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sábado, julho 30, 2016

O 14º Festival Folclórico do Amazonas (1970)


Em 1965, a Família Hauache surpreendeu o Brasil ao implantar uma das primeiras operadoras de TV a cabo do país, a TV Manauara, que atendia apenas duas ruas e duas avenidas no centro da cidade e retransmitia a programação da Rede Record, a vice-líder de audiência do país.

Até então, Manaus não possuía emissora própria, mas algumas residências já tinham aparelhos de televisão (cerca de 2 mil televisores, em uma população de 220 mil habitantes), que na época recebiam sinais vindos do Canal 2 da RCTV, emissora de Caracas, Venezuela, e do Canal 2 da TV Marajoara, de Belém (PA), ambos de péssima imagem, com excesso de ruídos e chuvisco. Foi quando surgiu a instituição dos “televizinhos”, pessoas que se aglomeravam nas janelas das residências para assistir os programas.

A TV Manauara era difícil de ser mantida em virtude de constantes problemas de corte dos cabos por causa das linhas de papagaio revestidas de cerol (mistura feita de cola e vidro moído). A tevê também não era viável economicamente por que era quase impossível atender aos pedidos de moradores para ampliar o cabeamento, que exigia uma operação de grande dificuldade técnica e custo extorsivo.

Foi quando a Família Hauache participou de uma nova licitação do governo federal e obteve a concessão de um canal em TV aberta, batizada de TV Ajuricaba, inaugurada em 5 de setembro de 1967.

Tendo à frente do empreendimento a empresária e jornalista Sadie Hauache, a TV Ajuricaba (Canal 38 UHF) se tornou a primeira emissora de televisão aberta implantada no Amazonas e foi ao ar pela primeira vez sob o comando do apresentador Heron Rizzato. A emissora retransmitia a programação da TV Tupi, a líder de audiência no país.

Com a implantação da ZFM, as lojas de produtos eletroeletrônicos começaram a vender televisores importados, das marcas Nivico, Sharp, Telefunken e Philips, entre outros, mas havia um pequeno problema: além do preço salgado, os televisores ainda precisavam ser pagos à vista. A imensa maioria das importadoras não trabalhava com crediário. Comprar televisor em Manaus era um bom negócio, mas apenas para turistas endinheirados.

Interessada em aumentar sua audiência, a TV Ajuricaba fez um acordo com as grandes lojas da cidade: se vendessem televisores à população pelo crediário, ganhariam descontos especiais nos anúncios veiculados na emissora. As lojas Bemol, TV Lar, Credilar, Rivera, S. Monteiro, Malva, Credialves, Moto Importadora e Lojas das Geladeiras, entre outras, resolveram entrar no jogo e pagar (ou melhor, financiar) pra ver.  As vendas de televisores explodiram.

Em pouco tempo, cerca de 10% das residências já possuíam a “máquina de fazer doido”. Foi para aproveitar esse “boom” que surgiu uma das primeiras e mais antigas agências de publicidade do Amazonas, a Oana Publicidade, dos irmãos paulistas Edward e Edmar Costa, fundada em maio de 1970 e em atividade até hoje, que tornou os comerciais de televisão mais criativos, inovadores e interessantes.

O Festival Folclórico do Amazonas havia acabado de encontrar seu inimigo mais poderoso: a televisão aberta.


O jornalista Luiz Verçosa, que vinha coordenando o festival desde a saída do jornalista Bianor Garcia, em 1964, também resolveu deixar a função, alegando “motivos particulares”, e foi substituído pelo jornalista Edmilson Rosas.

Após penosas negociações com o Governo do Estado, Rosas obteve uma pequena vitória: conseguiu um aumento na ajuda de custo para todos os grupos folclóricos no valor de NCR$ 1.000,00 (R$ 10 mil, em valores de hoje).

Na sequência, Edmilson Rosas conseguiu montar uma Comissão Julgadora de alto nível, formada pelo desembargador João Rebelo Correa (presidente), Gebes Medeiros, Dirson Costa, André Jobim, Moacyr Andrade, Garcitilzo do Lago e Silva, Elson Farias e Guanabara Araújo, todos renomados intelectuais manauaras.

Entre os convidados de honra daquele ano estavam a Condessa Pereira Carneiro, diretora-presidente do Jornal do Brasil, o general Arnaldo Calderari e sua esposa, dona Amélia Calderari, Enzo Boscolo, diretor de vendas da companhia aérea Cruzeiro em Buenos Aires, e sua esposa, dona Olga Boscolo, Jorge Pereira, renomado publicitário de São Paulo e diversos diretores da Cruzeiro.

