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quinta-feira, junho 07, 2018

Canção de homens e mulheres lamentáveis


Por Antônio Maria
Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá.
Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?
Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:
— Estou me sentindo assim, assim, assim...
A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.
Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.
E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.
Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.
Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.
Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:
— Que é que houve? O senhor está mais velho?
Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:
— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.
Tinha pensado que, sem os óculos...
Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.
Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

(9/10/1964)

O Conde e o passarinho



Por Rubem Braga

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um Conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o Conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração (sem trocadilho).

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens – o Conde e o passarinho – foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.

Devo confessar preliminarmente que entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O Conde não sabe gorjear nem voar. O Conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o Conde. O Conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o Conde é um industrial, e o Conde é Conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é Conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.

Entretanto, eu não quisera ser Conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser Conde. Não amo os Condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte. Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder. Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?

Mas voltemos ao Conde e ao passarinho. Ora, o Conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O Conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de Conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do Conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.

O Conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito! Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do Conde, varando as fábricas do Conde, sobre as máquinas de carne que trabalham.

A vida é perto



Por Ruy Castro

O conceito é de Millôr Fernandes, e se explica por si mesmo: a vida é perto. Foi dito por ele para a cantora Olivia Byington, a respeito de alguém que, sendo carioca e morando no Rio, fazia questão de ter casas e apartamentos em várias cidades do planeta. “A vida é perto, Olivia”, disse Millôr. Sem elucubrações outras. Ela entendeu, contou para todo mundo e todo mundo entendeu.

Foi também de Millôr que roubei o conceito de que ideal é morar, no máximo, até o 4º andar – para conservar a perspectiva humana. Por isso, há anos, ao comprar um apartamento no Rio, fiz questão de que, ao chegar à janela, eu estivesse ao alcance da voz de quem passava lá embaixo, na calçada. De que pudesse ler a tabuleta na carrocinha com o preço do Chica Bom e, idealmente, distinguir a cor dos olhos das moças a caminho da praia – único item que não foi atendido, porque elas passam de óculos escuros. Enfim, a vida é perto.

Preocupada com as possibilidades de contágio da gripe suína em São Paulo, uma autoridade sanitária paulistana disse que a situação é grave porque, lá, as pessoas passam o dia em interiores: no ônibus, no metrô, no escritório, na fábrica, no restaurante, na boate, em casa ou na casa dos outros. Impossível o espirro individual. Daí inferi que, em algumas cidades, a vida é dentro. E que, em outras – o Rio, por exemplo –, a vida é fora.

Pode-se estender o conceito a muitas categorias, com direito a escolha, como a de que a vida é hoje, ontem ou amanhã; de que a vida é agora ou nunca; ou de que é um amistoso ou a valer três pontos. Tudo vale. Mas, sob qualquer das possibilidades acima, a vida seria muito melhor se tivéssemos mais tempo para pensar nela.

Mas não dá, porque a vida, quando acordamos para ela, é depressa demais.

quarta-feira, junho 06, 2018

Jornalistas! Presente!


Audálio Dantas, um jornalista com alma de poeta

Por Joaquim Ferreira dos Santos

O jornalismo é feito o samba do Nelson Sargento sobre um grande amor em perigo — agoniza mas não morre. É por isso, depois de um maio com muitas perdas, que se deve dizer apenas um breve “descansa em paz” para Audálio Dantas, o grande repórter da geração de ouro da revista “Realidade”. No dia 30, ele fez a passagem desta para uma outra edição.

Que seja suave seu encontro com os coleguinhas que também já preencheram as laudas do tempo, desceram às oficinas mais profundas desta existência impressa em off-set e não podem mais, por esse motivo de força maior, participar dos plantões de fim de semana. O prazo da matéria encerrou. Só há espaço suficiente na página para agradecer às fontes exclusivas por tantos furos em off, dar uma olhada de soslaio na estagiária de calcanhar sujo e fechar este caderno. Aproveitando a distração do ombudsman, pode substituir o ponto final seco do jornalismo moderno pela vibração vintage e agradecida de muitos pontos de exclamação!!!!

Ganhava-se pouco, mas era divertido e chegou a hora de disparar ao mesmo tempo o teclado de todas as Remingtons da Redação, jogar para o alto todas as bolinhas de papel de lauda que estiverem à mão, e saudar Alberto Dines, o editor do “Jornal do Brasil” nos anos 1960, também ido em maio para algum outro desafio. Risque-se com tinta alegre o seu nome do “seboso”, o fichário com os telefones de jornalistas e fontes, uma peça de higiene tão precária que um dia, décadas depois de uso coletivo na Redação, amanheceu com a inscrição na capa: “Interditado pela Saúde Pública”.

Todas as pautas foram cumpridas por Dines, entregues ao chefe de reportagem com duas cópias em carbono e no dia seguinte registradas com a glória da chamada no alto da primeira. Que vá em sossego. Quando encontrar o Zózimo Barrozo do Amaral, sua cria, devolva-lhe com carinho a pergunta que ele transformou em bordão de jornalistas. Ao chegar na roda do cafezinho, o elegante colunista social perguntava: “E aí, come-se alguém por seu intermédio?”.

Não há mais textos para copidescar, velho Dines, nenhuma necessidade de pegar a caneta esferográfica e cortar expressões rebarbativas como “via de regra”, “decúbito dorsal” ou “valente soldado do fogo”. O grande trabalho acabou. No sutiã do seu obituário, a linha solta que o “JB” inventou para segurar a manchete, o redator-chefe das estrelas universais escreverá “o jornalismo nunca mais foi o mesmo”. Que essa despedida para longe do seu observatório de imprensa se faça ao velho estilo das noites de sexta-feira. Diante do “pescoção”, a tarefa hercúlea de fechar os jornais de sábado, de domingo e de segunda-feira, os jornalistas, ainda sob a eufórica liberdade do politicamente incorreto, abriam garrafas de uísque por todos cantos da Redação. Só assim, calibrados, partiam na medida e nada mais para realizar a maratona de títulos no formato 3 linhas de 13 toques.

Alberto Dines, o olhar da resistência no jornalismo

Outra garrafa de uísque deve ser aberta em honra a Giuseppe Amato, que também em maio cobriu pela última vez sua Olivetti Lettera com a capa de plástico e deixou de machucar as pretinhas, o jeito não pedante de um jornalista evitar o verbo “escrever” e ao mesmo tempo uma referência brincalhona, ainda sem risco de ser policialmente interpretada, às teclas escuras da máquina. Quando chegava no andar da Redação, o ascensorista do prédio do jornal anunciava “Parque de diversões!” e Giuseppe Amato, às vezes vestido com a camisa do Fluminense, às vezes chamando alguém de “velho atrasador de jornais”, era mais um dos motivos dessa alaúza. Havia também quem pautasse o repórter estagiário para ir ao Zoológico e entrevistar seu novo diretor, o Dr. Leão.

Se Giuseppe Amato era um italiano que sonhava ser um malandro carioca, o português Borges Neto, seminarista na adolescência, cruzava a Redação com a paciência de um diácono. Estava convencido de que praticava os mandamentos de Deus revisando com rigor carinhoso o mau uso da língua, caçando cacófatos, pleonasmos, redundâncias e a abundante clicheria embutida no “tresloucado gesto”, no “pranteado pai” e no “batalhão de fotógrafos”. Sua Bíblia era o dicionário. Um dia colocou a mão sobre ele e pediu ao repórter, em nome de uma santíssima trindade do jornalismo formada por Joel Silveira, Paulo Francis e Pompeu de Souza, que evitasse a desgastada expressão “rosto novo” — a não ser que o assunto fosse cirurgia plástica.

Eram grandes jornalistas os que se foram em maio. Se questionados pelo chefe de Redação com o clássico “Temos isso?”, todos responderiam com a eficiência do “Temos mais”. Destacaram-se em Redações onde hoje a dura realidade do mercado de notícias exige foco radical no profissionalismo e não permite tamanho repertório de folclores divertidos. A esses craques da pirâmide invertida, da entrevista ping-pong e do salário-ambiente juntou-se, também em maio, a doce figura de Ramiro Alves, liberado de cumprir a escala de plantões terráqueos desde o dia 24. Descansaram e aqui vão esses 4.142 caracteres em homenagem. O resto é calhau, barriga, fake news. O samba, o grande amor e as Redações até agonizam. Não morrem. Transformam-se.

A escalada da humanidade em direção ao vazio



Em novembro, chegou às livrarias brasileiras Homo deus: uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, autor de Sapiens. Após mostrar, no livro anterior, toda a evolução da espécie humana até chegar nos dias atuais, seu novo trabalho vai além: Homo deus especula qual será o futuro da humanidade na Terra.

Em agosto, quando o livro foi lançado na Inglaterra, David Runciman escreveu para o The Guardian sobre os principais temas que Yuval Noah Harari aborda no livro, texto que reproduzimos a seguir (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

* * *

No âmago desse livro fascinante reside uma simples, mas arrepiante, ideia: a natureza humana será transformada no século XXI porque a inteligência está se desacoplando da consciência. Não, não vamos construir tão cedo máquinas que, como nós, possuam sentimentos, o que se chama consciência. Os robôs não se apaixonarão uns pelos outros (o que não significa que sejamos incapazes de nos apaixonar por robôs). O fato é que já construímos máquinas — enormes redes de processamento de dados — que conseguem identificar nossos sentimentos melhor do que nós mesmos: isso é inteligência. O Google — o mecanismo de busca, não a empresa — não possui crenças ou desejos próprios. Ele não se importa com o que buscamos e nem vai ficar ofendido com o nosso comportamento. Mas ele consegue processar esse comportamento para saber o que queremos antes que nós mesmos o saibamos. Isso tem o potencial de alterar o significado de ser humano.

Em seu livro anterior, o best-seller mundial Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari abordou os últimos 75 mil anos da história humana para nos lembrar de que não há nada de especial ou essencial quanto àquilo que somos. Somos um acidente. O Homo sapiens é apenas um dos modos possíveis de se ser humano, um acaso da evolução, como o de qualquer outra criatura no planeta. Aquele livro se encerra com a reflexão de que a história do Homo sapiens pode estar chegando ao fim. Ao mesmo tempo em que estamos no auge do nosso poder, é possível, porém, que tenhamos chegado a seu limite. Homo deus: uma breve história do amanhã parte dessa reflexão para explicar como nossa incomparável capacidade de controlar o mundo que nos cerca está nos transformando em algo novo.

As provas de nosso poder estão por toda parte: não apenas conquistamos a natureza, mas começamos também a derrotar os piores inimigos da humanidade. A guerra é cada vez mais obsoleta; a fome é rara; as doenças estão na defensiva no mundo todo. Obtivemos esses triunfos ao construir redes cada vez mais complexas que consideram os seres humanos como unidades de informação. A ciência evolucionária nos ensina que, em certo sentido, não somos senão máquinas de processamento de dados: também nós somos algoritmos. Ao manipular esses dados, podemos determinar nosso destino. O problema é que outros algoritmos — aqueles que construímos — podem fazer isso de maneira muito mais eficiente que nós. É isso o que Harari quer dizer ao falar no desacoplamento da inteligência e da consciência. O projeto da modernidade foi erigido sobre a ideia de que os indivíduos são a fonte tanto do significado quanto do poder. Somos concebidos para fazer escolhas: como eleitores, como consumidores, como amantes. Isso, porém, não é mais verdade. Somos agora o que dá às redes o seu poder: elas usam nossas noções de significado para determinar o que vai acontecer conosco.


Nada disso constitui novidade. O Estado moderno, que já conta cerca de quatrocentos anos, não passa na verdade de uma outra máquina de processamento de dados. O filósofo Thomas Hobbes, escrevendo em 1651, chamou-o “autômato” (ou o que poderíamos chamar de robô). Sua qualidade robótica é a fonte de seu poder, e também a sua ausência de sentimentos: Estados não possuem consciência, que é o que lhes permite, por vezes, fazer as coisas mais terríveis. O que mudou agora é que há máquinas processadoras que são bem mais eficientes do que os Estados: como Harari afirma, os governos descobriram ser quase impossível acompanhar o ritmo do avanço tecnológico. Tornou-se também muito mais difícil sustentar a crença — compartilhada por Hobbes — de que por trás de cada Estado existem seres humanos reais, de carne e osso. A insistência moderna acerca da autonomia do indivíduo está vinculada à visão de que seria possível encontrar o coração deste mundo sem coração. Se se continuar arranhando uma burocracia sem rosto será possível, eventualmente, descobrir um funcionário público com sentimentos reais. Faça isso com uma ferramenta de busca, porém, e tudo o que se descobrirá são locais de dados.

