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sexta-feira, março 22, 2013

Thank God it’s Friday!



Hoje é o dia mundial da azaração.

Aí, você vai pra uma balada da hora em companhia de seus melhores amigos e enche a moringa de birita porque é boca-livre total e está cheia de vagabas.

Como saber o momento certo de parar de beber e não dar vexame?

Aí vão algumas dicas.

Coisas que são DIFÍCEIS de dizer quando você está bêbado:

Indubitavelmente.

Preliminarmente.

Proliferação.

Inconstitucional.


Coisas que são EXTREMAMENTE DIFÍCEIS de dizer quando você esta bêbado:

Especificidade.

Transubstanciado.

Verossimilhança.

Três tristes tigres.


Coisas que são TOTALMENTE IMPOSSÍVEIS de dizer quando você está bêbado:

Puta merda, que menina feia!

Porra, que nessa festa só tem mocreia e tribufu...

Sai fora, você não é o meu tipo...

Chega, já bebi demais.

Dados esses esclarecimentos, mão à obra que cobra parada não engole sapo.


Bom, mas no final da presepada surge uma nova dúvida: como chegar bêbado em casa, de madrugada, e encarar a radio-patroa?

Existem apenas dois métodos, escolha o que melhor se adapta ao seu estilo de vida.


MÉTODO ERRADO:

1. Tirar os sapatos antes de entrar.

2. Subir a escada sem fazer barulho.

3. Tirar a roupa no banheiro.

4. Entrar no quarto bem devagarzinho.

5. Se deitar na cama e se cobrir silenciosamente com o lençol.

Resultado: a tua mulher, que está te esperando bem acordada, te enche de porrada!


MÉTODO CERTO:

1. Chegar cantando pneu, dando aquela freada escandalosa.

2. Bater a porta do carro violentamente.

3. Subir a escada pisando forte, chutando o corrimão.

4. Tirar a roupa e os sapatos e jogar tudo contra a porta do armário.

5. Pular na cama e falar: “Hoje é dia de comer bundinha!”

Resultado: ela finge que está dormindo...











segunda-feira, março 18, 2013

Carmem, doida pra viver!



Texto: Plinio Valério

Foto: Antônio Menezes

A vida de Carmem era perambular pelas ruas da cidade. Sua ocupação preferida: fazer carretos para algumas pessoas que compravam no mercado Adolpho Lisboa e correr atrás dos meninos que mexiam quando ela passava.

Tudo que pedia e tudo que ganhava era para levar ao Hospício Eduardo Ribeiro e repartir com suas colegas.

Juntava tudo e diariamente ia ao hospício dividir o apanhado.

Todos que aqui vivem, pelo menos na faixa de vinte e dois anos em diante, se lembram de “Carmem Doida”.

As crianças se divertiam com ela e os adultos dela gostavam pois sempre foi uma pessoa prestativa e solidária.

De repente Carmem sumiu.  

Dela não se ouviu mais falar. Morreu – pensaram todos.

Mas Carmem vive, só que paralítica.

Está nesta situação desde 74, vítima de um guarda que a colocou para fora de um ônibus.

Ela caiu, bateu a cabeça e o joelho e dali por diante começou a ter problemas até ficar paralítica.
Reclama, mas se conforma com seu destino.

Agora, que o Natal se aproxima, ela fica indócil, pois para ela o Natal era e continua sendo a mais bela festa de todas.

Carmem vive o Natal. Ela até já fez seu pedido a Papai Noel: quer ganhar dois cadernos e um lápis com borracha, de cores preto e vermelho.

Um pedido simples para quem vive como ela vive.

Descobrindo Carmem


A primeira surpresa: “Carmem Doida” está viva. Mora com uma senhora numa rua perto da prefeitura.

Fomos até lá.

Dona Zizi, a dona da casa, nos recebe bem e fala um pouco a respeito de Carmem ao mesmo tempo que nos conduz ao seu quarto.

– Carmem. Esses dois rapazes são de um jornal. Vieram conversar contigo.

– Eu vou sair no jornal, é? Minha cara vai aparecer?

– Vai sim, é só você concordar...

Ela concordou e começou a falar. O jeito, o modo de falar e as palavras que usa são as mesmas, só não os gestos.

As pernas imóveis cobertas por um lençol e as mãos também imóveis colocadas por sobre o peito.

Só os olhos se movimentam.  Enormes e espertos, como esperto é o seu modo de falar.

Segunda surpresa: Carmem sempre teve um lar.

Desde os três anos de idade vive com a mãe de Dona Zizi, com quem foi criada e que depois de doente chama de mãe.

Passava o dia inteiro na rua, mas dormia em casa.

Não precisava de nada, pois dispunha de tudo. Se deixavam ela perambular pelas ruas era porque o médico pedia para não impedi-la.

Esteve internada algumas vezes, mas sempre soube o que fazia.

Adorava correr atrás dos meninos pelas ruas e conversar com as donas de casa quando fazia a faxina nas casas.

Ganhava dinheiro, comida, roupas e outras coisas mais, juntava tudo num saco e rumava para o hospício, lá dividia com a turma.

Ela adquiriu este hábito desde a primeira vez que esteve por lá.

Levava até tabaco escondido debaixo da roupa pra distribuir.

Tem uma queixa: ninguém a visita.

– Na rua era Carmem, Carmem, Carmem... Todo mundo gostava de mim. Mas hoje ninguém vem aqui me ver...

Terceira surpresa: Carmem tem 59 anos e Anjos como sobrenome.

É natural do Cacau Pirera e nasceu no dia 18 de abril de 1918.

Jamais esqueceu a data de seu aniversário e sempre fez questão de ganhar presente. 

Tem um calendário na grade de sua cama com duas datas assinaladas: 25 de dezembro e 18 de abril. 

Ela está indócil.

– Já fez minha carta, sobrinha?

– Ora, Carmem, você já está muito grande para ganhar presente de Papai Noel.

– Mas eu quero...

– O que você quer ganhar?

– Eu quero ganhar (pausa) dois cadernos grandes e dois lápis com borracha. Vermelho e preto!

Dona Zizi diz que ela ainda tem o hábito de anotar tudo que faz. Só que não escreve.

Risca uns números e chama isso de tarefa.

Qualquer coisa que faça ou diga, pega o caderno e anota (risca).

– Você só quer isso de Papai Noel?

– Só. Só quero isso... Será que ele me dá?

– Pode ficar tranquila, ele vai dar sim.

Diariamente Carmem ia ao Mercado Adolfo Lisboa a fim de fazer carretos.

Num dia – ela não lembra qual – do ano de 1974, foi chamada por uma senhora.

Pegou a encomenda e rumou para a Estação de Ônibus.

Como sempre fazia, entrou pela porta da frente.

Nunca pagou ônibus na vida.

Um guarda viu ela entrando e botou-a pra fora dizendo:

– Sai daqui. Lugar de doido é no hospício!

E a empurrou. Ela caiu. Bateu a cabeça e joelho. 

Chegou em casa e não contou nada. Escondeu.

Com o passar do tempo foi sentindo uma dor esquisita no joelho.

Levada ao médico foi receitada, mas não havia tempo.

Acabou ficando paralítica.

Vive recolhida a um quarto desde 1974 e até para tomar banho tem que ser carregada, trabalho que é feito diariamente pelas empregadas de Dona Zizi.

Lucidez


Apesar de tudo ela ainda é lúcida:

– Sou doida, mas tenho juízo – diz ela.

A verdade é que Carmem sempre soube o que fazia.

Nunca fez nada que não soubesse explicar.

A uma brincadeira, responde com outra:

– O Bombalá mandou lembranças pra você...

– Êta! Aquele doido?! (risos)

Dona Zizi diz que os médicos nunca souberam explicar ao certo qual o problema de Carmem, já que ela sempre agiu direito.

Gostava de correr atrás de meninos, fazer carreto, faxina e andar de ônibus.

– Seu negócio era perambular pelas ruas e nós não podíamos impedi-la – conta Dona Zizi.

Mas todas as noites, por volta de seis e meia, o mais tardar sete horas, ela voltava.

Natal e aniversário

Duas datas tem significado especial para Carmem: Natal e seu aniversário.

No tempo que podia andar, dia de seu aniversário ia às rádios colocar melodia para ela mesma e exigia presente das pessoas conhecidas.

Não sabe explicar porquê, mas ainda gosta.

O Natal para ela é a data máxima da humanidade.

Faz festa, vive, adora a comida de Natal.

Aqui, um lamento:

– Ah, meu Deus! Que saudade de andar. Que saudade das minhas colegas. Das vitrines, dos meninos, das festas, das ruas... Saudade de tudo.

O assunto é desviado. Poupamos este sofrimento a Carmem.

– Você nunca quis casar não?

– Êta! Pra lá. Sou doida, mas tenho juízo.

Doida, tendo juízo ou não, Carmem ainda vive.

Sente prazer em falar das coisas que fez.

Conta coisas incríveis e ri, tal qual uma criança traquina.

Fica feliz da vida quando recebe uma visita e lamenta não ter sido visitada ultimamente.

Se perde em pensamentos quando alguém cita o nome de Bebel, um motorista de ônibus que ficava lá pela estação:

– Você gostava do Bebel?

Ela responde com um sorriso malicioso.

E quando nos despedimos, ela diz:

– Já vão, queridos?

(publicado no jornal A Crítica, em 21 de novembro de 1977)

terça-feira, março 12, 2013

Itacoatiara ganha um moderno terminal de armazenamento de combustíveis



Nesta quarta-feira, 13, o Grupo Dislub Equador inaugura, em Itacoatiara, a primeira etapa de um terminal de armazenamento de gasolina, óleo diesel e etanol, com capacidade inicial de 50 mil metros cúbicos de combustível.

A empresa já se prepara para iniciar a segunda e terceira etapa do projeto.

O investimento inicial é de R$ 100 milhões e pode gerar, só em ICMS, R$ 900 milhões por ano.

Quando ficar totalmente pronto, a capacidade de armazenamento do terminal será de 150 mil metros cúbicos de combustível.

De acordo com a Equador Log, serão gerados 150 empregos diretos na área de operação.

Para a expansão serão geradas 600 oportunidades de trabalho direto na construção civil.

O projeto foi desenvolvido pelo Grupo Dislub Equador para resolver um antigo problema da Petrobras: o fato de os navios da estatal não poder vir com os tanques cheios de combustível até Manaus por conta de uma limitação de calado no trecho entre Itacoatiara e Manaus.

Hoje, as embarcações vêm com carga pela metade, mas a empresa paga o frete integral, como se os tanques estivessem cheios.



Com a inauguração do terminal de armazenamento, a estatal poderá trazer navios com tanques cheios, que vão aliviar a carga em Itacoatiara e trazer para Manaus apenas o necessário para atender o mercado local.

O combustível que abastece outras cidades da região Norte poderá sair de balsa a partir de Itacoatiara, numa operação bem mais racional.

Hoje, as balsas precisam partir de Manaus.

O gerente operacional Helvio Filho disse que uma nova empresa foi criada apenas para essa operação, a Equador Log, que construiu e vai operar o terminal.

O complexo de Itacoatiara também vai resolver outro problema.

Por conta de dificuldades logísticas, todo o etanol consumido no Amazonas vem de usinas no Mato Grosso.

O combustível chega por rodovia até Porto Velho e, de lá, vem para Manaus de balsa pelo rio Madeira.

É a única opção viável, o que encarece o preço do produto.



Isso vai mudar com a inauguração da primeira fase do empreendimento da Equador Log.

Haverá uma tancagem adicional para armazenar etanol.

“Com essa tancagem, produtores do Nordeste e até do Sudeste poderão trazer etanol para a região e acabar com o monopólio do Mato Grosso”, diz Adilson Nascimento, gerente administrativo da Equador Log.

O projeto prevê ainda a instalação de um porto flutuante com 240 metros de comprimento.

Os combustíveis a serem armazenados serão oriundos de refinarias nacionais e estrangeiras, e serão trazidos por navios petroleiros.

A distribuição ocorrerá através de embarcações/balsas, permitindo o acesso às hidrovias dos rios Amazonas, Madeira e Tapajós entre outras.

“O Grupo Dislub Equador está de parabéns pela iniciativa, que merece aplausos de todos aqueles que acreditam no desenvolvimento econômico do Amazonas, em geral, e de Itacoatiara, em particular!”, diz o vereador Raimundo Silva, presidente da Câmara Municipal de Itacoatiara e um dos mais ardorosos defensores da implantação do terminal de combustíveis no município.

Jagger, Bowie e o churrasco das roscas



Angie Bowie, ex-mulher de David Bowie, disse esta semana ao tabloide britânico The Sun que a fascinação do cantor por Mick Jagger veio de seu desejo de seduzir qualquer um que competisse com ele no mundo da música.

“Não acho que tenha sido um grande caso de amor [entre Mick e David]. Era provavelmente mais uma pegação de bêbados”, disse ela.

Angie falou, na entrevista, sobre a vez em que encontrou Mick e David juntos em sua cama – em um caso que se tornou célebre.

“Eles não estavam só juntos na cama. Eles estavam pelados”, contou. “Minha assistente estava rindo na cozinha quando cheguei em casa. Ela disse: ‘Você não vai acreditar. David e Mick Jagger estão se trocando’.”


Angie contou que foi até seu quarto e bateu na porta.

“Entrei e David estava com várias almofadas sobre eles, e do outro lado da cama dava para ver a perna do Mick”, falou. “Perguntei: ‘A noite de vocês foi boa?’. Eles estavam com tanta ressaca que mal conseguiam falar. Fiquei com pena.”

Ela afirmou que quando David a pediu em casamento, disse que não a amava.

“Nas primeiras seis semanas em que eu o conheci, encontrei 14 pessoas com quem ele tinha dormido. Ele me disse antes de casar que não me amava, então é claro que ele não seria fiel”, disse. “Eram os anos 60, era o que chamavam de amor livre.”

Sobre o retorno de David à música após uma década sem lançar nada, Angie disse: “Ouvi o primeiro single [“Where Are We Now?”] e é péssimo, diabólico. O segundo é ainda pior”.

“É para ser o maior retorno da música? É chato. Acho que tudo o que ele lançou desde os primeiros oito discos é lixo.”

Angie Bowie deve estar com dor-de-cotovelo.

Seu ex-marido não queima a rosca há muito tempo.


A história conta que David Bowie e a modelo somali Iman se apaixonaram perdidamente logo que se conheceram, em 1990, em um encontro armado pelo cabeleireiro dos dois.

Prova disso é que o casal está junto até hoje, inspirando os espíritos mais românticos com sua história e retratos felizes e pais de uma adorável mocinha.

sexta-feira, março 08, 2013

Flanando na Terra da Pedra Pintada


 
Chegamos a Itacoatiara no final da tarde da última sexta-feira, dia 1º de março, debaixo de um temporal da moléstia, que nos acompanhou por 80 quilômetros (da cidade de Lindóia, antes da primeira ponte do Rio Urubu, até o início da zona urbana de Itacoatiara, depois da segunda ponte).
Ficamos hospedados no hotel Rio Amazonas, do boa-praça Anuar Mamede Filho, localizado na Rua Ministro Waldemar Pedrosa, nº 215, no Centro, exatamente em frente ao Passeio Público Jornalista Agnelo Oliveira, na orla fluvial do Rio Amazonas.
Nosso cicerone na cidade, o líder portuário Fernando Jerry Nelson, foi nos dar as boas vindas com uma denúncia:
– Roubaram a placa do passeio público há dois meses, mas o vereador Raimundo Silva, presidente da Câmara Municipal de Itacoatiara, já mandou providenciar outra...
Fui lá conferir a presepada.
Pra quem não sabe, foi o juiz aposentado, vereador em segundo mandato, intelectual humanista, contista, cronista, poeta, jornalista e meu mano Raimundo Silva que batizou o nome do passeio público prestando uma homenagem a um dos mais talentosos jornalistas nascidos na Velha Serpa.
Nunca trabalhei com o Agnelo Oliveira no mesmo jornal, mas ele sempre foi um dos grandes amigos que conquistei no meio jornalístico.
O “índio velho”, como a gente o chamava, era uma espécie de reserva moral do jornalismo esportivo e, ambos rionegrinos, nos tornamos amigos de infância por quase três décadas (o conheci pessoalmente, no Bar do Armando, no começo dos anos 80).
Agnelo Oliveira fundiu em um só trabalho as duas paixões que tinha e durante 33 anos foi um dos melhores jornalistas esportivos do Amazonas.
Trabalhou de domingo a domingo.
Morreu ainda jovem.
 
O deputado Sinésio Campos (PT) me entregando um diploma de honra ao mérito outorgado pelo prefeito Peixoto
Quando deixou a terra natal, Itacoatiara, para estudar jornalismo em Manaus, já tinha em mente o que queria cobrir: esporte.
Se fosse futebol, melhor ainda e, se possível, elogiando sempre seu time do coração, o Flamengo, ou, na falta deste, o nosso Rio Negro.
Seu primeiro emprego foi no jornal “A Crítica”.
Era rapaz do interior, não conhecia ninguém, mas foi se virando até ficar conhecido como o grande nome do jornalismo esportivo amazonense, ao trabalhar também no “Jornal do Norte”, “A Notícia”, “Diário do Amazonas” e “Estado do Amazonas”.
Na Assembleia Legislativa do Amazonas, sua morte prematura recebeu um voto de pesar pelo “exemplo de dedicação e amor ao esporte”, nas palavras do presidente Belarmino Lins, “pois fez da sua vida um sacerdócio de amor às lutas e façanhas do esporte amazonense”.
Agnelo foi membro fervoroso da Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas (Aclea) e prestava consultoria para a Secretaria de Esporte do governo.
Havia seis meses que era funcionário do Procon e queria até cursar Direito.
E se emocionara – talvez demais – com a formatura da filha, justamente em Direito, havia uma semana.
Tinha 57 anos, não fumava e pouco bebia.
Mas trabalhava sábado, domingo, feriado, trabalhava muito, não parava nunca, era viciado em trabalho.
Morreu de derrame, no dia 19 de fevereiro de 2008, em Manaus.
Sua morte me deixou meio baqueado.

Em 2009, quando fui homenageado pelo prefeito Antônio Peixoto (PT) pelos “serviços prestados pela divulgação da cultura de Itacoatiara em Manaus”, durante a festa de aniversário da cidade, em abril, fiz questão de tirar uma foto ao lado da placa alusiva à inauguração do passeio público.
Este ano, repeti a dose.
É uma maneira meio boba, reconheço, de perpetuar o Agnelo Oliveira em minha memória, mas... fazer o que?
Voltando à vaca fria.
Sempre apressado e parecendo que vai tirar o pai da forca, Fernando Jerry nos instalou no hotel Rio Amazonas e se mandou.
Ficou de se encontrar conosco mais tarde.

Quando o temporal diminuiu um pouco, fomos jantar no Restaurante Panorama, o mais tradicional da cidade.
 
Marie Jolie e Edy Savage encaram picanha na pedra e filé de tambaqui grelhado (que, soube depois, estava uma boa merda de tão velho e passado!).
Eu e Wild Skinhead fomos de frango a passarinho, batatas fritas, isca de calabresa e cerveja Original estupidamente gelada.


Mais tarde, Lúcio Preto e Mad Professor se juntaram à nossa turma para curtir o cantor Bebezão (ou será que ele se chamava Neném? Menino Samden? Bilu Teteia? Não lembro...), cujo repertório ia de Zeca Baleiro a Zé Ramalho, de Renato Russo a Raul Seixas, de Martinho da Vila a Marina, de Ednardo a Elimar Santos, de Noel Rosa a Nelson Ned.
 
O Fernando Jerry apareceu depois, acompanhado de sua esposa, a sempre sorridente Adriana, e a primeira neta do casal, Isabela, uma bonequinha de carne e osso.

Tão rápido quanto surgiu, ele desapareceu nas brumas de Avalon.
Desconfio que o sacana esteja viciado em remédio controlado por horário, provavelmente um dos tais de “tarja preta” da vida e vendidos no câmbio negro.
Com a sua eterna cara de cachorro-que-quer-um-osso, o Fernando Jerry nunca me enganou.

Lá pelas tantas, pedi a conta (couvert artístico, duas águas minerais, seis cervejas Original, três cervejas Skol, uma coca cola, uma isca de calabresa, uma isca de batatas fritas, uma isca de frango a passarinho, uma picanha na pedra e um filé de tambaqui grelhado) e estranhei o valor: apenas R$ 103,38.
Em Manaus, essa “fortuna” daria, no máximo, para pagar 600 gramas de picanha mal passada para duas pessoas, no badalado Picanha Mania.
Sei disso porque toda semana caio na mesma roubada e não aprendo nunca.
Como estava barato pra carálio, amassei a conta, fingi que jogara fora a comanda e pedi mais cervejas.
 
A atenciosa garçonete trouxe mais três cervejas Skol (R$ 13,50) e pediu a comanda anterior para fazer uma nova.
Expliquei que havia rasgado e jogado fora.
Ela quase surtou.
Segundo a garçonete, na comanda estava discriminada a despesa e não ficava uma segunda comanda de conferência no balcão.
Ela não sabia o que fazer.
Falei que eu lembrava o valor da comanda e que já tinha conferido a despesa anterior.
Estava tudo certo.
– Só quero checar se vocês são honestos! – ironizei. “Se aparecer algum valor diferente do que me foi apresentado na primeira vez, amanhã vou pra rádio Difusora e coloco a boca no trombone!”
Dali a cinco minutos, quase me pedindo desculpas, a garçonete me apresentou a nova conta.

O povo de Itacoatiara é honesto pra caralho!
Saímos de lá por volta da meia-noite.
No caminho para o hotel, Marie Jolie e Edy Savage ainda conseguiram encarar duas cuias de tacacá cada uma.
Haja fígado!

O sábado amanheceu com um sol radiante, sugerindo um dia jiboiando em algum balneário.
Fomos dar um rolê básico pela cidade, que estava muito limpa e asseada, com várias equipes da limpeza pública cuidando das ruas com um zelo incomum.
O prefeito Mamoud Ahmed Filho, exercendo o cargo pela quinta vez, garantiu que vai fazer uma administração inesquecível.
Pelo visto, está mesmo começando a dar conta do recado.
Das cidades que visitei esse ano (e o nome delas é legião), Itacoatiara é a mais limpa, arborizada e organizada que já conheci.
Fomos ao cais do porto (que não funciona há sete anos, uma vergonha!), tomamos café da manhã na padaria do Nelson, presidente da Associação Comercial de Itacoatiara, passamos no estádio Floro Mendonça para conferir a reforma e depois fomos visitar uma das últimas reservas florestais de seringueiras existentes no perímetro urbano da cidade, exatamente em frente à antiga madeireira Gethal, atualmente desativada.
 
 
 
 
 
 
As meninas adoraram o passeio.
Mais tarde, por sugestão do Anuar Mamede, resolvemos conhecer o Flutuante Sol Nascente, no Km 21 da Estrada do Piquiá, em pleno Rio Urubu, já na fronteira entre Silves e Itacoatiara.
Assim que colocamos os pés no flutuante, começou um novo dilúvio torrencial.
 
Para combater o frio e a chuva, encaramos doses moderadas de Itaipava e Skarloff Ice.
Primo do prefeito Mamoud Ahmed Filho, o dono do flutuante, Elias Tamer, tem mestrado e doutorado na arte de bem receber.
De cara, ele ligou logo o aparelho de som no volume máximo e colocou o Reginaldo Rossi pra tocar.
Devia saber bem com quem estava lidando.
Aqueles forasteiros bem apessoados não gostavam dessa praga chamada forró pé-de-serra, que se transformou em uma nova doença tropical na região amazônica.
Eles deviam gostar de música romântica...
(Também não custa lembrar que rock, em Itacoatiara, é apenas o nome de um folgado ajudante de palco do Sílvio Santos...)
 
De repente, o Elias, que ainda estava meio ressabiado com aqueles sujeitos meio românticos pintando no pedaço pela primeira vez, reconheceu o Mad Professor do tempo em que ele jogava no Penarol e no Gelopesca e, graças a isso, nos tornamos amigos de infância.
Elias apresentou Mad Professor para outro ex-jogador do Penarol, Rubinho Matador, irmão do ponta-esquerda Basílio, do Gelopesca, que estava fazendo uma visita de cortesia ao flutuante, e os três ficaram relembrando os velhos tempos de outrora.
O agora romântico Wild Skinhead, ex-roqueiro radical, colocou uma questão na mesa que quase me matou de rir.

