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sábado, outubro 24, 2015

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (1)


Thiago de Mello é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello, filho de Pedro Thiago de Mello e de Maria Mitoso de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na zona rural de Barreirinha, cidade fincada à margem direita do Paraná do Ramos, o braço mais sinuoso e extenso do Rio Amazonas. Em 1931, Thiago muda-se com a família para Manaus, onde iniciou seus primeiros estudos no Grupo Escolar José Paranaguá e depois no Ginásio Amazonense Pedro II (atual Colégio Estadual do Amazonas). Em 1941, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde concluiu o segundo grau no Colégio Batista do Rio de Janeiro, ingressando posteriormente na Faculdade Nacional de Medicina, em 1946. Sua vocação literária, seu gosto pela leitura e sua intransigente peleja em defesa dos direitos humanos surgiram quase que naturalmente ainda na infância. É o próprio Thiago que conta:

“O que faz o homem é sua infância, não é? Tive uma infância maravilhosa, de menino pobre. Nasci no coração da floresta, num lugar chamado Bom Socorro, terra do meu avô Gaudêncio, em Barreirinha. Avô que me escreveu uma carta, pelos meus nove anos, dizendo que eu estudasse com vontade, porque ele queria que eu fosse um homem de bem. Estudar, estudo até hoje, cada dia mais. Ser um homem de bem é que não é fácil, dá um trabalho danado, neste mundo de maldade e ilusão, como o Caymmi canta.

Morava na beira do rio. Convivendo com as águas, a mata, aprendendo a lição dos pássaros, das estrelas. Aprendi a nadar antes de andar. Minha mãe e meu pai eram filhos de camponeses. Meu pai estudou em Manaus e a sua preocupação maior na vida foi educar os filhos. Com cinco anos fui para a capital, onde fiz o primário e o secundário. Minha professora, dona Aurélia, me plantou, de menino, o gosto de ler. Dava aula de leitura todo sábado, na casa dela. Eu não perdia uma. Ela cativava com a verdade: curso primário bem feito é meio caminho andado para a vida e ninguém se faz gente de valor sem leitura. Tirei nota 10 na prova de leitura de “Um Apólogo”, aquele da linha e da agulha, do Machado de Assis, que durou quatro sábados. Depois de ler e reler em voz alta, a gente tinha de dizer qual das duas era a principal personagem do texto. Fiquei do lado da agulha.

Minha iniciação nos direitos e deveres humanos se fez com a educação dos bons costumes e do respeito aos outros, que meus pais e meus professores me deram. Quando deixei Manaus, para estudar no Rio de Janeiro, já levava abertas as principais vertentes da minha vida, que me guiam até hoje. Já sabia que o amor era possível, que o homem é capaz de criar a beleza com a arte. E, ai de mim, tão cedo já aprendera a existência da injustiça social, da desigualdade perversa, do abismo infame que separa pobres miseráveis de opulentos poderosos.

Essa consciência já veio da infância e da adolescência... Menino, fui um bom empinador de papagaio. Até hoje empino. É uma paixão. Até escrevi um livro, Arte e Ciência de Empinar Papagaio. Não chego a ser um famão, mas sei flechar contra o vento. Tem muito a ver com a arte de escrever. E com os Direitos Humanos também. Pede muito respeito. Quem tem linha com cerol (cola com vidro moído) não trança o empinador de linha limpa. Deslealdade. Aprendi com o Modestino, operário de uma serraria de madeira em Manaus, num alto barranco do rio Negro.

Ao lado da serraria ficava o grande sobrado do dono, com azulejos portugueses, do tempo da borracha. Modestino morava numa estância, grupo de casebres na beira do rio. Ele levava para o trabalho sua comidinha, peixe frito com farinha. O filho do dono da serraria era meu colega no grupo escolar e mais de uma vez fui à casa dele. Eu perguntava a minha mãe por que o dono da serraria era tão rico, comia tartarugada, e o Modestino, filho de uma lavadeira, que dava duro na serra elétrica, tinha de levar o almoço dele numa lata. Minha mãe, dona Maria, respondia que eu ia saber a razão dessa diferença depois, quando crescesse, o mundo estava cheio daquilo, que ela sabia bem o que era. O poder dessas vertentes eu devo muito a minha infância. Aprendi muito cedo sobre essa coisa chamada ética, que é a essência dos direitos humanos.”

Durante as férias universitárias passadas em Manaus, Thiago de Mello iniciou uma fecunda convivência com vários jovens locais e tomou conhecimento dos poemas de Luiz Bacellar, Jorge Tufic e Farias de Carvalho, cuja arte poética lhe comove até hoje. Talvez tenha sido por causa dessa identificação com os poetas manauaras que Thiago de Mello rejeitou o conselho dado por Carlos Drummond de Andrade, logo ao conhecê-lo, em 1948, no Ministério da Educação, quando expressou sua vontade de abandonar o curso universitário e se dedicar à carreira literária. “Não faça isso, ninguém vive de poesia no Brasil”, reagiu o poeta mineiro. Sentindo-se cada vez mais fiel à literatura, Thiago abandonou o curso de Medicina no quinto ano para dedicar-se ao seu sonho: viver exclusivamente de seus escritos.


Em 1951, junto com o poeta Geir Campos (foto), Thiago de Mello fundou a editora Hipocampo, por onde lançou o seu primeiro livro “Silêncio e Palavra”, e o segundo de Geir, “Arquipélago”. Poeta, dramaturgo, tradutor, editor, jornalista, ensaísta, contista e autor de literatura infantil e juvenil, Geir Campos nasceu no dia 24 de fevereiro de 1924, em São José do Calçado (ES), e faleceu no dia 8 de maio de 1999, em Niterói (RJ). Ele iniciou sua carreira de escritor nos anos 1940, divulgando na imprensa contos e poemas originais e traduzidos, ao mesmo tempo em que trabalhava como piloto da Marinha Mercante. Seu primeiro livro de poemas, “Rosa dos Rumos”, foi publicado em 1950. Como tradutor, publicou obras de Franz Kafka, Bertolt Brecht, Rainer Maria Rilke, Herman  Hesse, Walt Whitman, William Shakespeare e Sófocles.

Em dois anos, a pequena Hipocampo publicou 20 obras, incluindo Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima e o primeiro livro de Paulo Mendes Campos, “A Palavra Escrita”. Eram edições artesanais, distribuídas aos 100 assinantes do selo, em que as folhas soltas eram “envelopadas” dentro das capas. Esse aspecto desagradava o escritor Rubem Braga, que mandava costurar seus exemplares. Dos tempos heroicos à frente da Hipocampo, Thiago guarda uma história curiosa envolvendo o renitente inventor de neologismos Guimarães Rosa, que lançou pelo selo “Com o Vaqueiro Mariano” (1952). Ao regressar da tipografia, em Niterói, Thiago avisou a Rosa que estava tudo rodado. “Não me diga essa desgraça!”, dramatizou o escritor mineiro, sob a luz de um lampião de Copacabana. “Eu pago seus custos, os papéis, as tintas, mas preciso trocar um verbo! O pelo da vaca banhado de lua não reluz, obluz! Ele obluz, poeta!” A edição do livro teve de ser refeita para encaixar mais um verbo inventado pelo autor de “Grandes Sertões: Veredas”.


Em 1952, Thiago foi batizado definitivamente como poeta a partir de uma crítica do influente Álvaro Lins (foto), que assinava um importante rodapé literário no Correio da Manhã. Seu livro de estreia, “Silêncio e Palavra”, de 1951, o vinculou à Geração de 45, a mesma de Lêdo Ivo e João Cabral de Melo Neto, e encantou o crítico: “Poetas principais de nossa literatura moderna: estou tentado a pedir-vos um lugar, ao vosso lado, para o poeta de Silêncio e Palavra. Com 26 anos e um só livro publicado, o Sr. Thiago de Mello bem demonstra, todavia, que já se acha em condições de situar-se na primeira linha da nossa poesia contemporânea”. No mesmo ano nascia seu primogênito, Alexandre Manuel, que além do sangue índio do pai herdaria também o sangue grego da mãe, a jornalista Pomona Politis, primeira mulher do poeta.

Impulsionado pela generosa acolhida do mais importante crítico literário da época, Thiago de Mello mergulhou de vez na carreira literária. Por meio do escritor José Lins do Rego, soube que o editor José Olympio queria um livro novo de sua autoria para publicar. O escritor Rubem Braga o chamou para ser repórter do jornal O Comício. O empresário Paulo Bittencourt o convidou para ser colaborador efetivo do suplemento literário do jornal Correio da Manhã. O jornalista Roberto Marinho o convidou para ser cronista do jornal O Globo. Naqueles tempos, o jornalismo pagava dignamente a colaboração literária, fosse poema, conto ou ensaio, e não havia exigência de exclusividade. Um jornalista podia colaborar com vários jornais diferentes ao mesmo tempo. Tendo encontrado trabalho que lhe garantiam o chamado meio de vida, o poeta amazonense não se fez de rogado e lançou “Narciso Cego”, em 1952.


Escritor, crítico de arte, sociólogo, professor, tradutor e pintor, Sérgio Milliet da Costa e Silva (foto) nasceu no dia 20 de setembro de 1898, em São Paulo (SP) e faleceu no dia 9 de novembro de 1966. Ele fez os estudos primários e secundários na capital paulista e o curso universitário de ciências econômicas e sociais em Genebra e em Berna, na Suíça, onde publicou dois livros de poesia: “Par le Sentir”, em 1917, e “Le Départ Sur la Pluie”, em 1919. De volta ao Brasil, em 1920, participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Voltou à Europa em 1923, para viver em Paris. Colaborou nas revistas brasileiras Klaxon, Terra Roxa, Ariel e Revista do Brasil, promoveu a divulgação de textos estrangeiros no Brasil e ao mesmo tempo traduziu poemas de autores modernistas brasileiros para publicação na revista Lumière.

Voltou ao Brasil, para não mais sair, em 1925. Nesse mesmo ano, fundou a revista Cultura, em sociedade com Oswald de Andrade e Afonso Schmidt. Em 1935, passou a integrar o grupo de intelectuais formado, entre outros, por Paulo Duarte, Mário de Andrade, Rubem Borba de Morais e Tácito de Almeida, que idealizam a criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Foi nomeado chefe da Divisão de Documentação Histórica e Social desse departamento. Além de professor e secretário da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Sérgio Milliet escreveu regularmente sobre literatura e arte para o jornal O Estado de S. Paulo. Um desses textos, intitulado “... é um poeta de verdade e tem o que dizer”, foi publicado no jornal paulista no dia 20 de julho de 1952:

Thiago de Mello, poeta da geração de 45, e cujo primeiro livro (Silêncio e Palavra) despertou a curiosidade da crítica tão displicente do Brasil acaba de publicar Narciso Cego, em que suas qualidades de artesão e pensador se exibem ainda melhor. É preciso agora ponderar a produção desse jovem com o mesmo cuidado com que se analisa a dos mais acatados poetas da geração modernista. Porque Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer. Mais do que o que cantar, pois tudo nele, sensibilidade e inteligência, visa antes à penetração e à descoberta profunda que o arrebatado entusiasmo ou a expressão nostálgica. E, no entanto, não falta lirismo a esse moço tão preocupado com idéias gerais, a esse moço que poderia colocar em epígrafe no seu volume de versos o “que sais-je” de Montaigne. Sobre si mesmo debruça-se o poeta. Sabe que se desconhece, que passeia em torno de si, mas não se freqüenta: “Pelas minhas cercanias / passeio – não me freqüento”.

Em outro poema nos confessa que o “vocábulo puro esquiva-se” a seu jugo. Isso significaria, por um lado, a desconfiança de quem pensa no poder expressivo da palavra, isso significaria uma inquietação quase angustiada diante do mistério que não conseguimos comunicar embora o sintamos por vezes desvendado. Mas a elucidação do pensamento de Thiago de Mello parece encontrar-se pouco adiante nestes dois versos, espécies de compromisso de que jamais se deixará arrastar pela lógica estéril dos tratados de filosofia: “... a palavra da boca é inútil / se o sopro não lhe vem do coração”. Serena e triste afirmação de um fundo romântico sadio, simpático, representante de uma época que procura esconder, se não negar, sob a magia da forma, a necessidade poética da mensagem.

Essa impassibilidade, ou melhor, esse pudor, felizmente não domina por completo os mais dotados entre os jovens. Não vão todos eles até a secura, embora se esquivem tenazmente ao canto lírico, assustados talvez com o possível dó de peito. Thiago de Mello como que se desculpa de se entregar, conquanto discretamente, à emoção. Se não consegue pairar sempre nas altas regiões do pensamento puro, é por que: “Artesãos negligentes esqueceram / em nós leves resquícios de matéria”. Em verdade, a hora trágica, absurda, estóica que nos cumpre viver, torna um pouco piegas os romances amorosos, as elegias de outras eras. Mas o verdadeiro poeta não deve ignorar o coração humano, a alma, em que pese a vulgaridade da palavra. Deve descobrir novas formas para dizer as coisas necessárias de sempre.

Trilhando os caminhos da poesia filosófica, sem desprezar, no entanto, a riqueza emotiva pessoal, Thiago de Mello mostra que não carece de coragem para se conservar autêntico e, ao mesmo tempo, provar haver mais de uma solução original fora do puro malabarismo técnico. Por isso eu leio com alegria este segundo volume de sua obra apenas em início. E digo que se trata de um belo poeta, de um poeta de verdade.


Sociólogo, antropólogo e escritor, Gilberto Freyre (foto) nasceu no Recife (PE), no dia 15 de março de 1900, e faleceu em 18 de julho de 1987, na capital pernambucana. Filho do professor e juiz de direito Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre, ele estudou o primário e o secundário no Colégio Americano Gilreath, no Recife, onde participou ativamente da sua sociedade literária, sendo redator-chefe do jornal O Lábaro, editado por aquela instituição de ensino.

Em 1918, Gilberto Freyre viajou para os Estados Unidos, onde fez seus estudos universitários: bacharelado em Artes Liberais, com especialização em Ciências Políticas e Sociais, na Universidade de Baylor e mestrado e doutorado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, na Universidade de Columbia, onde defendeu a tese “Vida social no Brasil em meados do século XIX”. Viajou para vários países europeus, retornando ao Brasil, em 1923, preferindo continuar morando na sua terra natal, o Recife, em vez de residir no sul do País.

Em 1933, publicou seu livro mais conhecido “Casa-grande & Senzala”, considerada a obra mais representativa sobre a formação da sociedade brasileira. Foi eleito deputado federal constituinte, em 1946, tendo sido o autor do projeto que criou o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco. Além de sociólogo, antropólogo e escritor, foi também pintor e jornalista. Dirigiu os jornais recifenses A Província e o Diário de Pernambuco e colaborou regularmente com a revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro. Na revista semanal carioca, Gilberto Freyre publicou um texto intitulado “A Poesia de Um Mestre”, onde também manifestava sua admiração pelo poeta de Barreirinha:

O poeta Thiago de Mello toma tão de assalto o seu lugar entre os melhores poetas do Brasil, que parece um salteador ou um ladrão. Mas é simplesmente um poeta que fez o seu aprendizado em silêncio. Que guardou seus cadernos de caligrafia em vez de publicá-los. Que decidiu só aparecer com a letra já segura de um mestre.

Um jovem e admirável mestre é o que ele é. Seus versos têm um viço de mocidade que não se deixa dominar de todo pela arte do tropical raro, desdenhoso de vitórias fáceis. Mas é uma mocidade concentrada e não derramada. Autocrítica e não encantada com todos os seus gestos, todas as suas palavras, todos os seus atrevimentos de idéia e de forma: complacência que caracteriza o mau narcisismo.

O poeta Thiago dá aos poetas novos do Brasil um bom exemplo que é o de não ser complacente consigo mesmo. O de só aparecer com versos que excedam o fácil lirismo de que é capaz quase todo moço, quase todo adolescente, quase todo brasileiro, em estado de efervescência sentimental.

Sua poesia excede de tal modo esse fácil lirismo que é a poesia de um mestre e não a de um principiante indeciso e cheio de dedos. Há nela uma segurança, uma força, um domínio sobre a palavra que não se confunde entretanto com a segurança ou a força ou o domínio sobre as palavras, dos lógicos. Seu grande poder é o poético.

Daí o mistério em que se alongam, em seus versos, palavras que tomam um novo sentido, nova cor, nova vibração, ao lado daquelas que, por convenção ou rotina, são suas inimigas. O poeta aproxima-as com uma audácia lírica de que resultam novas e fortes sugestões poéticas, novos e provocantes mistérios para a imaginação, novas aventuras para os olhos e ouvidos de quem lê em voz alta versos que chegam a ser poucos brasileiros pela sua densidade e concentração.

O romancista Carlos Heitor Cony, amigo do poeta há mais de 60 anos, conta que Thiago de Mello assemelhava-se a “um personagem de Proust no Rio de Janeiro”. “Vestia-se elegante, com ternos bem cortados. Era cronista do jornal O Globo, publicava poemas no Correio da Manhã, assinava reportagens em O Comício e era um dos editados do prestigiado José Olympio”, recorda ele, que até hoje conversa semanalmente com o poeta por telefone.



No Rio de Janeiro, Thiago tornou-se íntimo também do romancista José Lins do Rego (foto) e do poeta Manuel Bandeira. Sempre a chama-lo de “De Mello”, Zé Lins fez dele quase um irmão mais novo. Em 1957, nos últimos três meses de vida do autor de “Menino de Engenho”, o poeta assumiu o posto de acompanhante de quarto no hospital. 

Thiago diz que Zé Lins pressentia a morte e queria conversar, conversar muito, conversar o tempo todo. Gostava de falar de seu tempo de menino de engenho. Quando via que Thiago dormia, dizia em voz alta: “Como dorme esse sacana do De Mello!”. A morte do escritor resultou no pungente poema “Pranto por José Lins do Rêgo Cavalcanti”, incluído no livro “Toadas de Cambaio”.

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (2)


Em 1960, a editora José Olympio lançou “Vento Geral”, reunião dos dois livros anteriores e mais os inéditos “Romance do Primogênito” (1952), “O Andarilho e a Manhã” (1953), “Tenebrosa Acqua” (1954), “Toadas de Cambaio” (1959) e “Ponderações que Faz o Defunto aos que lhe Fazem o Velório” (1960). O livro conquistou o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Em paralelo à carreira literária e jornalística, Thiago dirigiu o Departamento Cultural da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e, no final dos anos 50, foi nomeado adido cultural da Embaixada do Brasil na Bolívia, onde conviveu com poetas e romancistas de primeira linha, como Oscar Cerruto e Augusto Céspedes.


Poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor, Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (foto) nasceu em Recife, no dia 19 de abril de 1886, e mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro. Em 1903, transferiu-se para São Paulo, onde iniciou o curso de engenharia na Escola Politécnica. No ano seguinte, abandonou os estudos por causa da tuberculose e retornou para o Rio, onde escreveu poesia e prosa, fez crítica literária e deu aulas na Faculdade Nacional de Filosofia. Por causa da doença, passou longos períodos em estações climáticas no Brasil e na Europa. Entre 1916 e 1920, perdeu a mãe, a irmã e o pai.

Em 1917, Manuel Bandeira publicou “A Cinza das Horas”, de nítida influência parnasiana e simbolista. Dois anos depois, lançou “Carnaval”, fazendo uso do verso livre. Já se mostrava um dos precursores da linha modernista, e Mário de Andrade o chamaria de “São João Batista do modernismo brasileiro”. Apesar disso, em 1922, por não concordar com a intensidade dos ataques feitos aos parnasianos e simbolistas, não participou diretamente da Semana de Arte Moderna (nem sequer viajou para São Paulo). No entanto, seu poema “Os Sapos”, lido por Ronald de Carvalho na segunda noite do acontecimento, provocou muitas reações. Nele, Bandeira se vale mais uma vez do verso livre, principal característica de sua obra: “Enfunando os papos,/ Saem da penumbra,/ Aos pulos, os sapos./ A luz os deslumbra./ Em ronco que aterra,/ Berra o sapo-boi:/ Meu pai foi à guerra!/ Não foi! – Foi! – Não foi!”

Com “O Ritmo Dissoluto” (1924) e “Libertinagem” (1930), temos um poeta totalmente integrado no espírito modernista. “Libertinagem” apresenta alguns poemas fundamentais para entender a poesia de Bandeira: “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Poética”, “Evocação do Recife” e outros. Aparecem ali seus grandes temas: a família, a morte, a infância no Recife, os indivíduos que compõem as camadas mais baixas da sociedade. Apesar dos amigos e das reuniões na Academia Brasileira de Letras (para a qual foi eleito em 1940), Manuel Bandeira viveu solitariamente. Apesar de ser um apaixonado pelas mulheres, nunca casou: dizia que “perdeu a vez”. Morreu no dia 13 de outubro de 1968, aos 82 anos, de parada cardíaca – e não de tuberculose, a doença que o acompanhara durante parte tão grande de sua vida.

Colaborador do jornal Folha de São Paulo, Manuel Bandeira publicou naquele matutino, no dia 2 de abril de 1960, um artigo intitulado simplesmente de “Vento Geral”:

A editora José Olympio acaba de lançar o mais bonito volume de sua coleção de poesia com a edição de Vento Geral de Thiago de Mello (a capa é um poema concreto). O poeta agora vai ficar em pé nas estantes e decentemente vestido para a posteridade. Assim posto, é possível que perca os complexos de cambaio e defunto, a que devemos, aliás, algumas das toadas mais fortes e saborosas de nossa poesia. Atenção, poeta! Fique fiel a si mesmo. Fiel ao seu ofício de amar – e amando, entreter / o que tenho de mais meu / e mais de amargo: este jeito / cambaio e triste de ser.

Quanto ao seu jeito de ser defunto, não há nada que mudar. Em quatro poemas (“O morto”, “Salatiel”, “O defunto” e “Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório”) você provou aos admiradores do grande poema do mesmo nome, obra de Pedro Nava, que o tema é inesgotável, quando bem entendido, haja no poeta força bastante para a estranha vocação de defunto. O defunto do Nava era amargo, sinistro, cominativo, impudente; o de Thiago é um defunto conformado, a cuja “dura e doce dor de existir se misturavam muitas auroras, muitos azuis, defunto bem consciente de que o importante na vida, digamos o saldo da vida, é a lágrima fraterna derramada com beleza”.

De Thiago escrevi uma vez que é um grande poeta, um dos grandes poetas da sua geração e de qualquer geração. Relendo essas minhas palavras, transcritas na orelha deste volume, refleti comigo: terei exagerado? Mas logo depois me tranqüilizei lendo as de Gilberto Freyre: elas dão-lhe um lugar de exceção entre os melhores poetas do Brasil ao reconhecer na poesia do mestre de Vento Geral versos “que chegam a ser pouco brasileiros pela sua densidade e concentração”.

A leitura dos poemas posteriores à Lenda da Rosa, em especial as Toadas de Cambaio e as Ponderações, me confirmou na verdade dos nossos juízos. Reencontrei em todos esses poemas o mesmo personalíssimo caboclo pluvial, fluvial e aluvial dos livros anteriores, com todos os seus toques e tiques (seu curioso processo de matizar a expressão por meio de prefixos negativos: dizer, por exemplo, “desalegrias” em vez de “tristezas”, o que implica que são tristezas de quem já teve alegrias).

Thiago, meu velho, estou sentindo falta de Zé Lins neste teu grande momento. Estou sentindo a dor de sabê-lo longe / de nosso convívio, longe / de nossa ternura, longe / de nossas andanças, longe / de nossa conversa, longe, / longe, longe, muito longe.


Pablo Neruda e Thiago de Mello se conheceram em 1960, no Rio de Janeiro, apresentados pelo escritor baiano Jorge Amado. Ao ser cumprimentado por Pablo Neruda, Thiago de Mello teve a satisfação de ouvir dois de seus poemas recitados pelo poeta chileno. O reencontro entre eles só foi acontecer no Chile, no ano seguinte.

“Em 1961, fui nomeado adido cultural na Embaixada do Brasil no Chile. Quando me encontrei novamente com Neruda, em Valparaíso, fui recebido com muito carinho e ele me convidou a passar aquela noite em sua casa. No domingo, passamos o dia todo juntos. Ele, então, me convidou para morar em sua casa em Santiago, chamada La Chascona, uma bela residência, já que Neruda tinha vocação para arquitetura. Era o seu grande sonho. Aceitei o convite. Eu pagava, evidentemente, um aluguel simbólico de amigo pra amigo, e lá morei durante quatro anos. Nosso exercício de amizade foi do grau mais elevado. Estávamos sempre juntos, trocando ideias, viajando, cozinhávamos, brincávamos e traduzíamos poemas um do outro”, recorda o poeta amazonense.

Até hoje, um dos grandes prazeres de Thiago de Mello é falar sobre sua amizade com Neruda e do período de convivência estreita dos dois. De acordo com o autor amazonense, era rotina para o poeta chileno escrever todos os dias e, por aproximadamente seis meses, os dois trabalharam na mesma mesa, juntos, um traduzindo os poemas do outro. É dessa época o início da tradução feita por Thiago de Mello do livro “Los Versos Del Capitán”, que havia sido publicado anonimamente em Nápoles, na Itália, em 1952. 

Os versos do capitão são os versos do amor intenso de Neruda por Matilde Urrutia, que então era sua amante secreta. Em 1953, o poeta chileno começou a construir aquela casa de Santiago para Matilde, e ali eles moraram juntos desde 1955, quando Matilde se converteu em sua terceira esposa. La Chascona é uma palavra quéchua que significa “despenteada” e a casa tinha esse nome em homenagem aos cabelos em eterno desalinho de Matilde. “Participar da vida do Neruda, frequentar a intimidade do seu gênio criador e a riqueza encantadora (e às vezes perturbadora, ninguém é santo) de sua pessoa humana foi um precioso presente da vida”, diz Thiago.

Em 1964, o golpe militar no Brasil surpreende o poeta amazonense no meio de uma nova tarefa literária: traduzir o livro “A Terra Devastada e os Homens Ocos”, escrito por T.S. Eliot (1888-1965). Thiago de Mello recorda bem daquele dia:

“Na noite de 31 de março, Salvador Allende, então senador, me chama ao telefone e avisa que vem chegando com um aparelho de rádio potente, para ouvir comigo o discurso de despedida de Jango lá de Brasília. Que estava trazendo Neruda e o pintor Nemésio Antunez. Eram três pessoas do meu coração que se queriam solidárias comigo naquele instante perverso, na La Chascona, hoje sede da Fundación Pablo Neruda, onde o poeta quis que eu fosse morar assim que cheguei ao querido Chile. Jango falou uns vinte minutos. Disse que ia deixar o país e que não queria derramamento de sangue. Neruda, o meu querido Paulinho, membro do Comitê Central do Partido Comunista do seu país, me olhou e disse, pausado e grave: “Tu pueblo, compañerito, no va a salir a las calles. Eso jamás pasará en Chile. El dia en que los militares intenten levantar la cabeza, hasta las amas de casa saldrán a las calles, con sus escobas, en defensa de la democracia”. Allende levantou-se: “Lo que yo siento es que ese golpe militar en el Brasil va a desencadenar una ola de levantes en países de nuestra América. Y hasta Chile podrá ser alcanzado”. Fiquei silencioso. Nem preciso falar agora. A história já falou.

Neruda morreu no hospital 10 dias depois do golpe cruel de Pinochet, em setembro de 1973, sem poder sequer recordar o seu comentário daquela noite. Já Salvador morreu no palácio de La Moneda, bombardeado pelos militares golpistas e a resistência civil tão planejada sequer “poude salir a la calle”, devorada pela ferocidade dos primatas de Pinochet. Mas naquela noite de 31 de março ninguém sabia que esses acontecimentos terríveis iriam acontecer.


Lá pelo meio de abril, chegam à embaixada os jornais brasileiros. Na primeira página do Correio da Manhã, exatamente no lugar em que Carlos Heitor Cony, o meu companheiro da manhã, o primeiro intelectual brasileiro a se erguer valente contra a degradação humana da tortura, publicara no dia 2 de abril o seu famoso brado “A Salvação da Pátria”, valha-me Deus!, vem a foto de Gregório Bezerra, o líder camponês, exibido nas ruas do Recife, descalço e só de calção, todo arranhado, com uma grossa corda amarrada no pescoço, como se fosse um bicho, puxado por um oficial do Exército brasileiro, em pé na traseira de um jipe. Veio o primeiro ato institucional da Junta Militar. Arraes e Julião presos em Fernando de Noronha. E o pior: muita gente boa aderindo. Não conseguia dormir. Vergonha de minha pátria. Indignação moral. Eu precisava fazer alguma coisa.

Já era maio quando a mala diplomática trouxe o jornal que estampava a foto do escritor Astrogildo Pereira, o apaixonado machadiano ao estudo de cuja obra dedicou desde adolescente a sua vida, também consagrada à luta pelo fim das injustiças sociais, algemado num catre e sua vasta biblioteca incendiada. Era manhã e também Allende e também Paulinho estavam comigo na La Chascona, testemunhas de minha sofrida indignação moral: “Este Brasil não é o meu. A minha pátria não tortura. Vou renunciar ao meu posto!”. Redigi o meu pedido e o entreguei ao nobre embaixador Fernando Alencar, que, sem conseguir me demover, teve que encaminhá-lo ao Itamaraty. Silêncio.

