Pesquisar este blog

terça-feira, outubro 06, 2026

Xipuara – Histórias e Estórias da Ilha de Parintins

 

Em setembro de 2018, lancei em Manaus a 1ª edição do livro “Xipuara – Histórias e Estórias da Ilha de Parintins”, numa tiragem de 500 exemplares que rapidamente se esgotou. Não deu tempo nem de levar para Parintins.

O livro foi dedicado ao senador Omar Aziz, responsável pela apresentação, defesa e aprovação da Lei nº 13.571, de 21 de dezembro de 2017, que conferiu ao município de Parintins o título de Capital Nacional do Boi Bumbá, e ao talentoso jornalista Marcos Santos, meu ex-chefe no jornal Amazonas em Tempo, responsável pelo portal político mais influente de Manaus e reputado como a verdadeira memória viva do Festival de Parintins.


Em abril de 2025, com o apoio cultural de Beto Nicolau, do Grupo Samel, lancei uma segunda edição do livro, revisada e ampliada, numa tiragem de 1.000 exemplares. 

O livro foi lançado com razoável sucesso em Manaus e em Parintins, durante o Festival dos Bumbás do ano passado. Esta edição ainda está disponível para venda no sebo “Confraria de Livros” ou pelo e-mail simaopessoa@gmail.com. 

Abaixo transcrevo a apresentação do livro e, na medida do possível, vou disponibilizar os textos aqui neste blog na mesma sequência publicada no livro impresso. Divirtam-se. (S. P.)

Contadores de histórias, emuladores de fofocas e disseminadores de futricas fazem parte da evolução humana desde que o primeiro australopithecus começou a andar ereto em uma savana africana, há aproximadamente três milhões de anos. Desde então, a variedade de estórias, lendas, contos, fábulas, causos e anedotas que foram surgindo se expandiram em progressão geométrica.


Essas singulares manifestações culturais, que corporificam a literatura oral de uma comunidade, aparecem por todo o planeta desde que dois hominídeos pararam para conversar sobre a vida de um terceiro. 

Foi nesse contexto que ganhou destaque a figura do contador de causos, do narrador popular, aquele sujeito que ouviu ou vivenciou as histórias para recordá-las e contá-las em uma roda de bate-papo com familiares e amigos. São os causos e são as lendas, o real e o imaginário, fundindo-se dentro de uma perspectiva de zoação total.


Este livro é um pouco disso tudo, mas também tem a pretensão de ser divertido, já que seu único objetivo é fazer o leitor rir. Ou refletir. Ou tudo ao mesmo tempo agora. Traduzindo, trata-se de um convite ao leitor do tipo “procure ver o lado bom das coisas ruins”.

Sim, sei, sabemos, essa frase poderia estar em qualquer livro de autoajuda do Augusto Cury ou parecer um conselho bobo de um mestre de artes marciais saído de algum filme ruim de kung fu dos anos 70.


Mas, segundo os especialistas que estudam o humor a sério, trata-se do maior segredo para viver bem. Rir de tudo e de todos é bem melhor do que fazer dieta detox. Chá verde e salada de aspargos, aquele tio gay do brócolis, convenhamos, não tem a menor graça.

Na realidade não-virtual de agora e sempre, o homem é a palavra. O mais é circunstância. A história é a palavra. O resto é consequência. Por isso a história do homem é a história de sua palavra. É a crônica de sua linguagem. É o cotidiano do possível dizer.


Na Grécia livre de Péricles, o discurso era a palavra. Na Judéia oprimida de Cristo, o discurso era a parábola. Na Idade Média torturada de Galileu, o discurso era o silêncio. No pós-modernismo de Marshall McLuhan, o discurso era o meio – e o meio era a mensagem. Nas atuais redes sociais de Mark Zuckerberg controladas por algoritmos, o discurso é a fake news e o mais é circunstância. A cobra sucuriju começou a engolir o próprio rabo.

Esse não é, portanto, um livro descompromissado. É a garganta das pedras, a brasa adormecida que subsiste na cinza. Menino de um tempo em que havia galos, noites e quintais, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível.

O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna. Porque seduz. Porque nos obriga a pensar. Porque desnuda a verdade. Porque mostra aos arrogantes como eles são medíocres e mostra aos medíocres como eles são arrogantes.


Folclore não é história. É a versão popular da história. As histórias do folclore vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Isso dito, quero ressaltar que não sou propriamente o autor deste livro. No máximo, sou o datilógrafo.

As histórias não são minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, exatamente como me foram contadas. Mas tenho consciência de seu valor antropológico, sociológico e cultural. Porque nos fazem rir. Ou refletir.

A maioria dos causos me foi contada no esquema “face-to-face”, em mesas de botecos. Outros, desconfio que tomei ciência ouvindo indiscretamente a conversa de terceiros e depois checando a história com alguma fonte confiável. Alguns deles me foram enviados por e-mail, messenger ou whatsapp.


De qualquer forma, se há inverdades faraônicas ou discrepâncias farisaicas, debitem na conta desse vosso cronista aprendiz, que adora enfeitar um maracá. 

Sim, incréus, a nossa memória seletiva é um editor de textos sem eira nem beira, fazer o que? Só espero que vocês se divirtam tanto quanto eu mesmo me diverti recordando essas histórias. There is it. É isso aí.

Nenhum comentário: