Pesquisar este blog

sábado, agosto 01, 2026

Waldick Soriano, Um Ídolo em Manaus



Por José Rocha

Era um baiano que se tornou famoso na pauliceia desvairada, mas foi na Manaus de mil contrastes que encontrou um de seus públicos mais apaixonados.

Com seu estilo brega-romântico, Waldick Soriano cantou, encantou e conquistou uma legião de admiradores, tornando-se um verdadeiro ídolo dos manauaras.

Antes da fama, perambulava pelas ruas de São Paulo engraxando sapatos, sempre cantarolando. Boêmio inveterado e conquistador, acabou sendo descoberto por alguém que enxergou talento naquele engraxate.

Em 1960, gravou seu primeiro disco de vinil pela gravadora Chantecler, intitulado Quem És Tu. O lançamento passou praticamente despercebido em São Paulo. Sem sucesso, Waldick voltou à antiga rotina de engraxate.

Seis meses depois, porém, seu empresário apareceu com um paletó novinho e uma passagem aérea. A notícia era surpreendente: o disco havia estourado justamente nos cabarés de Manaus.

A partir daí nasceu uma história de amor entre o cantor e a capital amazonense. Waldick apaixonou-se pela cidade e, principalmente, pelas caboclas do pedaço. Diziam que era faixa-preta de karatê e um conquistador incorrigível.

As histórias sobre suas aventuras viraram lenda. Contavam que chegou a enfrentar o famoso lutador conhecido como Tigre da Amazônia, levando a melhor na briga e, para completar a fama de conquistador, ainda teria levado a namorada do adversário para São Paulo.

Vinha a Manaus até quatro vezes por ano. Gostava de cantar nos antigos cabarés e tornou-se uma figura querida no bairro de Educandos, onde frequentava lugares tradicionais, como a Peixaria São Francisco, o Bar São Domingos e o Cine Vitória.

Em 1963, já era um artista conhecido em todo o Brasil. Em apenas três anos de carreira havia gravado cerca de uma dúzia de discos.

Mesmo assim, jamais esqueceu a cidade que o acolheu com tanto carinho. Como prova desse afeto, gravou o LP Manaus, Meu Paraíso, cuja canção dizia em um de seus versos:

“Adeus, Manaus! Está chegando a hora da partida... Adeus, Manaus! Meu Deus, será por toda a minha vida!”

Quando Waldick não estava em Manaus, seus admiradores tratavam de manter viva a sua imagem. Os cantores Abílio Farias e Nunes Filho, considerados os “Waldicks do Amazonas”, apresentavam-se vestidos de preto, usando paletó, gravata, chapéu e óculos escuros, numa homenagem ao estilo inconfundível do ídolo.

Entre todos os seus fãs, talvez nenhum tenha sido mais dedicado do que o saudoso Jokka Loureiro, cantor, compositor e proprietário de uma peixaria em Manaus.

Jokka reuniu uma coleção impressionante de discos, fotografias e lembranças de Waldick Soriano. Os dois cultivaram uma amizade sincera. Gostavam de conversar, cantar, tomar uma boa cachaça e reviver a boemia que marcou uma época da cidade.

Eu mesmo guardo uma lembrança especial. A única vez em que vi Waldick Soriano foi no dia da final da Copa do Mundo de 1970. Eu ainda era um menino e comemorava a vitória do Brasil sobre a Itália na Avenida Eduardo Ribeiro. Foi então que avistei o cantor tomando uma birita em um bar ao lado do Teatro Amazonas. A cena ficou gravada para sempre na minha memória.

Durante cerca de quarenta anos, Waldick manteve uma relação de carinho com Manaus.

Esteve na cidade pela última vez em 2002. Em 2006, recebeu o diagnóstico de câncer de próstata e, dois anos depois, faleceu no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro.

Waldick Soriano partiu, mas deixou muito mais do que discos e canções. Deixou lembranças, histórias e um vínculo afetivo com Manaus que poucos artistas conseguiram construir.

Para os manauaras de sua geração, ele não foi apenas um cantor de sucesso.



Foi, acima de tudo, um ídolo que fez da cidade um dos capítulos mais marcantes de sua vida.

Nenhum comentário: