quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Musas da Banda da Caxuxa já estão em Manaus


Nesse sábado, 25, no Canto do Fuxico, as musas da Banda da Caxuxa serão apresentadas oficialmente aos foliões durante o penúltimo esquenta da troça carnavalesca mais divertida da cidade.

As popozudas chegaram a Manaus na manhã desta quarta feira e, na mesma tarde, participaram de um jogo beneficente na quadra de futebol society Golden Gol, enfrentando as Sereias Encantadas, de São Francisco. O jogo terminou empatado em 7 a 7.

Durante o evento, foram arrecadadas três toneladas de latinhas de cerveja, que serão doadas à Cooperativa de Catadores da Bethânia Oriental e Adjacências (Cocadaboa).

“Estamos muito felizes em pode ajudar a essa causa humanitária e mostrar que não somos apenas um rosto bonitinho”, explicou a técnica Hilda Furacão. “Também temos peitinhos e padarias de não se jogar fora...”


Experimentado e verdadeiro mestre suburucu no assunto, o advogado Val Wilkens está encarregado de ciceronear as musas durante sua curta permanência em Manaus.

“Elas estão excitadíssimas para conhecer a cobra grande e depois brincar de casinha com um boto vermelho”, explicou ele. “A cobra grande já está na mão, achar um boto vermelho é que vai ser complicado. Lá no Canto do Fuxico só tem boto tucuxi...”

Intitulada “A Rosa é o nosso perfume permanente”, a marchinha da Banda da Caxuxa 2017 já está disponível no Spotfy e teve 12 milhões de downloads nas primeiras 24 horas.

Com letra de Simão Pessoa, música de Joel dos Ciganos, vocais dos Demônios da Garoupa, Maura Maravilha, Pet Shop Girls e grande elenco, a marchinha será executada ao vivo, nesse sábado, pelo grupo de sopros do Tenente Ramalho.

Segue abaixo a letra, pra você decorar e fazer bonito durante o panavueiro:

“Na Banda da Caxuxa todo mundo se diverte: / Têm os que cheira... Têm os que fede... / Na Banda da Caxuxa todo mundo brinca bem: / Careta de respeito dá um dois também... / A noite com seu manto prateado / Já escondeu o estresse e a tristeza / Bem singela nossa banda quer louvar / Rosa Vital de Almeida essa mulher guerreira / Se a noite ainda é dos namorados / A Rosa Almeida é o perfume dos amantes / Que saudade do querido Umberlino / Hoje no céu, com estrelas e diamantes / Vem cá, menina, ciganinha feiticeira! / Mestre Pajé batucando pra valer / Jaqueline, Sheila e Cláudia fazem coro / Que na Banda da Caxuxa quero ver o sol nascer!”

Sábado é dia da 1ª Banda do Galvez Botequim


Surfando na onda do “carnaval politicamente correto, socialmente justo, ambientalmente responsável e sem assédio sexual”, o empresário Álvaro José assinou o atestado de óbito da Banda Pega na Inxada e, em seu lugar, vai realizar a Banda do Galvez Botequim.

O evento terá início a partir das 12 h deste sábado, 25, com uma feijoada self service (R$ 30 por cabeça) e a presença do DJ Leandro Kandall nas carrapetas. A partir das 16 h, Junior Rodrigues entra em campo para mostrar as melhores marchinhas de carnaval e os melhores sambas enredos da história.

O Galvez Botequim está localizado na Rua Altair Severiano Nunes, nº 08, Conjunto Eldorado, na pracinha em frente à antiga Utam (atual UEA).

A natimorta Banda Pega na Inxada foi rifada pelas dezenas de frequentadoras do botequim, que consideraram o nome de duplo sentido “assaz indecente”, a letra, “machista e sexista”, e o símbolo da banda, de autoria do famigerado Jack Cartoon, “simplesmente pornográfico”.



“Se passadas de mão, beijos à força, puxões no cabelo e outras investidas sem consentimento não podem ser encaradas como algo natural no carnaval, então o carnaval perdeu todo o seu sentido”, diz o sociólogo Beto Souza, inconformado com o fim da Pega na Inxada. “Carnaval é uma tradução de carne vale, que significa despedida do corpo, uma vez que nesta época as pessoas são estimuladas a se soltarem e se envolverem com as atividades carnavalescas.”

Outro que lamentou a falta de humor da mulherada foi o eletricista Jorge Baiano. “Conheci minha esposa, Suhelen Lima, na Banda do Pau Mole, do bairro da Raiz, e estamos juntos há 15 anos. Na hora em que começou a tocar a marchinha Máscara Negra e chegou naqueles versos do vou beijar-te agora, não me leve a mal, tudo é carnaval, eu mandei um beijão de surpresa na nega velha. Colou. Se, na época, fosse proibido dar cantada em mulher bonita, eu não teria conquistado o amor da minha vida...”

Proibição de marchinhas é sintoma de fascismo cultural


Algumas decisões politicamente corretas são tão absurdas, tão próximas do ridículo que até artistas consagrados são contra. É o que está acontecendo com o fascismo cultural envolvido na censura às músicas consideradas incorretas nos repertórios das bandas e blocos de rua.

A lista é considerável. Segundo o Estadão, O Cordão do Boitatá, no Rio, decidiu acatar a proibição de não tocar O Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo. Os versos “mas como a cor não pega, mulata / mulata eu quero o teu amor” seriam os vilões de um mundo que não condizia com a realidade.

Outro clássico das marchinhas de carnaval que fizeram a alegria de muitos, Ai que Saudades da Amélia, que Mario Lago e Ataulfo Alves fizeram em 1942, já está na lista das “proibidas do carnaval”.

O próprio Caetano Veloso diz: “Sou mulato e adoro a palavra mulato: é como o país é chamado em Aquarela do Brasil, que é nosso hino não oficial. Sempre detestei A Cabeleira do Zezé por causa do refrão “corta o cabelo dele”, que é repetido como incitação a um quase linchamento. Mas não tenho vontade de proibir nada”. Às vezes, até o polêmico baiano tem noção do ridículo.

A folia contra o bom-senso também chegou a São Paulo onde alguns blocos se posicionaram a favor do cuidado com o que iriam tocar para não reforçarem supostos preconceitos. A clássica Índio Quer Apito foi vetada por ser depreciativa aos costumes e hábitos dos nossos silvícolas.

O compositor João Roberto Kelly tem cerca de 100 marchinhas, todas diametralmente opostas às ideias da patrulha do mimimi: Cabeleira do Zezé, Menino Gay, Maria Sapatão e Mulata Bossa Nova são algumas.

“Nunca vi um patrulhamento tão grande, nem no tempo da ditadura. Carnaval é brincadeira, meu querido. A gente goza do careca, do barrigudo, não podemos levar as coisas ao pé da letra”, ensina ele.

Tom Zé é outro que se assusta quando ouve que sambistas estão deixando de tocar Amélia. “Puxa vida, mas ela era uma mulher tão dedicada… Carnaval é a época de fazer tudo ao contrário, mas agora querem consertar o mundo.”

“Estão querendo mostrar serviço no lugar errado”, insiste Djavan. Para ele, a discussão do reforço de estereótipos precisa passar, antes, pela educação. “O racismo está ligado à falta de formação, desde sempre.”

Ney Matogrosso reforça a opinião de que há patrulhamento desnecessário. Ele lembra que Maria Sapatão, por exemplo, não fala mal da mulher quando diz que “o sapatão está na moda, o mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / dentro e fora do Brasil”.

“Estão gastando energia com coisas desnecessárias”, afirma.

O pesquisador Tárik de Souza também fala: “Ninguém pode ser obrigado a cantar o que não quer. Mas a volta da censura, mesmo que por razões consideradas nobres, é algo assustador. O carnaval tem sempre um sentido anárquico e caricatural. Já pensou se forem revisar também as chanchadas da Atlântida, vetar os personagens malvados e politicamente incorretos dos folhetins de TV? Vamos acabar num quartel ou num colégio de freiras carmelitas...”

Reforçando a hipocrisia da patrulha do mimimi, Ruy Castro, outro pesquisador, se atenta ao termo “mulata”: “Das dezenas de marchas que falam da mulata, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista, Haroldo Lobo, a dupla Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto Menezes etc. etc., e lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmen Costa, Ciro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Ângela Maria etc. etc.. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso.”

Campanha contra o assédio sexual no carnaval ganha força na internet


Por Helô D’Angelo

O assédio sexual é uma prática comum. Segundo a pesquisa Chega de Fiu Fiu, 98% das mulheres já sofreram assédio nas ruas. Em época de carnaval, o clima de festa pode dar a falsa impressão de que “pode tudo” – inclusive assediar sem consequências.