Essa comitiva de quase 20 pessoas foi ciceroneada pessoalmente por Maria de Lourdes Archer Pinto, diretora-presidente da Empresa Archer Pinto, com direito a estadia em regime de boca livre total no Hotel Amazonas, almoço no restaurante Chapéu de Palha, jantar no Ideal Clube, tour pela cidade visitando a Ponta Negra, Tarumã, Teatro Amazonas e Mercado Municipal, passeio de iate pelo “Encontro das Águas” e Lago do Reis, compras na Zona Franca de Manaus, almoço no restaurante Recanto Tropical, jantar no restaurante Kavaco, etc. Tudo free.

Dizem as más línguas que foi esse tipo de vida perdulária da diretora dos jornais que fez a empresa naufragar alguns anos depois, na mais completa insolvência financeira, devendo a Deus e ao mundo.


No dia 2 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Inscrições para o Festão do Povo serão encerradas hoje às 18 horas”:

Hoje é o último dia das inscrições dos diversos grupos que irão participar do Festão do Povo, a maior festa folclórica do norte e nordeste do país. O prazo expira às 18 horas, sendo de se salientar que os interessados devem comparecer, para não que não haja problemas com as suas participações.

APELO – Por outro lado, tendo em vista uma determinação do Juizado de Menores, exigindo a apresentação de certidão de idade para todos os menores que irão participar dos grupos, a Coordenação do Festival está solicitando às autoridades colaboração, no sentido de tornar menos rígida aquela exigência, levando-se em consideração o pouco tempo que resta para que seja iniciado o Festival. Naturalmente, o Juizado de Menores deverá levar em consideração a importância do Festão para o programa turístico do Estado todos os anos e dar sua colaboração.

QUASE TRINTA – O total de inscrições de grupos, entre quadrilhas, bumbás, garrotes, danças regionais e outros, até a noite de ontem, era de quase trinta. Esse total poderá ser aumentado hoje, já que o interesse do povo pelo Festival vem aumentando a cada dia que passa.

Grupos como a Dança da Caninha Verde que, inclusive, já ganhou dois anos consecutivos o título de “melhor do ano”, já estão inscritos. A Caninha Verde está sendo ensaiada com 60 participantes, pelo professor Ivo Moraes, no Grupo Escolar Diana Pinheiro, na Estrada do Paredão, devendo se constituir num dos grandes grupos do ano.

Também a Dança Regional do Pilão está inscrita, devendo ser esta a sua segunda participação, com 40 brincantes, estando os ensaios sendo realizados na sede do São Jorge, no bairro da Colônia Oliveira Machado.

ENSAIOS INTENSOS – Alguns grupos estão desenvolvendo intensos ensaios como é o caso do bumbá Garantido, em São Jorge, com o seu principal incentivador, sr. Antônio Alcântara, realizando encontros com os brincantes, todas as noites, na rua da Cachoeira, 233.

O bumbá Corre Campo promete, este ano, ser um dos mais movimentados. Depois de cinco anos ausente do Festão do Povo, vai voltar. Terá nada menos que 60 brincantes e uma batucada de mais de 30 pessoas.


Dessa vez somente 39 grupos se inscreveram, a menor participação de brincantes na festa desde 1958. Foi como se o festival tivesse regredido uma década:

Bumbás: Corre Campo, Tira Prosa, Mina de Ouro, Tira Teima e Garantido.

Garrotes: Luz de Guerra, Douradinho, Canarinho, Dois de Ouro, Malhado, Pena de Ouro e Vencedor.

Pássaros: Jaçanã e Papagaio.

Tribos: Andirás, Maués e Manaú.

Danças regionais: Maracatu, Cacetinho (Tarianos), Caninha Verde, Pilão e Arara.

Danças nordestinas: Cabras do Lampião, Nordeste Sangrento e Cangaceiros do Lampião.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem, Araruama na Roça, Rosa Silvestre, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos de São Francisco, Castelinho na Roça, Coroné Jão e Amazonas.

Quadrilhas infantis: Curumins da Colina, Araruaminha na Roça, Americanos na Roça, Brotinhos de São Lázaro, Caboclinhos do Amazonas e Filhos do Primo do Cangaceiro.


No dia 5 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo tem encontro hoje na Fundação”:

Os responsáveis por conjuntos inscritos no XIV Festival Folclórico do Amazonas devem comparecer hoje, às 10,30 horas, à Fundação Cultural do Amazonas, oportunidade em que serão tratados assuntos de máxima importância para ele.

Para o encontro de hoje estão convidados os representantes de bumbás, garrotes, tribos e pássaros inscritos no Festão do Povo. Devemos lembrar que a Fundação Cultural fica localizada à rua Huascar de Figueiredo, entre a avenida Joaquim Nabuco e Igarapé de Manaus. O encontro contará com a presença do sr. Edmilson Rosas, da Comissão Organizadora, o qual transmitirá as instruções com referência à festa de abertura do Festival, programada para o dia 14 próximo, no Estádio General Osório.

ENSAIANDO SEMPRE – Enquanto isso, os conjuntos estão ensaiando com muito afinco. O Luz de Guerra, do popular Maranhão, todas as noites está realizando treinamento para os brincantes, visando arrebatar uma das primeiras colocações do Festival. Por outro lado, o Corre Campo, Garantido e outros bumbás, também não se descuidam dos ensaios e prometem muita movimentação para o Festival deste ano, que deverá trazer a Manaus um número elevado de turistas.

BUMBÁ CORRE CAMPO – Depois de alguns anos de ausência, volta ao Festival Folclórico, com força total, o aplaudido bumbá Corre Campo. Os seus dirigentes prometem exibições maravilhosas no General Osório e estão contando com o apoio e o incentivo de seus velhos amigos, para êxito completo de mais uma jornada deste bumbá, de nome muito elevado na história folclórica de nossa terra.

TRIBO DOS ANDIRÁS – O “tuxaua” Carlos Magno informou-nos que a sua tribo, a dos Andirás, está em “ponto de bala”. Muito afinada e com disposição de repetir os sucessos alcançados em outros “Festões”. Disse-nos, também, que está certo de que, neste ano, a Fogás dará a sua tradicional cooperação, fornecendo o transporte para os seus integrantes, o que constitui forte ajuda para o êxito da sua jornada de 1970. Os ensaios estão se realizando diariamente e o geral se dará nos próximos dias.

GULOSEIMAS – Os interessados na montagem de barraquinhas para venda de guloseimas, refresco, etc, no Estádio General Osório, deverão procurar, com urgência, a Divisão de Despesas da Prefeitura de Manaus, para a obtenção da respectiva licença. O expediente da repartição é das 7 às 11 horas.

COMISSÃO OBSERVADORA – O Conselho Estadual de Cultura debateu, ontem, longamente, o Festival Folclórico do Amazonas. E, por fim, no objetivo da proteção desse rico patrimônio de cultura popular, resolveu designar uma Comissão para observar o “Festão” desse ano. Essa Comissão está assim constituída: Presidente – Djalma Batista; membros – Genesino Braga, Mário Ypiranga Monteiro e Álvaro Reis Páscoa.


No dia 28 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão termina hoje”:

Hoje, encerra-se o XIV Festival Folclórico do Amazonas, com a proclamação dos melhores que dele participaram. Termina depois de 14 dias de alegria e contentamento para o nosso povo que, este ano, mais que os anteriores, prestigiou o “Festão” que lhe pertence, lotando, completamente, todo o General Osório. Noites magníficas, inesquecíveis, de apresentações de muita categoria dos grupos inscritos no certame.

Houve, também, a feliz coincidência da vitória do Brasil, na Copa Mundial do México, e tivemos oportunidade de proporcionar à população, naquela Praça, condições para festejar o acontecimento com toda vibração e entusiasmo. Foi assim, o XIV Festival – com o apoio do Governo Estadual, da Prefeitura Municipal, do Comado Militar da Amazônia e da Companhia de Eletricidade de Manaus –, um festival coroado de pleno êxito, de absoluto sucesso.

Encerrando-o, hoje, damos por iniciados os trabalhos do XV Festival, que haveremos de realizar, com o mesmo apoio e ajuda, em 1971, para honrar o orgulho de nossa gente. A solenidade de encerramento, que será aberta pelo Prefeito Paulo Pinto Nery, seguindo na presidência o governador em exercício deputado Homero de Miranda Leão, terá como ponto alto, exatamente como nos anos anteriores, o desfile de todos os grupos folclóricos.

Depois, haverá a proclamação dos Melhores, que subirão ao tablado para receber os seus troféus e para dançar, em homenagem ao povo. A ordem do desfile está sendo publicada na página 8.

Com o término, de hoje, do Festão do Povo, queremos renovar agradecimentos a todos quanto nos estimularam e nos ajudaram a efetiva-lo, bem como tributar o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao valoroso povo amazonense, pelo prestígio que emprestou, fazendo com que o certame alcançasse, como alcançou, retumbante sucesso.


A Comissão Julgadora anunciou como vencedores os seguintes grupos (campeão e vice-campeão, quando houver):

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça e Castelinhos na Roça.

Quadrilhas mirins: Caboclinhos do Amazonas e Curumins da Colina.

Bumbás: Corre Campo e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribos: Andirás e Maués.

Dança Regional: Nordeste Sangrento e Cangaceiros de Lampião.

Pássaros: Papagaio.

Outros Grupos: Cacetinho (Tarianos).

Dança Regional Mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Amo de Boi: Pedro Pereira Beira-mar (Corre Campo).

Melhor Amo de Garrote: Péricles Soares Oliveira (Luz de Guerra).

Rainha do Folclore: Iracema Lima Collier (Caninha Verde).

Rainha Mirim: Adelaide Sarah Filgueira (Brotinhos de São Lázaro).


Naquele ano, os manauaras também travaram contato com uma grande novidade: a exibição de videotapes das partidas de futebol da seleção brasileira, no México, sempre no dia seguinte, por meio da TV Ajuricaba.

Como resultado da novidade, a população fazia queima de fogos, carreata pelas principais ruas da cidade e carnaval na Av. Eduardo Ribeiro em dois dias seguidos: no dia do jogo, ouvindo a transmissão pelas emissoras de rádio, e no dia seguinte, assistindo aos jogos pela televisão. Uma grande zorra!

Foi durante as Olimpíadas de Tóquio, em 1964, que a Fifa escolheu o México como sede da Copa de 1970, seguindo o rodízio entre continentes. A Argentina, outra candidata, teve que se contentar em ver o seu sonho adiado para 1978. Na votação, o resultado foi uma goleada – 56 a 32.

O fato de a Cidade do México ser a sede dos Jogos de 1968 pesou favoravelmente – o país já teria estrutura suficiente para bancar uma Copa. A altitude quase atrapalhou o desejo mexicano.

Setenta países inscreveram-se para o Mundial. Houve desistência por problemas políticos. A Coreia do Norte, por exemplo, recusou-se a enfrentar Israel. Portugal, França, Hungria, Argentina e Espanha não conseguiram se classificar. O Marrocos tornou-se a primeira seleção africana a participar de uma Copa desde a Segunda Guerra Mundial.


Juanito, garoto vestido com o uniforme da seleção mexicana e um sombrero, foi o mascote do Mundial pioneiro na transmissão ao vivo para o Brasil.

Pela primeira vez também foram usados cartões amarelos (advertência) e vermelhos (expulsão). Também foi a primeira Copa a permitir substituições – na época, duas para cada seleção.

Na Copa que fez ressurgir o futebol arte, distante no pragmatismo inglês em 1966, a Seleção chegou ao tricampeonato mundial mostrando ao mundo ser possível jogar bonito e vencer.

Do meio-campo pra frente, só tinha craque: Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé. O time ainda tinha no banco Paulo Cezar Caju e Edu.

Na defesa, um capitão com a técnica, classe e liderança de Carlos Alberto Torres. Fora a saúde de Brito, a sobriedade de Piazza, a eficiência de Everaldo e Félix...

Foram seis vitórias em seis partidas. Seis shows, com gols espetaculares e jogadas eternizadas como o gol de Carlos Alberto no 4 a 1 sobre a Itália, na grande final.

Mas o que dizer do 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia, do 1 a 0 sobre a Inglaterra, do 3 a 2 sobre a Romênia, do 4 a 2 no Peru e do 3 a 1 no Uruguai, na semifinal?

O Brasil comandado pelo técnico Zagallo mereceu e muito o titulo e a posse definitiva da Taça Jules Rimet.


Um dos melhores atacanfes de todos os tempos, o alemão Gerd Muller deixou sua melhor marca no México. 

O “Bombardeiro”, como era conhecido, marcou 10 gols e fez uma dupla inesquecível com outro craque, Overath.

Atacante habilidoso, forte, oportunista, tinha faro de gol. Preciso nos chutes e nas cabeçadas, era dífícil de ser marcado.

A terceira Copa conquistada, feito até hoje único de um jogador, coroou a carreira do dono da camisa 10 da seleção canarinho.


Aos 29 anos, o Mundial do México foi de Pelé. O Rei do Futebol protagonizou alguns dos lances mais lindos da história do futebol. Seja nos quatro gols marcados – destaque para o de cabeça, na final contra a Itália –, seja pelos que não marcou: o chute do meio de campo contra a Tchecoslováquia, o drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewicz, a cabeçada que o goleiro inglês Gordon Banks salvou, numa das mais difíceis defesas de todos os tempos.

Foram jogadas de cinema, na despedida em Mundiais do maior artista da bola.

Campeões do mundo, os ingleses caíram no grupo do Brasil na primeira fase, coisa que evitaram quando foram os anfitriões na Copa.

O jogo foi considerado o mais difícil para a seleção brasileira, que venceu suado, por 1 a 0. 

O English Team, em segundo lugar no grupo, pegou a Alemanha nas quartas e foi eliminado por 3 a 2.

Fora isso, ganhou o troféu antipatia desde o começo, quando afirmou que levaria água do próprio país para os jogadores beberem, com medo de a água mexicana contaminar.

As duas semifinais da Copa foram emocionantes. Brasil x Uruguai teve sobre si o fantasma de 1950. Mas Alemanha x Itália ganhou no quesito drama.


No tempo normal, a Azzurra vencia por 1 a 0, gol de Boninsegna, até os 44 do segundo tempo, quando Schnellinger empatou. Na prorrogação, mais surpresas. Gerd Müller virou para a Alemanha, Burgnich empatou para a Itália, e Riva fez 3 a 2 ainda no primeiro tempo.

Na segunda etapa, Gerd Müller voltou a empatar. Mas, a dois minutos do fim, Rivera fez 4 a 3 e pôs a Azzurra na final.


A batalha campal de 120 minutos teve cenas antológicas, como a de Beckenbauer jogando com a clavícula deslocada e o braço enfaixado no peito. 

Há quem diga que essa partida deixou os italianos exaustos para a final.

Brasil e Itália entraram em campo no lotado estádio Azteca na briga pelo tricampeonato mundial e, consequentemente, a posse em definitivo da Taça Jules Rimet.

Em cabeçada sensacional, Pelé abriu o placar, mas Boninsegna empatou, ainda no primeiro tempo.


Na segunda etapa, Gérson, em jogada individual, fez 2 a 1. Jairzinho, o Furacão, marcou o terceiro, e Carlos Alberto, em bola rolada pelo Rei do Futebol, completou o placar e a festa brasileira.


O 13º Festival Folclórico do Amazonas (1969)


Com a implantação da Zona Franca de Manaus, a capital amazonense rompeu cinco décadas de estagnação econômica. O aporte de capitais atraídos pelos incentivos fiscais dinamizou os negócios e aumentou a oferta de empregos. A população urbana registrou taxas de crescimento superiores à média nacional. Os imóveis da área central atingiram níveis crescentes de valorização, motivando a expansão da cidade para além do Bairro de Flores, nos sentidos norte e oeste.

Em pouco tempo, Manaus converteu-se em importante centro comercial de importação, alavancando o turismo doméstico e o segmento de serviços. O setor comercial foi o primeiro a se fortalecer com o projeto Zona Franca: nos primeiros anos, Manaus funcionou como um grande Shopping Center para todos os brasileiros.

O Governo Federal, à época, não permitia importações e restringia a saída de brasileiros para o exterior. A ZFM funcionou como uma válvula de escape para as pessoas de melhor poder aquisitivo, que encontravam em Manaus as novidades importadas do mundo inteiro.

Nessa época, as importações não tinham limites e obedeciam apenas a cinco restrições, estabelecidas no Decreto-Lei 288/67 (que permanecem até hoje): armas e munições, fumo, bebidas alcoólicas, automóveis de passeio e artigos de perfumaria, cuja importação só poderia ser feita mediante o pagamento de todos os impostos.

Do leite em pó holandês ao cristal da Bohemia, de perfume francês a gravata italiana, de bata indiana a blue jeans norte-americanos, de televisão japonesa a aparelho de som europeu, tudo era vendido livremente no comércio da cidade, com permissão de serem levadas, como bagagem acompanhada de passageiro saído de Manaus, seis unidades de cada produto importado de uso pessoal, o que tornava a viagem um grande atrativo.

Entre 1967 e 1969 surgiram mais de três mil lojas de produtos importados, oferecendo mais de 10 mil empregos aos amazonenses. A indústria da construção civil também deu um salto gigantesco, seja por conta da iniciativa privada (duplicação do Hotel Amazonas, construção do Tropical Hotel e do Imperial Hotel) ou da iniciativa governamental (construção do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e do Estádio Vivaldo Lima, implantação do Distrito Industrial), começando a atrair milhares de moradores do interior.

A cidade começou a inchar. Dos 175 mil habitantes que tinha em 1960, Manaus passou a ter uma população de 315 mil habitantes em 1970. Um crescimento exponencial.


Há algumas explicações possíveis para o Festival Folclórico do Amazonas ter iniciado seu declínio a partir desse ano.

Em uma situação de pleno emprego, os jovens tinham que trabalhar durante o dia e estudar à noite, ficando impossibilitados de participarem dos ensaios dos grupos folclóricos.

Além disso, a inflação renitente havia reduzido a ajuda financeira aos grupos para pouco mais da metade, o que desestimulou vários dirigentes.

O dinheiro disponibilizado pelo Governo do Estado ficou assim distribuído: Bumbás e Tribos, NCr$ 500,00 (R$ 6.600,00, em valores de hoje). Garrotes, NCr$  400,00. Quadrilhas adultas, NCr$ 350,00. Danças nordestinas, Danças regionais e Brigues: NCr$ 300,00. Quadrilhas mirins, NCr$ 200,00.

O XIII Festival teria início no dia 22 de junho, se estendendo até o dia 30. A Comissão Julgadora era formada pelo desembargador João Corrêa (presidente), Moacyr Andrade, Garcitilzo de Lago e Silva, Dirson Costa, Elizabeth Silva, Guanabara Araújo, João Barbosa e José de Castro e Costa.

Naquele ano, apenas 48 grupos se inscreveram para a disputa:

Bumbás: Garantido, Tira Teima, Às de Espada, Tira Prosa, Amazonas e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra, Malhado, Vencedor, Galante, Veludinho, Pingo de Ouro, Dois de Ouro, Canarinho, Pena de Ouro e Sete Estrelas.

Tribos: Andirás, Maués e Maués Mirim.

Danças Nordestinas: Cabras do Lampião, Bando do Severo Julião e Filhos do Primo do Cangaceiro.

Brigue: Independência.

Quadrilhas adultas: Soçaite no Interior, Coronel Gama, Granfinos no Arraial, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos de São Francisco, Festa na Roça, Araruama na Roça, São João na Roça e Flor Selvagem.

Danças regionais: Caninha Verde, Cacetinho (Tarianos), Arara, Pilão e Reisado.

Quadrilhas mirins: Gaveanos no Roçado, As Quatro Rosas, Brotinhos de São Lázaro, Curupira na Roça, Cantiga de Roda Ciranda, Araruaminha na Roça, Rurarê Mirim, Curumins da Colina, Brotinhos de Santo Antonio, Caboclinhos do Amazonas e Santo Antonio na Roça.

O tempo de apresentação dos grupos também foi modificado. Quadrilhas adultas, quadrilhas mirins, garrotes, brigues e outros teriam 20 minutos, bumbás, pássaros e danças regionais, 30 minutos, tribos, 50 minutos, e peleja de amos, 10 minutos.

Entre as novidades daquele ano a Dança do Pilão e o Reisado, que se apresentavam pela primeira vez no festival.


No dia 14 de junho, sábado, o vespertino Diário da Tarde publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo em notícias”:

Continuam incessantemente os preparativos para o XIII Festival Folclórico do Amazonas, realização tradicional do O Jornal e Diário da Tarde, com a colaboração do GEF, Governo do Estado, Prefeitura e, agora também, do DEPRO. O grande tablado já está em fase bem adiantada devendo ficar totalmente pronto nos primeiros dias da próxima semana.

Por outro lado, os 50 grupos folclóricos já estão ultimando seus ensaios. Mais de quatro mil brincantes prometem abrilhantar o “Festão do Povo”, no Estádio General Osório, no tricentenário de Manaus. Na segunda feira vindoura, a Comissão Organizadora iniciará a visita a todos os bumbás, quadrilhas, tribos e demais grupos típicos. Desta maneira, podemos dizer que já estamos às portas do “Festão do Povo”.

A direção das quadrilhas Araruama na Roça e Araruaminha na Roça está convidando as autoridades e o povo em geral para participarem do grandioso ensaio daquelas tradicionais quadrilhas do Amazonas, que será realizado hoje, às 21 horas, à Avenida Traumã, 1429, no bairro da Praça 14. Ressaltamos que o ensaio da quadrilha mirim será às 17 horas.

A Dança Regional do Arara, integrada por alunos do Instituto de Educação do Amazonas, participará do “Festão do Povo”. Já estão sendo feitos os preparativos finais para a sua apresentação.

No número 531 da Rua General Carneiro, vários brincantes que participam da quadrilha Brotinhos de São Francisco estão ultimando os preparativos para o ensaio geral que será realizado hoje às 20h15, sob a direção do sr. Mário Ribeiro da Silva.

O tradicional bumbá Mina de Ouro, que voltará novamente a apresentar-se no “Festão do Povo” após alguns anos de ausência, está em francos preparativos. Seu ensaio geral será no dia 21 deste mês.

Também a quadrilha Brotinhos de São Lázaro prepara-se para seu ensaio geral que será realizado no dia 15 às 20 horas. A quadrilha mirim, de mesmo nome, ensaiará no dia 19, iniciando no mesmo horário. O local é no Centro Social de São Lázaro, rua São Vicente nº 492, no bairro de São Lázaro.


A ordem de apresentação do XIII Festival, com 48 grupos inscritos e pouco mais de 4 mil brincantes, ficou assim definida:

Dia 22 (domingo) – Desfile de abertura do “Festão do Povo”, a partir das 16 horas, no Estádio General Osório, de acordo com a ordem pré-estabelecida. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Danilo Areosa. Apresentação da Comissão Julgadora.

Dia 23 (segunda). À tarde. Cantiga de Roda Ciranda, Garrote Vencedor, Quadrilha Mirim Araruaminha na Roça e Garrote Canarinho. À noite. Quadrilha São João na Roça, Dança Regional do Pilão, Dança Nordestina Bando do Severo Julião e Bumbá Mina de Ouro.

Dia 24 (terça) – À tarde. Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas, Dança Nordestina Filho do Primo do Cangaceiro, Brigue Independência e Garrote Pena de Ouro. À noite. Quadrilha Coronel Gama, Dança Regional Caninha Verde, Quadrilha Granfinos no Arraial, Garrote Luz de Guerra e Bumbá Ás de Espada.

Dia 25 (quarta) – à tarde.  Quadrilha Mirim Curupira na Roça, Quadrilha Mirim Brotinhos de Santo Antonio e Garrote Sete Estrelas. À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Dança Regional Reisado, Quadrilha Brotinhos de São Francisco e Bumbá Garantido.

Dia 26 (quinta) – À tarde. Quadrilha Mirim As Quatro Rosas, Garrote Galante, Quadrilha Mirim Brotinhos de São Làzaro e Garrote Veludinho. À noite. Quadrilha Festa na Roça, Quadrilha Soçaite no Interior, Bumbá Tira Teima e Tribo dos Maués.


Dia 27 (sexta) – À tarde. Quadrilha Mirim Santo Antonio na Roça, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado e Garrote Pingo de Ouro. À noite. Quadrilha Brotinhos de São Lázaro, Dança Regional do Arara, Garrote Malhado e Bumbá Amazonas.

Dia 29 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Puracê Mirim, Quadrilha Mirim Curumins da Colina, Tribo Mirim Maués e Garrote Dois de Ouro. À noite. Quadrilha Araruama na Roça, Dança Nordestina Cabras do Lampião, Dança Regional Cacetinho, Bumbá Tira Prosa e Tribo dos Andirás.


No dia 30 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “O adeus do Festão”:

Depois de 7 dias de maravilhosas exibições à tarde e à noite no Estádio General Osório, exibições a cargo de 48 grupos típicos – bumbás, tribos, garrotes, danças regionais e nordestinas, brigues, quadrilhas adultas e mirins – encerra-se, hoje, o XIII Festival Folclórico do Amazonas, promoção magnífica de O Jornal e Diário da Tarde, com o apoio do Governo Danilo Areosa, Prefeito Paulo Nery, Grupamento de Elementos de Fronteira e da Companhia de Eletricidade de Manaus. Desfilarão, como na abertura, todos os grupos que participaram do certame, recebendo do público os calorosos aplausos que merecem.

