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quarta-feira, setembro 02, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 51

 


51. O radialista Jurandir Vieira estava entrevistando o compositor Chico da Silva em seu programa na rádio Difusora e iniciou a rasgação de seda:

– Esse aqui todo mundo conhece. Além de meu amigo particular, Chico da Silva já foi um dos campeões de audiência do “Fantástico”, da rede Globo, já foi o maior compositor de jingles políticos de Manaus, já foi jogador de futebol profissional, já foi compositor da Alcione, já foi parceiro do Noca da Portela, já foi compositor do bumbá Caprichoso, já foi compositor do bumbá Garantido, já foi membro do Clube do Samba, já foi...

Tomando o microfone do radialista, Chico da Silva reagiu indignado:

– Porra, compadre, me enterra logo! Me manda logo pro cemitério São João Batista, porque pelo jeito esse seu amigo aqui já morreu e não sabe! Já foi, já foi, já foi... Já foi, um caralho! Eu sou, porra, eu sou!!!

Jurandir Vieira não sabia onde esconder a cara.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 50

 

Os foliões Marcus Pereira, Albino Pinheiro, Arthur Moreira Lima
 e Sérgio Cabral na Banda de Ipanema 

50. Há pessoas que nascem numa cidade. Albino Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Parece a mesma coisa, mas não é. Morrer no Rio é uma circunstância. Nascer carioca é uma profissão. Quando Albino morreu, em 24 de junho de 1999, aos 66 anos, depois de uma longa batalha contra um câncer na medula óssea, os jornais tentaram resumir sua vida. Disseram que era procurador do Estado, pesquisador do carnaval, produtor cultural, criador da Banda de Ipanema, secretário de Turismo, boêmio. Erraram todos. Albino era carioca. E isso já dava um expediente de vinte e quatro horas por dia.

A Banda de Ipanema, fundada em 1965, foi apenas sua obra mais fotografada. O verdadeiro trabalho de Albino era muito mais ambicioso: impedir que o Rio de Janeiro esquecesse quem era. Ele fazia isso como outros respiram. O Rio era sua religião, sua obsessão e, em muitos momentos, seu estado civil. Passou a vida inteira estudando a cidade como um arqueólogo estuda uma civilização perdida. A diferença é que, enquanto o arqueólogo escava ruínas, Albino escavava botequins.

Durante décadas foi capaz de explicar, com a mesma desenvoltura, a origem de um bloco de carnaval, o melhor chope da Lapa, a genealogia de uma porta-bandeira e o nome do garçom que servia a melhor batida de maracujá da Praça Tiradentes em 1958. O Google jamais teria essa coragem.

Seu único carnaval fora do Rio aconteceu em 1959. E contra a própria vontade. Uns amigos aproveitaram que Albino estava democraticamente embriagado, colocaram-no dentro de uma caminhonete e seguiram viagem. Quando acordou, estava em Ubá, Minas Gerais. Imagine acordar em Minas durante o carnaval sendo carioca. Era como um peixe descobrir que havia dormido num deserto. Qualquer outra pessoa passaria o resto da vida reclamando do sequestro. Albino voltou agradecendo.

Porque foi justamente a bandinha de Ubá que lhe deu a ideia, seis anos depois, de criar a Banda de Ipanema. Transformou um trauma etílico numa das maiores invenções do carnaval brasileiro. Era muito Albino. Mas seu maior feito nem foi esse.

Nos anos 60, existiam dois Rios que raramente conversavam. O Rio elegante dos apartamentos de Ipanema. E o Rio dos morros, dos subúrbios, das gafieiras e das escolas de samba. Albino resolveu apresentar um ao outro. Foi uma espécie de embaixador sem gravata.

Pegava intelectuais da Zona Sul e os levava para ouvir Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Jair do Cavaquinho e tantos outros quando eles ainda eram conhecidos apenas pelo carteiro, pelo dono do botequim e pelos vizinhos. Hoje chamariam isso de intercâmbio cultural. Albino chamava de sexta-feira.

Sua biografia ajudava. Nasceu na Saúde e cresceu em Laranjeiras. Estudava no Liceu Francês, frequentava o Fluminense, mas bastava ouvir um tamborim na esquina para esquecer qualquer vocação aristocrática. Enquanto os colegas sonhavam com Copacabana, Albino sonhava com gafieiras.

Aos catorze anos já explorava a Praça Tiradentes como um antropólogo especializado em samba. Frequentava bailes onde encontrava, entre outras figuras ilustres, as empregadas de sua própria casa. Subornava todas. Não para conseguir informações. Mas para que não contassem nada ao pai. Ali começou uma carreira brilhante na diplomacia.

Quando finalmente chegou a Ipanema, entrou pela porta da frente. As famosas domingueiras de Aníbal Machado reuniam escritores, pintores, cineastas, músicos e intelectuais. Albino encontrou por lá gente como Albert Camus. O escritor francês talvez tenha explicado o absurdo da existência. Albino provavelmente respondeu indicando uma boa feijoada em Vila Isabel. Terminadas as reuniões, todos iam para o Zeppelin. Anos depois, Albino já nem aparecia tanto nas tertúlias literárias. Mas continuava rigorosamente fiel ao botequim. Cada um prestigia o patrimônio cultural que considera mais importante.

Foi também ele quem tirou os bailes pré-carnavalescos dos salões elegantes e os levou para a Estudantina e outras gafieiras. Apresentou Nelson Cavaquinho a plateias que jamais tinham ouvido falar dele. Hoje isso parece inacreditável. É como descobrir que houve um tempo em que alguém precisou apresentar Pelé ao futebol. Quando Vinicius de Moraes dizia querer ser “o branco mais preto do Brasil”, José Ramos Tinhorão encerrava a discussão: Albino não precisava querer. Já era.

