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segunda-feira, janeiro 15, 2018

Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual


Em texto publicado no “Le Monde”, com o título deste post, um coletivo de 100 mulheres, incluindo Catherine Millet, Ingrid Caven e Catherine Deneuve, afirma sua rejeição a um certo feminismo que expressa um “ódio aos homens”. Leiam o texto completo e tirem suas próprias conclusões:

Na sequência do caso de Weinstein, houve uma consciência legítima da violência sexual contra as mulheres, particularmente no local de trabalho onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso torna hoje o seu oposto: somos intimadas a falar corretamente, silenciar o que incomoda e aquelas que se recusam a cumprir tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices!

Mas é característico do puritanismo pedir emprestado, em nome de um suposto bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-las ao status de vítimas eternas, coitadinhas sob a influência dos falocratas demoníacos, como nos bons velhos tempos da feitiçaria.

Delações e acusações

De fato, #metoo iniciou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e acusação pública de indivíduos que, sem ter a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível que os agressores sexuais. Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas, homens impedidos do exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando seu único erro foi terem tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado sobre coisas “íntimas” em um jantar de negócios ou enviado mensagens sexualmente explícitas para uma mulher com a qual a atração não era recíproca.

Essa febre de enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se emancipar, na verdade serve aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que o acompanha, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rosto de adulto, exigindo proteção.

Diante disso, os homens são convocados a vencer sua culpa e encontrar, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento mal colocado” que eles poderiam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e dos quais eles deveriam se arrepender. É a confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada, que instaura um certo clima de sociedade totalitária.

A onda purificatória parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali pedimos a remoção de uma pintura de Balthus de um museu com base em que seria uma apologia à pedofilia; na confusão do homem e da obra, pedimos a proibição da retrospectiva Roman Polanski na Cinémathèque e obtemos o adiamento daquela dedicada a Jean-Claude Brisseau. Uma acadêmica considera o filme de Michelangelo Antonioni Blow Up “misógino” e “inaceitável”. À luz deste revisionismo, John Ford (The Prisoner of the Desert), e até mesmo Nicolas Poussin (The Abduction of the Sabines) não estão numa situação melhor.

Alguns editores já estão pedindo a algumas de nós que façamos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos sobre sexualidade e amor com menos desmedida ou ainda que deixemos o “trauma sofrido pelas personagens femininas” mais óbvio! À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a qualquer candidato para relações sexuais! Só mais um esforço e dois adultos que quiserem dormir juntos deverão preencher via um “App” em seu telefone celular um documento em que as práticas que eles aceitam e aquelas que eles recusam serão devidamente listados.

Indispensável liberdade de ofender

Ruwen Ogien defendeu uma liberdade de ofender indispensável à criação artística. Do mesmo modo, defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. Somos hoje suficientemente conscientes para admitir que a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundir paquera desajeitada e assédio sexual.

Acima de tudo, temos consciência que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma “vagabunda” ou uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode cuidar para que seu salário seja igual ao de um homem, mas não se sentir traumatizada para sempre por um esfregador no metrô, mesmo que isso seja considerado um delito. Ela pode até mesmo considerar isso como a expressão de uma grande miséria sexual, como um não-evento.

Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa.

Para aquelas de nós que escolhemos ter filhos, sentimos que é mais sensato criar nossas filhas de modo que sejam suficientemente informadas e conscientes para viver suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar.

Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente sua dignidade e não devem, por mais difíceis que possam ser, necessariamente torná-la uma vítima perpétua. Porque não somos redutíveis ao nosso corpo. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que estimamos não vem sem riscos ou responsabilidades.

As redatoras deste texto são Sarah Chiche (escritora, psicóloga clínica e psicanalista), Catherine Millet (crítica de arte, escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre (autora, jornalista e tradutora) e Abnousse Shalmani (escritora e jornalista).

Assinam também: Kathy Alliou (curadora), Marie-Laure Bernadac (curadora geral honorária), Stephanie Blake (autora de livros infantis), Ingrid Caven (atriz e cantora), Catherine Deneuve (atriz), Gloria Friedmann (artista visual), Cécile Guilbert (escritora), Brigitte Jaques-Wajeman (diretora), Claudine Junien (geneticista), Brigitte Lahaie (atriz e apresentadora de rádio), Elisabeth Lévy (editora-chefe da Causeur), Joëlle Losfeld (editora) Sophie de Menthon (presidente do movimento ETHIC), Marie Sellier (autora, presidente da Société des gens de lettres).


Viva a França!

Frevos e marchinhas ‘politicamente incorretas’ causam polêmica no carnaval


Por Isabelle Barros

Durante décadas, as músicas que fizeram a alegria do Carnaval passaram longe do que se convencionou chamar de politicamente correto. Foliões de todo o Brasil já cantaram com todas as forças músicas com letras que se tornaram desconfortáveis à luz dos direitos conquistados por mulheres, negros e do segmento LGBT. No Rio de Janeiro, no período pré-carnavalesco deste ano, blocos já se tornaram foco de bate-boca por cantarem músicas como Maria Sapatão, Teu cabelo não nega ou Cabeleira do Zezé. Mesmo no frevo, há canções caracterizadas por apresentarem um conteúdo que parece incompatível com a militância social observada nos dias de hoje. Mas boicotar esse tipo de música é a solução ou é inútil, dada a longevidade dessas canções?

Para o premiado compositor J. Michiles, autor de sucessos como Diabo louro, é o povo quem tem de escolher. “Eu sempre digo o seguinte: é difícil fazer o fácil, ou seja, uma música que se ouve pela primeira vez e já se sai cantarolando. Quanto ao tema, cada um tem seu gosto. Essa coisa de temas mais engraçados e de duplo sentido é mais vista em marchinhas cariocas, apesar de existirem frevos com essa característica. Eu não gosto de compor canções assim porque esse tipo de música geralmente passa logo. Se você refinar mais sua composição, ela dura mais na mente das pessoas. Um compositor que não frequenta o Mercado de São José, os becos, as calçadas, as festas de Olinda, não pode fazer música. Eu simplesmente sinto essa emoção e retribuo”.

O médico, ator e compositor Reinaldo de Oliveira, por sua vez, afirma que o carnaval atual precisa ter uma palavra que já se tornou clichê quando se fala do período momesco: irreverência. Assim como J. Michiles, Reinaldo identifica motivos simples e fatos cotidianos como grande fonte de inspiração, tanto dos frevos quanto das marchinhas cariocas que fizeram tanto sucesso em carnavais passados. “O duplo sentido cabe sim hoje em dia, mas a poesia ainda tem o seu lugar.  As músicas eram inocentes, não eram ofensivas. Dou o exemplo com uma marcha de Jorge Veiga: A história da maçã / é pura fantasia / maçã igual àquela / o papai também comia / eu li num almanaque / que um dia de manhã / Adão tava com fome / e comeu a tal maçã / comeu com casca e tudo / não deixou nem a semente / depois botou a culpa / na pobre da serpente. Este duplo sentido é francamente aceito e foi muito cantado".

Há 50 carnavais, Reinaldo, junto com Gildo Branco, também deram sua contribuição às marchinhas politicamente incorretas, ao compor a música Ela sabe. A letra era uma resposta ao sucesso Cala a boca, menino, de Capiba, lançada em 1966. Os dois primeiros versos já traziam palavras polêmicas: o homem tem que dar todo dia na mulher / para ela ficar do jeitinho que ele quer. “Fizemos a música em duas partes e, na segunda, havia a resposta feminina com o Duo Aymoré, senão eu ia apanhar das mulheres”, lembra o ator e compositor. “Havia uma marcha em um ano e, no carnaval seguinte, havia uma resposta. Assim, as pessoas se entendiam sem se desentender. Éramos todos amigos, havia essa procura por um bom sentido das músicas”, completa.

O jornalista e historiador Leonardo Dantas Silva, por sua vez, contemporiza a questão afirmando que as músicas tidas como politicamente incorretas foram produzidas a partir da dinâmica social do passado. “Isso relembra uma época específica e não vejo motivo para tanto cerceamento. Nem nos anos de chumbo se via isso. Infelizmente, querem que o Brasil tenha esse ranço e censure tudo. Acho essa uma falta de criatividade da atual geração, pois nunca mais se viu um compositor popular encher a boca de todo o país. Os sucessos do Carnaval ainda são canções compostas nos anos 30 e uma forma de medir essa aceitação eram as paródias criadas”.

Leonardo exemplifica as composições de duplo sentido voltadas para o Carnaval com criações dos Irmãos Valença. “Eles eram craques nisso. Fizeram músicas como Quem furou sua cuíca, referência a uma moça que foi pular carnaval e perdeu a virgindade. Outra deles tinha o verso Vou pedir a papai para casar com você, referência a uma vizinha de ambos. Era uma maneira de dizer, de forma cifrada, que ela estava grávida”. Segundo o pesquisador, as diferenças entre as marchinhas e o frevo, por exemplo, têm mais a ver com a antiga posição de centralidade política do Rio de Janeiro, um dia capital do país. “Havia uma tendência para fazerem marchinhas e paródias de figuras políticas, como Washington Luiz”.

O pesquisador musical Renato Phaelante, por sua vez, chama à reflexão sobre o teor das músicas carnavalescas de forma mais equilibrada. “Cantar músicas como essa é uma faca de dois gumes. As opiniões sobre o certo e o errado sempre vão existir na humanidade, mas no Carnaval tudo aflora. Acho muito difícil uma censura a esse tipo de música funcionar, embora haja componentes nelas impossíveis de se aceitar hoje em dia. Como historiador e como pesquisador, acho importante elas serem tratadas como algo de seu tempo. O frevo também tinha o mesmo processo. Nelson Ferreira, por exemplo, era um repórter do cotidiano”.