Aí por julho, de passagem por Santiago, o então chanceler Vasco Leitão da Cunha, que uma noite antiga, na casa do poeta Augusto Frederico Schmidt, se dissera leitor do meu “Vento Geral”, de passagem pelo Chile, também em vão quis me dissuadir. Não devo deixar de contar que, na mesma noite em que redigi a renúncia, escrevi o poema “Os Estatutos do Homem”, logo publicado no suplemento literário do Correio da Manhã, dirigido por Álvaro Lins. Na véspera do meu retorno ao Brasil, a televisão nacional do Chile, sob o controle dos democratas cristãos do presidente Frei, me pergunta por que vou voltar ao Brasil, onde os militares não me querem, quando o chanceler chileno, meu amigo Gabriel Valdés, me oferecera um lugar no departamento cultural do seu próprio Ministério?  “Vou voltar para lutar contra a ditadura”, respondi. Voltei e fui preso ao chegar ao Brasil, quando ainda estava na porta do avião.”

A amizade com Manuel Bandeira também ficou seriamente abalada dois meses depois do golpe de 1964, após a publicação do referido poema “Os Estatutos do Homem”, hoje traduzido para mais de 30 línguas e incorporado ao livro “Faz Escuro Mas Eu Canto” (Civilização Brasileira, 1965). O poema era dedicado a Carlos Heitor Cony. Em 11 de junho, Bandeira enviou uma carta de rompimento, em que defendia o golpe militar e repreendia Thiago pela dedicatória. “Chorei quando ele me pediu por escrito que eu não o considerasse mais seu amigo. Foi como se eu tivesse levado uma surra. Bandeira aproveitou para machucar o Cony, o primeiro dos intelectuais brasileiros a escrever contra a ferocidade dos militares”, lembra o poeta. “Devolva essa carta... Ela queimará as suas mãos pelo resto da vida”, recomendou Neruda.

De volta ao país, em 1965, após renunciar à carreira diplomática no Chile, Thiago e suas irmãs visitaram o poeta briguento, com o qual costumavam participar de sessões musicais, e, num gesto de reconciliação, Manuel Bandeira recitou de cor o “Poema Perto do Fim”, de “Faz Escuro Mas Eu Canto”. Abraçado ao jovem poeta, sussurrou: “Esqueça aquela carta...”. Thiago esqueceu.


“Na verdade, havia aí um problema pessoal entre mim e Bandeira”, revela Cony, ao relembrar o episódio. “Ele não rompeu com o Thiago só por ideologia. Bandeira tinha sido padrinho de casamento de uma moça que se separou do marido para casar comigo. Ele me chamou de canalha, uma coisa violenta. Não respondi devido ao respeito que tenho pelo Bandeira, que considero o melhor poeta brasileiro de todos os tempos”.

Naquele mesmo ano, durante uma nova prisão, Thiago aproximou-se ainda mais de Cony – ambos “recém-chegados” de um protesto de artistas e intelectuais contra a ditadura, em frente ao Hotel Glória, no dia de uma conferência da Organização dos Estados Americanos, no Rio de Janeiro. No quartel do Exército, o homem de Andirá queixou-se em dó de peito: “Sou índio, preciso tomar banho de rio se não eu enlouqueço”. Levou duas semanas para sair da prisão. “Eu morrendo ou o Thiago morrendo, o que sobreviver vai se sentir muito órfão”, diz Cony. “Nós somos muito próximos, quase almas gêmeas”.

No ano seguinte, Thiago lança um novo livro, “A Canção do Amor Armado” (Civilização Brasileira, 1966), que também é incensado pela crítica. O poeta deixa de lado o canto pessoal, o lirismo individualista, para assumir a condição de intérprete daqueles que amam a liberdade e lutam em nome de valores humanos mais justos e generosos, e, por isso, pagam o preço do cárcere, da proscrição e da angústia, enquanto aguardam, confiantes, os primeiros sinais da aurora. Considerado um dos mais respeitáveis representantes do pensamento conservador católico no Brasil, o advogado, jornalista e crítico literário Alceu Amoroso Lima foi outro que se rendeu aos encantos da combativa poesia de Thiago de Mello.


Alceu Amoroso Lima (foto) nasceu no dia 11 de dezembro de 1893, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, e faleceu no dia 29 de agosto de 1983, em Petrópolis (RJ). Consta que, ainda criança, era vizinho do escritor Machado de Assis. Em 1913, formou-se em direito pela Faculdade do Rio de Janeiro, viajando em seguida à França, onde continuou seus estudos. De volta ao Brasil, trabalhou como advogado e passou a colaborar com o jornal “O Crítico”, onde adotou o pseudônimo de Tristão de Ataíde. Nos anos 1920, converteu-se ao catolicismo, iniciando ampla militância como expoente do pensamento católico. Foi diretor do Centro Dom Vital, que reunia lideranças da Igreja católica. Participou ativamente dos movimentos sociais e políticos brasileiros nos anos 1930, tornando-se um dos mais respeitáveis representantes do pensamento conservador católico no Brasil.

Em 1935, Alceu Amoroso Lima tornou-se diretor da Ação Católica Brasileira e foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Trabalhou também como jornalista e crítico literário. Publicou diversas obras em que expôs seu pensamento, como “Introdução à Economia Moderna”, “Preparação à Sociologia”, “No Limiar da Idade Nova” e “Idade, Sexo e Tempo”. Na década de 1940, Alceu Amoroso Lima retomou suas concepções liberais, sem abandonar o catolicismo. Foi professor de literatura brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia e ajudou a fundar a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Após o golpe militar em 1964, teve uma postura atuante na defesa dos direitos humanos. Publicou uma série de artigos contra a ditadura, valendo-se de seu prestígio como intelectual. O renomado pensador católico foi o responsável pela apresentação do livro “A Canção do Amor Armado”:

Thiago de Mello é, sem a menor dúvida, um dos grandes poetas do nosso tempo. E dos mais típicos representantes da chamada “geração de 45”, a que nasceu para as letras depois da morte de Mário de Andrade. Estreou em 1951 e desde então sua poesia representa aquilo que Mário de Andrade deixou como testamento: a necessidade de uma participação do poeta na marcha do mundo, nos acontecimentos do mundo e mesmo na reforma do mundo. Aquilo que Carlos Drummond de Andrade também disse na Rosa do Povo.

Thiago de Mello cada vez mais representa o poeta participante, como um Moacyr Félix, como um Eduardo de Oliveira, o novo poeta negro. O drama do mundo cada vez mais capta sua poesia, mas esta não perde, com isso, nada de sua tessitura alada. É uma poesia verbalmente leve, delicada, sutil, mas sempre ligada a um profundo sentimento interior, que ultimamente se torna cada vez mais transparente ao drama do mundo moderno, como se nota claramente nos poemas do Faz Escuro Mas Eu Canto.

Esses exilados do interior representam a nossa nova Canção do Exílio, e é de sua comparação com o poema de Gonçalves Dias – que foi como que a primeira voz da poesia intensamente brasileira – que melhor podemos entender o caminho que vai do romantismo ao neomodernismo, que é também, como o próprio modernismo o foi, um neo-romantismo. Ao passo que Gonçalves Dias pensava em si e sua pátria longínqua, Thiago de Mello pensa na dor humana, na injustiça, na opressão, na ausência de liberdade e, portanto, no que há de universal e de revolucionário no momento atual de todo o mundo, do Brasil e de si próprio. Pois seus poemas não se tornaram em nada sectários nem bombásticos com essa conversão crescente ao social. Basta lembrar a imensa ternura dos versos dedicados ao nascimento do seu filho Manuel ou à morte do seu amigo, o nosso José Lins do Rego.

Os versos de Thiago de Mello constituem, sem a menor dúvida, a expressão mais transparente e bela, significativa e profunda, não só de um poeta autêntico, mas de um momento crucial da alma brasileira em sua fase decisiva da evolução de sua cultura. Essa conversão social não o afastou de si mesmo. Apenas o Narciso Cego abriu os olhos ao Vento Geral do mundo. Seu narcisismo era intransparente à sua própria imagem: “Cego assim não me decifro / e ao imaginar-me sonhado / não me completa: a ganância / de ser-me inteiro prossegue. / E paira – pânico mudo – / entre o sonho e o sonhador”.

Agora sua “ganância de ser-me inteiro”. Talvez por influência de Pablo Neruda, de quem se aproximou durante sua permanência trienal do Chile, venceu o narcisismo e o vento geral o levou ao próximo, à vida em contínua transformação, do mundo em mudança. E o poeta se completou, sem perder em nada a sua angústia. Pois, ai dos poetas que fecham totalmente o ciclo de sua vida. A poesia tem de ser sempre uma abertura para o infinito. E a esperança que ressuma de seus poemas mais recentes do Faz Escuro Mas Eu Canto bem mostra que a sua poesia não foi “apenas um erro no pensamento de Deus”.


Ensaísta e jornalista, Otto Maria Karpfen (foto) nasceu em Viena, Áustria, no dia 9 de março de 1900, e faleceu no dia 3 de fevereiro de 1978, no Rio de Janeiro. Filho do advogado e pianista judeu Max Karpfen e da violonista católica Gizela Schmelz Karpfen, Otto, aos 20 anos, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Viena, onde obtém, em 1925, o título de doutor em letras e filosofia e começa a trabalhar como jornalista. Intelectual ativo, Otto estuda ciências matemáticas em Leipzig, sociologia em Paris, literatura comparada em Nápoles e política em Berlim. Tempos depois, por opor-se ao regime nazista em ascensão na Alemanha, o jornalista é perseguido e foge, em 1938, para a Antuérpia, Bélgica, onde trabalha no periódico Gazet van Atwerpen.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Otto viaja para o Brasil, em 1939, e chega ao Paraná com sua mulher, a cantora lírica Helena Karpfen. Alguns meses depois, o casal vai morar em São Paulo. Poliglota, o homem que já sabia inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata, em um ano aprendeu e dominou o português, com muita facilidade devido ao conhecimento do latim e de outras línguas derivadas do latim. Nesse meio tempo, Otto transforma seu sobrenome original, Karpfen, em Carpeaux (francês) – ambos significam carpa –, por considerá-lo mais prestigioso entre os intelectuais brasileiros. O casal Carpeaux muda-se para o Rio de Janeiro em 1940.

Em 1941, precisando urgentemente de trabalho, Otto Maria Carpeaux envia uma carta ao crítico Álvaro Lins, oferecendo um artigo sobre o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), que ele conhecera pessoalmente na Europa. O artigo é aceito e Carpeaux passa a colaborar no jornal carioca Correio da Manhã. Em 1942, ele torna-se diretor da biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia, e publica seu primeiro livro em língua portuguesa, “A Cinza do Purgatório”. Em 1944, assume a direção da biblioteca da Fundação Getulio Vargas (FGV), cargo que ocupa até 1949. Sua maior e mais conhecida obra é a “História da Literatura Ocidental”, escrita entre os anos de 1941 e 1947 e publicada em oito volumes, entre 1959 e 1966.

A partir de 1950, Otto Maria Carpeaux trabalha como redator editorialista do Correio da Manhã. É nessa função que ele conhece e se torna amigo íntimo de Thiago de Mello. Em 1968, Otto anuncia o fim de sua carreira literária e promete dedicar o resto de seus dias à luta política, fazendo oposição ao regime militar instaurado no Brasil. Ele faleceu três meses depois que o poeta amazonense retornou do exílio. Além da produção extensa de ensaios sobre literatura, Otto publicou livros sobre música, história da arte e política. Foi ainda redator e co-editor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse e colaborou na Enciclopédia Mirador Internacional.  Em um artigo intitulado “O Companheiro Thiago de Mello”, Otto Maria Carpeaux não poupou elogios ao poeta amazonense:

As poesias de Faz Escuro Mas Eu Canto foram versos surpreendentes com que Thiago de Mello voltou do Chile para entrar, com a cabeça, com o coração e com os punhos, na luta brasileira destes nossos dias. Ainda, a angústia, esse anjo negro do poeta Thiago de Mello, inspirava esse canto, envolvendo-o entre suas asas negras: Amor e Morte. Mas já o poeta tinha encontrado a saída, justamente quando ela parecia fechada para seu povo. A perda da liberdade abrira-lhe os olhos para a perda maior da própria vida, para a miséria do pobre, para a ignomínia de uma estatística: da mortalidade infantil. Inspirado pela desgraça geral, o individualista Thiago de Mello lançou em Faz Escuro Mas Eu Canto seu grito de rebeldia. Numa paisagem noturna deu-nos ele um exemplo luminoso. O relógio angustioso de sua poesia bateu as últimas horas de escuridão e vislumbrarmos num horizonte incerto os primeiros sinais de aurora.

As poesias de A Canção do Amor Armado são mais recentes e boa parte delas foi como que escrita ontem, para os dias de hoje. Mas esperamos que seja para sempre. Pois no centro desse grupo de poesias novas encontra-se Horóscopo, o maior poema que Thiago escreveu até agora. Os vaticínios e as advertências para os que nasceram sob as doze diferentes constelações do Zodíaco também valem para os que nascerão depois de nós. São de um lirismo rico, de uma abundância metafórica, de metáforas surpreendentes e no entanto evidentes que fazem pensar na grande metaphysicalpoetry inglesa. São, às vezes, de uma ironia sutil ou de um sarcasmo cáustico, como se o poeta quisesse zombar das suas e das nossas pequenas preocupações, lembrando-nos a luta maior que se desenrola no fundo e da qual somos, com ele, os combatentes. Pois o rebelde, que Thiago de Mello já foi, agora nos vaticina uma constelação nova: agora, é conscientemente revolucionário.

Uma velha experiência nos adverte: não nos aproximar demais, pessoalmente, dos poetas e escritores que admiramos. É quase certa a desilusão, por que botaram tudo nos seus versos, nas suas linhas e na vida só ficou um homem inacessivelmente seco. Mas não é este o caso de Thiago de Mello. Sua personalidade é tão rica que podia dar tudo em seus versos – e ainda fica um homem de muitas facetas e um amigo de inumerável coração. Thiago de Mello é como sua poesia: fulminante como suas imagens, firme como seus ritmos, melodioso como sua música. Em um dos versos de Horóscopo ele fala mesmo de música, convidando-nos a tocar um concerto de Bach, “de preferência com fagote ou com fuzil”. Nessas palavras reconhecemos Thiago de Mello. Estendemos a ele as mãos: – Companheiro!



“Sempre, desde o meu primeiro livro, fui um poeta comprometido com a vida do homem – e a minha de permeio”, diz Thiago. “Escrevo sobre o que me comove, o que instiga a minha sensibilidade ou a minha inteligência. O que me alegra ou me dói. Quando a ditadura militar, com o seu terror cultural e a indignidade da tortura, feriu a própria dignidade da condição humana, os meus versos se ergueram em defesa do homem. Nunca fui panfletário – nada tenho contra o panfleto bem sucedido – nem populista. Mas não há porque negar que os meus livros Faz Escuro Mas Eu Canto e A Canção do Amor Armado me fizeram popular. O Faz Escuro está hoje na sua vigésima edição. Não tenho culpa. Escrevo sobre o silêncio sonoro da floresta ou sobre a menina que dorme com fome. Sobre as ancas da moça que passa ou sobre o milagre do telescópio que fotografou a luz fossilizada dos primeiros estilhaços do big-bang. Sobre a dor dos deserdados e a esperança de quem tem fé”.

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (3)


Em 1968, em virtude das perseguições constantes do governo militar, Thiago de Mello parte como exilado para Santiago, no Chile. Os reveses também o surpreenderiam no novo país, com a eclosão do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

O consagrado Victor Jara, cantor do povo chileno e uma espécie de “Chico Buarque local”, foi preso, torturado e fuzilado em pleno Estádio Nacional, na frente de milhares de pessoas, cinco dias após o ignominioso golpe militar. Neruda morreria menos de duas semanas depois.

O poeta amazonense teve mais uma vez de se evadir. Ainda hoje, Thiago de Mello se emociona quando recorda aqueles dias de terror:


“Antes de mais nada é preciso lembrar que o Estádio Nacional foi transformado em campo de concentração e lá aconteceram fatos terríveis, tanta foi a ferocidade do golpe militar chileno, promovido, como se sabe, pelo governo norte-americano, que, nove anos antes, já organizara o golpe brasileiro. Lá foi assassinado o poeta e cantor Victor Jara (foto). Antes de matá-lo, cortaram-lhe as mãos. Filho de camponeses, Victor Jara surgiu como menestrel e ganhou o coração chileno. Quando o levaram para o estádio, não sabiam que ele era o querido cantor. Foi identificado quando outro preso, ao reconhecê-lo, começou a entoar uma de suas canções mais populares. Ouvi contar que até alguns soldados cantaram. Tenho um poema, “Canção para Victor Jara”, musicado por Pablo Milanês, o lindo poeta e cantor cubano, em que digo: “pensavam que cortando as tuas mãos e calando a tua voz, matavam a tua esperança”.

No dia 11 de setembro de 1973, dia do terror chileno, eu estava em Santiago, refugiado político. Servia ao governo de Salvador Allende, como diretor de Comunicação do Instituto de Reforma Agrária. Trabalhava com os camponeses em Temuco, região de muito conflito entre latifundiários e os valentes índios araucanos, os mapuches. Eu era pessoa muito visada, estrangeiro, muito conhecido e até querido no Chile. Porque durante cinco anos fora adido cultural da Embaixada do Brasil e fiquei conhecido na pátria do Neruda, pelo meu labor, com pintores, músicos e poetas, a serviço da integração cultural latino-americana.


Quando me refugiei no Chile, em fins de 1968, o meu filho primogênito, Alexandre Manuel, o Manduka, veio me ver (um presente de Salvador Allende). Ele era músico, um pássaro cantor. Foi um lindo companheiro que a vida me deu. Já atravessou o rio, canta lá nas estrelas. Manduka era um carinhoso apelido de família.

Ele se chamava Manuel em homenagem ao padrinho, o doce Manuel Bandeira, que celebrizou o menino logo ao nascer com um poema em seu “Mafuá de Malungo”. Manduka tinha 16 anos, veio de violão. Alegria que durou duas semanas.

Quando voltou, foi preso no aeroporto do Galeão. Os agentes do SNI no Chile avisaram os gorilas brasileiros. Maltrataram o menino. Só por ser meu filho. Sua mãe, a jornalista Pomona Politis, conseguiu tirá-lo das grades. Quando saiu, ele passou a ter medo de carro de polícia, de gente fardada. Deu no pé do Brasil. Viveu sete anos comigo no exílio. Cantando, sempre cantando.


Volto ao dia do golpe. Estava a caminho da Gran Avenida, quando ouvi que estavam metralhando o La Moneda. Corri para estar ao lado de meu presidente, meu amigo, Salvador Allende. Quando fui me aproximado do palácio, alguém me agarrou e disse veemente: “Poeta, ande, vayase!”. Um desconhecido. Quis reagir e ele me empurrou. Me salvou.

Um ano depois, já no exílio, amparado pelas Nações Unidas, a Acnur, dediquei assim o poema “Lição de Cordilheira”, que está no “Mormaço na Floresta”: A Salvador Allende, / O fogo comendo, / O sonho cantando. / O povo vai fazer o resto. (O último verso é a frase final do discurso que ele fez antes de morrer.)

Nos primeiros dias do golpe, a casa onde eu morava, em Vitacura, foi invadida pelos primatas de Pinochet. Ninguém dentro dela. Fizeram uma fogueira com os livros (até as provas gráficas do que eu levara anos para escrever, sobre a Ilha de Páscoa; a editora foi empastelada) rasgaram telas de Portinari, Djanira, gravuras de Anna Letycia.

Até hoje me dá uma agonia no corpo todo, quando lembro que levaram (rasgaram, queimaram, será que guardaram?) uma pasta encadernada com rótulo bem desenhado por mim: Cartas de Bandeira e de Neruda.

Manduka e eu estávamos bem guardados na casa da família Bertonatti, gente fina, de coração do tamanho de um bonde, como dizia minha mãe dona Maria. Era fim de outubro de 1973. Decidimos pedir asilo na Embaixada do Peru. Eu tinha um livro publicado lá na pátria de Arturo Corcuera e Chabuca Granda, Manduka ali recebera o prêmio maior do Festival Internacional de Águas Claras, cantando “Pátria Amada, Idolatrada, Salve-Salve”, dele e do querido Geraldo Vandré.

Chegamos à Embaixada, o portão estava escancarado. O casarão lá no fundo do jardim. Entramos. Escondida, rente ao muro, estava uma patrulha de carabineiros chilenos. Dentro, sim, do território peruano. Na portaria, pedi para falar com o embaixador. Não estava. Veio o encarregado de negócios. Mal comecei a falar, ele foi cortando: “A embaixada não concede asilo”.

Acudi que apenas queríamos um visto para viajar a Lima. “Meu filho tem de dar um recital, vou trabalhar na Universidade de San Marcos, estou traduzindo César Vallejo”, expliquei. Ele pediu os passaportes. O diplomata olhou meu documento (chileno, de refugiado) e, com a maior desfaçatez deste mundo, levantou o braço e chamou os carabineiros. Assim mesmo, como estou contando.


Fomos presos e levados, não para o estádio, mas para a delegacia do bairro. Ficamos trancados numa sala. Levaram nossos documentos. Veio el capitán, sozinho e sério, mas não nos insultou. Interrogatório. Contei que precisávamos viajar ao Peru, a trabalho. Fomos à embaixada pedir visto e fomos presos. Quando ele viu o violão, que Manduka não largava, seus olhos se acenderam. Perguntou se eu tocava. Apontei para o menino. A quem ele fez uma pergunta que salvou a pátria: “Por si acaso, tocas la Bossa Nova?”

Com muita calma, o Manduka (já com 21 anos) tirou uns acordes com aquela batida de João Gilberto, cantou o Desafinado, depois ofereceu o pinho ao militar, que não se fez de rogado. Dedilhou uns acordes, elogiou o instrumento, agradecido. O militar nos deixou. Abracei meu filho. Demorou um tempão, anoiteceu, o capitão voltou com nossos documentos e, como se nada tivesse acontecido, se referiu a minha amizade com Neruda.

Mandou a gente embora, e ainda advertiu: “Vão depressa, porque o toque de recolher começa às 10 horas e já passa das nove”. Me olhou nos olhos: “Seja mais cuidadoso”. Não cabiam dúvidas. O oficial chileno só podia ser um allendista. A guarda do palácio presidencial era feita por carabineiros.

No dia seguinte ao enterro de Neruda... (faço um parêntese, ou um ramo, como o poeta me dizia: “Compañero, haces demasiadas ramas en el árbol de tu conversación”. Eu lhe respondia que era verdade, pero advertia que os ramos da conversa dele eram mais grossos e mais bonitos do que os meus. Quero recordar o enterro do bardo: “Pablo Neruda!”, bradava um coração chileno. “Presente!”, respondia a multidão corajosa, cercada de soldados. Fecho o parêntese.)

No dia seguinte ao enterro de Neruda, cometi uma audácia. Era preciso socorrer um brasileiro, também refugiado, para ele sair do Chile. Estava escondido num bairro proletário de Santiago, cruzado pela Grande Avenida. Tinha papéis bons. Dei o lugar e a senha onde uma mulher o esperava, de vestido branco. Lembro neste instante que a senha era Madrugada Campesina. Abracei-o: “Ela vai te ajudar”. Ajudou muito.

Tornei a vê-lo, anos depois, quando voltei do exílio. Estava sentado na primeira fila do Teatro da PUC, em São Paulo, na estreia do “Faz Escuro Mas Eu Canto”, título do show, com poemas e canções, que Sergio Ricardo me chamou para fazer com ele. Varamos durante um ano por mais de dez capitais brasileiras clamando pela anistia. Onde chegávamos, a censura nos esperava. Chegávamos armados com os Direitos Humanos.”


Depois que conseguiu sair de Santiago, Thiago de Mello peregrinou por Buenos Aires, Paris, Lisboa, Berlim e Frankfurt, até fixar residência na cidade de Mainz, na Alemanha, para trabalhar como professor visitante na Universidade Johann Guttenberg. Foi quando encontrou a tranqüilidade necessária para lapidar os poemas que vinha elaborando nesse meio tempo e publicou um novo livro, “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida” (Civilização Brasileira, 1975).


Dono da editora Civilização Brasileira e amigo particular de Thiago de Mello, Ênio Silveira (foto) era um homem de cultura ampla, poder-se-ia mesmo dizer que era um cosmopolita daquele tipo de pessoa viajada e que, no caso dele, parecia pertencer a uma geração de brasileiros – hoje quase extinta – que acreditava ser a França a capital cultural do mundo e jurar que Nova York não passava de uma aldeia de nouveau-riches avaros e kitsch, ou seja, em bom português, de novos-ricos avarentos e cafonas.

Elegante e bem-apessoado, Ênio tinha aquele porte que no Brasil se convencionou chamar de britânico, embora demonstrasse uma educação mais próxima daquilo que o brasileiro de classe média alta classifica como européia continental.

Nascido em 18 de novembro de 1925, em São Paulo, Ênio Silveira se formou em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e logo seguiu para Nova York, onde estudou editoração na Universidade de Columbia e fez estágio na Editora Alfred Knopf.

De volta ao Brasil, passa a morar no Rio de Janeiro e inicia sua carreira na Editora Civilização Brasileira, fundada em 1929 e incorporada três anos mais tarde pela Companhia Editora Nacional, do escritor Monteiro Lobato (1882-1948).

Ênio assume a direção da editora em 1948, realiza mudanças na linha editorial e na área gráfica, com a introdução de gravuras nas capas e interior dos livros e o uso de brochura. A editora se torna então uma das maiores do Brasil.

Em 1965, ele cria a Revista Civilização Brasileira, marco do pensamento político e cultural e de resistência à ditadura militar, fechada após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), no fim de 1968. Entre 1964 e 1969, Ênio Silveira é preso sete vezes por sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pela resistência democrática que lidera no campo editorial, com a publicação de títulos sobre temas políticos e sociais de pensadores como Karl Marx e Antonio Gramsci, e jovens autores brasileiros.

Por conta de suas crenças políticas, Ênio editava livros que raramente chegavam ao Brasil, obras vistas como polêmicas aos olhos de parte da sociedade brasileira. Na seção “Cadernos do Povo Brasileiro”, escrevia sobre temas da política nacional, de intervenção nas lutas sociais, como a Reforma Agrária, por exemplo. Quem comprava a coleção ainda recebia um caderninho de poemas chamado “Violão de Rua”, em que publicava obras de importantes artistas do Brasil, como o famoso poema de Vinícius de Morais, o “Operário em Construção”.

O sociólogo foi uma das personalidades mais influentes dos meios editoriais do Brasil durante décadas, principalmente durante a ditadura militar. À época do regime militar, chegou a editar um livro por dia tendo, ao longo de sua vida, editado cerca de seis mil livros.

Por todo o seu trabalho à frente da Editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira tornou-se um verdadeiro marco na sociedade brasileira, encantando até o filósofo Jean-Paul Sartre. Sua morte, em 1996, foi uma grande perda para as letras nacionais, sobretudo por sua defesa intransigente da democracia, da cultura e da intelectualidade tipicamente brasileira.

O livro “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida” foi apresentado por Ênio Silveira:

Esses versos do poeta são uma síntese do que se propõe, depois de muito sofrimento, ao longo de caminhos e descaminhos: “Cada vez mais sozinho e mais feroz, a ternura extraviada de si mesma, / o homem está perdido em seu caminho. / É preciso fazer alguma coisa / para ajudá-lo. Ainda é tempo.” Thiago de Mello, poeta, caboclo do Amazonas e cidadão do mundo, não se limita, porém, a conclamar-nos para essa campanha de re-humanização do homem: ele próprio já partiu, “eu que também me sei ferido e só, / mas que conheço esse animal sonoro / que profundo e feroz reina em meu peito”, porque foi testemunha de crueldade e violência, sentiu no coração a dor imensa de ver irmão contra irmão no “incêndio monstruoso que lavou a cordilheira dos Andes, em setembro de 1973”. E. no entanto, sabe que ainda é tempo. Ainda é tempo de amar, ainda é tempo de viver. Mesmo que os massacres no Vietnam ou no Chile nos infundam momentânea desesperança e frustração, ainda é tempo.

A mesma sede de paz, justiça e liberdade que armou para a vitória um dos povos mais desvalidos e pobres do mundo, fazendo-o derrotar nos arrozais do sudeste asiático a maior potência militar que a história já conheceu, pode armar a cada um de nós para a luta pelo direito de viver com dignidade. O desafio foi aceito: os humilhados e ofendidos, em toda parte, se preparem para enfrentar e liquidar o anti-humano. Se não o fizessem, a humanidade inteira – opressores e oprimidos – pereceria. A luta não será breve, nem fácil, e dela ninguém poderá fugir.  Mas como diz o poeta, “não importa que doa: é tempo / de avançar de mão dada / com quem vai no mesmo rumo, / mesmo que longe ainda esteja / de aprender a conjugar / o verbo amar.”

Este seu novo livro, Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, é como uma flâmula balouçante ao vento, conclamando-nos a cerrar fileiras, mobilizando nossas cabeças, nossos corações e nossos braços. Thiago de Mello, andando pelo mundo, avança: “o rumo é o do amor. / Sabendo certo por onde / vou com quem e a que vou.” As horas amargas que viveu no Chile, depois do assassinato de Allende, cuja experiência de governo era bela promessa que o medo, a ignorância, a traição e a violência cruel e estúpida impediram de colher seus frutos, não lhe abateram o ânimo. Os poetas, mais do que os estadistas, os políticos e os administradores, têm a capacidade de perceber o amanhã. E o caboclo de Barreirinha já sabe que a luz romperá as trevas antes do que pensam os tímidos e os derrotistas: “Pois eu prefiro ficar / contigo, estrelada terra, / não me canso de esperar. / Fique de tudo o que dei, / conjugando o verbo amar, / o rastro de uma esperança / que o homem precisa achar.”

Como já havia acontecido nas últimas vezes, o novo livro de Thiago também obteve boa aceitação no mercado editorial brasileiro, tendo conquistado um importante prêmio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e ocupado por vários meses a lista dos dez livros mais vendidos do ano.

Na Alemanha, o poeta havia ficado fascinado com a consciência ecológica dos militantes do Partido Verde, que haviam superado a dicotomia socialismo-capitalismo e agora defendiam um desenvolvimento sustentável, ambientalmente correto e socialmente justo.

Em outubro de 1977, dois anos antes da “anistia ampla, geral e irrestrita” ser promulgada pelo general Ernesto Geisel, Thiago de Mello resolve voltar ao Brasil para iniciar uma nova etapa de sua vida: a luta ecológica em defesa da Amazônia.


“Sei que é preciso sonhar. / Campo sem orvalho, seca / A fronte de quem não sonha. / Quem não sonha o azul do voo / perde seu poder de pássaro. / A realidade da relva / cresce em sonho no sereno / para não ser relva apenas, / mas a relva que se sonha. / Não vinga o sonho da folha / se não crescer incrustado / no sonho que se fez árvore. / Sonhar, mas sem deixar nunca / que o sol do sonho se arraste / pelas campinas do vento. / É sonhar, mas cavalgando / o sonho e inventando o chão / para o sonho florescer”.

O sonho de retornar ao Brasil contado num de seus poemas escritos no exílio na Alemanha, um dos países onde residira nos últimos anos, havia, enfim, se tornado realidade, para Thiago de Mello, que chegou ao país como um refugiado das Nações Unidas. Mas, entre a alegria da volta e os abraços de parentes, foi detido pela Polícia Federal, logo ao desembarcar no Galeão, no início de uma manhã de outubro, só sendo liberado no final da noite.

Com 51 anos e vestindo camisa e calças brancas, cor de sua preferência pelo significado de “festa, paz e tranquilidade”, o poeta trouxe na bagagem sérios problemas de saúde: dois enfartes no intervalo de poucos meses e uma angina, quadro validado por três laudos médicos entregues às autoridades. E também um testamento, com pedido de ser cremado.

De volta ao Brasil, anunciou que havia escolhido a cidade de Barreirinha, encravada no meio da floresta amazônica, para viver, “para aprender com a própria floresta e, sobretudo, com o homem que vive nela e vive dela” e para servir à causa ecológica (lançaria “Mormaço na Floresta”, em 1981, e “Amazonas, Pátria das Águas”, em 1991, para referendar essa decisão). Sua bagagem sentimental era composta de livros, esculturas e quadros, presenteados a ele pelos mais representativos intelectuais do planeta. O poeta resolveu compartilhar aquele tesouro com seus irmãos da selva.


Em 1978, ao lado do cantor e compositor Sérgio Ricardo, Thiago de Mello participa do show “Faz Escuro Mas Eu Canto”, dirigido pelo cronista e dramaturgo Flávio Rangel (1934-1988) e apresentado em dez capitais brasileiras.

Um dos presentes na plateia do show realizado no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, era o arquiteto Lúcio Costa, “o homem mais delicado que já conheci”, diz Thiago. Apresentados por Drummond, em 1948, se tornariam carne e unha pelo resto da vida. “Lúcio Costa gostava de mim, vivo dizendo isso, sozinho”, explica o poeta.

“Quando voltei do exilio, ele foi ao teatro assistir ao show de poemas e canções, meu e do Sergio Ricardo. Entrou na fila dos abraços e me disse ‘bienvenu’. Não escondi as lágrimas. Soube que eu ia voltar a viver na floresta e alguns dias depois me ligou: ‘Venha buscar a sua casa, ela já está pronta’. E me entregou um projeto arquitetônico maravilhoso.”





O arquiteto, cuja mãe, Alina, era amazonense, assim anota o fato no livro “Registro de uma Vivência” (1995): “Finalmente, numa como que volta às origens, dei o risco da casa que, em Barreirinha, no coração da Amazônia, o poeta nativo constrói com zelo e amor”.

Nos anos posteriores, sairiam da prancheta ainda uma biblioteca e um “torreão”, com janelas quebra-vento, para servir de local de trabalho.

Em 1978, Thiago de Mello edificou com as próprias mãos – utilizando madeiras nativas – o sonho de sua casa amazônica. O conjunto foi chamado de Porantim do Bom Socorro, em homenagem ao lugar onde Thiago e seu pai haviam nascido. O refúgio do poeta, um dos últimos projetos do arquiteto Lucio Costa, era composto de três imóveis.

Em um deles, que funcionava, também, como residência, Thiago instalou a Biblioteca Moronguetá e uma Biblioteca de Literatura Universal.

Em outro, a Biblioteca Amazônica, com 800 volumes, a Biblioteca Latino-Americana e uma Biblioteca de Artes Plásticas.

No terceiro, um Museu Universal e um Museu de Usos Humanos da Madeira Amazônica, atendendo a uma sugestão do antropólogo Gilberto Freyre.


As joias da coroa estavam na Biblioteca Latino-Americana. Constituída de 1.500 volumes, ela continha, entre outras preciosidades, a coleção completa das revistas Crisis, da Argentina, Casa de Las Américas, de Cuba, e Plural, do México, além das obras completas de Alejo Carpentier, Nicolas Guillén, Octavio Paz, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Pablo Neruda, Jose Lezama Lima, Mario Vargas Llosa, Cíntio Vitier, Guillermo Cabrera Infante, Eduardo Galeano e Osvaldo Soriano, entre outros, a maioria delas com dedicatórias afetuosas ao poeta feitas de próprio punho pelos autores.

Na Biblioteca de Artes Plásticas, com 500 volumes, era possível consultar livros sobre Picasso, Miró, Salvador Dalí, Chagall, Paul Klee, Henri Cartier-Bresson, Man Ray, William Klein, Sebastião Salgado, Robert Doisneau, Mario Giacomelli e muitos outros. Havia, ainda, um exemplar original da Expedição Langsdorff ao Brasil, com ilustrações de Rugendas, Taunay e Florence, e outro da Colonização dos Holandeses no Recife, com ilustrações de Franz Prost e Barleus. Cada uma destas duas últimas obras citadas está avaliada, por baixo, em 20 mil dólares.


No Museu Universal, o destaque era uma gravura em bronze de Miró, da série Constelações (as demais estão no Louvre, de Paris), e várias aquarelas de Roberto Sambonet, considerado o maior pintor italiano do século vinte e morto em 1999. Sambonet, durante quase uma década, foi presidente da Sociedade Internacional de Design. Havia, ainda, serigrafias de Volpi, gravuras de Ana Letícia (considerada a maior gravadora do Brasil), xilogravuras da mineira Iara Tupinambá, aquarelas de Fernando Fiúza (que já foi premiado na Bienal de São Paulo) e diversos quadros de Moacir Andrade, Jair Jacqmont, Rufino Tamoyo, Rosé Bru e Venturelli (premiado na Bienal de Veneza), para só citarmos os mais conhecidos.

No Museu da Madeira, Thiago havia conseguido dezenas de remos antigos de formatos diferentes, arpões de maçaranduba desenvolvidos para a pesca de poronga, várias almanjarras (um tipo primitivo de moenda de espremer cana), canoas esculpidas pelos índios diretamente no tronco de árvores, bancos, pilões e gareiras, uma espécie de recipiente do bagaço da macaxeira após o tipiti. O destaque do museu ficava por conta de uma série esplendorosa de adoquinis – beirais de madeiras ucranianos pintados à mão –, que Thiago havia recebido de presente do ex-ministro de Turismo Rafael Grecca.


Nesse ambiente acolhedor, Thiago recebia, vindos de todos os quadrantes do planeta, os seus milhares de amigos aos quais revelava, pouco a pouco, alguns dos mistérios de um mundo ainda em estado de graça.

As viagens de barco que o poeta empreende pelo Paraná de Ramos, as visitações às comunidades ribeirinhas do Andirá, Negro, Amazonas e Solimões, o contato amigável com os índios sateré-mawé, as pescarias, caçadas e histórias de assombrações, tudo se transforma em matéria-prima de uma nova aventura literária, dessa vez em defesa do meio ambiente.