Os réveillons organizados por Albino, Jaguar e Ferdy Carneiro entraram para a história. Misturavam sambistas, compositores, passistas, jornalistas, artistas, boêmios e algumas das mulheres mais bonitas do Rio. Aliás, havia um mistério que jamais foi esclarecido. Ninguém sabia onde Albino encontrava tantas mulheres bonitas. Talvez existisse uma espécie de cadastro secreto. Ou talvez elas simplesmente soubessem onde estava a melhor festa.

Sempre que algum prefeito realmente gostava do Rio – acontecimento estatisticamente raro – lembrava de chamar Albino. Ele organizava carnaval em praças, ressuscitava banhos de mar à fantasia, revitalizava a Festa da Penha, criava o Projeto Seis e Meia, ajudava a preservar o Centro Histórico e ainda encontrava tempo para transformar qualquer esquina num ponto de encontro. Parecia possuir um calendário com trinta e sete meses.

Mas toda essa intensa produção cultural jamais atrapalhou sua principal atividade. Beber chope. Durante meio século foi um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio financeiro dos bares cariocas. Há quem diga que Albino conhecia todos os garçons do Rio. Os garçons juram que eram eles que conheciam Albino.

Na rua Almirante Saddock de Sá, onde morava, promovia festas na calçada como quem estende a sala de casa até a esquina. Cerveja. Mesas. Cadeiras. Sambistas. Vizinhos. Ninguém reclamava. Primeiro, porque era impossível ficar de mau humor numa festa organizada por Albino. Segundo, porque todos sabiam que ele possuía uma escritura afetiva daquele pedaço de Ipanema.

Sua maior frustração foi nunca ter escrito o grande livro sobre a história do Rio. Talvez nem precisasse. Albino preferiu viver o livro. Página por página. Chope por chope. Carnaval por carnaval. E deixou a impressão de que, enquanto existisse um botequim aberto, um bloco desafinado e uma roda de samba improvisada numa calçada qualquer, o Rio continuaria encontrando um jeito de parecer com Albino Pinheiro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 49

 


49. Revelado no campo do Oratório de São Domingos Sávio, na Praça 14, o centroavante Sebastião do Socorro Araújo de Oliveira, o “Dentinho”, jogou profissionalmente pelo São Raimundo (1974-1975), Rio Negro (1976), Fast Club (1977-1978) e foi vendido para a Portuguesa de Desportos, de São Paulo, no meio do campeonato amazonense daquele ano.

Após uma brilhante partida de estreia pela Lusa, no campo do Canindé, onde marcou três gols contra a equipe do Palmeiras, Dentinho foi entrevistado por um repórter de pista quando deixava o campo:

– O centroavante Dentinho veio lá de Manaus e já começou a mostrar serviço. Na partida de hoje, ele marcou três golaços e mostrou que vai dar muito trabalho pros goleiros adversários. Vamos conversar um pouquinho com o centroavante. Ô Dentinho! Diz aí pros ouvintes da rádio Tupi qual a razão desse apelido tão engraçado...

Exibindo os incisivos de Itu que trazia na arcada dentária, o centroavante explicou, meio rindo, no seu habitual dialeto amazônico:

– Ah... Isso foi fuleiragem lá da raça...

Até hoje o repórter de pista não entendeu a resposta. Nem os ouvintes da rádio Tupi.

Na sua segunda partida, Portuguesa e Juventus, Dentinho marcou apenas um gol na apertada vitória da Lusa por 2 a 1. Um outro repórter de pista foi entrevistá-lo:

– Vamos falar agora com o Dentinho, que veio lá de Manaus. Ô, Dentinho, foi um jogo catimbado, violento, pegado, mas a Portuguesa saiu vitoriosa. Conta aqui pros ouvintes da rádio Jovem Pan o que foi que você achou...

Sério que só cu de porco, Dentinho abriu o verbo:

– Rapaz, eu não achei porra nenhuma. Mas o lateral-esquerdo Buiu achou uma medalhinha de São Jorge ali perto da bandeirinha de escanteio. Vai lá falar com ele...

O repórter de pista ficou mudo de espanto.

No terceiro jogo da Lusa, Dentinho marcou 4 gols na goleada de 6 a 1 sobre o São Caetano e foi escolhido o melhor jogador em campo. Um repórter de pista se aproximou do centroavante para lhe dar a notícia:

– Ô, Dentinho, parabéns pela sua brilhante atuação no jogo de hoje. Os comentaristas da rádio Globo escolheram você como melhor jogador em campo e vão lhe dar um Motorádio de presente. O que você pretende fazer com o prêmio?

Dentinho nem titubeou:

– A moto eu vou vender e o rádio vou dar de presente pra mamãe...

Nunca mais os repórteres de pista quiseram entrevistar o manauara.

Mas nem só de gafes vivia o centroavante.

Em 1983, Dentinho chamou a atenção do Brasil ao marcar 42 gols no campeonato paraibano daquele ano, jogando pelo Botafogo, de João Pessoa. Com isso se tornou o maior artilheiro da competição em uma só edição, além de ser o 3º jogador com mais gols em uma edição de campeonato estadual, atrás apenas de Pelé, do Santos (que marcou 58 gols no campeonato paulista de 1958), e Ninão, do Palestra Itália (que marcou 43 gols no campeonato mineiro de 1928). O Palestra Itália depois seria rebatizado de Cruzeiro.

Naquele mesmo ano, Dentinho foi o futebolista que mais marcou gols pelo Brasil, 53 no total, se tornando o artilheiro do Brasil na temporada. Não foi pouca porcaria.