1. A origem do carnaval é uma daquelas
discussões que conseguem atravessar séculos sem chegar a lugar nenhum –
exatamente como certas reuniões de condomínio e algumas CPIs. Até hoje, o
assunto provoca debates acalorados em mesas de botequim, normalmente entre o
terceiro copo de cerveja e a última porção de torresmo.
Há estudiosos
que juram, de pés juntos e copo na mão, que o carnaval nasceu por volta de
10.000 a.C., quando nossos ancestrais, ainda sem Instagram, televisão ou
campeonato de futebol, pintavam o corpo, cobriam o rosto e saíam dançando em
grupo para espantar os espíritos responsáveis pelas colheitas ruins. Era uma
espécie de bloco rural pré-histórico: sem trio elétrico, mas com bastante
barro, suor e fé de que a mandioca vingasse depois de plantada.
Outros afirmam
que o carnaval nasceu no Egito, na Grécia, em Roma ou em algum lugar onde havia
uma combinação explosiva de divindades, vinho e pessoas sem muito compromisso
com o dia seguinte. A verdade é que quase todas as civilizações antigas
inventaram alguma desculpa religiosa para fazer festa. Mudava o santo, o deus
ou o ídolo, mas a vontade de encher a cara permanecia rigorosamente a mesma.
Os egípcios
colocam a culpa em Ísis e no touro Ápis. Os gregos empurram a responsabilidade
para Dionísio, que era praticamente o secretário-geral da bebedeira. Os romanos
apontam para Saturno e Baco, este último o patrono oficial dos excessos
etílicos. Aparentemente, o carnaval é fruto de uma multidão de divindades que
tinham como principal atribuição funcional organizar festas e liberar o povo
para fazer o que normalmente seria proibido.
Os romanos,
aliás, levaram a coisa muito a sério. Nas Saturnais, colocavam grandes carros
em forma de navios para desfilar pelas ruas. Era o famoso carrum navalis,
ancestral remoto dos carros alegóricos modernos. As Saturnais também incluíam
procissões, fantasias e muita libertinagem. Em outras palavras, eram uma
espécie de desfile das escolas de samba misturado com aniversário de interior,
festa universitária e reunião de família onde aparece aquele tio que dança
lambada depois de quatro copos.
Vieram depois
as Lupercais e as Bacanais, celebrações tão animadas que, se acontecessem hoje,
renderiam pelo menos três operações policiais, dois documentários e uma CPI. Na
sequência, surgiu uma série de festas que, olhando de longe, parecem ter sido
criadas por alguém que decidiu juntar religião, bebida, dança, fantasia e
ausência de limites num único pacote promocional. Alguns autores garantem que o
carnaval já existia na Antiguidade Clássica e até antes dela. As evidências são
as mesmas de hoje: música alta, máscaras, comportamentos questionáveis e pessoas
tomando decisões que passariam o resto do ano tentando justificar.
Na Idade Média,
a Igreja Católica ficou numa situação delicada. Não exatamente aprovava o
carnaval, mas também não conseguia acabar com ele. Alguns religiosos condenavam
a festa como obra do demônio. Outros preferiam fingir que não estavam vendo.
Afinal, quando metade da cidade resolve sair fantasiada fazendo algazarra, é
mais fácil rezar do que tentar impedir. Era mais ou menos como um pai que
descobre que o filho foi para uma festa do cabide, fica indignado, mas acaba
perguntando depois se a música estava boa.
Nem todos os
religiosos eram tolerantes. Alguns condenavam a folia com veemência. Já o papa
Paulo II resolveu adotar uma postura mais pragmática: se não pode vencer o
carnaval, organize-o. No século 15, permitiu a realização do carnaval romano
diante de seu próprio palácio. O programa incluía corridas de cavalos, carros
alegóricos, batalhas de confete, iluminação com velas, lançamento de ovos e até
corridas de corcundas. Sim, corridas de corcundas. Porque aparentemente ninguém
naquela época acordava de manhã pensando: “Hoje vou criar uma atividade
esportiva razoável”. Em outras palavras, era uma mistura de desfile cívico,
olimpíada alternativa e programa dominical de auditório.
Com o passar do
tempo, algumas dessas modalidades foram desaparecendo – talvez porque alguém
finalmente percebeu que atirar ovos em desconhecidos não era exatamente um
avanço civilizatório. O carnaval foi ficando menos violento, embora tenha
desenvolvido uma curiosa vocação para o sombrio durante sua fase gótica. Na
Alta Idade Média, por exemplo, fizeram sucesso as famosas Danças Macabras.
Homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que ouvia suas lamentações e
depois os recebia com uma foice. Era um carnaval tão otimista quanto uma
segunda-feira chuvosa depois do feriado.
Já o
Renascimento tratou de devolver um pouco de glamour à brincadeira e mais
elegância para a bagunça. Os bailes de máscaras ganharam força, especialmente
na França e na Itália. Era o começo da longa tradição carnavalesca de fingir
ser outra pessoa por algumas horas. Uma prática que mais tarde seria
aperfeiçoada pelos políticos em período eleitoral. A ideia era simples:
esconder o rosto para revelar a personalidade. Ou, em muitos casos, esconder a
personalidade para não ser reconhecido no dia seguinte. No fundo, os nobres
descobriram um princípio universal: quando ninguém sabe quem você é, a chance
de fazer besteira aumenta consideravelmente.
Nos séculos
seguintes, os bailes mascarados se espalharam pela Europa. Em Londres, um
famoso baile promovido por artistas reuniu pessoas fantasiadas de grandes
mestres da pintura, reis, príncipes e outras celebridades da época. Foi talvez
o único carnaval da história em que alguém podia encontrar um monarca, um
pintor renascentista e um aquarelista bêbado conversando civilizadamente no
mesmo salão.
Assim, pouco a
pouco, o carnaval deixou de ser apenas uma explosão de excessos para adquirir
também uma dimensão artística. Virou desfile, espetáculo, teatro, música e
fantasia. Sobreviveu a impérios, guerras, pestes, revoluções, ditaduras, crises
econômicas e até a cantores desafinados puxando marchinhas. Mas, no fundo,
manteve intacta sua essência milenar: reunir pessoas dispostas a esquecer os
problemas da vida por alguns dias e criar outros completamente novos para
resolver depois da Quarta-Feira de Cinzas.

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