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sábado, outubro 14, 2017

Caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (3)




No dia seguinte à confissão de “Carioca”, o chofer Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, também resolveu abrir o bico na presença do juiz Ernesto Roessing.

Era o início da noite de 29 de março. O que o chofer disse foi o seguinte:

Que resolveu contar tudo que sabe a respeito dos acontecimentos do dia 5 de fevereiro;

Que no seu interrogatório no Tribunal de Justiça negou tudo, inclusive de ter prestado depoimento na Polícia, isso porque o Dr. Raimundo Nonato, por diversas vezes, aqui na penitenciária, pediu a todos os acusados para que negasse toda a participação na morte de Delmo Pereira;

Que também, além dessa recomendação do Dr. Raimundo Nonato de Castro, foi ameaçado por “Carioca”, “Pirulito” e “Puxa Faca”, caso contasse a verdade no Tribunal;

Que diante disso o acusado negou tudo no seu interrogatório, inclusive dizendo não ter nem prestado declarações junto à autoridade policial, quando na realidade deu depoimento na presença do coronel Pinheiro;

Que no dia 5 de fevereiro do corrente ano, o depoente passou o dia em casa e não teve conhecimento de nenhum movimento entre os choferes de praça sobre o assalto à ambulância;

Que às 18h, hora antiga, o acusado saiu de sua residência, em companhia de sua esposa, e que às 18h30, junto com sua esposa, se encontrava na Estação de Bondes;

Que nessa hora o depoente estava esperando o ônibus Excelsior, da linha da Praça 14, a fim de ir à casa de sua mãe;

Que em dado momento apareceu no local, isto é, na Estação de Bondes, o chofer Pedrinho, que estava num automóvel, e chamou o depoente;

Que Pedrinho pediu ao depoente para que fosse com ele até a Getúlio Vargas, porque os choferes de praça pretendiam assaltar a ambulância que conduzia Delmo;

Que Pedrinho informou ao depoente que Delmo seria interrogado pelos choferes com o objetivo de apontar os nomes de seus cúmplices no assassinato de José Honório;

Que atendendo ao pedido de Pedrinho, o acusado despediu-se de sua esposa, e entrou no carro;

Que Pedrinho ainda apanhou perto do Relógio Municipal os choferes João Borges, “Joaquim Mecânico”, Jorge de Souza e Benori Alencar;

Que Pedrinho então disse que iam para a Getúlio Vargas, porque já estava na hora de a ambulância sair e o automóvel parou no canto dessa avenida com a 24 de Maio, onde já se encontravam diversos carros;

Que então todos se dispersaram e uns cinco minutos depois, mais ou menos, o depoente viu a assistência sair do pronto-socorro e também viu diversos choferes correndo atrás dela;

Que logo que a assistência entrou na avenida Getúlio Vargas, o chofer Cesário já vinha pendurado atrás da mesma;

Que também correram atrás o chofer conhecido por “Garage” e Benori e estes três abriram a porta da ambulância, já no canto do Ginásio Amazonense, quando a ambulância se preparava para dobrar para a Sete de Setembro;

Que nessa ocasião o chofer “Carioca” e Benori e outros choferes, que não se recorda no momento do nome deles e nem pode identificá-los, correram para a frente da assistência procurando abrir as portas da frente;

Que “Carioca” conseguiu puxar o chofer Barroso Lotif, mas não conseguiu tirá-lo de dentro;

Que já atrás, com as portas abertas, Cesário puxou pela perna o agente policial que se encontrava no interior da mesma e conseguiu retirá-lo de lá;

Que o agente policial foi até espancado quando foi tirado da ambulância, porém conseguiu fugir;

Que Delmo Pereira, no interior da ambulância, ficou em pé, com os braços levantados, segurando-se na ambulância, e pediu socorro;

Que Cesário subiu e entrou no interior da ambulância, dando uma gravata em Delmo, e que quando Cesário conseguiu levá-lo até a porta da ambulância, “Carioca”, Benori e “Garage” puxaram Delmo pelas pernas e o retiraram da ambulância;

Que nesta ocasião viu o chofer “Garage” dar um pontapé no enfermeiro conhecido por “Gavião” e este saiu correndo;

Que Delmo foi conduzido para um carro Hudson que já estava ali parado e que, segundo ouviu dizer, em conversa com alguns choferes na avenida Getúlio Vargas, esse carro Hudson já se encontrava, desde às 18h, ali parado;

Que nesse carro entraram, além de Delmo, “Carioca”, Cesário, Waldemar Lemos e Benori, sendo guiado pelo chofer conhecido por “Bigode”;

Que o carro Hudson partiu imediatamente, descendo a avenida Sete de Setembro, não atendendo a nenhum apito dos guardas de trânsito;

Que atrás do carro Hudson ia um carro de nº 163, no qual estava o depoente, Jorge de Souza, Vicente Alencar e o chofer conhecido por “Cu de Vidro”, e que este carro era guiado pelo chofer Sebastião da Silva Pardo, conhecido por “Sabazinho”;

Que outros carros vinham também atrás e todos acompanhavam o carro Hudson, o qual entrou pela rua Itamaracá, Epaminondas, João Coelho e dobrou na estrada velha de São Raimundo;

Que o carro Hudson só parou perto do batuque da Mãe Joana e lá viu abrirem a porta para desengatarem a perna de Delmo e de Waldemar Lemos, que estavam presas;

Que logo depois apareceu o carro de “Pirulito”, que parou perto do carro Hudson e, aí, transferiram Delmo para o carro de “Pirulito”;

Que não sabe se “Bigode” recusou-se a continuar levando Delmo, mas ouviu quando Cesário, Benori e “Carioca” conversaram achando bom transferir Delmo para o carro de “Pirulito”;

Que o carro onde viajava o depoente parou logo atrás do carro de “Pirulito” e que Delmo, ao ser transferido para o referido carro, já ia sendo espancado por Cesário, “Carioca” e Benori;

Que então os choferes referidos disseram que, para despistarem a polícia, era preferível levar todos os carros para o Areal, que fica no Bombeamento;

Que continuaram a viagem e os carros acompanharam o carro de “Pirulito”;

Que o carro de “Bigode”, porém, ficou parado, não acompanhando os demais, não sabendo o depoente se ele voltou para a cidade;

Que ouviu dizer, no próprio local, depois de Delmo ter saído do carro, de que ele, já no carro de “Pirulito”, pisou o pé de “Pirulito”, com o intuito de acelerar a marcha e ir de encontro a um barranco, e que este pormenor foi contado pelo próprio “Pirulito”;

Que, em certo trecho da estrada, pararam todos os carros e resolveram levar Delmo por uma vereda e que saltaram vários choferes, tendo visto Manoel Cruz, Cesário, “Carioca” e outros que não chegou a ver, pois estava muito escuro;

Que todos caminharam pela vereda, mais ou menos uns mil metros e depois pararam;

Que Delmo ia caminhando a pé, sem camisa, ladeado por Cesário, Manoel Cruz e “Carioca” e diversas pessoas que iam acompanhando todos esses choferes;

Que Delmo não ia sendo espancado quando caminhava na vereda e que, uma vez parados, Manoel Cruz, Cesário e “Carioca”, ao mesmo tempo, pediram a Delmo para que ele confessasse o nome dos cúmplices no assassinato de José Honório;

Que, em dado momento, Manoel Cruz puxou de uma arma de fogo e disse a Delmo: “Você conta ou não conta, pois se não eu atiro!”;

Que Cesário disse a Delmo: “Como é, rapaz, você conta logo que é melhor pra ti!”;

Que então Delmo, procurando falar, citou os nomes de “Mal-de-Vida” e de Alberto;

Que então “Carioca” disse para Delmo: “Isso é mentira, você conta ou se não você vai apanhar muito!”;

Que aí o chofer Luiz, conhecido por “Mal-de-Vida”, puxou por uma faca ou punhal, não estando o depoente lembrado se era faca ou punhal;

Que nesse momento “Carioca” tomou a faca de Luiz e disse para Delmo: “Você agora vai contar de qualquer maneira!”;

Que então “Carioca” pediu a mão de Delmo e com aquela arma começou a furar os dedos de Delmo, pelas unhas, tendo furado todos os dez dedos;

Que Delmo disse: “Pelo amor de Deus, não me fure os dedos, pois vou contar a verdade!”, e ajoelhou-se;

Que nesse momento, ao se ajoelhar, Delmo dirigiu-se para Cesário e Manoel Cruz pedindo-lhes pelo amor de Deus que não deixassem fazer aquilo com ele;

Que a tudo isso o depoente assistiu ali de perto;

Que Cesário e Manoel Cruz se dirigiram a “Carioca” dizendo que ele parasse com isso, pois não era intuito matar o rapaz;

Que nessa ocasião apareceu o chofer conhecido por “Santo Pobre”, que vinha correndo pela vereda, chorando, e disse: “Seu desgraçado, você matou meu colega e por isso vai morrer”, e começou a dar bofetadas em Delmo;

Que Manoel Cruz agarrou-se a “Santo Pobre”, pedindo calma, mas que, apesar disso, “Santo Pobre” continuou a esbofetear Delmo, o qual já estava ensanguentado;

Que “Santo Pobre” foi afastado de perto de Delmo e que Delmo então pediu para que não fizessem aquilo com ele, pois ia contar a verdade para Cesário e Manoel Cruz;

Que nessa ocasião, “Santo Pobre” fez nova investida e desta vez pretendeu tomar o revólver de Manoel Cruz, mas foi agarrado por Cesário e, neste momento, o chofer Benori deu uma tapa em Delmo, derrubando-o no chão;

Que Delmo conseguiu levantar-se e, nesse momento, o chofer Jorge de Souza disse: “O negócio é não levar ele vivo, o negócio é matá-lo!”;

Que “Carioca” disse então: “O negócio é isso mesmo!”;

Que então “Carioca” disse: “Bem, agora vou dar a minha” e deu uma facada nas costas de Delmo, com a faca de “Luiz Mal-de-Vida”;

Que essa foi a primeira facada que Delmo levou;

Que então Delmo, ao receber essa primeira facada, começou a chorar e pediu ao seu Cruz que pelo amor de Deus ele não deixasse que ele, Delmo, levasse outras facadas;

Que “Carioca” dirigiu-se a todos dizendo que já tinha furado o homem e se ele fosse para a cadeia esperava que os colegas cooperassem com a manutenção de sua família;

Que, neste momento, apareceu “Santo Pobre”, que deu um pontapé no espinhaço de Delmo e este caiu no chão para não mais se levantar;

Que depois disso, o chofer Benori e mais o chofer “Cu de Vidro”, ambos com cipós, começaram a espancar Delmo;

Que então “Carioca” disse que o negócio agora era matar o homem e que, dizendo isso, “Carioca” cravou novamente a faca no ombro de Delmo, perto do pescoço;

Que essa foi a segunda facada que Delmo recebeu naquela noite;

Que então “Pirulito”, com outra faca, deu uma facada em Delmo na altura do peito, dizendo que já tinha dado a dele e perguntou quem queria dar facadas em Delmo;

Que a facada de “Pirulito” foi a terceira que Delmo recebeu;

Que nesse momento um paisano aproximou-se e disse: “Bem, eu vou dar duas facadas nele!”, e que não recorda em que região ele deu essas facadas, mas lembra-se de que foram duas facadas;

Que mais tarde, veio a saber, aqui na penitenciária, por intermédio de “Carioca”, de que esse paisano era um soldado da Aeronáutica;

Que essas duas facadas foram a quarta e a quinta que Delmo recebeu;

Que nesse momento também surgiu outro paisano, aliás, moreno, e que no local foi informado por Helvídio Alves de Oliveira, ser ele um engraxate;

Que esse engraxate veio junto com o chofer conhecido por “Puxa Faca” e que os dois perguntaram se Delmo estava vivo ou morto, responderam que Delmo estava morto;

Que o engraxate aproximou-se de Delmo e disse que ia furar o tal de Delmo nos olhos, para depois, refletindo, disse que não adiantava mais, e deu-lhe uma facada em outro local;

Que essa foi a sexta facada;

Que “Puxa Faca” também aproximou-se de Delmo, mas nesse momento o depoente retirou-se em companhia de Guilherme Monteiro e, pouco depois, ouviu dizer que “Puxa Faca” tinha dado duas facadas em Delmo e aberto o peito de Delmo;

Que essa façanha de “Puxa Faca” foi contada por ele próprio na presença de todos, no local do crime;

Que depois disso todos se retiraram e foram até a estrada onde estavam os carros e aí “Pirulito”, “Carioca”, Cruz, Cesário e vários outros, que não me lembro, combinaram ir buscar Delmo a fim de se certificarem se “Puxa Faca” tinha mesmo aberto o peito de Delmo e por isso todos voltaram ao local onde estava Delmo morto;

Que ao chegarem lá, o chofer “Pirulito” segurou as pernas de Delmo, enquanto que “Carioca”, Vicente Alencar e “Cu de Vidro” seguravam as mãos;

Que nesse momento surgiu “Santo Pobre” com um pau dizendo que ia quebrar a cabeça de Delmo, porém em vez de atingir a cabeça da vítima, acertou na munheca de “Carioca”, o qual estava ainda com a faca, não sabendo o depoente se a faca penetrou no corpo de Delmo;

Que “Carioca” disse que “Santo Pobre” tinha lhe quebrado a munheca, pelo que o depoente tirou um lenço do bolso e amarrou a munheca de “Carioca”;

Que aqui na penitenciária, “Carioca” disse ao depoente que, no momento em que ele amarrava a sua munheca com o lenço, ele estava com tanta raiva que quase furava o depoente com a faca;

Que, logo depois, “Pirulito” disse que era melhor levar Dalmo na mala do carro dele, “Pirulito”, a fim de jogá-lo na ponte que ficava ali perto, na cachoeira;

Que o objetivo era jogar Delmo na cachoeira para que a Polícia não conseguisse descobrir os autores da morte do mesmo;

Que surgiu uma voz, não sabendo de quem, dizendo que era melhor deixar Delmo ali naquele local, porque tudo aquilo ia dar “galho”;

Que “Pirulito”, Benori e “Carioca” ainda disseram que se ali tivesse uma cerca de arame farpado iam pendurar Delmo, fazendo o mesmo que ele fez com José Honório;

Que nesse momento apareceu Pedrinho convidando todos para se retirarem, pois a Polícia já estava perto e por isso se dirigiram pela vereda até a estrada, onde embarcaram nos carros;

Que já na estrada, Manoel Cruz em vez de dirigir-se para o seu carro, enganou-se, caminhando a pé, pela estrada, procurando o seu carro, e já ia a uma distância de cem metros na frente, quando Silas Araújo e vários outros que não se recorda, chamaram Manoel Cruz, comunicando-lhe que seu carro estava ali perto;

Que quando Manoel Cruz tomou o carro dele, já iam na frente os carros de “Pirulito”, Pedrinho, Sebastião da Silva Pardo e de Bertino Freitas, além de outros carros que já tinham vindo na frente;

Que o depoente tomou o carro de Manoel Cruz, guiado por ele próprio, e também viajavam nele Silas Araújo, Guilherme Monteiro e um sargento do 27º BC;

Que esse sargento se encontrava na estrada onde os carros estavam parados e que quando chegaram perto da ponte, Guilherme Monteiro disse ao sargento que era melhor ele descer do carro, para ele não se implicar com a Polícia, e por isso o sargento desceu, ficando na estrada;

Que vários carros conseguiram ir na frente, ficando atrás quatro carros, sendo que o primeiro dos quatro carros era o do senhor Cruz;

Que ao chegarem nos Bilhares, o Dr. Rocha Barros mandou que parassem todos os carros, ameaçando atirar, e prendeu todos os ocupantes dos quatro carros;

Que eram para ser presos 19 carros, porém os outros 15 conseguiram escapar antes que a Polícia chegasse;

Que o Dr. Rocha Barros mandou que todos saíssem dos carros, com as mãos para o ar, e perguntou por “Pirulito” e “Tambaqui”, e responderam que “Pirulito” já tinha ido embora;

Que o depoente não viu “Tambaqui” no local do crime;

Que o Dr. Rocha Barros mandou revistar todos os choferes, em fila de três, e perguntou a Cruz onde estava Delmo e como esse respondesse que não sabia, apareceu o investigador Bastos que bateu no braço de Cruz com um fuzil dizendo: “Você sabe, seu galego!”;

Que então Manoel Cruz disse que Delmo estava na estrada;

Que o doutor chefe de Polícia não encontrou nenhuma arma em poder dos choferes;

Que o soldado da Aeronáutica, depois que furou Delmo, jogou a sua faca no mato;

Que Manoel Cruz foi o chofer que indicou onde estava Delmo e por isso foi levado num Jeep até o local do crime;

Que em dado momento apareceu o ônibus Dom Bosco e o doutor chefe de Polícia disse que esse ônibus ia conduzir todo o pessoal para o Quartel da Polícia Militar;

Que foram 16 choferes conduzidos para a Polícia Militar, naquele ônibus, pois Manoel Cruz ficou para orientar as autoridades a fim de encontrarem o corpo de Delmo;

Que na Polícia Civil foi coagido por Bastos e os agentes Rosas e Lira, os quais pediram ao depoente que contasse a verdade;

Que confirma o seu depoimento prestado na polícia, pois contou a verdade, como está contando agora, neste momento;

Que foi recolhido a esta penitenciária dias depois, isto é, quinta-feira, dia 7 de fevereiro;

Que no dia 8, o Dr. Raimundo Nonato de Castro esteve aqui e dirigiu-se a todos os choferes dizendo-lhes que negassem o depoimento da polícia quando fossem chamados para depor no Tribunal;

Que aqui, na penitenciária, os choferes “Pirulito”, “Puxa Faca” e “Carioca” disseram a todos que havia necessidade de se negar a verdade dos depoimentos feitos na polícia, pois não adiantava acusar nem um nem outro;

Que ontem à tarde, o Dr. Raimundo Nonato de Castro esteve aqui na Penitenciária do Estado e mandou chamar “Pirulito”, “Puxa Faca”, “Carioca”, Benori e o depoente e que esse advogado conversou separadamente com cada um, sendo que o depoente foi chamado por último;

