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sexta-feira, janeiro 09, 2009

Conradson 4Ever


Algum mês de 1961. Eu devia ter quase seis anos quando meu pai me acordou. “Trouxe um cachorrinho pra você cuidar. O nome dele é Conradson!”. Mal abrindo os olhos, eu olhei aquele bolo de carne que também mal conseguia abrir os olhos. Antes de sair do quarto, papai falou: “Ele está com dez dias de vida e mataram a mãe dele lá na Copam. Novinho desse jeito, só pode estar morrendo de fome!”.

Companhia de Petróleo do Amazonas (Copam) era o nome da empresa do ilustre empreendedor Isaac Sabbá, antes de ter sido encampada pela “Redentora”, em 64, estatizada na marra e virado Refinaria de Manaus (Reman). Meu pai trabalhava nela desde a construção da mesma, nos anos 50. Depois de trabalhar no canteiro de obras como motorista de caminhão, fez concurso e passou para o cargo de operador de máquinas. Ele se aposentou como chefe de seção da Reman em 1980. Uma vida dedicada à empresa.

Na época, me senti o próprio Zeus cuidando de Hércules. Um cachorrinho chamado Conradson. Achei o nome muito estranho. O filho (“son”) de Conrad. Estariam se referindo ao escritor definitivo de “Coração das Trevas”, que eu só iria ler muitos anos depois? Sei que, na época, muitos navios ingleses aportavam no porto da Copam. Mas quem, entre aqueles operários semi-alfabetizados da refinaria, o teria batizado assim? Algum marinheiro inglês? Nunca soube. Mas adotei o nome.

Nessa mesma noite, fiz leite Ninho, coloquei numa tampa da lata, esfreguei seu focinho no líquido e nada de ele lamber. Fiquei irritado. Abri sua boca sem presas e derramei a tranqueira lá dentro. Ele não regurgitou. Dormi abraçado com ele. Parecia um ursinho de pelúcia. Não juro, mas deve ser uma das poucas lembranças nítidas que ainda tenho de minha infância.

Crescemos juntos. Eu, morando na casa da Tia Maria e indo vê-lo nos finais de semana, para saber se estava tudo bem. Ele, cada vez mais atencioso com sua “ama de leite”. Eu crescendo e ficando cada vez mais franzino e raquítico. Ele se transformando em um leão africano e ficando cada vez mais desabusado. Um dos dois acabaria virando um vira-lata de respeito. O safado venceu: Conradson nunca obedeceu ninguém, além de mim. As mulheres deitam e rolam comigo. Fazer o que?

Entre outras esquisitices, o sacana desenvolveu o hábito, depois de adulto, de só comer se eu estivesse perto. Era capaz de fazer jejum de muçulmano durante o Ramadã até eu lhe autorizar a roer um osso. Fazia isso com parcimônia, olhando-me para saber se não era mais um blefe. Ou algum tipo de envenenamento promovido por algum dono de cadela onde ele vivia dando trabalho. Até hoje não sei quem puxou pra quem. Gêmeos univitelinos.

A gente morava na Waupés, hoje Castelo Branco, que era uma espécie de pantanal da alta-Cachoeirinha. Quando chovia, ninguém conseguia sair de casa sem meter o pé na lama. Durante o verão, o vento se encarregava de deixar as pessoas com uma leve cor amarelada. Pó de barro ou lama fedida, você escolhia. As pessoas não reclamavam. Achavam que aquilo era uma contingência da vida, tipo nascer alto ou baixo, ser negro ou branco. Destino. Comecei a ficar rebelde por causa disso.

Nossa casa era bonitinha, mas ordinária – como a maioria das casas do local. De madeira e zinco, no formato “água inteira”, com dois quartos, sala de jantar, cozinha, jirau e varanda. O banheiro ficava no quintal. Até os sete anos, eu vivia feliz ali, com meu “personal panda”. Depois, fui morar com Tia Maria, na Rua Parintins, entre a Waupés e a General Glicério, em uma casa no mesmo estilo. Dividia o quarto com meu primo-irmão Carlos Alberto, o “Cazuza”.

Da época em que morava com meus pais, lembro que todo dia, às seis da tarde, minha mãe fechava todas as portas e janelas, acendia em um dos ambientes uma vela espiral chamada “Boa Noite” ou “Sentinela”, e todo mundo saía de dentro da casa, enquanto a fumaça se espalhava pelos aposentos. Era aquilo ou ser comido vivo pelos carapanãs, piuns e meruins.

Lembro também de um cinema mambembe, que era exibido exatamente em frente de casa, com desenhos animados do marinheiro Popeye, do endiabrado Pica Pau, do Mickey, do Pato Donald e dos corvos Faísca e Fumaça. Não havia som, mas a gente curtia do mesmo jeito (eram os anos 60, pois não?). Nunca soube o nome do responsável pela façanha. Mas no dia em que assisti “Cinema Paradiso”, em São Paulo, chorei copiosamente ao lembrar do nosso deslumbramento infantil diante daqueles desenhos animados.

Um belo dia, uns cinco anos depois, parou um caminhão na frente de casa e meus tios Lucas, Adamor e José começaram a esvaziar o barraco. Tudo de útil foi colocado no caminhão. Menos o meu cachorro. Era um sábado de 1966. No domingo, estávamos morando numa casa de alvenaria na Rua Parintins, média-Cachoeirinha, construída no muque por papai e meus tios citados anteriormente. Do lado esquerdo, um terreno baldio, cheio de árvores frutíferas. Do lado direito, uma casa de alvenaria, também recém-construída, de um pessoal vindo de Eirunepé (“seo” Aluísio e dona Liney, pais da Conceição, Aluizinho, Zé Alfredo, Lucinha, Ioney e Aluney).

Três meses depois, como se tivesse vindo do inferno, eis que chega Conradson e começa a latir, desesperadamente, em frente da nova casa. As orelhas estavam sangrando. No centro da testa, um buraco cheio de tapurus. As pernas, em carne viva, mostravam as dentadas canibais herdadas da travessia em território inimigo. Rabo entre as pernas, ele apenas me olhava com carinho. E latia, latia muito, como um bezerro desmamado. Como é que o filho da puta havia chegado até ali, pra mim continua sendo um mistério semelhante ao da transubstanciação.

Meu pai, Simão Monteiro Pessoa, o “Velho” (ou “Pai Simão”, como era conhecido – e respeitado – na Copama), veterinário por correspondência (Instituto Monitor? Instituto Universal? Ele nunca me falou a respeito...), cuidou do sacana. Banho de creolina, injeção anti-rábica, pó Granado, benzetacil, essas tranqueiras. Seis meses depois, Conradson voltou a ficar bonito, se transformou em um vira-lata de classe mundial, e, sabe-se lá porque, passou a me devotar verdadeiramente uma amizade canina.

Todo mundo sabe que cachorros envelhecem numa proporção absurda se os comparamos com seres humanos. Pra cada dois anos do dono, eles envelhecem quatro. Isso significa que quando nos encontramos de novo, Conradson já era um guapo de quarenta anos, interessado nas boas coisas da vida. A vida começa aos quarenta, descobri meio tarde.

Criado solto, ele era a minha referência. De repente, o sacana começou a só circular com uma cadela (Babete? Betsabah? Belvedere?). Desconfio que ele deixou sua descendência em uma bela espécime, mas nunca pude confirmar. Passei vários meses sem vê-lo. Depois ele voltou, como se nada tivesse acontecido. E resolveu cair na vida. Saía para as esbórnias tradicionais, brigava, batia e apanhava, deitava e rolava nas cachorradas, mas depois voltava para as minhas pernas, intuindo que ser acariciado por mim era melhor do que tudo que havia experimentado. E, assim, nós fomos crescendo.

Estudando à noite na Escola Técnica Federal do Amazonas, eu, já molecão de 17 anos, me preparando para o vestibular, descia no ponto de ônibus, na Carvalho Leal com a rua Tefé, e lá estava o filho da puta me esperando. Onze horas da noite. Quando eu descia, o bandido, deitado de bruços pra cima, lubricamente, se levantava, eriçava o pêlo e começava a latir. Um velho safado. Bukowski.

Aí, saía disparado, correndo desesperadamente pela rua deserta, dava uma marcha-ré, voltava na mesma disparada e se jogava em cima de mim, tentando me lamber o rosto. Na maioria das vezes, eu me defendia com a mochila – e lhe arrebentava o focinho. Ele devia achar que aquilo fazia parte da brincadeira, porque iniciava um novo trote e voltava a fazer a mesma esculhambação. A gente morava a dois quarteirões dali.

Só que aquela manifestação de carinho, realmente, me enchia o saco. Quando eu dava um grito de guerra (“Conradson, caralho, pára com essa merda, filho da puta!”), ele se recompunha e saía trotando na minha frente. Fazer o quê, com um sacana desses, além de repartir minha “janta” com ele? Era o que eu fazia, antes de entrar em casa e dormir. Com ele preso entre as pernas, eu falava do meu dia-a-dia, e lhe servia parte do rango, que mamãe sempre deixava. Era o companheiro ideal, já que, diferente das mulheres que eu amava desesperadamente, não contestava nem discutia.

Às vezes eu o fazia colocar alguém pra correr, fosse alguém que eu não gostasse, fosse quem estivesse andando, suspeitíssimo, pela rua, naquela hora da noite. Ele me obedecia e fazia o maior escarcéu, latindo feito um monstro, avançando nos calcanhares, retrocedendo, mostrando as presas, rosnando. Um artista. Apesar de ser um vira-lata, se comportava como um pit-bull. Nunca soube como ele aprendeu aquela onda de saltar na direção de uma pessoa, como se pretendesse atingir a jugular – na verdade, o fuleiro queria lamber o rosto do sujeito. Era um puro. Os incautos, evidentemente, se borravam de medo. Observando de longe, aquele salto felino dava um medo do caralho. Papo sério.

O tempo foi passando. Eu já estava com 20 anos, trabalhava na Sharp do Brasil e havia saído de casa para morar com alguns amigos (Jaques Castro, César Abu, Rui Johnny Mathis, Lourenço Vovô) numa república meio vagabunda, lá no bairro de Santo Antônio, quando um dia cheguei à casa dos velhos para uma visita tradicional.

Meu pai estava preocupado. Conradson havia ficado violento. Preso numa pitombeira do quintal, ele rosnava feito um condenado. Eu me aproximei para acariciá-lo. O sacana tentou me morder, com uns olhos opacos de quem não reconhecia mais porra nenhuma. Papai, armado de uma doze, papo-amarelo, foi de uma sinceridade cruel. “Cachorros vivem até os 10 anos. Esse teu já tem quase 15 e ficou doente. Vamos ter que sacrificá-lo.”

Não fiquei pra ouvir o tiro, no meio da boca, morte instantânea, provavelmente indolor. Conradson foi enterrado no pé da pitombeira. Nunca mais quis saber de criar animais. Melhor assim.

Um comentário:

Franklin Carioca disse...

Vira-lata de respeito... descobri agora de quem veio parte dessa herança... hehehehe... abraço!