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quarta-feira, outubro 21, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Gláucio Gonçalves

 


O ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves estava internado há algumas semanas no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, quando uma pneumonia provocou a falência múltipla dos órgãos e o levou a óbito, aos 83 anos, no dia 2 de dezembro de 2014.

Remanescente de uma geração de políticos que incluía Gilberto Mestrinho, José Raimundo Parente, José Lindoso, Plínio Coelho, Socorro Dutra Lindoso, Arlindo Porto, José Cardoso Dutra e José Furtado Belém, Gláucio Gonçalves iniciou sua vida pública em 1956, quando foi eleito vereador pelo PSD.

Foi duas vezes prefeito de Parintins e eleito quatro vezes deputado estadual. Atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de 1995 a 2000, por onde se aposentou. Em 2012, ele lançou o livro “Parintins nas minhas lembranças”. É dele o relato abaixo sobre o folclore da ilha:

Meu pai nos levava, eu e meus irmãos, para assistir os ensaios do Caprichoso no terreiro da casa do Antônio Bobozinho, hoje Travessa João Meirelles, com direito às bombinhas fabricadas pelo Xavier Fogueteiro. Em outros locais havia festas típicas, com muitas fogueiras, fogos e balões, danças de boi e de quadrilhas e muitas guloseimas: mungunzá, tapioca, banana assada, pé de moleque, bolo de macaxeira, sucos e refrescos de abacaxi, aluá, gengibirra etc.

Era a oportunidade para os encontros amorosos da juventude daquela época. Afinal de contas, naqueles tempos, a nossa cidade contava com poucos eventos festivos, razão porque se valorizava muito mais os poucos que existiam, sendo o mês de junho uma época das mais animadas.

Mais tarde o curral do Caprichoso passou para o terreno pertencente ao saudoso Luiz Gonzaga, na Travessa Rio Branco, nosso trajeto preferido, o que vale dizer, território do “azul e branco”, enquanto que o curral do Garantido era na tradicional “Baixa de São José”, no lado oposto da cidade.

Por essa razão, por ser bem próximo da minha casa, eu frequentava muito mais o curral do “diamante negro”, inclusive por ser local onde reuníamos com os amigos e amigas do bairro para aquelas festinhas inesquecíveis ao lado do curral do boi, sob a proteção de Zé Nossa Filho, velho guardião do boi Caprichoso, que vinha a cavalo lá do Paraná do Limão, sua antiga fazenda de gado, para não perder os ensaios de seu boi do coração.

Não posso deixar de mencionar que, nessa época, época do jaraqui, pontificava o cheiro inconfundível desse saboroso peixe assado, presença infalível no nosso cardápio, principalmente nos meses de maio a junho. Parece até que, naquele tempo, até o jaraqui assado era mais gostoso, principalmente quando temperado com pimenta, sal e limão, e vontade de saboreá-lo.

Lembro-me do fanatismo que já existia naquele tempo, em relação aos dois famosos bumbás. Os moradores do lado de baixo (lado leste) eram invariavelmente torcedores do Caprichoso, enquanto os do lado de cima (oeste) eram marcadamente Garantido.

Antes os bois se apresentavam em frente às residências, quando eram solicitados, e geralmente preparava-se uma fogueira para que os bois pudessem se apresentar em volta daquele clarão.

Os donos da casa tinham o direito de se posicionarem nos lugares mais privilegiados, para que as famílias, sempre com crianças, pudessem assistir melhor ao espetáculo. Só que antes a participação do povo era mais direta, isto é, a chamada elite não passava de mera espectadora, sem fazer parte diretamente da apresentação do boi bumbá.

Gláucio e o filho Enéas Gonçalves

Pode-se dizer que os brincantes eram todos de famílias humildes: pescadores, estivadores, operários, gente pobre da periferia, muito diferente dos dias atuais, quando sabemos da luta travada por muitos grã-finos ou grã-finas para conseguir uma vaga na “marujada de guerra” ou na “batucada vermelha e branca”. Enquanto as “cunhãs-porangas”, as “sinhazinhas”, as “rainhas do folclore”, as “porta-estandartes”, além de bonitas, geralmente eram filhas de pessoas distintas da sociedade.

