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terça-feira, setembro 10, 2013

Não basta a miséria da guerra na Síria: mulheres refugiadas estão caindo em redes de exploração sexual no Líbano


Campo de refugiados sírios no Líbano: “as guerras e conflitos armados são uma incubadora perfeita para a exploração de mulheres”

Um lado triste, sombrio e pouco abordado da questão dos refugiados da guerra civil na Síria – 2 milhões de pessoas já deixaram o país desde o início das hostilidades, em março de 2011, o que equivale a espantosos 10% da população total – é o que atinge as mulheres: centenas, milhares delas, ao fugirem da guerra, estão caindo nas mãos de redes de prostituição e de tráfico de ”escravas brancas” no vizinho Líbano.

O Líbano já abriga 700 mil refugiados sírios, dos quais se estima que 75% sejam mulheres e crianças. Boa parte das mulheres que cai na prostituição foi estuprada no curso da guerra.

O problema se agrava a cada dia, especialmente entre os grupos mais marginalizados, informa a ONG libanesa em defesa de mulheres em risco de violência sexual Dar Al-Amal.

“As guerras e conflitos armados são uma incubadora perfeita para a exploração dessas mulheres”, diz a assistente social Hiba Abou Chacra. “O perfil dos clientes, no caso da prostituição de luxo, aponta para libaneses ricos, árabes endinheirados do Golfo e expatriados com posses que vivem no Líbano. Os clientes mais pobres recorrem à prostituição de rua”.

Beirute, a capital, com 2 milhões de habitantes estimados e intensa vida noturna, é o destino da maioria delas, mas nem de todas.

Dias atrás, jornais libaneses denunciaram a existência de um prostíbulo que abrigaria nada menos que 500 refugiadas sírias em uma localidade próxima à cidade litorânea de Sidon, a terceira maior do Líbano, ao sul da capital. A prostituição, tecnicamente, é ilegal no país, mas “quase ninguém fala desse assunto abertamente”, diz Mohammad Ghazal, ativista da ONG Première Urgence.

A ONG oferece apoio psicológico a mulheres e, segundo ele, “algumas refugiadas nos disseram que estão na prostituição porque precisam de dinheiro, mas as demais se calam”. No caso desse suposto prostíbulo, as autoridades não mexeram um dedo.

O que leva essas mulheres ao silêncio – não raro adolescentes ou mesmo garotas de 9, 10 anos – é o temor da desonra social, algo fortíssimo nos países árabes. Essa barreira tem impedido que mulheres, violadas durante a guerra e, agora, em muitos casos, obrigadas a prostituir-se por gangues deixem de relatar sua situação mesmo ao pessoal de apoio da ONU que trabalha junto aos refugiados.


“São poucas as que dão um passo à frente”, confirmou ao jornal El Mundo, de Madri, a porta-voz regional do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Joelle Eid. “A maioria tem medo de falar pelo estigma associado a ter sobrevivido à violência sexual e teme por sua segurança”.

Os diários revolucionários de Caê Guevara


Edson Aran

O tropicalista mascarado aderiu à revolução. A seguir, trechos selecionados dos “Diários Revolucionários” de Caê.

“Agora é odara ou desce pra esse capitalismo desumano, ôxe! Eu mais Paulinha mais Gil mais Gal mais Bethânia mais Pemba formamos um coletivo revolucionário na Lagoa de Abaeté. Mas a gente também passa no Pelô e no circuito Barra-Ondina.”

“A gente ia se chamar Doces Vândalos, mas Gil falou que o ‘propagandamento da vandalização é extrinsicamente contra-informação da mídia fedaputalhizante’. Não entendi nada, mas como eu amo essa preta, mudei o nome. Agora é Axé Vandálico. Pemba gostou.”

“Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval. Mas tem que pedir pra Paulinha. Senão ela me enfia a mão no pé do ouvido e a revolução acaba antes de começar, ôxe.”

“Liguei pra Pablo Capilé. Expliquei a ele como Carmen Miranda e Chacrinha planejaram a Semana de 22 e como esse evento revolucionário influenciou o axézismo de Dodô e Osmar. Capilé falou que prefere a parte dele em dinheiro. Não entendi.”

“Esse moço do hip-hop, o Espermicida, veio visitar nosso coletivo. Ele chegou e falou ‘Eu sou Amarildo, eu sou Candelária, eu sou Carandiru, eu sou Sem-Terra’. Coitado. Tão moço e já esquizofrênico, ôxe.”

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, eu mais Gil mais Gal mais Giló mais Gozô mais Wanderley Wellington (nosso núcleo não para de crescer, ôxe) escrevemos a pauta de reivindicação da revolução.

Exigimos:

1) Uma baleia
2) Uma telenovela
3) Um alaúde
4) Um trem
5) Uma arara
6) E ao mesmo tempo, bela e banguela, a Guanabaaaara”


“Liguei pra Black Bloc. Expliquei a eles como os Irmãos Campos e as Irmãs Galvão inventaram a Bossa Concretista e como esse evento revolucionário influenciou o enlarguecimento da roda de Sarajane e Luís Caldas. O Black Bloc falou que vem aqui me dar um pau. Falei para eles que chamo Paulinha. O Black Bloc mudou de assunto.”

“Eu mais Gariroba mais Quizomba mais Caleidoscópio mais Wanderley Wellington mais Pemba fomos comprar material pra fazer coquetel molotov. Eu expliquei que só podia ser com vodca importada, mas Quizomba falou que eu era um baiano burguês e não entendia porra nenhuma de molotov. Fiquei cheio de ódio e unhei a cara dele. Começou o maior quebra-quebra. Chegou uma fila de soldados quase pretos dando porrada na nuca dos malandros pretos e sobrou até pra mim que sou quase branco, mas fui tratado feito preto.”

“Agora estou em cana. O sol nasce quadrado e me enche de alegria e preguiça. Os porcos capitalistas podem prender meu corpo, mas meu pensamento voa livre sem livros e sem fuzil para espalhar a revolução no coração do Brasil. Só que não. Só que não. Só que não. Só que não.”

xxx

Dessas coisas que só acontecem em Itacoatiara...


Nóis na fita e a playboyzada no CD

No último sábado, 7, por volta das 18h, em Itacoatiara, eu abandonei a Tenda Cultural, onde participava de uma tarde de autógrafos em companhia do Thyrso Munhoz (seu livro “Cinema: comentários e críticas de Guanabara de Araújo” é sensacional!), para ir falar com o Manolo Olímpio, o dínamo que faz o Fecani acontecer, nos bastidores do Palco Principal.

Quando retornei para a Tenda Cultural, 50 minutos depois, a Márcia Cleide, uma das minhas belas atendentes no evento, estava à beira de um ataque de nervos:

– Tem um senhor aqui lhe esperando desde as 18h e dizendo que só paga pelo livro se falar contigo!

O sujeito se aproximou, me estendeu o livro e bateu de três dedos:

– Só vou pagar, se você dedicar o livro pra mim...

Ele tinha uma expressão familiar, mas não me lembrava de seu nome de jeito nenhum.

O meu chefe dos arquivistas neurais começou a consultar seus milhares de fichas empoeiradas, entulhadas numa coleção jurássica de kardex, abrindo armários, gavetinhas e porta-fichas em acetato. Nada.

Antes de entrar em pânico, apelei:

– Caceta, bicho, eu te conheço, mas não lembro direito de onde. Sacumé, a gente vai ficando velho e a memória começa a ratear... Dá uma dica aí...

– Cachoeirinha! – devolveu ele.

– Puta que pariu, a Cachoeirinha é grande pra caralho... Baixa, média ou alta Cachoeirinha?

– Rua Parintins! – avisou.

O filho da puta estava me colocando numa sinuca de bico. Parintins era a rua onde eu morara dos dez aos 20 anos. Como esquecer alguém dali?...

Resolvi forçar a barra.

– Você morava do lado em que morava o Didão ou do lado em que morava o Pepéu?...

Pensei que agora ele tinha se fodido porque só um verdadeiro homeboy do pedaço saberia decifrar esses dois códigos criptografados.

O sacana, entretanto, estava no jogo:

– Umas duas casas depois do Didão...

Filho da puta. Eu agora estava encalacrado. Tentei uma saída honrosa e, fingindo o maior espanto do planeta, apelei de novo, com um novo código que nem a turma do Obama seria capaz de quebrar:

– Perto da casa do Baiano?...

Ele abriu um sorriso que iluminou a cidade:

– Eu sou o Baiano, porra!

Puta que pariu. Fazia 33 anos que eu não via o sacana do Lucinaldo Baiano, que morava com o Adejair Paraguai, ambos corredores de motocross, ambos roqueiros, ambos biriteiros de carteirinha.

A gente se tornou amigos em 1975, quando os dois chegaram a Manaus e foram morar na rua Parintins.

Na verdade, eles ficaram primeiro amigos do Careca Selvagem, só depois é que o Simas me apresentou a eles na qualidade de avis raras: Baiano e Paraguai gostavam de Janis Joplin e também eram artesões.

Baiano trabalhava na CPRM e Paraguai vendia artesanato na Praça da Polícia.

Cada um deles possuía uma motocross de 250 cc, que eram usadas no dia-a-dia.

Aos domingos, eu costumava ir torcer pelos dois nas animadas provas do campeonato da categoria, realizadas em uma antiga pista de motocross na Morada do Sol.

Infelizmente, com suas máquinas detonadas, Baiano e Paraguaio não eram páreo para os irmãos Wagner e Nicolau Montemurro, com suas máquinas novas e sempre azeitadas.

Mas era divertido ver os dois comendo poeira do Baiano nas cinco primeiras voltas, antes de a máquina do nosso ídolo pedir penico.

Em condições normais de pressão e temperatura, desconfio que o Baiano daria cacete nos dois irmãos nas provas de 250cc, apesar de Wagner e Nicolau também serem exímios motociclistas.

No começo de junho de 1980, Baiano e Paraguai me convidaram para assisti-los em uma prova que seria realizada em Itacoatiara.

Eu não conhecia a AM-010 (rodovia Manaus-Itacoatiara), de forma que convidei um motorista mais experiente – o Jones Cunha – para dirigir o meu carro, um Corcel II recém-comprado.


Além de nós dois, embarcaram no carro Luiz Lobão, Simas e a minha então namorada, Marilene, na época uma pirralha de 18 anos.

Foi uma viagem tranquila, mas quando chegamos à cidade ocorreu a primeira surpresa: os três únicos hotéis existentes na cidade estavam sem vaga.

Como a corrida seria na manhã de domingo e a gente ainda estava na tarde de sábado, aquilo virou um problemão.

Fomos almoçar pra depois ver o que a gente ia fazer.

Nessa época, eu e a Marilene estávamos verdadeiramente no cio.

Ninguém dispensava uma oportunidade para fazer amor, parecíamos dois coelhos enlouquecidos.

E aquela falta de vagas em hotéis estava nos deixando agoniados.

Por volta das 4h da tarde, Jones Cunha, Simas e Luiz Lobão nos deixaram em um boteco e foram em busca das nativas locais.

Eles retornaram dali a uma hora.

Jones havia encontrado um seu ex-funcionário da Icel, que se dispunha em nos dar alojamento.

Eu e a Marilene embarcamos no carro e fomos ver a casa do sujeito.

Era uma casa modesta, de madeira, que ficava a cerca de um metro abaixo do nível da rua.

O rapaz, muito atencioso, falou que eu e a Marilene poderíamos ficar na sala da casa, cujo janelão dava de frente pra rua.

No local havia uma rede de casal.

Jones Cunha, Luiz Lobão e Simas foram acomodados em outro quarto.

Como havia apenas um banheiro e Jones Cunha era o amigo do dono da casa, ele foi tomar banho por primeiro.

Depois seria a vez de Luiz Lobão, Simas, e finalmente a nossa.


Enquanto aguardávamos, eu e a Marilene entramos na rede e não deu outra: começamos a fazer amor.

Com meia hora de combate, alguém começou a bater furiosamente na porta da sala, justo no meio de um candelabro italiano.

Desci da rede meio puto, vesti uma bermuda e abri a porta.

O dono da casa estava possesso:

– Isso aqui não é bordel não, caralho! Isso aqui é uma casa de família! Eu exijo respeito, porra, eu exijo respeito! Se eu soubesse que vocês dois iam aprontar, nem teria aberto a porta da minha casa para receber vocês...

Só então caiu a ficha.

É que eu havia esquecido de fechar o janelão da sala.

Cerca de 20 moleques estavam acocorados na rua assistindo ao vivo e a cores aquela sessão explícita de sexo selvagem.

Fomos expulsos da casa na mesma hora.

Eu e a Marilene dormimos dentro do carro.

Jones Cunha, Luiz Lobão e Simas dormiram na casa de umas meninas que eles conheceram em um inferninho.

Como sempre, Baiano e Paraguai não completaram as provas.

Foi a última vez que falei com eles.

Baiano foi morar em Iranduba e Paraguai foi morar em São Luiz (MA).

Pra completar, um mês depois a Marilene veio me avisar que estava gestante.

Em dezembro, disse que nunca mais queria me ver na vida e cumpriu a promessa.

Em abril de 1981, nasceu minha primeira filha, Maíra.

Só consegui ver a criança pela primeira vez quando ela completou um ano de idade e fui convidado pra festa de aniversário.

Mulher é um bicho complicado.


(Ricardo Furtado, padrinho da Maíra, minha sogra, a lovely Adair Pinheiro Marques, com a Maíra no colo e Marilene)

quinta-feira, setembro 05, 2013

Parece que foi ontem, Manaus... Não foi não?!

Marcus Vinicius, my self e Maíra Pessoa

Trastes & contrastes. Título do meu quinto livro de poesia. Publicado em 1981. Duzentos exemplares mimeografados, distribuídos de mão em mão e enviados pelo correio. Reeditado em 1986, na antologia “Brinca comeu brinco”. 

Um poema longo, visceral, coruscante, apaixonado, febril e delirante sobre a Manaus da minha infância e a Manaus de agora e sempre. 

Em abril, havia nascido a minha primeira menina, Maíra, filha da Marilene. A pergunta que eu me fazia – e para a qual nunca encontrei resposta – era se seria justo a minha princesa herdar um mundo de merda, um mundo em que só quem tem grana é que manda e que presta. 

Mais de trinta anos depois a questão continua em aberto. A Maíra, entretanto, não se intimida mais com estes fantasmas. Ela vai à luta, contesta, pergunta, se irrita, uma nova jornalista da tribo dos desassombrados, mas já solidária às causas perdidas. 

O poema foi escrito após um porre federal no Bar do Leo, em Sampa, durante uma noite chuvosa e escrota. Saiu como um vômito. Talvez seja. (S.P.)


Trago em mim a liberdade vigiada,
Jeito manso de mestiço manau,
Um punhal enterrado no abdome,
Dois poemas pustulentos na garganta
E fixo na retina o anteontem.

Tenho preso, comigo, este espanto,
Esta pressa de tigres e morcegos,
Procurando desenhos hieroglíficos,
Vontade de potência, hierarquias,
Nesta terra de contrastes e desperdício.

Terço em mim a navalha cristalina,
Feito fosse uma ave de rapina

Traço em mim a inútil tentativa,
Feito místico em rito sibarita

Teço em mim a estranha cavalgada
Do inconsútil: a fala e a palavra

Porque

Vivo numa cidade encalacrada
Na perdição fatal do próprio ócio:
Uma cidade onde se produzem
Não proteínas mas relógios.

Vivo numa cidade ensimesmada
Sitiada na selva de seu tédio:
Uma cidade onde a indiferença
É de utilidade pública por decreto.

Vivo numa cidade malsinada
Onde a eterna solidão não se resolve:
Uma cidade onde as mulheres sonham
Não com poemas mas com revólveres.

E mais que vivo, sobrevivo,
Fantasma alado no lodo,
Mãos empoçadas na lama,
Desfibrando, pouco a pouco,
Coragem, revoltas, escamas.

Minhas armas são as palavras
(inúteis de já tão gastas).

Minha força são os poemas
(espúrios feito eczemas).

Minha raiva não tem mais-valia
(a rede Globo a anestesia).

Sim

Agora é terrível porque

O mostrador de quartzo cinge a hora,
O caramanchão de plástico tinge a erva,
O babalorixá devasso risca o ponto
E os megalomaníacos vão embora

Sim

Agora é horrível porque

Meus fantasmas surdos estão soltos:
Só trustes, trastes, em tristes engodos

Meus fantasmas lerdos estão cegos:
Só mormaço, modorra, mato, cemitério.

Meus fantasmas loucos estão mudos:
Só histeria, história, hienas, insultos.

Ora como urrar agora nesta era?
Como errar agora nesta ira?
Como dizer agora nesta lauda?

Que pelas mãos sagradas
Escorre o sangue dos justos
Enquanto a vida se cala
Num mudo medo inconcluso.

Que pelas mães escravas
Esvai-se o cancro do jugo
Enquanto a vida se fecha
Num torpe modo absurdo.

Que pela meia-palavra
Esbarra o manso no puto
Enquanto a vida vagueia
Num semiciclo obtuso.

Sim, Manaus, me explica isso,
Enquanto destravo o choro,
Enquanto repico o sino.

Lembro meu tio-avô sentado
Numa cadeira preguiçosa
E recitando entre dentes:
Esta cidade tem uma parte
de mim – à parte
o meu direito de tê-la.
Assim, me dou neste plano,
um passo, um palmo, dez anos,
rosa, vento morno, abrigo.
De minha parte abro mão
e por direito divino
transfiro aos meus filhos

Sim, Manaus, me explica isso,
Enquanto recobro o sono,
Enquanto reato o riso.

Lembro meu pai suado,
limpando a graxa do rosto
e repetindo confuso:
Esta cidade tem um pouco
de nós – à parte
O nosso direito de amá-la.
E assim dividiremos
este pouco palmo que restou
de peixes, pássaros e pedras:
são nossos os igapós poluídos,
alguns pastos queimados,
esta gente decrépita

Cidade em estado de sítio.
Saudade em estado de choque.
Covardes aqui sitiados.

Como conjugar o verbo fome
com crianças sórdidas,
sem rosto e sem nome?

Como conjugar o verbo matar
com gestantes imundas,
sem roupa e sem lar?

Como esconjurar pedintes em ânsia,
carniças da faina
que o próprio homem planta?

Com a palavra os políticos,
encantados com o próprio umbigo.

Com a palavra os mandatários,
das rendas infames do ágio.

Com a palavra os oligarcas,
da fome plantada a faca.

Com a palavra o judiciário,
dos mil processos guardados.

Com a palavra o magistério,
repressores cidadãos beneméritos.

Com a pala corto a lavra
mas nunca o sentido
que esta revolta causa.

Vou percorrer de novo esta veloz/cidade
amargurando seus totens & ventríloquos.

Vou perseguir de novo esta lubri/cidade
maldizendo seus feaks & dentifrícios.

Vou persistir de novo nesta real/idade
amaldiçoando seus deuses em sacrifício.

Mas temo que a força das palavras
nada acrescente ao céu de absinto,
que trago, terço, teimo, e falo,
e gemo, azurro, tremo e minto

Estranha cavalgada repetindo horas:
compulsão febril, ignomínia inglória.

A ponte azulada da Cachoeirinha
Contornando a ilha do Caxangá
Esconde sapos esverdeados
Que à noite se disfarçam de piá
Enquanto aqui coloco no papel
Meus sentimentos de fel.

Ao largo de Educandos,
Cidade alta, classe baixa,
Serpentes trêfegas trafegam,
Imantando de luz antigos casarões.

Vestígios do fausto,
Vetustos prodígios,
Que um tempo multiforme
Recusa deglutir.

Sonhos maus gestando a madrugada.
Sonhos mil gastando a madrepérola.
Sonho & mais tristeza me dá guarda.

Cruzando a Aparecida, rumo ao Centro
Da gravidade zodiacal na oitava casa do medo:
Vendaval eletromagnético, terra prometida, Canaã
Dos beiradões, onde béri béri, malária, mal de Hansen,
Leishmaniose, impaludismo e esquistossomose
São tão comuns como cunhans morrendo de câncer.

Na Praça Catorze de Janeiro,
Observar os loucos
Mostrando ao mundo
Suas garras de rapina,
Suas dores de esc(r)oteiros

Só mastros girando ao istmo suas nuvens de fagulha.
Só ratos deixando rastros e risos nas esquinas.
Só vida respingando víbora no patamar das buscas.

Descambar então por Petrópolis, São Francisco, Adrianópolis,
Passando pela Raiz do problema ao Japiim,
Onde a noite é mais rápida sem a noção emblemática
Do pecado agonizante nas favas cheirando a vela.

Sim,
É necessário até
O gesto do autômato,
O jeito do perdulário,
O gosto do precipício,
Na realidade perdida
Entre o ato e a ação.

Sim,
É necessário manter a calma,
Mesmo com gestos aparentes,
E esconder os gemidos
Nos guardados da memória
(Farrapos rotos que somos).

Sim,
Não apenas rebelar-se
Feito guerrilheiro basco
Medido pelo desastre
Da bomba que detonou.

Sim,
É preciso resistir, mesmo calado,
Com o sonho preso no bojo
Ou na vertigem dos passos.

Porque, além da angústia dos corpos desassistidos
E do logotipo visível
Nas câmaras de tortura do Distrito Industrial,
Estarão as nossas línguas:
Debatendo, debalde, ou decifrando o enigma.

Porque todas as coisas
Tem seu começo ou novelo
Na mesma dor temporã.

Mister é decifrá-las, ponto por ponto,
Nos escondidos do mundo,
Com olhos de seixo e águia,
As garras fechadas de pássaro
Recusando tanto dor

Porque nascer e viver
Não é tudo.
Na vida,
Não é tudo.
Na vida
De quem quer
Viver a vida.
De quem quer
Que seja
E veja
Na vida, a outra, a esperança,
Buscada nos porres de madrugada
Em que viramos criança.

Aqui, na cidade mal amada,
Esperamos recompensas
Que possam nos devolver
A identidade perdida
Entre os anúncios de néon
(bêbados de coca cola,
tênis all star, calça levi’s
e moletons adidas).

Que possam nos devolver
A noção perdida do tempo
(esquecida entre o acordar cedo
e o tardio deitar nojento).

Diluída na vida carcomida, dia a dia,
Nos grotões de agora e sempre,
daqueles mesmo cheios de gente,
Daqueles cheirando mijo e mofo,
No miserê de putas, postas e povo.

Já te amei demais, Manaus, já
Te amei de mal, já
Te deixei gozar de mim, já
Te fiz mais do que podia,
Mais do que podar tuas árvores
Nas ruas em pleno dia
E nem faz tanto tempo.

Não lamento. Não choro. Me contento
Em saber que em ti já fiz de tudo,
Inclusive trepar em pé,
Encostado em alguns muros,
Quando era madrugada
E a vontade de gozar
Superava o medo dos tiras,
Mantedores da ordem e da mentira.

Os bares estão, de novo, brilhando.
Os bares estão, de novo, abertos.
Mas não pra tua gente chafurdando nas favelas.
Mas não pros teus párias e mendigos de espera.
Mas não pros loucos e revoltados em suas celas.

Os bares estão abertos pros mesmos
Donos de tudo, donos de homens mudos,
Donos da fome que fabrica mongolóides.
Donos do verde dor que tememos tanto:
Donos do verde horror, do verde dólares

São tantas cidades em uma só,
Que só conheço a pior,
Que só conheço a menor,
Que só vivo a resmungar.
E não estão todos surdos, sabe?
E não estão todos mudos, viste?
E nem é todo mundo, saca?
Que trapaça, ameaça, que devasta
Esta terra maluca amazônica,
Esta selva em que a verve cala,
Porque só calar nos resta agora,
Na diáspora interna em que vivemos,
Relutando entre ser colonizado
Ou morrer do próprio veneno.

Eles acenam com progressos abissais,
Mas o que se sabe, de concreto, do progresso,
É um mistério travestido em missionário,
Falando em paraíso aos nossos índios
E roubando nossas fontes minerais.

O que se sabe, por certo, do progresso,
É uma gente chorosa pelos cantos,
Nos cortiços, nos mocambos, nas favelas,
É uma gente envergonhada das mazelas,
Que sonha de progresso o seu regresso
Ao mundo ameno do esquecido interior.

O que se sabe, ao certo, do progresso,
Está no número de homicídios e de assaltos.
Está no número de mortos no asfalto.
Está no rosto sorridente dos gerentes,
Entronizados nas multinacionais,
Contabilizando o lucro pelo luto
E corrompendo lideranças sindicais.

O que se sabe do progresso,
É que não houve.

O que se soube do progresso,
É que não ruge.

O que se fala do progresso,
Não se ouve.

A não ser que progresso seja andar apressado,
Sem tempo para sonhar,
Os instintos amortecidos pelo glamour da tevê.

A não ser que progresso seja ser estuprado
Em algum terreno baldio,
A vizinhança olhando, com medo de intervir.

A não ser que progresso seja um tiro no crânio
Sufocado pelas dívidas,
Filhos chorando de fome e a mulher tuberculosa

Sim,
Já chega desta vida pré-datada dos cheques,
Desta gula atribulada dos sheiks,
Desta zona alucinada na selva.

Porque todas as coisas
Tem seu desfecho ou anelo
Na mesma angústia malsã.

Vamos tentar mudar
A marota rota da história,
Reinventando a cabanagem
Sem qualquer pavulagem.

Aí, celebraremos nossos filhos
Na edificação dos mitos,
Com a esperança sagrada
herdada de Ajuricaba.

Pois só assim resistiremos
Ao pasto de gado gir,
Às minas de bauxita,
Às jazidas de caulim
E à truculência selvagem
Dos pistoleiros fardados,
Invadindo nossa terra
Com papéis incracomprados.

Porque todas as coisas
Tem seu enredo ou avesso
Na mesma luz da manhã

Sim,
Somos fugitivos da seca nordestina,
Somos fugitivos dos duros seringais:
Trocamos o chibé pelo cheese-salada,
Trocamos as açucenas pelos espinhais.

Sei,
Em vez de cacimba, um tanque de amianto,
Mas água que é bom necas de pitibiriba.
O piá agora sonha com um videogame
E a piá aposentou os vestidinhos de chita

Certo,
Como mariposas bêbadas em noite escura,
Fomos hipnotizados pelas luzes da cidade.
Os corpos submissos e escarrando sangue
Só dão um toque original a esta fealdade.

Porque todas as coisas
Tem seu pretexto ou averno
Na mesma malva-maçã

Pois é, Manaus, aqui estou contigo,
Decifrando teus sinais luminosos,
Como o marulho de água correndo
Pelo leito de um rio pedregoso.

Pois é, Manaus, aqui estou contigo,
Traduzindo tua gente ignara:
Sem pinceladas de verde-esperança,
Sem o ardil das meias palavras.

Pois é, Manaus, aqui estou contigo,
Brotando do silêncio do chão,
Sonhando ou comendo apenas
As sobras do teu coração.

Pois é, Manaus, aqui estou contigo,
Sentindo a tristeza de um mártir,
Pela dor que me dói tanto
De mais amor não ter pra dar-te.

(Hotel Augusta Boulevard, São Paulo, agosto de 1981)

terça-feira, setembro 03, 2013

Rosa Passos homenageia Djavan em disco extremamente jazzístico


Marcos Sampaio

Ao longo dos 34 anos de carreira, a baiana Rosa Passos já cantou as músicas de Djavan muitas vezes.

Apesar dos timbres e estilos completamente diferentes, o alagoano é notoriamente um dos preferidos da cantora e violonista natural de Salvador.

Rosa é uma referência brasileira no seleto mundo do jazz internacional, apesar de ainda ser figura rara em seu país de origem.

Com voz baixinha, sussurrada e impecavelmente afinada, ela já foi comparada até a João Gilberto.

Já Djavan é um cantor e compositor que passeou por muitas searas musicais e sempre soube conciliar sucesso mercadológico com bom gosto e refino musical.

Com isso, tornou-se um hitmaker respeitado dentro e fora do Brasil.

A união dessas duas forças pode ser conferida no tributo “Samba dobrado”, que Rosa Passos lançou pela Universal Music.

São mais 12 músicas de Djavan que vão se unir às outras nove que ela já havia lançado ao longo da sua discografia.

Ao lado de músicos como Jorge Helder (baixo), Lula Galvão (violão) e Rafael Barata (bateria), a cantora joga suas sutilezas sobre um repertório formado principalmente por clássicos do alagoano.

Interpretada originalmente a plenos pulmões pelo compositor, Faltando um pedaço volta como um afago sutil, mais triste e melancólica.

Até a balançada Linha do equador, parceria de Djavan com Caetano Veloso, fica mais contida com a voz mansa da baiana.

A refinada Cigano remete ao arranjo utilizado por Zélia Duncan em gravação feita para o Songbook de Djavan.

A unidade de timbres dificulta apontar um destaque no tributo, que tende a crescer a cada nova audição.

O encerramento é feito com Doce menestrel, composição de Rosa e Fernando de Oliveira feita especialmente para o homenageado.

É bem verdade que Djavan é o melhor intérprete para suas próprias canções (e um cantor primoroso para o repertório dos outros).

No entanto, mais que comparações com o original, “Samba dobrado” merece ser ouvido por que traz uma das mais respeitadas cantoras brasileiras se debruçando sobre um repertório feito com esmero e reinterpretado de forma realmente nova.


Veja o repertório de Samba dobrado:

1. Pedro Brasil (Djavan, 1981)
2. Linha do Equador (Djavan e Caetano Veloso, 1992)
3. Maçã (Djavan, 1987)
4. Faltando um pedaço (Djavan, 1981)
5. Capim (Djavan, 1982)
6. Pétala (Djavan, 1982)
7. Lei (Djavan, 1986)
8. Pára raio (Djavan, 1976)
9. Cigano (Djavan, 1989)
10. Samba dobrado (Djavan, 1978)
11. Fato consumado (Djavan, 1975)
12. Serrado (Djavan, 1978)

13. Doce menestrel (Rosa Passos e Fernando de Oliveira, 2013)

Um dever moral


Eduardo Saboia, odiado pelos pigmeus ideológicos porque teve a coragem de cumprir um dever moral

J.R. Guzzo

O servidor público mais detestado pelo governo da presidente Dilma Rousseff no presente momento é um tipo de ser humano raríssimo de encontrar no mundo oficial de hoje – um homem de bem.

Seu nome é Eduardo Saboia. Sua profissão é diplomata de carreira, em serviço no Itamaraty. Tem 45 anos de idade, mais de vinte na ativa e era, até a semana passada, encarregado de negócios na Embaixada do Brasil em La Paz, na Bolívia. Não há, na sua ficha funcional, nenhuma nota de reprovação.

Ele acaba de ser afastado do posto, vai responder a uma comissão de inquérito no Itamaraty e tem pela frente, provavelmente, uma sucessão de castigos que promete mantê-lo num purgatório profissional até o dia em que se aposentar.

Não podem botá-lo na rua, como gostariam, porque exerce função de estado e a lei não permite que seja demitido – mas entrou para a lista negra da casa e parece altamente improvável que saia dela enquanto valores como justiça, decência e integridade continuarem vetados no Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Saboia cometeu um delito que Dilma, seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia, intendente-geral do Itamaraty, e os principais mandarins do PT não perdoam: teve a coragem de cumprir um dever moral.

Os fatos são claros como água pura da fonte, e provocam, como tantos outros que vêm acontecendo ultimamente, uma sensação cada vez mais desconfortável: a de que o atual governo, de desatino em desatino, vai se tomando incompreensível. Mais do que a tão falada banalidade do mal, o que se tem no Brasil de hoje é a banalidade das atitudes sem nexo.

No dia 28 de maio do ano passado, o senador boliviano Roger Pinto Molina refugiou-se na Embaixada do Brasil em La Paz, alegando sofrer perseguição política por parte do presidente da Bolívia, Evo Morales.

Dez dias depois, o governo brasileiro lhe concedeu asilo e passou a esperar, como determina uma das mais antigas e respeitadas práticas da diplomacia latino-americana, o salvo-conduto do governo boliviano – documento que, pela praxe, a Bolívia tinha o dever de expedir em poucos dias.

De lá para cá já se passaram quinze meses – e durante esse tempo todo nem a Bolívia concedeu o salvo-conduto. como tinha obrigação de conceder, nem o Brasil insistiu para que o documento fosse concedido, como tinha obrigação de insistir.

Era uma situação que satisfazia tanto a Evo quanto a Dilma. Evo continuava a supliciar seu inimigo: confinado numa pequena sala dos escritórios da embaixada, Molina passou quinze meses sem tomar sol, sofria de problemas de saúde que não podiam ser tratados ali e levava a vida de um presidiário.

Os diplomatas brasileiros pediram que a Bolívia autorizasse, pelo menos, que ele fosse transferido para a residência do embaixador. Nada feito: se deixasse o local onde estava, ameaçou Evo, “o governo boliviano” não poderia garantir sua “integridade física”.

A presidente Dilma, por sua vez, ganhava a oportunidade de fazer uma viagem imaginária ao passado – não podendo mais sonhar com a ditadura do proletariado, como fazia em sua juventude, pelo menos prestava serviço a alguém que considera um símbolo da “resistência ao imperialismo”. O problema, para ambos, foi o encarregado de negócios Eduardo Saboia.

Na simples condição de funcionário que age em obediência a seus princípios como ser humano, ele decidiu que não iria engolir passivamente a humilhação de servir de carcereiro.

Durante 450 dias fez tudo o que pôde para resolver a situação dentro das normas, do profissionalismo e da disciplina. Mandou 600 mensagens a seus superiores, implorando uma solução. Veio duas vezes ao Brasil só para cuidar do caso. Perdeu a conta de quantas horas passou em salas de espera em La Paz.

Por fim, ao constatar que o estado de saúde do senador Molina tinha chegado a um ponto crítico, decidiu trazê-lo por conta própria para o asilo no Brasil, numa viagem de carro que levou 22 horas entre La Paz e a fronteira brasileira. Foi no que acabou dando a recusa do governo em tratar o problema, desde seu início, com um mínimo de lógica.

Nos dias seguintes, em vez de agir como presidente, Dilma se entregou a acessos de cólera que não resolvem nada, a começar pela demissão do seu ministro das Relações Exteriores. Mas seu problema é outro. Chama-se Eduardo Saboia e gente que, como ele, não tem medo de separar o certo do errado, por disporem de consciência, coluna vertebral e compaixão.

É um espelho para o qual a presidente e seu círculo íntimo odeiam olhar. Veem, nele, o que deveriam ser e não são.

A perseguição a Saboia confirma que, no estatuto do grande clube dos cafajestes, cumprir um dever moral é crime hediondo


Augusto Nunes

“O caso da retirada de um senador de uma embaixada brasileira e sua condução sem garantias ao território brasileiro é um fato grave e que está sendo apurado”, miou o novo chanceler Luiz Alberto Figueiredo nesta sexta-feira, ao baixar no Suriname para acompanhar a presidente Dilma Rousseff na reunião da Unasul. 

Fato grave foi o desprezo pelas convenções internacionais reiterado por Evo Morales, que se negou a emitir o salvo-conduto devido a um político oposicionista asilado na embaixada brasileira. 

Fato grave foi a submissão do Planalto à insolência de um tiranete que trata o Brasil como um grandalhão pusilânime. Previsivelmente, o ministro das Relações Exteriores acha que fato grave foi a libertação de Roger Pinto Molina ao fim de 15 meses de clausura num cubículo.

Na abertura da coluna publicada na edição de VEJA, o jornalista J. R. Guzzo faz um brilhante resumo da ópera (irretocavelmente analisada no restante do texto, que pode ser lido na revista). Confira a introdução. Volto em seguida.

O servidor público mais detestado pelo governo da presidente Dilma Rousseff no presente momento é um tipo de ser humano raríssimo de encontrar no mundo de hoje ─ um homem de bem. Seu nome é Eduardo Saboia. Sua profissão é diplomata de carreira, em serviço no Itamaraty. Tem 45 anos de idade, mais de vinte na ativa e era, até a semana passada, encarregado de negócios na Embaixada do Brasil em La Paz, na Bolívia. Não há, na sua ficha criminal, nenhuma nota de reprovação.

Ele acaba de ser afastado do posto, vai responder a uma comissão de inquérito no Itamaraty e tem pela frente, provavelmente, uma sucessão de castigos que promete mantê-lo num purgatório profissional até o dia em que se aposentar. Não podem botá-lo na rua, como gostariam, porque exerce função de estado e a lei não permite que seja demitido ─ mas entrou para a lista negra da casa e parece improvável que saia dela enquanto valores como justiça, decência e integridade continuarem vetados no Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Saboia cometeu um delito que Dilma, seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia, intendente-geral do Itamaraty, e os principais mandarins do PT não perdoam: teve a coragem de cumprir um dever moral.

Aí está, em sua essência, a explicação para os chiliques presidenciais que começaram no dia 24, quando Dilma soube da operação que enfureceu o Lhama-de-Franja, e atravessaram a última semana de agosto. O surto de cólera atingiu sucessivamente o chanceler Antonio Patriota, o embaixador Marcel Biato, o senador Pinto Molina e, com especial intensidade, o diplomata que ousou desafiar o companheiro Evo Morales.

Por não ter descoberto e abortado o resgate, Patriota foi rebaixado a chefe da representação na ONU. Por ter acolhido o parlamentar boliviano quando comandava a embaixada em La Paz, Marcel Biato viu cancelada sua iminente transferência para Moscou. Por ter chegado ileso ao país que lhe garantira a sobrevivência, o senador boliviano foi punido com a cassação do status de asilado político.

E Saboia, por ter feito o que devia, vai percorrendo as estações do calvário previsto no artigo de J. R. Guzzo. Cumprir um dever moral é mais que perigoso. Segundo o estatuto do grande clube dos cafajestes, é crime hediondo. Em vez de averiguar as patifarias jurídicas e diplomáticas de Morales, uma comissão de sindicância montada pelo governo federal caça pretextos para implodir a carreira de Saboia.

Na cabeça despovoada de neurônios, o homem decente é um traidor da causa. E o vilão merece o tratamento de herói ultrajado, informou o encontro entre Dilma e Morales no sarau em Paramaribo.

Vejam a foto. A presidente brasileira contempla o vigarista de estimação com o olhar da debutante prestes a dançar a valsa com o padrinho que aparece toda noite na novela da Globo. O casal segura dois bonecos manufaturados que Morales deu de presente a Dilma. Ela retribuiu com um quadro e, na conversa a dois, com a cena de vassalagem explícita pressurosamente divulgada pelo chanceler Figueiredo.

Assim que as portas se fecharam, contou o novo porta-voz de Marco Aurélio Garcia, a presidente manifestou ao parceiro seu “repúdio” à operação arquitetada e conduzida por Eduardo Saboia. “Repúdio completo”, acrescentou o chanceler. Para tamanha vileza, só um substantivo não basta.

Os afagos retóricos desnudaram de novo a rainha de araque. O que Dilma e Morales queriam era induzir Pinto Molina a compreender que seu cativeiro só seria interrompido pelo suicídio, pela loucura ou pela rendição. Teriam vencido se não surgisse em seu caminho um diplomata sem medo. Foram derrotados por um homem disposto a cumprir seu dever. Não conseguirão devolver o senador ao governo boliviano.

Quem promoveu a asilado político um Cesare Battisti, assassino condenado à prisão perpétua na Itália democrática, não se atreverá a entregar um perseguido sem direito a um julgamento justo.

Resta a Dilma Rousseff, sempre orientada por seu chanceler portátil Marco Aurélio Garcia, insistir no cerco a Eduardo Saboia.

A dupla deixaria de sonhar com vinganças se fosse homenageada com uma exclusiva, pessoal e intransferível manifestação de rua. Mas ninguém sabe onde andam os indignados de junho.

Sonhar não custa nada!


Tutty Vasques

Se foi tão fácil e deu tão certo no Iraque e no Afeganistão, francamente, tem tudo para ser mamão com açúcar a ação militar dos EUA na Síria.
Do jeito que são bons de mira e criteriosos na escolha dos alvos, as forças americanas de libertação logo serão recebidas com festa pelo povo sírio nas ruas de Damasco.
Bashar al-Assad rendido e seu arsenal químico apreendido serão apresentados ao mundo como troféus de uma guerra plenamente justificável e bem conduzida para banir a barbárie e restabelecer os direitos humanos numa região subjugada pela insanidade de um ditador.
Israel e o Hezbollah vão apenas observar à distância a “ação discreta e limitada” dos “bombardeios cirúrgicos” necessários para o sucesso da operação. A ONU dará, enfim, o braço a torcer: os americanos tinham razão!
Outro sonho de Obama se concretizou na quarta-feira: a primeira-dama Michelle tirou aquela franjinha ridícula para ir à cerimônia dos 50 anos de outro famoso sonho americano.

“Tô fora!”
Está explicado porque, de uns meses para cá, Aloizio Mercadante largou o posto de papagaio de pirata da presidente Dilma:
O ministro sentia que estava sendo espionado pelos americanos toda vez que pousava para fotos em um dos ombros da chefe.

Inadmissível e inaceitável
EUA podem ter usado até o recurso do espelhinho no chão para espionar a presidente Dilma por baixo dos panos!

Não tem erro
Já tem data, hora e local marcados a próxima estrepolia do governador Cid Gomes a merecer atenção do noticiário:
Alguma ele vai aprontar no domingo, 8 de setembro, durante o show da Cantora Beyoncé em Fortaleza.
Só se fala disso no Ceará!

Amarildolândia
A reconstituição da via crucis de Amarildo pode virar programa turístico na Rocinha.
Não há outro motivo para a polícia ensaiar tanto o percurso!

Recurso protelatório
Justiça seja feita a José Dirceu, no tempo em que ele era ministro não se tinha notícia de assessor da Casa Civil preso por estupro de menor.
Podia até rolar um peculatozinho ou outro, mas violência sexual nunca! Essas coisas a oposição não vê – ô, raça!

Ele merece!
Autor de dois gols nos 4 a 0 pra cima do Flamengo, Alexandre Pato dedicou a vitória do Timão a seu cabeleireiro.
Quando o jogador entrou em campo já dava pra ver que estava diferente dos últimos jogos.

Sem preconceito
A diretoria de marketing do Corinthians quer destinar espaços da nova arena do Timão para a realização de casamentos, mas teme a reação da torcida em noites de celebração de união homoafetiva no clube.

Sotaque inconfundível
Joaquim Barbosa tucanou a safadeza: chamou de “incongruência constitucional” a decisão da Câmara dos Deputados de manter o mandato do colega presidiário Natan Donadon.
O PSDB já foi fera nisso!

…à flor da pele
A cada ano que passa, a relação do Renato Aragão com o ‘Criança Esperança’ fica mais parecida com a que dona Zica mantinha com a Mangueira:
É muita emoção, né não?

Era HD
A ação militar na Síria impõe um novo desafio à televisão mundial.
Se, como nas últimas guerras, a transmissão se limitar a reproduzir clarões espocando em tela verde, capaz de dar traço de audiência.

Outra turma
Bill Clinton informa:
Eduardo Paes substituirá o colega de Nova York, Michael Bloomberg, na presidência do C40, grupo de cidades empenhadas na contenção das mudanças climáticas.
Era o que o prefeito do Rio precisava para se afastar de vez do Sérgio Cabral.

Mau negócio
O consulado americano em Brasília negou visto de entrada nos EUA a Andressa Mendonça, mulher do Carlinhos Cachoeira.
Depois reclamam que as vendas estão caindo em Miami!
Imagina na Copa!
Em 1 ano, o Brasil cresceu 7.085.828 habitantes, fora os médicos cubanos residentes, que só serão computados pelo IBGE na aferição de julho de 2014, se é que vão ficar para a Copa!
Reforma do eleitor
Você votou em deputado que ajudou o colega presidiário Natan Donadon a se livrar da cassação na Câmara?
Corre na Internet a campanha ‘Pelo fim do voto secreto também para eleitor’.

Grandes coisas
Da presidente Dilma, querendo encher a bola de Guido Mantega, durante exposição do ministro sobre o crescimento comparativo do PIB brasileiro:
“Nooossa! Tá maior que o dos sul-coreanos, hein!”

Conta conjunta
Por razões financeiras, Daniela Mercury desistiu de ter seu próprio camarote no carnaval de Salvador.
A cantora deve estar sentindo no bolso a despesa que dá se casar com mulher!

Síndrome de célula-tronco
Simultaneamente aos óvulos masculinos e aos espermatozoides femininos em produção nos laboratórios do Japão, cientistas austríacos acabam de anunciar a criação em cativeiro de minicérebros do tamanho de uma ervilha.
Some-se a isso notícias recentes sobre a geração de neurônios a partir de urina na China e as experiências em curso com falsas memórias implantadas em camundongos nos EUA e, resultado, tem gente por aí começando a ficar com medo desse papo de célula-tronco cada vez ganhando mais espaço nas editorias de Ciência da grande imprensa.
Da orelha ao fígado – sem falar no hambúrguer –, tudo enfim que a matéria plástica não conseguiu substituir em seu tempo será um dia feito de células-tronco. Existe hoje uma tropa de jaleco branco criando rim, coração, nariz, dente, pele, artéria e o escambau em tubos de ensaio.

Não demora muito, qualquer um poderá um dia montar seu próprio Frankenstein sem precisar sair por aí saqueando cemitérios. Não é assustador?

E o PT foi às compras...


Mauro Pereira

Ao longo desses mais de dez anos, o PT nos proporcionou a oportunidade ímpar de testemunharmos a introdução de sua renovada visão democrática, tese defendida desde a Fundação e que acelerou seu desembarque na presidência da República. Com o objetivo alcançado, durante esse tempo todo quis nos impor a democracia dele, parida no solo árido da egolatria e consubstanciada no desmesurado apego ao poder.

Candidato a latifundiário da política nacional, seu governo exercita um perverso e seletivo modelo de defesa dos direitos humanos, indignando-se apenas quando os direitos ultrajados dos humanos ocorrem em hostes inimigas. Quando os excessos acontecem nos seus quintais ou nos de seus aliados, dentro ou fora do Brasil, dá às costas aos direitos e não consegue definir como humanas as pessoas que padecem sob a violência de governos autoritários e ferozes.

Buscando a qualquer custo uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, jamais demonstrou o menor vestígio de pudor ao bajular ditaduras cruéis e andar de braços dados com governos corruptos e autoritários. Perfeitamente à vontade, visitou os porões da inconsequência ao tramar a suspensão do Paraguai dos quadros do Mercosul para substituí-lo pela Venezuela, parceira de desmandos e desvarios.

Na visão vesga de seu ministro das Relações Exteriores, a Venezuela é só um tipo diferente de democracia. Ele precisa saber que para os brasileiros de bem, qualquer tipo de democracia diferente é a versão mais ordinária de ditaduras iguais, exercido apenas por democratas de fachada e aplaudido somente por lacaios disponíveis.

Coerente com o seu ideário, sempre defendeu com veemência a pureza democrática de Fidel Castro, um dos mais truculentos ditadores da história recente da América Latina, e patrocinou uma das páginas mais desprezíveis da política internacional ao qualificar de bandido comum o ativista Orlando Zapata Tamayo, que morreu em decorrência da greve de fome em protesto contra a tirania da família Castro. Mostrou a dimensão de sua cumplicidade ao calar-se sobre a investida descaradamente absolutista de Cristina Kirchner contra a imprensa e o Judiciário argentinos.

Definitivamente, a prudência manda que jamais subestimemos a capacidade de acanalhar-se do PT. Com os olhos voltados para as eleições do próximo ano, decidido a reeleger Dilma Rousseff e eleger o governador de São Paulo, mergulhou de vez nas águas revoltas da irresponsabilidade. Preocupado com o resultado das urnas, demorou mais de uma década para se dar conta da excepcional incompetência de seus gestores incumbidos de oferecer um serviço de saúde digno.

Maquiavélico, fez o que sabe fazer de melhor: terceirizou seu fracasso escolhendo os médicos brasileiros como os vilões da vez, responsabilizando-os pela ruína de sua política de saúde pública representada na espera angustiante dos pacientes por exames laboratoriais que degrada, no calvário das filas nos hospitais que avilta e na perda de 41 mil leitos do SUS nos últimos oito anos, que revolta.

A indigência moral se concretiza nesse asqueroso convênio compactuado com o governo cubano para a importação de 4 mil médicos. É bom esclarecer que nada tenho contra a vinda desses profissionais. Seria até mesmo um fato corriqueiro se eles viessem por decisão pessoal e soberana, se submetessem às leis do país que escolheram para fixar residência e, depois de aqui instalados, gozassem da prerrogativa da igualdade e da plenitude das liberdades individuais garantidas pela Constituição.

No entanto, a legitimidade se definha ao guardar na sua concepção o apelo eleitoreiro, trazer no seu viés a desconfiança da doutrinação ideológica e tratar seres humanos como mercadoria de propriedade do estado.

Eu estaria agredindo o princípio da honestidade se não considerasse a hipótese de que esses profissionais se apresentaram voluntariamente para a missão em terras brasileiras. Mas a presunção do fulgor ideológico se desmantela no sequestro de suas famílias que permanecerão reféns do governo cubano como moeda de troca de sua lealdade e a garantia de que a propalada devoção a Fidel Castro não vire fumaça no primeiro voo para Miami.

Desgraçadamente, a ditadura castrista usa essa mão de obra como fonte de divisas. Sua commodity mais valorizada é gente. Seus produtos de importação mais bem cotados no mercado internacional são pessoas. Sem o menor trauma de consciência as oferece a quem estiver disposto a comprá-las. O PT estava. E foi às compras.

Por mais que se queira, é praticamente impossível para o cidadão que tem um mínimo de autonomia intelectual permanecer insensível à incompetência testada e comprovada do governo federal e à vocação para o desonesto ─ escancarada na memorável decisão da maioria dos ministros do STF no julgamento do mensalão.

Raro é o bem feito que persevere na administração do PT. Pouco é o que não se corrompa no contato com o petismo. Torna-se difícil até mesmo recorrer à máxima da excepcionalidade.

Veja-se a denúncia mais recente envolvendo o deputado federal paulista Vicente Cândido, que teria oferecido propina a agentes da Anatel para resolver a dívida de 10 bilhões de reais da Oi, resultante de multas aplicadas pela agência.

A obsessão pela hegemonia é da natureza do PT e está gravada em alto-relevo no seu DNA. Só acreditam na sua castidade os crédulos, os cúmplices e os oportunistas. Ninguém além deles.

O fim do bonito Jardim da Quinta Bar


Edy Torreira, do Rio de Janeiro

Soube nesta semana através do camarada Tande Biar, grande torcedor do São Cristóvão e morador do bairro, que o glorioso bar da Dona Olinda, o Jardim da Quinta Bar, fechou as portas.

Passei ontem por lá e para ser mais preciso, não fechou, mas mudou o comando.

Então fechou, oras!

Pois é, conversei com o caboclo que estava atendendo e ele me disse que o ponto foi comprado.

Já começaram as mudanças, colocaram uma estufa medonha e, o pior, entrarão prontamente em reforma geral.

Realmente uma pena.


É mais um boteco clássico do Rio de Janeiro que ficará apenas na memória dos benditos que pisaram naquele santuário comandado pela senhora portuguesa e sua filha, a Vera.

Um bar com alma gigante que acolhia qualquer tipo de gente, sempre com o mesmo zelo.

Dos transeuntes forasteiros aos vizinhos ali do Largo do Piolho, dos granfinos aos maltrapilhos, dos policiais da 17ª DP, que fica ao lado, aos gatunos.

Todos estes sempre foram recebidos com um sorriso largo dos lindos azulejos floridos de cor laranja, com um abraço apertado das prateleiras de bebida, com o carinho do velho balcão e com o olhar protetor da imagem de São Cristóvão na parede.

Aliás, além da imagem do santo, escudos de um time do bairro decoravam o local. O Vasco da Gama.


Dona Olinda, sempre com um paninho na cabeça, estava há cinquenta anos no comando da cozinha.

E como brincava de fazer comida!

Bolinhos de bacalhau, bobó de camarão – às sextas –, pratos caseiros em geral e as deliciosas e famosas empadas de camarão, carro chefe da casa.

Geralmente eram três fornadas ao dia.

O velho Jardim da Quinta Bar deixa muitos cotovelos órfãos, que a partir de agora terão que buscar repouso noutros balcões acolhedores.

Arrancaram um bonito pedaço do bairro de São Cristóvão, os amantes dos bares tradicionais estão de luto e já sentem saudade.