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segunda-feira, agosto 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 1

 


1. A origem do carnaval é uma daquelas discussões que conseguem atravessar séculos sem chegar a lugar nenhum – exatamente como certas reuniões de condomínio e algumas CPIs. Até hoje, o assunto provoca debates acalorados em mesas de botequim, normalmente entre o terceiro copo de cerveja e a última porção de torresmo.

Há estudiosos que juram, de pés juntos e copo na mão, que o carnaval nasceu por volta de 10.000 a.C., quando nossos ancestrais, ainda sem Instagram, televisão ou campeonato de futebol, pintavam o corpo, cobriam o rosto e saíam dançando em grupo para espantar os espíritos responsáveis pelas colheitas ruins. Era uma espécie de bloco rural pré-histórico: sem trio elétrico, mas com bastante barro, suor e fé de que a mandioca vingasse depois de plantada.

Outros afirmam que o carnaval nasceu no Egito, na Grécia, em Roma ou em algum lugar onde havia uma combinação explosiva de divindades, vinho e pessoas sem muito compromisso com o dia seguinte. A verdade é que quase todas as civilizações antigas inventaram alguma desculpa religiosa para fazer festa. Mudava o santo, o deus ou o ídolo, mas a vontade de encher a cara permanecia rigorosamente a mesma.

Os egípcios colocam a culpa em Ísis e no touro Ápis. Os gregos empurram a responsabilidade para Dionísio, que era praticamente o secretário-geral da bebedeira. Os romanos apontam para Saturno e Baco, este último o patrono oficial dos excessos etílicos. Aparentemente, o carnaval é fruto de uma multidão de divindades que tinham como principal atribuição funcional organizar festas e liberar o povo para fazer o que normalmente seria proibido.

Os romanos, aliás, levaram a coisa muito a sério. Nas Saturnais, colocavam grandes carros em forma de navios para desfilar pelas ruas. Era o famoso carrum navalis, ancestral remoto dos carros alegóricos modernos. As Saturnais também incluíam procissões, fantasias e muita libertinagem. Em outras palavras, eram uma espécie de desfile das escolas de samba misturado com aniversário de interior, festa universitária e reunião de família onde aparece aquele tio que dança lambada depois de quatro copos.

Vieram depois as Lupercais e as Bacanais, celebrações tão animadas que, se acontecessem hoje, renderiam pelo menos três operações policiais, dois documentários e uma CPI. Na sequência, surgiu uma série de festas que, olhando de longe, parecem ter sido criadas por alguém que decidiu juntar religião, bebida, dança, fantasia e ausência de limites num único pacote promocional. Alguns autores garantem que o carnaval já existia na Antiguidade Clássica e até antes dela. As evidências são as mesmas de hoje: música alta, máscaras, comportamentos questionáveis e pessoas tomando decisões que passariam o resto do ano tentando justificar.

Na Idade Média, a Igreja Católica ficou numa situação delicada. Não exatamente aprovava o carnaval, mas também não conseguia acabar com ele. Alguns religiosos condenavam a festa como obra do demônio. Outros preferiam fingir que não estavam vendo. Afinal, quando metade da cidade resolve sair fantasiada fazendo algazarra, é mais fácil rezar do que tentar impedir. Era mais ou menos como um pai que descobre que o filho foi para uma festa do cabide, fica indignado, mas acaba perguntando depois se a música estava boa.

Nem todos os religiosos eram tolerantes. Alguns condenavam a folia com veemência. Já o papa Paulo II resolveu adotar uma postura mais pragmática: se não pode vencer o carnaval, organize-o. No século 15, permitiu a realização do carnaval romano diante de seu próprio palácio. O programa incluía corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confete, iluminação com velas, lançamento de ovos e até corridas de corcundas. Sim, corridas de corcundas. Porque aparentemente ninguém naquela época acordava de manhã pensando: “Hoje vou criar uma atividade esportiva razoável”. Em outras palavras, era uma mistura de desfile cívico, olimpíada alternativa e programa dominical de auditório.

Com o passar do tempo, algumas dessas modalidades foram desaparecendo – talvez porque alguém finalmente percebeu que atirar ovos em desconhecidos não era exatamente um avanço civilizatório. O carnaval foi ficando menos violento, embora tenha desenvolvido uma curiosa vocação para o sombrio durante sua fase gótica. Na Alta Idade Média, por exemplo, fizeram sucesso as famosas Danças Macabras. Homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que ouvia suas lamentações e depois os recebia com uma foice. Era um carnaval tão otimista quanto uma segunda-feira chuvosa depois do feriado.

Já o Renascimento tratou de devolver um pouco de glamour à brincadeira e mais elegância para a bagunça. Os bailes de máscaras ganharam força, especialmente na França e na Itália. Era o começo da longa tradição carnavalesca de fingir ser outra pessoa por algumas horas. Uma prática que mais tarde seria aperfeiçoada pelos políticos em período eleitoral. A ideia era simples: esconder o rosto para revelar a personalidade. Ou, em muitos casos, esconder a personalidade para não ser reconhecido no dia seguinte. No fundo, os nobres descobriram um princípio universal: quando ninguém sabe quem você é, a chance de fazer besteira aumenta consideravelmente.

Nos séculos seguintes, os bailes mascarados se espalharam pela Europa. Em Londres, um famoso baile promovido por artistas reuniu pessoas fantasiadas de grandes mestres da pintura, reis, príncipes e outras celebridades da época. Foi talvez o único carnaval da história em que alguém podia encontrar um monarca, um pintor renascentista e um aquarelista bêbado conversando civilizadamente no mesmo salão.

Assim, pouco a pouco, o carnaval deixou de ser apenas uma explosão de excessos para adquirir também uma dimensão artística. Virou desfile, espetáculo, teatro, música e fantasia. Sobreviveu a impérios, guerras, pestes, revoluções, ditaduras, crises econômicas e até a cantores desafinados puxando marchinhas. Mas, no fundo, manteve intacta sua essência milenar: reunir pessoas dispostas a esquecer os problemas da vida por alguns dias e criar outros completamente novos para resolver depois da Quarta-Feira de Cinzas.

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