Eu considero uma grande inverdade a história que não sei quem meteu no ouvido da mídia – gente que não conhecia nada dos bumbás de Parintins – que o Garantido é o boi do povão e o Caprichoso é o boi da elite. Posso garantir que isso está longe da verdade. Os dois bumbás são constituídos de grandes massas populares que dividem a cidade ao meio, inclusive as elites, se é que assim se pode chamar.

Naqueles anos de outrora me lembro de duas bravas mulheres que brincavam de boi. Não só brincavam como contribuíam com trabalho, arte e muita dedicação ao boi querido de Luiz Gonzaga: a Camé Rocha (“Camé do Bom Rapaz”, como era conhecida) e a Eurica Cid, todas duas figuras imortais do boi Caprichoso.

A primeira – a Camé – desempenhava a figura de madrinha do Touro Negro, com direito a um lugar especial na roda de brincantes, além de ser artista e estilista ao mesmo tempo, pois tanto cuidava da confecção da tradicional figura de “Dona Aurora”, quanto fazia também a indumentária da mesma, enquanto a segunda – a Eurica – tinha lugar efetivo como dançarina invisível dessa referida figura engraçada, isto é, fazia a “Dona Aurora” dançar para as multidões. Daí eu dizer que essas duas mulheres heroicas, pelo muito que contribuíram espontaneamente ao boi de Zé Nossa Filho, merecem um registro especial.

Hoje sabemos da grande disputa por um lugar de destaque em qualquer dos bumbás. Dizem até que as gatinhas, pela importância do papel que representam no boi, quase sempre conseguem bons casamentos, ou pelo menos namorados de alto nível. Mas ao tempo de Camé e Eurica não conheci outras mulheres participando diretamente das brincadeiras de boi. Elas duas, pelo que me lembro, foram as primeiras a entrar na roda do boi, cantando toadas e dançando o dois pra lá, dois pra cá.


Como o assunto ainda é boi-bumbá, vou aproveitar uma achega de meu pai, que gostava muito das festas juninas, principalmente de brincadeira de boi. Ele dizia que, naqueles tempos idos, nos encontros ocasionais de Caprichoso e Garantido pelas ruas da cidade, dava gosto assistir o espetáculo e ouvir os desafios em forma de versos.

De um lado o Feliz Cid e de outro o Lindolfo Monteverde, cada qual com maior talento, faziam o público delirar em noites memoráveis de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Noites iluminadas não só pelo crepitar das fogueiras, mas também pelos versos desafiadores, sempre bem rimados, daqueles consagrados poetas-repentistas do folclore parintinense.

Se bem consigo fazer uma ilação, chego a dizer que há uma evidência bem-acentuada em torno dos dois poetas-repentistas que acabei de citar – Cid e Monteverde – o primeiro, o Feliz, era filho de cearense e o Lindolfo, pelo que tudo faz crer, era filho de maranhense, ambos, evidentemente, descendentes de nordestinos, o que vale dizer que todos dois carregavam nas veias o sangue forte do poeta repentista, o verso de desafio, animado e divertido, que alegrava as nossas noites e começava a criar na alma do povo essa grande paixão pelos dois festejados rivais, numa brincadeira bonita e sadia, cada um defendendo suas cores, sob o ritmo cadenciado das mais belas e inesquecíveis toadas.

Com relação ao boi Caprichoso eu devo contar um fato que me parece muito esclarecedor, em razão de certas dúvidas ainda existentes, no que concerne aos legítimos fundadores do famoso bumbá de Luiz Gonzaga. Senão, vejamos.

Há muitos anos, lembro-me ainda, alguns cearenses aqui residentes apresentavam o “cordão dos marujos”, apresentação folclórica trazida do sertão nordestino, em homenagem a São Benedito, evidentemente com fundamento religioso, tendo a participação de uma única mulher, a rainha do Congo, que conduzia a imagem da mãe de Jesus.

Esses “marujos”, quando se apresentavam, usavam roupas com as mesmas características das que são usadas pelos marinheiros, isto é, semelhantes também àquelas usadas antigamente pela “marujada de guerra” do boi Caprichoso. E, o mais curioso, sabem quem era o principal responsável pelo “cordão dos marujos”? Não era outro, era apenas o senhor Roque Cid, pai do amo do Caprichoso – Feliz Cid – o que vem a ser um forte argumento para se reconhecer na família Cid os verdadeiros fundadores do boi da “marujada de guerra”.

Mais tarde outro Cid veio a ser amo do Caprichoso – refiro-me ao Nascimento Cid, irmão de Feliz. Se há outros, eu não sei, mas uma coisa é certa, as evidências indicam os Cid como fundadores do Caprichoso, sendo seu primeiro amo o Feliz Cid, o qual deve ter seu nome colocado em relevo, nos anais do seu boi, assim como Lindolfo Monteverde é estrela de primeira grandeza na história e na vida do Touro Branco.


Para concluir esses registros em torno da festa dos bumbás de Parintins, devo dizer que durante o tempo em que exerci mandatos eletivos, sempre procurei me manter acima da condição de torcedor deste ou daquele boi. Aliás, esse comportamento foi adotado também pela Walkíria, minha mulher, porque quando assumi o segundo mandato de prefeito, havia um clima de profunda desconfiança, do lado do Caprichoso, com relação à prefeitura, em razão do que havia ocorrido no ano anterior.

Os torcedores do boi azul e branco acusavam o ex-prefeito, meu antecessor do segundo mandato de prefeito, de haver comprometido o resultado do julgamento. O caso se tornou tão grave que chegou ao ponto de um grupo de simpatizantes do Caprichoso tentar invadir a residência daquele ex-chefe comunal, o que não aconteceu por interferência policial.

A verdade é que o nosso festival folclórico experimentou até o estádio Tupy Cantanhede, como área de apresentação, mas o resultado foi absolutamente negativo porque causou alguns prejuízos ao futebol local: paralisação do campeonato, estrago no gramado, perfuração da área etc. Não posso deixar de registrar que nos dois mandatos de prefeito, nosso apoio foi total e efetivo ao Festival Folclórico de Parintins.

Para ser sincero, perdoem-me a falta de modéstia, mas o Festival Folclórico de Parintins ganhou dimensão maior a partir de 1983, no nosso segundo mandato de prefeito. Desde a primeira investidura no executivo municipal, sem nenhuma dúvida, não só ajudamos em termos logísticos e financeiros, como fomos incansáveis em oferecer todo tipo de estímulo e incentivo para que essa festa se tornasse cada vez mais empolgante e organizada, até chegar ao ponto em que chegou.

Primeiramente conseguimos levar o festival para a praça pública, exatamente no local onde está hoje o bumbódromo, uma vez que antes era apresentado nas quadras de esporte, de modo muito acanhado, tendo em conta o espaço reduzido para um festival que crescia a cada ano.

Muitos ainda se lembram que, como prefeito, começamos fazendo o bumbódromo todo em madeira de lei: arquibancadas, cadeiras numeradas, tablado e até camarotes com dois pisos, para autoridades e visitantes ilustres.

O crescimento desse festival, como todos sabem, foi também em função do poder de imaginação do povo parintinense, cuja vocação artística vem se manifestando aos borbotões, numa proporção extraordinária a se refletir positivamente na formação cultural de nossa gente.


Foi em 1987, naquele bumbódromo ainda de madeira, no camarote oficial, o governador Amazonino Mendes, sentado ao meu lado, sob a vibração das galeras, batendo no meu ombro, disse o seguinte (palavras que eu não esqueço): “Gláucio, eu quero te ajudar a fazer um gol de placa na tua administração. Vê qual a obra de grande vulto que possa agradar mais o povo de Parintins!”

Na mesma hora, sem deixar o compromisso esfriar, falei assim: “Governador, se o senhor me dá oportunidade de escolher essa grande obra que deseja construir em Parintins, peço-lhe que faça esse bumbódromo em concreto!”

O governador me olhou e perguntou novamente: “É isso mesmo?...” Respondi afirmativamente que sim. “Então, Gláucio, você pode anunciar à imprensa e ao povo de Parintins que vamos construir o bumbódromo definitivo e a inauguração será no festival do próximo ano de 1988!”

Foi assim que nasceu esse colossal bumbódromo, graças à grande visão do governador Amazonino Mendes, que deu a Parintins esse prêmio valioso, como maior incentivo ao nosso tradicional festival folclórico.

Depois disso é evidente que o Festival Folclórico se agigantou ganhando a dimensão dos dias atuais, e essa grandiosa obra começou a ser naturalmente divulgada pelo Brasil e pelo mundo, com destaque para a vocação artística e cultural deste povo.

É verdade que esse projeto governamental, pela sua relevância política e social, muito me envaideceu por ter tido o privilégio de ver essa obra imponente edificada na minha administração, que acabou de ser coroada de extraordinário êxito, tendo em vista o “gol de placa” que ficou na história. Desse modo ficou o governador com sua vontade política plenamente concretizada, e eu com meu sonho transformado em realidade.

O compromisso foi tão sério e inarredável que dentro do prazo previsto o novo bumbódromo foi festivamente inaugurado, sob o ritmo contagiante das toadas, exatamente no dia 28 de junho de 1988, cuja solenidade presidida evidentemente pelo governador Amazonino Mendes contou naturalmente com a presença de convidados ilustres, além da multidão que não se cansava de aplaudir o grande artífice dessa obra monumental. Parintins, com certeza, muito deve ao insigne governador Amazonino Mendes. Entre tantas obras importantes que aqui realizou, o bumbódromo pontifica entre as maiores.

Quando concluí meu último mandato de prefeito, quando se acabaram as desconfianças, isto é, depois que demonstramos total isenção e seriedade no trato com as agremiações folclóricas, a Walkíria voltou a torcer pelo Garantido, seu boi de preferência, e eu pelo Caprichoso, dos meus tempos de juventude, muito embora reconheça que no Garantido sempre tive excelentes amigos, a começar pelo saudoso Lindolfo Monteverde e sua família, com os quais eu sempre mantive o melhor relacionamento.

Os meus filhos também são divididos entre Caprichoso e Garantido, por isso torcem cada qual pelo seu boi de preferência, com total liberdade e o melhor espírito democrático, o que, graças a Deus, tem nos permitido a melhor harmonia familiar. Os vitoriosos respeitam os que perderam e tudo acaba em paz, felizmente.

Essa questão de preferência de boi-bumbá, nas famílias, aqui em Parintins, é um fato interessante e muito comum. Aliás, foi isso que deu motivo ao sempre inspirado compositor Chico da Silva a compor uma bela toada denominada “Meu boi faz pirraça”.

Eis a toada, que eu considero uma das obras-primas desse talentoso compositor parintinense: “Meu amor faz pirraça / da minha cachaça / e do meu boi-bumbá. / Meu amor é contrário / e no mês de junho / se manda pra lá. / Eu confesso que sinto / uma grande tristeza / na separação. / Só meu boi Caprichoso / derrama alegria / no meu coração. / Além do mais / meu amor vai voltar / e depois do folclore / talvez não demore / pra gente casar. / Meu grande amor / vai me perdoar / hoje o boi Caprichoso / bonito e formoso / tomou seu lugar. / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá”.

Mas, ao falar nas coisas boas dos nossos bumbás, não posso deixar de registrar uma comovente surpresa que o boi Garantido me fez. Isso aconteceu no último ano do meu primeiro mandato de prefeito, em 1972.

O Lindolfo levou o Touro Branco para se apresentar em frente à minha casa, na Rua Furtado Belém. Sem que ninguém imaginasse, o velho Lindolfo, fundador e amo imortal do boi Garantido, em forma de homenagem, “levantou” a seguinte toada, denominada “Despedida”.

Aqui está a toada que emocionou a mim e minha família, e continua emocionando todas as vezes que a recordamos: “Último ano de governo / nosso prefeito vai embora / Ele trabalhou pelo progresso / desta terra / já deixou seu nome / gravado na História / Ele trabalhou pela cidade / Ele trabalhou pelo interior / grande trabalho / Prefeito Gláucio deixou”.

O que até hoje me comove é a forma espontânea e sincera dessa homenagem, o que me causou uma grata surpresa, além de tocar profundamente na minha vaidade de prefeito, que tudo fez pensando no melhor para este município. À nação vermelha e branca eu confesso minha gratidão, minhas saudades e minhas recordações imorredouras.


Falo agora do primeiro ano do meu segundo mandato de prefeito. O Edu Costa como vice-prefeito foi nomeado por mim para presidir a comissão encarregada do festival folclórico desse ano de 1983. Tive de viajar a Manaus para tratar assuntos do município.

No meu retorno encontro a confusão formada. O Caprichoso, pelo seu presidente Geraldo Medeiros, não quis aceitar o Edu na presidência dessa comissão. Alegava-se que o vice-prefeito era ou continuava simpático ao Garantido.

Acontece que eu e Edu havíamos acabado de sair de uma eleição vitoriosa. Não tinha como deixar de prestigiar o companheiro que se mostrava tão entusiasmado em presidir a comissão. Não tive como atender o apelo que me foi enviado. Paciência! Se ele, o Edu, não encontrou uma saída honrosa, muito menos eu, seu companheiro de campanha.

Hoje, com mais experiência, certamente teria adotado um “modus vivendi” e tudo teria sido resolvido sem desdobramentos. Mas o certo que o Caprichoso, nesse ano, não participou do festival oficial, o que foi, para muitos, profundamente lamentável.

E daí o que fazer?... Não podíamos realizar o festival só com o Garantido, apesar de seu grande valor e prestígio junto à comunidade, mas, na verdade, essa disputa é tradicional e sem um dos dois rivais o festival esfria.

E para amenizar o prejuízo com a ausência do Touro Negro, eu e minha equipe reunimos e tomamos a decisão de procurar imediatamente os responsáveis pelo boi Campineiro, que havia se apresentado no ano anterior. Como era de se esperar, esse pessoal se encontrava totalmente desmotivado, pelas dificuldades naturais, visto que não é fácil se organizar um boi para disputar com o Garantido, num tempo relativamente curto. Mas a nossa vontade foi tão forte que conseguimos superar aquele problema sem tanta dificuldade.

Conversamos com um dos donos do Campineiro, meu compadre Camoca, o qual se prontificou em nos ajudar na reorganização daquele bumbá. Foi feita a eleição para a presidência do boi. O eleito foi o Carlos Lima, à época funcionário da Fundação Sesp, que assumiu em seguida o comando do Boi do Palmares.

Com isso começou a crescer o entusiasmo pelo Campineiro, que iniciou seus ensaios com muita animação, e assim os demais preparativos, ao ponto de se apresentar à altura daquela disputa, durante as noites programadas no calendário do festival.

É justo e necessário que se registre a importância do boi Campineiro no Festival Folclórico de 1983, nesta cidade de Parintins. Valeu o grande esforço e sacrifício do meu amigo Carlos Lima, do meu compadre Camoca, de dona Dilce Cansanção e de tantos outros folcloristas e artistas do boi esmeraldino, que muito contribuíram para que aquele festival fosse realizado com sucesso.


O engraçado de tudo isso é que mandei contratar o cantor parintinense Chico da Silva, que nesse tempo morava no Rio de Janeiro, para vir alegrar ainda mais as nossas festas folclóricas. Não digo nada, o Chico chegou, me procurou na prefeitura e tudo ficou certo para que ele fosse a grande vedete da primeira noite.

Qual minha surpresa, chegou a hora da apresentação do Chico e cadê você? Ninguém sabia dar notícia do cantor. Mais tarde, entretanto, fomos saber que o Chico da Silva, fantasiado de tuxaua, estava infiltrado numa tribo do Caprichoso, no Parque das Castanholeiras, onde o “diamante negro” fazia sua apresentação. Já imaginaram?...

Exatamente, nesse ano, o consagrado boi de Feliz Cid, por alguma incompreensão, não quis participar do festival oficial.

No dia seguinte me aparece o Chico, com cara de ressaca, para me pedir desculpas: “Mano velho, você vai me desculpar, mas eu não resisti à vontade de sair no meu boi de coração. Há vários anos que eu não via o bailado do meu boi”.

O que eu podia fazer diante do desabafo de um conterrâneo saudoso de sua terra e de seu boi? Tive de desculpar o Chico. E só não fiquei mais aborrecido porque o boi Campineiro, nessa noite, se apresentou impecável, razão dos muitos aplausos da multidão que se fez presente naquela praça de apresentação folclórica.

Para ser bem justo, já que falo no Campineiro, tenho por dever de justiça e gratidão dizer que o pessoal do Garantido, quando soube da decisão do Caprichoso de não participar da disputa, para me tranquilizar, foi ao meu encontro dizendo que tudo seria feito para a beleza da festa não ser sacrificada.

E foi exatamente o que aconteceu. A festa foi linda, o Garantido foi belo, o Campineiro foi surpreendente, mas sabe-se, por experiência própria, ser muito difícil a ausência de um dos bois de nossa tradição folclórica. Que isso nunca mais aconteça!

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