Foi pensando nisso que o Catraca Livre criou a campanha #CarnavalSemAssédio, em parceria com a Revista AzMina, com os movimentos ‪#‎AgoraÉQueSãoElas e “Vamos Juntas?”, com o Bloco das Mulheres Rodadas, com o Samba em Rede e com o apoio da advogada de direitos humanos Andrea Florence e da arquiteta e urbanista Marília Ferrari.

“Infelizmente, os números de abuso sexual aumentam neste período por diversos fatores, e muitos homens justificam suas condutas abusivas como sendo uma tentativa normal de ‘paquera’”, conta Heloisa Aun, jornalista do Catraca Livre e uma das criadoras do #CarnavalSemAssédio.

O objetivo é “lutar contra a violência e o machismo, promovendo a discussão de que assédio é assédio em qualquer época do ano”, como explica o Catraca Livre no evento da campanha no Facebook.

As ideias e práticas para o combate ao assédio sexual são variadas: o Catraca Livre começou espalhando imagens com a hashtag #CarnavalSemAssédio e incentivando as mulheres a compartilharem fotos e relatos com a tag, e entrou em contato com ONGs como a Engajamundo para ajudar na distribuição de adesivos e plaquinhas com frases conscientizadoras. Depois, a Revista AzMina compartilhou manual que diferencia “paquera” de “assédio”.

O movimento “Vamos Juntas?” também entrou no samba criando um grupo chamado “Vamos Juntas Pra Folia?”, no qual mulheres podem combinar encontros nos blocos de carnaval em várias cidades do Brasil.

“Essa visão de que o carnaval é ‘terra de ninguém’, ainda que naturalizada, não é natural. temos que dar esse recado aos homens, mas também mostrar para as mulheres para que elas tenham certeza disso e entendam que não são obrigadas a nada”, defende a jornalista Babi Souza, criadora do “Vamos Juntas?”.

Heloisa conta que, assim que a ideia surgiu, no inicio de janeiro, ela e seus colegas entraram em contato com coletivos e páginas feministas, para alcançar o maior apoio possível. A campanha começou, de fato, no primeiro bloco de São Paulo, o “Privamera, Te Amo”, onde Heloisa e o videomaker Gabriel Nogueira foram gravar uma matéria com depoimentos de mulheres sobre situações abusivas que elas já viveram no Carnaval.

Depois de alguns dias, eles publicaram o vídeo e o #CarnavalSemAssédio começou. “Inicialmente, queríamos que as pessoas compartilhassem relatos nas redes sociais. Mas quando lançamos a campanha, vimos que o melhor jeito de emplacar essa ideia era compartilhar materiais do Catraca e dos parceiros”.

A partir daí, a campanha viralizou na internet: o vídeo da marchinha de carnaval da campanha, por exemplo, já tem quase 7 mil compartilhamentos no Facebook, enquanto o vídeo com os depoimentos já chegou a quase 5 mil compartilhamentos.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, vários blocos de carnaval aderiram ao #CarnavalSemAssédio, entre eles o BregsNice, o Primavera, Te Amo e o Farofa Aquática, de São Paulo, e o carioca Mulheres Rodadas.

Além dos blocos, personalidades da música, da mídia e da televisão também demonstraram seu apoio à campanha: Chico Buarque, Pitty, Karol Conká, a mídia NINJA, Nando Reis, Gregório Duvivier, Adriane Galisteu, Cauã Reymond e muitos outros.

Como o Catraca Livre se espalha por várias cidades e tem muitos parceiros fora de São Paulo, a campanha chegou a ser apoiada pelas prefeituras de Salvador e do Rio de Janeiro. Com a força do “Vamos Juntas?”, da Revista AzMina e dos coletivos feministas, a projeção é que a hashtag continue viralizando e que atinja cada vez mais pessoas.

Para Heloisa, a campanha vai além do carnaval: “A importância de uma campanha como essa é conscientizar as pessoas de que a violência contra as mulheres e o machismo não pode ser algo naturalizado nem no Carnaval, nem em qualquer outra época do ano.”

Confira a letra marchinha de carnaval do #CarnavalSemAssédio:

“Carnaval sem assédio/ É a regra da alegria/ Agora são as minas/ As donas da folia/ Pera lá, rapaz, segure seu amor/ Não é assim que se faz/ Eu também sou da folia e a minha fantasia é só um jeito de brincar/ E pra minha brincadeira, se você se comportar/ Posso até te convidar/ Mas jamais se esqueça da lição: não é não/ Calma lá, Pierrot/ Não é assim que se conquista a Colombina/ Ela é quem determina até onde a brincadeira vai chegar/ É um charme ser cortês/ Ao contrário, estupidez, acaba com qualquer clima/ E pra encerrar, jamais se esqueça da lição: não é não”

Foliões aos milhões em São Paulo: quem diria!


Por Mouzar Benedito

Carnaval de rua… Está aí uma novidade que não é mais tanta novidade em São Paulo e muitas outras cidades brasileiras. Ele andou sumido por muito tempo. E voltou com tudo. E mais: com gente pulando e cantando.

Com exceção de alguns lugares, como a Vila Esperança, carnaval de rua em São Paulo nunca teve muita animação. Tinha muita gente nas ruas, mas poucos cantando e dançando, parecia mais que estavam passeando.

Nos meus primeiros anos em São Paulo, fechavam um trecho da Avenida São João e ficava gente andando pra lá e pra cá. De vez em quando passava algum “maluco” cantando e dançando, e tinha gente que olhava como se aquilo fosse espantoso.

Presenciei também um “corso” na avenida Brasil. Eram carros conversíveis andando vagarosamente, com pessoas de pé dentro deles, jogando confete e serpentina nos outros carros ou em quem andava a pé na calçada ou no meio dos carros.

Aqui, e em quase todas as médias e grandes cidades brasileiras, tinha muito carnaval de salão, geralmente em clubes. Nunca fui, mas me falavam muito da animação do carnaval no Juventus e não sei onde mais.

Não sei se ainda existe carnaval de salão aqui. Nunca mais ouvi falar, parece que sumiu de vez. Muita gente preferia o carnaval de salão por ser considerado mais “família”, digamos assim. Mas em alguns casos era mais ostentação.

Houve carnavais de salão famosos, como os do Teatro Municipal e do Hotel Glória, do Rio de Janeiro, frequentados por milionários, com concurso de fantasias luxuosas.

As revistas O Cruzeiro e Manchete traziam páginas e páginas, a Fatos e Fotos chegava a fazer edições especiais sobre esses carnavais. Publicavam muitas fotos de páginas inteiras de um pessoal que desfilava com fantasias que custavam mais do que pobre ganhava em muitos anos de trabalho. Clóvis Bornay era um sujeito desses, que gostava de se fantasiar com coisas que faziam referência as minas do Rei Salomão, Rainha de Sabá, faraós ou coisas do gênero. Foi o mais famoso dessa turma, ao ponto de virar “hors-concours”, não concorria mais. Só se exibia.

Era um desfile de exibicionistas, e imagino que não tinha graça nenhuma. Claro que nunca vi um, mas, mesmo sendo um moleque, achava um troço totalmente besta. Mas certamente tem quem tenha saudade disso.

O que sempre gostei foi do carnaval de rua, dos chamados blocos de sujos. Participei de alguns. Um deles foi em Parati, com um bando de pescadores e estudantes daqui de São Paulo. Depois participei de um bloco em Olinda, num bloco que varou a noite. Mas não era tanta gente como hoje. Há alguns anos estive em Angatuba, pequena cidade paulista com um grupo muito ativo e animado.

Lá por 1981 ou 82, quando jovens de São Luiz do Paraitinga resolveram peitar um padre que “proibia” o carnaval na cidade, criamos o “Peida n’Água”, que compartilhava com outros blocos uma cantoria dançante pelas ruas da cidade. O canto era no gogó. Nada de aparelhos de som. No sábado de manhã, compúnhamos uma marchinha na chácara de um amigo, a uns oitocentos metros do centro da cidade, e saíamos cantando e dançando. Na saída da chácara, éramos umas quinze ou vinte pessoas, mas o bloco ia engrossando e chegava à praça com umas duzentas ou mais pessoas.

Um ano decidimos: em vez de marchinha, bolero! Fomos cantando o bolero “Maria Helena” e dançando (em pares, como nos bailes) até o centro. Foi divertido.

Só que o carnaval de lá foi ficando grande demais e uns anos depois caí fora. Vou muito a São Luiz do Paraitinga, e gosto, mas não no carnaval.

Bom… Desfile de escolas de samba também é nas ruas. Mas não tem muito a ver com o que considero “carnaval de rua”. Embora o desfile seja um espetáculo grandioso e bonito, acho monótono e pouco divertido ficar olhando escolas que se repetem. É muito formal. Tem um pessoal rico que fica em camarotes, mais para se exibir do que para se divertir. E até pagam fortunas para artistas internacionais se exibirem em alguns camarotes, para aparecer como propaganda de cerveja na mídia.

Salvador tinha um carnaval que eu gostava, o trio elétrico, mas eles ficaram grandes demais e para participar dele, passou a ser preciso comprar uma roupa que antes era barata e se chamava mortalha, agora chama-se abadá e custa caro.

E tem uma equipe de segurança enorme, separando com uma corda, quem tem o abadá daquele trio elétrico de quem não tem. Só quem pagou uma grana pelo abadá tem o direito de acompanhar dentro da área dos privilegiados.

Repito: bom mesmo, pra mim, sempre foi o bloco de sujos. Um grupo sai anarquicamente, cantando e dançando, e entra nele quem quer. Geralmente eram blocos pequenos.

De uns três anos pra cá, houve uma explosão no carnaval de rua em São Paulo. Centenas de blocos. E nem chegou o carnaval ainda. Um mês antes as ruas já foram tomadas por multidões. Imagino como será o carnaval mesmo! Nada contra, mas eles não têm o lado anárquico dos blocos de sujos. E reúnem milhares de pessoas. Fico perdido no meio de tanta gente (coisas de velho, dirão. Tudo bem).

Eles têm licença da prefeitura, roteiros pré-traçados, horário para acabar e até patrocínio de empresas. É um carnaval disciplinado.

Vendo esses blocos enormes que tomam conta de várias ruas, inclusive na Vila Madalena, onde moro, fico me lembrando de quando voltei a morar em São Paulo, depois de uns tempos fora.

Fui trabalhar num prédio da avenida Paulista e, num final de tarde, ouvi um batuque não muito afinado, vindo da rua. Abri a janela e vi um pequeno bloco de sujos. Fiquei animado, mas logo caí na risada: o bloco parou no sinal vermelho!

Bloco de carnaval que obedece semáforo? Coisas de São Paulo, pensei. Quem podia imaginar o carnaval que hoje toma conta das ruas paulistanas? Só que já estão tocando até rock no carnaval. Certo! Se tocamos e cantamos bolero no bloco do “Peida n’Água”, por que não podem tocar outros ritmos? Aí tem o rock. Coisas do Brasil de hoje.

Em termos de sucessos desse “Brasil de hoje”, a opção sertanejo universitário não é melhor. Não mesmo!

Turbantes em Fúria: Episódio 1


Jovem com câncer é acusada de apropriação por usar turbante e desabafa nas redes sociais

Nos últimos dias, um relato feito através da plataforma Facebook tem ganhado popularidade e também gerou polêmica. Thauane Cordeiro, uma jovem que luta contra o câncer, relatou ter sido abordada dentro de uma estação de trem por uma mulher negra que a aconselhou a não usar o turbante por Thauane ser branca.

A jovem relatou ter sentido olhares de desaprovação de outras pessoas pelo acessório. O turbante é associado à luta e resistência negra, além de ser um item que carrega identidade das culturas africanas e, por esse motivo, é considerado por muitos um grande desrespeito, ato de racismo e de #Apropriação cultural alguém que não seja negro utilizar-se do turbante.

Segundo o relato de Thauane, no momento da abordagem, ela tirou o turbante e mostrou que usava o mesmo para cobrir a cabeça pois não tinha cabelos, resultando do tratamento contra o câncer. “Tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero!”, foi a resposta de Thauane. Ela disse, ainda, que a moça ficou com “cara de tacho” e declarou: “Não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade” e usou a hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. A mesma justificou que “é só um pano”, opinião que foi duramente criticada e argumentada em diversas plataformas, tendo virado assunto também no Twitter.

A foto que acompanhava a publicação mostrava Thauane, caucasiana, vestindo um turbante. Devido a grande repercussão da sua postagem, Thauane veio a público mais uma vez agradecer pelas palavras de conforto e dizer que não esperava e que nem tinha a intenção de “causar” na internet ou gerar brigas, assim como não teve a intenção de menosprezar o movimento negro de qualquer forma.

Apesar das muitas críticas e brigas nos comentários, boa parte do público quis saber mais sobre o atual estado de saúde de Thauane e desejou melhoras à garota. Outros declararam que, apesar de sentirem-se normalmente ofendidos com o uso de turbantes por brancos que “desrespeitam seu valor cultural”, entendem que Thauane tenha a liberdade para usá-lo, devido à sua doença.

Turbantes em Fúria: Episódio 2


Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo

Por Ana Maria Gonçalves

Quase toda cidade pequena – principalmente as de Minas – tem seu louco de estimação. Aquele que toda a cidade conhece, cuida e por quem zela como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci, tinha o Zé Tem Dó; e foi com ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos objetos. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Minha mãe era costureira, e o Zé colecionava carretéis de linha. Portanto, suas visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe guardava todos os carretéis para ele e sempre oferecia algo mais, como um refresco, uma roupa, um prato de comida.

Pensando que o Zé estava distraído, certa vez tentei pegar em um destes carretéis. Ele se levantou com um pulo e, com mais dois, estava parado na minha frente, protegendo os valiosos bens que, para minha mãe, eram apenas sobras de trabalho. Saí eu correndo para o outro lado, assustada, com medo. Zé pegou suas coisas e foi embora, conversando com um dos carretéis que ele amarrava na ponta de uma linha e saia puxando. Era seu animal de estimação ou seu carrinho, algo que ia muito além do que eu conseguia ou conseguirei ver, a menos que um dia me torne um Zé e vá eu mesma virar folclore em uma cidade do interior. Mas ali, naquele episódio, aprendi uma coisa da qual pretendo falar aqui: o Zé não estava brincando com um carretel e nem nós estamos brincando com um turbante.

Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separando-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem.

Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião “civilizatória”, ganhando um nome “cristão” que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, “jeitinhos”, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho.

Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui. Temos, como diz a poeta, romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em seu maravilhoso A Map to the Door of No Return, “o próprio pertencimento alojado em uma metáfora”. Viver na Diáspora Negra, segundo ela, é “viver como um ser fictício – uma criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele (…).”

Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e ainda possa, ser mercantilizada. E não conseguimos escapar disso porque, de antemão, sem ao menos nos ouvir, vocês já parecem saber o que somos, o que queremos, o que sabemos. Assim mesmo: a negritude, a militância, as mulheres negras, esse povo – nunca seres individuais, mas sempre em lotes. E vivemos nesta metáfora que, a partir de agora, vou passar a chamar de turbante, mas poderia ser outro símbolo qualquer.

Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?


Lembro de ter visto um turbante usado por um homem sensível à causa das mulheres negras na Marcha das Mulheres, que aconteceu há pouco tempo em Los Angeles, que perguntava: “Verei todas vocês, mulheres brancas legais, na próxima marcha #VidasNegrasImportam, certo?”.

Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência, mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros), certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos defender quando tiver mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que nossas reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?

Quando vocês dizem “Vou usar e pronto, quero ver quem vai me impedir”, às vezes dá vontade de pegar vocês no colo, à moda das “mães pretas” que devem ter povoado as vidas de muitos de vocês ou de seus ancestrais, e dizer que isso não é comportamento de criança educada. E dizer que sim, algumas coisas são de vocês, porque foram da bisavó de vocês, da avó de vocês, da mãe de vocês e que, deste modo, a gente também poderia ter algumas coisas que são nossas, herança de família. Quer ver: Pizza! (“É comida italiana!”). Acarajé – do iorubá akara (bolo de feijão frito) + ijé (comida) – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Hashu´al (É israelita!). Congado (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Quimono! (É japonês!). Ojá! (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Kung Fu (É chinesa!). Capoeira! – do tupi ko´pwera ou do umbundo kapwila – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Abajur (Vem do francês!). Moleque, quiabo, berimbau, samba, cafuné, zumbi… (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!).

E depois somos nós os divisionistas, os egoístas, os que não têm cultura, enquanto vários outros povos podem manter, sem controvérsia e sem serem obrigados a colocar na roda (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!), as “contribuições” que trouxeram para o solo brasileiro. Já entendemos que vocês acham que é (sempre foi) tudo de vocês. Só que cansamos de ficar só nas cozinhas, nos quartinhos, nos corredores, nas bordas das piscinas, sem sermos incluídos nisso aí que vocês chamam de “povo brasileiro”. Cansamos de escutar que não sabemos, não vemos, não entendemos, não queremos, não podemos. De ter que pedir licença pra tudo, de ter que pedir desculpa mesmo quando somos os ofendidos. Cansamos de servir quem nem sabe os nossos nomes. Cansamos de sermos personagens de piadas das quais só vocês riem.

Quase todas as nossas discussões e toda a produção intelectual acontecidas ali, sob nossos turbantes, são desligitimizadas pela palavra de ordem #VaiTerBrancaDeTurbanteSim!, gritada para nós com a mesma arrogância e espera de obediência que os donos dos nossos ancestrais gritavam #NãoVaiTerCoisaDePretoAquiNão!. Coisas mil acontecem dentro desses nossos turbantes, das quais vocês nem têm ideia: temos que formar redes de apoio, invisíveis para vocês e alheias à sua existência privilegiada, para socorrer, consolar, orientar e fortalecer vítimas de racismo cometido por pessoas que se ofendem quando apontamos suas faltas, e viram vítimas.

Debaixo deste turbante orientamos crianças negras a não levarem banana na lancheira porque os amiguinhos vão chamá-las de macacos. Orientamos nossos jovens a não usarem roupa com capuz, não correrem, não fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja lá o que isso significa para vocês. Sob a proteção destes turbantes, trocamos informações, discutimos teorias, nos comunicamos com turbantes estrangeiros e até fazemos vaquinhas para pagar enterro de jovens assassinados pela polícia. Concordamos, discordamos, rimos, choramos, contamos segredos, gritamos, amamos, odiamos, estudamos, dizemos uns aos outros que temos que ter infinita paciência para voltar cinco, dez, vinte casinhas do ponto de entendimento em que estamos para responder a egocentrismos do tipo “EU li Monteiro Lobato e não me tornei racista”, “se EU usar turbante vou ser chamada de racista?”. Porque sabemos que não são comentários nem perguntas inocentes, mas são também metáforas. São os muros que protegem aqueles lugares que vocês habitam e nos quais não somos admitidos, porque na porta sempre teve uma placa dizendo “brancos somente”.

O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão. Entre nós mesmos e com algo que perdemos e que nem sempre sabemos o que é e por onde ficou. Habitar nossos turbantes tem para nós o mesmo significado de “ir conhecer a vila onde meus avós italianos nasceram”, ou “pude sentir na pele o que meus bisavós viveram naquele campo de concentração”. Sim, porque, entre muitos outros, ele tem estes dois significados: abrigo e dor.

Nós não tiramos sarro de vocês quando vocês defendem estes lugares que fazem parte da história do seu povo. Nós não fazemos piadas com os significados que estes lugares têm para vocês. Não não dizemos que são meras construções de pedras e tijolos empilhados uns sobre os outros. Nós não os chamamos de burros porque a nossa ignorância não nos permite entender o que vocês falam destes lugares que lhes são caros porque trazem as marcas de seus bisavós, avós, pais, e que continuarão a marcar as vidas de seus filhos, netos, bisnetos. E, no entanto, temos que observar calados, sob a pena de tentarem nos calar à força, como a bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é ação, é reação! –, vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos turbantes com gritos de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada provisória, das quais vocês entram e saem conforme dita a moda e a vontade, porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude. Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa.

Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de turbante. Dentre muitos dos seus nomes, o principal é racismo. É racismo quando vocês acham que não sabemos do que estão falando. É racismo quando vocês deduzem que precisam nos ensinar que pizza é italiana, que o algodão do pano do turbante é indiano, que num mundo globalizado… etc etc etc. A gente tem que voltar cinco, dez casinhas na discussão que vocês não estão acompanhando porque não querem – mas se acham habilitados a dar palpite –, para nos nivelarmos ao entendimento de vocês, só pra dizer: É o racismo, estúpido! E antes que tenhamos que voltar mais trinta casinhas para ouvir os “eu não sou racista!”: É o sistema, estúpido! E sendo ele estrutural e estruturante da sociedade brasileira, faz com que você trabalhe para mantê-lo, quer você queira, quer saiba, ou não.

Sobre apropriação cultural, a gente conversa depois de vocês lerem, por exemplo, o artigo da filósofa Djamila Ribeiro, publicado muito antes desta briga de vocês pelo turbante virar modinha. Ou o poema do mestre Nei Lopes, colocado aí abaixo. Neste caso, podem ter certeza de que quando vocês vêm com o fubá (do quimbundo “fuba” ou do quicongo “mfuba”), a gente já está comendo o angú (provavelmente do fon “àgun”).

BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)

Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
— Riam! Dancem! Toquem!
Cantem!Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!

(Nei Lopes)

Turbantes em Fúria: Episódio 3


Vai ter branca de turbante

Por Ruth Aquino

#VaiTerNegraDeCabeloAlisado. E branca de cabelo encaracolado permanente. E negra de peruca loura ou cabelo descolorido. E hétero de camisa arco-íris. E homem de saia. E mulher de calça (até 80 anos atrás, não podia). E homem fazendo sobrancelha. E mulher sem se depilar. E gente branca, negra, amarela, cinza se apropriando de todos os símbolos que ajudem o mundo a destruir muros e construir pontes.

A história começou no metrô de São Paulo. A estudante Thauane Cordeiro, branca, de 19 anos, usava um turbante. Eis seu relato: “Cinco meses atrás fui diagnosticada com leucemia. Meu cabelo foi caindo. Eu não queria aceitar. Raspei meu cabelo todo e doei para o Instituto do Câncer. Eu estava me sentindo feia, fui comprar um turbante, uma amiga me disse que eu ia me sentir melhor. A moça da loja foi gentil e me ensinou a fazer uma das amarrações. No metrô, um grupo de jovens estava me olhando torto. Uma chegou para mim e disse: ‘Moça, dá licença? Você não pode usar esse turbante’. Por quê?, perguntei. ‘Porque você é branca.’ E na hora ali me veio aquela raiva. Respirei. Tirei o turbante e disse: ‘Tá vendo isso aqui? Essa careca? É câncer. Então eu uso o que eu quero’”.

O assunto viralizou nas redes sociais. Por baixo dos panos na cabeça, havia o racismo e a “apropriação cultural”, alimentados por ressentimentos históricos e sociais.

Sou branca, mas não branquela. Tem índio entre meus antepassados. Desconfio de sangue árabe ou judeu, por meu nariz e o sobrenome de cristão-novo. Sou brasileira, mas zero nacionalista. Só uso turbante de toalha, no chuveiro. Não fico bem. O turbante, como acessório, valoriza rostos harmônicos. O primeiro turbante que vi foi nas Mil e uma noites e no gênio da lâmpada, Aladim. Depois, nos indianos de Londres. E, mais tarde, nas viagens à África. Que riqueza de tecidos e modelos.

Minha primeira reação à guerra do turbante foi achar  uma besteira maior que proibir a palavra “mulata” e reprimir as marchinhas de Carnaval incorretas. Mas não. Se tantos se sentem ofendidos, é porque o turbante é uma desculpa ou um gatilho.

O turbante é uma desculpa errada e arrogante para discutir racismo. Não é propriedade dos negros. Esconde um dos maiores símbolos da negritude universal: os cabelos black. Quem conhece a África sabe que a expressão “cultura africana” é quase ofensiva a um continente tão diversificado, com 54 países e uma infinidade de tribos, dialetos, regimes e costumes.

Pior é falar em “apropriação cultural” – como se usar adornos, temperos ou roupas de outras etnias e culturas não pudesse ser uma homenagem, vinda da admiração. Como se fosse um crime e devesse ou pudesse ser evitado.

Vi gente aplaudida por dizer que quem pode discutir feminismo é mulher, discriminação de gênero é homo ou trans, racismo é negro ou mestiço. O resto pode ouvir. Parecemos discípulos do Trump and this is a huuuuge mistake. Cada um no seu quadrado, recolha-se a seu lado do muro, porque você não sabe de nada e o mundo é preto e branco. Não se coloque no lugar do outro.

“O turbante habitado por negras é diferente do turbante habitado por brancas”, pontificou a escritora Ana Maria Gonçalves. Entendo o simbolismo – e acho difícil que uma branca fique mais imponente com os turbantes amplos que uma negra. O texto de Ana Maria é emocionado. “Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos de escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união.” Mas e aí? Uma pena que Ana Maria reduza a polêmica à “branquitude que não quer assumir seu racismo”. Pela cor de nossa pele branca, seremos sempre usurpadores, jamais irmãos? Não ouviríamos isso de Martin Luther King, Nelson Mandela, Barack Obama.

Achei esquisito quando Michelle Obama alisou os cabelos, preferia o penteado menos formal, mais autêntico. Mas Michelle faz o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso. A menina branca que usa dreads não se apropria de tranças negras. Ela faz o que quiser. Não existe cultura, moda ou arte sem “apropriação”, no sentido de mistura, inspiração e troca. Desde quando a apropriação se tornou inapropriada? Thauane foi vítima de racismo às avessas.

A negra Juliana Luna, estilista de turbante, descendente dos iorubás, disse à GloboNews, de Lagos, na Nigéria: “Quem sou eu para dizer a Thauane que ela não pode usar turbante? A abordagem não deve ser combativa. Isso cria uma rede de ódio desnecessária. Devemos construir diálogos de aproximação, usando a moda. Queria me desculpar em nome das negras por termos chegado a você, Thauane, com tanta insensibilidade. O câncer deve ter te deixado desestruturada. Se você quiser, te dou aula e te mando tecido”.  Touché, Juliana, linda.

Turbantes em Fúria: Episódio 4


De uma branca para outra

Por Eliane Brum

Thauane,

Em 4 de fevereiro, você postou o seguinte texto em sua página no Facebook: “Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural: eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’, enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei ‘tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus’. Peguei e saí e ela ficou com cara de tacho. E, sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade, meu Deus”.

Ao final, você fez a hashtag: #VaiTerTodosDeTurbanteSim.

Desde então, Thauane, você deu entrevistas, foi xingada e foi elogiada nas redes sociais. Desde então, produziu-se uma grande quantidade de textos de opinião, matérias e posts sobre o que aconteceu com você. Uma parte significativa desse material produzido continha acusações ao movimento negro, de que estaria fazendo algo nomeado como “racismo reverso”.

O episódio relatado por você e a repercussão do seu relato são tudo menos uma banalidade. Ambos contam de um momento muito particular do Brasil no que se refere à denúncia do racismo. Um momento que, por sua riqueza, não pode ser interditado por muros. É por isso que decidi escrever minha coluna pública como uma carta para você. Porque não poderia falar de você como “a branca do turbante”, apenas. Sim, você é branca. E você colocou um turbante. Mas você também é Thauane, uma mulher e suas circunstâncias. E, assim, a carta é o gênero com que posso melhor expressar meu afeto.

Eu acredito muito em cartas, Thauane, porque elas pressupõem um remetente e um destinatário. E elas expressam algo ainda mais fabuloso, que é o desejo de alcançar o outro. Poucas coisas são mais tristes que cartas perdidas, extraviadas. Cartas que não chegam ao seu destino. E quando a gente conversa com um muro no meio, as cartas não chegam. O muro barra o movimento da palavra.

Assim, Thauane, eu inicio dizendo a você que não sei como é receber um diagnóstico de leucemia. Não sei como é perder o cabelo aos 19 anos. Não sei como é acreditar que encontrou uma saída estética para cobrir a nudez da cabeça e ouvir que esta saída não é ética. Não sei. Mas tento saber. Acredito profundamente em vestir a pele do outro. Mas sei também do limite deste gesto. Buscamos vestir, mas não conseguimos vestir por completo. A beleza deste movimento é justamente a busca.

Ao tentar vestir a sua pele, consciente dos limites deste gesto, posso sentir o quanto deve ter sido duro ouvir o que você conta ter ouvido: “Você não pode usar turbante porque é branca”. Ter câncer é estar nu de tantas maneiras diferentes, e a sua nudez estava exposta na sua cabeça. E você tinha encontrado um abrigo que te fazia sentido, que era um turbante bonito. Para você também não era só um acessório, talvez fosse quase uma casa. E a estranha que te aborda, cortando esta cena com um “não”, pode ter doído em porções do seu corpo que você nem sabia que existiam até então.

É isso que eu apalpo quando tento te alcançar tendo apenas lido você no Facebook. Você doendo. E, sentindo-se atacada, apropria-se do que considera seu direito de vestir o que quiser, de se expressar como quiser pelo que bota sobre seu corpo, e diz que, sim, TODOS podem usar turbante mesmo que negras digam a você que não porque, afinal, qual é o problema de ser branca e usar turbante? Afinal, não seria até mesmo um reconhecimento e uma homenagem, já que você considera algo identificado com a cultura negra tão bonito que escolhe botar na cabeça? E isso te parece bastante óbvio. E parece bastante óbvio para muitas pessoas que te apoiam.

Eu escuto você. E compreendo o caminho do seu pensamento. E percebo que, para mim, não é difícil vestir a sua pele, ainda que não possa, jamais poderei, vesti-la por completo. É neste ponto que sou atravessada pela primeira interrogação. É mais fácil para mim vestir a sua pele branca do que vestir a pele negra da mulher que te abordou com um não. Eu tenho mais elementos para vestir a sua pele branca e bem menos elementos para vestir a pele negra dela. Por uma razão bastante óbvia: eu tenho uma vida de mulher branca num país como o Brasil.

Esta constatação me faz perceber que, exatamente por ser mais difícil, eu preciso tentar mais. Bem mais. Sabe, Thauane, eu nasci e cresci numa cidade em que a maioria é descendente de imigrantes europeus, especialmente alemães. Eu mesma sou descendente de italianos. Cresci observando o racismo ser uma condição tão natural quanto comer e dormir. Não o racismo disfarçado de tantos, mas o racismo que sequer estranha a si mesmo. Assim, quando começaram os debates das cotas sociais X cotas raciais, e isso porque não estou contando a parcela da população que acha que não precisa de cota nenhuma, não me foi difícil concluir que as cotas deveriam ser raciais.

Na cidade da minha infância, as negras sequer eram aceitas como empregadas domésticas. Como os patrões eram descendentes de imigrantes europeus, não traziam a experiência da Casa Grande, em que os negros escravizados faziam todo o serviço pesado, dentro e fora das casas. Ao contrário. Os avós e bisavós da maioria, como os meus mesmo, conseguiram escapar da fome de seus países de origem graças à ideia de branqueamento do Brasil que esteve no cerne das políticas de imigração do século 19. Para evitar o risco de que o Brasil ficasse mais preto, importou-se carne branca. Na região em que eu vivia, havia dois párias: os indígenas e os negros.

No Brasil da minha infância, ser empregada doméstica era quase ser escrava. Como todos sabemos, ainda hoje, em tantos lugares, segue assim. Mas o racismo era tão profundo que nem para cozinhar, lavar e limpar sem limite de horas para terminar a jornada e ganhar um salário miserável ao final as negras serviam. Sabe por quê? Porque boa parte das famílias brancas não queria a pele negra “sujando” a sua comida, a sua roupa de cama, o seu mundo. Assim, até para os serviços com a pior remuneração e com as piores condições de trabalho a preferência era pelos brancos pobres. O racismo, mais uma vez, condenava as negras a ver seus filhos passarem fome.

Percebi então que eu, como mulher branca, descendente de imigrantes europeus, já nasço neste país com muitos privilégios. Percebi primeiro pela intuição, ao observar o meu entorno, e depois fui estudar para compreender também através dos fatos, das reflexões e do processo histórico. Nasço neste país com privilégios. Mas não só. Percebo que já me insiro neste mundo pela experiência de “existir violentamente”. Vou aprofundar este conceito mais adiante.

Quando a gente ouve um “não”, Thauane, nossa primeira reação é dizer um “sim”. Sim, eu faço. Sim, eu vou. Sim, eu posso. Especialmente numa época em que se vende a ideia de que podemos tudo. E de que poder tudo é uma espécie de direito. Mas não, não podemos tudo. E nos deparamos com essa realidade a cada dia. Compreendo também, Thauane, que você sabe disso talvez melhor do que a maioria, porque não há nada mais revelador de nossos limites do que uma doença que nos coloca diante da tragédia maior da condição humana, que é morrer. E uma doença como câncer, mesmo quando há muitas chances de cura, nos lança neste abismo. Porque só a possibilidade já é devastadora.

Mas tenho aprendido, Thauane, e isso me veio com o envelhecimento, que, muitas vezes, mesmo quando a gente pode a gente não pode. Ou, dizendo de outro modo: o fato de poder não quer dizer que a gente deva. Assim, é verdade. Você pode usar um turbante mesmo que uma parte significativa das mulheres negras digam que você não pode. Mas você deve? Eu devo?

Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas, nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.

A resposta mais completa que encontrei na minha busca foi um texto de Ana Maria Gonçalves. Escritora de grande talento, mulher, negra. Autora de Um defeito de cor, um romance extraordinário. Sugiro a leitura do texto inteiro, publicado no Intercept. Mas reproduzo aqui os trechos que me parecem fundamentais para que eu possa continuar a escrever a minha carta de branca. Ana Maria Gonçalves diz:

“Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separando-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem.

Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião ‘civilizatória’, ganhando um nome ‘cristão’ que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, ‘jeitinhos’, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho. Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui.

(...)

Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?

(...)

O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão”.

