quarta-feira, julho 27, 2016

O 6º Festival Folclórico do Amazonas (1962)


O amo Come Feio e o bumbá Caprichoso, da Praça 14 de Janeiro

A matéria publicada na revista O Cruzeiro, no ano anterior, contribuiu para tornar a pajelança amazonense conhecida em todo o país. “O Cruzeiro encontrará ao nascer o arranha-céu, a radiotelefonia e o correio aéreo”. Era assim que o primeiro editorial definia a revista que acabara de nascer: O Cruzeiro chegou ao público em 10 de novembro de 1928 prometendo modernizar o jornalismo brasileiro.

Fundada por Carlos Malheiros Dias e publicada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, investiu em fotojornalismo, grandes reportagens e num padrão gráfico considerado moderno para a época. Foi a mais influente revista do país na primeira metade do século 20.

Em suas páginas, os leitores se atualizavam sobre cinema, esportes, saúde, moda e gastronomia. A vida dos astros de Hollywood, as expedições para desbravar a Amazônia, o trabalho dos arqueólogos no Egito, nada escapava da pauta de O Cruzeiro.

Ao investir em duplas de repórter/fotógrafo, consagrou nomes como Jean Manzon e David Nasser, responsáveis, entre outras, por uma célebre entrevista com o médium Chico Xavier. As charges e a cobertura dos fatos políticos também marcaram época.

A edição sobre a morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, teve uma tiragem recorde de 720 mil exemplares, numa época em que as vendas de um periódico raramente chegavam aos 100 mil.

No final dos anos 60, porém, a revista entrou em declínio, tanto por causa do surgimento de novas publicações quanto pela má gestão do empreendimento. Sua última edição circulou em julho de 1975.


Disposto a fazer na abertura do VI Festival Folclórico, em junho, a maior passeata folclórica da história do país, com mais de 10 mil brincantes vestidos a caráter (em termos proporcionais em relação à população da época seria como se hoje, em Manaus, os grupos folclóricos reunidos tivessem um conjunto de 100 mil brincantes distribuídos em mais de 900 agremiações!), desfilando da Praça São Sebastião até o Estádio General Osório, o jornalista Bianor Garcia abriu as inscrições em março e teve mais uma ideia de gênio: decidiu que as disputas seriam exclusivamente entre as quadrilhas, os bumbás e os garrotes.

Todos os demais conjuntos inscritos seriam considerados automaticamente campeões e receberiam uma premiação em dinheiro.

Melhor ainda: as disputas pra valer seriam do tipo “mata-mata”, com no máximo três grupos por chave e no mínimo dois. As chaves seriam definidas por sorteio.

Mas quando o milagre é demais, o santo desconfia. Interessado em atingir a marca histórica de 10 mil brincantes, Bianor decidiu que cada grupo folclórico teria que ter, no mínimo, 80 integrantes, excetuando-se as quadrilhas infantis e os garrotes. A correria em busca de novos brincantes virou uma febre entre os dirigentes folclóricos.

Também ficou definido que a Comissão Julgadora, a seu critério irrecorrível, poderia desclassificar qualquer um dos grupos que não estavam na disputa pra valer (os teoricamente “campeões antecipados”) se considerassem as apresentações de baixo nível técnico. 

No final de maio, o jornalista apresentou para o governador Gilberto Mestrinho uma previsão orçamentária da premiação em dinheiro, dentro das novas regras do jogo, que alcançava a cifra de Cr$ 1 milhão (R$ 400 mil em valores de hoje, o dobro do ano anterior). O governador aprovou, sem discutir.

Na primeira semana de junho, as inscrições já estavam encerradas e as chaves definidas:

Quadrilhas adultas – Chave A: Primo do Cangaceiro, Santo Antônio na Roça e Quadrilha da Paz.

Chave B: Flor do Plano, La Paloma e Flor da Mocidade.

Chave C: Araruamas na Roça, Arautianos na Roça e Ruienses na Roça.

Chave D: Geraldinos no Roçado, Tio João na Roça e Mocidade na Roça.

Chave E: Caiçaras na Roça, Folia na Roça e Capitão Varela.

Chave F: Caboclos do Tapauá, Jorgeanos na Soçaite e Brotinhos na Roça.

Chave G: Quadrilha dos Camponeses, Quadrilha do Bananal e Canto da Alvorada.

Chave H: Caipirada Normalista, Gregório no Canavial e Cabras do Lampião. 

Chave I: Real Madrid na Roça, Matutos do Inferno Verde e Quadrilha do Iranduba.

Chave J: Cunhantans Puranga, Roceiros no Asfalto e Matutos na Roça.

Quadrilhas mirins – Chave A: Infantil Popular e Festinha na Roça.

Chave B: Brotinhos de Amanhã e Vasquinho na Roça.

Chave C: Curumins da Colina e Curumins da Roça.

Chave D: Americanos na Roça e Filhos do Lampião.

Chave E: Quadrilha dos 40 Anões no Festival e Filhos de Dona Xandoca na Roça.

Chave F: Caboclinhos de Brasília e Filhos do Cangaceiro.

Bumbás – Chave A: Tira Prosa e Canarinho.

Chave B: Corre Campo e Mina de Ouro.

Chave C: Caprichoso e Ás de Ouro.

Chave D: Pai do Campo e Veludinho (do Manaquiri).

Garrotes – Chave A: Teimosinho, Mineirinho e Estrela de Ouro.

Chave B: Luz de Guerra e Treme Terra.

Chave C: Malhado, Tira Teima e Touro Preto.

Chave D: Pingo de Ouro e Veludinho.


Os Tarianos da ETM desfilando nas cercanias do Teatro Amazonas

Entre as atrações daquele ano que pela primeira vez se apresentavam no festival estavam a Dança do Cacetinho (Tribo dos Tarianos, dos alunos da Escola Técnica de Manaus), Dança do Gambá (da comunidade de Borba radicada em Manaus), a Roda de Coco de Zambê, Danças Colombianas, Polca Brasileira, Danças Gaúchas, Dança do Arara, Danças Mexicanas, Danças e Ritmos Latino-americanos, Musas do Ritmo (um conjunto musical formado exclusivamente por mulheres) e a Pastorinha Filhas de Jerusalém.

As tribos bateram recorde de inscrição: Iurupixunas, Andirás, Manaú, Guaranis e Amazonas.

Os Pássaros Japiim, Corrupião e Rouxinol perderam a companhia do Tucano, do Papagaio e do Guará, mas ganharam a companhia da Garça.

Ao todo, 93 grupos folclóricos se credenciaram para participar do VI Festival.

No dia 6 de junho, o matutino O Jornal publicava uma matéria intitulada “Tudo pronto para a abertura do Sexto Festival Folclórico do Amazonas: dia 17”:

Não falta absolutamente coisa alguma para iniciarmos o Sexto Festival Folclórico do Amazonas. O palco da festa, no Estádio General Osório, está sendo trabalhado e dentro de mais oito dias estará definitivamente pronto para receber todos os brincantes (cerca de 10 mil) e o povo em geral. Espera-se que, desta vez, tenhamos uma decoração excelente, capaz de constituir outra beleza da maior e mais linda comemoração típica de todo o território brasileiro.

Por outro lado, todos os grupos, ou a sua grande maioria, já se encontram preparados, ensaiados, dando os últimos retoques. Alguns, que lutam com diversas dificuldades, especialmente de ordem financeira, procuram organizar-se e até o dia 17 nada lhes faltará. Houve uma verdadeira corrida para o comércio local, que vendeu milhões de cruzeiros em fazendas, em enfeites e em peças indispensáveis às mais exóticas fantasias. Pena que muitos estabelecimentos tenham exercido verdadeira especulação, dificultando as possibilidades de muitos brincantes.

Apesar disso, tudo está prontinho da silva para o dia 17, data da abertura solene e festiva do grande acontecimento popular, idealizado, criado e dirigido, desde 1957, pelo jornalista Bianor Garcia. Nessa tarde, que coincidirá com o término do Campeonato do Mundo, dar-se-á o desfile de todos os integrantes do festival, da Praça São Sebastião ao Estádio General Osório, formando, assim, o exuberante espetáculo de cores, ritmo, graça, coreografia e beleza de todos os anos. O povo é o grande convidado. A festa é sua, foi imaginada em sua honra e é pensando no povo, no seu apoio aos nossos diários, que de ano a ano os nossos esforços se desdobram, à frente o incansável companheiro Bianor Garcia, coordenador do grande acontecimento popular.

Existem ainda alguns conjuntos, especialmente tribos, que estão em dificuldades, com a falta de penas para suas fantasias. Pedimos a quem tiver em casa, como enfeite ou para vender, que tragam à redação de O Jornal, no horário das 5 às 6 horas da tarde, pois os interessados comprarão. Quem vier aqui oferecer penas, estará, também, não só colaborando com a nossa empresa, como ainda ajudando a embelezar o Festival Folclórico. Essas penas podem ser qualquer uma, especialmente de tucanos, papagaios, gaviões, araras, garças, etc. Qualquer pena serve.

Informou-nos o sr. Luís Costa, subchefe da Casa Civil, que o governador está assinando os ofícios, com os quais os donos dos grupos folclóricos receberão na Fazenda Pública, o auxílio de Gilberto Mestrinho. Quando todos estiverem assinados, Luís Costa marcará o dia e a hora em que todos deverão comparecer, ou mandar representante autêntico, ao Palácio Rio Negro, para recebê-lo.


Os brincantes do Cordão de Pássaro Corrupião, um dos campeões antecipados do festival

No dia 9 de junho, o matutino O Jornal voltaria ao assunto, com uma matéria intitulada “Sexto Festival Folclórico do Amazonas: entrega dos ofícios, hoje, no Palácio Rio Negro, aos donos dos conjuntos”:

O governador em exercício, deputado Arlindo Porto, assinou todos os ofícios de auxílio do Governo aos grupos folclóricos inscritos no Sexto Festival, que se iniciará no próximo dia 17, à tarde, com o desfile de todos os figurantes. Mediante esses ofícios, os donos dos grupos receberão, novamente, a tradicional ajuda do governador Gilberto Mestrinho, para a formação de sua brincadeira típica.

Em consequência, todos os dirigentes (ou representantes idôneos) devem comparecer, hoje, impreterivelmente, às 10 horas, no gabinete do Sr. Luiz Costa, subchefe da Casa Civil do Governador, para o recebimento dos ofícios. Ninguém deve faltar. Lá estará, também, o jornalista Bianor Garcia, idealizador, criador e dirigente da maior e mais linda festa folclórica de todo o Brasil.

A partir da leitura das matérias jornalísticas publicadas nos dias seguintes, tanto no matutino O Jornal como no vespertino Diário da Tarde, era possível perceber que Bianor Garcia estava de volta à sua via crucis de visitar os ensaios das agremiações folclóricas e participar de outras atividades de cunho filantrópico ligadas ao festival. Selecionamos algumas dessas notas:

A Quadrilha dos Camponeses, do bairro de São Raimundo, realizará, hoje, o seu ensaio geral, com uma grande festa dançante, que só acabará no dia seguinte. Haverá fartura de guloseimas da época, totalmente de graça para quantos adquirirem reserva de mesa, com o Sr. José Vicente, no Mercadinho Cunha Melo, na Av. João Coelho.  Fomos gentilmente convidados.

Realiza-se hoje, à noite, o ensaio geral da Quadrilha Caboclinhos de Brasília, uma das veteranas do nosso festival, campeã durante vários anos. A jovem Derbla Menezes, diretora e marcadora, promete que os “candanguinhos” da Av. Airão sairão vitoriosos, novamente. Fomos convidados e lá estaremos.

O Pássaro Japiim, apesar de sérios obstáculos, fará, hoje, a sua singela festinha de preparação para o VI Festival. É um conjunto harmonioso e bem preparado, graças à dedicação de Dona Paquita. O Japiim, este ano, entretanto, é campeão de sua categoria, pois não precisará ser julgado.

O garrote Luz de Guerra, do nosso amigo Maranhão, também fará, hoje, o seu ensaio geral na Rua Boa Sorte, na Matinha, com grande festa. Todos os simpatizantes e amigos do Luz de Guerra, bicampeão da categoria de garrotes, estão convidados.

Também o veterano Brigue Independência está em festa, hoje, com o aniversário natalício do jovem Sebastião Gomes do Nascimento, “comandante” daquele “barco”. Todo o conjunto se reunirá à noite, para comemorar o evento.

Na Av. Airão, 125, proximidades da Matinha, sob as ordens de Walder Caetano, será realizada, hoje, à noite, a festa de preparação definitiva da Dança Regional do Arara e da Quadrilha Flor da Mocidade. O negócio ali é para dançar mesmo. O primeiro jazz da Polícia Militar estará presente, custando a reserva de mesa Cr$ 500,00, sendo encontrada na banca de revistas em frente à antiga Casa Rio, no arraial da João Coelho e no Boulevard Amazonas, 555, com a senhora Dalva. Fomos convidados e lá estaremos, pois não se deve perder um programa excelente como esse, organizado pelo Walder Caetano.

Dona Elizabeth e seu Antônio, dois velhos amigos do nosso festival, realizarão, hoje, à noite, também com uma grande festa, o ensaio geral da Quadrilha Mocidade na Roça, situada na Rua Boa Sorte, na Matinha. Ninguém deve faltar, pois haverá muitas surpresas. Fomos convidados e agradecemos.

A partir das 16 horas de hoje, o jornalista Bianor Garcia, igual como fez com os filhos sadios dos leprosos (sábado passado) organizará a Festinha de Caridade aos velhinhos do Asilo de Mendicidade Dr. Thomaz. O povo generoso de Manaus deve comparecer, infalivelmente, levando camisas, calças, vestidos, sandálias, chinelos, pijamas, cuecas, calções, já usados, e os que puderem poderão oferecer latas de leite, de maisena, macarrão e até dinheiro. A veneranda senhora Dona Virginia Amorim, diretora do asilo, estará presente, para receber os donativos do povo frequentador do nosso festival. Ninguém deve chegar ali de mãos abanando. Todos devem oferecer o seu donativo, a sua dádiva, por menor que seja. Ajudemos, pois, com a nossa alegria, os velhinhos inválidos do Asilo de Mendicidade Dr. Thomaz.

Os portugueses do Luso Sporting vão ver hoje o que é uma quadrilha de verdade. O conjunto Primo do Cangaceiro, do nosso chapa Zacarias, estará realizando, hoje, a partir das 21 horas, uma festança do arromba nos salões daquela prestigiosa entidade luso-brasileira. A quadrilha se apresentará e depois cada qual que se arranje com sua cabrocha pra dançar até de manhã. O traje é esporte ou fantasia decente e a venda de mesa dar-se-á na sede dos cangaceiros, no bairro da Cachoeirinha.

A Tribo dos Tarianos, a grande revelação do festival, organizará, amanhã, sexta-feira, a sua festança, nos salões da Escola Técnica de Manaus. A famosa Dança do Cacetinho será novamente apresentada, em todas as suas partes, para quantos ali comparecerem. Está prevista, também, a presença da Tribo dos Manaú, uma das campeãs de nosso festival, e outros grupos típicos. A festa será promovida pelo Centro Estudantil Francisco Montojos, dos estudantes da ETM.


No dia 17 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria de primeira página intitulada “Inaugura-se, hoje, o Sexto Festival Folclórico do Amazonas”:

Engalana-se, hoje, novamente, o povo amazonense, dirigindo-se em massa, logo mais, às 14 horas, ao Estádio General Osório, para tomar parte e orgulhar-se do Sexto Festival Folclórico do Amazonas, promoção eminentemente popular anualmente realizada por O Jornal e Diário da Tarde, com o apoio maior do governador Gilberto Mestrinho, prefeito Josué Cláudio de Souza, general Moniz de Aragão, comandante da Guarnição Federal de Manaus, Companhia de Eletricidade de Manaus, Indústrias I. B. Sabbá e tantos outros colaboradores.

Essa festa pública, a maior de todo o território brasileiro, idealizada, criada e dirigida pelo nosso companheiro Bianor Garcia para os líderes, é hoje um acontecimento de ressonâncias internacionais. Abala todos os corações, remove todas as tristezas e concentra, por incrível que pareça (como este ano), cerca de 10 mil pessoas tipicamente vestidas, o que até hoje não foi possível repetir-se em qualquer outra região do país. Mostra, assim, o nosso povo, ao resto da Pátria, através dos nossos diários, a sua desafiadora capacidade de organização, o seu irrefreável estímulo à cultura popular brasileira e o seu magnífico exemplo de operosidade e realizações em favor do povo.

A inauguração do festival, que desde 1957 vem se sucedendo ano a ano ganhando mais entusiasmo e sucesso transcendentais, dar-se-á, por tradição, com o desfile de todos os figurantes fantasiados, da Praça São Sebastião ao Estádio General Osório, onde se encontrarão o governador Gilberto Mestrinho e as mais altas autoridades federais, estaduais, eclesiásticas, militares, turistas nacionais e estrangeiros, representantes de cadeias de emissoras de rádio, de televisão e de cinema.

Aí que residirá a importância desse espetáculo de cores, de ritmos, de alegria, de graça, beleza, poesia, jamais visto pelos nossos visitantes. E a partir de amanhã até o dia 1º de junho, todas as noites e n’algumas tardes, as competições se desenrolarão no tablado, perante a Comissão Julgadora, que está incumbida de escolher e proclamar os campeões deste ano, aos quais o governador Gilberto Mestrinho distribuirá quase um milhão de cruzeiros em prêmios.

Oxalá, tenhamos, hoje, duplo euforismo. O primeiro já está certo: a abertura do festival. Falta o segundo, o bicampeonato do Brasil na Copa do Mundo. Aliás, toda a irradiação do jogo será ouvida no Estádio General Osório, através do serviço de alto-falantes do festival.

Todos os grupos folclóricos devem vir buscar os caminhões, para sua condução à Praça São Sebastião. Todos devem se vestir cedo, bem cedo mesmo, de preferência à uma hora da tarde para que, às 16 horas, todos estejam na praça prontos para desfilar até ao Estádio General Osório.

O jornalista Bianor Garcia e o radialista Luiz Verçosa, como sempre aconteceu, são os encarregados da transmissão das solenidades, desfiles e abertura do Festival Folclórico do Amazonas. Somente estes são os responsáveis por esse espinhoso trabalho.


A Dança do Tipiti, das alunas do Colégio Estadual do Amazonas

A ordem de apresentação do VI Festival, com 93 grupos inscritos e mais de 10 mil figurantes, ficou assim definida:

Dia 17 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório, como parte da abertura oficial do festival.

Dia 18 (segunda) – À noite. Quadrilha Caboclos do Tapauá, Garrote Touro Preto, Quadrilha Matutos na Roça, Quadrilha Jorgeanos na Soçaite e Tribo dos Manaú.

Dia 19 (terça) – À noite.  Garrote Treme Terra, Quadrilha Folia na Roça, Tribo dos Andirás, Pássaro Japiim e Quadrilha Mocidade na Roça.

Dia 20 (quarta) – À noite. Tribo das Amazonas, Quadrilha Tio João na Roça, Garrote Estrela de Ouro, Dança do Congo e Quadrilha Roceiros do Asfalto.

Dia 21 (quinta) – À noite. Quadrilha Ruienses na Roça, Quadrilha Caipirada Normalista, Garrote Pingo de Ouro, Pássaro Corrupião, Dança do Arara e Desfeiteira e Quadrilha Canto da Alvorada.

Dia 22 (sexta) – À noite. Quadrilha Santo Antônio na Roça, Bumbá Mina de Ouro, Dança do Tipiti, Quadrilha Flor da Mocidade, Leão e Dança e Ritmos Latino-americanos.

Dia 23 (sábado) – À tarde. Garrote Canarinho, Quadrilha Caboclinhos de Brasília, Quadrilha Filhos do Cangaceiro, Roda de Coco de Zambê e Pastorinha Filhas de Jerusalém. À noite. Quadrilha Geraldinos no Roçado, Quadrilha Flor do Plano, Quadrilha Primo do Cangaceiro, Garrote Teimosinho, Bumbá Tira Prosa, Dança do Cacetinho e Tribo dos Iurupixunas.

Dia 24 (domingo) – À tarde. Quadrilha dos 40 Anões no Festival, Quadrilha Filhos de Dona Xandoca na Roça, Quadrilha Infantil Popular, Bumbá Veludinho (do Manaquiri) e Escola de Acordeão Hélio Trigueiro. À noite. Quadrilha Cunhantans Puranga, Garrote Luz de Guerra, Quadrilhas Cabras do Lampião, Bumbá Corre Campo, Danças Mexicanas e Quadrilha Caiçaras na Roça.

Dia 25 (segunda) – À noite. Quadrilha da Paz, Garrote Mineirinho, Tribo dos Guaranis, Quadrilha Arautianos na Roça, Danças Colombianas e Dança do Gambá.

Dia 26 (terça) – À noite. Quadrilha Brotinhos na Roça, Garrote Tira Teima, Quadrilha do Bananal, Pássaro Garça e Dança do Arara.

Dia 27 (quarta) – À noite. Quadrilha Matutos do Inferno Verde, Garrote Veludinho, Quadrilha Gregório no Canavial, Polca Brasileira e Xote do Interior.

Dia 28 (quinta) – À tarde. Quadrilha Curumins da Colina, Quadrilha Curumins na Roça, Danças Gaúchas e Brigue Independência. À noite. Quadrilha Araruamas na Roça, Quadrilha do Capitão Varela, Garrote Malhado, Balé Folclórico Japonês e Bumbá Pai do Campo.

Dia 29 (sexta) – À tarde. Quadrilha Americanos na Roça, Quadrilha Filhos do Lampião, Quadrilha Festinha na Roça e Quadrilha Brotinhos de Amanhã. À noite. Quadrilha dos Camponeses, Quadrilha La Paloma, Bumbá Ás de Ouro, Musas do Ritmo e Pássaro Rouxinol.

Dia 30 (sábado) – À tarde. Quadrilha Vasquinhos na Roça, Dança do CEA e Cavalo Marinho. À noite. Quadrilha Real Madrid na Roça, Escola de Acordeão Santa Terezinha, Quadrilha de Iranduba e Bumbá Caprichoso.

Dia 1º de julho (domingo) – Desfile de encerramento do festival, com proclamação dos campeões e distribuição de prêmios aos vencedores.


A história da conquista do bicampeonato do Brasil, naquele ano, também merece ser relembrada. Foram quatro os candidatos a ser a sede da Copa de 1962: Espanha, Alemanha, Argentina e Chile.

A Fifa deixou logo claro que, depois de dois Mundiais seguidos na Europa, era a vez da América do Sul. Com isso, sobraram Argentina e Chile, considerado por muitos um país pobre. Mas com o apoio de Carlos Dittborn Pinto, filho de diplomata chileno, 32 dos 56 países-membros votaram no Chile como sede – 11 cravaram Argentina e 13 se abstiveram – no Congresso de 1956.

Quatro anos depois, em 1960, após terremoto no país que deixou mais de dois milhões de vítimas, entre mortos, feridos e desabrigados, a Fifa quase mudou de ideia. Dittborn, contudo, garantiu a realização do Mundial. Pena que, um mês antes do começo, o dirigente morreu. Recebeu a homenagem no nome do estádio em Arica.

Quarenta e nove países disputaram as eliminatórias e outros cinco – Canadá, Egito, Indonésia, Romênia e Sudão – desistiram.

Quatro países americanos e 10 europeus se classificaram, juntando-se ao Brasil, com vaga assegurada por ter sido o campeão mundial, e o Chile, por ser a sede, para formar os 16 que disputariam a competição. Colômbia e Bulgária faziam seu début em Mundiais.

O Brasil mudou muito pouco para chegar ao bicampeonato. A principal troca foi no comando técnico: saiu Vicente Feola, entrou Aymoré Moreira.

O que ninguém imaginava é que Pelé sofresse séria contusão na segunda partida. Mas Garrincha foi Pelé e foi Garrincha. A Copa foi do Mané e do Brasil. E a Seleção, de novo com Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Vavá, Zagallo...

Com Mauro e Zózimo na defesa e um Amarildo Possesso no lugar do Rei no ataque, voltou a encantar o planeta. A campanha foi de cinco vitórias e um empate, contra a Tchecoslováquia, que voltou a enfrentar na final e venceu por 3 a 1, gols de Amarildo, Zito e Vavá.

Quando a Copa terminou, eram seis os artilheiros: Vavá e Garrincha, do Brasil, Leonel Sánchez, do Chile, Albert, da Hungria, Valentin Ivanov, da União Soviética, e Jerkovic, da Iugoslávia, todos com quatro gols.

Mas, em 1993, 31 anos depois, uma revisão no filme do jogo desvendou uma confusão do árbitro do jogo Iugoslávia x Colômbia. Na súmula, o terceiro gol da goleada de 5 a 0 tinha sido dado a Galic, mas foi de Jerkovic. O iugoslavo passou a ter cinco gols e ficou isolado na artilharia.


Se Maradona carregou a Argentina nas costas em 1986, Garrincha fez isso muito antes, em 1962, com o Brasil. Sem Pelé, contundido, foi o camisa 7, aos plenos 28 anos, que tomou conta do Mundial.

E o cardápio não foi só de dribles impossíveis de ser contidos: o Mané fez gols, cruzamentos perfeitos, cobrou faltas magistrais, escanteios perigosíssimos... Foi um craque completo, a ponto de arrancar a seguinte manchete do jornal chileno El Mercurio: “Garrincha, de que planeta vienes?”

Campeão mundial em 1958, o Brasil chegou favorito em 1962. Mas outra seleção despertava a curiosidade. A União Soviética tinha sido campeã europeia em 1960 e contava com uma equipe poderosa, a começar pelo goleiro Yashin.

Na primeira fase, bateu seleções poderosas como Iugoslávia e Uruguai. Mas, nas quartas de final, caiu para os donos da casa, os chilenos. E o Aranha Negra, como era conhecido o arqueiro, sofreu dois gols “anormais”. Os soviéticos até fizeram pressão para empatar, mas acabaram eliminados da Copa.

Pela última vez a Fifa permitiu num Mundial um jogador poder defender outra seleção que não a do país onde nasceu e pela qual já atuara. Foi o caso do argentino Di Stéfano, do húngaro Puskas e do uruguaio Santamaria, que atuaram pela Espanha; dos brasileiros Mazola (Altafini no título de 1958) e dos argentinos Maschio e Sivori, todos atuando pela Itália.

Sem Pelé, e com Garrincha absolvido da expulsão contra o Chile, o Brasil entrou favorito no Estádio Nacional de Santiago para a final contra a Tchecoslováquia. Foi surpreendido com o gol do craque Masopust aos 15 minutos, mas não esperou muito para o empate: dois minutos depois, Amarildo, sem ângulo, marcou em falha do goleiro Schrojf.

No segundo tempo, o Possesso, que substituiu Pelé, dessa vez foi garçom e serviu Zito para desempatar, aos 24. E Vavá, em nova falha do arqueiro, fez o terceiro, aos 33. Com muita febre, Garrincha nem se destacou tanto na final, mas nem precisou. O Brasil era, com toda justiça, bicampeão mundial.


A festa de abertura do VI Festival Folclórico do Amazonas se transformou em carnaval e entrou pela madrugada. No inconsciente coletivo da população, o ex-prefeito e então governador Gilberto Mestrinho conquistou a fama de “pé quente”. Assim nascem as lendas.

No dia 26 de junho, em meio a uma matéria em que explicava a impossibilidade de atender aos reiterados pedidos da população que exigia uma segunda apresentação de vários grupos que haviam se exibido no Estádio General Osório, o matutino O Jornal noticiava pela primeira vez aquela que seria a grande atração do festival daquele ano:

Há três anos consecutivos que o jornalista Bianor Garcia vem tentando trazer a Manaus o bumbá Garantido, de Parintins, para se exibir no nosso festival. Somente agora será possível dada à insistência junto ao prefeito José Esteves. Provavelmente o Garantido, composto de 82 pessoas, terá saído, ontem, dia 25, rumo à capital, a bordo do motor Alfredo, estando, portanto, sendo esperado a qualquer momento no Roadway da Manaus Harbour.

A colônia parintinense radicada em Manaus, à frente dona Walcira Sabbá, dona Maria Clara Braga, as moças Etelvina e Mirza Praia e os rapazes Paraguassú Malcher, Raimundo Praia, Luiz Pimentel, Waldecir Queiroz e Mário Belém, esperam que todos os parintinenses compareçam ao desembarque e à apresentação do Garantido no palco da maior e da mais linda festa folclórica do Brasil.

No dia 27 de junho, o matutino voltava ao mesmo assunto:

Chegou, ontem, conforme divulgamos, o bumbá Garantido, campeão do município de Parintins, sob a direção do jovem Ironildo e do “amo” Lindolfo Monteverde. Os rapazes, em número de 62, estão bem dispostos, ensaiaram devidamente, têm alguns problemas no conjunto, mas prometem arrancar estrondosos aplausos do povo, hoje, às 9 horas da noite, na sua primeira exibição, no palco do Sexto Festival Folclórico do Amazonas, para o qual foram convidados pelo jornalista Bianor Garcia. A colônia parintinense e o nosso povo estarão em massa, no Estádio General Osório, aplaudindo o bumbá parintinense e os demais, de Manaus, que hoje, também, serão alvo da curiosidade pública.

Ontem, os parintinenses radicados em Manaus efetuaram uma reunião, em frente ao estádio, traçando planos para receberem, hoje, o bumbá Garantido, no tablado.  Espera-se, pois, uma grande movimentação dos filhos de Parintins, incentivando aquele grupo folclórico a uma exibição convincente e primorosa, o que certamente acontecerá. O Garantido escolheu como seu Presidente de Honra, o governador Gilberto Mestrinho e Presidente da Embaixada, o prefeito José Esteves.

No dia 28 de junho, a presença do bumbá Garantido, em Manaus, era noticiada mais uma vez nas páginas de O Jornal:

Em frente à nossa redação exibiu-se ontem à noite o bumbá Garantido, de Parintins. A féerie dos seus trajes e o ritmo vivo das suas músicas despertaram a atenção dos transeuntes, que pararam para assistir a demonstração do mais autêntico folclore por parte dos nossos irmãos de Parintins. O Boi Garantido, pelo que mostrou ontem na sua curta exibição em plena Avenida Eduardo Ribeiro, pode considerar-se, sem dúvida, a grande atração do VI Festival, por que há nele qualquer coisa de diferente a começar nos trajes, de uma policromia e de uma estilização de fato fora do vulgar. Segundo nos anunciaram, o Boi Garantido vai exibir-se hoje, pelas 21 horas, na Escola Técnica de Manaus, num espetáculo oferecido aos alunos, ex-alunos e professores daquele estabelecimento de ensino. Parabéns ao povo de Parintins pela embaixada de puro folclore que nos mandou, onde além do respeito à tradição existe uma nota de bom gosto que merece ser ressaltada.


Naquela série memorialística já citada antes, publicada em 1989, o próprio Bianor Garcia rememorou com detalhes a passagem do bumbá Garantido pela nossa cidade:

Aproximava-se o 6º Festival Folclórico, em 1962, quando recebi a visita, na redação de O Jornal e Diário da Tarde, do dirigente do Garantido, o velho Lindolfo Monteverde, que viera de Parintins para conhecer o nosso festival. Se não estou enganado, Lindolfo me procurou por recomendação de meu ex-colega do Colégio Estadual do Amazonas, Mano Maia, que se transferira para Parintins e com o qual ate hoje não me encontro.

Lindolfo, como sempre modesto, me contou o que era o Garantido. Segundo ele, nascera de uma promessa a São João Batista, por volta de 1913. Na verdade, o Garantido era um conjunto magnífico, como até hoje, mas Lindolfo escondia essa fama. Talvez até para surpreender a população de Manaus, como aconteceu, que estava acostumada com seus bois mais destacados: Mina de Ouro, Corre Campo, Tira Prosa, Vencedor, Rica Prenda, etc.

Disso nasceu a ideia de trazer o Garantido a Manaus, o que implicava em muitas despesas, a começar pela viagem de barco, alimentação, hospedagem e atenção total em caso de doenças, etc. Muitos componentes, aliás, nunca tinham vindo a Manaus e estavam ansiosos por isso.

O Garantido fez duas apresentações no tablado. Foi um delírio em tudo, nas toadas, no ritmo, na coreografia, na cadência, na impecável vocalização coletiva – o que não é fácil, sobretudo porque um só microfone não podia e nem pode transmitir com perfeição um cântico, a céu aberto, onde o som se espalha.

Se a gente observar bem, nas apresentações dos nossos bumbás, aqui ou em qualquer lugar, é fácil constatar que muitos brincantes “atravessam” a toada, especialmente aqueles que estiverem longe do microfone ou não tiverem o som de retorno. Por causa disso, eu sempre defendi a instituição de um grupo de vocalistas ao microfone, tal como acontece quando um cantor está se apresentando no palco, na televisão, etc. Mas isso envolve muita organização.

Poder-se-ia obter esse aprimoramento se Manaus tivesse grupos folclóricos permanentes, funcionando o ano todo, como empresa, para apresentar-se a qualquer momento, tal como acontece com o Centro Cultural das Tradições Gaúchas, em Porto Alegre, existente há muitos anos.

Já defendi essa ideia de grupos permanentes, aproveitando a estrutura da Tribo dos Andirás, do Corre Campo, do Tira Prosa, da Ciranda, do Cacetinho. Teríamos, assim, folclore o ano inteiro, a qualquer dia, e não apenas nas festas juninas. Parintins, por exemplo, com a estrutura que adquiriu, com Bumbódromo, teria condições de implementar esse gerenciamento empresarial, conservando as suas origens.

Há, evidentemente, muita diferença entre os bois de Manaus e os de Parintins, ou de outros municípios. No entanto, parece que o respeito às raízes e às tradições ainda se conserva quase intacto, certamente porque a influência da televisão, com seu modismo e sua modernidade, ainda não os afetou, como sucedeu em Manaus. Salvo melhor juízo, Parintins, por exemplo, ainda apresenta reco-reco, lamparina, triângulo, cheque-cheque, etc. Quem pode explicar melhor isso, fruto de muita pesquisa e cultura, é o professor Mário Ipiranga Monteiro.

Mas o Garantido, em Manaus, surpreendeu com o “Bicho Folharal”, a “Vaquejada”, a “Cobra Grande”, e cada toada, com ritmo rural, longe da influência da melodia carnavalesca,  deixou a impressão de que eles preservam os primórdios. Seria muito salutar que as autoridades iniciassem um intercâmbio entre Parintins e Manaus, levando e trazendo os grupos folclóricos para exibições nas duas cidades, para se estabelecer as suas diferenças, que devem permanecer a vida inteira, por respeito ao folclore.

Manaus deve a vinda do Garantido à cidade ao governador da época, Gilberto Mestrinho, que nos deu tudo, da lancha à alimentação. Os rapazes passaram aqui quatro dos cinco dias e foram de um comportamento irrepreensível. A colônia parintinense cercou-os de atenção e homenagens, a começar pela família Menezes (Tude, Aderson, Aurélio, Almir, Armando) e de tantas outras, como Cid Cabral, o alfaiate dos homens elegantes, etc.

O sucesso do Garantido em Manaus foi tão espetacular, que a sociedade acabou levando-o a se apresentar na boate Acapulco, do saudoso Mário Cuia, que naquela época era o ponto preferido da classe alta e Mário Cuia, o “rei da noite”.

O Acapulco organizou um arraial ao lado da boate, onde o Garantido se exibiu de graça para os moradores do bairro (Rua Recife), onde praticamente a cidade terminava. Depois, a uma da madrugada, na pista da boate.

Lembro-me que aconteceu um fato pitoresco no Acapulco. Mário Cuia, depois das exibições, reuniu todos os brincantes parintinenses em torno da piscina e avisou: “Mandei preparar para vocês um filé gostoso, recheado com batata, etc e tal. Também será servido um Campari.”

Mário pensou que estava agradando. Ledo engano. Os rapazes ficaram caldos, meio tristes, um olhava para o outro. Aí o Mário me chamou e perguntou: “Será que eles gostaram?”

“Vou perguntar”, disse-lhe. Aproximei-me do grupo e não deu outra. Eles queriam peixe e cachaça. O peixe não era problema, mas encontrar Cocal àquela hora da madrugada... Mesmo assim, dois táxis saíram em disparada e voltaram com 30 garrafas de aguardente. Em meia hora, não havia nem uma para contar a história. Apesar disso, os parintinenses mantiveram a linha e a elegância.


Mestre Manoel Pedro e o garrote Teimosinho, que conquistou seu primeiro título

No dia 1º de julho, no Estádio General Osório, a Comissão Organizadora anunciou o nome dos 49 campeões do VI Festival Folclórico do Amazonas:

Bumbás: Tira Prosa, Corre Campo, Pai do Campo e Caprichoso, de Manaus, e Garantido, de Parintins.

Garrotes: Teimosinho, Treme Terra, Pingo de Ouro e Malhado.

Quadrilhas adultas: Primo do Cangaceiro, Flor do Plano, Araruamas na Roça, Geraldinos no Roçado, Caiçaras na Roça, Brotinhos na Roça, Quadrilha dos Camponeses, Gregório no Canavial, Real Madrid na Roça e Cunhantans Puranga.

Quadrilhas mirins: Infantil Popular, Brotinhos do Amanhã, Curumins da Colina, Filhos de Lampião, Filhos de Dona Xandoca na Roça e Caboclinhos de Brasília.

