Espaço destinado a fazer uma breve retrospectiva sobre a geração mimeográfo e seus poetas mais representativos, além de toques bem-humorados sobre música, quadrinhos, cinema, literatura, poesia e bobagens generalizadas
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terça-feira, fevereiro 08, 2011
Lições de etiqueta básica para um espada matador
Para ser um bem-sucedido garanhão de responsa sacramentado pela AMOAL não basta apenas saber lidar com os mistérios do ocultismo sexual e da alma feminina.
A exemplo do que os senadores romanos diziam sobre a esposa de César (“Não basta apenas ser honesta: ela tem que parecer que é honesta”), o verdadeiro abatedor de lebres não pode apenas ser macho, ele tem que parecer que é macho.
Portanto, existem algumas coisas que você não deve usar ou fazer nunca, em hipótese alguma, mesmo sob tortura chinesa ou ameaça de abstinência sexual prolongada.
Capanga e Bolsa à Tiracolo – Há muito tempo, quase na pré-história, alguns trogloditas saíam às ruas com uma elegante bolsa, cuja alça prendia-se em um ombro. Tratava-se da famigerada capanga, um dos maiores atentados à estética já praticados pelo ser humano. Pior que ela, só mesmo a “bolsa a tiracolo”. Todos conhecem essa, né? A que ficava debaixo do braço, recebendo um banho diário de catinga, e ainda tinha uma “microalça” pela qual era possível também segurá-la, minutos antes de guardá-la no “rack” ou em outro móvel igualmente brega. Além de cafona, era coisa de viado.
Lenços – Lenços de pano tiveram seu momento. Assim como o motor a vapor, o disco de 78 rotações e as novelas de rádio. Muito tempo passou, mas ainda há quem insista em usar os absurdamente anti-higiênicos lencinhos de pano. Alguém vai dizer: “Ah! Mas dá para fazer a linha com uma garota que está chorando...”. Pára!!! Quem é a doida que vai querer enxugar as lágrimas num pano em que provavelmente foi expectorado um quilo de catarro? Acorda, gafanhoto! Além do lencinho usado no bolso, ainda temos as modalidades “fashion-paraíba”, tais como “lenço usado como bandana”, “lenço no pescoço”, “lenço no tornozelo”, “lenço a moda palestina” e outras aplicações tão esteticamente bonitas quanto uma fralda geriátrica suja de merda. Não importa onde, como e quando, mas usar lenço sempre foi, é e será coisa de viado.
Correntinha de Óculos – Na intimidade do seu lar, é altamente recomendável usar esse utensílio, principalmente se você for uma pessoa desastrada. Mas, na rua, na frente dos outros, aos olhos do mulherio, enfim, evite essa baboseira. Além de completamente ridícula, a correntinha de óculos pode te complicar muito mais do que se não houvesse nenhuma cordinha. Isso porque é comum alguém se enroscar nela sem querer e jogar seus óculos a uns três metros, destruindo-o completamente. Se eles apenas caíssem naturalmente porque você é desastrado, não aconteceria tamanho estrago.
Medalhinhas em geral – Erasmo Carlos, o amigo-de-fé-e-irmão-camarada, nos tempos em que ainda atendia pelo epíteto de “Tremendão”, lançou moda com um ferrinho pendurado numa corrente (era algo assim, sei lá). Virou febre. Parece que era um treco específico de um carro, o que gerava problemas para os proprietários desses veículos. Isso foi nos anos 60. Naquela época, já era algo meio cafona, mas a Jovem Guarda tinha autoridade para lançar moda. Hoje, porém, qualquer tipo de correntinha é considerada brega, inaceitável, cafona, tacanha, ridícula e digna de apedrejamento e morte por asfixia num vaso sanitário de estação rodoviária. Faz-se necessária uma singela enumeração, para efeito de simples referência, acerca das medalhinhas condenadas: crucifixos, escapulários, estrelas-de-Davi, coisas religiosas em geral, símbolos orientais em geral, símbolos de umbanda em geral, referências a times de futebol, miçancas em geral, cacarecos de hippies em geral e guias espirituais, sem exceção.
Canetas, lápis e afins – O português da padaria é motivo de troça porque usa um singelo lápis na orelha. Acho isso equivocado. Realmente, é brega pra diabo, mas esse lápis já tem toda uma significação cultural. A coisa é tão arraigada que o Armando, dono daquele famoso bar manauara, resolveu informatizar o pardieiro. Descobri porque o vi atendendo no balcão com o mouse na orelha. (pausa para o riso amarelo diante da piada velha e sem graça) De todo modo, é bem melhor o lápis (ou a caneta Bic carcomida) do português do que uma Montblanc de executivinho júnior. Isso mesmo. Não há nada mais cafona do que ostentar uma caneta cara. Ainda mais porque na Rua Marechal Deodoro elas custam algo em torno de 20 reais (isso se o camelô te passar a perna, porque com dérreá você leva duas). Lembra da época da escola? É igual: lápis, caneta, borracha, apontador e congêneres: tudo em estojo. Caneta é coisa de apontador de jogo do bicho, despachante e advogado de porta de cadeia (daqueles que usam anel de rubi e broche da OAB).
Prendedor de Celular – À mesma proporção que a ciência nos apresenta as maravilhas da tecnologia, a baianada nos apresenta as indecências da cafonice. Sim, eu sei, os prendedores de celular são fabricados no exterior. Foi licença poética preconceituosa e bairrista. Mas é dureza, meus chapinhas. Prendedor de celular é algo que me faz perder a amizade com qualquer um. Não dá para olhar com respeito para uma pessoa que deixa o celular penduradão, do lado de fora da cinta, todo malandrão, no maior estilo “veja-como-estou-a-cara-do-amado-batista”. Assim não dá! Desse jeito não tem cu de peruano que agüente!
Broches e Bottons – Da mesma forma que o “trequinho de corrente” do Erasmo Carlos expirou há quarenta anos, não há nada que justifique alguém usar broche ou botton desde a época de “Hard Day’s Night”, dos Beatles. Exceção óbvia ao período eleitoral, que dá margem para alguns broches já tradicionais e bacaninhas (a estrelinha do PT, o tucaninho do PSDB, o boto navegador do Gilberto e até a abelhinha do Amazonino). Bom, ocorre que isso é uma bosta de feio. Se broche é brega, botton é mais brega ainda. Não usem isso! Passem no final da Rua Guilherme Moreira e vejam só o “público-alvo” dos camelôs. Depois quero ver alguém usar “brochinho do KLB”. Só se for muito viado.
Chaveiros à mostra – Certa vez ouvi um aforismo bacana, que é o seguinte: um homem rico não anda com um monte de chaves. É verdade. Feliz ou infelizmente, as pessoas bem posicionadas não precisam fazer a linha “carcereiro”, carregando umas 135 chaves num chaveirinho desmilingüido. Para piorar a situação, algumas pessoas penduram o chaveiro num passador de cinto, ou algo do gênero. Aí é demais. Não só forçam a amizade, mas também imploram para receber tiros de canhão na nuca! Pendurar as chaves no cinto é a mesma coisa que andar com a cueca suja pendurada no pescoço.
Pochete – Falar mal de pochetes ficou uma coisa tão batida que os humoristas consideram quase tão ridículo quanto fazer um trocadilho. Pode ser, mas daria para esquecer da dita-cuja nesse tipo de coisas que um macho não deve usar? Impossível! Afinal, nada é mais cafona do que a pochete. Simplesmente nada. Reza a lenda que no ano de 1995, por aí, as pochetes despencaram do “uso aceitável” para o “totalmente cafona”. Não passaram pelo estágio intermediário de “cair em desuso”. Simplesmente se tornaram um ícone da cafonália – o que nos remete a algum estudo mais aprofundado, não é mesmo? Para ficar na real, prefira cometer todos os pecados anteriores, mas jamais use uma pochete. Não tem desculpa. Por mais que andar de “bolsos cheios” seja brega, prefira isso a carregar pochete. Equilibre suas coisas na cabeça, contrate um escravo para carregar suas tralhas, use uma mochila, mas não use pochete. Sabe-se que há uma quadrilha internacional que mata violentamente pessoas com pochete. Cuide-se.
Pedir caipirinha com adoçante – Você pede caipirinha com adoçante? Fala sério?! Tá de regime, bofe? Ou você bebe ou não bebe caipirinha, porra! Caipirinha é o seguinte: limão, açúcar, gelo e cachaça. Se é pra pedir diferente não chame de caipirinha, diga pro garçom o seguinte: “Hoje vou pedir uma bebida de fresco. Me vê um copo com limão, cachaça, gelo e adoçante dietético”. Assim, você não deixa ninguém irritado na mesa.
Chupar sorvete – O verbo “chupar” não deve fazer parte do vocabulário de um macho. Um verdadeiro macho quando come sorvete o faz com dentadas e não com chupadas. As únicas coisas que um macho tem permissão de chupar são peitos, bocetas e cus. O resto é coisa de viado!
Comprar ou usar roupas de cores exóticas – Se quando você vai comprar uma camisa em vez de dizer “me dá aquela marrom-clara” diz “me dá aquela de cor creme”, você deve ser fresco. Macho que se preza sabe que só existem sete cores na natureza – e se você pensou nas sete cores do arco-íris, que hoje é uma bandeira dos viados, deve mesmo dar a bunda. Que diabos é a cor fúcsia? E mais: como diabos se escreve? As cores existentes são verde, amarelo, azul, branco, vermelho, marrom e preto. Só, somente só. Cinza? É uma mistura de preto e branco. Rosa? É uma mistura de vermelho e branco. Laranja? É uma mistura de vermelho e amarelo. Salmão? É um tipo de peixe. Mostarda? Uma merda que se usa em sanduíches. Vinho? Uma bebida de viado. Caramelo? Um tipo de bala gosmenta, e assim por diante.
Segurar sacolas plásticas pela alça – Ao fazer uma compra e receber seus embrulhos dentro de uma sacola, você segura a sacola delicadamente pela alça? Então você é fresco. O verdadeiro macho segura a porra da sacola de encontro ao corpo, como se estivesse acochando uma quenga, ou por baixo, pegando nos fundos, como se estivesse levantando uma vagabunda pela bunda, ou coloca as tralhas na cabeça, como se estivesse carregando uma dama recém-conquistada para o leito nupcial. Mire-se no exemplo dos estivadores. Você já viu algum estivador com essas frescuras de carregar sacolas pela alça? Então...
Ficar parado na escada rolante esperando chegar ao outro piso – Escada foi feita pra gente andar e exercitar o físico, porra, e não pra neguim ficar parado nela com cara de otário. Se a escada é rolante, o problema é dela. Faça sua parte e ande depressa para chegar mais rápido no outro piso. Se estiver cansado, vá de elevador.
Tomar sucos de frutas misturadas – “Moço, me dá um suco de laranja com mamão!”. Que pederastia é essa? Ou você toma um suco de laranja ou um de mamão. Ou então um depois do outro, mas os dois misturados nem fodendo. Isso é coisa de viado.
Pedir sobremesa em restaurante – Você é daqueles que, depois de forrar o bucho com vaca atolada, adoram saborear pavê de frutas tropicais, pudim de ameixas, frapê de coco, manjar branco ou papaya batido com licor de cassis? Então por que você não usa essas imundícies para passar na bunda e adoçar as hemorróidas? Macho que é macho não come sobremesa nem na casa da sogra. No máximo, depois do almoço, ele prova de um pedaço de goiabada com creme de leite. E se alguém olhar com cara de desconfiado tem de falar que está apenas tirando o gosto da buchada de bode detonada cinco minutos antes.
Chegar aos trinta anos sem marca de cicatrizes pelo corpo – Você é um cara que não tem cicatrizes? Que passou toda sua vida ileso, sem um arranhão, sem um braço quebrado com fratura exposta, sem um corte de linha de papagaio no meio da mão, daqueles que demoram dois minutos para o sangue começar a sair? Ah, então você é uma bicha desvairada! Macho mesmo cai no chão e quebra a testa assim que começa a engatinhar. Ele se arranha no arame farpado, se queima com fogo de artifício, quebra a unha chutando sarjeta, corta os pés em caco de garrafa, esfola os joelhos no asfalto caindo de patinete, quebra o braço jogando bola na rua, toma porrada e mais porrada, e vai acumulando seu sinais de virilidade. Quanto mais detonado, melhor. Esses sinais indicam que você não foi um menino criado na casa da vovó, com carpete persa, meia dúzia de gatinhos angorá e a proibição expressa de descer ao playground para se divertir. Você só podia mesmo virar fresco!
Raspar os pêlos do corpo – Com exceção de raspar a barba ou o bigode, qualquer outra perda de tempo com depilação é coisa de boiola ou de gaúcho. Macho que se preza só deve se preocupar em raspar a barba e o bigode e, de preferência quando forem falhos, para não parecer tão ridículo quanto o Cantinflas. Raspar o peito, o sovaco e as pernas, nem se for pra pagar promessa ou disputar olimpíada de natação. Se você se parece com o Tony Ramos, azar o seu. Aceite seu aspecto de urso cinzento e mude-se para a Sibéria.
Colocar luzes, descolorir, fazer alisamento, franjinhas ou trancinhas, picotar, fazer corte moicano, enfim dar um trato no cabelo – Se você já fez alguma dessas coisas no seu cabelo isso é um sintoma grave de boiolagem recalcada. Cabelo é só cabelo e mais nada. Além do mais, se cabelo fosse enfeite não nascia no cu. Se você tem algum resquício de telhado na cabeça, dê-se por feliz porque um macho de verdade raramente tem. Todo macho devia ser careca. Faz parte da natureza masculina.
Passear no Shopping nas tardes de sábado – Se você gosta de tomar um sorvetinho enquanto passeia no Shopping com sua namorada, nas tardes de sábado, o que você está desejando mesmo é queimar a rosca. Sábado é sinônimo de futebol, de cerveja, de churrasco, de pagode e de pegar mulher nas baladas. Macho de verdade só vai para o Shopping com a namorada no domingo e, assim mesmo, se for durante o horário do Faustão – pra não ter que assistir aquela merda. Aí, enquanto ela olha as promoções, você fica tomando chope na Praça de Alimentação e azarando as menininhas. Sempre pode rolar uma bela surpresa.
Ter como bicho de estimação um gato – O gato por si só não passa de um cão boiola. Aquele lance de ficar se lambendo o dia todo e de não tomar banho é nojento. Fora o fato de o gato ter aquelas frescuras: gato faz pipi e caca, depois esconde embaixo da terrinha (entenda isso como se você sempre se metesse a abaixar a tampa da privada depois de usar o vaso sanitário). Bicho de macho é o cachorro: cachorro tá pouco se fodendo pra tudo, mija e caga em qualquer lugar, bebe água da privada e até coça o saco. Ter gato em casa é coisa de viado!
Saber o nome de mais de quatro coisas na padaria – Macho entra na padaria e fala logo o que quer, no máximo quatro itens, que normalmente são o pão, o café, o leite e a manteiga. Chegar na padaria pedindo um pote de queijo meia cura Philadelfia Diet, um pote de iogurte Danoninho, um pacote de salsichas de frango Perdigão, 250 gramas de lombo canadense defumado “cortado bem fininho, viu?!”, e um salame (!!!) italiano tipo calabrês, é sintoma grave de viadagem. Sai dessa, mermão!
Sair pra dançar – Que porra é essa?! Macho sai pra beber, pra zoar, pra discutir no trânsito e pra pegar mulher. Macho que sai pra dançar não é macho! No máximo, você pode dar uns passos na pista de dança, com a intenção, é claro, de se aproximar da mulher que te chamou a atenção, mas não vá além disso. Macho que sai para dançar está querendo foder pica.
Pedir bebidas com nomes exóticos – Se não for para impressionar uma fêmea que você quer carcar, evite chamar o garçom e pedir Negroni, Dry Martini, Blood Mary. Vai ficar parecendo coisa de viado! Macho não tem frescura, bebe aquilo que todo mundo conhece: vodka, pinga, whisky e cerveja, muita cerveja! Detalhes em copo de macho são limão, gelo ou azeitona verde, dependendo da bebida. Canudinho e guarda-chuvinha de papel roxo nem pensar. Aquilo é coisa de viado!
Reparar como os outros estão vestidos – Você é daqueles que repara que seu amigo está vestindo a mesma camisa de ontem? Então você é viado! Qual a diferença entre seu amigo sair para tomar uma cerveja com uma camisa de grife que não sai por menos de 300 pratas (coisa de viado) e sair com uma camiseta que ele ganhou de brinde do cartão de crédito? Nenhuma! Se o cara tá ridículo, o problema é dele, ou melhor, sobra mais mulher pra você! Se você dá uma de Clodovil e repara se as roupas de seus amigos combinam, você está querendo dar o cu! E vai acabar encontrando quem queira.
Comer bolo em festa de aniversário – Só viado faz isso. Macho que é macho se enche de salgadinhos, bebe pra caralho e depois vomita. Quem come bolo em festa de aniversário é mulher, criança e viado.
Pedir meias porções ou meias doses – O nome é porção ou dose porque já é calculado, ou seja, um macho come uma porção de gororoba, ou bebe uma dose de birita. Então, quem come meia porção é meio macho. Pior ainda são aqueles que pedem pratos terminados em “inho”. Por exemplo: “Êi, garçom, me traz um arrozinho, por favor?” Isso é frase típica de viado.
Consolar ex-namoradas de amigos – A única maneira de o verdadeiro macho fazer isso é passando o rodo nela e depois contando pra turma.Ou então fazendo com que ela fale algo que possa ser usado pra zoar o seu amigo que foi escanteado. Do contrário, ela que vá chorar no ombro da puta que a pariu!
Pedir café descafeinado – Só sendo muito viado!!! Café tem que ser servido quente, forte e amargo, que é coisa de macho! Você só tem direito a acrescentar conhaque, uísque ou formicida. O resto é coisa de viado.
Saber o nome de mais de quatro tortas ou bolos – Onde já se viu um macho entrar numa padaria e dizer: “Desculpe, você poderia me dar um pedaço de bolo de ameixa e um brownie caramelado!”. Vá se foder, seu putinho! Com 20 times na primeira divisão, cada um com pelo menos 25 jogadores e trocando de técnico toda semana, e você ainda reserva espaço na memória para se lembrar de nome de tortas e doces? Só sendo muito fresco!
Alimentar o cachorro com comida para cães – Isso é coisa típica de bichinha que divide o quarto com outra biba! As multinacionais inventaram a comida para cães para deixá-los afrescalhados. Um cachorro de macho come o que cair no chão ou então o que ele desenterra. Depois de comer essas porcarias enlatadas, os cachorros tornam-se afeminados. Já não bebem água de torneira, afinam o latido, não cheiram nada podre e param de correr atrás do gato. Pra começarem a se roçar na sua perna, vai ser um passo. Mate-os.
Dirigir com as duas mãos no volante – Isso é um sintoma clássico de viadagem. Se os caubóis conseguem laçar os touros com uma só mão, por que um homem precisaria de duas mãos para segurar o volante? Ele só pode pousar as duas mãos no volante em dois momentos: para ultrapassar um viado babaca numa curva fechada estando a 150 km/h ou para buzinar para a madame do carro na frente encostar pra direita e ver se pára de fazer merda no trânsito. No resto do tempo, a mão direita tem que ficar livre para poder sintonizar a emissora de rádio, falar ao telefone, fumar, se masturbar, segurar um sanduíche ou uma lata de cerveja, e principalmente, ficar passando a mão nas coxas da namorada. Dirigir com as duas mãos no formato do relógio às 10h10, não há outra explicação, só pode ser simpatia de boiola.
Verificar a data de validade dos produtos no supermercado – Um sujeito que perde tempo numa gôndola de supermercado tentando saber se o produto que quer comprar está vencido ou não, só pode estar querendo dar o cu. Macho que é macho não perde tempo em supermercado. Aliás, ele nem entra. E se entrar, ele pega logo as porras que a mulher disse que era pra comprar e sai correndo pro caixa, torcendo para nenhum amigo lhe ver. Macho de verdade não olha para essas coisas de alimento vencido. Que mal podem fazer um leite azedo ou uma carne esverdeada?...
Tocar as verduras com a ponta dos dedos para escolher qual a melhor para comprar – Você é costureira para saber a qualidade de um tecido pelo toque digital? Não? Então por que ainda acredita que nessa viadagem existe algum sentido metafísico? Guarde seu toque digital para as bucetinhas em flor. Macho de verdade está cagando e andando pra saber se o tomate está passado, se a alface está queimada, se a couve tem fungos, se o cheiro-verde está em adiantado estado de putrefação. Pelo contrário. Verduras maduras, maturadas, quase podres, podem ajudar na produção de gases caseiros, que servirão para depois se divertir com os amigos na disputa de quem solta o peido mais fedido e barulhento.
Reparar demais no modo de vestir de uma guria – Qualé? Você acha que isso é fetiche?! E se esse fetiche está querendo te lembrar qual a cor do seu vestido favorito?! Porra, cara, então você só pode ser bicha. Macho de verdade só se lembra do volume dos airbags e do pára-choque da menina e, assim mesmo, se não estiver muito de porre.
Entrar numa churrascaria e aceitar comidas pervertidas oferecidas pelo garçom – O sujeito que se amarra numa chuleta ou gosta de picanha ou pede pro churrasqueiro encher seu prato de lingüiça está querendo dar o cu. Macho que se preza só pede maminha e olhe lá. Macho que se preza só entra em churrascaria para zoar do corno que está cantando baladas em inglês, naquele jeito macarrônico aprendido no Yázigi, e assim mesmo se a chuva for de foderetê e seu carro estiver a quatro quarteirões de distância! O resto é coisa de viado.
Chegar aos 30 anos de idade sem barriga – A cerveja ajuda a distinguir os machos dos viados. Macho tem a barriga proeminente devido aos tonéis de levedo e lúpulo que enfia no bucho. Viado tem a barriga igual a um tanquinho de tanto receber peso nas costas. Mas aos 30 anos se você ainda se preocupa com seu físico, você é viado! Como todo mundo sabe, quem gosta de homem (malhado ou não) é viado, mulher gosta de dinheiro. De muito dinheiro. Você tem mais é que parar de se preocupar com a barriga e tratar de turbinar o seu bolso porque aquela menina gostosona de 20 anos dá mais importância ao carro importado e ao cartão de crédito que você tem, do que aos seus músculos do abdômen...
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
Reveja os seus conceitos: esse é o cara!
Via e-mail, meu brother José Pereira, ex-companheiro da 1ª turma de Engenharia Eletrônica da Utam (circa 1977), me envia esses toques elucidativos:
Henry Allingham nasceu em Londres em 1896, quando ainda reinava a Rainha Vitória.
É veterano da 1ª Guerra Mundial, participou das batalhas de Yopres e Jutlândia e fez parte do primeiro esquadrão da RAF, a força aérea britânica, da qual é o único membro ainda vivo.
Henry diz que viveu seus 112 aninhos à base de cigarros, uísque, cerveja e muitas mulheres fogosas (ele diz que o grande segredo é nunca repetir a mesma mulher na mesma semana).
Resumindo: o cara viveu intensamente na maior esbórnia e detonou mais de mil vagabundas!
E quanto a você? Comendo salada de soja com rúcula, bebendo água feito um filho da puta, cheio de regimes pra emagrecer, preocupado com colesterol, pressão alta, bursite, dormindo cedo, caminhando como um desgraçado, malhando feito um corno, suando como um lazarento! E tudo isso pela mesma mulher ?! Pô, bicho, se oriente...
Henry Allingham nasceu em Londres em 1896, quando ainda reinava a Rainha Vitória.
É veterano da 1ª Guerra Mundial, participou das batalhas de Yopres e Jutlândia e fez parte do primeiro esquadrão da RAF, a força aérea britânica, da qual é o único membro ainda vivo.
Henry diz que viveu seus 112 aninhos à base de cigarros, uísque, cerveja e muitas mulheres fogosas (ele diz que o grande segredo é nunca repetir a mesma mulher na mesma semana).
Resumindo: o cara viveu intensamente na maior esbórnia e detonou mais de mil vagabundas!
E quanto a você? Comendo salada de soja com rúcula, bebendo água feito um filho da puta, cheio de regimes pra emagrecer, preocupado com colesterol, pressão alta, bursite, dormindo cedo, caminhando como um desgraçado, malhando feito um corno, suando como um lazarento! E tudo isso pela mesma mulher ?! Pô, bicho, se oriente...
Sobre degustadores de vinho e outras infâmias
Aluisio Braga, Pedro Valle e Jeferson Garrafa no Emporium Roma
Via e-mail, recebo do brother Jeferson Garrafa essas impressões bagaceiras sobre degustadores de vinho:
Grande Simão
Como tá meu irmão?
Negócio seguinte: 5ª passada liguei pros meus cunhados Lúcio (irmão da Heloísa) e o Neto (casado com minha irmã) pra tomarem um vinho comigo.
Cheguei, esperei e nada dos cabras. Com 40 minutos chegou o Neto, e, bem depois, ligou o Lúcio avisando que ia com a Mônica pra Belém "prum niver da família dela".
O que vc tem a ver com isso? Diretamente nada. Só que eu sempre lembro daquela nossa conversa:
- Garrafa, voces tomam vinho com aquela frescura de cheirar o vinho e girar a taça, é?...
- Porra, Simão, se não mexer e não cheirar não tem graça... (rsrsrsrsrs)
Aí, mandei essa historinha pro Lúcio e ele sugeriu enviar pra voce.
Abraço,
Seu "broder" Garrafa
2011, Fev, 5
O Zé Neto, que aparece na foto à direita, ao lado do Lucio Meirelles, foi meu colega de trampo na Sharp do Brasil, nos anos 70, e é sangue bom toda vida
A Dom Lucho: O amigo que não foi
Querido amigo Simão
Veja que situação
Chamei o Lúcio, cunhado,
Para um merlot arretado.
Marcamos às 8 em ponto,
Sem ter arrego ou desconto,
Num restaurante arrumado,
Charmoso e bem freqüentado.
No relógio, 9 horas.
Eu, no maior sufoco,
Pergunto: o que faço agora
Esperando esse cabôco?
Pedi então ao garçom
Me traga um vinho do bom;
Não quero muito gelado,
Nem caro demasiado.
Tomava eu o meu vinho
Servido com muito carinho
Eis que então, de repente,
Toca o fone renitente.
“Não estou eu a fugir
Mas hoje não posso ir
Num vôo vou pro Pará
Num tacacá me acabar
Na volta, cabôco, te vejo
E te trago uns ‘carangueijo’”.
Respondo, então: o que é isso?!
Siga pro seu compromisso,
Chegou o Neto atrasado
Aquele meu outro cunhado.
Na sua volta, é certeza,
Aqui nessa mesma mesa
Faremos um brinde sincero
- Pelo menos isso espero –
Um brinde à nossa amizade,
Forjada em real lealdade.
Vá depressa, volte breve,
A saudade não me é leve,
Tão astuta quanto ingrata,
Machuca, fere e maltrata.
Desculpe o verso precário,
Barato e até ordinário.
Não sou o amigo Pessoa
Que rima fácil e à toa.
Garrafa
Manaus, 3 de fevereiro de 2011
Eu, Jeferson e Lucio Meirelles durante uma reunião do CDF, na casa do Arnaldo Russo, se preparando para encher a moringa.
Por conta da má influência do Jeferson (ou terá sido do vinho merlot?), o Lucio já estava começando a usar meias sintéticas anti-varizes - o que é meio caminho andado para se transformar em metrossexual. Espero que ele tenha parado com essa frescura e retornado para o velho escocês nas pedras...
Aliás, esse negócio de segurar a taça de vinho pela haste (no uísque, a gente segura firme no meio do copo, como se estivesse apertando a bunda de uma quenga), girar a taça para acordar o bouquet (no uísque, o copo é simplesmente levado a boca como se fosse um peitinho cheirando a leite), colocar um pouco de vinho na boca, envolver a língua para sentir a textura, bochecar e só então engolir (no uísque, ele desce direto pro estômago como se fosse uma navalhada abrindo as tripas), não me parece um esporte de macho.
De qualquer forma, segue abaixo uma historinha a respeito dessa infâmia e que resume tudo o que penso a respeito de vinho - apesar de não ter nascido nas Alterosas.
Degustação de vinho do mineirim
- Hummm...
- Hummm...
- Eca!!!
- Eca?! Quem falou eca?
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...
- Putaquepariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Cebesta, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincano com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!...
sábado, fevereiro 05, 2011
Bhanda da Bhaixa da Hégua se prepara para festejar seus 20 anos
Um dos fundadores da BICA, o empresário Vavá das Candongas morava na famosa Rua da Baixa da Égua, em Educandos, e se ressentia do fato de a festança portuguesa acabar na madrugada de domingo.
Biriteiro profissional, ele queria que aquela agitação continuasse pelo menos até a noite de domingo e, por acreditar muito nisso, durante quatro anos tentou catequizar voluntários para sua causa supostamente inglória.
Em 1991, durante um porre memorável no Bar Casa Ideal, do comerciante Renato Freitas, ele conseguiu convencer mais meia dúzia de malucos a embarcarem no seu velho sonho.
Participaram da criação da Bhanda da Bhaixa da Hégua, entre outros, o próprio Vavá das Candongas, Renato Freitas, Erasmo Amazonas, Pedro Bruno, João Branco, Bianor Mitoso, Demetrius Sales (irmão da vereadora Mirtes Sales), Paraguaçu, Manuelzinho Batera, Delcídio Castro e Teresa Brandão, dona do histórico Bar São Francisco.
A saudosa colunista social Elaine Ramos foi escolhida para ser madrinha da banda.
Eles resolveram acrescentar um “agá” na grafia para perpetuar uma gíria da época para designar os lambanceiros, os caras que eram cheios de “agá”.
A banda também iria ser cheia de “agá”.
Durante a reunião de fundação, ficou acertado que a banda iria desfilar pelas ruas de Educandos no domingo magro de carnaval, exatamente no dia posterior ao embalo da BICA.
No primeiro ano, apareceram apenas 80 foliões, quase todos de ressaca do arrastão da BICA na noite anterior.
O carnaval dos paidéguas foi armado em frente à Casa Ideal e, aparentemente, foi um grande sucesso, apesar de ninguém ter tido coragem de sair em passeata pelas ruas do bairro.
Não bastasse isso, o boneco mamulengo da rainha da banda, uma Hégua humanizada inspirada em Rosane Collor, na época-primeira dama do Brasil, era de tirar qualquer um do sério.
Feita em fibra de vidro (uma novidade, na época!) e quase em tamanho natural, a Hégua reafirmava as vantagens do matriarcado sobre o patriarcado: era a primeira vez, em Manaus, que uma figura feminina comandava uma fuzarca de machões com firma reconhecida em cartório.
Além dos olhos azuis e da dentadura avantajada, a Hégua tinha uma cintura de vespa combinada com uma bunda de tanajura e umas mamonas verdadeiramente assassinas.
Era impossível olhar pra ela, mesmo de relance, e não sentir tesão por aquilo.
Não sei não, mas acho que o cineasta James Cameron deve ter se inspirado na Hégua da Bhaixa para criar a belíssima caçadora Neytiri, do blockbuster Avatar...
Em 1992, cerca de 500 pessoas foram conferir a presepada no segundo ano de desfile da banda, por conta das insistentes e hilariantes notinhas da colunista Elaine Ramos, no jornal Amazonas em Tempo, divulgando o evento.
Pela primeira vez, eles saíram pelas ruas de Educandos sob o comando da gostosíssima Hégua e foram arregimentando para suas fileiras dezenas de blocos tradicionais que se preparavam para desfilar no Sambódromo.
O primeiro bloco a entrar no fuzuê foi o dos Assombrados e até hoje o encontro entre a Bhanda da Bhaixa da Hégua e o Bloco dos Assombrados é considerado o clímax do desfile.
No início, vestidos de lençóis brancos com buracos nos olhos, os Assombrados se transformaram em uma das alas mais animadas do desfile da banda e, com sua presença no desfile, foram arregimentando outros blocos: Vagabundos, Defuntos, As Virgens, As Rãs e por aí afora.
O trajeto da banda, que é obedecido até hoje, começa na rua Amâncio Miranda, onde ficava o Bar Casa Ideal, segue pelo Boulevard Sá Peixoto, Leopoldo Peres, Rua Nova, Inácio Guimarães, Baixa da Égua, Inocêncio Araújo e novamente Amâncio Miranda.
Foi quando Vavá das Candongas teve o chamado “estalo de Vieira”: a banda inspiradora do frege, a BICA, conseguia muito espaço na mídia porque tinha uma marchinha própria ironizando os fatos políticos.
E se a Bhanda da Bhaixa da Hégua começasse a ter suas próprias músicas, com uma abordagem menos política e mais carnavalesca?...
Ele colocou a questão em uma reunião da diretoria e todo mundo concordou que aquela seria a solução ideal.
Vavá das Candongas procurou o advogado Ary de Castro Filho, um dos integrantes do grupo Pro-Álcool e também, como ele, fundador da BICA, e expôs o problema.
Quem conta o desenvolvimento dessa história é o próprio Aryzinho Castro, vulgo “cachorro”, porque sempre foi fissurado por uma boa “cadela”:
Um dia, em dezembro de 1992, o Vavá das Candonga convidou o grupo Pró-Álcool para tocar no pré-aquecimento da Bhanda Bhaixa da Hégua, porque eles iriam começar a programação de carnaval da banda do próximo ano.
A partir daí, todos os sábados, das 15 até às 18h, nós tocávamos no meio da rua em frente ao Bar Casa Ideal.
O grupo Pro-Álcool era formado por Mário Toledo (vocais), Cid Sete Cordas (vocais e violão), Arnaldo Fimose (violão), Helinho do Parque (vocais e tamborim) e eu, nos vocais e percussão.
De vez em quando, o grupo Dente de Dragão dava uma canja na fuzarca. Ele era formado por Julio Reciños (voz e violão, atual líder da banda Conexão Latina), Manuelzinho Batera (percussão), Cledson Kleklé (surdo), Guto Rodrigues (vocal e violão), Rogelio Casado (harmônica) e Paulo Peruka (tamborim e agogô).
Apesar de estar na boemia desde os 14 anos e conhecer todos os bares de Educandos, eu não sabia onde ficava a Casa Ideal, um misto de bar e mercearia.
Aí, para ensinar o caminho, o Vavá das Candongas, de pura sacanagem, falou que o bar ficava em frente a uma praça, na saída do Boulevard Sá Rio Negro.
Atravessando a ponte que ligava o centro da cidade ao bairro de Educandos, a Casa Ideal, na verdade, ficava em uma rua a direita, que praticamente desembocava dentro do rio Negro.
A única praça que existia por ali era a do Amarelinho, lá perto da igreja, a uns 500 m da Casa Ideal.
Como eu não sabia desses detalhes, a primeira música que fiz, “Bhanda da Bhaixa da Hégua”, de 1993, tem um verso que diz “como uma onda para o meio dessa praça”.
E a praça nunca existiu!
Bhanda da Bhaixa da Hégua
Autor: Ary Castro
Intérprete: Amarildo Cerdeira
Vocais: Maria Edilene, Maria Belém e Elem Maria
Teclado, bateria, guitarra e baixo: Dino
Mixagem: Odias Monteiro
Esta é a Bhanda da Bhaixa da Hégua
É a mais nova alegria da cidade
Seus integrantes é a Turma dos Paidéguas
E o seu lema é sempre o viva a paideguagem
Quando ela passa o povo todo se levanta
Para aplaudir, cantar ou achar graça
Pois o encanto do seu canto leva o povo
Como uma onda para o meio dessa praça
Agora vem, vem brincar, vem brincar
A nossa onda não tem tempo pra acabar
Vale palhaço, pierrô ou colombina
Vestindo saia pode brincar de menina
A partir daí todos os anos eu passei a fazer uma música para a banda.
A música “Ano Passado”, de 1994, quem acabou me dando a dica foi a Elaine Ramos que, não me lembro o lugar, deu uma bronca numa pessoa que se desculpava por não ter ido à banda, por causa do medo, alegando que o lugar era perigoso, e ela, a Elaine, falou que ali não existia pecado.
E saiu na letra da música o verso “isso aqui não é pecado, vem pra cá, a nossa banda só tem paidéuga”.
Ano Passado
Ano passado você não entrou na onda
Na onda da Bhaixa da Hégua
Vou te contar, isso aqui não é pecado
Vem pra cá, a nossa banda só tem paidégua
Renato, Renato, Renato
Esse paidégua é o rei da folia
Quando se encanga com a Hégua
Não tem noite não tem dia
Ano passado você não entrou na onda
Na onda da Bhaixa da Hégua
Vou te contar, isso aqui não é pecado
Vem pra cá, a nossa banda só tem paidégua
Renato, Renato, Renato
É o Pro-Álcool na animação
É um tal de sobe e desce a ladeira
É a Hégua e a Bhanda muito louca de paixão
É um tal de sobe e desce a ladeira
É a Hégua e a Bhanda muito louca de paixão
Em 1995, a música “Deixa de Fita” foi feita, inicialmente, para uma banda que acabou não saindo (a Banda do Amarelinho), aí eu aproveitei e mudei uma parte da letra.
Na verdade, a música permite que você troque o refrão e utilize o nome de outras bandas, sem que essa alteração mexa na estrutura da letra.
Deixa de Fita
Deixa de fita menina
E vamos embora meu bem
Que a Bhanda da Bhaixa da Hégua
Não espera por ninguém
Passa no teu corpo purpurina
Veste aquela tua minissaia
No rosto um sorriso bem bonito
E pra alegrar a rapaziada
Abre a garrafa de uísque
Do saco tira o gelo pro isopor
Apanha uma cerveja bem gelada
E segue em frente a todo vapor
Deixa que aqui no fundo eu fico
Vendo esse circo incendiar
Na volta traz o gelo pro uísque
Que na Bhaixa da Hégua eu vou me acabar
Em 1996, com a música “Menina”, eu deixei de incluir na letra o nome da Banda da Bhaixa da Hégua. Primeiro, por já existirem mais de dez músicas tendo a banda como tema, e segundo, para se ter uma música de carnaval que pudesse ser tocada em todas as bandas de Manaus, evitando-se aquela besteira de não se tocar a música das outras bandas, mas tocando durante a festa toda as músicas dos trios elétricos baianos.
E assim nasceu “Menina”, que fala daquela garota que brinca sozinha nas bandas na maior alegria, que curte por curtir e que depois fica com o corpo molhado, marcado de beijos e abraços, dos amassos que ela deixa dar porque é totalmente descompromissada.
Menina
Cadê, cadê a menina linda e faceira
Que logo perde a cabeça
Ao ouvir a banda tocar
E sai remexendo as cadeiras
Dando a maior bandeira
Deixando o povo falar
Do seu corpo suado
Marcado de beijos e abraços
Dos amassos que lhe deixam dar
Mas deixa, deixa, deixa
Deixa a menina brincar
Para com a regulagem
Ciúme aqui é bobagem
E tristeza pras bandas de lá
Em 1997, foi feita a “Tira e Mete ou Mete e Tira” que retrata uma garota que ficava vestindo e tirando a camisa da banda e o namorado reclamava, meio injuriado, e ela só de pirraça ficava naquela onda o tempo todo.
Tira e Mete
Eu sei que isso é bom mas cansa
Eu já te falei menina
Não dá pra segurar a noite inteira
A barra dessa tua mania
De ficar nesse tira e mete
Nesse mete e tira
Nesse tira e mete
Nesse mete e tira
Eu sei que é o teu jeito de brincar
Não quero acabar tua alegria
Mas o povo já está falando
Lá na rua todos estão comentando
Vai rasgar a frente e atrás
Atrás e na frente
A frente e atrás
Atrás e na frente
A tua camisa
A música de 1998, “Gandaia”, foi a realização de um grande sonho meu, que era fazer uma música que falasse de todas as bandas de Manaus. Uma música que unisse todas as bandas. E acabou saindo, para a minha alegria.
Na música eu consegui colocar o nome de 18 bandas de Manaus.
Aliás, tem o Bar do Galo, que fica no Boulevard Amazonas, que embora não tenha uma banda tradicional, realiza um carnaval muito bonito, muito familiar, nas suas dependências, exclusivamente com músicas antigas, como toda a turma que o freqüenta.
Gandaia
Nesse carnaval quero é gandaia
Não estou nem ai pra solidão
Só volto pra casa amarrado
Ou então dentro de um camburão
E quando você perceber no meu rosto
O mais leve sinal de tristeza
Me agarra, me abraça, me beija
Que a folia volta a reinar
E eu então assim muito louco
Distribuindo alegria vou brincar
Na Bhanda da Bhaixa da Hégua, na BICA,
Calçada Alta, Mandy’s e Boulevard
E ainda tem Difusora, Lobão,
Piranhas e Cuiú-Cuiú,
Jacaré, o Miltão, Bar do Galo,
Choppmania e o Coração Blue
Porque a segunda é da Caixa
Com todo mundo na praça a brincar
E eu no peito e na raça
Na Boca ainda vou passar
E seguindo sempre em frente
Na do Amarelhinho, eu vou me recuperar
Pra quando chegar terça-feira
É lá na Cinco Estrelas
Que eu vou me acabar
A música o “Cabelo do Simão”, surgiu em razão da turma da BICA, que ficava me cobrando por eu também ser biqueiro e ainda não ter feito uma música para a banda.
Como o Simão apareceu com o cabelo pintado de vermelho e provocou o maior rebuceteio no Bar do Armando, surgiu um papo que o tema seria o cabelo do Simão.
Eu aproveitei e fiz a música, que, por sinal, faz o maior sucesso com a curuminzada.
Na letra, eu falo de um iscritô conhecido na cidade por falar mal de todo mundo, dotado de uma língua ferina e que era metido a criar polêmicas pelos jornais.
Frequentador esporádico do Bar do Armando, ele começou a fazer piadinhas sobre o cabelo do poeta.
Como o Simão já havia passado o rodo em uma das namoradas do babaca, eu deduzi que ele falava aquelas merdas todas de puro despeito.
A letra foi feita em cima disso.
Cabelo do Simão
O cabelo do Simão é cor de abóbora?
Não?! Verde limão, lilás, é furta-cor!
Também só na cabeça de poeta
É que namora jabuti com beija-flor
Deixa o cabelo do Simão
Não torra o saco
E procura o que fazer
Segura o rebolado da patroa
Senão na testa o chifre vai aparecer
O cabelo do Simão é cor de abóbora?
Não?! Verde limão, lilás, é furta-cor!
Também só na cabeça de poeta
É que avoa jabuti com beija-flor
Deixa o cabelo do Simão
Que aqui na BICA
O buraco é mais embaixo
Se tua língua é uma metralhadora
Aqui pra nós a tua fama é de viado!
A música Calçada Alta, eu fiz em homenagem a família do Sr. Antônio, que me conhece desde menino, possui um dos melhores restaurante de comida portuguesa de Manaus e também tinha a sua própria banda, que saiu durante dois anos e depois parou por causa das muitas brigas entre galerosos.
Como tema, eu aproveitei o cardápio do restaurante e fiz a letra em cima das comidas e bebidas que ali são vendidas.
Calçada Alta
Lá no Calçada a mesa é sempre farta
No seu cardápio você vai encontrar
Uma punheta, uns bolinhos
A patanisca e uma cerveja bem gelada
Pra molhar a garganta
De uma gente muito fina
Que não tem pressa
Pois a vida quer gozar
Agora traga, seu Antônio,
Traga o vinho
E uma bacalhoada
De fazer mudo falar
Só não esqueça de trazer
Antes da conta
Uma baba de moça
Pra minha boca adoçar
Em 1998, nós lançamos o CD “Banda da Bhaixa da Hégua”, que foi o primeiro disco de carnaval de rua gravado em Manaus. Até então, só as escolas de samba do grupo especial gravavam seus sambas enredos.
A BICA, por exemplo, só começou a gravar suas próprias músicas a partir de 2001, por iniciativa de Simão Pessoa e Mário Adolfo.
O nosso disco levou três anos para ser concluído. As primeiras músicas gravadas foram “Deixa de Fita” e “Menina”, em 95.
Em 96, nós gravamos “Bhanda da Bhaixa da Hégua”, “Ano Passado”, “Cabelo do Simão”, “Lista do Armando”, “Calçada Alta” e “Tira e Mete”.
Em 97, gravamos “Gandaia” e “Pout Pourri”.
Uma curiosidade: o “Pout Pourri da Bhaixa da Égua” possui música do Paraguaçu e do Renato Freitas, embora apareça nos créditos só o nome do Renato.
Isso se deu porque o Paraguaçu perdeu todos os documentos e a gravadora exigia identidade e CPF...
Pout Pourri da Bhaixa da Hégua
Autores: Renato Freitas e Paraguaçu
Intérprete: Amarildo Cerdeira
Vocais: Maria Edilene, Maria Belém e Elem Maria
Teclado, bateria, guitarra e baixo: Dino
Mixagem: Odias Monteiro
Pai d’égua, pai d’égua
Essa é a Bhanda da Bhaixa da Hégua
Tuturubim tê tê
Tic tac tambarola
Segure a sua hégua se não ela vai embora
A turma da Casa Ideal
Disse que a hégua é um calço legal
Legal
Oh, que hégua bacana
Oh, que hégua legal
Esse ano se veste de madame
Pra brincar o nosso carnaval
Quero pular, eu quero,
Quero brincar, eu quero,
Na Bhanda da Bhaixa da Hégua
Quero brincar, eu quero,
Quero pular, eu quero,
Com os meus amigos paidéguas
Salve o Educandos, salve a Casa Ideal
Essa noite eu me agarro com minha hégua
Só vou parar no fim do carnaval
Em 1995, por insistência do Aryzinho e da Elaine Ramos, eu fui visitar o pardieiro do Renato Freitas pela primeira vez, durante uma apresentação do grupo Pro-Álcool.
A Casa Ideal tinha um ambiente acolhedor, pessoas da melhor qualidade, papos interessantes, cervejas supergeladas, iscas variadas, mulheres de se casar no mesmo dia, enfim, um verdadeiro paraíso.
Foi quando resolvi tirar água da bexiga. O banheiro ficava no final do bar.
Não sei que merda me deu, mas, depois de urinar, resolvi meter a cara na pequena janela do banheiro, que funcionava como respiradouro do ambiente, para sondar a paisagem.
Quase morri de vertigem. Eu estava em cima de um vão livre de quase 50 m de altura.
Metade do bar estava incrustada no barranco, mas a outra metade estava sobre o rio Negro em pessoa.
E ele continuava lambendo furiosamente aquelas pernamancas que teimavam em sustentar o resto da casa.
Fiquei tão nervoso, que não quis mais beber cerveja. Mudei na mesma hora para uísque, uma velha estratégia utilizada pelos biriteiros para não perder tempo com banheiro.
Eu ia ficar completamente doido (bebida fermentada com bebida destilada, aprendam de uma vez por todas, sempre acaba em merda), mas não correria o risco de desabar junto com o banheiro dentro do rio Negro.
Caí na besteira de contar meus temores para a Elaine Ramos.
Em cinco minutos, eu já era o “vagabundo mais covarde, medroso e fuleiro que havia entrado na Casa Ideal”, segundo o dono do boteco, meu considerado Renato Freitas.
Pra terminar de me sacanear, os diretores da banda entravam no banheiro em turmas de cinco, seis, sete pessoas e faziam um sapateado infernal para mostrar a segurança do sanitário.
Eu achava aquilo extremamente divertido, mas nunca mais me aproximei daquela merda.
Em 2006, eu escrevia a coluna “Boca do Inferno”, no Correio Amazonense, quando recebi este release do Ary Castro:
Avisamos aos amigos paidéguas que a Bhanda Bhaixa da Hégua passou a se reunir no Bar do Bianor, em razão do tombamento da antiga sede da banda que era o Bar Casa Ideal (não foi terremoto e nem foi tombada pelo Governo, ela tombou, caiu, ruiu, foi prochon...).
A partir das 17 horas, a banda sai em carreata cumprindo o tradicional trajeto que abrange as ruas Manoel Urbano, Boulevard Sá Rio Negro, Rua Nova, Inácio Guimarães, etc, quando então retorna para a sua concentração, lá por volta das 20 horas.
Durante o percurso, a Bhanda Bhaixa da Hégua será recebida na Rua Nova pelo Bloco dos Assombrados, que com os seus brincantes engrossarão a massa que participa da carreata.
A animação da banda será feita pela Banda DX, Banda Laser, Embaixadores e Dente de Dragão.
Após o retorno da Rainha da Festa, a maravilhosa Hégua, uma boneca que possui os olhos e a boca da mulher do ex-presidente Fernando Collor de Melo, a fuzarca vai pegar fogo.
Queremos reafirmar que esses atributos que a Hégua possui não tem nenhum condão de desmerecer a ex-primeira-dama do Brasil, muito pelo contrário.
Os seus maravilhosos atributos estão sendo exaltados por merecimento, em uma homenagem do bairro de Educandos pra aquela belíssima senhora.
As camisas estão sendo vendidas ao preço de R$ 10, na concentração da banda.
Embora o desfile da banda se inicie às 12h, o seu término quem determina são os seus componentes e pelo andar da carruagem, este ano, deve terminar lá pelas 6h da manhã, quando os brincantes que sobreviverem à maratona etílica estarão tomando café na Feira da Panair.
Abraço do irmão Arycastro.
Em dezembro de 2010, o radialista Alcides Castro assumiu a presidência da banda e arregimentou uma turma da pesada para ajudá-lo a colocar o bloco na rua.
A nova turma dos paidéguas é formada por Socorro Lopes (madrinha da banda), Evergilton Mitoso Jr. (vice-presidente), João Branco (1º secretário), Marquinhos Fernandes (1º tesoureiro), Rubens Freitas (secretário-geral), Rodrigo Ferandes (2º tesoureiro), Tereza Brandão (2ª secretária), Beto Monteiro (diretor de Comunicação), Eduardo Jorge (Relações Públicas), Gerson Aranha (diretor de Divulgação), Silmara Barbosa (diretora Social), Maria Ana Monteiro (diretora de Patrimônio), Luce Elaine Andrade (diretora Jurídica), Carlota (diretora de Carnaval), Sandro Costa (diretor Cultural), Pedro Bruno (diretor de Apoio) e Guiomar Libório (diretora de Apoio).
Os abadás já estão à venda ao preço promocional de R$ 15, na Confraria do Marquinhos.
No próximo dia 13, domingo, acontece o primeiro “esquenta” da banda no curral do Bumbá Garanhão.
Os músicos já entraram em estúdio para gravação da música deste ano, que será apresentada oficialmente durante o primeiro “esquenta”.
A banda desfila sempre no domingo magro de carnaval, incendiando a Cidade Alta. Evoé, Momo!
Parece que foi ontem
Parece que foi ontem, mas a história rolou em alguma tarde de sábado de setembro de 1966.
Minha família havia se mudado recentemente para uma nova casa, na rua Parintins, quase no canto com a rua Borba, na média Cachoeirinha.
Eu tinha dez anos, fazia o 4.º ano primário no grupo escolar Getúlio Vargas e era viciado em HQs, hábito aprendido com meu primo José Alberto Batista, o Cazuza, que trabalhava como balconista da Livraria Acadêmica.
Morando desde os sete anos de idade na casa da tia Maria, mãe do Cazuza, aprendi a interpretar textos e desenhar histórias em quadrinhos por insistência das minhas primas (Raquel, Rossicler, Rosinete e Socorro), que usavam como material didático os gibis em consignação que o Cazuza trazia para ler em casa.
Nunca me passou pela cabeça que os gibis deveriam ser devolvidos no dia seguinte ou seriam descontados do salário do abnegado balconista.
Pra virar um “ladrão” de gibis, foi conta de multiplicar: bastou eu descobrir em que gaveteiro da casa o Cazuza entocava aquelas preciosidades.
Depois de muito chafurdar, sem despertar suspeitas a respeito de minhas intenções malévolas, descobri que ele mocozava os gibis na terceira gaveta de um armário de roupas que havia no corredor – e havia mais de dez armários de roupas na imensa casa da Tia Maria, espalhados por lugares inimagináveis.
Descoberta a mina, virei um garimpeiro infatigável. Não deu outra.
Fiquei viciado em gibis e, como soe acontecer nesse tipo de coisa, eu comecei a procurar outros adictos para repartir o vício comigo.
Minhas irmãs mais velhas, Simone e Silene, foram as escolhas naturais.
Socorro, Rossicler, Cazuza, sua esposa Lia, e Dani, filha dos dois
Não sei quantos gibis roubei do Cazuza para dar às meninas, mas foram centenas.
Ele não ter me dado muita porrada, diz mais do caráter dele do que do meu.
Quando deixei a casa da tia Maria, aos dez anos, para voltar a morar com meus pais, o Cazuza deve ter respirado aliviado.
Parei de dar prejuízos, claro, mas minha dívida para com ele continua impagável. Nos dois sentidos.
O certo é que com a quantidade de gibis acumulados em casa, eu poderia dar o grande salto – deixar de ser um simples viciado, para começar a “traficar” revistas de HQ. E foi isso que comecei a fazer.
Um de meus esportes favoritos, na época, passou a ser trocar gibis na porta do cine Ipiranga, logo após a sessão das 13h.
Não havia, nas trocas de gibis, o caráter de usura que hoje é a pedra de toque dos relacionamentos sociais: todo mundo querendo levar vantagem.
Naquela época, era perfeitamente normal você trocar um gibi do mês, novinho em folha, recendendo a leite, por um gibi de dez anos atrás, todo detonado, apenas porque você ainda não havia lido aquela história.
Como os gibis acabavam passando de mão em mão, era possível você ler uns 100 gibis em cinco meses apenas trocando os seus 20 gibis iniciais.
Não consigo imaginar escambo mais perfeito do que aquele.
Era uma média de 20, 25 moleques, cada um com cerca de 20 revistas na mão.
Você chegava junto e pedia para ver o acervo. Escolhia as que lhe agradavam.
O sujeito olhava o seu acervo. Escolhia as que lhe agradavam.
Aí, começavam as negociações propriamente ditas, com ênfase na data de lançamento de cada gibi.
- Esse meu “Capitão Marvel” de 1958 por esse seu “Super Homem” de 1963?... Só se você me der também esse “Bolinha” de 1961...
- Esse “Fantasma” colorido de 1965 por esse “Flexa Ligeira” de 1967? Só se você trocar esse “Kid Colt” de 1960 pelo “Aí, Mocinho!” de 1966...
No final da peleja, saía todo mundo satisfeito.
Aquele era um ritual sagrado cumprido todos os domingos e a gente sempre ia pra casa tendo alguma coisa nova pra curtir.
Minhas namoradinhas da época nunca entenderam porque eu perdia tanto tempo fazendo aquilo em vez de ficar do lado de suas casas, naquele beco mal iluminado, lhes encoxando pra valer, na maior fissura, na maior aflição, enquanto o seu lobo (pai) não vinha.
Eu, particularmente, até hoje não sei como responder. Mas que era bom ler gibis, isso era.
Quero crer que todo mundo que participou daquela presepada, hoje continua gostando de ler e que conseguiu evoluir profissionalmente. É no que acredito, sinceramente.
Apaixonado pela Ursula Andrews desde que ela surgira do meio do mar trajando um minúsculo biquíni (para os padrões dos anos 60!) no inesquecível filme O Satânico Dr. No, eu andava caçando a versão HQ do filme como um cavaleiro templário vagava pela Terra Santa em busca do Santo Graal.
Nesse sábado, em companhia da Simone e da Silene, fui pela primeira vez à feira livre da Cachoeirinha, que funcionava na rua J. Carlos Antony, em frente ao grupo escolar Carvalho Leal, estrategicamente localizado a apenas um quarteirão de nossa nova casa.
Enquanto elas escarafunchavam as barracas de estivas, legumes e verduras, eu fiquei literalmente hipnotizado em frente a uma quantidade indescritível de gibis à venda, arrumados displicentemente sobre folhas de jornais estendidas no chão.
Profissional do escambo, até então eu não sabia que se vendiam gibis usados.
Havia umas dez “bancas” improvisadas – ou mais de 250 gibis! – administradas por moleques da minha idade.
Uma delas era comandada por Roberval Wilkens (aka “Val”), um moleque de cabelos no ombro e um ar invocado de guerreiro apache.
Sua banca era frequentada basicamente por adolescentes femininas em busca de Capricho, Grande Hotel, Sétimo Céu, Noturno, Ilusão, Encanto, Fascinação, Carinho e outras revistas de fotonovelas.
Minhas irmãs colecionavam aquele tipo de revista e como Val era sócio de meu primo Giovanni Bandeira no empreendimento, deduzi que meu primo estava surrupiando algumas revistas das meninas para vender na feira. Mas não denunciei a presepada.
Para quem não se recorda mais, a fotonovela apresenta uma narrativa que utiliza em conjunto a fotografia e o texto verbal.
Como nas histórias em quadrinhos desenhadas, cada quadrinho da sequência corresponde a uma cena da história, ou seja, cada fotografia era acompanhada de uma mensagem textual, com balões ilustrando os diálogos.
A característica principal das histórias era a intriga sentimental, geralmente apresentando uma heroína de origem humilde que luta por um amor difícil e complicado, alcançando seu objetivo de felicidade no final da narrativa.
Alguns personagens das fotonovelas eram famosos como Michella Roc, Sandro Moretti, Rosana Galli e Franco Gasparri. Na falta de gibis novos, eu lia muita fotonovela.
Em dupla ou separados, Val e Gigio aplicavam semanalmente o golpe da “sacola plástica” nas livrarias Acadêmica e Colegial.
O golpe era simples, mas exigia precisão e sangue frio.
Você comprava um gibi, pagava e recebia a revista dentro de uma sacola plástica.
Aí, em vez de ir embora pra casa, você entrava de novo na livraria.
Daí, era só driblar a vigilância dos balconistas e colocar dentro da sacola plástica quantos gibis coubessem.
Dependendo do tamanho da sacola, era possível surrupiar até cinco gibis de uma só tacada.
Como a sacola vinha com o logotipo da livraria, nenhum balconista tinha coragem de parar o punguista eventual para conferir o conteúdo da sacola.
Por conta disso, aquela era uma das poucas bancas da feira da Cachoeirinha que vendia gibis novinhos em folha.
Val e Gigio eram dois ladrões de respeito.
A banca comandada pelo Antônio Luiz (aka “professor Lua”) era especializada em gibis de terceira linha, ou seja, literatura trash da pior qualidade. Explico melhor.
Havia os gibis clássicos de primeira linha, quase todos editados pela Ebal (Editora Brasil América), RGE (Rio Gráfica Editora) e La Selva: Tarzan, Superman, Fantasma, Mandrake, Batman, Zorro, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Nick Holmes, Rock Lane, Thor, Homem de Ferro, Aí, Mocinho!, Buck Jones, Kit Carson, Don Chicote, Ferdinando, Brucutu, Flash Gordon, Jerônimo, Pernalonga, Recruta Zero, Dick Tracy, Texas Kid, Frajola e Piupiu, Kid Colt, Reis do Faroeste, Gunsmoke, Cheyenne, etc.
Esses eram os mais valiosos na hora de fazer escambo.
Havia os gibis de segunda linha, editados pelas editoras Vecchi, O Cruzeiro e Abril: Gasparzinho, Brasinha, Bolinha, Luluzinha, Pimentinha, Bolota, Tininha, Brotoeja, Riquinho, Robin Hood, Kid Colt, Cisco Kid, Tex, Skorpio e todos os personagens clássicos do Walt Disney.
Na base da camaradagem, era possível trocar dois gibis de segunda linha por um de primeira linha.
E, finalmente, havia os gibis de terceira linha, quase todos de desenhistas nacionais e editados por pequenas gráficas de fundo de quintal: Kripta, Histórias do Além, Sobrenatural, Combate, Pesadelo, Drácula, A Filha do Drácula, Lobisomen, A Múmia, Capitão Mistério, etc.
Também na base da camaradagem, era possível trocar três gibis de terceira linha por um de segunda linha.
O meu futuro amigo Antônio Lua era o rei dos quadrinhos trash.
Nesse dia, descobri a versão HQ do filme do James Bond em uma das bancas.
Perguntei o preço. Um índio baniwa, com cara de poucos amigos, resmungou qualquer coisa, que, a mim, me pareceu uma pequena fortuna.
Argumentei que aquilo era o preço superfaturado de um gibi novinho em folha, ainda na prateleira da livraria.
O índio resmungou outra coisa que, na língua dele, devia significar “quer comprar, compra, cara-pálida, não quer, vai tomar onde as patas tomam!”.
Saí de lá cuspindo fogo.
Passei o resto da tarde convencendo minhas irmãs a me emprestarem uns caraminguás para inteirar com a merreca da minha mesada e ir comprar o maldito livro.
Aquilo havia virado uma questão de honra.
Não sei quais foram as bases do acordo para receber o empréstimo, mas lembro que passei uns três meses fazendo trabalhos escolares delas duas.
Sim, a Ursula Andrews, saindo do mar em um minúsculo biquíni (para a época, porra, para a época!), valia o sacrifício...
Retornei à feira livre por volta das sete da noite. O baniwa estava empilhando as revistas para ir embora.
Ele era o último dos moicanos, os outros vendedores de gibis já haviam se mandado.
Sem dizer uma palavra, contei a grana na frente dele, entreguei, remexi a pilha de gibis, retirei “O Satânico Dr. No”, coloquei debaixo do braço e já ia meter o pé na carreira quando o índio escroto me interpelou:
– Escuta aqui, bicho! Não dá pra ti me ajudar a levar essas revistas até a minha casa? É aqui perto, ali na Borba quase no canto da Parintins...
Como era o meu caminho natural, resolvi ajudá-lo.
Dividimos os mais de 60 gibis em duas pilhas, cada um colocou a sua na cabeça e fomos conversando até a casa dele.
O baniwa tinha doze anos e se chamava Mário Adolfo.
Era o único homem em uma prole de sete irmãos (ele, Mércia, Marilúcia, Marília, Mary Jane, Maud e Mônica). Sua mãe, Dona Inês Aryce de Castro, era viúva.
Mary Jane, Mônica, Mário Adolfo, Maud, Marília, Mércia e Marilúcia, durante o aniversário de 90 anos de Dona Inês, celebrado em agosto do ano passado, em Goiânia
Ele também era viciado em gibis, mas aqueles não eram dele, eram do Chico Costa, um vizinho meio “unha-de-fome”. Daí os preços salgados e a impossibilidade de barganhar. Se baixasse o preço, Chico Costa descontava na sua (dele) comissão.
A sinceridade do baniwa desarmou completamente o meu instinto homicida. Confesso que ainda estava com ânsia de esganá-lo.
O certo é que, já me sentindo menos otário (comprar um gibi pelo, sei lá, quase o dobro do preço de capa, só mesmo gostando muito da Ursula Andrews de biquíni...), resolvi entrar no jogo.
Falei que era novo na rua, não conhecia ninguém, estava meio perdido.
Mário Adolfo me convidou para jogarmos bola na manhã de domingo, num campinho que havia perto de sua casa, onde me apresentaria para a garotada do lugar.
Resumindo: sem sequer me conhecer direito, virou uma espécie de salvo-conduto naquele território (pra mim) ainda meio hostil.
Esse tipo de coisa, ninguém esquece. Ainda mais, quando só se tem dez anos.
No dia seguinte, por volta das 9h da manhã, Mário Adolfo passou em casa.
Fomos até o campinho, que ficava por detrás de uma vila de madeira, na rua Borba, a uns 30 metros da residência dele.
Nos anos 80, a vila e o campinho se transformariam na quadra coberta do GRES Andanças de Ciganos.
Lá conheci meus primeiros amigos do pedaço: Sidão Ribeiro, os irmãos Fábio, Fernando e Chico Costa, Becão, Renan, Zequinha, Nôca, Negão, Neguinho, Tião, Rener, Luiz Lobão et caterva.
Nesse dia, após uma estreia desastrada do novo ponta-de-lança (eu, evidentemente), o time do Mário Adolfo, que era goleiro, levou uma sonora goleada.
Enquanto aguardávamos uma nova oportunidade (os jogos eram no sistema “ganha, chama”, mas, por causa da quantidade de times, quem perdesse esperava uns 40 minutos para jogar de novo), ficamos conversando sentados ao pé de uma mangueira.
Mário Adolfo pegou um graveto, limpou a areia com os pés, e, sem parar de conversar, desenhou a cara do Fantasma.
Eu fiz a mesma coisa, mas desenhei o Águia Negra. Mário ficou entusiasmado:
– Égua, bicho, tu também sabe desenhar?...
Deve ter sido um alumbramento mútuo, pois esquecemos completamente o futebol para discutir enredos imaginários de HQs, que gostaríamos de desenhar (trabalho ao qual nos entregaríamos de corpo e alma pelos próximos seis anos).
Desse dia em diante, nos transformamos em verdadeiros blood brothers (“irmãos de sangue”), apesar de o sacana ser botafoguense doente e adorar Lupicínio Rodrigues enquanto eu sou vascaíno sadio e prefiro o Led Zeppelin.
Aliás, a própria Dona Inês me tem como filho até hoje – e a recíproca desse amor filial é verdadeira. Não é pouca porcaria.
No sábado seguinte, eu havia me transformado em auxiliar do Mário Adolfo na venda de gibis usados na feira da Cachoeirinha.
Nessa foto abaixo, peguei alguns de meus gibis e fiz uma simulação de como era a nossa banca na feira-livre.
Nessa outra, fiz uma simulação de como era a banca de Gigio e Val.
A qualidade dos nossos gibis (meus e do Mário Adolfo) era muito melhor, não era não?
Parece que foi ontem, mas já faz 45 anos.
E guardo o livro do James Bond comigo até hoje, como se fosse uma espécie de talismã.
Na tarde da última quinta-feira, eu estive na casa do Mário Adolfo para auxiliá-lo a colocar sua roupa de astronauta e adentrar no fantástico mundo da web.
Aluno aplicado, ele já aprendeu a scannear e postar fotos no Facebook, e também já começou a fazer seu próprio blog.
Daqui a dois meses, o mais novo desbravador dos sete mares da internet vai precisar ter um domínio completo sobre essas ferramentas.
O fato é que eu e Mário Adolfo vamos estrear um portal de humor na web, ressuscitando o assaz desbundado Candiru, o jornal de maior penetração da Amazônia, e com uma seção inteiramente voltada para as histórias em quadrinhos.
A presepada deverá rolar depois do carnaval.
O New York Times informará.
Minha família havia se mudado recentemente para uma nova casa, na rua Parintins, quase no canto com a rua Borba, na média Cachoeirinha.
Eu tinha dez anos, fazia o 4.º ano primário no grupo escolar Getúlio Vargas e era viciado em HQs, hábito aprendido com meu primo José Alberto Batista, o Cazuza, que trabalhava como balconista da Livraria Acadêmica.
Morando desde os sete anos de idade na casa da tia Maria, mãe do Cazuza, aprendi a interpretar textos e desenhar histórias em quadrinhos por insistência das minhas primas (Raquel, Rossicler, Rosinete e Socorro), que usavam como material didático os gibis em consignação que o Cazuza trazia para ler em casa.
Nunca me passou pela cabeça que os gibis deveriam ser devolvidos no dia seguinte ou seriam descontados do salário do abnegado balconista.
Pra virar um “ladrão” de gibis, foi conta de multiplicar: bastou eu descobrir em que gaveteiro da casa o Cazuza entocava aquelas preciosidades.
Depois de muito chafurdar, sem despertar suspeitas a respeito de minhas intenções malévolas, descobri que ele mocozava os gibis na terceira gaveta de um armário de roupas que havia no corredor – e havia mais de dez armários de roupas na imensa casa da Tia Maria, espalhados por lugares inimagináveis.
Descoberta a mina, virei um garimpeiro infatigável. Não deu outra.
Fiquei viciado em gibis e, como soe acontecer nesse tipo de coisa, eu comecei a procurar outros adictos para repartir o vício comigo.
Minhas irmãs mais velhas, Simone e Silene, foram as escolhas naturais.
Socorro, Rossicler, Cazuza, sua esposa Lia, e Dani, filha dos dois
Não sei quantos gibis roubei do Cazuza para dar às meninas, mas foram centenas.
Ele não ter me dado muita porrada, diz mais do caráter dele do que do meu.
Quando deixei a casa da tia Maria, aos dez anos, para voltar a morar com meus pais, o Cazuza deve ter respirado aliviado.
Parei de dar prejuízos, claro, mas minha dívida para com ele continua impagável. Nos dois sentidos.
O certo é que com a quantidade de gibis acumulados em casa, eu poderia dar o grande salto – deixar de ser um simples viciado, para começar a “traficar” revistas de HQ. E foi isso que comecei a fazer.
Um de meus esportes favoritos, na época, passou a ser trocar gibis na porta do cine Ipiranga, logo após a sessão das 13h.
Não havia, nas trocas de gibis, o caráter de usura que hoje é a pedra de toque dos relacionamentos sociais: todo mundo querendo levar vantagem.
Naquela época, era perfeitamente normal você trocar um gibi do mês, novinho em folha, recendendo a leite, por um gibi de dez anos atrás, todo detonado, apenas porque você ainda não havia lido aquela história.
Como os gibis acabavam passando de mão em mão, era possível você ler uns 100 gibis em cinco meses apenas trocando os seus 20 gibis iniciais.
Não consigo imaginar escambo mais perfeito do que aquele.
Era uma média de 20, 25 moleques, cada um com cerca de 20 revistas na mão.
Você chegava junto e pedia para ver o acervo. Escolhia as que lhe agradavam.
O sujeito olhava o seu acervo. Escolhia as que lhe agradavam.
Aí, começavam as negociações propriamente ditas, com ênfase na data de lançamento de cada gibi.
- Esse meu “Capitão Marvel” de 1958 por esse seu “Super Homem” de 1963?... Só se você me der também esse “Bolinha” de 1961...
- Esse “Fantasma” colorido de 1965 por esse “Flexa Ligeira” de 1967? Só se você trocar esse “Kid Colt” de 1960 pelo “Aí, Mocinho!” de 1966...
No final da peleja, saía todo mundo satisfeito.
Aquele era um ritual sagrado cumprido todos os domingos e a gente sempre ia pra casa tendo alguma coisa nova pra curtir.
Minhas namoradinhas da época nunca entenderam porque eu perdia tanto tempo fazendo aquilo em vez de ficar do lado de suas casas, naquele beco mal iluminado, lhes encoxando pra valer, na maior fissura, na maior aflição, enquanto o seu lobo (pai) não vinha.
Eu, particularmente, até hoje não sei como responder. Mas que era bom ler gibis, isso era.
Quero crer que todo mundo que participou daquela presepada, hoje continua gostando de ler e que conseguiu evoluir profissionalmente. É no que acredito, sinceramente.
Apaixonado pela Ursula Andrews desde que ela surgira do meio do mar trajando um minúsculo biquíni (para os padrões dos anos 60!) no inesquecível filme O Satânico Dr. No, eu andava caçando a versão HQ do filme como um cavaleiro templário vagava pela Terra Santa em busca do Santo Graal.
Nesse sábado, em companhia da Simone e da Silene, fui pela primeira vez à feira livre da Cachoeirinha, que funcionava na rua J. Carlos Antony, em frente ao grupo escolar Carvalho Leal, estrategicamente localizado a apenas um quarteirão de nossa nova casa.
Enquanto elas escarafunchavam as barracas de estivas, legumes e verduras, eu fiquei literalmente hipnotizado em frente a uma quantidade indescritível de gibis à venda, arrumados displicentemente sobre folhas de jornais estendidas no chão.
Profissional do escambo, até então eu não sabia que se vendiam gibis usados.
Havia umas dez “bancas” improvisadas – ou mais de 250 gibis! – administradas por moleques da minha idade.
Uma delas era comandada por Roberval Wilkens (aka “Val”), um moleque de cabelos no ombro e um ar invocado de guerreiro apache.
Sua banca era frequentada basicamente por adolescentes femininas em busca de Capricho, Grande Hotel, Sétimo Céu, Noturno, Ilusão, Encanto, Fascinação, Carinho e outras revistas de fotonovelas.
Minhas irmãs colecionavam aquele tipo de revista e como Val era sócio de meu primo Giovanni Bandeira no empreendimento, deduzi que meu primo estava surrupiando algumas revistas das meninas para vender na feira. Mas não denunciei a presepada.
Para quem não se recorda mais, a fotonovela apresenta uma narrativa que utiliza em conjunto a fotografia e o texto verbal.
Como nas histórias em quadrinhos desenhadas, cada quadrinho da sequência corresponde a uma cena da história, ou seja, cada fotografia era acompanhada de uma mensagem textual, com balões ilustrando os diálogos.
A característica principal das histórias era a intriga sentimental, geralmente apresentando uma heroína de origem humilde que luta por um amor difícil e complicado, alcançando seu objetivo de felicidade no final da narrativa.
Alguns personagens das fotonovelas eram famosos como Michella Roc, Sandro Moretti, Rosana Galli e Franco Gasparri. Na falta de gibis novos, eu lia muita fotonovela.
Em dupla ou separados, Val e Gigio aplicavam semanalmente o golpe da “sacola plástica” nas livrarias Acadêmica e Colegial.
O golpe era simples, mas exigia precisão e sangue frio.
Você comprava um gibi, pagava e recebia a revista dentro de uma sacola plástica.
Aí, em vez de ir embora pra casa, você entrava de novo na livraria.
Daí, era só driblar a vigilância dos balconistas e colocar dentro da sacola plástica quantos gibis coubessem.
Dependendo do tamanho da sacola, era possível surrupiar até cinco gibis de uma só tacada.
Como a sacola vinha com o logotipo da livraria, nenhum balconista tinha coragem de parar o punguista eventual para conferir o conteúdo da sacola.
Por conta disso, aquela era uma das poucas bancas da feira da Cachoeirinha que vendia gibis novinhos em folha.
Val e Gigio eram dois ladrões de respeito.
A banca comandada pelo Antônio Luiz (aka “professor Lua”) era especializada em gibis de terceira linha, ou seja, literatura trash da pior qualidade. Explico melhor.
Havia os gibis clássicos de primeira linha, quase todos editados pela Ebal (Editora Brasil América), RGE (Rio Gráfica Editora) e La Selva: Tarzan, Superman, Fantasma, Mandrake, Batman, Zorro, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Nick Holmes, Rock Lane, Thor, Homem de Ferro, Aí, Mocinho!, Buck Jones, Kit Carson, Don Chicote, Ferdinando, Brucutu, Flash Gordon, Jerônimo, Pernalonga, Recruta Zero, Dick Tracy, Texas Kid, Frajola e Piupiu, Kid Colt, Reis do Faroeste, Gunsmoke, Cheyenne, etc.
Esses eram os mais valiosos na hora de fazer escambo.
Havia os gibis de segunda linha, editados pelas editoras Vecchi, O Cruzeiro e Abril: Gasparzinho, Brasinha, Bolinha, Luluzinha, Pimentinha, Bolota, Tininha, Brotoeja, Riquinho, Robin Hood, Kid Colt, Cisco Kid, Tex, Skorpio e todos os personagens clássicos do Walt Disney.
Na base da camaradagem, era possível trocar dois gibis de segunda linha por um de primeira linha.
E, finalmente, havia os gibis de terceira linha, quase todos de desenhistas nacionais e editados por pequenas gráficas de fundo de quintal: Kripta, Histórias do Além, Sobrenatural, Combate, Pesadelo, Drácula, A Filha do Drácula, Lobisomen, A Múmia, Capitão Mistério, etc.
Também na base da camaradagem, era possível trocar três gibis de terceira linha por um de segunda linha.
O meu futuro amigo Antônio Lua era o rei dos quadrinhos trash.
Nesse dia, descobri a versão HQ do filme do James Bond em uma das bancas.
Perguntei o preço. Um índio baniwa, com cara de poucos amigos, resmungou qualquer coisa, que, a mim, me pareceu uma pequena fortuna.
Argumentei que aquilo era o preço superfaturado de um gibi novinho em folha, ainda na prateleira da livraria.
O índio resmungou outra coisa que, na língua dele, devia significar “quer comprar, compra, cara-pálida, não quer, vai tomar onde as patas tomam!”.
Saí de lá cuspindo fogo.
Passei o resto da tarde convencendo minhas irmãs a me emprestarem uns caraminguás para inteirar com a merreca da minha mesada e ir comprar o maldito livro.
Aquilo havia virado uma questão de honra.
Não sei quais foram as bases do acordo para receber o empréstimo, mas lembro que passei uns três meses fazendo trabalhos escolares delas duas.
Sim, a Ursula Andrews, saindo do mar em um minúsculo biquíni (para a época, porra, para a época!), valia o sacrifício...
Retornei à feira livre por volta das sete da noite. O baniwa estava empilhando as revistas para ir embora.
Ele era o último dos moicanos, os outros vendedores de gibis já haviam se mandado.
Sem dizer uma palavra, contei a grana na frente dele, entreguei, remexi a pilha de gibis, retirei “O Satânico Dr. No”, coloquei debaixo do braço e já ia meter o pé na carreira quando o índio escroto me interpelou:
– Escuta aqui, bicho! Não dá pra ti me ajudar a levar essas revistas até a minha casa? É aqui perto, ali na Borba quase no canto da Parintins...
Como era o meu caminho natural, resolvi ajudá-lo.
Dividimos os mais de 60 gibis em duas pilhas, cada um colocou a sua na cabeça e fomos conversando até a casa dele.
O baniwa tinha doze anos e se chamava Mário Adolfo.
Era o único homem em uma prole de sete irmãos (ele, Mércia, Marilúcia, Marília, Mary Jane, Maud e Mônica). Sua mãe, Dona Inês Aryce de Castro, era viúva.
Mary Jane, Mônica, Mário Adolfo, Maud, Marília, Mércia e Marilúcia, durante o aniversário de 90 anos de Dona Inês, celebrado em agosto do ano passado, em Goiânia
Ele também era viciado em gibis, mas aqueles não eram dele, eram do Chico Costa, um vizinho meio “unha-de-fome”. Daí os preços salgados e a impossibilidade de barganhar. Se baixasse o preço, Chico Costa descontava na sua (dele) comissão.
A sinceridade do baniwa desarmou completamente o meu instinto homicida. Confesso que ainda estava com ânsia de esganá-lo.
O certo é que, já me sentindo menos otário (comprar um gibi pelo, sei lá, quase o dobro do preço de capa, só mesmo gostando muito da Ursula Andrews de biquíni...), resolvi entrar no jogo.
Falei que era novo na rua, não conhecia ninguém, estava meio perdido.
Mário Adolfo me convidou para jogarmos bola na manhã de domingo, num campinho que havia perto de sua casa, onde me apresentaria para a garotada do lugar.
Resumindo: sem sequer me conhecer direito, virou uma espécie de salvo-conduto naquele território (pra mim) ainda meio hostil.
Esse tipo de coisa, ninguém esquece. Ainda mais, quando só se tem dez anos.
No dia seguinte, por volta das 9h da manhã, Mário Adolfo passou em casa.
Fomos até o campinho, que ficava por detrás de uma vila de madeira, na rua Borba, a uns 30 metros da residência dele.
Nos anos 80, a vila e o campinho se transformariam na quadra coberta do GRES Andanças de Ciganos.
Lá conheci meus primeiros amigos do pedaço: Sidão Ribeiro, os irmãos Fábio, Fernando e Chico Costa, Becão, Renan, Zequinha, Nôca, Negão, Neguinho, Tião, Rener, Luiz Lobão et caterva.
Nesse dia, após uma estreia desastrada do novo ponta-de-lança (eu, evidentemente), o time do Mário Adolfo, que era goleiro, levou uma sonora goleada.
Enquanto aguardávamos uma nova oportunidade (os jogos eram no sistema “ganha, chama”, mas, por causa da quantidade de times, quem perdesse esperava uns 40 minutos para jogar de novo), ficamos conversando sentados ao pé de uma mangueira.
Mário Adolfo pegou um graveto, limpou a areia com os pés, e, sem parar de conversar, desenhou a cara do Fantasma.
Eu fiz a mesma coisa, mas desenhei o Águia Negra. Mário ficou entusiasmado:
– Égua, bicho, tu também sabe desenhar?...
Deve ter sido um alumbramento mútuo, pois esquecemos completamente o futebol para discutir enredos imaginários de HQs, que gostaríamos de desenhar (trabalho ao qual nos entregaríamos de corpo e alma pelos próximos seis anos).
Desse dia em diante, nos transformamos em verdadeiros blood brothers (“irmãos de sangue”), apesar de o sacana ser botafoguense doente e adorar Lupicínio Rodrigues enquanto eu sou vascaíno sadio e prefiro o Led Zeppelin.
Aliás, a própria Dona Inês me tem como filho até hoje – e a recíproca desse amor filial é verdadeira. Não é pouca porcaria.
No sábado seguinte, eu havia me transformado em auxiliar do Mário Adolfo na venda de gibis usados na feira da Cachoeirinha.
Nessa foto abaixo, peguei alguns de meus gibis e fiz uma simulação de como era a nossa banca na feira-livre.
Nessa outra, fiz uma simulação de como era a banca de Gigio e Val.
A qualidade dos nossos gibis (meus e do Mário Adolfo) era muito melhor, não era não?
Parece que foi ontem, mas já faz 45 anos.
E guardo o livro do James Bond comigo até hoje, como se fosse uma espécie de talismã.
Na tarde da última quinta-feira, eu estive na casa do Mário Adolfo para auxiliá-lo a colocar sua roupa de astronauta e adentrar no fantástico mundo da web.
Aluno aplicado, ele já aprendeu a scannear e postar fotos no Facebook, e também já começou a fazer seu próprio blog.
Daqui a dois meses, o mais novo desbravador dos sete mares da internet vai precisar ter um domínio completo sobre essas ferramentas.
O fato é que eu e Mário Adolfo vamos estrear um portal de humor na web, ressuscitando o assaz desbundado Candiru, o jornal de maior penetração da Amazônia, e com uma seção inteiramente voltada para as histórias em quadrinhos.
A presepada deverá rolar depois do carnaval.
O New York Times informará.
Ah, antes que eu me esqueça. O Mário Adolfo fez aniversário ontem e seu filho caçula, o publicitário Marcus Vinicius, fez aniversário no dia 1º.
Aos dois, os meus parabéns e votos de sucesso em suas respectivas vidas amorosas e carreiras profissionais!
Noblesse oblige.
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Causos de Bambas: Marise Miranda Freitas
Anos 70. Marise Miranda Freitas, então casada com o diplomata Gil Ouro Preto, morava em Teerã, onde o marido servia.
Mesmo para o pessoal da embaixada, a vida na capital do Irã não era fácil e mesmo com as tentativas de europeização do país promovidas pelo Xá Rehza Pahlevi os costumes continuaram indelevelmente marcados na alma do povo.
Certa vez, Marise esperava sua vez numa extensa fila para compra de mantimentos.
Ela estava usando um conjunto jeans que tinha nas costas seu nome, Marise, escrito com tachas cromadas da mesma forma que todas as costuras da roupa.
Como notou que as pessoas se afstavam dela com visível receio, pensou que a falta do chador, moralmente obrigatório, fosse a razão da debandada.
De qualquer forma, aproveitou o esvaziamento da fila para fazer suas compras.
Mais tarde apurou o mistério.
Marise em farci, língua local, quer dizer doente.
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