Não sei como você escuta isso, Thauane. Mas posso te contar como eu escuto. Escutar a voz de Ana Maria Gonçalves, assim como de outras mulheres negras, produz movimento em mim. As vozes dessas mulheres me alargam por dentro. Alargam a minha visão de mundo. Eu não conseguiria compreender desta forma, desta forma que atravessa o meu corpo, não fosse elas terem a paciência de me explicar com palavras que também atravessam seus corpos.

Eu compreendo que, para você, o turbante também significava abrigo. E talvez abrigo da dor. Mas você tem outras formas de encontrar abrigo para sua cabeça nua. Assim como eu tenho outros jeitos de me expressar através do que coloco na cabeça. As mulheres negras nos explicam que não. Que para elas o turbante é memória, é identidade e é pertencimento. É, portanto, vital. O que as mulheres negras nos dizem, Thauane, é que não querem que o turbante, que tão precioso é para elas, vire mera mercadoria na nossa cabeça. Então, Thauane, acho que eu e você precisamos escutá-las. E podemos não usar um turbante. Aliás, não usar um turbante é bem o mínimo que podemos fazer.

E podemos não usá-lo por muitos argumentos, mas aqui, me basta este. Porque são elas que me dizem. As mulheres negras, as que no passado foram arrancadas de suas terras e trazidas como carga para o Brasil para trabalharem como escravas, as mulheres negras que eram violentadas por brancos como desacontecimento cotidiano. As mulheres negras, que deixaram de amamentar seus próprios filhos para amamentar os filhos das sinhazinhas brancas. As mulheres negras, que foram obrigadas a criar os filhos de outras enquanto os seus eram esquecidos. As mulheres negras, que quando seus filhos sobreviviam à fome, aos maus tratos e às doenças, tudo o que podiam esperar de um futuro era que também fossem escravos. As mulheres negras, que no presente seguem tendo os piores salários, a mais baixa escolaridade, menos acesso a tudo. As mulheres negras, que hoje são as que mais morrem de parto, são as que mais perdem filhos pequenos para doenças que não deveriam mais matar, são as que mais sofrem com filhos adolescentes e adultos em prisões que são campos de concentração não disfarçados. As mulheres negras, que têm seus filhos executados pela polícia e por grupos de extermínio, vítimas de um genocídio que provoca escassa revolta na parcela branca da população. As mulheres negras, que são as que mais sofrem estupro e as que têm menos acesso à tratamento quando adoecem de câncer.

Se as mulheres negras me dizem que não posso usar um turbante porque para elas o turbante é um símbolo de pertencimento, eu escuto. E compreendo que não devo usar um turbante. Sim, Thauane, acho que você e eu e todas as brancas deste país em que a abolição da escravatura jamais foi completada podemos e devemos baixar a nossa cabeça em sinal de respeito e não usar um turbante apenas porque as negras dizem que não podemos. Apenas porque as fere que usemos turbantes. Há muitos outros argumentos, mas só este já me parece suficiente.

Mas eu entendo também, Thauane, que precisamos conversar sobre isso. Escuto de algumas mulheres negras que é demais pedir que tenham a paciência de nos explicar depois do tanto que sofreram esses séculos todos e com um genocídio negro se desenrolando agora mesmo sem causar clamor. E compreendo que é difícil. Mas ainda assim acho que é preciso. Porque se não conseguirmos estabelecer um diálogo que não seja mais do que gritos de um lado e outro, ergueremos novos muros ou aumentaremos ainda mais a altura dos já existentes. E acho que podemos concordar que se há algo que este país não precisa é de mais muros.

Gostaria de acreditar, Thaune, que se você em vez de ouvir um repentino “não pode usar turbante porque é branca” fosse abordada de outra maneira, que se em vez de “não pode usar” e “vou usar sim” houvesse uma conversa entre duas pessoas capazes de se escutar mutuamente, você talvez tivesse concluído que não deveria usar um turbante. E a história que você publicou no Facebook seria então outra, mais inspiradora e com muito mais potência.

Se esse episódio acontecesse alguns anos atrás, Thauane, eu talvez aderisse à sua hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. Porque acharia uma convocação mais igualitária. Até alguns anos atrás eu acreditava que era suficiente não ser racista. Eu me achava bacana por defender os direitos humanos e denunciar a violência contra as minorias. Eu me achava legal por não distinguir raça, mas enxergar pessoas. Eu teria convicção de que, ao usar um turbante, estaria fazendo um reconhecimento e uma homenagem à outra cultura. Até alguns anos atrás eu acreditava que era isso o que eu poderia fazer de melhor como branca num país racista.

Tenho aprendido, Thauane, que é mais complicado. E tenho aprendido que é mais complicado com as mulheres negras e com os homens negros. Desde que a internet e as redes sociais tornaram possível que suas vozes ecoassem mais e mais longe, já que os espaços tradicionais eram e seguem sendo bastante interditados para os negros, eu tenho tido a chance de aprender com eles. Isso não significa que exista uma voz absoluta que possui todas as verdades e que tem razão a priori. Significa ter a oportunidade de escutar e de interrogar e até de discordar porque aprender é movimento, não deglutição.

Escutando os vários movimentos negros, Thauane, tenho aprendido que às vezes somos racistas sem saber que somos. É algo tão entranhado na nossa apreensão de mundo que, mesmo quando acreditamos não sermos, às vezes somos. Nas palavras, nos gestos, no caminho que alguns pensamentos fazem. Quantas vezes, por exemplo, amigos brancos não acharam que eram muito bacanas por tratarem bem os negros? A própria ideia de se achar incrível por tratar bem alguém de outra raça pressupõe que haveria um motivo para não tratar bem alguém de outra raça. E este já é um pensamento racista. Ou o famoso “não sou racista, tenho até amigos negros”.


Mas o que para mim tem se tornado mais evidente, Thauane, é o que tenho chamado de existir violentamente. Por mais éticos que nós, brancos, pudermos ser, a nossa condição de branco num país racista nos lança numa experiência cotidiana em que somos violentos apenas por existir. Quando eu nasço no Brasil, em vez de na Itália, porque as elites decidiram branquear o país, já sou de certo modo violenta ao nascer. Quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta.

Por isso escrevi um texto aqui afirmando que, no Brasil, o melhor branco consegue no máximo ser um bom sinhozinho. Porque, sim, ainda somos sinhazinhas e sinhozinhos, mesmo quando tentamos ser igualitários. Porque a desigualdade racial é nossa condição cotidiana. E essa experiência de existir violentamente – ou de ser violenta mesmo sem ser violenta – é algo que me corrói.

É duro, Thauane, reconhecer e sentir nos ossos, a cada dia, que existo violentamente. Não posso escolher não existir violentamente, porque esta é a condição que me foi dada neste momento histórico. Mas penso que há algo que posso escolher, que é lutar para que meus netos possam viver num país em que um branco não exista violentamente apenas por ser branco. E para isso eu preciso escutar. E, principalmente, preciso perder privilégios. Me parece que hoje uma das questões mais cruciais deste país diz respeito a quanto estamos dispostos a perder para estar com o outro. Porque será preciso perder para que o Brasil se mova, para que o mundo se mova.

E às vezes os privilégios mais difíceis de perder, Thauane, são os mais sutis, assim como os mais subjetivos. Por séculos os brancos falaram praticamente sozinhos no Brasil, inclusive sobre o que é cultura e sobre o que é pertencimento. Os brancos falaram praticamente sozinhos até sobre o lugar do negro neste país. Agora, ainda bem, perdemos esse privilégio. E vamos ter que conversar. Mas o privilégio primeiro que perdemos quando as vozes negras começaram a ecoar mais longe é o da ilusão de que somos “limpinhos” porque não somos racistas. Não somos limpinhos. Porque não há como ser branco e ser limpinho num país em que os negros vivem pior e morrem primeiro. É isso que eu chamo de existir violentamente.

Escrevo esta carta para você, para todos e também para mim, na esperança de que ela atravesse os muros e chegue ao seu destino. E me despeço dizendo, Thauane, que com toda a sua dor e com toda a sua nudez, acho que você, eu, todas nós, mulheres brancas, precisamos escolher perder o privilégio de usar turbante, com tudo o que isso significa. Não apenas porque alguém barrou o gesto, mas porque somos capazes de escutar argumentos e aprender com eles. E porque queremos muito estar com o outro sem ser violentamente.

Turbantes em Fúria: Episódio 5


Turbantes: a guerra ideológica virou pelada de campinho

Por Ismael Benigno

Não falo por mim. E talvez por isso já tenha sido convidado a não me pronunciar sobre outros dos temas de comportamento social. Ou porque não sou mulher, ou porque não sou negro, ou índio, ou quilombola. Mas como sou teimoso, me reservo o direito de opinar. Afinal, ao que parece, ficar calado é declarar posição e, mesmo que a gente não saiba, está sendo julgado. Então, já que nasci branco, preciso aqui declarar: não sou racista.

Li o texto da Ana Maria Gonçalves sobre a minha “branquitude” (digo “minha” porque, percebi, ter nascido branco me dá esse atributo automaticamente) e, tendo percebido toda a necessidade da autora de explicar o que significa um turbante para os povos negros (depois me corrijam se o termo “povos negros” soa racista, eu realmente não sei), percebi também que a única coisa a que as pessoas de pele branca têm direito é ficar quieto. E aguentar o julgamento sumário, por parte de desconhecidos, sobre o meu caráter, sobre meus valores pessoais, sobre o que penso de tudo isso.

Não importa que meu turbante, meu hijab, minha túnica, meu baby- sling escondam, se é o câncer, se é uma orelha de abano, se é um terceiro mamilo. O fato é que, na cruzada das reparações históricas, eu, que sou frequentemente julgado por usar camisa pólo ou sapato social, não posso cometer o “exotismo”, a “bacanidade” de ser “descolado” e usar um turbante, seja ele árabe, persa, ninja, africano – tudo será africano.

É onde entra a mais absoluta ignorância sobre o que significa cada um dos pequenos gestos da minha vida cotidiana. Eu decidi vestir um turbante porque sou racista e eu nem sabia.

E novamente não falo por mim. Eu não uso turbante africano. E por isso mesmo, sendo um estranho no ninho da discussão, não posso deixar de registrar minha estranheza com a polêmica, especialmente em Manaus, aonde a cultura, as tradições e os signos (é assim que fala?) africanos não são predominantes. Arrisco dizer que não há negros no Amazonas. E ainda assim, o que mais vejo são jovens brancos usando o adereço, assim como penteados africanos, ruivos usando black power, loiros usando dread-locks. O que pra mim não faz a menor diferença, a não ser ver que, muitas vezes, são exatamente essas pessoas as que estão, neste momento, explicando por A mais B porque usar o turbante é, sim, apropriação cultural, resultado da “branquitude” de pessoas que são racistas sem saber disso.

A ideologização generalizada é tal que, numa sociedade cheia de problemas graves como o saneamento, a pobreza e a violência, a gente ainda precisa aguentar, calado, o fato de que é racista, acusação frequentemente feita pelas mesmas pessoas que transformaram a cultura negra em posição política. Hoje, enquanto luto para trabalhar, criar minha família e pagar as minhas dívidas, sou acusado, por ter nascido com essa cor, das coisas que as pessoas que me acusam fazem.

Como eu disse, nessa confusão toda, mais uma vez, o coletivo pisa sobre a história de cada um. Por isso, nunca vai importar se a moça do trem tem câncer, ou que eu tenha vendido pastel na rua aos 10 anos, numa época em que alguns almoços foram arroz com maionese. Pouco vai importar a história de cada um.

Porque há um entendimento maior, uma verdade absoluta que ficam dizendo pra eu ler nos livros: eu sou de uma raça privilegiada, elitista, intolerante e racista. Se eu tiver amigos negros, terá sido porque eu queria posar de bacana. Se eu for visto numa roda de samba, terá sido porque quero posar de superior.

Para denunciar tudo o que já ocorreu, as torturas, os sequestros, os estupros, as surras e as mortes relegadas aos povos africanos no Brasil, é preciso dizer, a partir de agora, que não vale tentar não ser racista. Não vai colar eu ficar fazendo de conta que brancos e negros são iguais aos meus olhos. Afinal, em 1671 pessoas da minha cor açoitavam negros. Não adianta agir, pensar e ver as coisas diferentes em 2017. Não importa que a gente queira se misturar em 2017, porque é preciso reagir. Aos assassinatos de negros pela polícia, às violências nas salas de parto, nos supermercados.

A ordem para esmagar qualquer sinal de mistura é tão forte que nada pode escapar. Os séculos de violências sofridas, até hoje, têm responsáveis que precisam ser “coletivizados”. O turbante precisa ser respeitado, porque, segundo o mesmo texto, é o signo que carrega uma longa história de segregação e supressão de direitos e liberdade.

Vivemos a era do palco. E no palco, assim como no teatro, é preciso mais trejeitos, mais caras e bocas, mais empostação, mais linguagem corporal. Todos são protagonistas de alguma causa. Neste caso, mesmo que não façam parte dela, de modo que não vale lembrar que, se vamos partir para o patrulhamento dos adereços que cada um usa no ônibus, com base na cor da pele, está na hora de fazermos um censo racial no Brasil, definindo, talvez com instruções normativas ou decretos governamentais, quem sabe ditados por comissões raciais, o que cada um pode ou não usar na cabeça.

De tudo isso, fica somente a impressão de que, na era da informação e da tão propalada diversidade cultural, estamos cada vez mais com raiva da diversidade, do pluralismo e da consciência da existência dos outros. Todo sinal de pacifismo é tido como provocação, toda demonstração de tolerância é tida como deboche, toda vontade de se misturar, quem sabe começando no século 21 a mudar a história que não pode ser apagada dos séculos anteriores, é vista com desconfiança.

Eu, que achava não fazer parte dos agressores nem das vítimas, percebi que não há como escapar da guerra ideológica que virou pelada de campinho. Ou você é do time com camisa ou do time sem camisa. Mas, como eu disse antes, falo por mim. Sou um homem branco, não tenho como mudar isso. Não tive pai, passei por privações que a gente nem percebe quando criança. Mesmo assim, tive uma infância feliz.

Acho uma pena que causas justíssimas já nasçam com tutores intelectuais, quase sempre pessoas que não fazem parte das vítimas do problema, e cuja imaturidade ideológica acaba sempre levando problemas reais para o viés político, muitas vezes partidário até. É uma pena que a romantização do passado brasileiro, com gente livre posando de oprimida, com gente branca posando de quilombola, com gente rica posando de pobre, com gente solta posando de perseguida, esteja impedindo as pessoas de se misturarem, de se conhecerem, de criarem empatia com a história do outro.

É uma pena descobrir que, nesses tempos, frear o carro para não atropelar animais virou causa. Comer rúcula virou causa. Assanhar o cabelo virou causa. Usar um pano na cabeça virou causa. E a gente, que cresceu ensinado a ver todos como iguais, a ajudar as pessoas, a gostar de bicho, a gente vacilou e não alardeou essas coisas. Não se juntou a um coletivo que não mata cachorro, a um coletivo que come rúcula, a um coletivo que pode usar turbante, mesmo sendo branco.

A bondade, o caráter, a tolerância, o respeito e a empatia que a gente exercia em 1981, a gente não sabia, eram ideias que já tinham donos que só nasceriam em 1997. O que nos resta, agora, é continuar a ser bacanas, ter caráter, ser tolerantes, respeitar os outros, mas em silêncio.

Porque o câncer de uns é mais câncer do que o dos outros, e se já chegamos ao ponto de passar por uma banca julgadora para sermos livres de pensamento, o debate morreu. E como eu já senti na pele – e certamente sentirei novamente –, quem sou eu para falar de coisas que eu não sofro, né?

Bom, eu sou só um branco, como é branca a maioria dos patrulheiros da “branquitude” alheia. Eu só cometi um erro: o de não ter me associado a nenhum sindicato de brancos que posam de negros, ou de ruivos que posam de índios, ou de ricos que posam de pobres.

A não ser por esse texto, nascido da vontade de me defender do que não sou, eu sou só parte da silenciosa maioria que não está nem aí para os sindicatos da bondade.

E como tal, aceito continuar assistindo o debate morrer por dentro. Porque o que me importa é o que aprendi a ser, e o que posso ensinar meus filhos a serem. Bacanas, tolerantes, respeitosos, pluralistas, democratas, empáticos.

Mas, acima de tudo, livres disso tudo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

É um pássaro? É um avião? Não, é o CANDIRU...


Ivan Oliveira, eu e Neilo Batista, meus dois manos diretores do GRES Reino Unido da Liberdade, na fuzarca da Banda do Caxuxa no ano passado. É ganhamos o carnaval de 2016...

Respondendo aos e-mails da pedagoga Maria Augusta (a doce “Guguta”, de Óbidos-PA), do poeta Marcos Fernando (de Caicó-RN, terra dos violeiros Gerson Asa Branca e Paulão dos Oito Baixos, meus manos forever!), do sociólogo Júlio Andrade (de Barra do Piraí-RJ), do Milton Cardoso (meu querido “Miltinho”, de Corumbá-MT) e do resto da cachorrada que frequenta o mocó: Não, não vou descontinuar essa nossa pocilga. O que vai acontecer é que vou demorar um pouco mais pra contar as novidades. Só isso.