Não estamos senão no início desse processo de transformação orientada por dados, e Harari diz que não há muito o que possamos fazer para frear o processo. Homo deus é um livro do gênero “fim da história”, mas não no sentido bruto de acreditar que as coisas chegaram à sua conclusão. Antes o oposto: as coisas estão se movendo tão rápido que é impossível imaginar o que o futuro possa trazer. Em 1800, era possível conjecturar sobre como seria o mundo de 1900 e qual seria nosso lugar nele. É isto o que é a história, uma sequência de eventos em que os seres humanos são os protagonistas. Mas o mundo de 2100 é agora, no presente, quase inimaginável. Não temos a mínima ideia de onde vamos nos encaixar, se é que vamos. Podemos ter construído um mundo que não tem lugar para nós.

Considerando o quão alarmante é pensar assim, e uma vez que ainda não chegamos lá, por que não fazer algo para impedir que isso ocorra? Harari supõe que a crença moderna de que os indivíduos comandam seu destino nunca foi muito mais do que uma crença. O poder real esteve com as redes. Indivíduos são criaturas relativamente impotentes, não sendo páreo para leões ou ursos. É o que os indivíduos podem fazer como grupos que lhes permitiu assumir o controle do planeta. Tais agrupamentos — corporações, religiões, Estados — compõem agora uma vasta rede de fluxos de informação interconectados. Encontrar pontos de resistência, onde unidades menores podem resistir às ondas de informações afogando o mundo, torna-se mais difícil a cada minuto.

Alguns têm desistido da luta. No lugar dos princípios fundadores da modernidade — o liberalismo, a democracia e a autonomia pessoal — há uma nova religião: o dataísmo. Seus seguidores — muitos deles moradores do Vale do Silício, na Califórnia — colocam a sua fé na informação, encorajando-nos a enxergá-la como a única fonte verdadeira de valor. Somos aquilo que fornecemos para o processamento de dados. Potencialmente, há aí uma enorme vantagem, a saber: iremos enfrentar cada vez menos obstáculos para conseguir o que queremos, porque a informação que necessitaremos será imediatamente acessível. Nossos gostos e nossas experiências irão se fundir. Nossas expectativas de vida também poderão aumentar consideravelmente: dataístas acreditam que a imortalidade é a próxima fronteira a ser cruzada. Mas a desvantagem é óbvia, também. Quem seremos “nós” depois de tudo? Nada mais do que uma acumulação de pontos de informação. As distopias políticas do século XX buscavam esmagar os indivíduos com o poder do Estado. Isso não será necessário no século em marcha. Como diz Harari: “No século XXI há mais probabilidade de que o indivíduo se desintegre suavemente por dentro do que brutalmente esmagado de fora”.


As corporações e os governos continuarão a prestar homenagem às nossas individualidades e necessidades características, mas, a fim de satisfazê-las, terão de “decompor seus subsistemas bioquímicos”, todos eles permanentemente monitorados por poderosos algoritmos. Há aí também um aspecto político distópico: os primeiros convertidos — os indivíduos que se inscreverem primeiro para o projeto dataísta — serão os únicos que ainda terão algum tipo de poder real e se tornarão relativamente intocáveis. Fazer parte dessa nova super-elite será incrivelmente difícil. Serão exigidos níveis heroicos de educação e nenhuma dose de escrúpulos em fundir sua identidade pessoal com máquinas inteligentes. A partir de então, será possível se tornar um dos novos “deuses”. É uma perspectiva sombria: uma pequena casta sacerdotal de videntes com acesso à melhor fonte de conhecimento, e o resto da humanidade como simples ferramentas de seus vastos esquemas. O futuro poderia ser uma versão digital com carga plena do passado distante: o Antigo Egito multiplicado pelo poder do Facebook.

Harari é cuidadoso o suficiente para não afirmar que essas bizarras previsões irão de fato ocorrer. O futuro, afinal, é desconhecido. Ele reserva suas opiniões mais contundentes para o que tudo isso deve significar para o estado atual das relações entre os seres humanos e os animais. Se a inteligência e a consciência estão se separando, então isso situa a maioria dos seres humanos na mesma posição que os outros animais: seres capazes de sofrer nas mãos dos possuidores de inteligência superior. Harari não demonstra estar muito preocupado com a possibilidade de robôs virem a nos tratar como tratamos as moscas, com violenta indiferença. Antes, ele quer que reflitamos sobre como nós estamos tratando os animais em nossas vastas fazendas industrializadas. Os porcos, sem dúvida, sofrem ao viver em condições precárias ou ao serem violentamente separados das suas crias. Se concluímos que esse sofrimento não conta por não estar aliado a uma inteligência superior, então estamos construindo uma vara para nosso próprio lombo. Logo, o mesmo será verdade em relação a nós. E qual será então o preço do nosso sofrimento?

Homo deus é um livro muito inteligente, repleto de percepções afiadas e sagacidade mordaz. Mas, e Harari provavelmente seria o primeiro a admitir, é inteligente apenas pelos padrões humanos, que não são nada de mais. Pelos padrões das máquinas mais inteligentes é pouco claro e especulativo. Os conjuntos de dados são bastante limitados. Seu poder real vem do sentido de uma consciência individual por trás dele. É um livro peculiar e atraente, com um toque de gelo em seu coração. Harari se preocupa com o destino dos animais em um mundo humano, mas escreve sobre as perspectivas para o Homo sapiens em um mundo orientado por dados com uma despreocupação sublime. Tenho que admitir que achei o livro profundamente instigante, mas isso pode ser por causa de quem eu sou (além de tudo, um homem). Nem todos vão achar o mesmo. Mas é difícil imaginar que alguém poderia ler este livro sem sentir uma espécie de vertigem ocasional. Nietzsche escreveu certa vez que a humanidade estaria prestes a navegar em mar aberto, após ter finalmente deixado para trás a moral cristã. Homo deus nos faz sentir como se estivéssemos de pé à borda de um penhasco ao fim de uma longa e árdua jornada. O que passou não parece mais tão importante agora. Estamos prestes a dar um passo no vazio.



Texto original: The Guardian

terça-feira, junho 05, 2018

Amigos do Áureo X Amigos do Hiran – Resumão da Pelada do Ano


Hiran, Coiteiro e Chicuta no jogo de 2016
Há dois anos, o tira-teima entre os dois melhores times de peladeiros da Cachoeirinha de todos os tempos (Murrinhas do Egito e Charlie Show Clube) terminou em um espetacular 7 a 7. O auditor fiscal Hiran Queiroz resolveu patrocinar uma nova boca-livre reunindo os dois times para mais um confronto definitivo entre os goodfellas cinquentões (poucos) e sessentões (a maioria).
O novo clássico também era uma maneira de homenagear o centroavante Coiteiro, do Charlie Show Clube, um dos cinquentões, que faleceu prematuramente três meses após aquele jogo em 2016. Camisas com a foto do jogador foram distribuídas gratuitamente para os torcedores e estampadas no equipamento do time.
Na última sexta-feira, 1º de junho, os dois times se apresentaram para jogar no campo de futebol society da Associação de Servidores da Secretaria de Fazenda do Amazonas (Assefaz) no horário combinado (19h), mas em vez de se concentrarem para o importante clássico resolveram começar a detonar as 10 grades de cervejas e 50 quilos de picanha encomendadas pelo Hiran Queiroz. Estava na cara que aquilo não ia dar certo. O jogo só começou uma hora depois.
O Áureo Petita montou um time de respeito: Marquinhos (goleiro), Luiz Alberto, Careca Selvagem e Ulisses (zagueiros), Genival (armador), Carlos Sandália, Amaury e Sildomar Abtibol (atacantes). No banco de reservas, Luiz Lobão, Sici Pirangy, Val Wilkens, Altair da Kátia (vulgo Neguinho Bate Bife, porque só entra em campo depois de dar três lapingochadas na Kátia) e Mucureba.
O Hiran Queiroz teve um pouco mais de dificuldades porque seu melhor jogador, Gonzaga do Arsenal, estava com um estiramento na virilha e resolveu jogar de goleiro. Ainda assim ele também montou um time de respeito: Gonzaga (goleiro), Paulo Cumaru, Pavão e Paulinho Caçador (zagueiros), Ernando (armador), Chicuta, Ernâni e Geraldo (atacantes). No banco de reservas, Paulo David, Nenem, Ubiratam, Diguidom, Irineu e Tobias.
Áureo Petita, Hiran Queiroz e Wladimir Brother
O juiz da partida foi o descolado Wladimir Brother, nosso famoso “traficante do amor”, que não comprometeu o espetáculo, mas fez duas lambanças formidáveis por conta das ligações insistentes de sua legião de namoradas (segundo ele) para seu inseparável celular.
Os fofoqueiros do Canto do Fuxico garantem que as ligações são de uma única menina, uma balzaquiana de 65 anos chata pra caralho, que monitora o garanhão via GPS e liga a cada cinco minutos para saber o que ele está fazendo.
O esquadrão do Amigos do Áureo começou embalado. Com cinco minutos, Amaury se livrou do marcador e rolou para Sildomar, que encheu o pé. 1 a zero. Mais dez minutos, Carlos Sandália cruzou na área, Ernando quis cortar e fez um gol contra. 2 a zero.
Com 20 minutos, o zagueiro Careca Selvagem saiu de campo, depois de ter dado uma caneta sensacional no atacante Chicuta e quase quebrado a perna do ponta esquerda Geraldo durante uma dividida. Foi aplaudido delirantemente pela torcida organizada do Canto do Fuxico (Newton Melo, Hilário Levitra, Joel, Charlie, Antônio Carlos Bem-te-vi, Pocotó, Roberto Amazonas, Paulinho Vidraceiro, Jeziel, Chora Viola, Juarez Tavares e Zeca Boy).
Seu substituto, Mucureba, fez um gol contra assim que tocou na bola pela primeira vez e resolveu atrasar pro goleiro. 2 a 1. Dois minutos depois, Ernâni fez um gol de placa e empatou o jogo. 2 a 2. Quase no final do primeiro tempo, Sildomar fez outro golaço. 3 a 2.
Depois de um intervalo de 10 minutos, a partida recomeçou. Sildomar fez outro gol. 4 a 2. Na sequência, depois de carimbar a trave duas vezes, Sildomar foi substituído pelo Neguinho Bate Bife, após receber uma cotovelada do zagueiro Pavão que quase lhe arrancou a clavícula.
Wladimir Brother, Luiz Lobão, Pavão e Sildomar Abtibol
Carlos Sandália, numa jogada individual, fez mais um gol. 5 a 2. Foi substituído por Luiz Lobão, que fez um gol legal, mas o juiz anulou. Explico a presepada.
No futebol society, o lateral é cobrado com os pés. O zagueiro Pavão bateu o lateral para o goleiro Gonzaga, Luiz Lobão espertamente esticou a perna e desviou a bola para o fundo das redes, numa repetição do primeiro gol entre Real Madrid e Liverpool.
O juiz não viu o lance porque estava atendendo mais uma ligação da balzaquiana. Diante da reclamação do Charlie Show Clube, ele votou com a maioria e anulou o gol.

O atacante Val Wilkens entrou no lugar de Carlos Sandália e perdeu dois gols feitos porque só sabe chutar de bico. Mas está correndo feito um fundista queniano. É o melhor preparo físico entre os sessentões. Só conseguia ser parado à base de faltas escandalosas e desleais.

Dez minutos depois, Neguinho Bate Bife driblou dois zagueiros e deu números finais à partida: 6 a 2.
A festa prosseguiu até de madrugada, com o DJ Igor Marques pilotando as carrapetas. Daqui a dois anos vamos fazer uma nova partida para contar quem sobrou. Ô raça!





















sábado, abril 28, 2018

Reminiscências



Por Felix Valois

Conversava eu com Márcio André Assumpção, jovem empresário amazonense. Ele degustava sua cerveja, enquanto eu cumpria meu compromisso com o governo da Escócia. O papo descambou para os longínquos tempos da minha juventude, mais especificamente sobre como era Manaus naquela época. Talvez por falta de talento da minha parte, vi que, em determinados momentos, meu interlocutor manifestava uma surpresa, quase dúvida, sobre a veracidade do que era relatado. Eu entendia perfeitamente essa perplexidade. É, de fato, muito difícil compreender (e mais ainda visualizar) a brutal transformação da cidade num período que, historicamente, pode ser considerado insignificante. Foi gritante.