O fator mobilizador das canções lançadas para o período momesco, segundo Phaelante, é importante para entender o quanto elas conseguiram atravessar gerações, mas o pesquisador aponta que também é preciso abrir espaço para uma visão mais contemporânea a respeito dessas composições. “A música é uma forma de opinar sobre a política e o social e o Carnaval é época das sátiras, de despertar o humor. Se a música faz parte da história da MPB, por que omitir? Disseram que Rui Barbosa mandou rasgar documentos da escravatura e isso foi prejudicial para a história. Acho que a música, em si, é um documento, e pode vir a interferir na sociedade em seu tempo. Era uma coisa natural do começo ou de meados do século 20. O que não faz sentido é compor, nos dias de hoje, uma música naqueles mesmos moldes, porque estamos em um tempo no qual os preconceitos estão sendo derrubados”.

MULATA E MARIA SAPATÃO?

O carnaval parecia ser o último refúgio para palavras como “mulata” ou “sapatão”, que ainda sobrevivem nas marchinhas mas passaram a ser malvistas no resto do ano. A primeira, por ter uma conotação racista e de objetificação da mulher. A segunda, por depreciar a orientação sexual das homossexuais femininas. Os compositores, ao menos de marchinhas cariocas ou de samba, passaram a levar essa questão em conta na hora de criar, mas este ainda não é um ponto pacífico para quem tem o auge de suas atividades no período momesco.

No Rio de Janeiro, a escola de samba Porto da Pedra, que vai desfilar no sábado de Carnaval no Grupo de Acesso, vai homenagear as antigas marchinhas de carnaval – até mesmo as mais polêmicas – este ano. “Carnaval é brincadeira e deboche, as pessoas estão ficando muito chatas”, afirmou ao jornal O Globo O carnavalesco Jaime Cezário. O desfile deste ano, com o samba-enredo Ó abre alas que as marchinhas vão passar. Porto da Pedra é quem vai ganhar…seu coração, terá alas como as da Maria Sapatão, no qual mulheres de jaqueta de general, botina e saia nas cores do arco-íris. Já a música O teu cabelo não nega, composta pelos Irmãos Valença e levemente modificada por Lamartine Babo, vai ganhar um carro alegórico só para ela.

Até a cantora Ivete Sangalo entrou em uma brincadeira proposta pelo humorista Marcelo Adnet, em um programa de TV, relacionada às marchinhas de carnaval. Músicas famosas como Cabeleira do Zezé receberam um “raio empoderador”, ou seja, foram parodiadas para atenderem a critérios mais humanistas. A letra original (“será que ele é?”) virou “ele pode ser o que ele quiser”. O grupo É o Tchan e a cantora Fafá de Belém também foram convidados a cantar versos como “Esse é o som do século 21/não tem duplo sentido e nem assédio algum/eu tô falando do axé politicamente correto/que não trata mulher como objeto”.

A discussão sobre o limite para a brincadeira nas composições de Carnaval chegou não apenas às marchinhas ou ao samba-enredo, mas também foi abraçada pelas rodas de samba. O compositor carioca Fernando Procópio compôs a canção Eu vos declaro, e parte dela tem os seguintes versos: “Eu vos declaro marido e marido / Eu vos declaro marido e mulher / Hoje a união tem um novo sentido, tudo é permitido, casa quem quiser / O filho da mãe não é filho do pai / tem dois pais, duas mães / quem é quem ninguém diz / Olha, eu aprendi com a vida / Família bonita é família feliz”.

Já o compositor carioca Thiago Vasconcelos criou a Marchinha do fim das marchinhas. O tema é justamente a mudança da percepção dos foliões sobre o significado das antigas músicas carnavalescas: “Mamãe, eu não quero mais nada / devolveram o coração do jacaré / As águas que iam rolar secaram / e até cortaram a cabeleira do Zezé / Pedi desculpas à mulata / E dos carecas elas não vão gostar / Marchinha com hoje em dia não combina”.

AXÉ

Na Bahia, existe uma lei estadual, sancionada em 2012, conhecida como Lei Antibaixaria. O texto prevê fiscalização, com circulação pelos blocos a desfilarem no Carnaval e multa de R$ 10 mil para gestores públicos estaduais que contratarem artistas com letras ofensivas às mulheres. Outro alvo de polêmica foi um dos maiores sucessos da axé music, Fricote, dos baianos Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, lançada em 1985 contendo os versos “Nega do cabelo duro / que não gosta de pentear”. O teor da música, apontado por movimentos sociais como racista, chegou até a ser alvo de protesto em festas em Salvador.

O Viver também selecionou algumas canções com letras consideradas, atualmente, como politicamente incorretas. Veja:

ELA SABE – Gildo Branco/Reinaldo de Oliveira/Irmãs Aimoré, em resposta a Cala a boca menino)

O homem tem que dar todo
dia na mulher
pra ela ficar do jeitinho que ele quer
Ele pode nem saber porque está dando
mas ela sabe porque está apanhando

Sou obrigada a lhe censurar
pois a mulher foi feita pra se amar
fale quem quiser
eu não faço alarde
mas o homem que bate na mulher
é um covarde

QUEBRA CANELA (1931) – Música de Nelson Ferreira e letra de Samuel Campelo

Se tu não quebra mulata
Na tua venta que é chata
dou tanto rela
que estira como embuá
Dou-te um tapa, mulata
Na venta chata
Que mais se achata
E até se encaixa
Como bolacha
Dentro da lata

Mulata quebra a canela
Se não eu te dou mais nela

Se não me dás esse enlevo
Na tua venta me atrevo
Dou tanto nela
Que espicha como socó
Faço-te um alto relevo
Na venta chôcha
Mulata frouxa
E te escrevo
Com tinta roxa
Mesmo no frevo

Mulata quebra a canela
Se não eu te dou mais nela

NEGA MALUCA – Linda Batista

Tava jogando sinuca
Uma nêga maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia pro povo que o filho era meu

Não, senhor!
Toma que o filho é seu
Não, senhor!
Guarde que Deus lhe deu

Não, senhor!
Toma que o filho é seu
Não, senhor!
Guarde que Deus lhe deu

Há tanta gente no mundo
Mas meu azar é profundo
Veja você, meu irmão
A bomba estourou na minha mão

Tudo acontece comigo
Eu que nem sou do amor
Até parece castigo
Ou então influência da cor


DÁ NELA – Ary Barroso

Esta mulher
Há muito tempo me provoca
Dá nela! Dá nela!

É perigosa
Fala mais que pata choca
Dá nela! Dá nela!

Fala, língua de trapo
Pois da tua boca
Eu não escapo

Agora deu para falar abertamente
Dá nela! Dá nela!

É intrigante
Tem veneno e mata a gente
Dá nela! Dá nela!


O TEU CABELO NÃO NEGA – Irmãos Valença/Lamartine Babo

O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Quem te inventou meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta

Quando meu bem vieste à terra
Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da Gama contra o batalhão naval


A reportagem foi publicada originalmente na Superedição do Diario de Pernambuco dos dias 11 e 12 de fevereiro do ano passado

sexta-feira, janeiro 05, 2018

BICA anuncia tema para 2018: o troca-troca de governadores


Por Juan Gabriel

A tradicional Banda Independente Confraria do Armando (BICA) já divulgou o tema escolhido para o carnaval de 2018 que será “Amazonas é um Circo de Horrores, em um ano teve três Governadores”, uma forma de satirizar as sucessivas trocas no comando do Estado ao longo de 2017.

“É difícil escolher só um tema em um ano em que aconteceu tanta coisa. A gente parte dos assuntos locais, o que de relevante aconteceu por aqui e depois vê assuntos nacionais. Nós sentamos, discutimos e resolvemos focar na troca de governadores que só em 2017 tivemos três, é uma situação atípica”, destaca a empresária e organizadora da banda, Ana Cláudia Soares em relação a escolha para o carnaval do ano que vem.

O anúncio foi feito como forma de antecipar a divulgação do bloco que tem previsão para acontecer no dia 3 de fevereiro. Apesar da escolha do tema já ter sido anunciada, Ana Cláudia, que também é filha do português Armando Soares, fundador do “Bar do Armando” e um dos criadores da BICA, que faleceu em 2012, destaca que a marchinha oficial ainda está em fase de finalização e que tem previsão de ser lançada em meados de janeiro.

Precursora

A Banda da BICA tem um parágrafo considerável na hora de contar a história do carnaval amazonense. Fundada em 1987 por um grupo de amigos frequentadores do Bar do Armando, o bloco, que todo ano toma conta da Avenida 10 de Julho, Centro, se destacou a princípio por ser um dos primeiros a fomentar o carnaval de rua na cidade de Manaus.

“Eu acho que a banda representa muito pra Manaus. É a segunda de maior expressão e a mais antiga de rua. Quando ela surgiu a gente não tinha carnaval de rua, era tudo restrito aos clubes. Quem queria pular carnaval tinha que ir para os clubes, pagar, fazer fantasias, era uma festa mais elitizada. A primeira banda de rua que surgiu foi a do Mandy’s Bar, que não existe mais, e em seguida fomos nós que seguimos até hoje fortalecendo o carnaval de rua para todos. É uma festa que não precisa de dinheiro, é de graça, é o carnaval pra todo mundo”, destaca Ana Paula Soares.

Sempre polêmica, a banda traz em sua essência a destreza em satirizar assuntos pertinentes no cotidiano amazonense, em especial no meio político, onde contornos bem-humorados se misturam a rebeldia de quem não tem vergonha em fazer graça com os governantes. O tema de 2018 segue o molde, mas não é o primeiro. Em 2017, o tema foi “Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra fazer”, em alusão ao bordão que marcou a disputa pela prefeitura em 2016.

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Mais do mesmo: alguns possíveis caminhos dos caciques barés na Eleição 2018


Por Durango Duarte

O “novo” MDB de Eduardo Braga possui um único objetivo em 2018: reelegê-lo para mais oito anos como senador. Esqueçam de qualquer ideia sobre uma terceira tentativa de ele concorrer ao governo do Estado.

Uma nova derrota exporia Braga ao nível do que vive José Melo hoje. O mandato é o berço encantado da impunidade, vide o caso de Aécio Neves.

O pragmatismo de Braga é altíssimo. Após a eleição suplementar, já conversou com Amazonino mais de uma vez. Com a influência do governo, seu mentor poderá ajudá-lo em sua vitória, independentemente de Mendes ser ou não candidato à reeleição.

Intimamente, Eduardo torce para que Omar Aziz e Arthur Virgílio Neto rompam com Amazonino, o que facilitaria seu projeto. Amazonino também alimentará essa possibilidade, pois sabe que o tempo do MDB e as relações de Braga poderão substituir os aliados que, possivelmente, iriam trilhar outro caminho.

Braga fará alianças explícitas – ou não – com candidatos de todos os partidos, para as eleições de deputados federais e estaduais. O MDB é um peso e um custo que não vale a pena bancar exclusivamente. Então, cuidado aos emedebistas com seus sonhos de uma eleição proporcional.

O PT (de tantos grupos e matizes) depende 100% do rumo que a vida de Lula terá a partir de 24 de janeiro. No Amazonas, o partido deve, provavelmente, lançar alguém para o Senado e abrir mão de um nome para governador.

O melhor quadro para senador é Francisco Praciano, e, para ajudar na manutenção de uma boa bancada na Câmara Federal, o nome do deputado estadual José Ricardo Wendling desponta.

Assim, os petistas precisarão, obrigatoriamente, de uma coligação com consistência e apelo popular. Lula candidato ganhará fácil no Amazonas, mas não transferirá votos. No plano da Assembleia Legislativa, o PT repetirá o modelo das últimas eleições: um monte de ingênuos reelegendo o seu atual presidente estadual, Sinésio Campos.

O PP terá um papel importante na aliança com o deputado estadual David Almeida, eventual e mais forte adversário de Amazonino neste momento. Cada chapa ao governo terá dois nomes para as duas vagas de senador, e a pessoa de Rebecca Garcia é a melhor opção nessa colocação. Ela fechou 2017 liderando as pesquisas, produto natural do recall de ter sido candidata ao cargo de governador.

A deputada federal Conceição Sampaio deverá ficar no partido com esse arranjo. Do contrário, usará a janela da troca partidária em março e assumirá uma legenda para chamar de sua. O PP ficou enfraquecido no parlamento estadual, com o fim do projeto de ter nomes populares na grade da TV Rio Negro (Band Amazonas).

Arthur Virgílio Neto enfrentará as prévias do PSDB contra Geraldo Alckmin em março. Não é o favorito, mas já colocou todo o partido refém, ao expor, nos debates internos e para a grande mídia, uma visão diferenciada do puritano e insosso governador de São Paulo.

O prefeito de Manaus, no mínimo, deixará sua marca e voltará à cena política nacional, que já conhece bem. Caso Alckmin seja escolhido o candidato do PSDB à presidência da República, não passará da quarta posição no Amazonas.

Após essa batalha entre os tucanos, Arthur terá o dia 6 de abril para tomar sua maior decisão pessoal: continuar ou não à frente da Prefeitura de Manaus.

Se escolher sair, o caminho natural, e mais adequado após sua presença nas prévias, é o de concorrer a uma das vagas ao Senado. Seu principal aliado no plano estadual é o senador Omar Aziz. Eles encontrarão um caminho novo neste ano.

Se Arthur optar por concluir seu mandato, colocará Marcos Rotta numa das disputas majoritárias, e seu filho, Arthur Bisneto, será candidato a deputado estadual.

O PSD de Omar Aziz terá seu primeiro grande momento logo em março, com uma renovação significativa: a saída da turma que optou por não seguir a orientação partidária na eleição passada e a entrada de um novo grupo.

Omar terá três situações para definir seu caminho: aguardará o desempenho do atual governador, a decisão de Arthur e como ficará a sua imagem junto à opinião pública.

Apoiará fortemente, pelo menos, um nome para o Senado e dois para deputado federal. A relação com Amazonino Mendes é uma incógnita, e nisso reside um dos principais movimentos do jogo eleitoral.

As falas do atual governador, em reuniões e conversas pessoais com o mundo político e empresarial, são de quem não anda muito preocupado com as consequências do que diz sobre todos. Deputado Pauderney é um bom exemplo.

Até a próxima parte.

Lulu Santos critica música popular e fãs de Anitta reagem


Por Christiana Lemos

No começo de dezembro, a cantora Anitta lançou seu novo clipe, “Vai Malandra”, e em menos de 24 horas, a estreia deu o que falar. Poucos minutos antes do clipe ser divulgado, Lulu Santos foi ao Twitter fazer seu comentário sobre a música brasileira e, ao que tudo indica, alfinetar o clipe de Anitta: “Caramba! É tanta bunda, polpa, bumbum granada e tabaca que a impressão que dá é que a MPB regrediu pra fase anal. Eu, hein?”, escreveu o também cantor.

Diversas pessoas começaram a discutir – alguns concordando com Lulu, enquanto outros o criticavam, alegando que seria uma crítica não apenas a um determinado tipo de letras de música, mas a todo o gênero do funk e até mesmo a moradores de periferia.

Muito criticado pelos seguidores, Lulu Santos abriu espaço para dialogar e conversou com um seguidor, tentando expor seu ponto de vista. Contudo, a discussão não deu muito certo e o músico decidiu colocar um ponto final na conversa publicando que sua crítica não tinha nada a ver com Anitta.

Com a polêmica, até mesmo o funkeiro Buchecha posicionou-se a favor de Lulu, que falou mais sobre o comentário posteriormente: “Que fique bastante claro que minha opinião sobre as letras escatológicas, pessoal, intransferível e soberana, nada tem a ver com Anitta, de quem gosto e a quem respeito, muito menos com as periferias onde se continua fazendo excelente arte e vida. Respeito! Grato”, escreveu Bochecha.


Vai, malandra: os Lulus ladram e a caravana de Anitta passa


Por Nathalí Macedo

Deve ser difícil, no mínimo, ser a Anitta. Todos opinam sobre seu cabelo — dread é “apropriação cultural”, bleh! –, sobre seu discurso, sobre sua bunda. Talvez ela nem se incomode tanto, porque está ocupada produzindo clipes sensacionais.

O último, da música “Vai Malandra”, foi, por si, a resposta afiada que a cantora costuma direcionar aos haters: trancinhas no cabelo, com apropriação cultural e tudo, uma bunda brasileiríssima sem correção nas celulites e um Brasil muito brasileiro escancarado numa superprodução pro mundo inteiro.

Anitta, que prometia, com os rumos estéticos de sua carreira, uma abordagem artística cada vez menos brasileira, surpreendeu, de novo. Só a linguagem do clipe é meio gringa (e faz mal?): o resto é Brasil, nu e cru.

Lulu Santos, que aparentemente não entende nem de Brasil nem de música, criticou nas redes o clipe, a cantora e a bunda. Pfff.

Aqui cabe um parêntese: nem a bossa nova, careta por tradição, comungaria da chatice da persona Lulu Santos, que compete com a chatice de suas músicas. Talvez fosse mais facilmente aceito no rock, que se tornou um velho careta e conservador, mas até pra isso lhe falta musicalidade.

Não, Lulu, não é só uma bunda: O funk de Anitta tem gerado discussões sociais contemporâneas e importantíssimas, e não é de hoje. Assim caminha a humanidade, graças a gente como você, a passo de formiga e sem vontade.

Aliás, não foram só a bunda e as tranças que incomodaram: a esquerda progressista (risos) não brinca em serviço quando o assunto é cagação de regra.

Reclamaram — e muito — do olhar masculino do produtor do clipe, acusado de assédio, como se isso tirasse o mérito empoderador do clipe e da música.

Spoiler: se o olhar fosse verdadeiramente masculino, as tais celulites teriam sido apagadas na edição.

Não foram, porque a última palavra é dela, e eu não sei vocês, mas eu tenho um orgasmo mental só de imaginar uma mulher impondo as próprias celulites diante de um produtor assediador metido a importante.

Vai, malandra. Os cães ladram e a caravana passa.

Empoderamento feminino: que diabéisso?


Por Mariana Santos

Cada vez mais é comum escutarmos sobre o empoderamento feminino ou até mesmo falarmos sobre ele no nosso dia a dia. Mas você sabe o que significa? Já parou para pensar no impacto deste conceito em seu cotidiano?

Vamos começar falando um pouco sobre o tal empoderamento, o que ele significa? Segundo o dicionário, empoderar significa “conceder ou conseguir poder; obter mais poder; tornar-se ainda mais poderoso.” Paulo Freire foi o primeiro a traduzir o termo para o português e para ele empoderamento é a “capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”.

Assim, podemos definir o empoderamento feminino como o movimento em que a mulher toma poder para si, buscando se fortalecer e promover ações pela igualdade de gênero. Também podemos considerar o empoderamento como uma maneira da mulher tomar as rédeas da sua vida, tomando as decisões sobre ela e fazendo suas próprias escolhas.

Quando olhamos para a criação da maioria das mulheres, percebemos que muitas vezes o outro (em sua maioria, do gênero masculino), acaba por tomar as decisões referentes à vida delas e assim, por diversas vezes fazem as “escolhas” por elas, de acordo com o que consideram mais adequado. 

Com essa falta de autonomia sobre as nossas vidas, crescemos e mesmo na vida adulta deixamos que o outro tome as decisões sobre o nosso dinheiro, carreira, vestimentas, entre outros. E assim, nos apagamos enquanto protagonistas da nossa história. 

Por isso o movimento do empoderamento feminino se torna tão importante para o protagonismo das mulheres, pois ele devolve à mulher o poder sobre as suas decisões, deixando-as livres para que façam suas escolhas.

Ao falarmos de mulheres empoderadas, não estamos falando apenas das mulheres em cargos de liderança ou de mulheres empreendedoras, aqui entra aquela famosa frase “lugar de mulher é onde ela quiser”, ou seja, se é uma escolha da mulher ser dona de casa, médica, engenheira, caminhoneira, eletricista ou psicóloga, isso a torna uma mulher empoderada, pois sua decisão foi baseada em suas escolhas e no que ELA considera que é o melhor para sua realização pessoal.

O empoderamento feminino não é apenas um movimento interno da mulher, é um movimento social, para que este movimento seja realmente efetivo e assim se conquiste a igualdade de gênero, é necessária a contribuição de todas e todos. É necessário que toda a sociedade participe e passe a empoderar a mulher seja na família, faculdade, trabalho, etc. 

A ONU Mulheres criou uma cartilha com os princípios para o empoderamento das mulheres e para alcançar a igualdade de gênero no Brasil. Segundo a cartilha, os 7 princípios para o empoderamento das mulheres são:

1. A liderança promove a igualdade de gênero: Estabelecer liderança corporativa de alto nível para a igualdade de gênero.

2. Igualdade de oportunidades, inclusão e não-discriminação: Tratar todos os homens e mulheres de forma justa no trabalho – respeitar e apoiar os direitos humanos e a não-discriminação.

3. Saúde, segurança e fim da violência: Garantir a saúde, a segurança e o bem estar de todos os trabalhadores e as trabalhadoras.

4. Educação e formação: Promover a educação, a formação e o desenvolvimento profissional das mulheres.

5. Desenvolvimento empresarial e práticas da cadeia de fornecedores e de marketing: Implementar o desenvolvimento empresarial e as práticas da cadeia de suprimentos e de marketing que empoderem as mulheres.

6. Liderança comunitária e envolvimento: Promover a igualdade através de iniciativas e defesa comunitária.

7. Transparência, medição e relatórios: Mediar e publicar os progressos para alcançar a igualdade de gênero.

Embora seja necessário que toda a sociedade participe e passe a empoderar cada vez mais as mulheres para alcançarmos a igualdade de gênero, muitas mulheres não conseguem assumir o empoderamento. 

Esta dificuldade muitas vezes está ligada com a baixa autoestima, pois como somos criadas com o outro tomando nossas decisões e muitas vezes não acreditamos que somos capazes, não conseguimos assumir uma postura empoderada. 

Assim, buscar uma psicóloga ou psicólogo pode auxilia-la a trabalhar sua autoestima e se fortalecer para que assim se torne protagonista da sua própria história.

Fontes:
https://www.dicio.com.br/empoderar/
http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/cartilha_WEPs_2016.pdf
http://www.mulheresconectadas.com.br/10021-2/


Mariana Santos
CRP 06/126116
Psicóloga Clínica, graduada em Psicologia pela UNIP.
Conhecimento avançado em LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais (Derdic/PUC-SP).
Atende na Chácara Santo Antônio – São Paulo/SP
Contatos:
Fone: (11) 95490-5944

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Conheça os spornossexuais, as novas bibas do século 21


Cristiano Ronaldo (esquerda) e Dan Osborne (direita) posam para a marca Emporio Armani; 
David Beckham (centro), para a H&M

O jornalista britânico que inventou o termo metrossexual, 20 anos atrás, acaba de cunhar o termo para definir uma nova “categoria” de homens: o spornossexual, mistura das palavras “esporte”, “pornô” e “sexual”.

Em um artigo publicado no “Telegraph”, Mark Simpson decreta que os metrossexuais são águas passadas e consumadas, afinal, os homens ingleses, hoje, gastam mais dinheiro em sapato do que as mulheres, segundo a empresa de pesquisa de mercado Mintel. Esse comportamento já é comum entre quarentões.

O repórter, então, criou o termo spornossexual para definir a nova geração de homens de vinte e poucos anos.

Com abdômens sarados e tatuagens que valorizam os músculos, essa nova geração de metrossexuais é menos apegada às roupas e mais ligada em aperfeiçoar seus próprios corpos.

Seus músculos e a pele se tornam os acessórios mais chiques, e a academia é o templo desse tipo de consumo, comparável às lojas de grife.

A nova onda também torna os metrossexuais ainda mais sexuais, pois homens como os jogadores Cristiano Ronaldo e David Beckham, considerados, por Simpson, os símbolos da spornossexualidade, querem ser desejados.

“Um novo termo é necessário para descrever eles, esses homens bombados dos anúncios nos quais o esporte vai para a cama com o pornô, enquanto Mr. Armani tira fotos”, define Mark Simpson, antes de acrescentar: “Vamos chamá-los de spornossexuais”.

Mas, ao contrário dos antigos anúncios metrossexuais de Beckham, nos quais seus atributos provavelmente eram reforçados artificialmente, os spornossexuais de hoje usam o Photoshop na vida real: a musculação.

“Para a geração de hoje, as redes sociais, os selfies e a pornografia são os principais vetores da vontade dos homens de serem desejados. Eles querem ser desejados por seus corpos, e não por seus guarda-roupas. E, certamente, não por suas mentes”, analisa o repórter, dando como exemplo o modelo britânico Dan Osborne.

A origem dos metrossexuais

Simpson escreveu pela primeira vez sobre os metrossexuais em 1994, no jornal “The Independent”, após ir a uma exposição organizada pela revista “GQ”, batizada “É um mundo de homens – Primeira exposição de estilo da Grã-Bretanha para homens” (“It’s a man’s world – Britain’s first style exhibition for men”).

À época, ele definiu o futuro da masculinidade como uma mistura entre a vaidade, o consumo e a feminilidade.

Ele previu que os homens se tornariam extremamente vaidosos e consumistas, sempre cuidando do cabelo meticulosamente e investindo em roupas e acessórios caros.

Ainda apostou que eles seriam o maior mercado consumidor da década de 1990 e das subsequentes.

Foi, porém, só em 2002, quando Simpson voltou ao assunto em uma reportagem para o site Salon.com, “Conheça os metrossexuais” (“Meet the metrosexual”), que a palavra “pegou” e passou a ser usada em todo o mundo.

Os baratos da Barata de estimação do ministro Soltar Mendes


Por Agamenon Mendes Pedreira (*)

Ao contrário da Constituição, o ministro Gilmar Mentes não se emenda. Não é que o Gilmar soltou mais uma vez o Jacob Barata da cadeia? Barata, o Rei dos Ônibus Sobre Rodas, generoso, já ofereceu instalar uma roleta na penitenciária de Benfica para facilitar a circulação dos apenados que vivem na aba do ministro Soltar Mendes.

Ainda não se sabe o porquê dessa obsessão do Juiz Tabajara em soltar Barata. Geralmente, quem libera Barata é a sua esposa, que dá expediente no escritório responsável pela defesa do Al Capone dos coletivos do Rio.

Línguas maldosas insinuam que Jacob & Gilmar, ânus atrás, formaram uma dupla sertaneja em Mato Grosso do Sul, estado natal do ministro. Os dois criaram o Sertanejo Judiciário (uma vertente piorada do Sertanejo Universitário) e costumavam se apresentar em feiras agropecuárias, inclusive ganhando vários prêmios de robustez, rusticidade e precocidade.

Talvez por essa relação pecúnio-pecuária, Gilmar e Jacob tenham o rabo preso. Um com o outro. Gilmar inclusive foi padrinho de casamento da filha do Jacob, e o seu cunhado é sócio do Barata numa firma de dedetização.

Segundo o meu personal psicoproctologista, o Dr. Jacintho Leite Aquino Rego, o ministro padece de meretíssima desinteria de fundo nervoso. Mais para o fundo que nervoso. Apavorado com o seu o quadro jurídico-patológico, o magistrado Gilmar não consegue controlar a processualística do seu esfíncter nem da Operação Lava-Jato, e acaba todo togado. Um vexame.

CANTE COM AGAMENON

(melodia de A Barata – grupo Só Pra Contrariar (a Opinião Pública)

Toda vez que eu chego em casa
o Barata dos transportes não tá mais em cana.
Toda vez que eu chego em casa
o Barata dos transportes não tá mais em cana.

Diz aí, Gilmar, o que você vai fazer?
– Vou mandar uma habeas corpus para ele escafeder!
Diz aí, Gilmar, o que você vai fazer?
– Vou mandar uma habeas corpus para ele escafeder!

O Gilmar escafedeu a Barata dele!
O Gilmar escafedeu a Barata dele!


(*) Agamenon Mendes Pedreira é jornalista togado

sexta-feira, dezembro 15, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (31)


Por Jefferson Peres

No final dos anos quarenta surgiria um novo matutino, A Crítica, modestíssimo e com todos os indícios de que teria vida curta. Seu fundador, Umberto Calderaro Filho, era meu velho conhecido do Colégio Dom Bosco, onde fomos contemporâneos, sendo ele de turma mais adiantada. Lembrava-me perfeitamente dele pela sua intensa participação na política estudantil como candidato a presidência da União Estadual de Estudantes, que não chegou a conquistar.

Impossível esquecê-lo, de qualquer modo, pelo seu tipo físico. Alto, magro, a pele branca coberta de sardas, chamava a atenção de pronto. Agitado e atuante, parecia destinado a cumprir a trajetória de tantos jovens da nossa época, ou seja, fazer o curso de Direito, como aconteceu, e ingressar na política. Mas, de repente, Calderaro largou tudo para se lançar à aventura do jornal. Foi instalar-se bem ao lado dos grandes, no térreo de um edifício contíguo ao da empresa Archer Pinto.

Para fingir que não pretendia concorrer com os maiores, fez A Crítica circular a partir das onze horas, o que levou Áureo Mello, sempre criativo, a cunhar o neologismo onzeorino, para designá-lo. As instalações eram precárias, com uma velha linotipo e um prelo manual. Quando, algum tempo depois, ele adquiriu uma rotoplana, ao tempo já ultrapassada, houve uma festa na redação. Como não havia recursos para a compra dos serviços das agências telegráficas, dizem que Calderaro tinha um funcionário designado para acompanhar atentamente o noticiário das emissoras nacionais e estrangeiras, bem como para recortar notícias de jornais do sul do país. Como gozação, dizia-que A Crítica trabalhava com duas grandes agências: a Rádio Press e a Tesoura Press.

O jornal era tocado por toda família Calderaro. Além de Umberto, lá trabalhavam sua mãe, D. Maria, que cuidava das finanças internas e, nas horas vagas, o velho Umberto, pai, que formava, com o sêo Miguel, a dupla de simpáticos italianos que atendia a clientela da sapataria Arone. Talvez esse mutirão familiar explique, em grande parte, por que, ao contrário de tantos periódicos da época, A Crítica pôde sobreviver e ganhar as dimensões que tem hoje. Confesso que me enfileirei entre os falsos profetas que vaticinaram seis meses de vida para o pobre boletim paroquial. E teria achado muita graça se alguém me dissesse que aquele magricela sardento se transformaria, algum dia, num magnata da imprensa local.

Em 1949, o cenário jornalístico de Manaus se enriquecia com o surgimento de A Gazeta, um vespertino de grande circulação, fundado por um grupo de políticos ligados ao Partido Social Democrático, à frente Avelino Pereira e, em segundo plano, Álvaro Bandeira de Mello, Flávio de Castro e Jatyr Pucu de Aguiar. Doublé de médico e jornalista, Avelino, nascido no Rio Grande do Norte, há muitos anos trocara o Potengi pelo Rio Negro, aqui se estabelecendo como oftalmologista de grande clientela e largo prestígio social. Mas tinha experiência do “batente”, desde garoto, quando trabalhava no jornal de um tio, em Natal, com passagem, mais tarde, quando estudante, na redação de O Estado da Bahia, então um dos maiores órgãos da capital baiana. Depois, veio a trabalhar como repórter de O Jornal, do Rio de Janeiro, e em Manaus fora o primeiro diretor do Jornal do Comércio, quando de sua incorporação à cadeia dos Diários e Rádios Associados.

Há anos afastado das redações, sua vocação política e jornalística falou mais alto e ele voltou à lide, como dono de um jornal que logo alcançou o grande público, graças a sua linha politicamente engajada. Contribuiu para o êxito, também, a qualidade do jornal, bem impresso, amplamente noticioso e redigido por uma equipe de primeira, na qual se distinguiam Herculano de Castro Costa, como secretário, Ulysses Paes de Azevedo Filho e Arthur Virgílio Filho, como principais redatores. Apesar do engajamento político, Avelino soube evitar o caráter panfletário, imprimindo ao jornal um tom de equilíbrio e seriedade, que lhe deu ampla penetração na classe média e nas elites, em acirrada disputa com o Diário da Tarde. Sóbrio, fugindo aos ataques pessoais, podia, no entanto, alcançar extrema agressividade.

Alguns poucos que ousaram investir contra A Gazeta ou seu dono, certamente se arrependeram, tamanha a virulência da resposta, redigida por Herculano ou pelo próprio Avelino. Mas, chegou o tempo em que o velho combatente, cansado da política e do jornalismo, e decidido a se voltar exclusivamente para a medicina, vendeu o jornal para Arthur Virgílio. Este mudou a linha política do jornal, que passou a dar cobertura ao governo trabalhista de Plínio Coelho, além de lhe imprimir um tom ainda mais agressivo, bem de acordo com o temperamento do novo proprietário. Algum tempo depois essa agressividade quase provocou uma tragédia.

Aldo Moraes, filho do escritor Raimundo Moraes, de quem herdou o talento e a combatividade, por motivo que já não recordo, envolveu-se numa polêmica com Arthur. Como geralmente acontecia naquela época, dos argumentos passaram à troca de desaforos. Um dia, Aldo telefonou para Arthur intimando-o a descer para um acerto de contas. Arthur, sem vacilar, aceitou o desafio e foi postar-se na calçada, defronte à redação. Logo depois surgiu Aldo, no lado oposto, caminhando da Rua Joaquim Sarmento para a Av. Eduardo Ribeiro.

Quando se viram frente a frente, sacaram os revólveres e dispararam, felizmente sem se atingirem. E, ao que parece, não correram grande perigo, pois nenhum dos dois era propriamente um exímio atirador. Tanto que a perícia nem sequer encontrou as balas, que provavelmente se alojaram a muitos metros de distância dos respectivos alvos. Alguns anos depois, Arthur Virgílio, eleito deputado federal, passou adiante A Gazeta, que se transformou em órgão oficioso do segundo governo trabalhista. A partir daí foi perdendo a qualidade e leitores, até cerrar as portas em meados nos anos sessenta.

Dentre os pequenos jornais daquela época, que não lograram vida longa, merece uma referência especial O Momento. Dirigido pelo então acadêmico de Direito, mais tarde advogado, Geraldo Costa, nasceu politicamente engajado, em virtude da vinculação do seu proprietário e diretor ao Partido Social Democrático. Começou a circular na fase agônica do Estado Novo, em setembro de 45, dando apoio à candidatura do Marechal Dutra à presidência da República e, no ano seguinte, à de Ruy Araújo ao governo do Estado.

Vitorioso Leopoldo Neves, O Momento passou à oposição, não poupando críticas ao governo. Convidado por emissários oficiosos a aderir a situação, Geraldo recusou. Começaram, então, as pressões. Primeiro, foi-lhe retirada toda a publicidade oficial. Como o jornal sobrevivesse, vieram as ameaças verbais de elementos ligados ao governo.

Certo dia, a pretexto de uma notícia referente a um assalto à joalheria La Ville de Paris, Geraldo foi chamado à Polícia. Por interferência de Aristóphano Antony, presidente da Associação Amazonense de Imprensa, a intimação foi retirada. Mas as ameaças continuaram, cada vez mais frequentes. Em junho de 48, Geraldo recebeu informação segura de que o jornal seria atacado. Por prevenção, convocou os poucos funcionários e montou acampamento na sede, localizada na esquina das ruas Itamaracá e Frei José dos Inocentes.

Após uma vigília de 48 horas, decidiram regressar às suas casas, deixando apenas dois empregados de prontidão. Logo depois, um grupo de beleguins, armados de revólveres e cassetetes, invadia o prédio e empastelava redação e oficina. O prejuízo foi total, não sobrou praticamente nada e nunca mais O Momento voltou a circular. A violência matou, ali, as ambições de um jovem e, quem sabe, o embrião de um futuro grande jornal.

Eram tempos heróicos do jornalismo. De jornais acanhados e provincianos, pobres e desequipados, mas de jornalistas forjados no batente, que sabiam tocar a imprensa com esforço, entusiasmo e, sobretudo, com um imenso amor à profissão.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (32)


Por Jefferson Peres

Muitos jovens da minha geração foram leitores insaciáveis. Menos, talvez, por pendores naturais do que por fatores circunstanciais. Ainda não havíamos ingressado na era da televisão e do automóvel particular. Quando não tínhamos alguma opção de lazer, o jeito era buscar refúgio na leitura. Líamos de tudo, muitas vezes a qualquer hora e em qualquer lugar. Havia até os fanáticos, que nunca se separavam dos livros, conduzindo sempre algum, seguro pela mão ou debaixo do braço, para ser lido nas salas de espera dos cinemas, nas mesas dos bares ou nos bancos das praças.

Nunca dediquei à leitura menos de seis horas por dia. Quando nada tinha para ler em casa, marchava para a Biblioteca Pública, onde passei muitas tardes da minha juventude e de onde saía, às vezes, ao anoitecer. Foi um hábito que adquiri na infância, com os contos de fadas de Andersen e Perraul e com revistas como O Tico-Tico, na qual eu me deleitava com as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona.

Logo vieram os jornais e as revistas em quadrinhos de origem americana. Não perdia um número do Mirim, do Gibi, do Globo Juvenil e do Suplemento Juvenil. Lia com avidez as histórias daqueles heróis, que encantavam pela variedade de tipos, temas e ambientes, oferecidos para todos os gostos, desde trogloditas e dinossauros, com Brucutu, até foguetes espaciais, com Buck Rogers, passando por castelos medievais e cavaleiros andantes, como o Príncipe Valente.

Podia escolher entre uma aventura na selva da Índia, com o Fantasma Voador, e outra nas areias do Saara, com Abdul, o Árabe, ou, ainda, uma terceira, nas ruas de Nova York, com o Tocha Humana; entre um herói caipira, como Lil Abner (por que terão aportuguesado seu nome para Ferdinando?) e um sofisticado detetive urbano, como Nick Holmes. E tantos outros, como Brick Bradford, Príncipe Submarino, Mandrake e o nunca esquecido Flash Gordon, que me atraía não somente pela história, como também pelo traço elegante do desenho de Alex Raymond.

Junto com as histórias em quadrinhos, íamos devorando os livros de aventura. Li quase todos os livros de Tarzan, e a Edgar Rice Burroughs devo alguns dos melhores instantes de encantamento que a leitura me proporcionou naquela fase. E mais ainda, talvez a Karl May, o alemão autor de No Deserto e nas Selvas, Winnetou e tantas outras fascinantes histórias passadas nos mais diferentes lugares do mundo. Só muito mais tarde vim a saber, com grande surpresa, que esse novelista nunca saiu da Alemanha e escreveu muitas das suas obras na prisão.

Escusado dizer que li quase tudo de Júlio Verne, e o Capitão Nemo, com o seu Nautilus, me deliciou desde muito cedo. O mesmo aconteceu com a obra de Alexandre Dumas, que me deu muitas alegrias com as proezas de D’Artagnan e seus companheiros, ao enfrentarem o poder do Cardeal, e de Edmond Dantés, ao se vingar dos seus diabólicos inimigos. Houve muito mais, como Ivanhoé, de sir Walter Scott, a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, para não falar nos policiais, com personagens como Sherlock Holmes, Arséne Lupin, Perry Mason, Nero Wolf e tantos outros.

Depois, ainda na adolescência, vieram as obras mais sérias, preferentemente de ficção. Dos autores nacionais, antigos e modernos, escaparam poucos. Manuel Antônio de Almeida, que seria, provavelmente, o maior romancista brasileiro do século XIX, se não tivesse morrido tão cedo, deixando apenas uma pequena obra-prima, Memórias de um Sargento de Milícias; José de Alencar, do qual li quase tudo; o meu querido Machado de Assis, principalmente o da segunda fase, cujo estilo sempre me encantou. E mais Aluísio de Azevedo e Raul Pompéia, sem contar os poetas, em particular Castro Alves, com sua poesia social que empolgava todos nós e cujos versos eram citações quase obrigatórias em nossos discursos.

Dentre os contemporâneos, devorei quase todos do ciclo nordestino, com preferência por Jorge Amado e Graciliano Ramos. Li, com entusiasmo, romances como Cacau, Jubiabá, Capitães de Areia e Terras do Sem Fim, embora me decepcionasse mais tarde com o caráter sectário de Os Subterrâneos da Liberdade. De Graciliano, li a obra toda, pois o velho Graça e Machado são minhas paixões na literatura brasileira.

Dos estrangeiros, sempre tive predileção pelos autores franceses e russos. Balzac, Flaubert, Stendhal, Maupassant e Victor Hugo logo se tornaram familiares a mim. Somente Proust vim a ler mais recentemente. Dos russos, também ficaram de fora muitos poucos. Li Tolstói, Turguniev, Gogol, Puchkin e, naturalmente, Dostoievski. Naquela fase da minha vida, os dois livros, de ficção e não-ficção, que mais me impressionaram foram, respectivamente, Crime e Castigo e Recordações da Casa dos Mortos.

Fascinante, como estudo psicológico, a história do intelectual que, friamente, sem motivo, decide matar a anciã, apenas para provar que poderia fazê-lo sem remorso. Concordo com Franklin de Oliveira, para quem um dos mais belos momentos da literatura universal é aquele em que Raskolnikov se ajoelha ante a prostituta Sônia e beija-lhe os pés, em homenagem a toda a humanidade sofredora.

Nenhum outro autor me causou tanto impacto, dentre de tantos que li. E não exagero se disser que, ao atingir a idade adulta, tinha lido pelo menos um livro de cada um dos autores considerados clássicos. Faço a observação sem nenhum laivo de vaidade, mas apenas para demonstrar a massa de leitura absorvida por muitos jovens do meu tempo. Sim, porque eu não constituía, de forma alguma, exceção.

Não deve causar admiração, portanto, que tenham surgido, bem ou mal, tantas vocações literárias. E que se proliferassem tanto as associações culturais. Porque foi um grupo Colméia, do qual já falei, que deu origem ao PTB local. Constituído informalmente, incluía entre seus membros o historiador Mário Ypiranga Monteiro, o único do grupo, talvez, que não se deixou seduzir inteiramente pela política.

Em seguida, nasceu a Sociedade Castro Alves, na qual se agregaram jovens que tinham em comum, além das veleidades intelectuais, a proximidade geográfica, pois quase todos moravam nas ruas adjacentes à Praça da Saudade. Recordo-me de três dos seus integrantes, Almino Affonso, Aloísio Nobre de Freitas e Paulo Monteiro de Lima. Este último foi, talvez, o maior talento poético daqueles anos. Infelizmente, boêmio e romântico, desperdiçou-o em grande parte e morreu muito jovem, sem editar um único livro. Popular, seus poemas de circunstâncias, satíricos, corriam de mão em mão e deliciavam a cidade. Mas também os poemas sérios que escreveu faziam muito sucesso.

Aliás, a poesia gozava de popularidade. Quando Rogaciano Leite, poeta cearense, esteve em Manaus, deu um recital no Teatro Amazonas, com casa cheia, e foi aplaudido como um astro de canção popular. Até os comerciais eram versificados, com as emissoras de rádio lançando ao ar, a todo instante, o jingle: “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal” ou então “Pílulas da vida do Dr, Ross, fazem bem ao fígado de todos nós”.

Nessa época apareceu também o Grêmio Álvares de Azevedo, fundado por Moacyr Vilela, Platão Araújo, Aluísio Sampaio, José Cidade e Roberto Jansen, e no qual ingressei mais tarde. Funcionava no prédio da Escola de Serviço Social, cedido por André Araújo. Ao ser admitido no grêmio, o novel associado era obrigado a ler um trabalho inédito de sua autoria.

Uma passagem cômica teve como personagem Danilo da Silva (Du Silvan), admitido no Grêmio por proposta minha. Por disposição estatutária, todo novo sócio estava obrigado a pronunciar um discurso escrito na sessão da posse. Mas Danilo, para exibir seus dotes de orador, pediu e obteve permissão para falar de improviso. Seu discurso foi bombástico, cheio de imagens grandiloquentes, marcado por gestos teatrais e pronunciado com voz embargada.

Súbito, a catadupa estancou. Durante um longo e interminável minuto, ante o desconforto dos presentes, o orador, emudecido, passeava os olhos inquietos, de um lado para o outro, em busca da palavra salvadora. Até que, constrangido, numa confissão pública, admitiu que havia decorado o discurso e fora traído pela memória. A sessão solene terminou em gargalhadas.

Um dia, uma briga interna no Álvares de Azevedo criou um grupo dissidente, formado por Alencar e Silva, José Cidade e Roberto Jansen, que saíram para fundar a Sociedade Amazonense de Estudos Literários – SAEL. Suas reuniões eram feitas numa sala do Instituto de Educação do Amazonas, e entre seus membros se incluía Astrid Cabral, que mais tarde se projetaria como poeta e contista, no sul do país.

SAEL e Álvares de Azevedo mantinham forte rivalidade e desenvolviam intensa atividade, através de promoções culturais a divulgação de trabalhos nos jornais locais. A desavença culminou com um charivari no Yara Bar, um botequim situado na Rua Marquês de Santa Cruz, entre a Alfândega e o Trapiche Teixeira, frequentado pelos trabalhadores do porto.

Uma noite, os membros do grêmio, já divididos em dois grupos, se desentenderam de vez e partiram para o desforço físico, numa pancadaria que terminou quando Moacyr Villela puxou o revólver e deu um tiro para o alto. Ninguém saiu ferido, a não ser o próprio Álvares de Azevedo que, cindido ao meio, nunca mais voltou a ser o que fora.

A dividir com a SAEL o prestígio da entidade jovem mais discreta, havia ainda o Grêmio Gonçalves Dias, integrado por Francisco Queiroz, Danilo da Silva e Othon Mendes, que se reunia na residência do último, na Avenida Joaquim Nabuco. Pouco a pouco esses grêmios se tornaram démodés e desapareceram.

Foram úteis, na medida em que se despertavam ou robusteciam o interesse de muitos jovens por assuntos culturais. Mas nada acrescentaram em termos de renovação. Na verdade, eram miniacademias, que reproduziam a Academia de Letras na forma e no espírito, e se diferenciavam muito pouco do modelo em que se haviam inspirado.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (33)


Por Jefferson Peres

No final dos anos 40 um grupo de adolescentes começou a se reunir no porão da residência de Anísio Mello, na Rua Dr. Moreira. Tinham entre si uma grande afinidade: eram todos poetas. Chamavam-se Carlos Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Alencar e Silva, Luiz Bacellar, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula. Ainda seguiam as escolas romântica, parnasiana e simbolista, e eram cultores de Castro Alves, Bilac e Cruz e Sousa.

Em 1951 o grupo se separou, quando Farias, Alencar, Tufic e Antísthenes empreenderam uma viagem ao sul, a fim de entrar em contato com os meios culturais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Na Paulicéia conheceram casualmente Ramayana de Chevalier, então assessor de Adalberto Vale, presidente da Prudência Capitalização, uma poderosa empresa do ramo de seguros. Graças a Ramayana, conseguiram o apoio financeiro de Adalberto e estenderam a viagem até Porto Alegre, de onde retornaram a Manaus. A viagem entusiasmou-os tanto que, dois anos depois faziam outra com destino ao eixo Rio-São Paulo.

Na segunda foram Alencar, Tufic e Guimarães, que já encontraram Antísthenes no Rio. Outra vez de volta a Manaus, chegaram definitivamente rompidos com os cânones acadêmicos e dispostos a empreender em nossa terra um movimento de renovação cultural. Faltava-lhes, porém, o instrumento adequado a ser utilizado na execução do projeto, pois eles continuavam a se reunir em bares e porões, para discursões muito proveitosas para eles mesmos, mas sem nenhuma repercussão no meio.

Em 1954 um outro grupo de jovens, com preocupações principalmente políticas, decidiu certa noite, num banco da praça da Polícia, fundar uma associação de estudos políticos, sociais e literários. Tomaram parte da reunião Saul Benchimol, Francisco Batista, Theodoro Botinelly, José Trindade, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Fernando Collyer e João Bosco Araújo.

Por sugestão de Saul, a agremiação adotou o nome de Clube da Madrugada, tanto pelos hábitos notívagos dos seus fundadores, como pelo caráter simbólico da palavra, a prenunciar um novo dia no panorama cultural da terra. E, a partir daí, passaram a se reunir todos os sábados, sempre no mesmo lugar. Logo, porém, tiveram ingresso os outros poetas da Rua Dr. Moreira, Alencar, Tufic, Guimarães e, um pouco mais tarde, Antísthenes, Luiz Ruas, Elson Farias e Ernesto Penafort, enquanto alguns dos sócios fundadores iam-se afastando gradativamente.

O Clube perdeu seu caráter eclético, sugerido na proposta original, para se tornar mais homogêneo, adquirindo uma feição nitidamente artístico-literária. Foi esse grupo de poetas que lhe imprimiu a marca e lhe traçou o rumo. Não só poetas, mas também ficcionistas e ensaístas, muito deles, aos quais se juntaram outros, como Ernesto Pinto Filho, Arthur Engrácio, Francisco Vasconcellos e Aluísio Sampaio, além de artistas plásticos, como Moacyr Andrade e Afrânio Castro, e musicistas, como Nivaldo Santiago e Pedro Amorim.

Estava deflagrado o movimento que iria provocar importantes transformações na literatura e na arte e nosso Estado. O sopro vivificador, ao subverter os valores estéticos, renovou profundamente em termos de linguagem, temática e estilo. Essa renovação continuou, por três décadas, até meados dos anos oitenta, apenas sem o ímpeto e a iconoclastia da fase inicial. Talvez o segredo do Clube seja explicado pela sistemática recusa que seus membros sempre opuseram às tentativas de transformá-lo numa entidade convencional. Nunca foi possível confiná-lo entre as paredes de uma sede ou aprisioná-lo na camisa-de-força de um estatuto.

Quem sabe por isso, não se burocratizou nem estagnou, continuando a fluir com suas águas oxigenadas, livremente, como um rio. Alegro-me de haver tomado parte nesse movimento, desde o início, praticamente, pois nele ingressei dois anos depois de sua fundação. Durante algum tempo exerci militância firme, enquanto alimentei pretensões literárias. Ocorre que essas ambições se exauriram com os sonetos da juventude.

Quando adquiri autocrítica suficiente para reconhecer que meus poemas eram definitivamente medíocres, decidi parar, livrando a arte poética de novos ultrajes. E, aos poucos, fui deixando de frequentar o Clube. Mas nunca formalizei meu desligamento. Nem poderia fazê-lo. Identificado com suas origens, ligado afetivamente à maioria dos seus membros, sinto-me preso ao Clube por amarras que nem o tempo nem o distanciamento físico poderão jamais dissolver.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (final)


Por Jefferson Peres

Em 1950 tinha início uma nova década e, também, a construção de um barzinho, sem nada de especial, mas que iria marcá-la profundamente. O local era um canteiro triangular, em frente ao Guarany, onde havia um antigo chafariz desativado e dois postes de sustentação da tela na qual se projetavam filmes ao ar livre.

Ao se erguerem os tapumes, correu o boato de que seria construído um posto de gasolina. A novidade não agradou os ginasianos, que ensaiaram um movimento de protesto e ameaçaram depredar a construção. Pressionado, o então prefeito Chaves Ribeiro aconselhou o proprietário a acelerar as obras, a fim de criar o fato consumado. Diante disso, foi abandonado o projeto original, de forma circular, por outro mais feio, retangular, que pôde ser construído em tempo recorde.

O êxito do bar foi imediato e se deveu a uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, sua localização, nas vizinhanças de dois cinemas, três colégios, um quartel, e mais, da então concorridíssima Praça da Polícia; segundo, a excelência do seu café, talvez o melhor da cidade; e, finalmente, a simpatia do proprietário, o português José de Brito Pina, extrovertido e conversador, que em pouco tempo chamava cada um dos frequentadores pelo nome.

Batizado oficialmente de Pavilhão S. Jorge, o barzinho era conhecido popularmente por Café do Pina e, mais tarde, República Livre do Pina, por constituir um microcosmo onde se reunia o que havia de mais representativo na cidade, para discutir livremente a respeito de tudo. Eram intelectuais, políticos, jornalistas, boêmios e estudantes que faziam dali o seu ponto de encontro diário. Muitos, como eu, compareciam duas vezes, ao fim da tarde e à noite. Mas havia quem desse três expedientes, como Sebastião Norões.

O Pina era a nossa cachaça ou entorpecentes. Se não tomássemos a dose diária, ficávamos inquietos e com uma sensação de vazio. Era lá que nos supríamos de informações, pois a toda hora estava chegando alguém com as últimas. As rodas se formavam em função dos assuntos predominantes. Havia a dos intelectuais, que conversavam principalmente sobre literatura e arte; a dos interessados em política, que a discutiam em nível local, nacional e internacional; a dos desportistas, cuja conversa se limitava praticamente a futebol; e dos versáteis, que falavam a respeito de tudo.

Mas nenhuma era estanque. Todos se conheciam e as pessoas ficavam circulando de um grupo a outro. Além dos habitués, que eram dezenas, muitos outros costumavam passar por lá de vez em quando. Se alguém desejava saber o que estava ocorrendo na cidade, no Brasil e no mundo, bastava dar um pulo até a República, para ficar perfeitamente atualizado. Curioso é que esse encontro diário de tantas pessoas, com pontos de vista diferentes e até antagônicos, gerasse discussões calorosas, mas sem nenhuma animosidade. Esse clima cordial e ameno jamais foi quebrado.

Mas houve um incidente entre dois poetas que merece ser contado. Um dos “habitués” do Pina se chamava Alberto Amorim, ou melhor, Alberto Urubatão Israel Barbosa de Amorim, mais conhecido por “ Boi Morto”, um apelido de origem desconhecida, talvez ignorada pelo próprio Alberto. Era uma figura estimadíssima, de permanente bom humor, que não se abalava nem quando lhe chamavam o apelido nem quando gozavam o seu discutível talento poético, manifestado na forma de superados sonetos parnasianos estampados na imprensa local.

Sem emprego fixo, militou na imprensa como repórter em quase todos os jornais da cidade. Vivia “liso”, a filar cigarros e cafezinhos dos amigos. Sua principal vítima era Moacyr Villela, amigo inseparável que o socorria nos momentos de maior aperto. Fisicamente, chamava logo a atenção. Estrábico, com óculos de grossas lentes, barrigudo, pé de papagaio, andar desengonçado, tornava-se ainda mais cômico quando soltava risadas sacudindo o corpo todo e pondo à mostra a dentadura bastante desfalcada. Nem por isso perdia a mania de galã. Vivia assediando as mulheres bonitas da cidade, solteiras, casadas e viúvas, através de longas conversas telefônicas.

Às vezes, as mulheres cediam às cantadas e marcavam encontros que terminavam sempre de maneira frustrante, quando elas, ao verem a figura pela primeira vez, mal disfarçavam a decepção e nunca mais voltavam a procura-lo. Mas ele não se dava por achado e insistia em alardear para os amigos histórias de conquistas imaginárias que ninguém levava a sério. Incapaz de atos violentos, algumas vezes, no entanto, se atritou com pessoas atingidas por sua língua solta e seus gestos irrefletidos.


O mais rumoroso desses incidentes envolveu o poeta Luiz Bacellar. Este obtivera, pouco antes, o primeiro lugar num concurso nacional de poesia promovido pela revista A Cigarra, com o “Soneto a Charles Chaplin”, uma pequena obra-prima digna de figurar em qualquer antologia. Boi Morto, então, comentou numa roda que Bacellar teria cometido plágio, sem revelar quem teria disso o poeta plagiado. Nem poderia, porque a acusação era injusta e descabida.

Quando Bacellar soube, ficou uma fera, como era natural. Mas, impossibilitado de aplicar um corretivo no outro, dada a desproporção física entre ambos, partiu para outro tipo de vingança. No dia seguinte publicou em O Jornal um soneto intitulado “Boi Morto” que iniciava com o seguinte quarteto: “É morto o boi, o mais cornudo boi / De toda a vacaria, e tal mau cheiro / Se evola da carcaça que o terreiro / Se empesta tanto que o fedor já dói.”

Grande foi a repercussão do poema, mas o alvo nesse dia não foi encontrado, para as chacotas inevitáveis. Enfurnado em casa, de lá mesmo telefonou para Bacellar marcando um encontro na Praça da Polícia à meia-noite. Temeroso, mas cheio de brio, o poeta, que sempre foi um notívago inveterado, aceitou o convite e, à hora combinada, plantou-se no local, à espera do antagonista.

Logo depois apareceu Alberto, que foi direto ao assunto. Com um recorte de jornal na mão, dirigiu-se a Bacellar, dizendo: “Está aqui o seu poema. Agora você vai engolir”. Ao que o poeta replicou: “Não engulo coisa nenhuma”. Ante a negativa, Alberto sacou de um revólver e apontou-o para o rosto de Bacellar, a um palmo de distância, gritando: “Você vai engolir, sim”. O confronto era desigual, pois o poeta, além de desarmado, tinha compleição franzina e nunca se envolvera numa luta física em toda a sua vida. Mas aconteceu o inesperado. Sob o impulso do medo, num reflexo de que ninguém o julgaria capaz, Bacellar, num gesto felino, arrebatou a arma da mão do adversário e atirou-a ao tanque próximo.

A seguir, preparou-se para enfrentar a arremetida do outro. Mas, para sua grande surpresa, Alberto, em vez de reagir com fúria, levou as mãos à cabeça e exclamou: “Não faça isso, que o revólver é emprestado!”. A seguir, pulou para dentro do tanque, onde ficou à procura da arma, em plena madrugada, com água pelos joelhos. Não voltaram a se hostilizar, mas também nunca mais se falaram. Alberto morreu, muitos anos depois, em Curitiba, certamente sem guardar, em seu espírito generoso, rancor algum de Bacellar.

Impossível enumerar todos os seus frequentadores, sem o risco de graves omissões. Mas, para homenagear a todos num só, devo ressaltar a figura do poeta Sebastião Norões. Começou a frequentá-lo desde a sua inauguração e assim continuou durante cerca de vinte anos, até morrer. E foi lá praticamente que se despediu da vida.

Promotor público e professor, morou sempre bem próximo ao Pina. Primeiro na casa de sua mãe, na Avenida Sete de Setembro. Depois, num pequeno apartamento, na Rua Rui Barbosa. Celibatário, sua vida era uma rotina diária entre o Tribunal de Justiça, o Ginásio, o Pina e o Guarany. Saía de um e entrava no outro, com paradas mais frequentes na República, para o bate-papo e o cafezinho, que consumia às dezenas, fumante inveterado que era. Sempre muito tranquilo, avesso a discussões, andava de roda em roda, mais ouvindo do que falando. Como já disse, de manhã, de tarde e de noite.

Certo dia, ele tomava o seu habitual cafezinho, no balcão, quando se sentiu mal. Socorrido, foi levado de carro para o Pronto-Socorro, onde morreu horas depois. Por uma coincidência feliz, as últimas imagens deste mundo que gravou na retina foram exatamente os três pedaços de chão que mais amou: o Pina, o Ginásio e o Guarany. O destino poupou a Norões o desgosto de assistir à decadência e ao melancólico fim da República. Anos mais tarde, sacrificado ao Moloch do trânsito, o Pavilhão São Jorge foi demolido. Algum tempo depois foi reconstruído. Mas quando isso aconteceu, já vivia das glórias passadas, com esmaecidos lampejos do brilho de outrora.

A República Livre do Pina desapareceu e o Clube da Madrugada, com a dispersão da velha-guarda, se modificou. Mas para mim ambos permanecem intactos, como símbolos do esforço de todos aqueles que persistem na busca onírica de um ideal de justiça e beleza, a ser perseguido sempre, como única maneira de se emprestar sentido à trajetória humana sobre a Terra.

O jardineiro no canteiro das palavras


Deonísio da Silva, em entrevista para Gabi no GNT

Por Deonísio da Silva

Quero ter com a língua portuguesa uma relação amorosa, cheia de toda ternura, de toques delicados, sem nenhuma agressão, de respeito mútuo e tratos justos. Se uma palavra não quiser entrar em minha frase, depois de algum olhar, convite ou sedução, não faz mal: vou namorar outra, até encontrar aquela que me foi destinada. E sei que foram muitas. E se ainda assim eu não encontrar quem me queira, inventarei a palavra apropriada. Foi assim que todas nasceram.

O texto não é o meu harém. As odaliscas que aqui dançam e cantam são ubíquas e podem dançar e cantar onde bem quiserem, pois são livres como eu. Quero viver na deliciosa companhia das efêmeras. Nenhuma delas precisa me amar eternamente. Quero apenas o amor fugaz, o brilho rápido, sua carinhosa atenção por poucos momentos: a vida é breve.

Não vou aprender as gramáticas dos séculos passados. Não me interessa. Não estou vivendo nele. O passado é como um cemitério: só há mortos e tristezas por lá. Flores, somente uma vez por ano. Sei que algumas arqueologias e estudos são importantes para o conhecimento. Mas eu sou jardineiro das palavras, não botânico.

Em vez dos cemitérios da língua, procuro as creches. Quero a língua balbuciada no berço, entre os choros da boca, o leite dos seios, a canção nos ouvidos e o caminho das mãos. A algazarra das creches me fascina tanto quanto os sussurros dos amantes ou o cochicho dos fofoqueiros, esses seres altruístas, tão modestos e solidários, a ponto de só se preocuparem com a vida dos outros, esquecendo-se das suas, segundo conceito delicioso do poeta Mário Quintana.

As canções populares me deixam todo arrepiado. Estou interessado no que todos têm para me contar: de novos ou velhos, todas as conversas me despertam para outros mundos, muitos dos quais eu nem sabia que existiam.

Abro os livros. Cheiro suas páginas. Suas palavras e eu tramamos uma sedução mútua e logo vamos para a cama. Lá é melhor de ler do que nos bancos escolares.

Se vou escrever, miro-me nos espelhos dos que me antecederam, sobretudo os clássicos. Mas quero ler também os escritores de hoje, que cantam, mugem ou gemem no seu tempo, que é também o meu.

Se me sobrar tempo, estudarei gramática, irei a Portugal. Tempo é o que não me falta, pois o prazer dispensa o tormento da pressa.

Parem a escola que eu quero descer. Não aguento mais tanta necrofilia, arqueologia e gramática. Castro Alves morreu de gangrena no pé. Cruz e Sousa foi conduzido doente num vagão de gado: ninguém o acompanhou ao sanatório. Machado de Assis, filho de uma lavadeira, nasceu num morro e era preto, pobre, órfão, epilético, gago, feio, casou com uma solteirona que tinha comido a merenda antes do recreio e não teve filhos.

Adianta saber tudo isso quando não se lê o homem? Poesias, contos e romances que todos eles escreveram, morrem abandonados todos os dias nas escolas. São poucos os que acendem uma vela para a memória de Castro Alves sobre os escravos e as paixões, de Cruz e Souza sobre as dores e os abraços, de Machado sobre amizades e traições. Poucos são os que guardam na lembrança uma boa frase ou um verso genial de qualquer dos escritores estudados. Entretanto, financiado pelo CNPQ ou pelo que eu-não-sei-pra-quê, todo ano um mestre bobo descobre qual deles tinha caspa, tuberculose ou unha encravada.

Eu amo línguas e literaturas, principalmente as que me são mais próximas, como a brasileira e a portuguesa, por razões semelhantes àquelas que me levam ao amor filial. Por isso, jamais as maltrato ou desprezo, fazendo de conta que não existem. Não domino a língua portuguesa: mantenho com ela uma relação de parceria. Não permito que, por ignorância minha, ela me leve a dizer o que não quero ou a não poder dizer o que quero. Do contrário, de que me servirá a liberdade de expressão?

Em língua portuguesa, expresso o que bem me apraz, olhando com atenção para ver se é canela ou sassafrás. Aos dicionários, empresários das palavras, com aquele enxame de vocábulos, dou uma atenção semelhante ao livreiro que me vende romances. Estou interessado no mel das abelhas, não em suas ferroadas ou no dono da colmeia.

Para ler por gosto, não é preciso dicionário. Não nos aborreçam com aleivosias, olhares à sorrelfa e outras vericúndias, procurando anástrofes e zeugmas, onde existem apenas metáforas. Discrepo sempre que alguém tenta o domínio pelo verbo, que é insuficiente para dizer as coisas, desde o princípio do mundo.

A língua é necessária, talvez seja a nossa melhor metade, mas não é absoluta. Se o fosse, os namorados não se beijariam, os sentimentos estariam sempre arrumados e não haveria literatura.


PS. O Português que todos devem aprender para uso próprio, não para ensiná-lo, como fazemos nós, os professores. Esta crônica foi escrita especialmente para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, por solicitação de Augusto Nunes, então seu diretor de redação. Repercutia crônica de Luís Fernando Veríssimo, intitulada O gigolô das palavras, que deu título também a um livro da professora Maria da Glória Bordini. Versões resumidas saíram também na revista Época e no Jornal do Brasil.