Um dos itens mais aguardados pelas duas galeras são as
apresentações dos Tuxauas (mais conhecidos como “capacetes”) em momentos
diferentes do espetáculo, de acordo com o enredo.
Os Tuxauas são verdadeiras esculturas humanas, “vestidos” em
fantasias extremamente criativas de até três metros de altura por dois metros
de largura, com cada “cangalha” pesando em torno de 40 quilos.
Por conta disso, eles pouco se movimentam na arena, mas cada
um deles é quase um espetáculo psicodélico visual de tanta policromia existente
nas fantasias.
Na primeira vez que viu os “capacetes” na arena, ao vivo e a
cores, o carnavalesco Joãosinho Trinta foi à loucura. “Comparado com esses
tuxauas, as fantasias de luxo do Clóvis Bornay eram roupas de normalista do
Colégio Sagrado Coração de Maria”, alfinetou o carnavalesco.
A entrada dos Tuxauas na arena é vista com muito respeito e emoção, já que supostamente trazem consigo o espírito ancestral dos primeiros habitantes da região e expressam a força e a valentia dos morubixabas, os grandes chefes das diversas tribos indígenas, muitas das quais já foram extintas. Os Tuxauas são chefes político-administrativos, diferentes dos Pajés, que são chefes espirituais.
No auto original, a presença dos índios é quase irrelevante.
Eles são chamados pelo Diretor dos Índios (uma crítica velada ao “Diretório dos
Índios”, a lei implantada pelo Marquês de Pombal, na Amazônia, em 1758, cujo
principal objetivo era levar as populações indígenas a realizar a transição
para a vida civil, de preferência produzindo gêneros voltados ao comércio) para
ajudarem os vaqueiros a prender Pai Francisco, que se achava entrincheirado em
um outeiro.
O dono da fazenda chama um padre para batizar os índios e
transformá-los em “cabocos cristãos”. O padre, completamente de porre, começa a
cantar: “Batizo os caboco / ao som do tambor / se forem à guerra / com Nosso
Senhor / batizo os caboco / ao som da viola / se forem à guerra / com Nossa
Senhora / batizo os caboco / ao som da rabeca / se forem à guerra / por lá
levem a breca / Sou Padre, sou Padre / mas não coroado / levanta caboco / já
está batizado / Sou Padre, sou Padre / de Jerusalém / levanta caboco / pra
sempre amém”.
Os índios “batizados” se juntam aos vaqueiros, prendem Pai
Francisco, o entregam ao dono da fazenda e saem de cena.
Em Parintins, quem começou a se destacar visualmente como
Tuxaua do boi Caprichoso foi José Monteiro de Souza, conhecido popularmente
como “Zeca Xibelão”, primo dos radialistas Rubem e Marcos Santos.
Até então, os Tuxauas parintinenses se fantasiavam como os índios dos filmes de faroeste: calça e coletes com franjas de tecido, mocassim e cocar típico, com caimento ao longo das costas.
As tribos indígenas eram conhecidas como “tribos de Tontos”,
em alusão ao índio comanche chamado Tonto, companheiro de aventuras do
mascarado Zorro (“Lone Ranger”, no original), presentes nas HQs publicadas pela
Ebal e nos filmes exibidos na cidade.
Ainda nos anos 50 e já um artesão de mão cheia, Zeca Xibelão
substituiu as franjas de tecido por penas de pássaros e aumentou
exponencialmente o tamanho do cocar, o transformando em uma escultura
gigantesca presa à cabeça.
Para a população começar a chamar aquilo de “capacete” foi conta de multiplicar. Os Tuxauas do “contrário” logo aderiram à invenção.
Trabalhando praticamente sozinho na confecção de sua
fantasia, Zeca Xibelão enfrentava galhardamente os Tuxauas do Garantido desde o
início do festival, em 1965, não tendo sido derrotado uma única vez.
Entre outras bossas, ele inventou um jeito novo de bailar em
que o pé baixava no contra-ritmo do surdo de marcação, levando a galera à
loucura.
Em meados de 1980, o mestre Jair Mendes começou a fazer
grandes capacetes no Garantido para equilibrar a disputa entre os Tuxauas, mas
nem assim conseguiu quebrar a hegemonia de Zeca Xibelão.
No máximo, os Tuxauas do touro branco empatavam com ele,
nenhum conseguiu derrota-lo.
O “capacete” de Zeca Xibelão era uma obra de arte, mas
apenas para quem estava observando a 20 metros de distância.
No Bumbódromo, entretanto, ele fatalmente desapareceria.
Em 1986, Jair Mendes bandeou-se para o Caprichoso. O novo
alegorista do Garantido ficou sendo Vandir Santos, ex-assistente de Jair
Mendes.
Também considerado um artista plástico excepcional, Vandir
Santos passou dois anos tentando descobrir uma maneira de derrotar Zeca Xibelão
até que um dia teve o seu “estalo de Vieira”: construir imensas alegorias, que
“vestiriam” os Tuxauas do Garantido de uma forma nunca antes vista em
Parintins.
Não deu tempo para ver se essa nova estratégia iria dar
certo.
O campeoníssimo Zeca Xibelão faleceu em 1988, no ano de
inauguração do Bumbódromo, e foi homenageado no ano seguinte com uma toada de
J. Carlos Portilho: “O primeiro tuxaua partiu / num capacete alado subiu / foi
para o céu todo azul / juntar-se aos seus ancestrais / fumar cachimbo da paz /
com nosso Deus criador / Minha galera chorou / mas vai enxugar o seu pranto /
na camisa azul e branca / no capacete espelhado / no passo cadenciado / que
Xibelão ensinou”.
Também em 1988, as “tribos de Tontos” ainda remanescentes
começaram a dar lugar de vez às tribos amazônicas tradicionais por iniciativa
de um artista do Garantido, Ito Teixeira, que depois migraria para o
Caprichoso.
Foi Ito Teixeira o primeiro a apresentar o esboço de um
ritual indígena, que dos anos 90 em diante se tornaria o ponto alto do
festival.
Ele disse que se inspirou nos “sacrifícios” comandados por
índios selvagens e exibidos nos filmes de Tarzan, Bonanza e Jim das Selvas. É
ele que conta:
– A primeira apresentação do ritual foi em 1983. Ela começou
com uma encenação que incluía apenas uma moça a ser sacrificada e a minha
tribo, a tribo dos Carajás, que já era inspirada nos índios do Xingu. Nós
colocamos a menina em meio de um círculo de fogo e dançamos em volta com umas
tochas acesas.
Esse círculo no centro da arena combinado com a fumaça negra
que saía das tochas e com os índios gritando em volta, deu um efeito bastante
interessante, que repercutiu positivamente entre os torcedores do Garantido.
Daí por diante eu comecei a fazer apresentações muito
parecidas com essa, mas já envolvendo várias tribos e sempre utilizando fogo e
fumaça para criar novos efeitos na arena.
Em 1988, eu tive a ideia de colocar umas rampas na arena do
bumbódromo em que os índios iriam subir e descer, subir e descer, criando um
efeito visual muito bonito.
Depois, quando eu fui para o Caprichoso, eu criei um cenário
para as apresentações de rituais, colocando um tablado em que foi colocado o
pajé, que nessa primeira vez foi o Waldir Santana.
Eu convenci o Waldir a dançar como pajé, pois os pajés dos
bois eram muito estáticos, pareciam os tuxauas, e eu entendia que o pajé tinha
que ser dançarino, fazer movimentos acrobáticos. E depois que eu defini essa
movimentação alegórica, criei os tablados, os índios lá no meio e o fogo em
volta, com o pajé dançando no centro, isso foi praticamente o marco dessa
apresentação coletiva que configurou o ritual dos dias de hoje.
O ritual começou em função disso com a apresentação da tribo
dos Carajás e depois unindo várias tribos e a cada ano fazendo as apresentações
diferentes, no solo, no tablado de madeira e posteriormente com as alegorias
que começamos a fazer, aí virou um fato novo. Foi o ritual que começou a dar
dimensão gigante às alegorias e à quantidade de módulos na arena.
O Garantido deu
início ao ritual, era uma apresentação que só o Garantido fazia. Como não era
item de julgamento, mas fortalecia a apresentação, o Caprichoso percebeu que
estava levando desvantagem e então aderiu ao ritual.
Depois que o Caprichoso começou a fazer o ritual, durante
uma das reuniões que ocorreram na antiga tribuna, que era discussão do novo
regulamento, eu chamei o Simão Assayag e o Karu Carvalho e sugeri que, como já
estava consolidado, o ritual passasse a ser item de competição e assim foi
feito.
Eu também tive a ideia de usar velas na arquibancada e
apagar as luzes, esse foi um outro marco na história do festival, uma maneira
diferente de apresentar o boi, as alegorias começaram a vir com luzes, a galera
com luzes nas mãos, até se transformar nessa ópera a céu aberto com efeitos de
luz cênica cada vez mais profissional.



Nenhum comentário:
Postar um comentário