O resultado é o livro “Mormaço na Floresta” (Civilização Brasileira, 1981), que ganhou uma bela apresentação de Ênio Silveira:

Maiakovsky tinha plena consciência de sua natureza: “Comigo a anatomia se vê louca: sou todo coração”. Thiago de Mello, igualmente lírico e dedicado ao seu povo define-se como um rio que flui, não um rio qualquer, mas o seu rio, o seu Amazonas – natural e simbólico –, que nasce nas geleiras eternas dos Andes, atravessa um continente e vai lançar no Atlântico a carga ciclópica de areia e húmus, de grandeza e miséria humana que recolheu ao longo de cem mil barrancos. Onde quer que tenha andado, nas horas de alegria ou de sofrimento que tenha vivido, o poeta sempre se desejou “ser capaz como um rio / que leva sozinho / a canoa que se cansa, / de servir de caminho / para a esperança / (...) / E de lavar o límpido / a mágoa da mancha, / como o rio que leva, / e lava.”

“Como o rio decifra / o segredo do chão”, o poeta tem sempre o coração aberto, os ouvidos atentos. Seu irmão em dificuldades jamais necessitou pedir-lhe ajuda, pois que ele, constante e deliberado como o rio intemporal, sabe “crescer para entregar / na distância calada / um poder de canção”. O companheirismo fraternal é, de fato, um dos traços marcantes da personalidade e da obra poética de Thiago de Mello. 

Mão estendida, abraço cordial e solidário tanto nas horas de perigo e infortúnio quanto nas de comemoração festiva, ele está sempre disposto a ajudar os humilhados e ofendidos. Com o poder da canção e a força do corpo. Por mais sombria que a noite seja, com ele ao nosso lado temos a certeza de que a manhã não tarda e sentimos renascer a esperança, mesmo quando os dados de triste realidade tudo façam por sufocá-la.

Na dedicatória poética com que abre este seu novo livro e belo livro, trabalho pleno de maturidade que as chamas da juventude aparentemente eterna temperam, o Ulisses caboclo retornado à sua Ítaca fluvial nos diz que não está em paz no centro da floresta amazônica porque vive e convive com crianças que dormem com fome, mas que, apesar disso, trata de repartir a esperança. E é precisamente isso o que vem fazendo, ao longo de sua vida. 

Embora tenha enfrentado mais vezes do que desejaria essa desafortunada situação, qual seja a de tentar manter resistentes e combativos, sob o estímulo da esperança na justiça e em dias melhores, aos seus irmãos e companheiros de jornada sobre quem o abuso ou a desgraça hajam tombado, Thiago de Mello não se deixa dominar pelo desânimo e a todos dá, sempre, o auxílio de seu canto solidário, mesmo quando esteja ele próprio sob a mira da adversidade. 

Assim como o rio, ele lava a mágoa da mancha e, armado de amor, “reparte sua esperança e canta a clara certeza da vida nova que vem”. Nele, juntos e afinados, o homem e o poeta, crescem límpidos a cada novo livro.


Em 1981, a editora Civilização Brasileira publicou “Vento Geral – Poesia 1951-1981”, mas apressou-se a esclarecer:

Com este mesmo e belo título, Vento Geral, a Livraria Editora José Olympio publicou em 1960 a opera omnia até então do poeta amazonense, que nove anos antes, com Silêncio e Palavra, irrompera vigorosamente no cenário cultural brasileiro e de pronto recebera a melhor acolhida da crítica. Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet e José Lins do Rego, para citar alguns nomes ilustres, viram nele e em sua obra poética duas presenças que, substanciosas e duradouras, enriqueceram a literatura nacional. “(...) Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer”, escreveu Sérgio Milliet.

O correr dos anos só fez confirmar suas qualidades e justificar os elogios com que fora recebido pela intelligentsia brasileira. O amadurecimento permitiu ao poeta mergulhar profundamente as raízes da sensibilidade e da consciência crítica na rica seiva humana de um povo ao mesmo tempo tão explorado, tão sofrido e tão generoso como o nosso, e sua poesia, sem perder o sóbrio lirismo que a inflamava, ganhou densidade e concentração, pondo-se por inteiro a serviço de relevantes causas sociais.

Faz Escuro Mas Eu Canto, A Canção do Amor Armado, Horóscopo Para Os Que São Vivos, Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida realizam, por isso, a bela síntese do poeta e do homem que jamais deixou ficar indeciso em cima do muro de confortável neutralidade. O poeta e o partisan eram uma só pessoa, dedicada sem medir esforços ou riscos à luta pela emancipação do homem, tanto dos grilhões que injustas estruturas do poder econômico-político lhe impõem quanto das limitações com que individualismos, ignorância ou timidez lhe tolhem os passos.

A biografia de um poeta assim concebido e a tanto cometido não poderia jamais desenvolver-se num plano de tranqüila rotina. A de Thiago de Mello teve, por isso mesmo, suas fases sombrias e borrascosas, realçadas por arbitrária prisão e longo e doloroso exílio da pátria a que tanto ama e serve.

Essas provações, que enfrentou com a serena firmeza de quem as sabe inevitáveis e delas não foge, enriqueceram-no ainda mais como poeta e ser humano. Alargando sua weltanschauung, permitiram-lhe comprovar o acerto de sua intuição de que o geral passa pelo particular e de que, como dizia seu grande colega Fernando Pessoa, “tudo vale a pena / se a alma não é pequena”.

No livro mais recentemente publicado, Mormaço na Floresta, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

Soma de todos eles, este novo Vento Geral que mais forte e oloroso sopra, dá-nos o retrato bem contrastando do poeta e do homem Thiago de Mello. Mas o homem é o seu processo, e este segundo patamar, já tão alto, é apenas uma prestação de contas até agora e, mais do que promessa, a garantia de que sua obra se elevará sempre, na medida em que continua a aprofundar-se no que há de mais rico e estimulante no difíci mestiere di vivere.


“O senhor acredita que o exílio no Chile foi uma porta aberta para seu sucesso no mundo da literatura? Ou, além disso, outros fatores contribuíram para sua consagração como nosso grande poeta popular, com reedições constantes de sua obra ao longo das décadas?”, questionou um jornalista, supostamente especialista na literatura de Thiago de Mello, durante uma das sessões de autógrafos do “Vento Geral”. O poeta de Barreirinha abriu o coração:

“Não acho, não. Nem o Chile, nem o exílio. Vejo que você sabe muito do que fiz e pouco do que fizeram comigo. Já levei carão de meus amados editores José Olympio e Ênio Silveira porque não sei me promover. Mas minha mãe me educou a não me fazer de rogado.

Já que você quer saber quem me abriu a porta vou lhe contar. Não faz mal o que o ninho de cobras vai dizer depois. Foram brasileiros de alto valor. O Álvaro Lins foi o primeiro. Em 1952, no seu rodapé semanal de crítica literária sobre o ‘Silêncio e Palavra’, meu primeiro livro, simplesmente pediu aos principais poetas do Brasil um lugar para mim ao lado deles.

Conto isso, mas também conto que dias depois eu o encontrei na Livraria São José do Rio de Janeiro e lhe disse que dano iria me fazer se eu acreditasse naquilo... Eu estava mal começando, queria caminho e trabalho pela frente. Ele me abraçou rindo.

O outro foi Gilberto Freyre, quando eu ainda nem conhecia o mestre de Apipucos. Em 1952, ano do ‘Narciso Cego’, ele achou de dizer no seu artigo semanal em O Cruzeiro. Só copiando o começo: ‘O poeta Thiago toma tão de assalto o seu lugar entre os melhores poetas do Brasil que até parece um salteador ou um ladrão. Mas não. O que ele fez foi guardar os seus cadernos de caligrafia poética e só aparecer com a letra já segura de um mestre. Um jovem e admirável mestre é o que ele é’.

Sabe a minha reação? Achei tão bonito, tão bem escrito, que gostei, sim, mas concedo que me comovi mais com a beleza do dizer em si do que com o seu dizer de mim. De mim, consciente, feliz de ser um aprendiz de Drummond, o primeiro dos poetas célebres a quem, principiante de 19 anos, procurei no 9º andar do Ministério de Educação para mostrar, manuscritos, alguns de meus primeiros versos, ele foi carinhoso, gabou o meu domínio do idioma, falou da tara pela palavra, saí de lá conhecendo a delicadeza de Lúcio Costa e com os originais datilografados do ‘Claro Enigma’ e com o começo de uma amizade que ia durar a vida inteira. Uma benção. A dele e a do Bandeira, a quem Drummond me levou, caminhando pela Avenida Beira-Mar, até o edifício do apartamento dele, no oitavo andar. Me chamou de pardal novo. E acabou sendo o terceiro que abriu a porta, isso sim, do meu coração, quando na sua crônica do JB, me disse ‘um poeta de grande estro e um homem de grande coração’. Isso sim que deve ser chamado de sucesso, no sentido verdadeiro, de um grande acontecimento, na minha vida.

Não me incomodei quando o Dr. Alceu – o Tristão de Athayde – lavou qualquer sombra de dúvida: eu estava entre os grandes do meu tempo. Sei que não estou. Mas ele achava, acabou-se. O Manuel, meu mestre, amigo e padrinho, foi a inteireza do dom da amizade na convivência de cada dia, que permite a naturalidade da confidência, o gosto de folgar, de estar com, de saber o que dá a alegria do outro, cantar juntos, contar a mesma historia uma porção de vezes, a discrepância sem zanga. Como foi com, dos tantos, o Armando Nogueira, em tudo amigo do princípio ao fim.

Verdade seja dita que levei do Manuel Bandeira já no fim da vida dele um chega pra lá por escrito que me tirou do lugar o centro de gravidade do sofrimento, verdade também que o abraço do encontro no retorno foi outro sucesso sensacional, ele recitando de memória o meu poema, dizendo ‘esquece aquela carta’. O que aconteceu não vou dizer, acho que nem nas páginas dele no meu livro de memórias, ainda não sei.

Bem que eu poderia dar o doce empurrão que me deu na porta o querido Carpeaux, quando apresentou o ‘Faz Escuro’ com o poder do seu pulso. Mas temo atiçar de novo o rapaz concretista que em vez de me chamar de feio faltou com o devido respeito a um verdadeiro mestre das nossas e de outras letras.”