Que então o Dr. Raimundo Nonato de Castro disse ao depoente de que já tinha combinado com os outros quatro para que o depoente aparecesse como o autor da pancada com um pau na munheca de “Carioca”;

Que depois disso mandou o depoente embora e, quando retirou-se, viu o Dr. Nonato conversando com aqueles choferes referidos;

Que de noite o depoente ficou pensativo e quase não dormiu, pois não queria ser acusado de uma coisa que não fez;

Que no dia seguinte o depoente dirigiu-se a todos os choferes, isto é, hoje, dia 29, pela manhã, e disse a todos que desejava contar a verdade;

Que “Carioca”, “Pirulito” e “Puxa Faca” pediram ao depoente para que não contasse nada da verdade;

Que “Pirulito”, na presença de “Carioca”, disse ao depoente: “Rapaz, tira a minha facada e acusa Carioca de ter dado três facadas!”;

Que “Carioca” ficou calado e “Pirulito” ainda disse que ao sair daqui tiraria “Carioca” em dez dias da penitenciária, à custa de uma tuberculose;

Que “Carioca” e “Pirulito” ofereceram dinheiro ao depoente para que não acusasse eles como autores das facadas em Delmo, tendo o depoente recusado;

Que “Carioca” pediu ao depoente para que dissesse que ele, “Carioca”, tinha dado uma facada em Delmo, e Manoel Cruz e Cesário uma facada cada um;

Que o depoente respondeu que diria toda a verdade perante o juiz;

Que “Carioca” então disse ao depoente que se ele dissesse a verdade iria pedir ao juiz para que ele, “Carioca”, prestasse novas declarações e nestas acusaria o depoente como autor de uma facada;

Que aqui na penitenciária, o chofer “Toba de Vaca” disse para todos que foi ele quem ensinou o caminho da vereda para o “Puxa Faca” e que também foi ele que tinha dado umas navalhadas em Delmo;

Que “Mário Trezentos” e o chofer Bulhões declararam, aqui na penitenciária, que também se encontravam no local do crime naquela noite;

Que o depoente está contando toda a verdade, porém pode afirmar que não tocou em Delmo, nem para esbofeteá-lo, apenas apreciou todos os acontecimentos daquela noite, conforme já narrou acima.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado, pelo que lavrei este termo que lido e achado conforme vai devidamente assinado e rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Meritíssimo Juiz e pelo acusado.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (2)


A confissão de José Cesário de Oliveira teve o efeito de uma bomba de efeito retardado. De repente, todos os acusados, culpados ou inocentes, ficaram com uma pulga atrás da orelha.

Os culpados começaram a acreditar que a vaca estava indo para o brejo. Os inocentes começaram a vislumbrar uma luz no fim do túnel.

Considerado o mentor da operação, Ludgero Sarmento, o “Carioca”, estava se sentindo preso nas cordas, à espera de um nocaute demolidor.

Ele resolveu partir para o contra-ataque, antes que fosse tarde demais.

No dia 28 de março, três dias após a confissão de Cesário, também resolveu contar o que sabia.

A confissão de “Carioca” foi presenciada pelo juiz Ernesto Roessing, pelo promotor Domingos de Queiroz e pelos dois advogados do réu, Raimundo Nonato de Castro e Manoel José Machado Barbuda.

O que o chofer disse foi o seguinte:

Que o acusado não está aqui para acusar ou inocentar os seus companheiros, porém deseja esclarecer todos os acontecimentos que culminaram com a morte de Delmo Pereira;

Que deseja também o apoio dos companheiros no sentido de confirmarem as suas declarações, pois está disposto a contar tudo o que se passou;

Que sobre o assalto à ambulância do Serviço de Socorros de Urgência tem a informar o seguinte;

Que no dia 5 de fevereiro o declarante se encontrava de serviço no ônibus Líbano e deixou esse serviço às 18h, hora antiga;

Que depois disso saiu a pé e foi até a avenida Eduardo Ribeiro, onde encontrou-se com José Cesário de Oliveira e que José Cesário cientificou ao declarante o que ia acontecer;

Que então Cesário disse ao depoente de que já estava combinado com o Silvio de Oliveira de que iam assaltar a ambulância;

Que aí o depoente entrou no carro de José Cesário e se dirigiram até a casa de um senhor que conserta armas, no canto da Joaquim Nabuco com a rua dos Barés, e que esse senhor respondeu que as armas não estavam prontas, sendo dois revólveres, um de propriedade do chofer Tourinho e outra de propriedade de José Cesário de Oliveira;

Que não sendo possível levar essa armas subiram a avenida Joaquim Nabuco e, no trajeto, solicitou a Cesário que tinha necessidade de ir a sua casa, tendo sido atendido por Cesário;

Que se dirigindo pela Joaquim Nabuco, no canto da rua Lauro Cavalcante, viram uma ambulância parar e o doutor Rocha Barros saltou dessa ambulância;

Que Cesário então disse ao depoente que talvez o doutor Rocha Barros fosse para casa e que tudo estava pronto;

Que retificando o doutor Rocha Barros saltou no canto da Joaquim Nabuco com a rua José Paranaguá;

Que depois disso seguiram essa ambulância até o canto do Cinema Guarany e dali entraram na Sete de Setembro, subindo essa avenida e se dirigiram para a casa do depoente;

Que chegando em casa, entrou e apanhou uma faca, não tendo encontrado sua esposa;

Que, porém, quando saiu de casa, com a faca, sua esposa lhe chamou ao mesmo tempo que Cesário também lhe chamava e que por uns momentos ficou indeciso não sabendo se atenderia sua esposa ou se atenderia Cesário;

Que resolveu ir para o carro de Cesário e, daí, seguiram pela Sete de Setembro e foram até a avenida Eduardo Ribeiro e, aí, Cesário entregou o carro para um chofer que trabalha à noite no carro dele;

Que em seguida tomaram um carro, o depoente e Cesário, não se lembrando, presentemente, o número desse carro e não se recordando também do chofer, e foram até a Santa Casa de Misericórdia;

Que ao chegarem perto da Santa Casa, Cesário disse para o depoente: “Lá está o carro do Pirulito!”;

Que saltaram no canto da rua Dez de Julho com a Eduardo Ribeiro e ficaram escondidos atrás de umas mangueiras aguardando a chegada de uma ambulância e que pouco depois estacionou uma ambulância em frente da Santa Casa e Cesário dirigiu-se até lá;

Que logo depois Cesário assoviou e então o depoente e mais “Pirulito” foram até onde se encontrava Cesário, tendo este lhes informado de que Delmo não se encontrava nessa ambulância;

Que no local referido estavam parados muitos carros e, como Cesário lhes informou de que Delmo não estava nessa ambulância, “Pirulito” retirou-se para o seu carro, dele, “Pirulito”, e o depoente, em companhia de Cesário, entraram no carro do chofer Manoel Cruz, o qual estava sendo guiado pelo chofer Silas Araújo;

Que os demais carros tomaram outros rumos e o depoente com Cesário saltaram na avenida Getúlio Vargas no canto da Lauro Cavalcante;

Que nesse local se encontrava o chofer José Aguiar, vulgo “Cu de Vidro”, e que Cesário dirigiu-se a José Aguiar dizendo-lhe que ele esperasse por ali, enquanto ia avisar os demais companheiros;

Que para provar sua ida à oficina da Joaquim Nabuco com a rua dos Barés, em companhia de Cesário, para irem buscar os revólveres, aponta os nomes de Taurino José Mota de Siqueira, o qual os acompanhou até lá, e do dono dessa oficina, que veio saber chamar-se Manoel Lestão;

Que todos os carros de praça que iam aparecendo por ali, isto é, na avenida Getúlio Vargas e imediações, José Cesário ia avisando aos choferes de que eles ficassem aguardando;

Que Cesário disse ao depoente que Silvio Alves de Oliveira tinha combinado dar duas sirenadas da assistência antes de ela sair do Hospital do Serviço de Socorros de Urgência;

Que o depoente perguntou a Cesário porque é que ele sabia desse pormenor, tendo ele respondido que tinha passado a tarde com Silvio na “A Renascença”;

Que já nesse estabelecimento compareceu um cidadão que falou com o chofer Francisco das Chagas Barroso Lotif o qual se ofereceu a testemunhar esse encontro de Cesário com Silvio, naquela casa referida, e que esse cidadão é empregado dessa casa, não lhe sabendo o nome, porém poderá ser identificado por Lotif;

Que uns dez minutos antes da saída da ambulância do Serviço de Socorros de Urgência, um guarda do Corpo de Segurança, de nome João, bateu no ombro de Cesário, perto daquele hospital, perguntando-lhe o que havia de novo e ele respondeu que Delmo talvez se encontrasse ali dentro do Serviço de Socorros de Urgência;

Que então, por essas atitudes de Cesário, pensa ter sido ele o autor intelectual do assalto à ambulância;

Que depois, não se recordando bem da hora, mas possivelmente depois das 18h, hora antiga, ouviu-se o sinal dado por Silvio, isto é, aquelas duas sirenadas;

Que o depoente acredita na inocência de Lotif e que seria talvez pegado de surpresa e que conversando aqui na penitenciária com Lotif, este, por várias vezes, informou ao depoente de que não tinha conhecimento desse assalto e que foi Silvio quem lhe pediu para que descesse pela Lauro Cavalcante;

Que depois do sinal convencionado, a assistência desceu pela rua Lauro Cavalcante e entrou na Getúlio Vargas e que ao chegar no canto do ginásio já na avenida Sete de Setembro, cruzamento da avenida Getúlio Vargas, a assistência do Serviço de Socorros de Urgência parou;

Que veio a saber depois que Silvio, nessa ocasião, tinha fechado a chave de ignição e que o chofer Lotif se afobou, pisando no acelerador e afogando o veículo;

Que nesse momento todos correram em direção da ambulância que já estava com as portas traseiras abertas;

Que um agente da polícia que se encontrava dentro da ambulância saiu, não sabendo o depoente se foi puxado por alguém;

Que depois disso José Cesário de Oliveira entrou na assistência e, colocando uma das mãos atrás do pescoço do Delmo, o retirou do interior do veículo;

Que quando olhou para trás o depoente viu um carro Hudson parando atrás da assistência com a sua frente para a parte traseira da assistência;

Que não sabe se este carro já estava ali parado há muito tempo e também não pode informar de que rua veio e se o carro já estava ali com o objetivo de conduzir Delmo;

Que o depoente dirigiu-se até esse carro Hudson e abriu uma das portas e nesse momento já vinha Delmo sendo conduzido pelo ar, nos braços de muita gente, e lembrou-se de que Cesário ajudou a conduzi-lo;

Que Delmo entrou no carro Hudson e desceram a Sete de Setembro e que nesse carro iam as seguintes pessoas: o chofer “Bigode”, na direção do mesmo, Delmo Pereira, ao lado deste e o depoente ao lado de Delmo. Atrás estavam Benori, José Cesário e Waldemar Lemos;

Que desceram a Sete de Setembro, entraram na rua Itamaracá, continuaram pela avenida Epaminondas e avenida João Coelho;

Que ao chegarem no cruzamento da estrada de São Raimundo, o depoente disse que seu pé estava preso na porta do veículo e que nesse momento pararam o carro e José Cesário saltou dele em companhia de outro chofer que estava atrás, não se recordando quem foi o outro;

Que os dois saltaram para abrir a porta do carro e a porta foi aberta;

Que Cesário, depois disso, pediu ao chofer “Bigode” para que fosse mais devagar a fim de esperar os outros carros;

Que continuaram a marcha até chegarem à estrada velha de São Raimundo e que ali o depoente perguntou se iam a Flores, tendo Cesário dito que iam entrar na estrada velha de São Raimundo, o que foi feito;

Que chegaram até as imediações do Batuque da Mãe Joana e continuaram trafegando até passarem esse batuque;

Que nessa altura o chofer “Bigode” disse que não desejava continuar e parou o carro;

Que por isso o depoente saltou em companhia de Delmo, Cesário e Benori e o chofer “Bigode” voltou no carro para a cidade, em companhia de Waldemar, sendo que este último não chegou nem a saltar do automóvel;

Que logo depois chegou o carro de “Pirulito” e Delmo foi transportado para esse carro;

Que seguiram mais ou menos uns 200 metros e no carro iam “Pirulito”, guiando, Delmo Pereira, o depoente, Benori, na frente; atrás iam Cesário e mais outros, não se recordando do nome e do número desses outros;

Que após uns 200 metros, o carro parou e todos saltaram conduzindo Delmo por uma vereda;

Que Delmo não ia sendo espancado ou torturado;

Que caminharam nessa vereda, calculadamente, uns 200 ou 300 metros e que depois disso pararam e Delmo começou a ser interrogado;

Que o depoente perguntou a Delmo quem eram os cúmplices no assassinato de José Honório;

Que nesse momento surgiu o chofer Manoel Cruz, de revólver em punho, e pediu a Delmo que ele se afastasse três passos para morrer;

Que Delmo cumpriu essa ordem;

Que Manoel Cruz pediu para que todo mundo se afastasse de perto de Delmo, pois ali já estavam muitos choferes e algumas pessoas que não pertenciam à classe dos volantes;

Que aí uma multidão de gente caiu em cima de Delmo, dando-lhe murros e pontapés;

Que o local estava muito escuro e não pôde observar quais as pessoas que batiam em Delmo;

Que passado isto, Delmo ficou em pé e prosseguiu-se o interrogatório, o qual foi feito por Manoel Cruz;

Que Delmo então apontou como seus cúmplices dois nomes: Antônio Muniz e José Alberto;

Que José Cesário tomou nota desses nomes numa caderneta e que aqui na penitenciária o depoente procurou identificar esse José Alberto;

Que a muito custo conseguiu saber de que José Alberto é um soldado da Aeronáutica, número cinco, e atualmente se encontra em Belém, na Escola da Aeronáutica, fazendo um curso de Rádio Técnico;

Que esse soldado se encontrava no local do crime quando Delmo era interrogado;

Que José Alberto foi o autor da morte de Delmo, pois deu duas facadas em Delmo e que foram as primeiras;

Que o chofer “Santo Pobre” até disse ao depoente de que viu esse soldado dar uma facada em Delmo;

Que “Pirulito” também contou que José Alberto deu duas facadas em Delmo, uma no ventre e outra nas costas;

Que “Santo Pobre” ainda disse ao depoente de que José Cesário foi o autor de uma facada;

Que Benori também pode afirmar que esse soldado estava no local do crime, pois o conhecia antes e o reconheceu naquele local;

Que a faca usada por José Alberto foi reconhecida por Benori, pois este já tinha conhecimento de que José Alberto usava há muito tempo essa faca;

Que Manoel Cruz não chegou a disparar seu revólver em Delmo Pereira;

Que há uns 15 dias, o depoente pediu ao Dr. Nonato para que conseguisse uma permissão para ir procurar, no local do crime, essa faca, pois José Alberto, depois de furar Delmo, enterrou-a no chão por duas vezes e jogou-a fora;

Que o advogado presente, Dr. Raimundo Nonato de Castro, poderá confirmar essas declarações;

(Pela ordem, o Dr. Raimundo Nonato pediu a palavra, pela ordem, para confirmá-las e solicitar diligências a fim de se procurar essa faca. O preso continuou seu depoimento.)

Que pode afirmar que o responsável pela morte de Delmo foi esse soldado da Aeronáutica, José Alberto, e que o depoente não deu nenhuma facada em Delmo;

Que os responsáveis pelo assalto da ambulância pode afirmar que são Manoel Cruz e José Cesário;

Que aqui na penitenciária, por diversas vezes, José Cesário disse ao depoente que tinha remorsos de ter acusado Benjamin de Souza, pois este era inocente;

Que tomaram parte no assalto à ambulância o depoente, José Cesário, Benori, Pedro Paula de Farias, Jorge de Souza e outros que não se lembra, mas os que citou tem certeza de que tomaram parte;

Que recorda-se agora de Francisco de Souza Marques, Aurino do Espírito Santo Silva e Orlando Marreiro Lúcio, que tomaram parte no assalto à ambulância;

(Pela ordem, o Meritíssimo Juiz viu neste momento o chofer “Pirulito” apontando a pessoa de Orlando Marreiro Lúcio e imediatamente “Carioca” o incriminou como um dos autores do assalto à ambulância. O preso continuou seu depoimento.)

Que o depoente pode afirmar que todos estes esclarecimentos que está prestando é a expressão da verdade e que o único autor da morte de Delmo Pereira foi aquele soldado da Aeronáutica, José Alberto.

Do que para constar lavrei este termo que lido e achado conforme vai rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Juiz e pelo acusado.

Em tempo: o depoente ainda tem a declarar o seguinte: que quando saiu do local do crime, em companhia de “Pirulito”, Delmo ainda se encontrava com vida, embora esfaqueado, e vários choferes ficaram no local do crime;

Que no trajeto pela vereda era muito escuro e que apanharam o carro na estrada e, depois de caminharem uns cem metros, encontraram Manoel Cruz, a pé, também se dirigindo para a cidade;

Que o depoente viu o soldado da Aeronáutica dar uma facada em Delmo na altura do pescoço atingindo a clavícula, facada essa desferida quando esse soldado se encontrava pelas costas.

E lido e achado conforme vai rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Juiz e pelo acusado.

quinta-feira, outubro 12, 2017

Caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (1)


O delegado Manoel da Rocha Barros, principal testemunha de acusação dos motoristas

A prisão injusta e a posterior permanência na Penitenciária do Estado de vários motoristas inocentes começaram a perturbar o juízo de alguns dos verdadeiros participantes da chacina.

O suposto suicídio do motorista de ambulância Sílvio de Oliveira (para muitos ele foi morto por colegas como “queima de arquivo”) contribuiu para azedar o já irrespirável ambiente da cadeia.

Além disso, já que todo mundo – culpados e inocentes – havia negado a participação no crime do estudante, escaparia primeiro quem pudesse contratar bons advogados. 

A arraia miúda começou a ficar inquieta.

O primeiro a quebrar a auto-imposta e acordada “lei do silêncio” (conhecida entre os mafiosos como omertà) foi o acusado José Cesário de Oliveira.

No dia 25 de março de 1952, na presença do juiz Ernesto Roessing, Cesário resolveu fazer um “Termo de Confissão”.

O advogado do acusado, Milton Assensi, depois de tentar inutilmente impedir que Cesário prestasse as declarações, retirou-se da Sala de Audiência, em protesto.

O que o chofer disse foi o seguinte:

Que já há dias o acusado pretendia prestar declarações neste Tribunal a respeito de sua participação real e exata no crime do dia 5 de fevereiro;

Que no seu interrogatório feito neste Juízo não contou a verdade porque os primeiros choferes interrogados contavam na penitenciária que negaram a participação no crime e que uns até diziam que o interrogatório neste Tribunal era um “maná”;

Que por isso, em face da atitude dos primeiros interrogados, o acusado seguiu a mesma orientação e negou nesse Juízo sua participação no assassinato de Delmo;

Que as declarações prestadas junto às autoridades policiais são verdadeiras;

Que apesar de ter sido coagido na Polícia Civil o acusado contou a verdade perante o presidente do inquérito policial e até o doutor Domingos de Queiroz, terceiro promotor de Justiça, esteve presente quando prestava seu depoimento na Polícia Civil;

Que pensando melhor e verificando não ser o depoente o que dizem dele, isto é, um criminoso perverso e feroz, e como existem entre seus colegas denunciados elementos mais culpados do que ele resolveu fazer esta confissão para que não fique em igualdade de condições junto aos mais culpados;

Que o assalto à assistência não foi nada combinado ou pelo menos o acusado não teve conhecimento se havia premeditação a esse respeito;

Que no dia 5 de fevereiro do corrente ano, pelas 17h30, hora antiga, o depoente entregou seu carro para o chofer de plantão noturno de nome Hilton de tal e que depois disso esteve no Leão de Ouro, onde tomou um café e seguiu em direção de sua residência;

Que subiu, então, a pé, a avenida Sete de Setembro a fim de tomar um ônibus no canto da Joaquim Nabuco com aquela avenida;

Que ao chegar nesse local o depoente notou grande aglomeração de pessoas em frente ao hospital do Serviço de Socorros de Urgência e que, em face disso, o declarante caminhou até a rua Lauro Cavalcante e aí avistou o investigador Bastos, que estava numa caminhonete;

Que voltou novamente ao primeiro local, isto é, o canto da Joaquim Nabuco com a avenida Sete de Setembro;

Que pouco depois viu a assistência do Serviço de Socorros de Urgência sair desse hospital dobrar para a esquerda e entrar na rua Lauro Cavalcante;

Que nesse momento viu um ônibus e o depoente ficou indeciso se tomaria este ônibus para ir para casa ou se ficaria para ver o movimento daquela aglomeração de pessoas que seguia atrás da ambulância;

Que resolveu descer a Sete de Setembro e por isso não tomou o ônibus para ir para casa;

Que ao chegar ao canto do Cinema Guarany viu aquela ambulância, a qual vinha trafegando lentamente, com a sirene em funcionamento e uma das portas traseiras abertas;

Que a ambulância se encontrava bem em frente ao Cinema Polytheama, do lado do Ginásio Amazonense, quando verificou que a mesma estava com uma das portas traseiras aberta e que pouco depois esta porta fechou-se;

Que a assistência ao chegar no canto da Sete de Setembro com a Getúlio Vargas parou e neste momento o acusado aproximou-se pela parte de trás da ambulância;

Que ao chegar perto da parte traseira da ambulância o acusado viu as duas portas abertas e que nesse momento viu um cidadão que não conhece aproximar-se da parte traseira do veículo;

Que nesse momento um investigador que estava no interior da ambulância pulou da mesma para fora fugindo;

Que então viu Delmo Pereira segurando-se na ambulância com os dois braços levantados e apoiados num dos ferros do veículo;

Que o depoente nesse momento segurou uma das pernas de Delmo e puxou-o, porém Delmo conseguiu livrar-se;

Que um cidadão que não conhece puxou Delmo pela outra perna e Delmo novamente conseguiu livrar-se;

Que o acusado trepou na ambulância a fim de segurar Delmo por um dos braços, porém recebeu uma pancada na cabeça caindo ao solo e quando estava caído Delmo passou por cima do depoente já seguro por várias pessoas;

Que não sabia que pretendiam assaltar a ambulância;

Que Delmo da ambulância foi conduzido para um carro marca Hudson grande, não podendo informar se este carro estava ali previamente parado ou se ia chegando naquela ocasião;

Que o depoente também entrou naquele carro tendo reconhecido que no mesmo estavam as seguintes pessoas: na frente, Delmo Pereira, o chofer Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca” e um chofer que dirigia o carro, que mais tarde veio saber que se tratava do chofer conhecido como “Bigode”. Atrás ia o depoente, Waldemar Lemos e um chofer de nome Benori;

Que nesse carro desceram a Sete de Setembro, entraram na rua Itamaracá, seguiram na estrada da Epaminondas no rumo da avenida João Coelho, chegaram em frente ao estabelecimento denominado Remanso do Boto e entraram na estrada velha de São Raimundo;

Que durante o trajeto Ludgero Sarmento puxou de um punhal e ameaçou Delmo dizendo-lhe: “Seu patife, você agora vai dizer o nome de seus cúmplices da morte de José Honório!”;

Que o depoente mais Waldemar e o chofer “Bigode” protestaram junto a “Carioca” para que ele não matasse Delmo tendo até “Bigode” dito que no seu carro não se mataria Delmo;

Que entraram na estrada referida e pararam em frente de uma barraca e que outro carro encostou no carro de “Bigode” e uma voz perguntou pelo homem, sendo Delmo transferido para esse carro;

Que este último carro continuou a sua marcha e que o chofer “Bigode” resolveu voltar para a cidade, no que foi acompanhado por Waldemar Lemos;

Que o depoente também resolveu voltar, porém o carro quando fez a manobra seguiu novamente por isso o depoente ficou no local;

Que muitos carros nesse momento vinham chegando e muitas pessoas também se aproximavam e que o depoente resolveu continuar o caminho seguindo pela estrada atrás do carro onde ia Delmo;

Que a certa altura o carro que conduzia Delmo parou e daí vários choferes entraram por uma vereda conduzindo Delmo o qual no caminho era esmurrado e levava pontapés até que chegaram a um local onde todos pararam;

Que nesse local Ludgero Sarmento começou a interrogar Delmo perguntando-lhe quais eram os companheiros que o tinha ajudado a matar José Honório e então Delmo respondeu que ia dizer;

Que então Delmo disse que seus cúmplices eram Antônio Muniz e José Alberto;

Que durante esse tempo vários choferes espancavam Delmo, inclusive alguns populares, tanto assim que Manoel Cruz recomendava calma e que não fizessem aquilo com o rapaz, porém ninguém se entendia nessa ocasião;

Que Manoel Cruz dirigiu-se a Delmo e fez-lhe nova pergunta e Delmo então respondeu que seus cúmplices eram Antônio Muniz e José Alberto;

Que Manoel Cruz perguntou a Delmo quem era esse Alberto tendo Delmo respondido que ele se dirigisse a Antônio Muniz, pois esse sabia de tudo;

Que o depoente para se certificar perguntou a Delmo quem era o terceiro para que Delmo dissesse o nome dele e que Delmo então disse que o terceiro era José Alberto;

Que nesse momento Delmo, que estava com a boca e o nariz sangrando, respirou junto do depoente sujando-lhe a sua roupa com pingos de sangue, dele depoente;

Que o depoente afastou-se e tomou nota numa caderneta do nome de José Alberto;

Que depois disso “Pirulito” dirigiu-se a todos dizendo que Delmo já tinha confessado e deveria ser levado para a Polícia na mala do carro dele, “Pirulito”, e que todos deveriam se entregar à autoridade policial;

Que então ouviu-se uma voz que dizia que não se deveria levar Delmo à polícia, e sim matá-lo;

Que o depoente sugeriu que Delmo deveria ser levado à Polícia, pois todos ou alguns eram pessoas de responsabilidade e que não poderiam ser prejudicados;

Que outra voz se ouviu dizendo que Delmo deveria ser morto para que amanhã não matasse outro colega;

Que Manoel Cruz então falou em voz alta, e também o depoente, para que não matassem Delmo, pois todos tinham responsabilidade;

Que um chofer puxou de uma faca, porém Manoel Cruz atracou-se com este e tomou-lhe a faca;

Que este chofer o reconheceu na Penitenciária do Estado e é conhecido por “Santo Pobre”;

Que Manoel Cruz entregou a faca de “Santo Pobre” ao chofer de confiança de nome Silas Araújo, para que guardasse a faca;

Que Manoel Cruz procurou evitar que matassem Delmo dando empurrões em vários choferes ou pessoas que estavam lá;

Que fez isso a pedido de Delmo que solicitou de Cruz para que ele não deixasse fazer aquilo com ele, Delmo;

Que Manoel Cruz vendo-se impossibilitado de evitar a morte de Delmo resolveu retirar-se e convidou o depoente para acompanhá-lo;

Que atendendo o pedido de Cruz o depoente saiu do local dirigindo-se para o local onde se encontravam os carros parados na estrada;

Que durante o trajeto pela vereda várias pessoas corriam ora para o local onde Delmo estava, ora em sentido contrário e em dado momento ouviu uma voz dizer que haviam morto o Delmo;

Que surpreso com esta notícia o depoente voltou ao local e então viu Delmo debruçado, caído no chão, e que também estava no local o chofer Helvídio;

Que o depoente aproximou-se de Delmo e pegou o pulso dele e Helvídio então perguntou-lhe se ele estava morto e o depoente respondeu “mataram o homem!”;

Que depois disso Helvídio segurou o cadáver de Delmo e o virou, deixando-o com o peito para frente e as costas para o chão;

Que nessa ocasião o peito de Delmo ainda não se encontrava aberto;

Que Delmo já se encontrava sem camisa;

Que o depoente voltou para o local onde se encontravam os carros e que teve um pressentimento de que aquilo traria consequências desastrosas, pois tinha sido uma barbaridade o que fizeram com o Delmo;

Que nessa ocasião o depoente até chorou;

Que voltou para a cidade no carro de Manoel Cruz, guiado pelo chofer Silas;

Que ao chegarem nas imediações dos Bilhares foram presos pelo chefe de Polícia e conduzidos ao Quartel da Polícia Militar;

Que de vez em quando o policial Bastos ia buscar dois ou três choferes para conduzi-los à Chefia de Polícia e que o depoente foi conduzido a essa repartição pelo policial Raimundinho;

Que na Polícia Civil o investigador Bastos com o cassetete na mão dirigiu-se ao depoente e aí ele disse que tinha chegado a oportunidade de vingança e que Cesário ia lhe pagar o velho e o novo, pois há seis anos que aguardava essa ocasião;

Que o policial Bastos ainda intimidou o depoente e quis obrigá-lo que confessasse ser um dos autores da morte de Delmo, porém o depoente só contou a verdade do que aconteceu como está fazendo agora;

Que nessa mesma ocasião o policial também dirigiu-se ao chofer João Borges ameaçando de pancadas e depois conduziu este chofer ao xadrez não sabendo o depoente o que aconteceu depois com João Borges;

Que foi essa a participação do depoente nos fatos do dia 5 de fevereiro do ano corrente.

Do que para constar lavrei este termo, que lido e achado conforme vai rubricado por mim escrivão e assinado pelo juiz e pelo acusado.

sexta-feira, outubro 06, 2017

Caso Delmo: A versão dos acusados (8)


Auto de qualificação e interrogatório do réu Sebastião da Silva Pardo, vulgo “Sabazinho”, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 10h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª. Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Sebastião da Silva Pardo, vulgo “Sabazinho”, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Luiz Gonzaga Pardo e de Maria da Silva Pardo, residente e domiciliado nesta cidade, no Boulevard Amazonas nº 100, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava fazendo um serviço, no seu carro de praça, para um rapaz;

Que teve notícia do rapto de Delmo, mais ou menos às 19h45, por alguns populares quando se dirigia para o local do crime, na estrada de São Raimundo;

Que quando se deu o assassinato de Delmo, o interrogado se encontrava a caminho daquele local onde a vítima foi assassinada;

Que teve notícia desse assassinato quando foi preso, nas imediações dos Bilhares;

Que sobre as provas contra si já apuradas, principalmente referentes ao seu depoimento policial tem a dizer que não foi coagido pelas autoridades da Polícia Civil e procurou falar a verdade, esclarecendo o que sabia sobre os acontecimentos narrados na denúncia;

Que conhecia, de vista, a vítima há uns dois anos, pois muitas vezes ela fazia corridas no carro do interrogado, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria conhece apenas duas, também de vista, e que são Manoel da Rocha Barros e Manuel Rodrigues, nada tendo a alegar contra eles;

Que não conhece nenhum instrumento e objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois não assistiu o interrogatório e assassinato de Delmo.

Que também não tomou parte no assalto à ambulância;

Que não sabia se existia algum plano no sentido de assaltar a ambulância;

Que não esteve no Palácio Rio Negro numa comissão de choferes;

Que naquele dia, mais ou menos às 19h45, o interrogado se encontrava no “ponto” com o seu carro de nº 163, em frente ao Pavilhão;

Que entraram no seu carro várias pessoas as quais pediram ao declarante que as conduzisse para onde tinham levado Delmo;

Que algumas pessoas que embarcaram no seu carro eram choferes profissionais e chegaram até as imediações dos Bilhares onde foram presos pelo doutor Manoel da Rocha Barros e também aí já se encontrava o carro do chofer Cruz que vinha de dentro da estrada velha de São Raimundo;

Que não se recorda dos choferes e nem dos números dos carros que se encontravam naquele local;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Orlando Marreiro Lúcio, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 11h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Orlando Marreiro Lúcio, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 19 anos de idade, nascido no dia 27 de março de 1933, chofer, filho de Odilon Ribeiro Lúcio e de Raimunda Ribeiro Marreiro, residente e domiciliado nesta cidade, à avenida Joaquim Nabuco, Vila Pedrosa, nº 44, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado. Tendo o réu declarado ter 19 anos, o Meritíssimo Juiz nomeou-lhe curador, aqui presente, o Doutor Lopes Martins Filho, o qual aceitou.

Que ao tempo em que se deu a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado vinha descendo a avenida Getúlio Vargas, a pé, e estava nas imediações do posto de gasolina que fica no canto daquela avenida com a rua Dez de Julho;

Que teve notícia do rapto ao chegar na avenida Sete de Setembro, onde termina a Getúlio Vargas, no canto do Ginásio Amazonas e, aí, se encontrava uma multidão comentando que Delmo Campelo Pereira tinha sido raptado da ambulância do Serviço de Socorros de Urgência;

Que naquela ocasião seriam mais ou menos umas 19h35 e a ambulância já não se encontrava no local;

Que quando se deu o assassinato de Delmo o interrogado se encontrava nas imediações dos Bilhares, pois quando saiu do local do crime Delmo ainda estava sendo interrogado;

Que sobre as provas contra si já apuradas e referentes ao seu depoimento policial tem a informar que as suas declarações feitas junto à autoridade policial foram a expressão da verdade e contou o que sabia a respeito dos fatos narrados na denúncia;

Que não foi coagido e nem espancado e nem obrigado a declarar coisas que não aconteceram;

Que prestou esse depoimento numa das dependências da Polícia Civil por sua livre e espontânea vontade;

Que o interrogado confirma totalmente o seu depoimento prestado na Polícia Civil e que lhe foi lido agora neste momento;

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria o interrogado conhece de vista Manoel da Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe são apresentados;

Que é verdadeira a imputação que lhe é feita, isto é, esteve no local do crime e assistiu o interrogatório e espancamento de Delmo, porém não esteve presente quando Delmo foi assassinado;

Que conforme já disse, quando se encontrava nas imediações do Ginásio Amazonas, onde teve conhecimento do rapto de Delmo, viu um carro cheio de choferes os quais o convidaram a embarcar;

Que não se lembra do nome desses choferes e nem do número do carro;

Que, em companhia desses choferes, o interrogado foi conduzido pela estrada velha de São Raimundo e pararam um pouco acima onde fica o Batuque da Mãe Joana;

Que ali já se encontravam diversos carros, não se lembrando do número deles;

Que no momento não se lembra dos choferes que estavam naquele local e, logo depois, seguiram por uma vereda e caminharam uns trezentos a quatrocentos metros e chegaram ao local onde se encontrava Delmo Pereira;

Que nesse local Delmo estava sendo interrogado pelo chofer Cesário e pelo chofer Cruz;

Que o chofer Cruz não se lembra se estava de arma em punho;

Que neste momento não se lembra dos nomes dos choferes que espancavam Delmo;

Que Delmo pedia aos choferes que não o matassem;

Que se encontravam nesse local, entre outros, “Pirulito”, Manoel Cruz, Cesário, “Puxa Faca” e “Carioca”;

Que no momento não se recorda dos outros;

Que não podendo mais suportar essas cenas o interrogado retirou-se e foi até o local onde tinham parado os carros;

Que o interrogado ficou um pouco nesse local porque não tinha condução e por isso esperou a volta dos choferes que estavam no local onde Delmo era interrogado;

Que quando voltaram o interrogado entrou no carro nº 163, onde também embarcaram mais seis choferes;

Que não se recorda no momento desses choferes e quando chegaram nas imediações dos Bilhares foram presos;

Que apesar de não se lembrar dos nomes desses choferes alguns deles estão na Penitenciária do Estado;

Que o interrogado esteve no local do crime apenas por curiosidade;

Que não tinha conhecimento de que alguns choferes pretendiam raptar Delmo do poder da Polícia;

Que durante a sua permanência na Polícia Civil foi bem tratado pelas autoridades policiais;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 15h,onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara , comigo escrivão interino, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 23 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Manoel de Souza Marques e de Maria Minigilda de Souza, residente e domiciliado nesta cidade, à rua General Glicério nº 585, atualmente preso e recolhido a Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava na Estação de Bondes, pelas 19h e alguns minutos;

Que teve notícia desse rapto por populares no “ponto” na estação referida;

Que ao tempo em que se deu o assassinato de Delmo, o interrogado se encontrava num carro de praça a caminho do local do crime;

Que teve notícia da morte na Estação de Bondes, por intermédio de populares;

Que sobre as provas contra si já apuradas, principalmente no seu depoimento policial, pode informar que procurou dizer a verdade às autoridades policiais, apesar de ter sido espancado pelos agentes Bastos e Rosas;

Que retificando o que disse acima o interrogado não prestou depoimento na Polícia, pois não foi interrogado pelas autoridades policiais;

Que assinou o seu nome na Polícia no Gabinete de Identificação com o senhor Arthur Costa o qual ainda lhe tirou impressões digitais;

Que não conheceu Delmo Pereira;

Que não conhece nenhuma das testemunhas arroladas pela Promotoria Pública;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que não tomou parte no assalto à ambulância e nem esteve no local onde Delmo foi assassinado;
Que foi preso nos Bilhares, quando se dirigia ao local do crime por simples curiosidade;

Que apesar de ter ido com outros choferes até os Bilhares, não se lembra do nome de nenhum deles;
Que nunca foi preso e nem processado;

Que é novato nesta cidade, estando aqui há uns dois meses, vindo de Itacoatiara;

Que o que assinou na Polícia foi apenas um documento com o senhor Arthur Costa;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Vicente Gonçalves Alencar, na forma abaixo:

Aos 7 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que segue.

Que se chama Vicente Gonçalves Alencar, brasileiro, natural do Ceará, casado, com 40 anos de idade, chofer profissional, exercendo suas atividades na Diretoria dos Correios e Telégrafos, alfabetizado, filho de Antonio Gonçalves Nunes e de Maria Gonçalves Alencar, residente e domiciliado nesta cidade, no Beco do Macedo, s/nº, atualmente preso e recolhido na Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava de serviço nos Correios e Telégrafos e saiu dessa repartição mais ou menos às 19h35, hora antiga;

Que teve notícia do rapto de Delmo, quando ainda se encontrava nos Correios, por comentários de populares que passavam por lá naquela noite;

Que quando se deu o assassinato de Delmo o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal, isto mais ou menos às 20h, hora antiga;

Que teve notícia do assassinato de Delmo no dia seguinte quando foi preso pela Polícia Civil;
Que sua prisão deu-se pelas 6h30 da manhã do dia 6 de fevereiro;

Que sobre as provas contra si já apuradas e principalmente no depoimento que prestou na Polícia Civil, tem a dizer que não esteve no local do crime;

Que procurou esclarecer o que sabia a respeito do caso junto às autoridade policiais;

Que prestou o seu depoimento na Polícia Civil livre e espontaneamente;

Que antes de prestar depoimento foi ameaçado pelo agente Bastos de levar umas borrachadas se não contasse o que ele desejava;

Que o interrogado, apesar dessas ameaças, contou às autoridade policiais tudo o que sabia sobre os acontecimento do dia 5 de fevereiro deste ano;

Que esse depoimento, que agora lhe foi lido neste momento, em parte é verdadeiro e parte não exprime a verdade, naturalmente houve deturpação de suas palavras por parte da autoridade policial;

Que realmente tomou um carro naquela noite, com alguns choferes, que não se recorda dos nomes, e chegou até uma vereda além do Batuque da Mãe Joana;

Que daí ouviu uns gritos que partiam de longe;

Que se lembra de Joaquim Mecânico o qual se encontrava naquela vereda;

Que desse local o interrogado voltou e ao chegar na entrada da estrada, nas imediações da casa de João Isaac, viu vários carros de praça presos pela Polícia;

Que o interrogado conseguiu sair do local a pé e ao chegar ao Entroncamento encontrou-se com o chofer “Picadinho”, o qual lhe conduziu à sua residência;

Que não conheceu Delmo Pereira;

Que das testemunhas arroladas pelo Promotor de Justiça, conhece de vista Manoel da Rocha Barros e Manoel José Antunes, nada tendo a alegar contra elas;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe é apresentado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois como já disse só chegou até a vereda referida, retirando-se daí para sua residência;

Que não tomou parte no assalto a ambulância e também no interrogatório, espancamento e assassinato de Delmo;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.


Se em seus depoimentos os verdadeiros autores do crime tergiversavam, mentiam e caíam em contradições flagrantes, a situação dos inocentes que haviam sido presos arbitrariamente pela Polícia também era complicada.

Eles negavam peremptoriamente a sua participação no assassinato de Delmo, mas como saber a verdade se os réus confessos também estavam negando tudo?

O que supostamente diferenciava os inocentes dos culpados era que os inocentes, em seus depoimentos prestados na Justiça, em nenhum momento denunciavam maus-tratos recebidos na Polícia quando prestaram os primeiros depoimentos sobre o caso.

O Ministério Público deve ter levado isso em consideração quando se pronunciou a favor da inocência dos mesmos e obteve do juiz Ernesto Roessing a revogação imediata de suas prisões ilegais.

Esse pequeno detalhe pode ser percebido nos depoimentos de Benjamin Perpétuo de Souza, Antônio Fernandes Prata, Cassiano Cirilo Anunciação e Waldemar Augusto Lemos, entre outros.

Entretanto, como toda regra tem exceção, pelo menos um inocente da gema afirmou ter sido espancado pela Polícia – e devia estar falando a verdade! – para confessar o crime. Foi o preso Sebastião Amazonas da Silva, que exames posteriores mostraram ser portador de doença mental.

Em um de seus delírios de grandeza, Sebastião contou a um enfermeiro do Hospital Colônia Eduardo Ribeiro, onde ambos trabalhavam, que havia participado da chacina do estudante. O enfermeiro avisou a Polícia e esta se encarregou do resto.

Caso Delmo: A versão dos acusados (7)


Auto de qualificação e interrogatório do réu Luiz Albano da Costa, na forma abaixo:

Aos 4 dias do mês de março de 1952, nesta cidade de Manaus, Capital do Amazonas, no Palácio da Justiça , em meu Cartório, pelas 17h30 (hora oficial de verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão ad-hoc, adiante nomeado, compareceu o réu deste processo, o qual depois de ouvir a denúncia de folhas duas a seis e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que adiante se vê.

Que se chama Luiz Albano da Costa, natural do Estado do Amazonas, solteiro, com 21 anos de idade, tendo completado essa idade em agosto do ano passado, filho de Alberto da Costa Albano e de Maria Clarice da Conceição, residente na rua Tefé s/nº, no bairro da Cachoeirinha, chofer profissional, exercendo essa profissão nesta cidade, que não sabe ler mas sabe assinar o nome;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é, o rapto e assassinato de Delmo, o interrogado se encontrava em sua residência;

Que teve notícia da infração às 20h30 no seu ponto na Estação de Bondes;

Que sobre as provas contra si já apuradas referentes ao seu depoimento prestado na Polícia tem a dizer que o mesmo não é verdadeiro, pois foi obrigado a contar coisas que não fez e não viu;

Que prometeram levar o interrogado ao Parque Dez a fim de seviciá-lo caso não contasse o que a Polícia queria.

Que na Polícia Civil não foi espancado, porém levou uns empurrões;

Que não conhece os policiais que o ameaçaram e o coagiram;

Que não conheceu a vítima;

Que não conhece as testemunhas arroladas pela Promotoria Pública;

Que não conhece nenhum objeto ou instrumento que ora lhe é apresentado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita pela Promotoria, que como já disse o interrogado não se encontrava no local do crime e nem esteve lá;

Que o interrogado foi preso na Estrada dos Bilhares, pelas 21h, mais ou menos;

Que o interrogado desceu do ônibus no fim da linha dos Bilhares e saltou do mesmo;

Que isto se verificou mais ou menos pelas 21h e como visse uma aglomeração de pessoas na curva da linha do bonde de Flores, quando o bonde toma a reta para Flores, o interrogado aproximou-se daquele pessoal e como estava fardado de chofer, ali mesmo foi preso pela Polícia;

Que não sabia que pretendiam raptar Delmo;

Que não se lembra e nem sabe o nome dos outros choferes que foram presos com o interrogado;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogado constituído.

E, como nada mais disse e nem lhe foi perguntado deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado por quem de direito.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Guilherme Monteiro da Silva, na forma abaixo:

Aos 5 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 8h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de Juiz de Direito, comigo escrivão interino, adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Guilherme Monteiro da Silva, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 25 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Frederico da Silva e de Maria Mendes Monteiro da Silva, residente e domiciliado nesta cidade à rua Ramos Ferreira nº 1786, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que se deu a infração, isto é, quando se deu o rapto de Delmo, o interrogado ia chegando num ônibus na avenida Eduardo Ribeiro;

Que ao tempo em que se deu o assassinato de Delmo, o interrogado estava se dirigindo para o local do crime;

Que teve notícia do rapto de Delmo, na avenida Eduardo Ribeiro e aí um popular lhe informou de que Delmo iria ser interrogado por alguns choferes para confessar o seu crime;

Que o interrogado por isso tomou um carro e dirigiu-se para o local onde iam interrogar Delmo;

Que sobre as provas contra si já apuradas, notadamente em seu depoimento prestado na Polícia, tem a dizer que não confirma esse depoimento, porque foi coagido pelas autoridades policiais, pois foi preso no dia 5 de fevereiro e interrogado no dia 7 do mesmo mês e durante esse período não lhe deram de comer e nem de beber;

Que foi forçado a prestar esse depoimento e como estivesse nervoso, citou o nome de “Pirulito”, porque ouviu referirem esse nome várias vezes na Polícia;

Que não foi espancado e nem ameaçado pela Polícia e, como já disse, apenas sofreu fome e sede;

Que não conheceu a vítima;

Que não conhece as testemunhas arroladas pela Promotoria de Justiça;

Que não conhece nenhum instrumento e nem objetos que ora lhe são apresentado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois não esteve no local onde Delmo foi assassinado, porém esteve na entrada do varadouro, mas o interrogado não seguiu mais para a frente;

Que o interrogado foi preso nos Bilhares, num dos últimos carros que voltavam, no dia 5 de fevereiro, de noite;

Que não se recorda dos nomes dos companheiros que foram presos com o interrogado;

Que no seu depoimento policial não citou nenhum nome de chofer e não leu esse seu depoimento;

Que, como já disse, quando soube do caso, o interrogado em companhia de outros choferes dirigiu-se ao local do crime, porém ficou no varadouro;

Que não se lembra e nem conhece os choferes que foram com o interrogado até lá;

Que também não conhece os choferes que estavam no local;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu João Jovino Borges, na forma abaixo:

Aos 5 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, em meu Cartório, pelas 10h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino, adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama João Jovino Borges, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 39 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de João da Silva Borges e de Joana Jovina de Jesus, residente e domiciliado nesta cidade, à avenida Getúlio Vargas, nº 33, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometida a infração o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal, isto é, desde o rapto de Delmo e de seu assassinato;

Que teve notícia da infração quando o interrogado, casualmente, ia dar um passeio no seu carro particular e, ao chegar nas imediações dos Bilhares, viu vários carros voltando para a cidade e, aí, ouviu comentários de que Delmo tinha sido assassinado;

Que sobre o seu depoimento prestado na Polícia, tem a declarar que estava inconsciente, pois estava esfomeado e com sede e antes de prestar as suas declarações levou umas borrachadas e uma bofetada do policial Bastos, perdendo os sentidos;

Que meia hora depois desse fato, o interrogado prestou o seu depoimento;

Que o agente Bastos disse ao declarante de que ele tinha de dizer o que ele Bastos queria e por isso deu o seu depoimento de acordo com as instruções de Bastos;

Que não conhecia a vítima;

Que não conhece as testemunhas arroladas pela Promotoria de Justiça;

Que não conhece nenhum instrumento e os objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois como já disse, casualmente se encontrava na Estrada dos Bilhares, quando foi preso pela Polícia;

Que não se lembra do nome dos outros choferes que foram presos pela Polícia;

Que não esteve no local do crime e nem assistiu o seu interrogatório;

Que não falou nessa noite com o chofer Arthur Souza;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pela que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Newton Almeida Palmeira, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 8h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Newton Almeida Palmeira, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 25 anos de idade, chofer profissional, alfabetizado, filho de Antonio Sena Palmeira e de Virginia Almeida Palmeira, residente e domiciliado nesta cidade, à avenida Sete de Setembro, nº 1833, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado.

Que ao tempo em que se deu a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava no “ponto” no Pavilhão Universal, isto pelas 19h30, hora antiga;

Que teve notícia desse rapto por intermédio de populares, naquele mesmo pavilhão, às 19h45, mais ou menos, hora antiga;

Que ao tempo em que Delmo foi assassinado o interrogado estava de serviço conduzindo um passageiro para o bairro da Cachoeirinha, mais ou menos às 19h55, hora antiga;

Que sobre as provas contra si já apuradas, principalmente o seu depoimento prestado na Polícia Civil, tem a informar que o mesmo não merece fé, pois foi obrigado a confessar sua participação no crime sob ameaça pelos agentes policiais Lima e Rosas;

Que o interrogado foi ameaçado por aqueles policiais os quais lhe disseram se ele não contasse o que eles queriam seria remetido à Força Policial e aí, em poucos minutos, contaria a verdade.

Que passou 48 horas no xadrez e só lhe deram um pedaço de pão, que aliás foi dado por um agente da polícia que naturalmente teve pena do interrogado;

Que não conhecia a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela promotoria conhece Manoel da Rocha Barros e Manoel José Antunes, apenas de vista, nada tendo a alegar contras as mesmas;

Que não conhece os instrumentos que ora lhe são apresentados, mas reconhece um paletó de linho pardo, de três botões, feito na Alfaiataria Serrão, como sendo de sua propriedade e que lhe foi apreendido pela Polícia;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita pela Promotoria Pública;

Que não esteve no local do crime;

Que também não tinha conhecimento de que iam assaltar a ambulância para retirar Delmo da Polícia;

Que não esteve no Palácio Rio Negro integrando uma comissão de choferes;

Que não sabe o que essa comissão foi fazer naquele Palácio;

Que como já disse na hora do crime o interrogado conduzia um freguês para o bairro da Cachoeirinha;

Que depois de deixar o freguês na rua J. Carlos Antony, o interrogado voltou para o “ponto”, tendo antes estacionado na casa de sua irmã onde a informou de que Delmo tinha sido raptado;

Que no pavilhão referido soube de que Delmo tinha sido assassinado e que os estudantes andavam assaltando os carros de praça e por isso recolheu o carro na casa do senhor Sales, na Cachoeirinha;

Que naquela mesma noite, mais tarde, na casa do senhor Sales, onde o interrogado dormia, compareceu o agente Bastos e Manoel José Antunes perguntando por “Pirulito”;

Que esses dois senhores revistaram a casa e depois foram embora;

Que foi preso no dia 8 de fevereiro, pelas 14h30, quando trabalhava no “ponto” e daí conduzido à Chefatura de Polícia;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Helvidio Alves de Oliveira, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo, o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Helvidio Alves de Oliveira, brasileiro, natural do Estado do Maranhão, casado, com 27 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Bernardino Prudêncio Gomes e de Tereza Alves de Oliveira, residente e domiciliado nesta cidade, à rua Ipixuna nº 62, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal;

Que ao tempo em que Delmo foi assassinado se encontrava em viagem rumo à Estrada dos Bilhares;

Que teve notícia do rapto de Delmo por intermédio de um chofer, quando se encontrava naquele pavilhão, porém não sabe o nome dele;

Que teve notícia do assassinato de Delmo, no próprio local do crime, pois o viu morto;

Que sobre as provas apuradas contra o interrogado, principalmente sobre o seu depoimento prestado na Polícia, tem a dizer que este depoimento, feito pelo interrogado junto às autoridades policiais, foi a expressão da verdade e contou o que viu naquela noite;

Que não foi ameaçado ou espancado na Polícia Civil e prestou aquele depoimento livre e espontaneamente;

Que não conhecia a vítima;

Que conhece de vista as testemunhas Manoel da Rocha Barros e Manoel José Antunes, nada tendo a alegar contra os mesmos;

Que não conhece as outras testemunhas arroladas pela Promotoria;

Que não conhece os instrumentos e objetos que ora lhe são apresentado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois não tomou parte no rapto e nem no assassinato de Delmo e nem cooperou para a realização desses crimes;

Que naquela noite, à 19h15, mais ou menos, hora antiga, o interrogado se encontrava no “ponto”, isto é no Pavilhão Universal;

Que pouco depois foi avisado por um chofer, que não sabe o nome, mas que trabalhava no carro 195, de que Delmo Pereira tinha sido raptado por uns choferes, para obrigá-lo a confessar o nome dos cúmplices no assassinato de José Honório;

Que por isso o interrogado embarcou no carro 132, a fim de ir ao local onde iam interrogar Delmo;

Que além do interrogado, embarcaram naquele carro, uns seis ou sete choferes, não se lembrando do nome de nenhum deles;

Que seguiram também vários outros carros e tomaram pela avenida João Coelho e foram trafegando até chegarem um pouco adiante do Batuque da Mãe Joana;

Que aí pararam o carro e seguiram a pé até o local onde se encontrava Delmo;

Que o interrogado, no meio do caminho, parou um pouco pois estava cansado, mas depois continuou até chegar ao local;

Que então viu Delmo prostrado no chão rodeado por muitos choferes;

Que o interrogado viu o chofer Cesário tomar o pulso de Delmo e declarar “está morto”;

Que não se recorda e não pode identificar quais os outros choferes que estavam no local;

Que o interrogado foi preso quando voltava com alguns companheiros já nas imediações dos Bilhares;

Que não sabia que alguns choferes pretendiam raptar Delmo do poder da Polícia;

Que não esteve numa comissão de choferes no Palácio Rio Negro;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme, vai devidamente assinado.