Como pode a juventude assimilar a verdade de que a nossa cidade só passou a ter fornecimento regular de energia elétrica no ano de 1962? É que, vencidos os áureos tempos da “belle époque”, mergulhamos em um marasmo econômico assustador. Em termos de população, deveríamos ter algo em torno de trezentos mil habitantes, o que traduz um violento choque quando sabemos que hoje a cidade abriga quase dois milhões e meio de pessoas. Mas era assim mesmo. Naquele ano eu cursava a segunda série da faculdade de direito. Quando sozinho, estudava à luz de vela ou de um lampião à querosene. Tínhamos, na escola, um grupo mais chegado de colegas e amigos. Marlene Peres, Almir Barbuda, Flaviano Guimarães, Alfredo Cabral e eu. Quando era possível, nos reuníamos para estudar e facilitar, através da troca de ideias, o entendimento das intrincadas lições contidas nos herméticos livros da ciência jurídica. Invariavelmente íamos para a casa da Marlene. E não era só por cortesia. Lá podíamos desfrutar do luxo da iluminação proporcionada por um candeeiro Aladim...

Nas ruas, a escuridão era total, salvo quando, por mera dádiva da natureza, o luar quebrava as trevas. Chegava a ser atemorizante. Não dá para esquecer que, voltando para casa, às onze da noite, uma espécie de paredão negro se me apresentava a partir da esquina das ruas Epaminondas e João Coelho, ao contemplar o estirão de descida da rua Leonardo Malcher, em cujo início morávamos. Quando muito um velório ocasional fornecia a lúgubre iluminação dos círios queimando. O que não era vantagem nenhuma porque, se aquele fraco feixe de luz se projetava para o exterior, a própria existência do defunto era motivo para exacerbar as superstições místicas que a religião impunha.

O regulamento da faculdade exigia que usássemos paletó para assistir às aulas. Era cruel. Não só pelo custo, que não era pequeno, sabendo que éramos estudantes quase sempre lisos qual bunda de índio remador. Mas também porque o trajeto para a escola era feito a pé, pois o transporte público era de uma precariedade impressionante. Saía eu lá da margem do igarapé de São Raimundo, atravessava as famosas três praças (da Saudade, do Congresso e de São Sebastião) para desembocar numa quarta e última (a da Polícia), até chegar à rua Miranda Leão, acesso final para vetusta Jaqueira da Praça dos Remédios.

É certo que umas kombis, conhecidas como “expressos”, faziam uma rota denominada João Coelho/Joaquim Nabuco. Era possível tomar uma delas em frente ao bar Balalaica e saltar atrás da igreja dos Remédios. O difícil era ter o dinheiro da passagem. Já tive oportunidade de relatar que dona Idalina, a gentil e maternal cantineira da faculdade, muitas vezes se ofereceu para pagar por mim, com pena, talvez, daquele jovem que, envergando um paletó de não muito bom gosto, fazia o longo trajeto sob a inclemência do sol vespertino desta augusta cidade de Manaus.

Velhos tempos. Novidade mesmo para o Márcio André foi ele ficar sabendo que, então, os alunos que não estudavam podiam ser reprovados e que as escolas públicas eram, em tudo e por tudo, superiores às particulares. E que ninguém respondia a processo criminal por chamar um gordo de balofo ou um magrelo de cotonete de orelhão. Também não havia a síndrome do politicamente correto, com todas as “liberalidades” daí decorrentes. Não me cabe dizer se era melhor ou pior. Posso apenas afirmar que era diferente. E, também, que é impossível não ter saudades dos igarapés de águas límpidas em que se podia mergulhar, sem configurar tentativa de suicídio. Mas acho que já estou sendo saudosista. É melhor parar por aqui.

30 anos de Bar do Boi e 22 anos de MAG


No início de 1987, vários parintinenses residentes em Manaus começaram a frequentar o Bar do Jô, localizado no Conjunto ICA-Maceió, nas proximidades do Colégio Leonor Mourão. Era um boteco de dimensões modestas, mas que possuía um imenso quintal paradisíaco. Entre os primeiros frequentadores do Bar do Jô estavam Afrânio, Ary Cavalcante, João do Carmo, o “Careca”, Fernando, Ariosto, Asa, Arlindo Jr., Chiquinho, Laurinho, Kaká Ferreira e Dodozinho Carvalho, todos eles torcedores do bumbá Caprichoso. No quintal do boteco, eles tocavam as toadas do touro negro e promoviam bingos, rifas e sorteios visando arrecadar recursos para futuramente adquirir instrumentos para a Marujada de Guerra. Até então os ritmistas do touro negro utilizavam muitos instrumentos emprestados pelo GRES Vitória Régia, da Praça 14, que tinha como presidente o empresário João Braga Neto, também torcedor do Caprichoso.

Na mesma rua do Bar do Jô, distante uns 50 metros do boteco “caprichoso”, o chefe de gabinete da juíza trabalhista Lucy Stone, Arlindo Jorge Mubarac, um dos fundadores do GRES Andanças de Ciganos, montou um barzinho para ser administrado por Rômulo, seu irmão caçula, que havia chegado de Santarém há pouco tempo e estava desempregado. Infelizmente Rômulo desistiu da empreitada porque era evangélico e Arlindo Jorge foi obrigado a segurar o pião na unha. Como era conhecido no bairro da Cachoeirinha como “Bode”, Arlindo Jorge fez uma corruptela da palavra “bodega” ironizando seu próprio apelido e batizou o botequim de Bar do Bodeco.

Sem ter a menor ideia da rivalidade existente entre os bumbás de Parintins, Arlindo Jorge pintou casualmente o piso do Bar do Bodeco de “vermelhão” e rapidamente ele se transformou em ponto de encontro dos torcedores do bumbá Garantido. Os próprios frequentadores do Bar do Jô começaram a se referir ao Bar do Bodeco como “bar do contrário” e os torcedores do touro branco compraram a ideia. Eles passaram a frequentar o boteco para tocarem as toadas de seu boi favorito. Movido pelas circunstâncias, o dono do Bar do Bodeco acabou se transformando em torcedor do Garantido.

Nesse meio tempo, o conhecido Sacy da Pareca também abriu um barzinho na rua Ramos Ferreira, nas imediações da quadra do GRES Mocidade Independente de Aparecida, e liberou o espaço para os brincantes dos dois bumbás, sem nenhum tipo de favoritismo. Se nos bares da ICA-Maceió o forrobodó rolava com instrumentistas tocando ao vivo, no bar do Sacy da Pareca quem comandava o embalo eram as fitas cassetes gravadas artesanalmente durante os festivais de Parintins, muitas delas de excelente qualidade. Entre os primeiros frequentadores do boteco estavam Ary Cavalcante, Laurinho, João do Carmo, o “Careca”, Afrânio, Ladico, Sucuba (irmão do futuro senador João Pedro Gonçalves) e Julhão Viana.

Foi tendo esses três botecos como epicentro que a febre do bumbás de Parintins começou a se alastrar por Manaus que nem um tsunami, a partir da propaganda boca a boca dos frequentadores habituais e dos cristãos novos convertidos para a causa. De uma hora para outra, cerca de 200 pessoas começaram a bater ponto nessas improvisadas rodas de toadas, sempre nas tardes de sábado, e os botecos ficaram pequenos para acomodar tanta gente interessada em conhecer melhor a brincadeira do “dois pra lá, dois pra cá”. Era necessário encontrar um novo espaço.

Um dos primeiros a perceber o potencial da brincadeira dos bumbás como entretenimento de massas na capital amazonense foi João do Carmo, o “Careca”, funcionário de carreira do Ibama e pesquisador das tradições indígenas na Amazônia. Toda noite de terça-feira, ele reunia uma parte da colônia parintinense residente em Manaus para esmiuçar o assunto. As conversas aconteciam em sua própria residência, na rua Ramos Ferreira, no famoso “Buraco do Pinto”.

– Olha, minha gente, essa onda do bumbá de Parintins vai pegar pra valer aqui em Manaus e nós precisamos nos preparar direitinho para não perder o controle da brincadeira! – vaticinava Careca. – Nós temos tudo para transformar Manaus numa excelente vitrine para o Festival Folclórico de Parintins!


Por sugestão do anfitrião, os torcedores do Caprichoso resolveram criar uma entidade jurídica denominada “Movimento Marujada”, cujo principal objetivo expresso nos estatutos seria contribuir finaceiramente para a manutenção da Marujada de Guerra do touro negro. O trabalho dos “marujeiros” seria voluntário. Entre os fundadores do Movimento Marujada estavam Sérgio Viana, Rogério Roça, Afrânio Gonçalves, Pedro José, João do Carmo, Roberto Santiago, Patrocínio, Wallace Maia, Chiquinho Severino, Henrique Medeiros, Renato Azedo, Norma Elaine, Lene Medeiros, Ângela Garcia, Edinalda, Edna, Tio Mazinho, Varlene Cid, Beto Medeiros, Dalva Andrade, Asa, Mariano, Kaká Ferreira, Laurinho, Carlos Nery, Ariosto, Mercinha, Fernando Marinho, Zezinho Cardoso, Cabo Cecílio, Lélio Lauria e Dodozinho Carvalho.

No início de 1988, o vendedor de seguros Ademir Matias, que também era cozinheiro nas horas vagas, perdeu o emprego por causa da crise econômica deflagrada pelo Plano Bresser e resolveu se virar nos trinta arrendando o restaurante dos funcionários da Delegacia Regional do Ministério da Agricultura, localizada na rua Maceió. Amigo de Ademir há vários anos, Tio Mazinho descobriu que o restaurante não funcionava nos dias de sábado e sugeriu ao empresário-cozinheiro que o espaço fosse utilizado como palco da brincadeira de boi durante aquela folga semanal. A sugestão foi levada aos dirigentes da autarquia, que aprovaram a ideia. Nascia o Bar do Boi, que tinha na linha de frente Kaká Ferreira, Rogério, Ademir, Jonas e Tio Mazinho, todos do Caprichoso. O pessoal do Garantido não quis participar oficialmente da administração do boteco, mas tinha espaço cativo nas rodas de toada. Cerca de 500 pessoas começaram a frequentar semanalmente o panavueiro.

Em meados de 1990, num incidente até hoje mal explicado, um dos seguranças do Bar do Boi matou a tiros um dos frequentadores do boteco e o assunto foi explorado à exaustão pela mídia sensacionalista. Os dirigentes da autarquia federal acabaram com o Bar do Boi na mesma hora. Os torcedores do bumbá Caprichoso ficaram sem pai nem mãe. 



Para sorte deles, no início daquele mesmo ano o empresário José Azevedo, da TV Lar, comprou o Caiçara Clube de Campo, dos funcionários da Reman (Refinaria de Manaus), para transformá-lo na TVlândia, o clube campestre de seus funcionários. O contador de José Azevedo era o parintinese Wallace Maia, do Movimento Marujada. Foi ele que cantou a pedra:

– Os funcionários da TV Lar não estão nem aí para o clube, mas o “seu” José Azevedo que dar uma função social ao espaço. Formem uma comissão para falar com ele. De repente, o empresário pode ceder a TVlândia para o Bar do Boi.

Dito e feito. O empresário deu carta branca aos dirigentes do Movimento Marujada. Por falta de manutenção, entretanto, a TVlândia estava muito deteriorada, precisando urgentemente de reparos nas instalações elétricas e hidráulicas. Apresentador do Caprichoso e então secretário municipal de Comunicação, o jornalista Marcos Santos cantou a pedra:

– O prefeito Artur Neto é torcedor do Caprichoso. Formem uma comissão para falar com ele. De repente, o prefeito pode dar uma força na infraestrutura do Bar do Boi.

Dito e feito. No comando da comissão estava a estudante de jornalismo Goreth Garcia. O prefeito não só garantiu uma completa reforma nas instalações da TVlândia como também acabou conquistando o coração da estudante de jornalismo, com quem depois casou e teve um casal de filhos.

Na TVlândia, o Bar do Boi começou a se transformar em um verdadeiro entretenimento de massas, atraindo mais de 4 mil pessoas nas tardes de sábado. Os itens oficiais do touro negro (Cunhan-Poranga, Rainha do Folclore, Porta-Estandarte, Levantador de Toadas, Amo do Boi e o próprio bumbá Caprichoso) começaram a fazer pequenas apresentações especiais durante o evento e a brincadeira foi lentamente conquistando os corações e mentes dos manauaras.

Nesse meio tempo, o bumbá Garantido resolveu fazer seu próprio “bar do boi” a partir da criação informal da associação “Amigos do Garantido”, inspirada no Movimento Marujada. O principal objetivo da associação era ajudar financeiramente a Batucada do touro branco. Nos primeiros anos, por uma série de circunstâncias, o Curral do Garantido – como ficou conhecido o evento promovido pelos Amigos do Garantido – não conseguiu se firmar em um local específico, o que desagradava seus torcedores e provocava uma baixa participação popular nas apresentações do touro branco. O curral começou no Clube Municipal, na Av. Torquato Tapajós, depois se mudou para o ginásio do Atlético Rio Negro Clube, no centro da cidade, depois foi para a quadra do GRES Mocidade Independente de Aparecida, e assim por diante.


O nomadismo do boi da Baixa de São José só teve um ponto final em 1996, por interferência direta de Arlindo Jorge Mubarac, o fundador do Bar do Bodeco. Colega de setor de Arlindo Jorge no Tribunal Regional do Trabalho, o advogado Almerinho Botelho era presidente do Olímpico Clube. Arlindo era sócio do clube. Durante uma conversa informal entre os dois, Arlindo cantou a pedra:

– Porra, Almerinho, o Garantido não possui um curral fixo e vive se mudando de um lado pra outro que nem bosta n’água. Teria algum problema se os ensaios do boi fossem realizados no Parque Aquático do Olímpico Clube?

– Não vejo problema nenhum, parceiro! – explicou o advogado. – Pede pro pessoal do Garantido me procurar que eu converso com eles!

Dito e feito. Arlindo Jorge relatou sua conversa para Junior do Garantido, ele falou com o resto da galera vermelha e branca, uma comissão do touro branco foi conversar com o advogado e os ponteiros foram acertados. No coquetel para o anúncio da nova parceria, com a presença de Zé Walmir, presidente do bumbá Garantido, foram expedidos 150 convites, mas compareceram mais de mil pessoas. Ficou acordado também que o curral do Garantido funcionaria às sextas-feiras.

Naquele mesmo ano foi fundado oficialmente o Movimento Amigos do Garantido (MAG), cujo principal objetivo expresso nos estatutos seria contribuir finaceiramente para a solidificação patrimonial e estrutural o bumbá Garantido. O MAG se tornou responsável pelos ensaios oficiais do boi em Manaus, incluindo a administração do curral no Olímpico Clube. Entre os fundadores do MAC estavam Mencius Melo, Marco Aurélio Medeiros, Brito do BEA, Marconi Jucá, Pampico Bulcão, Edjander Mota, Maurício Filho, Liduína Moura, Roseani Novo, Julhão Viana, David Melo, Welciane Jacintho, Felipe Novo, Marcos Cohen, Izoney Thomé, Rivaldo Pereira, Val Batuel e Amarildo Teixeira. No primeiro evento realizado no Olímpico Clube foram vendidos 4 mil ingressos. O touro branco havia encontrado uma vitrine à altura de suas tradições.


Em outubro de 1998, por iniciativa do vice-prefeito de Manaus Omar Aziz foi realizada a 1ª edição do Boi Manaus como parte das celebrações oficiais pelo aniversário da capital amazonense, comemorado no dia 24 de outubro. A ideia era misturar o ritmo das toadas de boi-bumbá à alegria contagiante dos carnavais fora de época, as conhecidas micaretas, como forma de valorizar os representantes legítimos da nossa cultura regional. Durante três dias consecutivos, o Sambódromo se transformou em palco para milhares de pessoas que cantaram, brincaram e dançaram ao som das toadas. O sucesso foi tão grande que o Boi Manaus foi incluído no calendário oficial de turismo da cidade.

Como na micareta, o Boi Manaus tem desfiles de levantadores de toadas e bandas de boi-bumbá, seguidos por cerca de 100 mil brincantes e simpatizantes em cada noite, vestidos de tururi – uma espécie de abadá nativo que identifica a preferência dos brincantes por determinado artista. O tururi também serve como ingresso para as tribos acompanharem o trio elétrico de seu artista ou grupo favorito na pista do Sambódromo. Quem não compra o tururi pode assistir a festa das arquibancadas, com capacidade para 120 mil pessoas, cujo acesso é gratuito.

No início de 1999, cacifado pelo sucesso estrondoso do Boi Manaus, Omar Aziz se reuniu com os representantes do MAC e da Marujada de Guerra e cantou a pedra:

– A brincadeira de vocês já conquistou os manauaras, mas o crescimento da festa está sendo prejudicado pelo limitado espaço físico dos atuais currais no Olímpico Clube e na TVlândia. Minha sugestão é que vocês utilizem o Sambódromo tal como nós fizemos no Boi Manaus. Eu já conversei com o prefeito Alfredo Nascimento e com o governador Amazonino Mendes e eles aprovaram a ideia. Nós vamos fornecer toda a infraestutura necessária para as apresentações semanais. A meta de vocês é colocar 50 mil pessoas no Sambódromo para brincar de boi e dar uma função social para aquele “elefante branco”...

Os dirigentes das duas associações aceitaram o desafio, mas acordaram em fazer suas apresentações em semanas alternadas: num sábado funcionaria o curral do Caprichoso, no outro, o curral do Garantido. O resto, conforme se diz, é história.

quinta-feira, março 08, 2018

Ai de ti, Copacabana!



Por Rubem Braga

Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

Antes de te perder eu agravarei tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Amanhecer em Copacabana



Por Antônio Maria

Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.

As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono.

O banhista Orlandeli, gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.

Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.

Rio, 12/09/59

Poetas oficiais



Por Ivan Lessa

Os ingleses gostam de futebol, mas praticam a poesia. Tenho a impressão que já li, ouvi ou, quem sabe?, escrevi esta frase em algum lugar.

O que ela quer dizer é que o futebol pode ser o esporte das multidões, mas é de poesia que eles, os ingleses, são bons.

Assim como é covardia citar Pelé ou Garrincha em matéria de futebol, covardia também é citar Shakespeare ou W.H. Auden na poesia.

Na poesia, eles, os ingleses, têm cintura, malícia, jogo de corpo, tudo aquilo, enfim, que falta à seleção mesmo ganhando (como ganhou recentemente) da Alemanha de 5 a 1.

Vai daí que uma das coisas mais comuns aqui no Reino Unido é o cargo de “poeta em residência”.

O que e quem é essa figura? É mais ou menos feito o Poeta Laureado: tem o encargo de versejar sobre temas de ocasião e a propósito.

Em segundo lugar – e isso é importante –, o poeta ganha pouco, muito pouco.

Seja laureado pela rainha, seja em residência no Banco da Inglaterra, que aliás não sei se tem ou não um poeta em residência compondo sonetos em louvor da libra ou, mais controvertidamente, em louvor do euro.

Fato é que notícia desta semana anuncia que a polícia britânica não só inaugurou, em Humberside, o cargo de um poeta em residência como também este produziu seus primeiros versos.

Trata-se de Ian McMillan, que, aliás, frise-se, possui alguma experiência do cargo, uma vez que já fixou residência também num time de futebol, o Barnsley, modesto em resultado de jogo, mas rico de rima.

Um porta-voz da polícia de Humberside explicou que a intenção era fornecer “uma visão alternativa do policiamento ostensivo.”

Parece-me uma solução das mais inteligentes.

Não só seria uma maneira de calar para sempre essas pessoas que vivem dizendo que a poesia, por mais bonita que seja, não dá camisa a ninguém, como ainda há a distinta possibilidade da poesia comover e dissuadir os malfeitores de seus nefandos propósitos.

E se é para ficar no Brasil imitando (mal) o “gangsta rap”, por que não tentar uma solução elegante?

O soneto policial petrarquiano condenando os traficantes de drogas e assaltantes de uma forma geral.

Os bons anos 80



Tom Hanks e Denzel Washington no filme Filadélfia (1993), que aborda o drama da aids no início dos anos 80

Por Rafael Galvão

Lembrei uns dias atrás de um dos tantos motivos para odiar os anos 80, esses que os últimos tempos têm edulcorado e levado a uma reapreciação degenerada da sua música horrível, da sua moda tenebrosa, do seu cinema cheio de maneirismos infelizes.

Aquela década viu a primeira geração a chegar à puberdade sob o fantasma aterrorizante da Aids.

Para quem nasceu nos anos 90 a Aids é uma doença grave, incurável, e que condiciona em maior ou menor grau a vida sexual de todos. Mas naqueles tempos um diagnóstico de Aids era uma sentença de morte quase imediata, e dolorosa. Eu ainda lembro da confusão que cercou a sua descoberta, a maneira como as pessoas inicialmente a chamavam de “praga gay”, e de como o pânico se espalhou aos poucos, mas com firmeza, ao verem que gays não eram suas únicas vítimas.

Uns anos atrás, conversando com Almir Santana, coordenador da luta anti-Aids em Sergipe, comentei que o número de contaminações parecia estar diminuindo. Ele, delicadamente, me deu uma aula e tentou me ensinar a não falar besteira sobre o que eu não entendo. Este blog é prova de que ele não conseguiu.

O que mais me surpreendeu foi a informação de que, depois de anos em declínio, o número de infecções vinha aumentando em três segmentos: jovens gays do sexo masculino, velhos e mulheres casadas. Os dois últimos me pareceram bem lógicos: os velhos ganharam o presente inestimável do Viagra, mas não os novos hábitos; mulheres casadas não costumam usar preservativos com seus maridos, mesmo os que têm um pé fora do armário.

Eu só não consegui entender imediatamente o caso dos jovens, que eu achava terem aprendido com o sofrimento dos que lhes precederam — até lembrar que adolescente é animal idiota, e essa juventude usa camisinha principalmente para evitar filhos, não para evitar morrer. Além disso, o fato de que aparentemente pode-se viver hoje normalmente com o vírus faz com que a urgência em evitá-lo diminua.

A geração anterior à minha lembrava dos tempos anteriores, tempos perdulários de fartura e exuberância e alegria de viver; e por isso os mais odaras tentavam entender o que se passava, os mais místicos viam a Aids como uma espécie de punição pelo desbunde dos anos 70. A minha, que não tinha vivido nada disso, tinha apenas o medo e a obrigação de desenvolver uma visão nova sobre a moral sexual, algo que tentasse combinar a liberdade alcançada com a ameaça constante de morte.

Isso se tornou pior quando Henfil e seus irmãos foram condenados à morte por receber transfusões de sangue contaminado. Alguns anos depois, como se a situação já não fosse crítica o suficiente, Magic Johnson anunciou que tinha o vírus e nós levamos um golpe fatal no pé do ouvido, coitados de nós, que então nos víamos diante da prova definitiva de que era possível pegar Aids com mulheres. “É, gente. Ferrou de vez.”

Lembrei dessas coisas que o tempo deveria ter enterrado porque vi uns trechos de uma série recente da Globo, ambientada no início dos anos 80, que tinha entre seus personagens uma moça morrendo de Aids. Me impressionou a maneira como ela era bem tratada, como as pessoas bebiam do seu copo, beijavam sua boca. Tão bonito.

E tão falso. Era tudo mentira. Esse cenário quase idílico, do amor superando a incompreensão e a ignorância, não existiu. Naqueles anos 80 a regra era o medo, e a falta de certezas. As pessoas tinham medo. Medo de abraçar, medo de apertar a mão, medo até de respirar o mesmo ar que o “aidético”, era assim que os portadores de HIV eram chamados, respirava. Certo, não demorou tanto assim para entendermos que abraço não transmitia Aids. Mas nenhum pesquisador tinha certeza absoluta de que beijo não transmitia. E o medo continuou por muito tempo.

Já faz um bom número de lustros, isso. Os anos passaram, a cura não veio mas o pânico passou. E como o esquecimento leva sempre a distorções, hoje as pessoas até acreditam piamente que os anos 80 foram uma época boa.

Mas os que vivemos aqueles anos sombrios temos uma missão diante das novas gerações. Temos o dever cívico e moral de descortinar a tragédia daqueles dias. Esses eram os anos 80, os bons anos 80 em que sentíamos que a vida tinha nos pregado uma peça de muito mau gosto e encerrado a festa justamente na hora em que conseguíamos driblar os leões de chácara e entrar. E como se não bastasse, toda essa tragédia se desenrolava ao som da música desgraçada de Rosana, Yahoo e Kátia Cega.