50. Há pessoas que nascem numa cidade.
Albino Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Parece a mesma coisa, mas não é.
Morrer no Rio é uma circunstância. Nascer carioca é uma profissão. Quando
Albino morreu, em 24 de junho de 1999, aos 66 anos, depois de uma longa batalha
contra um câncer na medula óssea, os jornais tentaram resumir sua vida.
Disseram que era procurador do Estado, pesquisador do carnaval, produtor
cultural, criador da Banda de Ipanema, secretário de Turismo, boêmio. Erraram
todos. Albino era carioca. E isso já dava um expediente de vinte e quatro horas
por dia.
A Banda de
Ipanema, fundada em 1965, foi apenas sua obra mais fotografada. O verdadeiro
trabalho de Albino era muito mais ambicioso: impedir que o Rio de Janeiro
esquecesse quem era. Ele fazia isso como outros respiram. O Rio era sua
religião, sua obsessão e, em muitos momentos, seu estado civil. Passou a vida
inteira estudando a cidade como um arqueólogo estuda uma civilização perdida. A
diferença é que, enquanto o arqueólogo escava ruínas, Albino escavava
botequins.
Durante décadas
foi capaz de explicar, com a mesma desenvoltura, a origem de um bloco de
carnaval, o melhor chope da Lapa, a genealogia de uma porta-bandeira e o nome
do garçom que servia a melhor batida de maracujá da Praça Tiradentes em 1958. O
Google jamais teria essa coragem.
Seu único
carnaval fora do Rio aconteceu em 1959. E contra a própria vontade. Uns amigos
aproveitaram que Albino estava democraticamente embriagado, colocaram-no dentro
de uma caminhonete e seguiram viagem. Quando acordou, estava em Ubá, Minas
Gerais. Imagine acordar em Minas durante o carnaval sendo carioca. Era como um
peixe descobrir que havia dormido num deserto. Qualquer outra pessoa passaria o
resto da vida reclamando do sequestro. Albino voltou agradecendo.
Porque foi
justamente a bandinha de Ubá que lhe deu a ideia, seis anos depois, de criar a
Banda de Ipanema. Transformou um trauma etílico numa das maiores invenções do
carnaval brasileiro. Era muito Albino. Mas seu maior feito nem foi esse.
Nos anos 60,
existiam dois Rios que raramente conversavam. O Rio elegante dos apartamentos
de Ipanema. E o Rio dos morros, dos subúrbios, das gafieiras e das escolas de
samba. Albino resolveu apresentar um ao outro. Foi uma espécie de embaixador
sem gravata.
Pegava
intelectuais da Zona Sul e os levava para ouvir Nelson Cavaquinho, Zé Kéti,
Jair do Cavaquinho e tantos outros quando eles ainda eram conhecidos apenas
pelo carteiro, pelo dono do botequim e pelos vizinhos. Hoje chamariam isso de
intercâmbio cultural. Albino chamava de sexta-feira.
Sua biografia
ajudava. Nasceu na Saúde e cresceu em Laranjeiras. Estudava no Liceu Francês,
frequentava o Fluminense, mas bastava ouvir um tamborim na esquina para
esquecer qualquer vocação aristocrática. Enquanto os colegas sonhavam com
Copacabana, Albino sonhava com gafieiras.
Aos catorze
anos já explorava a Praça Tiradentes como um antropólogo especializado em
samba. Frequentava bailes onde encontrava, entre outras figuras ilustres, as
empregadas de sua própria casa. Subornava todas. Não para conseguir
informações. Mas para que não contassem nada ao pai. Ali começou uma carreira
brilhante na diplomacia.
Quando
finalmente chegou a Ipanema, entrou pela porta da frente. As famosas
domingueiras de Aníbal Machado reuniam escritores, pintores, cineastas, músicos
e intelectuais. Albino encontrou por lá gente como Albert Camus. O escritor
francês talvez tenha explicado o absurdo da existência. Albino provavelmente
respondeu indicando uma boa feijoada em Vila Isabel. Terminadas as reuniões,
todos iam para o Zeppelin. Anos depois, Albino já nem aparecia tanto nas
tertúlias literárias. Mas continuava rigorosamente fiel ao botequim. Cada um
prestigia o patrimônio cultural que considera mais importante.
Foi também ele
quem tirou os bailes pré-carnavalescos dos salões elegantes e os levou para a
Estudantina e outras gafieiras. Apresentou Nelson Cavaquinho a plateias que
jamais tinham ouvido falar dele. Hoje isso parece inacreditável. É como
descobrir que houve um tempo em que alguém precisou apresentar Pelé ao futebol.
Quando Vinicius de Moraes dizia querer ser “o branco mais preto do Brasil”,
José Ramos Tinhorão encerrava a discussão: Albino não precisava querer. Já era.
Os réveillons
organizados por Albino, Jaguar e Ferdy Carneiro entraram para a história.
Misturavam sambistas, compositores, passistas, jornalistas, artistas, boêmios e
algumas das mulheres mais bonitas do Rio. Aliás, havia um mistério que jamais
foi esclarecido. Ninguém sabia onde Albino encontrava tantas mulheres bonitas.
Talvez existisse uma espécie de cadastro secreto. Ou talvez elas simplesmente
soubessem onde estava a melhor festa.
Sempre que
algum prefeito realmente gostava do Rio – acontecimento estatisticamente raro –
lembrava de chamar Albino. Ele organizava carnaval em praças, ressuscitava
banhos de mar à fantasia, revitalizava a Festa da Penha, criava o Projeto Seis
e Meia, ajudava a preservar o Centro Histórico e ainda encontrava tempo para
transformar qualquer esquina num ponto de encontro. Parecia possuir um
calendário com trinta e sete meses.
Mas toda essa
intensa produção cultural jamais atrapalhou sua principal atividade. Beber
chope. Durante meio século foi um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio
financeiro dos bares cariocas. Há quem diga que Albino conhecia todos os
garçons do Rio. Os garçons juram que eram eles que conheciam Albino.
Na rua
Almirante Saddock de Sá, onde morava, promovia festas na calçada como quem
estende a sala de casa até a esquina. Cerveja. Mesas. Cadeiras. Sambistas.
Vizinhos. Ninguém reclamava. Primeiro, porque era impossível ficar de mau humor
numa festa organizada por Albino. Segundo, porque todos sabiam que ele possuía
uma escritura afetiva daquele pedaço de Ipanema.
Sua maior
frustração foi nunca ter escrito o grande livro sobre a história do Rio. Talvez
nem precisasse. Albino preferiu viver o livro. Página por página. Chope por
chope. Carnaval por carnaval. E deixou a impressão de que, enquanto existisse
um botequim aberto, um bloco desafinado e uma roda de samba improvisada numa
calçada qualquer, o Rio continuaria encontrando um jeito de parecer com Albino
Pinheiro.

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