Pesquisar este blog

quarta-feira, setembro 02, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 50

 

Os foliões Marcus Pereira, Albino Pinheiro, Arthur Moreira Lima
 e Sérgio Cabral na Banda de Ipanema 

50. Há pessoas que nascem numa cidade. Albino Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Parece a mesma coisa, mas não é. Morrer no Rio é uma circunstância. Nascer carioca é uma profissão. Quando Albino morreu, em 24 de junho de 1999, aos 66 anos, depois de uma longa batalha contra um câncer na medula óssea, os jornais tentaram resumir sua vida. Disseram que era procurador do Estado, pesquisador do carnaval, produtor cultural, criador da Banda de Ipanema, secretário de Turismo, boêmio. Erraram todos. Albino era carioca. E isso já dava um expediente de vinte e quatro horas por dia.

A Banda de Ipanema, fundada em 1965, foi apenas sua obra mais fotografada. O verdadeiro trabalho de Albino era muito mais ambicioso: impedir que o Rio de Janeiro esquecesse quem era. Ele fazia isso como outros respiram. O Rio era sua religião, sua obsessão e, em muitos momentos, seu estado civil. Passou a vida inteira estudando a cidade como um arqueólogo estuda uma civilização perdida. A diferença é que, enquanto o arqueólogo escava ruínas, Albino escavava botequins.

Durante décadas foi capaz de explicar, com a mesma desenvoltura, a origem de um bloco de carnaval, o melhor chope da Lapa, a genealogia de uma porta-bandeira e o nome do garçom que servia a melhor batida de maracujá da Praça Tiradentes em 1958. O Google jamais teria essa coragem.

Seu único carnaval fora do Rio aconteceu em 1959. E contra a própria vontade. Uns amigos aproveitaram que Albino estava democraticamente embriagado, colocaram-no dentro de uma caminhonete e seguiram viagem. Quando acordou, estava em Ubá, Minas Gerais. Imagine acordar em Minas durante o carnaval sendo carioca. Era como um peixe descobrir que havia dormido num deserto. Qualquer outra pessoa passaria o resto da vida reclamando do sequestro. Albino voltou agradecendo.

Porque foi justamente a bandinha de Ubá que lhe deu a ideia, seis anos depois, de criar a Banda de Ipanema. Transformou um trauma etílico numa das maiores invenções do carnaval brasileiro. Era muito Albino. Mas seu maior feito nem foi esse.

Nos anos 60, existiam dois Rios que raramente conversavam. O Rio elegante dos apartamentos de Ipanema. E o Rio dos morros, dos subúrbios, das gafieiras e das escolas de samba. Albino resolveu apresentar um ao outro. Foi uma espécie de embaixador sem gravata.

Pegava intelectuais da Zona Sul e os levava para ouvir Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Jair do Cavaquinho e tantos outros quando eles ainda eram conhecidos apenas pelo carteiro, pelo dono do botequim e pelos vizinhos. Hoje chamariam isso de intercâmbio cultural. Albino chamava de sexta-feira.

Sua biografia ajudava. Nasceu na Saúde e cresceu em Laranjeiras. Estudava no Liceu Francês, frequentava o Fluminense, mas bastava ouvir um tamborim na esquina para esquecer qualquer vocação aristocrática. Enquanto os colegas sonhavam com Copacabana, Albino sonhava com gafieiras.

Aos catorze anos já explorava a Praça Tiradentes como um antropólogo especializado em samba. Frequentava bailes onde encontrava, entre outras figuras ilustres, as empregadas de sua própria casa. Subornava todas. Não para conseguir informações. Mas para que não contassem nada ao pai. Ali começou uma carreira brilhante na diplomacia.

Quando finalmente chegou a Ipanema, entrou pela porta da frente. As famosas domingueiras de Aníbal Machado reuniam escritores, pintores, cineastas, músicos e intelectuais. Albino encontrou por lá gente como Albert Camus. O escritor francês talvez tenha explicado o absurdo da existência. Albino provavelmente respondeu indicando uma boa feijoada em Vila Isabel. Terminadas as reuniões, todos iam para o Zeppelin. Anos depois, Albino já nem aparecia tanto nas tertúlias literárias. Mas continuava rigorosamente fiel ao botequim. Cada um prestigia o patrimônio cultural que considera mais importante.

Foi também ele quem tirou os bailes pré-carnavalescos dos salões elegantes e os levou para a Estudantina e outras gafieiras. Apresentou Nelson Cavaquinho a plateias que jamais tinham ouvido falar dele. Hoje isso parece inacreditável. É como descobrir que houve um tempo em que alguém precisou apresentar Pelé ao futebol. Quando Vinicius de Moraes dizia querer ser “o branco mais preto do Brasil”, José Ramos Tinhorão encerrava a discussão: Albino não precisava querer. Já era.

Os réveillons organizados por Albino, Jaguar e Ferdy Carneiro entraram para a história. Misturavam sambistas, compositores, passistas, jornalistas, artistas, boêmios e algumas das mulheres mais bonitas do Rio. Aliás, havia um mistério que jamais foi esclarecido. Ninguém sabia onde Albino encontrava tantas mulheres bonitas. Talvez existisse uma espécie de cadastro secreto. Ou talvez elas simplesmente soubessem onde estava a melhor festa.

Sempre que algum prefeito realmente gostava do Rio – acontecimento estatisticamente raro – lembrava de chamar Albino. Ele organizava carnaval em praças, ressuscitava banhos de mar à fantasia, revitalizava a Festa da Penha, criava o Projeto Seis e Meia, ajudava a preservar o Centro Histórico e ainda encontrava tempo para transformar qualquer esquina num ponto de encontro. Parecia possuir um calendário com trinta e sete meses.

Mas toda essa intensa produção cultural jamais atrapalhou sua principal atividade. Beber chope. Durante meio século foi um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio financeiro dos bares cariocas. Há quem diga que Albino conhecia todos os garçons do Rio. Os garçons juram que eram eles que conheciam Albino.

Na rua Almirante Saddock de Sá, onde morava, promovia festas na calçada como quem estende a sala de casa até a esquina. Cerveja. Mesas. Cadeiras. Sambistas. Vizinhos. Ninguém reclamava. Primeiro, porque era impossível ficar de mau humor numa festa organizada por Albino. Segundo, porque todos sabiam que ele possuía uma escritura afetiva daquele pedaço de Ipanema.

Sua maior frustração foi nunca ter escrito o grande livro sobre a história do Rio. Talvez nem precisasse. Albino preferiu viver o livro. Página por página. Chope por chope. Carnaval por carnaval. E deixou a impressão de que, enquanto existisse um botequim aberto, um bloco desafinado e uma roda de samba improvisada numa calçada qualquer, o Rio continuaria encontrando um jeito de parecer com Albino Pinheiro.

Nenhum comentário: