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sábado, agosto 01, 2026

Apresentação básica do Telecoteco do Balacobaco

 


Tanto telecoteco quanto balacobaco são daqueles vocábulos genuinamente brasileiros que parecem ter sido inventados depois da terceira cerveja e antes do primeiro tira-gosto. São expressões onomatopeicas criadas para reproduzir ritmos musicais e definir tudo aquilo que é animado, excelente, arretado ou simplesmente bom demais para caber num adjetivo comum. Ambas nasceram sob a tutela da boemia e cresceram soltas pelas ruas, botequins e gafieiras do Rio de Janeiro.

“Balacobaco” apareceu no início do século passado para designar uma festa de lascar, uma figura daquelas que chegam e já fazem metade da alegria do ambiente ou qualquer coisa digna de arrancar um “rapaz, isso é do balacobaco!”. A expressão ganhou passaporte para a eternidade quando Ary Barroso a transformou em samba nos anos 1930.

Já “telecoteco” nasceu da criatividade dos antigos batuqueiros de botequim, uma categoria profissional não reconhecida pelo Ministério do Trabalho, mas fundamental para a cultura nacional. Era a palavra usada para imitar a levada do samba, o repique dos tamborins e aquela batucada que faz até sujeito sem coordenação motora arriscar dois passos. Décadas depois, o termo ganhou projeção nacional pelas mãos de Oswaldo Sargentelli, portelense, botafoguense e divulgador oficial da alegria em horário comercial.

Feitos os necessários esclarecimentos etimológicos – porque até a malandragem merece rigor acadêmico de vez em quando –, posso afiançar que este “Telecoteco do Balacobaco (Histórias de Samba, Carnaval e Futebol)” é uma antologia de causos, anedotas, lembranças e exageros cuidadosamente selecionados para reproduzir o ambiente das lendárias mesas de bar de antigamente.

Daquelas em que meia dúzia de amigos se reunia para beber, conversar fiado, resolver os problemas do mundo sem jamais ser consultada para isso, contar histórias improváveis e cantar músicas com a absoluta convicção de que estavam melhores que os artistas do rádio. Naquele tempo, ninguém saía da mesa sabendo exatamente o que tinha acontecido, mas todos voltavam para casa certos de que a noite havia sido memorável. Afinal, a conversa era gratuita, a gargalhada era coletiva e a mentira bem contada ainda não pagava imposto.

Mas este e-book gratuito não surgiu por geração espontânea nem por intervenção de algum santo padroeiro dos botequins. Sua existência deve-se ao apoio do poeta, escritor, compositor e sambista Bosco Saraiva, um dos fundadores do GRES Reino Unido da Liberdade e botafoguense da mesma estirpe de Oswaldo Sargentelli – o que, convenhamos, já constitui um traço de personalidade suficientemente peculiar. Por essa razão, antes de prosseguir viagem, precisamos abrir um parêntese. E, como todo bom parêntese brasileiro, ele talvez demore um pouco mais do que o previsto para terminar.


Sim, porque há pessoas que passam pela vida ocupando cargos. E há aquelas raras que ocupam um lugar permanente no coração de um povo. Bosco Saraiva pertence a essa segunda categoria. Ao longo de sua trajetória pública, foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Manaus, deputado estadual, deputado federal, vice-governador e superintendente da Suframa. Cargos importantes, sem dúvida. Funções que exigem liderança, coragem e compromisso. Mas quem conhece verdadeiramente Bosco Saraiva sabe que sua maior obra nunca coube em um gabinete, nem se resumiu a um mandato. Sua grande missão sempre foi defender a alma do povo.

Para quem não lembra, Bosco Saraiva foi o autor da Lei Municipal nº 362/1996, que instituiu a meia-entrada estudantil em eventos culturais, esportivos e de lazer em Manaus. Enquanto muitos enxergavam a cultura popular apenas como festa, espetáculo ou entretenimento, Bosco Saraiva via nela algo muito maior: a memória viva de uma gente, a identidade de comunidades inteiras, a herança que liga os mais velhos aos mais jovens e impede que um povo se esqueça de quem é. Por isso, em todos os lugares por onde passou, carregou consigo uma bandeira que jamais abandonou: a valorização da cultura popular.

Foi amigo das escolas de samba quando elas precisaram de apoio. Foi parceiro dos grupos folclóricos quando lhes faltavam recursos e reconhecimento. Foi defensor das cirandas, dos bois-bumbás, das quadrilhas juninas e dos cordões de pássaros quando muitos ainda não compreendiam a dimensão cultural e social desses movimentos.

Bosco Saraiva nunca viu apenas fantasias, alegorias, tambores ou apresentações. Ele enxergava as pessoas. Enxergava os artesãos que passavam noites inteiras criando beleza com as próprias mãos. Enxergava os músicos, os costureiros, os brincantes, os mestres da cultura, os jovens que encontravam na arte um caminho de dignidade e esperança.


Talvez por isso seja tão querido. Porque sua luta nunca foi apenas por eventos ou festivais. Foi pelas pessoas que dão vida a eles. Ao longo dos anos, milhares de artistas populares encontraram nele um aliado sincero. Alguém que não aparecia apenas nos dias de festa, mas que permanecia presente nas horas difíceis, quando era preciso defender recursos, garantir espaço, conquistar respeito e preservar tradições. Sua história demonstra que a política pode ser muito mais do que disputa de poder. Pode ser instrumento de proteção daquilo que um povo tem de mais precioso: sua cultura, sua memória e sua identidade.

Hoje, quando vemos uma escola de samba desfilar com orgulho, um boi-bumbá emocionar multidões, uma quadrilha evoluir com propriedade, uma ciranda reunir gerações ou um cordão de pássaros manter viva uma tradição centenária, existe um pouco da dedicação de homens como Bosco Saraiva presente em cada canto dessa celebração.

Seu legado não está apenas nos documentos oficiais ou nos registros da vida pública. Está nos batuques que continuam ecoando, nos versos que continuam sendo cantados, nas danças que continuam sendo transmitidas de pais para filhos. Está, sobretudo, na gratidão de um povo. Porque os cargos passam. Os mandatos terminam. As homenagens um dia se encerram. Mas o amor dedicado à cultura permanece.

E permanecerá enquanto houver um tambor rufando na noite amazônica, uma bandeira tremulando na avenida, um boi entrando na arena, uma quadrilha ecoando sua sanfona, uma ciranda girando na praça ou um pássaro encantado abrindo suas asas no imaginário popular.

Nesses momentos, mesmo sem ser anunciado, Bosco Saraiva continuará presente. Como amigo, como defensor da cultura, como homem público de rara sensibilidade. E, acima de tudo, como alguém que compreendeu que preservar as tradições do povo é uma das mais nobres formas de amar sua terra e sua gente.

Esse e-book gratuito que você tem nas mãos é mais uma pequena contribuição do Bosco Saraiva para manter viva a nossa memória cultural, na medida em que sua participação foi decisiva para a publicação da obra. E é por isso, pelo dever da gratidão e da amizade, que tenho me irmanado a ele há mais de 40 anos em todas as suas lutas em prol da cultura popular. Noblesse oblige.

 

Nota da Redação: A ideia aqui será publicar diariamente cada um dos 110 causos do e-book. Mas se alguém quiser logo ler o livro inteiro, basta entrar no Portal Kandyru com KY (https://kandyru.com.br/) e acessar a categoria Boemia que o e-book está pronto para download.

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