Negócio seguinte.
Conhecemos o Mad Professor há quatro décadas e sabemos que ele não consegue ficar parado no mesmo lugar por mais de dez minutos, seja mesa de bar, banco de carro ou casa de raparigas.
Já aventamos vários fatos para esse tipo específico de TOC (“Transtorno Obsessivo Compulsivo”):
Mad Professor tem toxinas, giárdias e lombrigas, e o ataque simultâneo delas o faz ter que caminhar apressadamente para matá-las por sufocamento apertando as bochechas da bunda em um quase exercício tântrico.
Mad Professor tem uma impinge braba na auréola do plissadinho e o suor excessivo acaba por ativar o comichão recorrente, cuja coceira é simplesmente inenarrável e só alivia um pouco após uma longa caminhada.
Mad Professor tem um parafuso a menos, o que o torna um sujeito antissocial por excelência e não afeito a conversas moles ou papos descontraídos em mesa de bar.
Mad Professor é autista e detesta qualquer conversa civilizada que não envolva futebol dos anos 70, quando ele foi o craque do ano do Peladão pelo meu fantástico time “Murrinhas do Egito”.
Mad Professor é um hippie tardio que nunca usou drogas e por isso mesmo possui tendências homoeróticas ainda não sedimentadas nem superadas pela sublimação.
Mad Professor é um globe-trotter em potencial, que gosta de estar circulando 24h por dia, em toda e qualquer circunstância, chova ou faça sol.
 
– Hoje, eu quero ver esse sacana deixar esse flutuante e ir bater perna na casa do chapéu!... – ponderou Wild Skinhead, enquanto observava a agonia do Mad Professor estudando mentalmente as saídas possíveis da virtual prisão aquática.
Mad Professor teve que se render aos fatos e permaneceu no flutuante durante toda a nossa estada.
Quase fizemos uma queima de fogos pela façanha.
Por volta do meio-dia, pedimos uma banda de tambaqui assado para o almoço e, enquanto o acepipe era providenciado, Marie Jolie, Edy Savage e Mad Professor foram passear de voadeira pelo rio.
 
 
 
 
 

O Elias surgiu com um tambaqui vivo, matou na minha frente, bandou o animal e depois foi trata-lo.
Fiquei pasmo.
Fazia muito tempo que eu não via um tambaqui de rio – e, pra quem conhece, o gosto dele é completamente diferente dos tambaquis criados em gaiolas ou tanques escavados, quase sempre alimentados à base de ração.
Indiferente a estes detalhes gastronômicos, Marie Jolie e Edy Savage controlaram o medo inicial de morrerem afogadas e se divertiram pra valer na voadeira.
Pelo que elas me contaram depois, Mad Professor observou longamente o rio, mas não teve coragem de cair n’água e fugir nadando pra Itacoatiara ou Silves.
Na volta, por minha sugestão e depois de muita insistência, as duas resolveram tomar banho de rio.
 
 
 
 
 
 
 

Foi a primeira vez que encararam a parada e estranharam o fato de aquilo ser tão divertido e nunca terem feito antes.
Já haviam curtido banho de igarapé, claro, mas a diferença entre banho de igarapé e banho de rio é a mesma diferença entre pilotar um fusquinha envenenado na Estrada do Turismo e uma Ferrari Testarossa em uma freeway europeia.
A sensação de liberdade é a mesma, mas não é a mesma coisa.
Como a água estava muito legal (a chuva fria dá uma sensação térmica de que a água do rio ficou morna), me convidaram para também cair na gandaia.
Recusei, polidamente.
Nunca aprendi a nadar e, agora, com uma prótese no ombro direito em decorrência de um acidente em Borba que deixou sequelas, é que não me meto mesmo a Johnny Weissmuller, o nosso eterno Tarzan dos Macacos do saudoso Cine Ypiranga.

Quando as duas voltaram para o flutuante, meia hora depois, confessaram que estavam curiosas a respeito do nome do rio.
– É urubu por que as águas são escuras? – quis saber Marie Jolie.
– Não, não é por isso não! – expliquei.
E contei a elas o que um antigo índio aculturado me contara há algumas décadas.
Segundo o índio, o rio era um dos locais de pesca de seu povo até começarem a chegar os homens brancos em busca das famosas “ervas do sertão”.
De uma hora pra outra, o rio começou a ficar infestado de urubus.
Eles iam conferir e só encontravam cadáveres de homens brancos de bubuia sendo destroçados pelos urubus.
Como o rio tinha poucos jacarés e tucunarés, ele se transformara num berçário natural e colossal de piranhas pretas e vermelhas, ambas totalmente agressivas quando se trata de defender as ninhadas.
Os índios sabiam disso e só pescavam de canoa.
Os brancos não sabiam.
Entravam no rio para escovar os dentes com a água pela cintura, sentiam uma fisgada na batata da perna e, antes que se dessem conta do que estava acontecendo, sua perna já havia sido totalmente descarnada por milhares de piranhas.
Uma morte dolorosa e cruel.
Foram os próprios brancos que batizaram o rio de Urubu, “porque ele tinha cheiro de cadáver, evocava a morte, lembrava corpos em decomposição”.

Quando terminei o relato, Marie Jolie me olhava estupefata, como se tivesse acabado de ouvir o terceiro segredo de Fátima.
– Você tá zoando da nossa cara! – argumentou. “Não acredito que se tivessem mesmo piranhas nesse rio você teria coragem de nos pedir pra entrar...”
– O truque é não parar de se movimentar, que elas não atacam! – expliquei. “Mas se você tiver um pequeno ferimento no corpo, elas vão atacar em massa com certeza, mesmo que você dance break dentro d’água...”
Marie Jolie ficou lívida.
Edy Savage ficou passada.ponto.com.


Elias, que estava escutando o relato com bastante atenção, entrou na história e jogou uma pá de cal:
– Pior do que as piranhas, só mesmo os candirus... E, aí nesse rio, candiru faz lama, minha filha, candiru faz lama!... É uma praga, uma praga!
– E cobra? Também tem cobra?! – questionou Marie Jolie, sem esconder o nervosismo.
– Só sucuriju de três metros... – avisou Elias, com desdém, enquanto providenciava uma nova caixa de isopor com bebidas.
Quase que Marie Jolie e Edy Savage me cobriam de tabefes, de tão injuriadas que ficaram.

Para minha sorte, o almoço foi servido naquele momento e escapei pela bola sete.
Lá pelas tantas, depois do almoço, a Marie Jolie resolveu pescar de caniço e quase arma um incidente internacional.
Os ajudantes do Elias (dois adolescentes completamente siderados pela beleza fulgurante da menina) tentaram convencê-la de que isca de pão serve para fisgar alguma merda.
Era um truque ordinário: assim que a isca batesse n’água, uma piaba ia comer o pão e deixar o anzol limpo.
Não havia qualquer hipótese remota de algum peixe mais esperto meter a boca no anzol sem isca.
Um dos moleques ia colocar o problema no manejo errado da vara de pescar e tentar encoxar a Marie Jolie por trás, supostamente para ensinar a maneira correta de lançar a linha.
Cortei a curica deles.
– Escuta aqui, porra, vocês acham que estão lidando com alguma idiota? – entrei pisando na linha do pescoço. “Pede pro Elias fazer uma isca de peixe cru e me traz aqui, que eu vou ensinar a Marie Jolie a pescar. E essa porra de miolo de pão vocês enfiem na tarrasqueta...”
Os adolescentes, claro, ficaram putos.
Uma encoxada daquelas serviria de moldura mental para uns três meses de punheta.
Eles me olharam com tanto ódio, que sequer estranharia se tivessem rosnado em pensamento “careca filho da puta, tu vai morrer de acidente de carro ainda hoje, seu leproso!”
Azar.

Indiferente ao barraco que eu estava armando, a Marie Jolie continuou pescando com isca de miolo de pão, sob o olhar vigilante da Edy Savage.
Uns quinze minutos depois, chamei o Elias, paguei a conta (meia hora de passeio de voadora, 12 Itaipavas, 10 Skarlofs Ice, quatro cocas colas, dois salgadinhos e uma banda de tambaqui assado, com baião de dois, farofa e vinagrete): R$ 154. 
Uma mixaria!
Eu já estava entrando no carro, quando ouço a Marie Jolie gritando desesperadamente na saída do flutuante.
– Eu fisguei um peixe, mas o seu Elias me tomou! Volta aqui e toma dele, que eu quero fazer uma fotografia do meu peixinho!
Dei de ombros.
Aparentemente, a Marie Jolie havia fisgado um bagrinho de dez centímetros e o Elias aproveitou a oportunidade para reforçar a comida dos tambaquis vivos que cria embaixo do flutuante, deixando a pescadora de primeira viagem totalmente injuriada.
Azar.