), o famoso Barraka's Drinks (1980), o grupo musical Cio da Terra (1981) e o embrião do aloprado bloco Aluga-se Moças (1985).

Também no mesmo cruzamento funcionou, durante décadas, o inesquecível boteco Top Bar, do saudoso Aristides “opa, maninho!” Rodrigues, que hoje a gente tenta emular, inutilmente, no Bar da Kátia, mais conhecido como “Canto do Fuxico”.


A Banda da Caxuxa é uma criação coletiva do analista de sistemas e livreiro Simas Pessoa (vulgo DJ Careca Selvagem) e dos advogados Juarez Tavares e Newton Melo, com a assessoria técnica da Kátia Flávia, proprietária do boteco-sede da banda.

A jurássica velha guarda dos Ciganos (eu, Sici Pirangy, Arlindo Jorge, Ricardão, Paulo César Dó, Argemiro, Luiz Lobão, Cláudio Carioca, Rubens Bentes, Mestre Louro, Nego Walter, Belisca, Carlos Henrique, Antídio Weil, Sadok, Charles Brau, Djalma, Hilário, Junior Malheiros, Celestino Neto, Jorginho Skank, Dinho Garcia, Didão, Zé Alfredo, Albino, Neto, Cley, Wladimir Brother, Chiquinho, Joel, Nelsinho, João Cachorro, Antônio Moura, Lucio Preto, Áureo Petita, Mestre Pinheiro, Ormando Barbosa, etc) entrou na onda apenas para reforçar a couraça do dinossauro.

Esse ano, a banda não recebeu um centavo da Prefeitura de Manaus ou do Governo do Estado, que ajudaram financeiramente mais de 150 bandas e blocos de rua.


Toda a infraestrutura da festa (palco, iluminação, aparelhagem de som, bandas musicais, banheiros químicos e brinquedos infantis) foi custeada integralmente pelos brincantes, mediante contribuições voluntárias que variaram de R$ 50 a R$ 100.

O panavueiro desta 4ª edição da festa era uma celebração conjunta pelos 80 anos do seu Chico Eletricista, um dos moradores mais queridos do bairro, e pelos 30 anos do bloco Aluga-se Moças, formado exclusivamente por homens vestidos de mulher.

Os novos machões do pedaço devem achar que basta colocar uma roupa feminina para dar vontade de liberar o caneco porque apenas uns 15 cavaleiros templários da AMOAL encararam a experiência (eu incluso).


A fuzarca começou às 15h, com a Orquestra Invisível da Brahma (o vocalista Gilson Sabiá e o tecladista Erivaldo Badaró deram um show de bola cantando os maiores sucessos do Araketu, Gerasamba, Olodum, Camaleão, Banda Mel, Pinduca e Alceu Valença).

Na sequência, se apresentaram as bandas Panela de Pré-Samba (com um repertório de sambas da melhor qualidade), Cara de Pau (formada pelos músicos do grupo Os Embaixadores, que tocaram até Pink Floyd em ritmo de marcha-rancho), Dragões de Komodo (do Sargento Ramalho, especializada em frevos e marchinhas do tempo do Onça) e a alucinada bateria Vai Ou Racha, do GRES Andanças de Ciganos, capitaneada pelo Mestre Bá.


A festa acabou de madrugada sem uma única cena de violência, apesar do farto consumo de manguaça, cigarrinho de índio e maisena que passarinho não cheira.

Hosana às alturas, mas a Cachoeirinha tem mesmo um povo civilizado...

Foi muito legal rever velhos amigos de adolescência como os irmãos Ivaldo e Ivan (“Frank Seixas” e “Ivan Cabasso”, nos nossos tempos de ETFA), Eduardo, Binga, Heraldo Cacau, Gilberto, Paulo Sarará, Britão e tantos outros.

O lado ruim da esbórnia: apesar da alta concentração de fêmeas disponíveis, eu não comi ninguém.

Em compensação, também não fui comido.

Abaixo, alguns flashes da presepada.