Tribos: Andirás, Manaú, Iurupixunas, Guaranis e Amazonas.

Pássaros: Corrupião, Japiim e Garça.

Danças Regionais: Dança do Cacetinho, Dança do Tipiti, Dança do Arara, Xote do Interior e Dança do Congo.

Outros grupos: Danças Gaúchas, Roda de Coco de Zambê, Polca Brasileira e Cavalo Marinho.

Brigues: Independência.

Pastorinhas: Filhas de Jerusalém.

Rainha do Festival: Francisca Cleide (Tribo dos Iurupixunas).

Rainha de Beleza: Violeta Menescal (Quadrilha Cunhantans Poranga).

Rainha Mirim: Ana Maria Boaventura Gomes (Quadrilha Americanos na Roça).

Melhor sanfoneiro: Elpídio Araújo (Quadrilha Brotinhos na Roça).

Prêmio Extra: Musas do Ritmo.


O único impasse surgido deveu-se ao fato de que, pela segunda vez seguida, a Comissão Julgadora resolveu estourar a previsão orçamentária do jornalista Bianor Garcia.

O acerto com o governador Gilberto Mestrinho era de que seriam premiados quatro bumbás (Cr$ 40 mil para cada um ou R$ 16 mil em valores de hoje), mas a Comissão Julgadora achou por bem também incluir o bumbá Garantido, de Parintins, por ele ser o primeiro grupo folclórico vindo do interior a se apresentar em Manaus.

As 15 quadrilhas adultas receberiam CR$ 30 mil cada uma. Até aí, tudo bem. Os quatro garrotes, 20 mil cada um. Até aí, tudo bem. E as seis quadrilhas mirins, assim como os demais grupos não concorrentes, incluindo as rainhas e o sanfoneiro, Cr$ 10 mil cada um.

Foi quando a jiripoca piou. A Comissão Organizadora achou que Cr$ 10 mil (R$ 4 mil, em valores de hoje) era muito pouco para incentivar os esforçados brincantes e transformou todos os prêmios de CR$ 10 mil em prêmios de Cr$ 20 mil.

O valor total da premiação ficou em Cr$ 1.430.000,00 (R$ 572 mil). Magnânimo como sempre, o governador concordou, sem discutir. Os cheques foram emitidos.

Ocorre que a magnanimidade tem razões que até a razão desconhece. Dali a quatro meses ocorreria a eleição para governador do Amazonas e o PTB não pretendia entregar a rapadura aos inimigos.

Na verdade, o governador Gilberto Mestrinho pretendia deixar o caminho livre para Plínio Coelho, porque assim se cacifava para voltar ao governo em 1966. E que melhor vitrine política do que ser o padrinho incontestável da “maior e mais bonita festa típica do país?”

Gilberto não apenas pagou generosamente a nova conta que lhe foi apresentada, como convenceu Bianor Garcia a fazer um repeteco do festival, no fim de semana seguinte, somente com os 49 grupos campeões e alguns grupos convidados pela própria Comissão Organizadora.

Todos os participantes receberiam troféus doados pelos comerciantes e instituições financeiras locais, a pedido do governador. Foram convocadas para fornecer os troféus, entre outras, as empresas Real-Varig, Serraria Pereira, Vasp-Lóide, Massas Papaguara, Panair do Brasil e Mambra S. A., além da Caixa Econômica Federal, Banco do Estado do Amazonas e Banco do Brasil.

A ordem de apresentação da “Festa dos Campeões”, com cada grupo se apresentando por 15 minutos,  ficou assim definida:

Dia 6 (sexta) – À noite. Quadrilha Cunhantans Puranga, Quadrilha Gregório no Canavial, Coral Norte-americano, Orfeão Villa-Lobos (de Rio Branco) e Bumbá Caprichoso.

Dia 7 (sábado) – À tarde. Quadrilha Curumins da Colina, Quadrilha Caboclinhos de Brasília, Quadrilha Filhos de Lampião, Cavalo Marinho, Roda de Coco de Zambê, Pastorinhas Filhas de Jerusalém e Brigue Independência. À noite. Garrote Treme Terra, Danças Gaúchas, Quadrilha Geraldinos no Roçado, Garrote Luz de Guerra, Pássaro Japiim, Quadrilha dos Camponeses, Tribo dos Manaú, Tribo dos Iurupixunas, Garrote Malhado, Quadrilha Primo do Cangaceiro, Dança do Cacetinho, Xote do Interior, Quadrilha Araruamas na Roça e Bumbá Corre Campo.

Dia 8 (domingo) – À tarde. Quadrilha Infantil Popular, Quadrilha Brotinhos de Amanhã, Quadrilha Filhos de Dona Xandoca na Roça, Garrote Pingo de Ouro, Pássaro Corrupião, Polca Brasileira, Musas do Ritmo, Pássaro Garça e Bumbá Pai do Campo. À noite. Garrote Teimosinho, Tribo dos Guaranis, Quadrilha Flor do Plano, Quadrilha Real Madrid na Roça, Quadrilha Caiçaras na Roça, Tribo das Amazonas, Quadrilha Brotinhos na Roça, Tribo dos Andirás, Dança do Tipiti, Dança do Arara, Dança do Congo e Bumbá Tira Prosa.

Em matéria publicada no dia 4 de julho, o matutino O Jornal informava que, por sugestão do jornalista Bianor Garcia, unanimemente aprovada pelos dirigentes dos grupos vencedores, não haveria nesses três dias de apresentação a escolha do “Campeão dos Campeões” de cada categoria, por motivos diversos e perfeitamente justificáveis.

Se houvesse, seriam disputados os Cr$ 100 mil prometidos pelo Fundo Nacional de Cultura, do Governo Federal, e confirmados pelo embaixador Paschoal Carlos Magno, que aqui esteve na abertura do festival.

O jornalista sugeriu que esse dinheiro fosse distribuído aos diversos conjuntos vice-campeões, que perderam por poucos pontos, sendo também acolhida essa ideia.

O dinheiro acabou sendo rateado entre os bumbás Mina de Ouro e Ás de Ouro, garrotes Touro Preto e Tira Teima, quadrilhas adultas Mocidade na Roça, La Paloma, Arautianos na Roça, Folia na Roça, Capitão Varela, Caboclos do Tapauá, Jorgeanos na Soçaite e Roceiros no Arraial, e quadrilhas mirins Vasquinhos na Roça, Americanos na Roça, 40 Anões no Festival, Filhos do Cangaceiro e Festinha na Roça, contemplados com Cr$ 5 mil cada um.


O garrote Luz de Guerra perdeu o tricampeonato para o Treme Terra por apenas três décimos de diferença

A única exceção foi o garrote Luz de Guerra, que recebeu Cr$ 15 mil, por ter conquistado o maior número de pontos entre todos os vice-campeões.

Em outubro, o governador Gilberto Mestrinho articulou uma coligação partidária incluindo PTB-PDC-PL-PST, elegeu seu sucessor ao governo (Plinio Coelho), os dois senadores (Mourão Vieira e Artur Virgilio Filho) e cinco deputados federais (Almino Afonso, Paulo Coelho, João Veiga, José Esteves e Djalma Passos) das oito vagas em disputa.

Ele próprio se elegeu deputado federal pelo PST de Roraima, sem jamais ter feito um único comício em Boa Vista, tal a sua popularidade na região Norte.

E foi o Festival Folclórico do Amazonas, sem sombra de dúvidas, que proporcionou a grande visibilidade do governador junto às camadas mais populares do eleitorado.

Se ele voltasse a se candidatar ao governo do Amazonas, em 1966, seria eleito com um pé nas costas. Os verdadeiros defensores do autêntico folclore e da cultura popular não dão ponto sem nó.

O 5º Festival Folclórico do Amazonas (1961)


O seringueiro e a cunhan poranga na Festa da Moça Nova, da Tribo dos Iurupixunas

O sucesso da “maior e mais linda festa típica do país” cruzou as fronteiras do Amazonas e, de repente, dezenas de folcloristas, jornalistas e políticos de outros estados estavam querendo conhecer a pajelança manauara.

Afinal de contas, não era qualquer festa brasileira que atraía a metade da população de uma cidade para aplaudir e prestigiar seus anônimos artistas populares, como começavam a martelar diariamente, 45 dias antes da abertura oficial do festival, O Jornal e o Diário da Tarde.

As revistas O Cruzeiro, Manchete e Visão escalaram equipes de reportagens para cobrir o evento, assim como os jornais O Estado de São Paulo, Última Hora e Correio da Manhã.

O produtor Herbert Richers demonstrou seu interesse pessoal em filmar as apresentações para apresentar como minidocumentário em todos os cinemas do país, antes das sessões normais.

A Rádio Marajoara, de Belém do Pará, decidiu retransmitir a festa. A radialista Rosa Maria, considerada a “Rainha do Rádio Pernambucano”, manifestou seu interesse em conhecer a festa, em companhia de vários artistas pernambucanos.

Os renomados escritores paraenses Bruno de Menezes, Georgino Franco (vice-presidente da Academia Letras do Pará) e Jacques Flores, também se mostraram interessados em conferir de perto os atrativos dessa grande festa popular.

Entre os convidados do governador Gilberto Mestrinho estavam os governadores Aurélio do Carmo (Pará), José Altino Machado (Acre) e José Cavalcante Filho (Amapá), Aldebaro Klautau (superintendente da SPVEA), Hélio Palma Arruda (presidente do BCA), Idalvo Toscano (presidente da Associação Comercial do Pará), Firmo Dutra (presidente da Força e Luz do Pará) e dezena de comerciantes, industriais e parlamentares.

Eles iriam aproveitar a oportunidade para discutir com Mestrinho os problemas comuns da região amazônica e posteriormente submetê-los à apreciação do presidente Jânio Quadros, por ocasião de uma reunião agendada para agosto, em Manaus, com a presença do presidente e de todos os governadores da região Norte.


A Tribo dos Manaú fazendo uma pajelança básica no igarapé do Tarumã

No início de abril, os convites de antigos e novos grupos folclóricos para que Bianor Garcia conferisse os seus ensaios já começavam a inundar a redação de O Jornal.

Os dirigentes dos grupos acreditavam piamente que isso facilitaria seu ingresso no festival na hora da triagem derradeira.

Como o jornalista não possuía o dom da ubiquidade, ele transferiu a parte mais burocrática do evento (inscrição, conferência de documentos, montagem do cronograma de exibições, etc) para o jornalista Philipe Daou e se entregou de corpo e alma às visitas in loco aos ensaios de bumbás, cordões de pássaros, quadrilhas, tribos e tutti quantti, sempre acompanhado de fotógrafos e jornalistas de O Jornal e Diário da Tarde.

Eram eles que tinham a tarefa de turbinar diariamente os dois veículos com notícias sobre o festival.

Não era uma tarefa fácil. Em um final de semana típico, por exemplo, Bianor Garcia visitaria os seguintes grupos: Corre Campo (Cachoeirinha), Quadrilha Caipirada Senatorista (no Sindicato dos Comerciários), Quadrilha Mestre Gregório no Arraial (Santa Luzia), Quadrilha Caboclos do Bananal (com direito a boate na sede do Estrela do Norte, comandada pelo conjunto do maestro Domingos Lima), Quadrilha Caboclinhos do Araçá (Cachoeirinha), Quadrilha Coronel Bossa Nova (na Rua Leonardo Malcher), Quadrilha Geraldinos no Roçado (São Geraldo), Ídolo Africano (Petrópolis), Pássaro Corrupião (São Jorge), Quadrilha Princesinha do Sertão (Cachoeirinha), Quadrilha Araruama na Roça (na Rua Major Gabriel), Quadrilha Sampaulinos na Roça (na sede do São Paulo FC, em São Francisco), Leão (Petrópolis) e Quadrilha Matutos da Serra Grande (no antigo Piquete da Praça 14).

E haja fígado pra suportar a esbórnia! Sim, por que os visitantes e os convidados, em todos esses eventos, serem obrigados a encher a moringa de truaca era de lei! Os anfitriões não brincavam em serviço...

Não bastasse isso, Bianor Garcia ainda tinha problemas mais prosaicos para resolver: os populares continuavam se queixando da pouca visibilidade do tablado para quem estava nos locais mais afastados do estádio.

Ele providenciou a construção de um novo tablado de 500 m² (20 x 25m), apelidado pela mídia de “colosso de madeira”, suspenso a 1,70 metros do chão. De qualquer ângulo do estádio, o povo veria perfeitamente a evolução dos conjuntos.

Outra queixa recorrente dizia respeito ao número de crianças que se perdiam dos pais durante a fuzarca.

O jornalista publicou um texto sobre o assunto no Diário da Tarde: “Todos os anos, na nossa festa, mais de 100 meninos e meninas se perdem no meio da multidão. Desta vez, contaremos com o apoio dos Escoteiros e das Bandeirantes, que irão trabalhar em conjunto com os agentes da Vara da Família. Pedimos, também, aos pais e responsáveis pelos menores, que escrevam num papel qualquer o nome do garoto ou da garota, assim como o seu endereço completo, e coloquem-no no bolso do menor. Em caso de estarem perdidos, é fácil a identificação e apressa a procuração no tablado. Isso se faz em toda parte, nessas ocasiões.”

Convencido de que a mínima falha ocorrida no evento seria atribuída exclusivamente a ele – e que, provavelmente, a falha depois seria deturpada e amplificada em centenas de decibéis até se transformar em uma nova lenda urbana (a desenvoltura com que Bianor Garcia transitava entre as camadas mais populares da cidade começava a despertar a inveja de algumas pessoas e a inveja é irmã gêmea do ódio, da vingança, do rancor, da difamação e do ressentimento) –, o jornalista não media esforços para transformar o festival em um espetáculo verdadeiramente inesquecível. 


Duas semanas antes da abertura do festival, ele convocou vários dirigentes folclóricos para afinarem o discurso entre o que iriam apresentar no tablado e o que a Comissão Julgadora iria efetivamente observar no seu critério de pontuação.

Compareceram ao encontro, entre outros, Edmilson Alves da Costa (Tribo dos Manaú), Alberto Orelhinha (Boi Caprichoso), Raimundo Nonato (Garrote Malhado), Neuza Monteiro Martins (Quadrilha Roceiros no Asfalto), Manuel Luiz do Nascimento (Garrote Flor do Campo), Luzanira Nogueira (Quadrilha Sampaulinos na Roça), Francisca Ferreira Pires (Quadrilha Infantil), Olarino dos Santos Ferreira (Garrote Pingo de Ouro), Hilário de Souza (Garrote Touro Negro), Raimundo Silva Vale (Leão), Jacira Nunes de Jesus (Ídolo Africano), Francisco Chagas Menezes (Quadrilha Geraldinos na Roça), Elizabeth Cavalcanti (Quadrilha Pajé na Roça), Manoel Soares da Silva (Garrote Dois de Ouro), Jonathans Mescenas (Quadrilha Namorados na Roça), Esmeraldo Pereira dos Santos (Pássaro Corrupião), Altemar dos Santos (Quadrilha Pai Xangô na Cachoeira), Maria Inez da Silva (Pássaro Japiim), Adilson Pinheiro Freitas (Quadrilha Cunhantans Puranga), Adenilo Freitas (Quadrilha Coronel Troncoso), José Soares Portela (Boi Pai do Campo), Antônio Soares de Oliveira (Garrote Luz de Guerra), Renato Duarte (Boi Ás de Ouro) e Manoel Pedro da Costa (Garrote Teimosinho).

“A Comissão Julgadora, apesar de ter tido alguma tolerância nos festivais passados, desta vez será mais rigorosa na escolha dos campeões, penalizando os elementos alheios às brincadeiras e dando maior pontuação aos grupos que procurarem realmente acertar o passo com a brincadeira original”, alertou Bianor Garcia.

O jornalista passou a enunciar o que, no seu modo de ver, estava prejudicando a exibição de alguns grupos folclóricos e que ele já havia identificado durante suas visitas aos ensaios.

“Os bumbás, por exemplo, devem diminuir o número de frigideiras (e talvez até não apresentar nenhuma delas), diminuir o número de surdos (um no máximo seria mais aconselhável) e cantar toadas verdadeiras, sem ritmo de samba ou de marchinhas carnavalescas”, observou.

A crítica era procedente. Como a maioria dos ritmistas de boi-bumbá também tocavam na bateria das escolas de samba da época (Escola Mixta da Praça 14, Unidos de São Jorge, Unidos de São Francisco, Unidos da Raiz, Unidos da Cachoeirinha, etc), o compasso lento das toadas estava ganhando o aceleramento mais rápido e sincopado dos sambas de enredo.

“Nas quadrilhas, deve ser abandonado de vez o uso de chapéus surrados e roupas remendadas. A população vai ao estádio para ver coisas bonitas, de bom gosto, que despertem a atenção pela plasticidade, pelo luxo, pela beleza. Também é indispensável que os pares que forem apresentar a Desfeiteira estejam bem treinados, saibam os versos na ponta da língua e os declamem, sem medo e nervosismo. É importante que falem alto, bem forte e com gesticulações apropriadas. Quem não souber declamar um verso é melhor ficar calado, mas nunca fazê-lo erradamente ou com indecisões e nervosismo”, avisou. “Utilizar, no acompanhamento das quadrilhas, músicos tocando ao vivo também rende mais pontos do que o acompanhamento tradicional por meio de discos ou fitas pré-gravadas.”

“Nos cordões de pássaros, se algum cântico tiver a menor semelhança com outra música já conhecida é preferível não apresenta-lo ou então substitui-lo por outro inédito, improvisado, criado na hora pela força da inspiração. Ninguém gosta de ouvir as mesmas canções, ano após ano, quando há tantos compositores inspirados dando sopa por aí. O nosso folclore é muito rico para ficar estacionado na mesmice de sempre”, alertou.

“As tribos indígenas devem se ater aos seus instrumentos musicais tradicionais. Os jurados não vão aturar sanfonas e violões no acompanhamento dos cantos indígenas assim como não vão aturar maracás e tambores-onça no acompanhamento das quadrilhas. Cada qual com seu cada qual. Em resumo, são esses os pontos primordiais para uma boa exibição.”


Em virtude do grande número de quadrilhas inscritas, Bianor Garcia resolveu agrupa-las em cinco chaves, premiando a vencedora de cada chave.

Após sorteio realizado na presença de todos os dirigentes, as chaves ficaram assim constituídas.

Chave A: Soçaite na Roça, Cabras do Lampião, São João na Roça, A Gazeta na Roça, Real Madrid na Roça, Dona Xandoca no Arraiá, Caipirada Senatorista e Pai Xangô na Cachoeira.

Chave B: Primo do Cangaceiro, Novo Amazonas, Geraldinos no Roçado, Milionários na Roça, Mestre Gregório no Arraial, Coronel Garcia e Caboclos no Bananal.

Chave C: Mocidade, Auto Esporte na Roça, Caboclinhos do Araçá, Caipirada Normalista, Matutos da Serra Grande, Coronel Troncoso, Cunhantans Puranga e Pajé no Terreiro.

Chave D: Tapuias Puranga, Araruama na Roça, Coronel Dunga Queiroz, Princesinha do Sertão, Coronel Jander, Sampaulinos na Roça e Quadrilha na Roça.

Chave E: Roceiros no Asfalto, Flor do Plano, Coronel Ovídio (Terra Nova), Coronel Honório na Matança, Namorados na Roça, Coronel Jara e Brotinhos na Roça.

Os grupos folclóricos sem categoria definida foram agrupados como “Outros Grupos”, disputando um único prêmio entre eles: Cavalo Marinho, Ídolo Africano, Leão, Coral João Gomes Junior, Escola de Acordeão Hélio Trigueiro, Balé Folclórico Japonês e Quadrilha Norte-Americana do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, os dois últimos sendo os primeiros grupos de dança internacional a se apresentarem na cidade.

O Leão era mais uma criação de Raimundo Vale, o “Velho Raimundo”, para substituir o gavião real, que supostamente havia sido furtado de sua residência no ano anterior. As más-línguas do bairro de Petrópolis afirmavam que o pássaro havia simplesmente morrido de fome.

A não ser pela presença de um Leão semelhante a um boi-bumbá, com direito a um “miolo” dançando embaixo da carcaça, o auto era exatamente igual ao do Pássaro Gavião Real, o que levava a população a se referir jocosamente à brincadeira como “Cordão do Pássaro Leão”.


O Ídolo Africano era uma brincadeira também ensaiada no bairro de Petrópolis pela dona Jacira Nunes de Jesus, ex-presidente da Tribo dos Guaranis, e mostrava que, muito antes do Festival de Parintins existir, os artesãos manauaras já fabricavam alegorias gigantescas da fauna amazônica.

Em linhas gerais, consistia na adoração de uma imponente aranha caranguejeira transportada em uma liteira nos ombros de dois guerreiros zulus e que, para não trazer má sorte à aldeia africana, precisava do sacrifício de uma virgem.

Apesar da plasticidade das fantasias dos brincantes e da bonita coreografia executada, era um enredo sem pé nem cabeça, provavelmente extraído de uma leitura apressada de algum gibi do Tarzan ou de alguma obscura aventura do Antar.

O cordão folclórico sequer resistiu às críticas do público, tendo sido extinto no mesmo ano da sua sofrível apresentação no festival.

Principal patrocinador do festival, o governador Gilberto Mestrinho continuou concedendo uma ajuda de custo, agora de Cr$ 10 mil (R$ 5 mil, em valores de hoje), para todos os grupos inscritos e ofertando uma premiação em dinheiro no valor de Cr$ 400 mil para os vencedores de cada categoria, assim distribuído:

Bumbás: Cr$ 50 mil. Garrotes: Cr$ 20 mil. Quadrilhas adultas (para a campeã de cada chave): Cr$ 30 mil. Garrotes, Quadrilhas mirins, Danças Regionais, Tribos e Cordões de Pássaros: Cr$ 20 mil. Brigues: Cr$ 10 mil. Outros grupos: Cr$ 10 mil. Rainha do Festival: Cr$ 30 mil. Rainha de Beleza do Festival: Cr$ 30 mil. Rainha Mirim: Cr$ 5 mil. Melhor sanfoneiro: Cr$ 5 mil.

A ordem de apresentação do V Festival, com 85 grupos inscritos e mais de 7 mil figurantes, ficou assim definida:

Dia 18 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório, como parte da abertura oficial do festival.

Dia 19 (segunda) – À noite. Quadrilha Tapuias Puranga, Garrote Tira-Teima, Quadrilha Gazeta na Roça, Garrote Pingo de Ouro, Quadrilha Caboclos do Bananal, Bumbá Ás de Ouro e Quadrilha do Coronel Jara.

Dia 20 (terça) – À noite. Quadrilha Novo Amazonas, Cavalo Marinho, Quadrilha Dunga Queiroz, Garrote Flor do Campo, Quadrilha do Coronel Jander e Bumbá Mina de Ouro.

Dia 21 (quarta) – À noite. Ídolo Africano, Quadrilha do Coronel Garcia, Garrote Luz de Guerra, Quadrilha Caboclinhos do Araçá, Quadrilha Matutos da Serra Grande e Bumbá Pai do Campo.

Dia 22 (quinta) – À noite. Brigue Independência, Quadrilha Real Madrid na Roça, Quadrilha Dona Xandoca no Arraiá, Garrote Rica Prenda, Quadrilha Princesinha do Sertão e Quadrilha Cunhantans Puranga.

Dia 23 (sexta) – À tarde. Quadrilha IEA na Roça, Quadrilha Infantil, Garrote Malhadinho, Garrote Estrela e Quadrilha Mestre Gregório no Arraial. À noite. Bumbá Caprichoso, Dança Xote do Interior (IEA), Quadrilha Coronel Bossa Nova e peça teatral “A Farsa da Boa Preguiça”, do Teatro Escola Amazonense de Amadores.

Dia 24 (sábado) – À tarde. Quadrilha Araruaminhas na Roça, Quadrilha Infantil Real Madrid na Roça, Garrote Estrela de Ouro, Garrote Brinquedinho, Quadrilha do Coronel Ovídio (Terra Nova) e Quadrilha Brotinhos na Roça. À noite. Quadrilha Soçaite na Roça, Balé Folclórico Japonês, Quadrilha Araruama na Roça, Garrote Touro Preto e Tribo dos Iurupixunas.

Dia 25 (domingo) – À tarde. Quadrilha Tipiti na Roça, Quadrilha Caboclinhos de Brasília, Garrote Teimosinho, Quadrilha Pajé no Terreiro e Quadrilha do Grupo Escolar Princesa Isabel. À noite. Quadrilha Auto Esporte na Roça, Dança do Congo, Escola de Acordeão Hélio Trigueiro, Leão e Tribo dos Manaú.

Dia 26 (segunda) – À noite. Quadrilha da Mocidade, Quadrilha Sampaulina na Roça, Garrote Estrelinha, Quadrilha Cabras do Lampião, Garrote Canarinho, Quadrilha do Coronel Troncoso, Bumbá Rei da Campina (Careiro) e Quadrilha na Roça.

Dia 27 (terça) – À tarde. Quadrilha Infantil Popular, Quadrilha Brotinhos do Amanhã, Garrote Mimoso, Quadrilha Roceiros no Asfalto e Quadrilha do Coronel Honório na Matança. À noite. Quadrilha Caipirada Senadorista, Garrote Malhado, Pássaro Japiim, Dança de Rodas do CEA, Garrote Dois de Ouro e Quadrilha Caipirada Normalista.

Dia 28 (quarta) – À tarde. Quadrilha Geraldinos no Roçado, Quadrilha Milionários na Roça, Quadrilha Pai Xangô na Cachoeira, Quadrilha Namorados na Roça e Quadrilha São João na Roça. À noite. Quadrilha Norte-Americana do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, Dança do Tipiti, Bumbá Tira Prosa, Quadrilha Flor do Plano, Quadrilha Primo do Cangaceiro, Bumbá Corre Campo e Pássaro Papagaio.

Dia 29 (quinta) – À tarde, a partir das 15 horas, desfile de encerramento, proclamação dos vencedores e distribuição dos prêmios em dinheiro, oferecidos pelo governador Gilberto Mestrinho.


A solenidade de abertura do festival estava de acordo com o gigantismo alcançado pela festança, conforme o cronograma quase militar publicado no dia 18 de junho, em O Jornal e Diário da Tarde:

Programa Geral de Abertura do V Festival Folclórico: Hoje. Concentração de todos os grupos, às 14 horas, na Praça São Sebastião. Para isso os responsáveis devem vir buscar, na porta de O Jornal, a sua condução. Governador e visitantes ilustres passarão em revista os concorrentes, exatamente às 15h30.

Toque de clarins anunciando a chegada do Chefe do Executivo no Estádio General Osório, com o Coral João Gomes Junior apresentando números no tablado. Toque de clarins anunciando o desfile. Desfile. Toque de clarins, para o início da solenidade no tablado. Saudação de O Jornal e Diário da Tarde ao Governo, às autoridades, aos visitantes e ao povo amazonense.

Palavra do governador Gilberto Mestrinho, abrindo, oficialmente, os festejos. Apresentação ao povo e aos figurantes da Comissão Julgadora, presidida pelo Dr. Aderson de Menezes, secretário de Educação e Cultura, e constituída ainda de mais quatro membros: professores Nivaldo Santiago, Afonso Nina, Sebastião Norões e o folclorista Campos Dantas. Palavra do intelectual Ramayana de Chevalier, agradecendo em nome de todos os figurantes do festival.

Chamada ao tablado de todas as jovens candidatas aos títulos de “Rainha do Festival Folclórico” e “Rainha de Beleza do Festival”. Exibição especial e rápida de alguns campeões do festival do ano passado. Encerramento, com nova apresentação do Coral João Gomes Junior.

Como nos anos anteriores, as apresentações do V Festival Folclórico continuaram atraindo uma grande multidão ao Estádio General Osório (os organizadores anunciavam nos jornais que compareciam 80 mil pessoas por noite, um exagero!) e, à medida que os problemas pontuais iam surgindo, Bianor Garcia ia descascando os abacaxis.

Por exemplo, na quinta-feira, dia 22, o Teatro Escola Amazonense de Amadores avisou que não poderia apresentar, no dia seguinte, como estava programado, a peça folclórica “A Farsa da Boa Preguiça”. No problem. Para cobrir o “buraco”, Bianor convocou as quadrilhas Namorados na Roça e São João na Roça, que estavam escaladas para a noite do dia 28.

Para cobrir os “buracos” do dia 28, incentivou a população a indicar que grupos deveriam se apresentar no tablado pela segunda vez. A enquete foi um sucesso, com um sem número de telefonemas dos populares para a redação, indicando seus grupos favoritos.

No dia 29 de junho, Dia de São Pedro, o matutino O Jornal chegou às bancas com uma matéria de destaque intitulada “Mais de 80 mil pessoas irão ao Estádio, hoje, no adeus do nosso V Festival Folclórico”:

O povo de Manaus, na sua quase totalidade, comparecerá hoje à tarde, ao estádio General Osório, para se despedir, com saudade e grandes recordações, do nosso V Festival Folclórico, a maior e a mais famosa festa típica do Brasil, que vem empolgando a todos, indistintamente, pela sua beleza, pela sua organização confiada ao jornalista Bianor Garcia (diretor-executivo), pela pluralidade de cores, de ritmos, de fantasias, de luz e pela presença das figuras mais destacadas da sociedade, do mundo artístico, parlamentar, cinematográfico e jornalístico do país e de alguns países amigos.

Ensejou, ainda, a celebridade da festa, o aprimoramento demonstrado pela maioria dos conjuntos cujas exibições se equilibraram nos cânticos, no desembaraço, nas vestimentas e no desejo de competir e vencer deixando a Comissão Julgadora com um seríssimo problema para escolher os melhores entre os melhores e de vitória inédita essa promoção altamente educativa, que está aproximando as tradições e os costumes populares do nosso estado a todos os continentes.

A empresa Archer Pinto Ltda., promotora do V Festival Folclórico, não pode esconder, publicamente, o seu profundo contentamento e a sua mais significativa homenagem a quantos, direta ou indiretamente, contribuíram para o brilhantismo do mesmo, destacando a infalível e tradicional colaboração do governador Gilberto Mestrinho, que desde o tempo de Prefeito de Manaus vem, assiduamente, ajudando na formação dos grupos e oferecendo prêmios aos vencedores; ao prefeito Loris Cordovil, pela sua costumeira parcela de apoio, aos Comandos do GEF e 27º BC (e ao Sub-Comandante Raul, pela inestimável solidariedade); às indústrias I. B. Sabbá, à Companhia de Eletricidade de Manaus, e tantos outros, pois são muitos os braços amigos sustentando moral e materialmente o triunfo de mais essa jornada vencida em prol da alegria, da educação e da projeção do Amazonas no concerto brasileiro.

Agradece, ainda, com todo o carinho e a maior emoção, ao povo amigo e ordeiro de Manaus, os seus milhares de leitores e fiéis colaboradores e incentivadores. Eles que não faltaram com o seu apoio todas as noites, todas as tardes, nos momentos mais consagradores do festival, transformando o Estádio General Osório igual aos templos romanos, aos seus dias de festas pomposas. A todos esses o nosso preito de reconhecimento. O nosso preito de gratidão. O penhor da nossa confortadora homenagem, lembrando-lhes que o calor do seu incentivo já nos estimula a preparar, desde agora, o VI Festival Folclórico do amazonas, em junho vindouro.

O Festival será encerrado, hoje, com o desfile de todas as quadrilhas (adultas e mirins), de todos os bumbás, de todos os garrotes e de todos os pássaros, brigues, danças regionais, tribos e “outros grupos”. Essas sete mil pessoas tipicamente vestidas, que se exibiram desde o dia 18 no maior tablado de todos os tempos, dirigidos e orientados pelo nosso companheiro Bianor Garcia, sairão da Praça São Sebastião, exatamente às 16 horas, para o Estádio General Osório, onde o povo os espera e a Comissão Julgadora (Aderson Menezes, Nivaldo Santiago, Sebastião Norões, Campos Dantas e Afonso Nina) apresentará o resultado de sua observação, proclamando os vencedores e aos quais o governador Gilberto Mestrinho oferecerá mais de Cr$ 500 mil em prêmios. Estes, sob o aplauso do povo, irão rapidamente ao tablado, para receberem o prêmio e cantarem o agradecimento.

Fique certo o povo, fiquem certos os grupos concorrentes de que, mais uma vez, o julgamento será rigorosamente honesto, não terá absolutamente qualquer resquício de parcialidade, de preferência, de privilégio ou desejo de prejudicar quem quer que seja. Ganhará aquele que realmente procurou preservar e obedecer às regras técnicas, tradicionais e não introduziu elementos estranhos no seu grupo, ou seja, não incorporou aquilo que nunca existiu como matéria folclórica e que na sua opinião pudesse lhe parecer certo ou bonito, pois é verdade que existe muitas coisas que alguns acham notável, espetacular, mas está absolutamente errado.

Como acontece todos os anos, os promotores concederão caminhões para a condução dos grupos mirins, quadrilhas, pássaros e outros grupos, para a sua concentração (antes do desfile) na Praça São Sebastião. Os bumbás e garrotes virão à pé, pelas ruas, cantando e conduzindo seus admiradores. Assim, esperamos que todos os donos desses conjuntos (com exclusão dos bumbás e garrotes) compareçam hoje, exatamente a uma hora da tarde, à porta da nossa redação (O Jornal e Diário da Tarde) para receberem os caminhões. Todos devem atentar para isso para que ninguém chegue atrasado.

Novamente as rádios Baré (Manaus) e Marajoara (Belém), farão, hoje, a cobertura completa do encerramento de nosso festival. A emissora “associada” amazonense fará a transmissão e a paraense, a retransmissão para todo o Brasil.


O bumbá Tira Prosa conquistou o tricampeonato da categoria

A Comissão Julgadora apontou os seguintes vencedores no festival daquele ano, em que houve recorde de empates no primeiro lugar:

Bumbás: Tira Prosa e Corre Campo.

Garrotes: Luz de Guerra e Teimosinho.

Pássaros: Japiim, Papagaio e Corrupião.

Tribo: Manaú.

Brigue: Independência.

Quadrilhas adultas: Real Madrid na Roça (Chave A), Primo do Cangaceiro e Geraldinos no Roçadao (Chave B), Caboclinhos do Araçá (Chave C), Araruama na Roça (Chave D) e Flor do Plano (Chave E).

Quadrilhas infantis: Caboclinhos de Brasília e Infantil Popular.

Danças Regionais: Xote do Interior (IEA), Dança do Congo (Colégio Brasileiro) e Cantigas de Roda do CEA.

Outros Grupos: Cavalo Marinho.

Rainha do Festival: Ambrosina Valério, da Tribo dos Manaú.

Rainha de Beleza: Ana Paula, da Quadrilha Soçaite na Roça, do Instituto Benjamin Constant.

Rainha Mirim: Paula Regina, da Quadrilha Infantil Brotinhos do Amanhã.

Melhor Sanfoneiro: Fátima Fernandes, da Quadrilha Araruama na Roça.

No dia 25 de agosto de 1961, o país foi surpreendido pela renúncia do Presidente Jânio Quadros, episódio que desencadeou uma crise política sem precedentes na história republicana e que, de certo modo, desaguou, menos de três anos depois, no golpe militar de 1964.

A aguardada reunião entre o homem da vassourinha e os governadores da região Norte, marcada para Manaus, naquele mês, foi transferida para as calendas gregas.


Em setembro, a jornalista Paulina Kaz publicou uma matéria de quatro páginas na revista O Cruzeiro, ricamente ilustrada com fotos de Ed Keffel, intitulada “Amazonas Festival de Folclore”:

Todos os anos, no mês de junho, a capital do Amazonas parece transformar-se. O entusiasmo domina todos os seus habitantes. Está chegando o grande dia. É gente se preparando para o Festival. Não se comenta, não se fala em outra coisa.

À proporção que os dias vão passando, o movimento nas ruas aumenta de intensidade. Nas praças e na beira do cais, velhos, moços e crianças se aglomeram, traçando planos, marcando ensaios, pois ninguém pode faltar. As lojas estão superlotadas de gente fazendo compras. Os mais diversos tecidos, verdes, azuis e amarelos são vendidos em profusão, caixas e mais caixas de botões e linha têm compradores da cidade e do interior. Depois, levam tudo para casa, onde, trabalhando noite e dia, a perícia das mãos hábeis vai transformando o material nas mais diferentes formas. Todos querem estar preparados para assistir e participar da festa de Manaus.

Chegou o dia tão esperado. A cidade recebe os que vêm de longe, em carroças, canoas, e até mesmo a pé. Chegou o grande dia do V Festival Folclórico do Amazonas. Sete mil figurantes participam dos amis variados números – congadas, bumbas-meu-boi, as lendas dos pássaros e quadrilhas – e a praça está lotada com mais de setenta mil pessoas assistindo a um espetáculo que nasceu, floresceu e se mantém em função do povo. É a expressão mais genuína de suas manifestações mais puras.

O Festival mostra o povo amazonense, num dia novo, pondo em relevo não mais a bravura da sua luta contra os perigos da região hostil, mas a sua sensibilidade natural à poesia.

Herança de um passado longínquo, o folclore amazonense, de forte influência africana, apresenta uma enorme variedade de cores, danças e cantos, em que o povo participa com a maior intensidade, aplaudindo e incentivando.

Gente pobre, gente rica, pretos e brancos, alegres e sorridentes, estão unidos nesta festa popular. E depois tudo se acaba. Agora, só no ano que vem. Todos vão para as suas casas, felizes, fazendo planos para o próximo Festival.