Tanto telecoteco quanto balacobaco são daqueles vocábulos
genuinamente brasileiros que parecem ter sido inventados depois da terceira
cerveja e antes do primeiro tira-gosto. São expressões onomatopeicas criadas
para reproduzir ritmos musicais e definir tudo aquilo que é animado, excelente,
arretado ou simplesmente bom demais para caber num adjetivo comum. Ambas
nasceram sob a tutela da boemia e cresceram soltas pelas ruas, botequins e
gafieiras do Rio de Janeiro.
“Balacobaco” apareceu no início do século passado para
designar uma festa de lascar, uma figura daquelas que chegam e já fazem metade
da alegria do ambiente ou qualquer coisa digna de arrancar um “rapaz, isso é do
balacobaco!”. A expressão ganhou passaporte para a eternidade quando Ary
Barroso a transformou em samba nos anos 1930.
Já “telecoteco” nasceu da criatividade dos antigos
batuqueiros de botequim, uma categoria profissional não reconhecida pelo
Ministério do Trabalho, mas fundamental para a cultura nacional. Era a palavra
usada para imitar a levada do samba, o repique dos tamborins e aquela batucada
que faz até sujeito sem coordenação motora arriscar dois passos. Décadas
depois, o termo ganhou projeção nacional pelas mãos de Oswaldo Sargentelli,
portelense, botafoguense e divulgador oficial da alegria em horário comercial.
Feitos os necessários esclarecimentos etimológicos – porque
até a malandragem merece rigor acadêmico de vez em quando –, posso afiançar que
este “Telecoteco do Balacobaco (Histórias de Samba, Carnaval e Futebol)” é uma
antologia de causos, anedotas, lembranças e exageros cuidadosamente
selecionados para reproduzir o ambiente das lendárias mesas de bar de
antigamente.
Daquelas em que meia dúzia de amigos se reunia para beber,
conversar fiado, resolver os problemas do mundo sem jamais ser consultada para
isso, contar histórias improváveis e cantar músicas com a absoluta convicção de
que estavam melhores que os artistas do rádio. Naquele tempo, ninguém saía da
mesa sabendo exatamente o que tinha acontecido, mas todos voltavam para casa
certos de que a noite havia sido memorável. Afinal, a conversa era gratuita, a
gargalhada era coletiva e a mentira bem contada ainda não pagava imposto.
Mas este e-book gratuito não surgiu por geração espontânea
nem por intervenção de algum santo padroeiro dos botequins. Sua existência
deve-se ao apoio do poeta, escritor, compositor e sambista Bosco Saraiva, um
dos fundadores do GRES Reino Unido da Liberdade e botafoguense da mesma estirpe
de Oswaldo Sargentelli – o que, convenhamos, já constitui um traço de
personalidade suficientemente peculiar. Por essa razão, antes de prosseguir
viagem, precisamos abrir um parêntese. E, como todo bom parêntese brasileiro,
ele talvez demore um pouco mais do que o previsto para terminar.
Sim, porque há pessoas que passam pela vida ocupando cargos. E há aquelas raras que ocupam um lugar permanente no coração de um povo. Bosco Saraiva pertence a essa segunda categoria. Ao longo de sua trajetória pública, foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Manaus, deputado estadual, deputado federal, vice-governador e superintendente da Suframa. Cargos importantes, sem dúvida. Funções que exigem liderança, coragem e compromisso. Mas quem conhece verdadeiramente Bosco Saraiva sabe que sua maior obra nunca coube em um gabinete, nem se resumiu a um mandato. Sua grande missão sempre foi defender a alma do povo.
Para quem não lembra, Bosco Saraiva foi o autor da Lei
Municipal nº 362/1996, que instituiu a meia-entrada estudantil em eventos
culturais, esportivos e de lazer em Manaus. Enquanto muitos enxergavam a
cultura popular apenas como festa, espetáculo ou entretenimento, Bosco Saraiva
via nela algo muito maior: a memória viva de uma gente, a identidade de
comunidades inteiras, a herança que liga os mais velhos aos mais jovens e
impede que um povo se esqueça de quem é. Por isso, em todos os lugares por onde
passou, carregou consigo uma bandeira que jamais abandonou: a valorização da
cultura popular.
Foi amigo das escolas de samba quando elas precisaram de
apoio. Foi parceiro dos grupos folclóricos quando lhes faltavam recursos e
reconhecimento. Foi defensor das cirandas, dos bois-bumbás, das quadrilhas
juninas e dos cordões de pássaros quando muitos ainda não compreendiam a
dimensão cultural e social desses movimentos.
Bosco Saraiva nunca viu apenas fantasias, alegorias,
tambores ou apresentações. Ele enxergava as pessoas. Enxergava os artesãos que
passavam noites inteiras criando beleza com as próprias mãos. Enxergava os
músicos, os costureiros, os brincantes, os mestres da cultura, os jovens que
encontravam na arte um caminho de dignidade e esperança.
Talvez por isso seja tão querido. Porque sua luta nunca foi apenas por eventos ou festivais. Foi pelas pessoas que dão vida a eles. Ao longo dos anos, milhares de artistas populares encontraram nele um aliado sincero. Alguém que não aparecia apenas nos dias de festa, mas que permanecia presente nas horas difíceis, quando era preciso defender recursos, garantir espaço, conquistar respeito e preservar tradições. Sua história demonstra que a política pode ser muito mais do que disputa de poder. Pode ser instrumento de proteção daquilo que um povo tem de mais precioso: sua cultura, sua memória e sua identidade.
Hoje, quando vemos uma escola de samba desfilar com orgulho,
um boi-bumbá emocionar multidões, uma quadrilha evoluir com propriedade, uma
ciranda reunir gerações ou um cordão de pássaros manter viva uma tradição
centenária, existe um pouco da dedicação de homens como Bosco Saraiva presente
em cada canto dessa celebração.
Seu legado não está apenas nos documentos oficiais ou nos
registros da vida pública. Está nos batuques que continuam ecoando, nos versos
que continuam sendo cantados, nas danças que continuam sendo transmitidas de
pais para filhos. Está, sobretudo, na gratidão de um povo. Porque os cargos
passam. Os mandatos terminam. As homenagens um dia se encerram. Mas o amor
dedicado à cultura permanece.
E permanecerá enquanto houver um tambor rufando na noite
amazônica, uma bandeira tremulando na avenida, um boi entrando na arena, uma
quadrilha ecoando sua sanfona, uma ciranda girando na praça ou um pássaro
encantado abrindo suas asas no imaginário popular.
Nesses momentos, mesmo sem ser anunciado, Bosco Saraiva
continuará presente. Como amigo, como defensor da cultura, como homem público
de rara sensibilidade. E, acima de tudo, como alguém que compreendeu que
preservar as tradições do povo é uma das mais nobres formas de amar sua terra e
sua gente.
Esse e-book gratuito que você tem nas mãos é mais uma
pequena contribuição do Bosco Saraiva para manter viva a nossa memória
cultural, na medida em que sua participação foi decisiva para a publicação da
obra. E é por isso, pelo dever da gratidão e da amizade, que tenho me irmanado
a ele há mais de 40 anos em todas as suas lutas em prol da cultura popular.
Noblesse oblige.
Nota da Redação: A ideia aqui será publicar diariamente cada
um dos 110 causos do e-book. Mas se alguém quiser logo ler o livro inteiro,
basta entrar no Portal Kandyru com KY (https://kandyru.com.br/)
e acessar a categoria Boemia que o e-book está pronto para download.
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