Explico melhor. Juntei um bando de cachorros doidos do meu mesmo naipe para fazermos uma revista cultural eletrônica. Uma revista antropofágica, em que cada um é o seu próprio guia. Achou um texto legal, publica. Se puder dar os créditos, ótimo. Se não puder, ótimo também. Nossa função é compartilhar informações pra diminuir o nível de imbecilidade do planeta.

Começamos essa odisseia há quase um mês. Falei pra eles não se preocuparem com audiência a partir de uma premissa básica dos dervixes Naqshbandi: “Quem quiser encontrar, acha. Quem não quiser, encontra as trevas.”

Somos dez malucos por literatura, informação, música e humor, não necessariamente nessa ordem. E sabemos que vamos competir em um ciberespaço onde são criados 10 milhões de sites por mês. Foda-se. A maioria deles é em chinês...

Quem é nosso público-alvo?... Porra, não é neguinho que entra na internet via redes sociais, com um smarthphone comprado a perder de vista. Ou um tablete comprado de um ladrão de ocasião.

Não queremos papo, pelo menos por enquanto, com essa gente do facebook, instagram, google +, linkedin e twitter. Pelo menos, por enquanto.

Queremos conversar com essas 15, 20 mil pessoas que ainda frequentam livrarias nesse nosso Brasilsão cada vez mais jerico, cada vez mais roceiro, cada vez mais atrasado.

Gente que ainda gosta de conversar com um ser humano olhando nos olhos. Sim, sei, sabemos, é um sintoma de atraso tecnológico. Mas ainda somos assim, fazer o que?

Cada um dos dez malucos é livre pra publicar o que achar interessante. Mas estabelecemos algumas regras, que nem sempre são cumpridas.

Vamos a elas, por que cada uma representa um bloco autônomo dentro do site.

MEMÓRIA VIVA – Lembranças de Manaus, de Paris, de New York. Vale biografias de gente que nos informou. Vale mostrar o passado como caminho para o futuro. Vale tudo.

CONVERSA DE BOTEQUIM – Conversas de papo de bar em forma de entrevista. Escutar o que essa gente tem pra dizer, independente de quando rolou o papo. Eu, particularmente, fiquei enlouquecido quando li a entrevista do Aldir Blanc. E também gostei muito da do João Ubaldo Ribeiro.

CAUSOS DE BAMBAS – Estórias engraçadas, tipo causos, de gente que conviveu com a gente. Ou não. Todas elas guardam uma máxima, um ensinamento, uma vertigem. Descobrir é função do leitor. Não temos nada com isso.

BOCA DO INFERNO – Tem sido nosso pior papel, pelo menos por enquanto. A regra era colocar coisas polêmicas. Possivelmente, nossos (meu e de mais dois editores) conceitos de polêmicas são polêmicos. Parceiros colocam lá o que querem. E isso é bom. Não vamos nos dispersar por causa disso.

CHUMBO QUENTE – Também aqui estamos perdendo o pé. Era pra ser a polêmica das polêmicas. Parceiros preferem investir nisso pra polemizar. Tem sido divertido discutir com eles, sem censurar, a presepada. Como a maioria acha que é mesmo por aí, nos quedamos em respeito.

CABARÉ CHINELO – Qualquer matéria que o coletivo não achar interessante, mas achar que deve ser compartilhada. Rola muitas coisas interessantes. É a que mais leio, a mais divertida, a mais sacana, a mais doida e a mais doída. Experimente.

Se acharem que estou de sacanagem, entrem em uma dessas seções do CANDIRU e se divirtam. Vocês vão achar muito mais divertido do que esse meu blog. Papo sério.


quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Concurso de Fantasias e Máscaras no Teatro Amazonas


O colorido das plumas e paetês vai dar o tom especial ao Carnaval 2017, com o encantamento promovido pelo tradicional Concurso de Fantasias e Máscaras do Carnaval do Amazonas que o Governo do Amazonas realiza, via Secretaria de Cultura, nos dias 19 e 26 de fevereiro.

Em sua 14ª edição, o evento terá lugar no Teatro Amazonas, em alusão à comemoração dos 120 anos da casa, e acontece a partir das 18h, no dia 19, e 19h, no dia 26.

O concurso acontece nas modalidades Fantasia Infantil, dia 19, e Fantasia Adulto e Máscara, dia 26. Na modalidade “Infantil”, terá as categorias Luxo Infantil e Originalidade Infantil, divididas nas faixas etárias de 03 a 05 anos, 06 a 08 anos e de 09 a 12 anos.

Já a modalidade “Fantasia Adulto” conta com as seguintes categorias: Luxo Masculino, Luxo Feminino, Originalidade Masculina, Originalidade Feminina, Mestre Sala e Porta Bandeira, e Melhor Idade. E na modalidade Máscara, as categorias Originalidade e Luxo.

Durante o concurso, serão avaliados itens como a consonância com o título da fantasia e o seu histórico, a criatividade na elaboração, o desempenho cênico do (a) modelo, e o acabamento da peça. Além disso, algumas categorias terão critérios específicos na avaliação, como sintonia, evolução, emprego de certos materiais, tanto alternativos como nobres ou luxuosos.

“Os Concursos de Fantasia realizados pelo Governo, via Secretaria de Cultura, são uma tradição no cenário cultural do Amazonas e nos remetem aos antigos carnavais, com a participação das famílias, principalmente, das crianças”, declarou o secretário de Cultura, Robério Braga.

As inscrições do concurso são gratuitas, e para o Concurso de Fantasias Infantil, podem ser feitas no período de 8 a 17 de fevereiro, na sede da Secretaria de Cultura, e no dia 19 de fevereiro, das 15h às 17h, no Teatro Amazonas.

Já as inscrições para o Concurso de Fantasias Adulto vão de 8 a 24 de fevereiro, também da sede da SEC, e no dia 26 de fevereiro, das 15h às 18h, no Teatro Amazonas.

O edital e os demais documentos relativos ao concurso estão disponíveis no site editais.cultura.am.gov.br. Para mais informações sobre outras ações, projetos e atividades desenvolvidas pela Secretaria de Estado de Cultura, acesse facebook.com/culturadoamazonas e o Portal da Cultura (www.cultura.am.gov.br).

Banda Pega na Inxada é a nova atração do Galvez Botequim


Considerado o mais charmoso bar cultural de Manaus, o Galvez Botequim vai participar das folias de Momo com a sua tradicional frevolândia, que será realizada no dia 25 de fevereiro, sábado gordo, a partir das 13h.

Até o ano passado, o bar era reduto do Bloco É Mole Mas é Meu, que tinha como símbolo a simpática tromba de um elefante cor-de-rosa segurando uma sombrinha de frevo.

Esse ano, entretanto, uma espertalhona chamada Cristiane Costa registrou o nome do bloco como se fosse originário da comunidade da Grande Vitória e conseguiu ser contemplada no edital de patrocínio da Manauscult, deixando os verdadeiros fundadores do bloco a ver navios.

Para não deixar a peteca cair, o estado-maior do Galvez Botequim – Álvaro José, Célio Cruz, Torrinho, Mario Jorge Costa, Renan Freitas Pinto, etc – resolveu colocar um novo bloco na rua e o nome escolhido por unanimidade foi “Banda Pega na Inxada”.

A frevolândia do Galvez vai ser animada pelo grupo Meninos de Olinda e pelo DJ Nego Léo, especialista em mixar frevo tradicional com Pink Floyd e Led Zeppelin.

Estão estranhando o nome da banda?...

No Nordeste, a corruptela “inxada” tanto significa a ferramenta agrícola conhecida como sachola, charrua, enxada ou tapira quanto o órgão sexual feminino conhecido como perseguida, bacorinha, racha ou vagina.

Mas também pode designar o órgão sexual masculino, também conhecido como estrovenga, pomba, rola ou carne crescida.

Pegou em um, pegou em Deus.

O frevo da banda ainda está em fase de composição, mas já podemos adiantar alguns trechos da letra:

Nesse carnaval vou tirar o panema
Me fartar de mato, terra preta e urucu
Meu arpão já está bem afiado
Só vô embora se comer um baiacu

Dos caruanas quero só o maracá,
As cantorias e o cigarro tauhary
Uma cabrocha na paioça ou na ubá
Beber cauim e rebater com cunambi

Vem curupira, vem tomar chibé
Vem cá fazer uma pussanga da pesada
Que logo mais vai começar o fuzuê
Com uma boa ajuda da rapaziada:

Pega na inxada pra plantar a mandioca
Soca bem o pilão pra fazer piracuí
Bota peconha pra mode subir o pau
Que o carnaval pede beiju e açaí!