O ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves estava internado há
algumas semanas no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, quando uma
pneumonia provocou a falência múltipla dos órgãos e o levou a óbito, aos 83
anos, no dia 2 de dezembro de 2014.
Remanescente de uma geração de políticos que incluía
Gilberto Mestrinho, José Raimundo Parente, José Lindoso, Plínio Coelho, Socorro
Dutra Lindoso, Arlindo Porto, José Cardoso Dutra e José Furtado Belém, Gláucio
Gonçalves iniciou sua vida pública em 1956, quando foi eleito vereador pelo
PSD.
Foi duas vezes prefeito de Parintins e eleito quatro vezes
deputado estadual. Atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE)
de 1995 a 2000, por onde se aposentou. Em 2012, ele lançou o livro “Parintins
nas minhas lembranças”. É dele o relato abaixo sobre o folclore da ilha:
Meu pai nos levava, eu e meus irmãos, para assistir os
ensaios do Caprichoso no terreiro da casa do Antônio Bobozinho, hoje Travessa
João Meirelles, com direito às bombinhas fabricadas pelo Xavier Fogueteiro. Em
outros locais havia festas típicas, com muitas fogueiras, fogos e balões,
danças de boi e de quadrilhas e muitas guloseimas: mungunzá, tapioca, banana
assada, pé de moleque, bolo de macaxeira, sucos e refrescos de abacaxi, aluá,
gengibirra etc.
Era a oportunidade para os encontros amorosos da juventude
daquela época. Afinal de contas, naqueles tempos, a nossa cidade contava com
poucos eventos festivos, razão porque se valorizava muito mais os poucos que
existiam, sendo o mês de junho uma época das mais animadas.
Mais tarde o curral do Caprichoso passou para o terreno
pertencente ao saudoso Luiz Gonzaga, na Travessa Rio Branco, nosso trajeto
preferido, o que vale dizer, território do “azul e branco”, enquanto que o
curral do Garantido era na tradicional “Baixa de São José”, no lado oposto da
cidade.
Por essa razão, por ser bem próximo da minha casa, eu
frequentava muito mais o curral do “diamante negro”, inclusive por ser local
onde reuníamos com os amigos e amigas do bairro para aquelas festinhas
inesquecíveis ao lado do curral do boi, sob a proteção de Zé Nossa Filho, velho
guardião do boi Caprichoso, que vinha a cavalo lá do Paraná do Limão, sua
antiga fazenda de gado, para não perder os ensaios de seu boi do coração.
Não posso deixar de mencionar que, nessa época, época do
jaraqui, pontificava o cheiro inconfundível desse saboroso peixe assado,
presença infalível no nosso cardápio, principalmente nos meses de maio a junho.
Parece até que, naquele tempo, até o jaraqui assado era mais gostoso,
principalmente quando temperado com pimenta, sal e limão, e vontade de
saboreá-lo.
Lembro-me do fanatismo que já existia naquele tempo, em
relação aos dois famosos bumbás. Os moradores do lado de baixo (lado leste)
eram invariavelmente torcedores do Caprichoso, enquanto os do lado de cima
(oeste) eram marcadamente Garantido.
Antes os bois se apresentavam em frente às residências,
quando eram solicitados, e geralmente preparava-se uma fogueira para que os
bois pudessem se apresentar em volta daquele clarão.
Os donos da casa tinham o direito de se posicionarem nos
lugares mais privilegiados, para que as famílias, sempre com crianças, pudessem
assistir melhor ao espetáculo. Só que antes a participação do povo era mais
direta, isto é, a chamada elite não passava de mera espectadora, sem fazer
parte diretamente da apresentação do boi bumbá.
Pode-se dizer que os brincantes eram todos de famílias humildes: pescadores, estivadores, operários, gente pobre da periferia, muito diferente dos dias atuais, quando sabemos da luta travada por muitos grã-finos ou grã-finas para conseguir uma vaga na “marujada de guerra” ou na “batucada vermelha e branca”. Enquanto as “cunhãs-porangas”, as “sinhazinhas”, as “rainhas do folclore”, as “porta-estandartes”, além de bonitas, geralmente eram filhas de pessoas distintas da sociedade.
Eu considero uma grande inverdade a história que não sei
quem meteu no ouvido da mídia – gente que não conhecia nada dos bumbás de
Parintins – que o Garantido é o boi do povão e o Caprichoso é o boi da elite.
Posso garantir que isso está longe da verdade. Os dois bumbás são constituídos
de grandes massas populares que dividem a cidade ao meio, inclusive as elites,
se é que assim se pode chamar.
Naqueles anos de outrora me lembro de duas bravas mulheres
que brincavam de boi. Não só brincavam como contribuíam com trabalho, arte e
muita dedicação ao boi querido de Luiz Gonzaga: a Camé Rocha (“Camé do Bom
Rapaz”, como era conhecida) e a Eurica Cid, todas duas figuras imortais do boi
Caprichoso.
A primeira – a Camé – desempenhava a figura de madrinha do
Touro Negro, com direito a um lugar especial na roda de brincantes, além de ser
artista e estilista ao mesmo tempo, pois tanto cuidava da confecção da
tradicional figura de “Dona Aurora”, quanto fazia também a indumentária da
mesma, enquanto a segunda – a Eurica – tinha lugar efetivo como dançarina
invisível dessa referida figura engraçada, isto é, fazia a “Dona Aurora” dançar
para as multidões. Daí eu dizer que essas duas mulheres heroicas, pelo muito
que contribuíram espontaneamente ao boi de Zé Nossa Filho, merecem um registro
especial.
Hoje sabemos da grande disputa por um lugar de destaque em
qualquer dos bumbás. Dizem até que as gatinhas, pela importância do papel que
representam no boi, quase sempre conseguem bons casamentos, ou pelo menos
namorados de alto nível. Mas ao tempo de Camé e Eurica não conheci outras
mulheres participando diretamente das brincadeiras de boi. Elas duas, pelo que
me lembro, foram as primeiras a entrar na roda do boi, cantando toadas e
dançando o dois pra lá, dois pra cá.
Como o assunto ainda é boi-bumbá, vou aproveitar uma achega de meu pai, que gostava muito das festas juninas, principalmente de brincadeira de boi. Ele dizia que, naqueles tempos idos, nos encontros ocasionais de Caprichoso e Garantido pelas ruas da cidade, dava gosto assistir o espetáculo e ouvir os desafios em forma de versos.
De um lado o Feliz Cid e de outro o Lindolfo Monteverde,
cada qual com maior talento, faziam o público delirar em noites memoráveis de
Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Noites iluminadas não só pelo
crepitar das fogueiras, mas também pelos versos desafiadores, sempre bem
rimados, daqueles consagrados poetas-repentistas do folclore parintinense.
Se bem consigo fazer uma ilação, chego a dizer que há uma
evidência bem-acentuada em torno dos dois poetas-repentistas que acabei de
citar – Cid e Monteverde – o primeiro, o Feliz, era filho de cearense e o
Lindolfo, pelo que tudo faz crer, era filho de maranhense, ambos,
evidentemente, descendentes de nordestinos, o que vale dizer que todos dois
carregavam nas veias o sangue forte do poeta repentista, o verso de desafio,
animado e divertido, que alegrava as nossas noites e começava a criar na alma
do povo essa grande paixão pelos dois festejados rivais, numa brincadeira
bonita e sadia, cada um defendendo suas cores, sob o ritmo cadenciado das mais
belas e inesquecíveis toadas.
Com relação ao boi Caprichoso eu devo contar um fato que me
parece muito esclarecedor, em razão de certas dúvidas ainda existentes, no que
concerne aos legítimos fundadores do famoso bumbá de Luiz Gonzaga. Senão,
vejamos.
Há muitos anos, lembro-me ainda, alguns cearenses aqui
residentes apresentavam o “cordão dos marujos”, apresentação folclórica trazida
do sertão nordestino, em homenagem a São Benedito, evidentemente com fundamento
religioso, tendo a participação de uma única mulher, a rainha do Congo, que
conduzia a imagem da mãe de Jesus.
Esses “marujos”, quando se apresentavam, usavam roupas com
as mesmas características das que são usadas pelos marinheiros, isto é,
semelhantes também àquelas usadas antigamente pela “marujada de guerra” do boi
Caprichoso. E, o mais curioso, sabem quem era o principal responsável pelo
“cordão dos marujos”? Não era outro, era apenas o senhor Roque Cid, pai do amo
do Caprichoso – Feliz Cid – o que vem a ser um forte argumento para se
reconhecer na família Cid os verdadeiros fundadores do boi da “marujada de guerra”.
Mais tarde outro Cid veio a ser amo do Caprichoso –
refiro-me ao Nascimento Cid, irmão de Feliz. Se há outros, eu não sei, mas uma
coisa é certa, as evidências indicam os Cid como fundadores do Caprichoso,
sendo seu primeiro amo o Feliz Cid, o qual deve ter seu nome colocado em
relevo, nos anais do seu boi, assim como Lindolfo Monteverde é estrela de
primeira grandeza na história e na vida do Touro Branco.
Para concluir esses registros em torno da festa dos bumbás de Parintins, devo dizer que durante o tempo em que exerci mandatos eletivos, sempre procurei me manter acima da condição de torcedor deste ou daquele boi. Aliás, esse comportamento foi adotado também pela Walkíria, minha mulher, porque quando assumi o segundo mandato de prefeito, havia um clima de profunda desconfiança, do lado do Caprichoso, com relação à prefeitura, em razão do que havia ocorrido no ano anterior.
Os torcedores do boi azul e branco acusavam o ex-prefeito,
meu antecessor do segundo mandato de prefeito, de haver comprometido o
resultado do julgamento. O caso se tornou tão grave que chegou ao ponto de um
grupo de simpatizantes do Caprichoso tentar invadir a residência daquele
ex-chefe comunal, o que não aconteceu por interferência policial.
A verdade é que o nosso festival folclórico experimentou até
o estádio Tupy Cantanhede, como área de apresentação, mas o resultado foi
absolutamente negativo porque causou alguns prejuízos ao futebol local:
paralisação do campeonato, estrago no gramado, perfuração da área etc. Não
posso deixar de registrar que nos dois mandatos de prefeito, nosso apoio foi
total e efetivo ao Festival Folclórico de Parintins.
Para ser sincero, perdoem-me a falta de modéstia, mas o
Festival Folclórico de Parintins ganhou dimensão maior a partir de 1983, no
nosso segundo mandato de prefeito. Desde a primeira investidura no executivo
municipal, sem nenhuma dúvida, não só ajudamos em termos logísticos e
financeiros, como fomos incansáveis em oferecer todo tipo de estímulo e
incentivo para que essa festa se tornasse cada vez mais empolgante e
organizada, até chegar ao ponto em que chegou.
Primeiramente conseguimos levar o festival para a praça
pública, exatamente no local onde está hoje o bumbódromo, uma vez que antes era
apresentado nas quadras de esporte, de modo muito acanhado, tendo em conta o
espaço reduzido para um festival que crescia a cada ano.
Muitos ainda se lembram que, como prefeito, começamos
fazendo o bumbódromo todo em madeira de lei: arquibancadas, cadeiras numeradas,
tablado e até camarotes com dois pisos, para autoridades e visitantes ilustres.
O crescimento desse festival, como todos sabem, foi também
em função do poder de imaginação do povo parintinense, cuja vocação artística
vem se manifestando aos borbotões, numa proporção extraordinária a se refletir
positivamente na formação cultural de nossa gente.
Foi em 1987, naquele bumbódromo ainda de madeira, no camarote oficial, o governador Amazonino Mendes, sentado ao meu lado, sob a vibração das galeras, batendo no meu ombro, disse o seguinte (palavras que eu não esqueço): “Gláucio, eu quero te ajudar a fazer um gol de placa na tua administração. Vê qual a obra de grande vulto que possa agradar mais o povo de Parintins!”
Na mesma hora, sem deixar o compromisso esfriar, falei
assim: “Governador, se o senhor me dá oportunidade de escolher essa grande obra
que deseja construir em Parintins, peço-lhe que faça esse bumbódromo em
concreto!”
O governador me olhou e perguntou novamente: “É isso
mesmo?...” Respondi afirmativamente que sim. “Então, Gláucio, você pode
anunciar à imprensa e ao povo de Parintins que vamos construir o bumbódromo
definitivo e a inauguração será no festival do próximo ano de 1988!”
Foi assim que nasceu esse colossal bumbódromo, graças à
grande visão do governador Amazonino Mendes, que deu a Parintins esse prêmio
valioso, como maior incentivo ao nosso tradicional festival folclórico.
Depois disso é evidente que o Festival Folclórico se
agigantou ganhando a dimensão dos dias atuais, e essa grandiosa obra começou a
ser naturalmente divulgada pelo Brasil e pelo mundo, com destaque para a
vocação artística e cultural deste povo.
É verdade que esse projeto governamental, pela sua
relevância política e social, muito me envaideceu por ter tido o privilégio de
ver essa obra imponente edificada na minha administração, que acabou de ser
coroada de extraordinário êxito, tendo em vista o “gol de placa” que ficou na
história. Desse modo ficou o governador com sua vontade política plenamente
concretizada, e eu com meu sonho transformado em realidade.
O compromisso foi tão sério e inarredável que dentro do
prazo previsto o novo bumbódromo foi festivamente inaugurado, sob o ritmo
contagiante das toadas, exatamente no dia 28 de junho de 1988, cuja solenidade
presidida evidentemente pelo governador Amazonino Mendes contou naturalmente
com a presença de convidados ilustres, além da multidão que não se cansava de
aplaudir o grande artífice dessa obra monumental. Parintins, com certeza, muito
deve ao insigne governador Amazonino Mendes. Entre tantas obras importantes que
aqui realizou, o bumbódromo pontifica entre as maiores.
Quando concluí meu último mandato de prefeito, quando se
acabaram as desconfianças, isto é, depois que demonstramos total isenção e
seriedade no trato com as agremiações folclóricas, a Walkíria voltou a torcer
pelo Garantido, seu boi de preferência, e eu pelo Caprichoso, dos meus tempos
de juventude, muito embora reconheça que no Garantido sempre tive excelentes
amigos, a começar pelo saudoso Lindolfo Monteverde e sua família, com os quais
eu sempre mantive o melhor relacionamento.
Os meus filhos também são divididos entre Caprichoso e
Garantido, por isso torcem cada qual pelo seu boi de preferência, com total
liberdade e o melhor espírito democrático, o que, graças a Deus, tem nos
permitido a melhor harmonia familiar. Os vitoriosos respeitam os que perderam e
tudo acaba em paz, felizmente.
Essa questão de preferência de boi-bumbá, nas famílias, aqui
em Parintins, é um fato interessante e muito comum. Aliás, foi isso que deu
motivo ao sempre inspirado compositor Chico da Silva a compor uma bela toada
denominada “Meu boi faz pirraça”.
Eis a toada, que eu considero uma das obras-primas desse
talentoso compositor parintinense: “Meu amor faz pirraça / da minha cachaça / e
do meu boi-bumbá. / Meu amor é contrário / e no mês de junho / se manda pra lá.
/ Eu confesso que sinto / uma grande tristeza / na separação. / Só meu boi
Caprichoso / derrama alegria / no meu coração. / Além do mais / meu amor vai
voltar / e depois do folclore / talvez não demore / pra gente casar. / Meu
grande amor / vai me perdoar / hoje o boi Caprichoso / bonito e formoso / tomou
seu lugar. / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá / É boi, é
boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá”.
Mas, ao falar nas coisas boas dos nossos bumbás, não posso
deixar de registrar uma comovente surpresa que o boi Garantido me fez. Isso
aconteceu no último ano do meu primeiro mandato de prefeito, em 1972.
O Lindolfo levou o Touro Branco para se apresentar em frente
à minha casa, na Rua Furtado Belém. Sem que ninguém imaginasse, o velho
Lindolfo, fundador e amo imortal do boi Garantido, em forma de homenagem,
“levantou” a seguinte toada, denominada “Despedida”.
Aqui está a toada que emocionou a mim e minha família, e
continua emocionando todas as vezes que a recordamos: “Último ano de governo /
nosso prefeito vai embora / Ele trabalhou pelo progresso / desta terra / já
deixou seu nome / gravado na História / Ele trabalhou pela cidade / Ele
trabalhou pelo interior / grande trabalho / Prefeito Gláucio deixou”.
O que até hoje me comove é a forma espontânea e sincera
dessa homenagem, o que me causou uma grata surpresa, além de tocar
profundamente na minha vaidade de prefeito, que tudo fez pensando no melhor
para este município. À nação vermelha e branca eu confesso minha gratidão,
minhas saudades e minhas recordações imorredouras.
Falo agora do primeiro ano do meu segundo mandato de prefeito. O Edu Costa como vice-prefeito foi nomeado por mim para presidir a comissão encarregada do festival folclórico desse ano de 1983. Tive de viajar a Manaus para tratar assuntos do município.
No meu retorno encontro a confusão formada. O Caprichoso,
pelo seu presidente Geraldo Medeiros, não quis aceitar o Edu na presidência
dessa comissão. Alegava-se que o vice-prefeito era ou continuava simpático ao
Garantido.
Acontece que eu e Edu havíamos acabado de sair de uma
eleição vitoriosa. Não tinha como deixar de prestigiar o companheiro que se
mostrava tão entusiasmado em presidir a comissão. Não tive como atender o apelo
que me foi enviado. Paciência! Se ele, o Edu, não encontrou uma saída honrosa,
muito menos eu, seu companheiro de campanha.
Hoje, com mais experiência, certamente teria adotado um
“modus vivendi” e tudo teria sido resolvido sem desdobramentos. Mas o certo que
o Caprichoso, nesse ano, não participou do festival oficial, o que foi, para
muitos, profundamente lamentável.
E daí o que fazer?... Não podíamos realizar o festival só
com o Garantido, apesar de seu grande valor e prestígio junto à comunidade,
mas, na verdade, essa disputa é tradicional e sem um dos dois rivais o festival
esfria.
E para amenizar o prejuízo com a ausência do Touro Negro, eu
e minha equipe reunimos e tomamos a decisão de procurar imediatamente os
responsáveis pelo boi Campineiro, que havia se apresentado no ano anterior.
Como era de se esperar, esse pessoal se encontrava totalmente desmotivado,
pelas dificuldades naturais, visto que não é fácil se organizar um boi para
disputar com o Garantido, num tempo relativamente curto. Mas a nossa vontade
foi tão forte que conseguimos superar aquele problema sem tanta dificuldade.
Conversamos com um dos donos do Campineiro, meu compadre
Camoca, o qual se prontificou em nos ajudar na reorganização daquele bumbá. Foi
feita a eleição para a presidência do boi. O eleito foi o Carlos Lima, à época
funcionário da Fundação Sesp, que assumiu em seguida o comando do Boi do
Palmares.
Com isso começou a crescer o entusiasmo pelo Campineiro, que
iniciou seus ensaios com muita animação, e assim os demais preparativos, ao
ponto de se apresentar à altura daquela disputa, durante as noites programadas
no calendário do festival.
É justo e necessário que se registre a importância do boi
Campineiro no Festival Folclórico de 1983, nesta cidade de Parintins. Valeu o
grande esforço e sacrifício do meu amigo Carlos Lima, do meu compadre Camoca,
de dona Dilce Cansanção e de tantos outros folcloristas e artistas do boi
esmeraldino, que muito contribuíram para que aquele festival fosse realizado
com sucesso.
O engraçado de tudo isso é que mandei contratar o cantor parintinense Chico da Silva, que nesse tempo morava no Rio de Janeiro, para vir alegrar ainda mais as nossas festas folclóricas. Não digo nada, o Chico chegou, me procurou na prefeitura e tudo ficou certo para que ele fosse a grande vedete da primeira noite.
Qual minha surpresa, chegou a hora da apresentação do Chico
e cadê você? Ninguém sabia dar notícia do cantor. Mais tarde, entretanto,
fomos saber que o Chico da Silva, fantasiado de tuxaua, estava infiltrado numa
tribo do Caprichoso, no Parque das Castanholeiras, onde o “diamante negro”
fazia sua apresentação. Já imaginaram?...
Exatamente, nesse ano, o consagrado boi de Feliz Cid, por
alguma incompreensão, não quis participar do festival oficial.
No dia seguinte me aparece o Chico, com cara de ressaca,
para me pedir desculpas: “Mano velho, você vai me desculpar, mas eu não resisti
à vontade de sair no meu boi de coração. Há vários anos que eu não via o
bailado do meu boi”.
O que eu podia fazer diante do desabafo de um conterrâneo
saudoso de sua terra e de seu boi? Tive de desculpar o Chico. E só não fiquei
mais aborrecido porque o boi Campineiro, nessa noite, se apresentou impecável,
razão dos muitos aplausos da multidão que se fez presente naquela praça de
apresentação folclórica.
Para ser bem justo, já que falo no Campineiro, tenho por
dever de justiça e gratidão dizer que o pessoal do Garantido, quando soube da
decisão do Caprichoso de não participar da disputa, para me tranquilizar, foi
ao meu encontro dizendo que tudo seria feito para a beleza da festa não ser
sacrificada.
E foi exatamente o que aconteceu. A festa foi linda, o
Garantido foi belo, o Campineiro foi surpreendente, mas sabe-se, por
experiência própria, ser muito difícil a ausência de um dos bois de nossa
tradição folclórica. Que isso nunca mais aconteça!




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