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terça-feira, setembro 15, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 73

 


73. Aroldo Melodia fez parte do verdadeiro esquadrão de craques da União da Ilha. Era um dream team do samba. A única diferença para a seleção americana de basquete é que os americanos colecionavam medalhas, enquanto a Ilha colecionava elogios. Títulos, que é bom... nem um.

Mas ninguém tira da escola o brilho da segunda metade dos anos 70, quando ela entrou no Grupo Especial revolucionando o carnaval com uma fórmula que hoje qualquer economista aprovaria: bom, bonito e barato. 

Enquanto a Mangueira desfilava com majestade e a Beija-Flor parecia desfilar com o PIB de um país africano, a Ilha entrava na avenida com balões de gás, carrosséis de isopor, muito charme e uma alegria que não cabia no orçamento.

E no comando da bateria vocal estava Aroldo Melodia.

Foi ele quem transformou “Domingo”, em 1977, num daqueles sambas que fazem até fiscal de Imposto de Renda sorrir. Enquanto as outras escolas falavam de impérios, faraós e heróis nacionais, a Ilha resolveu homenagear o prazer supremo do trabalhador brasileiro: acordar tarde, jogar bola, tomar cerveja e não fazer absolutamente nada. 

Quando Aroldo berrava “Segura, marimba!”, a Sapucaí inteira respondia. Imagine Jamelão fazendo isso. Era mais fácil o Cristo Redentor descer do Corcovado para tocar reco-reco.

Anos depois, Antônio Carriço, presidente do GRES Sem Compromisso, tratou de importar aquele vozeirão para Manaus. Aroldo gravou o antológico samba-enredo “Hotel Casina”, virou figura carimbada das rodas de pagode e desenvolveu uma paixão avassaladora por um prato preparado por dona Englantina Nunes, tia do Edu do Banjo. Era a lendária “jardineira”.

A mistura levava jabá, carne-seca, jerimum de leite, chouriço, maxixe, quiabo, couve e mais algumas maravilhas capazes de convencer qualquer cardiologista a abandonar a profissão. Sempre que embarcava para Manaus, Aroldo telefonava antes.

– Dona Englantina, não me leve a mal, mas separe uma jardineira pra mim que eu já tô salivando...

Numa dessas viagens, Rinaldo Buzaglo foi buscá-lo no aeroporto. O voo atrasou quase duas horas por problemas técnicos em Brasília, e Aroldo desembarcou com tanta fome que já cogitava mastigar o cartão de embarque. Foram direto para a casa de dona Englantina.

A roda de pagode já comia solta, mas a famosa jardineira ainda não tinha aparecido. Para matar o tempo – e os neurônios – Aroldo e Rinaldo passaram a namorar uma garrafa de conhaque Palácio, que retribuiu o carinho com entusiasmo.

Lá pelas três da tarde, a fome já tinha virado delírio. Aroldo entrou na cozinha à procura de um copo, viu uma panela fumegando sobre o fogão e ouviu trombetas celestiais. Levantou a tampa.

– Achei!

Sem consultar ninguém, serviu um pratão monumental e atacou a comida como quem tentava recuperar todas as refeições perdidas da infância. Rinaldo estranhou o sumiço do amigo. Foi investigar. Encontrou Aroldo mastigando em estado de êxtase. Nem perguntou o que era. Pegou um prato e entrou na corrente.

Cada um repetiu mais duas vezes. Rasparam a panela com uma eficiência que faria qualquer lava-jato morrer de inveja. Depois voltaram para a roda de samba satisfeitos, embalando a barriga nas tradicionais cadeiras de macarrão.

Dez minutos depois, dona Englantina anunciou:

– Gente, a jardineira tá na mesa!

Aroldo levantou a mão, educadamente.

– Muito obrigado, minha santa, mas eu e o Rinaldo já almoçamos. Aliás, tava um espetáculo! Comemos até demais. Se botar mais um grão de arroz aqui dentro, explode tudo.

Dona Englantina franziu a testa.

– Almoçaram... onde?

– Na panela que tava no fogão.

A cozinheira caminhou lentamente até a cozinha. Levantou a tampa. Olhou para o fundo da panela. Ficou branca. Voltou para a sala sem saber se ria ou chamava um veterinário.

– Pelo amor de Deus... vocês comeram a comida das minhas duas pastoras alemãs!

Silêncio absoluto. Aroldo e Rinaldo se entreolharam. A tal iguaria era um refinado picadinho de arroz, carne de cabeça, bobó e uma generosa porção de ração Friskies cuidadosamente misturada para convencer as cachorras de que aquilo era alta gastronomia. Os dois haviam limpado a panela como se estivessem avaliando um restaurante cinco estrelas.

Dizem que Aroldo nunca mais perguntou qual era o ingrediente secreto da jardineira. E Rinaldo, durante muitos anos, sempre que ouvia alguém elogiar sua disposição física, respondia, muito sério:

– Deve ser o Friskies. Tem vitamina que a gente nem imagina...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 72

 


72. Junho de 1978. O Brasil vai disputar o terceiro lugar da Copa do Mundo contra a Itália, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires. 

Na Rua Itacoatiara, entre as ruas Urucará e Maués, arma-se um evento quase tão importante quanto a partida: umas 30 criaturas resolvem assistir ao jogo na casa do seu Albino Maia, pai do ex-centroavante Manuel Augusto, levando cerveja, tira-gosto e uma quantidade de morteiros suficiente para comemorar a independência de um país de médio porte.

Entre os convocados da torcida estavam Sadok, Amélia, Sici Pirangy, Soraya, Manuel Augusto, Socorrinha Macedo, Carlos Barriga, Fátima, Antídio Weil, Betinha, Cleber Weil, Albino Filho e Maria Angélica.

Sentado solenemente em sua cadeira de rodas, o velho Albino lançou a única profecia daquela tarde:

– Se forem soltar foguete, façam isso lá no quintal!

Ninguém deu bola. Afinal, brasileiro só respeita previsão do tempo quando chove.

Cláudio Coutinho escalou Leão, Nelinho, Oscar, Amaral, Rodrigues Neto, Batista, Toninho Cerezo, Jorge Mendonça, Gil, Roberto Dinamite e Dirceu. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Franco Causio subiu sozinho e meteu de cabeça: Itália, 1 a 0. A sala mergulhou num silêncio tão profundo que dava para ouvir um mosquito pedir licença para pousar. Parecia velório de parente rico.

No intervalo, Coutinho resolveu abandonar a diplomacia. Sacou Toninho Cerezo, colocou Rivelino. Tirou Gil, entrou Reinaldo. O Brasil voltou possuído. Aos 18 minutos, Nelinho acertou um chute tão improvável que até hoje o goleiro italiano deve jurar que a bola fez baliza no meio do caminho. Em vez de cruzar, ela resolveu entrar. Gol do Brasil.

A sala virou um réveillon fora de época. O pessoal nem esperou chegar ao quintal: começou a disparar foguete pela própria janela da sala. Seu Albino apenas respirou fundo. Havia percebido que sua recomendação acabara de entrar para a história das sugestões ignoradas.

Dez minutos depois, Rivelino levantou na área. Roberto Dinamite tentou dominar no peito, mas a bola escapuliu como sabonete em banho de cadeia. Antes que alguém entendesse o lance, Dirceu emendou um voleio cinematográfico. Golaço. Brasil 2 a 1.

A casa entrou em estado de insanidade coletiva. Tinha gente abraçando desconhecido, beijando rádio, prometendo pagar promessa e jurando que Coutinho era um gênio incompreendido. Foi então que Socorrinha Macedo decidiu colaborar com a festa.

Aproximou-se da janela, acendeu um morteiro de três tiros, mas, na hora H, foi dominada por um ataque fulminante de nervosismo. As mãos começaram a tremer, ela largou o artefato no meio da sala e mergulhou atrás do sofá com a velocidade de um recruta ouvindo “granada”.

O resto foi pura seleção natural. Metade dos presentes saiu pela janela sem consultar altura nem gravidade. A outra metade disparou rumo ao quintal. Até seu Albino, na cadeira de rodas, bateu todos os recordes mundiais de velocidade. Dizem que, por alguns segundos, Ayrton Senna teria dificuldade para alcançá-lo.

Os três estampidos sacudiram a casa inteira. A fumaça tomou conta da sala, os cachorros da vizinhança entraram em greve de latidos e os vizinhos tiveram certeza de que a Terceira Guerra Mundial havia começado na Rua Itacoatiara.

Quando a fumaça baixou, ninguém tinha perdido um dedo, uma orelha ou a compostura – esta última já havia sido perdida bem antes do apito inicial. No fim das contas, o Brasil conquistou o terceiro lugar da Copa. E Socorrinha Macedo escapou de ser excomungada, deserdada e proibida de acender até vela de aniversário pelo resto da vida.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 71

 


71. Fevereiro de 1978. Durante o tríduo momesco, o quarto-zagueiro Lúcio Preto, só de sacanagem, tinha o hábito de parar seu fusquinha do outro lado da rua, diante do Bar do Caxuxa, na Rua J. Carlos Antony, e gritava a plenos pulmões:

– Caxuxa, cadê as bolinhas?! Hoje é dia de desfile dos Ciganos e eu preciso ficar ligado. Separa umas dez bolinhas de preludim, pervetim e desbutal, que daqui a pouco eu venho pegar...

Aí, engatava uma marcha no carro e ia embora.

Servindo uma multidão de gente com suas batidas, Selmo Nogueira, evidentemente, não sabia onde se esconder, com medo de os clientes começarem a suspeitar que ele vendia anfetaminas no mercado negro. As insinuações do jogador iam acabar atraindo a Polícia Federal para o boteco.

Um dia, Selmo resolveu se vingar. Ele transformou em pó quatro pílulas de lacto-purga, colocou numa “vidreta” e foi se encontrar com o Lúcio Preto no Top Bar, onde funcionava o QG informal do bloco Andanças de Ciganos.

– Estou com uma mercadoria nova pra você, mas ela precisa ser diluída. Me consegue uma Fanta laranja! – avisou Selmo para o quarto-zagueiro.

Sem suspeitar de nada, Lúcio Preto lhe passou uma garrafa de refrigerante. Selmo preparou a poção mágica e devolveu ao jogador. Antes de engatar o carro, avisou:

– Se precisar de mais, me dá um toque, mas não faz muita propaganda para não encher o meu bar de malucos, tá legal?...

Lucio Preto tomou a mistureba de uma golada só.

Meia hora depois, Afonso Libório, irmão de Selmo Nogueira, chegou ao Bar do Caxuxa desesperado:

– Êi, bicho, que porra foi que você deu pro Lúcio Preto?... Com cinco minutos, ele saiu correndo para o banheiro do Aristides e ainda não saiu de lá até agora... Faz duas horas que ele está sentado no vaso sanitário, só resmungando e gritando um monte de palavrões...

Naquele ano, Lúcio Preto não desfilou pelo bloco Andanças de Ciganos. Em compensação, também nunca mais confiou nas “bolinhas” do Bar do Caxuxa.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 70

 


70. Em meados dos anos 1980, embalada pelo sucesso de uma música que estourara na novela das oito da Globo, Fafá de Belém decidiu provar que fôlego não lhe faltava. Anunciou, com toda a convicção, que seria backing vocal de todas as escolas de samba que desfilariam na Marquês de Sapucaí.

A imprensa adorou a ideia. Os patrocinadores também. Formou-se uma verdadeira operação de guerra: empresas providenciaram uma fantasia para cada escola, reservaram um camarote para ela trocar de roupa, retocar a maquiagem e recuperar o fôlego, além de um carro de prontidão na dispersão para levá-la, em velocidade de Fórmula 1, até a concentração da escola seguinte.

No primeiro dia, o plano parecia infalível. Fafá cantou na Portela, passou pela Mangueira, deu uma paradinha na Imperatriz Leopoldinense, atravessou a Vila Isabel, fez escala no Salgueiro e chegou à União da Ilha já vestida, maquiada, sorridente e escoltada por um batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e curiosos.

Na concentração, porém, havia um pequeno detalhe que escapara aos estrategistas do marketing: Aroldo Melodia.

Sem dar a menor bola para aquela romaria de câmeras, ele aquecia a bateria com seu tradicional grito de guerra:

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

No auge dos flashes, Fafá aproximou-se toda simpática, estendeu a mão para dividir o microfone e cantar junto. Aroldo tirou o microfone da reta com um safanão digno de goleiro defendendo pênalti e decretou:

– Êpa! Aqui não, minha filha! Aqui não! Vai cantar em outra freguesia! Aqui na Ilha quem manda sou eu!

O sorriso de Fafá congelou mais rápido que cerveja esquecida no congelador. Percebendo o desastre que se desenhava diante das câmeras, o presidente da escola, Jorge Taufie, o eterno Peixinho, entrou em campo para apagar o incêndio.

– Pô, Aroldo... é a Fafá! Pelo amor de Deus... Deixa ela dar uma palhinha no nosso samba...

Aroldo nem piscou.

– Se tu quer ouvir a Fafá cantar, contrata um show dela lá na quadra. Aqui, não!

Fim da negociação.

Enquanto Fafá procurava um buraco onde pudesse se esconder – e não encontrou nenhum na Marquês de Sapucaí inteira –, Aroldo simplesmente retomou o serviço, como se nada tivesse acontecido.

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

A cantora deixou a concentração às lágrimas, seguida pelos fotógrafos e cinegrafistas, que haviam acabado de ganhar, de graça, a melhor imagem daquela noite.

Horas depois, já na dispersão, Edu do Banjo resolveu cobrar explicações do amigo.

– Porra, Aroldo... Tu cagou e mijou na cabeça da Fafá de Belém! Uma mulher daquele tamanho! Tu não teve medo dela te dar umas porradas?

Aroldo respondeu com a tranquilidade de quem acabara de expulsar uma estrela da Globo do próprio microfone:

– Medo? Tive não, cumpádi...

Fez uma pausa calculada, abriu um sorriso maroto e arrematou:

– Com aqueles peitões todos, o único medo que eu tive foi dela ficar muito despeitada comigo.

Dizem que a bateria da Ilha entrou na avenida afinadíssima. Mas quem arrancou a última gargalhada do carnaval foi mesmo Aroldo Melodia.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 69

 


69. Fevereiro de 1978. Baile de Carnaval no Balneário Cetur, considerado um dos mais animados da cidade. No meio do fuzuê, o comerciante Luiz Paulo, fantasiado de tirolês, deixa sua esposa Ana Rita, fantasiada de odalisca, plantada sozinha na mesa e some no meio da multidão. 

A odalisca fica injuriada e começa a beber tudo a que tem direito. Com quinze minutos, ela já está doidaça e começa a detonar o marido:

– Aquele Luiz Paulo é um safado! Nem sei onde estou com a cabeça que também não saio por aí e me agarro com o primeiro macho que aparecer...

O pessoal da mesa ao lado, vendo a qualidade da mercadoria, começa a dar corda na odalisca.

– É, só mesmo sendo muito safado pra deixar uma mulher linda como você sozinha aí na mesa... – diz um pierrô.

– Aquele cretino vai ver uma coisa, aquele cretino vai ver uma coisa! – repete a odalisca, cada vez mais bêbada e injuriada.

– Homem não presta, minha amiga, eles são todos iguais! – insiste uma colombina.

Nesse momento chega o marido, que é interpelado rispidamente pela odalisca:

– Onde tu andavas, cachorro? Já faz uma hora que você saiu pra fazer xixi!

A turma do lado apura os ouvidos para acompanhar a discussão do casal, prevendo detalhes interessante.

– Eu fui fumar um cigarro lá fora! – informa o marido, sem muita convicção.

– Mentira! Garanto que tu tava era se esfregando em alguma vagabunda por aí, seu cretino! Eu te conheço, seu escroto! Tu tava mesmo era se agarrando com alguma sirigaita, seu filho da puta! E depois, quando chega em casa, ainda quer bundinha... Taqui pra ti! (e exibiu um majestoso cotoco)

A turma da mesa ao lado caiu na maior gargalhada. O comerciante riu amarelo e depois sumiu de novo no meio da multidão.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 68

 

Antídio Weil, Carlito Bezerra e Zeca da Gracinha

68. Fevereiro de 1985. O despachante Antídio Weil foi brincar o carnaval num baile do Cheik Clube. Em algum momento da madrugada, um parceiro de gandaia – desses que confundem amizade com experiência de laboratório – resolveu misturar alguns comprimidos de Artane na bebida dele.

O Artane é um medicamento usado no tratamento do mal de Parkinson. Misturado com álcool, porém, transforma qualquer cidadão pacato num roteirista de filme psicodélico. Não por acaso, também ganhou fama nos tempos do famigerado golpe do “Boa Noite, Cinderela”. Resultado: Antídio deixou o baile mais torto que serpentina molhada.

Quando chegou em casa, na Cohab-Am do Japiim, entrou pela porta da sala com os olhos arregalados, a testa suando e a coragem pedindo licença. Assim que o irmão João Carlos, o eterno Bazam, abriu a porta, Antídio disparou aos berros:

– Mano! A nossa casa está cheia de índios! Cheia de índios! Eles querem me matar!

Bazam olhou para a cara do irmão por dois segundos. Percebeu imediatamente que discutir com aquele cérebro era perda de tempo. O melhor era entrar na novela. Coçando o queixo, perguntou com a maior naturalidade do mundo:

– E onde essa tribo resolveu acampar?

Antídio respondeu quase chorando:

– No banheiro, porra! Tá tudo lotado! Tem índio pra todo lado! Eles são muitos... muitos...

Bazam fez cara de quem estava diante de uma grave questão de segurança nacional.

– Deixa comigo.

Entrou no banheiro, fechou a porta e passou uns dois minutos fazendo sabe Deus o quê. Talvez estivesse escovando os dentes. Talvez estivesse dando descarga para produzir efeitos sonoros de batalha. Talvez apenas estivesse rindo sozinho da situação. Quando voltou, trazia no rosto a serenidade de um caçador que acabara de salvar a humanidade.

– Pronto. Pode ficar tranquilo. Já matei três.

Antídio arregalou ainda mais os olhos.

– Três?

– Três. Mas ainda sobrou uma penca deles. Vai pro teu quarto, dorme sossegado, que eu termino o serviço. Até amanhecer não sobra um vivo.

Antídio respirou aliviado. A tensão desapareceu na mesma velocidade em que havia surgido. Obedeceu ao irmão sem fazer mais perguntas, entrou no quarto e dormiu feito um bebê.

Na manhã seguinte, acordou sem encontrar um único índio pela casa. Nem vivo. Nem morto. Mas, desde aquele dia, Bazam passou a ser reconhecido, pelo menos dentro da família, como o maior exterminador de índios imaginários da história do bairro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 67

 

O saudoso Laíla, ícone do carnaval carioca

67. Por indicação de Laíla, lendário diretor de harmonia da Beija-Flor de Nilópolis, a Reino Unido contratou o carnavalesco Shangai para colocar ordem no barracão. Shangai, homem precavido, trouxe consigo Paulinho, artista plástico da Baixada Fluminense e um craque na fabricação de adereços.

Paulinho incorporou o espírito da escola com uma dedicação que hoje renderia processo trabalhista. Durante quinze dias trabalhou sem interrupção, como se Carnaval tivesse abolido necessidades fisiológicas e higiene pessoal. Dormia pouco, comia quando lembravam de alimentá-lo e tomar banho tornou-se um luxo incompatível com o cronograma.

Ao fim da maratona, sua única bermuda jeans havia adquirido vida própria. Tão impregnada de tinta, cola, serragem e poeira que, se fosse colocada em pé num canto, havia boas chances de permanecer ali, contemplando a existência.

Mas a Reino Unido atravessava uma sequência de azares tão impressionante que alguém concluiu haver apenas uma explicação possível: macumba braba. E, como toda teoria precisa de uma vítima, Paulinho foi democraticamente escolhido para receber um poderoso banho de descarrego. Católico praticante, aceitou o sacrifício com a resignação de quem imagina que pior do que aquilo só um atraso na entrega dos carros alegóricos.

No barracão, completamente nu, recebeu uma bombona de cinco litros contendo uma fórmula cuja receita jamais deveria cair nas mãos da indústria química. Levava cachaça de cabeça, limão-galego, álcool industrial, pimenta-malagueta triturada e, provavelmente, algum derivado do combustível de foguete. O líquido tinha um aspecto tranquilizador de quem dissolvia ferrugem no café da manhã.

Paulinho despejou tudo sobre a cabeça. O efeito foi imediato. Menos de dez segundos depois, surgiu pela Rua Duque de Caxias um cidadão completamente nu, berrando numa frequência capaz de espantar urubu em voo e correndo como se estivesse sendo perseguido simultaneamente pelo capeta, pela Receita Federal e pela comissão julgadora. Foi preciso mobilizar meio barracão para capturá-lo e descobrir a origem daquela tragédia.

Descobriu-se, então, que quinze dias de trabalho ininterrupto, calor amazônico, umidade de cem por cento e absoluta ausência de banho haviam transformado determinadas regiões anatômicas de Paulinho numa área oficialmente interditada pela Vigilância Sanitária. O banho de descarrego, que prometia expulsar maus espíritos, resolveu exorcizar também a epiderme.

O artista plástico passou a semana seguinte mergulhado em banhos de assento com água gelada e desfilando um elegante fraldão geriátrico, provavelmente a fantasia mais confortável de todo aquele Carnaval.

Consta que o descarrego funcionou e a escola ganhou o título daquele ano. Mas nunca mais a Reino Unido teve a ousadia de testar uma receita daquela potência. Nem Paulinho ficou quinze dias sem tomar banho para ajudar uma escola de samba.

sexta-feira, setembro 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 66

 


66. Ainda adolescentes e convencidos de que a literatura os aguardava de braços abertos – ela, porém, fingia não estar em casa –, Anibal Beça e Alexandre Otto tinham um programa semanal pouco recomendável: visitar o poeta Américo Antony, em sua casa na Rua Japurá, quase esquina da Joaquim Nabuco.

O velho “guru da Amazônia”, já beirando os 60 anos, esperava os dois como um profeta espera discípulos: ansioso para submetê-los, sem direito de defesa, à leitura de seus sonetos recém-saídos do forno da inspiração.

Educado na Inglaterra, Américo Antony era um personagem que parecia ter sido escrito por um romancista com excesso de imaginação. Fazia questão de proclamar sua ascendência indígena e jurava, com a segurança de quem tinha conhecido o sujeito pessoalmente, que seu tetravô fora o lendário tuxaua Manauí Camandry, um dos grandes chefes dos índios Manaú.

Seu único livro, “Sonetos das Flores”, trazia na capa uma advertência tão solene que intimidava até bibliotecário: os poemas deveriam ser lidos “no mais profundo silêncio”, antes que o mundo maculasse “o espelho puro das emoções do Espírito”. Era uma recomendação justa. Depois de conhecer o autor, qualquer outro ambiente também perderia um pouco da pureza.

Naqueles tempos, Antony atravessava uma fase místico-oriental particularmente intensa. Convencera-se de que era uma espécie de Gandhi caboclo. Andava completamente nu, envolto apenas por um lençol encardido, dobrado de um jeito que, na imaginação dele, lembrava um sári indiano. Passava horas desfilando pelo quintal, entoando mantras com a solenidade de quem esperava atingir o nirvana antes do almoço.

Quando os rapazes chegavam, começava um ritual litúrgico.

– Xandico, meu filho! Corra à taberna do Zé Magalhães e traga um vidro de café solúvel. Na volta, não esqueça a lata de leite condensado, a de Nescau e um bule de água fervendo. Vou preparar um cappuccino para os nossos convidados! Mas vá num pé e volte no outro!

Xandico era Alexandre da Macedônia Antony, o filho mais velho – um nome que parecia ter sido escolhido por um pai incapaz de distinguir certidão de nascimento de romance histórico.

Enquanto o rapaz cumpria a missão, Américo entregava uma xícara para um dos visitantes e iniciava a récita dos sonetos, sempre com a convicção de quem acreditava estar concorrendo ao Nobel, embora a Academia Sueca ainda ignorasse esse detalhe. Quando Xandico voltava, começava o espetáculo culinário.

Américo pegava a lata de leite condensado, soprava vigorosamente um dos furos para fazer o conteúdo descer. Junto com o leite condensado, desciam também perdigotos suficientes para enriquecer qualquer pesquisa de microbiologia. Acrescentava uma colher de café solúvel, outra de Nescau e completava a xícara com água fervendo. Mas aquilo era apenas o aquecimento. Faltava o toque do chef.

Sem demonstrar a menor hesitação, o poeta mergulhava na bebida a monumental unha do dedo mindinho – uma unha multitarefa que passava boa parte do dia prestando serviços de limpeza auricular. Com ela, mexia lentamente a mistura, enquanto continuava declamando seus sonetos como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Talvez porque, para ele, realmente não estivesse. Quando o cappuccino alcançava o ponto ideal – ou o ponto de não retorno, dependendo da perspectiva –, a xícara era solenemente oferecida a Anibal Beça, seu pupilo predileto. Anibal sorria com a diplomacia de um embaixador diante de uma declaração de guerra.

– Muito obrigado, mestre, mas estou de dieta. Quem sabe na próxima semana...

A bomba biológica era então transferida para Alexandre Otto, que já não podia recusar uma segunda vez sem provocar um incidente diplomático entre a poesia e a gastronomia.

Na semana seguinte, a cerimônia se repetia com rigor litúrgico. Anibal Beça jurou até o fim da vida que jamais experimentou uma única gota do lendário cappuccino do guru. Há quem acredite. E há quem também acredite que o leite condensado neutralizava os perdigotos.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 65

 

O cantor Celito Chave e o ativista social Nestor Nascimento

65. No início de 1984, Rinaldo Buzaglo, Celito Chaves, Edu do Banjo e Mestre Carlito viajaram para o Rio de Janeiro, onde foram gravar o samba-enredo do GRES Sem Compromisso. As gravações foram realizadas no estúdio Havaí, do respeitado produtor Bira Havaí, e contaram com a participação de Dominguinhos do Estácio.

Era um compacto duplo. De um lado o samba da Sem Compromisso e do outro um samba da Reino Unido, que ainda era bloco de embalo. Os músicos entraram no estúdio na segunda-feira de manhã e na terça à tarde já estavam acabando de finalizar a “bolacha”.

Na quarta-feira, Dominguinhos convidou os amazonenses para participarem de uma roda de pagode que rolaria naquela noite, na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Eles não se fizeram de rogado.

Por volta das sete horas da noite, o quarteto já estava descendo de um táxi na quadra do Cacique de Ramos e participando do fuá. Algumas horas depois, Mestre Carlito chamou Edu do Banjo e indagou o porquê de Celito e Rinaldo estarem discutindo tanto.

Bastante gorozado, Rinaldo dizia:

– Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre!

Mais gorozado ainda, Celito rebatia:

– Mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa...

– Deixa comigo, compadre! – insistia Rinaldo. – Eu vou lá na Importadora Mundial e compro um zerado, melhor do que aquele...

– Mas não vai ter nenhum valor pra mim, compadre! – contestava Celito. – Pra mim, não vai ter nenhum valor...

Edu entrou na conversa:

– Êi, cara, o quê que tá pegando? O Ademir Batera, o Bira Presidente, o Almir Guineto e o Sereno estão ficando cada vez mais preocupados com essa discussão de vocês dois. O pessoal do pagode já até parou de tocar. O quê qui tá pegando?...

Celito, quase chorando, abriu o coração:

– Esse sacana do meu compadre esqueceu o meu violão Alhambra, modelo C10, dentro do porta-malas do táxi, Edu! Puta que pariu, Edu, aquele violão foi presente do meu falecido pai. E eu ainda disse pra esse miserável não trazer o violão, porque aqui tinha instrumentos pra todo mundo tocar...

– Mas aquele violão tinha sido afinado por mim, compadre, e eu queria tocar nele! – explicava candidamente Rinaldo. – Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre! Eu vou lá na Importadora Mundial e compro outro, igualzinho aquele! Pode deixar comigo!

– Eu sei compadre, eu sei, mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa... – insistia Celito. – Aquele tinha sido presente do meu velho pai...

A ladainha só terminou em Manaus três dias depois. O violão Alhambra, claro, nunca mais foi encontrado.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 64

 


64. O cantor e compositor João Nogueira estava em Manaus para uma série de apresentações no recém-inaugurado Nostalgia, novo clube de pagode de Vilson Benayon e Aloísio Jackmont, localizado na Cachoeirinha, quando resolveu fazer turismo medicinal no Mercado Adolpho Lisboa, aquele lugar onde, se procurar com jeito, você encontra desde pirarucu seco até remédio para dor de cotovelo, inveja de vizinho e azar no jogo.

A ideia partiu do sobrinho e empresário, Didu Nogueira, que sugeriu uma visita ao famoso corredor das ervas. Hipocondríaco com doutorado e sempre convencido de que carregava umas quinze doenças diferentes, João estacionou diante de uma barraca de plantas, raízes, cascas, garrafadas e promessas de cura.

O vendedor reconheceu o sambista na mesma hora.

– Ô, patrão! O senhor é o João Nogueira! Que honra! Diga aí, no que posso salvar sua vida?

João entrou no espírito da consulta.

– Meu camaradinha, o que é bom pra diabetes?

– Pata-de-vaca.

– E pra circulação?

– Jambolão. Mas também tem unha-de-gato, porangaba e stevia. Essa daí substitui o açúcar, desentope as veias, espanta o colesterol e, se bobear, ainda faz o Flamengo ganhar campeonato sem ajuda do juiz.

João gostou da conversa e resolveu fazer um check-up completo.

– E pra estômago, esôfago, azia de depois da esbórnia... O camaradinha tem alguma coisa?

O caboclo abriu um sorriso de quem tinha encontrado o cliente dos sonhos.

– Aí o senhor caiu na barraca certa! Leva mururé com quebra-pedra. Se não resolver, entra com barbatimão em jejum. Tem carapiá também. É tiro e queda. Mais alguma enfermidade?

João já estava se divertindo.

– E essa folhinha aqui?

– Espinheira-santa. Serve pra espinhela caída, inflamação, cansaço, enxaqueca, joanete... e ainda limpa a voz. Pro senhor, que vive cantando, é melhor que professor de canto.

Animado, o sambista resolveu aproveitar a promoção. Pediu um preparado para os rins, outro para o fígado, uma mistura para o estômago, duas garrafadas “preventivas”, meia dúzia de cipós e mais um punhado de folhas e raízes cujos nomes ele jamais conseguiria pronunciar: copaíba, andiroba, mirantã, uxi amarelo, açaí-branco, marapuama, amapá, quássia e pião-roxo

A pilha de pacotes já parecia enxoval de casamento. Enquanto embrulhava a compra, o erveiro olhou discretamente para Didu e comentou, em voz baixa, com a sinceridade brutal típica dos caboclos amazônicos:

– Arre, égua, patrão... esse nó-na-madeira aí tá bem avariado, num tá não? Pela compra dele, pensei que já tava encomendando a alta de São Pedro...

João ouviu a sentença, virou para o vendedor e caiu numa gargalhada tão grande que, por alguns segundos, o caboclo achou que ia precisar indicar mais uma erva: alguma que fosse boa para excesso de riso.

quarta-feira, setembro 09, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 63

 

Carrel Benevides, Silvia, Amazonino e Gilberto

63. Fevereiro de 1976. Faixa-preta de jiu-jítsu e vereador nas horas vagas, o advogado Carrel Benevides resolveu testar, no baile Despedida da Kamélia, do Olímpico Clube, se os golpes aprendidos no tatame também funcionavam ao som de marchinhas de carnaval. Funcionavam. Em poucos minutos, meia dúzia de foliões já tinha conhecido o chão de perto, e Carrel, por cortesia da Polícia Militar, conheceu a delegacia.

Quando a notícia chegou aos ouvidos do empresário Zeca Guerra e do publicitário Edgard Alecrim, também presentes no baile, os dois concluíram que aquilo era uma afronta à amizade. Resolveram libertar o companheiro na base do argumento mais usado pelos foliões depois da meia-noite: a confusão.

Entraram na delegacia distribuindo desaforos em todas as direções. Discutiram com os soldados, elevaram o tom de voz, baixaram o nível da conversa e, quando apareceu o delegado para descobrir que terremoto era aquele, ele também recebeu sua cota de carinho. O elogio mais delicado foi “gorila fascista a serviço da ditadura militar”. O restante não convém reproduzir nem em livro de humor.

O delegado, que não era adepto da liberdade de expressão naquele horário, mandou recolher os dois heróis ao xadrez.

Enquanto eram conduzidos para a cela, ainda protestando como se estivessem na tribuna da Câmara Municipal, avistaram Carrel tranquilamente ao telefone. Ele cobriu o bocal com a mão e sussurrou:

– Fiquem calmos. Estou falando com o coronel Souza. Já expliquei tudo. Daqui a pouco ele chega e tira a gente daqui.

Era a primeira frase sensata da noite. Pena que os dois não acreditaram nela. Continuaram reclamando até serem acomodados numa cela onde outros quarenta carnavalescos involuntários já faziam o esquenta do bloco dos encarcerados.

Meia hora depois, a porta da delegacia se abriu com pompa. Entrou o coronel Souza, impecável em sua farda de gala, acompanhado de três oficiais. Conversou reservadamente com o delegado, trocou alguns cumprimentos e, em seguida, saiu dali levando... Carrel Benevides. Só Carrel Benevides.

Zeca Guerra e Edgard Alecrim permaneceram hospedados pela Secretaria de Segurança até a Quarta-feira de Cinzas, quando finalmente ganharam a liberdade – e, de quebra, a carteirinha honorária do bloco “O Que Qui Eu Vou Dizer em Casa?”, formado exclusivamente pelos foliões que passaram o carnaval atrás das grades. Aprenderam, da maneira mais pedagógica possível, que amizade é uma virtude. Mas, antes de tentar salvar um faixa-preta, convém verificar se ele já não providenciou o próprio resgate.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 62

 

O carnavalesco Shangai metendo a mão na massa

62. Em 1989, a Reino Unido resolveu provar que nem sempre um desfile de carnaval começa na avenida. Às vezes, começa numa sessão de descarrego. O barracão da escola, na rua Duque de Caxias, parecia construído sobre um antigo cemitério indígena. 

O carnavalesco Shangai, contratado a peso de ouro da Beija-Flor de Nilópolis, já estava à beira de pedir aposentadoria por invalidez emocional. Nenhum carro alegórico ficava pronto. Quando terminavam um, quebrava o outro. Consertavam aquele, despencava uma escultura. Era um efeito dominó patrocinado pelo além.

Os diretores Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva convocaram uma reunião de emergência. Se o enredo era uma homenagem aos orixás, por que os homenageados estavam sabotando o desfile? A resposta veio de dona Ápia, mãe de santo respeitadíssima e mãe do Mestre Calama.

– Tem gente aqui muito carregada...

Silêncio.

– E muito amarrada...

Mais silêncio.

As suspeitas recaíram imediatamente sobre Adib Mamede, cuja vida social de sábado era tão movimentada que faria um sultão pedir férias, e sobre João Thomé, deputado federal, profissão que, por si só, já obriga qualquer cidadão a conviver diariamente com uma fauna de picaretas. Bosco Saraiva e Zé Picanço entraram na dança apenas por espírito de equipe.

Dias depois, os quatro apresentaram-se no terreiro para o descarrego. O Preto Velho incorporou em dona Ápia, olhou para os dirigentes e deu a primeira ordem:

– Tira a roupa, zifio...

Os quatro se entreolharam com a expressão de quem descobriu que o tratamento não era coberto pelo plano de saúde. Mas carnaval é carnaval. Pior do que pagar esse mico seria perder o desfile. Minutos depois, os dirigentes mais importantes da Reino Unido estavam completamente nus, perfilados como se posassem para um calendário beneficente.

Cada um foi colocado dentro de um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo uma receita que dificilmente apareceria num programa de culinária: sangue fresco de bode e duas doses generosas de Velho Barreiro.

A recomendação era simples:

– Bebe tudo. E não vomita. Exu não gosta.

Os quatro engoliram aquilo com a mesma expressão de quem descobre que o uísque importado era, na verdade, óleo de fígado de bacalhau.

Terminada essa etapa gastronômica, receberam alguidares com água de cheiro e ervas medicinais. Quando a pólvora queimasse, deveriam despejar o banho sobre a cabeça e esfregar as ervas no corpo.

Exu riscou um fósforo. Segundos depois, quatro círculos de pólvora explodiram ao mesmo tempo. Foi menos um ritual religioso e mais uma final de campeonato de fogos de artifício. Passado o susto, veio a última etapa: o chamado “alongamento dos orixás”.

A cerimônia parecia inocente. O Preto Velho ficava de costas para o participante, os dois entrelaçavam os braços e cada um levantava o outro sobre as costas numa espécie de alongamento espiritual. Com Adib, deu certo. Com João Thomé, perfeito. Com Zé Picanço, um primor.

Chegou então a vez de Bosco Saraiva. Bosco fez sua parte com elegância e levantou o Preto Velho sem dificuldade. Quando chegou a vez do Preto Velho retribuir a gentileza...

Bem... Nem toda entidade espiritual consegue desafiar a Lei da Gravidade. O pobre guia tentou erguer Bosco, fez um esforço digno de halterofilista olímpico, tremeu da cabeça aos pés e, no segundo seguinte, os dois despencaram juntos como um piano lançado do décimo andar. Foi um estrondo. Dona Ápia quebrou um braço, machucou gravemente as pernas e Bosco saiu com o punho deslocado e a mão tão esfolada que dava para estudar anatomia sem abrir um livro.

Como tragédia pouca é bobagem, na queda eles acertaram em cheio a garrafa de Velho Barreiro. A cachaça espalhou-se pelo chão, encontrou um resto de pólvora ainda acesa e resolveu participar da gira. Uma língua de fogo subiu em direção ao congá. Velas, flores, colares, toalhas... Em poucos segundos, o altar parecia disputar um concurso de fogueira junina.

Zé Picanço colocou dona Ápia e Bosco no carro e saiu rumo ao hospital dirigindo apenas de cueca, provavelmente convencido de que aquele detalhe já não fazia a menor diferença naquela noite. Enquanto isso, Adib Mamede e João Thomé ficaram no terreiro combatendo o incêndio, sem saber se chamavam os bombeiros ou mais um orixá.

No fim das contas, apesar do braço quebrado, da explosão, do incêndio, do bode, da pólvora, da cachaça, da nudez coletiva e do maior alongamento fracassado da história da Umbanda amazonense, alguma coisa realmente deu certo. Naquele ano, a Reino Unido entrou na avenida como se tivesse recebido uma bênção VIP do céu. Ganhou o carnaval com nota dez em todos os quesitos.

Depois dessa epopeia, ficou difícil saber se o título veio pelo talento da escola ou porque, depois de tanta confusão, até os santos acharam que estavam em dívida com ela.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 61

 


61. Em 1997, Beth Carvalho entrou para a história da humanidade quando a Nasa programou a música “Coisinha do Pai” para acordar um robô em Marte. Graças à engenheira brasileira Jacqueline Lyra, a Madrinha do Samba tornou-se, oficialmente, a primeira sambista interplanetária. 

Pena que, dez anos antes, ela já havia feito uma experiência semelhante em Manaus: conseguiu desaparecer da Terra antes mesmo de subir ao palco.

O palco do sumiço foi o réveillon de 1987 no Olímpico Clube. Presidente do clube, Almerinho Botelho contratou a estrela, que fez uma exigência bem terrestre: metade do cachê na assinatura do contrato e a outra metade depois do show. Negócio fechado.

No sábado do réveillon, Beth desembarcou em Manaus e hospedou-se no Tropical Hotel, onde quem cantaria seria Eliana Pittman. Às quatro da tarde, ligou para Almerinho com um pedido quase humanitário. Os músicos haviam conhecido os amplificadores Fender da Importadora Mundial e estavam apaixonados. Amor à primeira vista. Será que ele poderia adiantar o restante do cachê para que a banda não sofresse essa dor da separação?

Almerinho, homem de bom coração e pouca experiência em golpes carnavalescos, topou.

Dinheiro na mão, problema resolvido. Beth instalou-se confortavelmente à mesa do parque aquático do hotel e iniciou um massacre gastronômico. Lagostas desapareciam numa velocidade industrial. Garrafas de uísque iam tombando uma atrás da outra como integrantes de escola de samba depois da apuração.

Às onze da noite, Eliana Pittman subiu ao palco do Tropical. Beth continuava firme na missão de reduzir o estoque mundial de scotch. No Olímpico, Almerinho e o diretor Tito Magnani começaram a desconfiar que alguma coisa não estava exatamente dentro do cronograma.

Meia-noite. Fogos explodindo em Manaus inteira. O novo ano chegava pontualmente. Beth Carvalho, não. Quem salvava a festa era a bateria da Reino Unido, reforçada por Caio do Cavaco e Edu do Banjo, tocando sem a menor ideia de que aquele “esquenta” entraria para o Guinness Book.

De dez em dez minutos, o radialista Paulo José agarrava o microfone e anunciava, com um entusiasmo que só a esperança explica:

– Dentro de mais alguns minutos... a grande Madrinha do Pagode... Beeeeeth Carvaaaalho!

A essa altura, “mais alguns minutos” já era uma unidade de tempo tão elástica quanto promessa de político em ano eleitoral.

Por volta da uma da manhã apareceu um micro-ônibus trazendo os músicos da cantora. Eles mal começaram a passar o som quando caiu uma chuvinha. Foi o bastante para o empresário – completamente afogado em uísque – descobrir uma súbita vocação para engenheiro eletricista.

– O palco fica perto da piscina. Se chover mais, pode dar um curto-circuito e eletrocutar a cantora. Acho melhor cancelar...

Almerinho respondeu com a delicadeza de um estivador:

– Nem pelo caralho! Ela já recebeu até o último centavo. Se for preciso, eu trago essa mulher escoltada pela Polícia Militar!

Três da manhã. Os ritmistas da Reino Unido já tocavam por instinto. As mãos pareciam lixas. Caio do Cavaco estava sem voz. Edu do Banjo já havia arrebentado três jogos de cordas. Tinham sido contratados para um pré-show de meia hora e já estavam oferecendo uma pós-graduação em resistência física.

Quatro da manhã. Boa parte do público já tinha ido embora, convencida de que Beth Carvalho talvez estivesse se apresentando em outro planeta.

Foi então que Almerinho e Tito Magnani resolveram partir para a diplomacia amazônica. Cada um colocou um três-oitão na cintura, entrou no carro e seguiu para o Tropical Hotel disposto a convencer a cantora – nem que fosse por excesso de argumentos.

Na recepção veio a notícia que enterrou de vez o réveillon. Beth, completamente derrotada pela mistura de lagosta com uísque, passara mal, vomitara tudo o que havia ingerido desde o desembarque e fora embarcada às pressas para São Paulo por volta da meia-noite. Ou seja: enquanto Paulo José ainda anunciava “dentro de mais alguns minutos”, a atração principal já devia estar sobrevoando Brasília.

Almerinho fez o que qualquer presidente de clube faria diante de tamanho samba do crioulo doido: entrou na Justiça com uma queixa-crime por estelionato. Ganhou a causa por unanimidade. Dizem que, anos depois, Beth conseguiu acordar um robô em Marte. Em Manaus, porém, não conseguiu acordar nem a própria consciência. E nunca mais colocou os pés na cidade, sob pena de ir em cana.

terça-feira, setembro 08, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 60

 


60. A dama do samba Jovelina Pérola Negra estava com 54 anos quando morreu de enfarte, no dia 2 de novembro de 1998, Dia dos Finados, no começo da madrugada, enquanto dormia em sua casa no bairro da Pechincha, em Jacarepaguá.

Em 1992, Jovelina veio a Manaus pela primeira vez para fazer uma série de apresentações no Clube do Samba, de Aloísio Preto e Vilson Benayon. A pedido de Dominguinhos do Estácio, Edu do Banjo foi apanhá-la no aeroporto numa manhã de quinta-feira e se prontificou a ser seu cicerone na cidade. Jovelina agradeceu.

– Olha, Edu, você só me deixa no hotel, que eu quero conhecer a Zona Franca e comprar uns bagulhinhos. Aí, por volta das duas da tarde, você me apanha na portaria do hotel e me leva para comer uma caldeirada de tucunaré, que já me disseram que é o máximo...

Na hora combinada, Edu do Banjo chegou ao Hotel Imperial e encontrou Jovelina Pérola Negra incorporando uma pomba-gira Cigana, mais braba que siri em lata:

– Porra, Edu, sacanagem da grossa! Puta que pariu, roubaram meu relógio de pulso aqui na Zona Franca. Foi ali naquele furdunço da Rua Marechal Deodoro. O vagabundo tinha a mão tão leve que eu nem senti. Só fui dar pela falta dele quando entrei na loja Oriente. Caralho, Edu, caralho! Aquele era um relógio de estimação que ganhei da minha madrinha quando completei 15 anos! Puta que pariu, Edu, puta que pariu! Logo eu, puta velha, malandra escovada, nascida e criada no morro da Pavuna, frequentadora de becos e quebradas desde os doze anos, dançar dessa maneira! Porra, Edu, sacanagem! Sacanagem! Ando na Baixada Fluminense há 20 anos e nunca fui assaltada, aí vim pagar um mico aqui em Manaus?! Assim não dá, porra, assim não dá... Meu relógio de estimação, Edu, caralho, roubaram meu relógio de estimação, Edu! Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Jovelina não quis mais saber de peixada de tucunaré nem de porra nenhuma. Estava simplesmente transtornada e puta da vida. Naquela noite, a cantora foi entrevistada no programa “Clube do Samba”, do radialista Ormando Barbosa, na rádio Difusora, e repetiu a mesma história.

O radialista explicou aos ouvintes que aquele relógio não tinha valor comercial nenhum, só tinha valor sentimental, porque era um presente da madrinha já falecida de Jovelina. Quem devolvesse na portaria da rádio Difusora seria bem recompensado e nem precisaria se identificar.

O apelo do radialista, entretanto, não deu em nada. A crioula sestrosa dançou legal no seu relógio de estimação. E logo em Manaus, onde relógio de pulso é artigo de quinta categoria. Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 59

 


59. Nos anos 80, o jornalista Umberto Calderaro Filho criou o “Estandarte do Povo”, prêmio concedido pelo jornal A Crítica para as melhores escolas de samba de Manaus. Decisão tomada, ele passou à escolha dos jurados. Faltava o jurado para julgar “Harmonia”. 

Um dia, entra no gabinete do jornalista o empresário Gandu Dacache, um mineirinho gente boa que editava a revista Eficaz, mas não entendia nada de carnaval.

Calderaro, com seu vozeirão, gritou:

– Seu Gandu, o senhor vai ser jurado do quesito “Harmonia” do Estandarte do Povo. Está aqui a sua pasta, esteja às oito horas da noite no palanque e não me falte!

– Perfeitamente, seu Calderaro. Fico muito honrado com o seu convite, que para mim é uma ordem – devolveu o empresário.

Realizado o desfile, foram recolhidos os envelopes lacrados para serem abertos no dia seguinte, quando seriam conhecidos os vencedores. Venceu o GRES Mocidade de Aparecida.

Foi aquela festa. O Gandu lá, participando de tudo. Quando ficaram somente os jornalistas da casa, Umberto Calderaro, fazendo um sinal para os demais com uma piscada de olho, questionou Gandu:

– Seu Gandu, como é que o senhor me faz um papel desses? Deu dez pra todo mundo? Se todos os jurados fossem iguais ao senhor ia dar empate!

Gandu, na maior calma do mundo, abriu o coração:

– Seu Calderaro, o desfile correu na mais perfeita harmonia. Não houve nenhuma briga em nenhuma escola. Juro por Deus!

Foi uma gargalhada geral.