Estarão presentes para encerrar o Festão do Povo, com chave de ouro, e anunciar o início das providências do XIV Festival Folclórico do Amazonas, o governador Danilo Areosa e o prefeito Paulo Nery, além de numerosas autoridades civis e militares. Terminado o desfile, com todos os grupos no gramado do Estádio, o governador Danilo Areosa concederá a palavra ao presidente da Comissão Julgadora que anunciará os Melhores do Festão do Povo deste ano, procedendo a entrega dos troféus que lhe cabem.

Por último, dançarão no famoso tablado do estádio os grupos vencedores no seu adeus, no adeus ao Festival Folclórico, cujos realizadores prometem tudo fazer para, no próximo ano, levar a efeito um certame de maiores proporções, porque o Festão não pode parar. O seu destino é crescer sempre, de ano para ano, constituindo-se, cada vez mais, no patrimônio mais caro e mais valioso do nosso povo.

AGRADECIMENTO – Ao terminar o Festival cumprimos o grato dever de agradecer ao povo a sua solidariedade, manifestada pela presença maciça a todas as exibições; às autoridades que contribuíram materialmente para a realização do certame; e, particularmente, ao comandante, oficiais e praças da briosa Polícia Militar do Estado, pelo eficiente policiamento do Estádio, agradecimentos que, nesse particular, são extensivos ao Chefe de Polícia e seus subordinados, inclusive os que compõem a Delegacia de Trânsito.

O CAMPO É PRIVATIVO DOS GRUPOS – O gramado do Estádio é privativo dos grupos folclóricos assim como o é o tablado para as autoridades, comissão julgadora e jornalistas. As autoridades policiais da PME, da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros não permitirão a entrada de pessoas que não sejam as já acima mencionadas. Pedimos a compreensão de todos para esse fato, a fim de que seja assegurado o brilho e o pleno sucesso no encerramento do Festão.


A Comissão Julgadora apontou como campeões os seguintes grupos:

Bumbás: Tira Prosa e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra

Danças Regionais: Cacetinho (Tarianos) e Caninha Verde.

Danças Nordestinas: Cabras do Lampião.

Tribos: Andirás.

Quadrilhas mirins: Brotinhos de São Lázaro.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem.

Dança Nordestina mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Amo de Bumbá: José Ribamar do Nascimento (“Zé Preto”, do bumbá Amazonas)

Melhor Amo de Garrote: Péricles Soares Oliveira (Luz de Guerra)

Rainha do Festival: Sílvia Costa (Tribo dos Maués)

Rainha mirim: Terezinha Ventura (Caboclinhos do Amazonas)


Neste ano, a Comissão Julgadora não escolheu o vencedor do Prêmio Sepetiba, para o melhor brincante.

O 12º Festival Folclórico do Amazonas (1968)


Como não se mexe em time que está ganhando, o jornalista Luiz Verçosa repetiu a mesma fórmula do ano anterior, incluindo a Comissão Julgadora, com apenas algumas modificações pontuais.

Ficou definido que a inauguração do festival seria no dia 23 de junho, domingo, e o encerramento no dia 30.

Nesse intervalo de tempo, quando ocorreriam as competições oficiais, a Comissão Julgadora optou por realizar duas sessões diárias: uma vespertina (para os grupos infantis), começando às 15h30 e terminando às 18 horas, e uma noturna (para os grupos adultos) começando às 19h30 e terminando às 23 horas.

O tempo de apresentação de cada grupo foi assim estabelecido. Cantiga de roda, Quadrilha mirim e Quadrilha adulta: 20 minutos. Bumbás, Garrotes, Danças Regionais e Pássaros: 30 minutos. Tribos: 50 minutos. Peleja de Amos: 10 minutos para cada amo (na finalíssima, no domingo de encerramento, 15 minutos para cada amo).

Mais uma vez, o governador Danilo Areosa disponibilizou antecipadamente a ajuda financeira para os conjuntos, na seguinte proporção: Bumbás, NCr$ 500,00 (R$ 8 mil, em valores de hoje). Garrotes, NCr$ 400,00. Quadrilhas adultas, NCr$ 350,00. Quadrilhas mirins, NCr$ 200,00. Danças Nordestinas, NCr$ 300,00. Pássaros, NCr$ 350,00. Tribos, NCr$ 500,00. Danças Regionais, NCr$ 300,00.

Os 57 grupos inscritos foram divididos em oito chaves:

Bumbás: Amazonas, Tira Prosa, Tira Teima, Caprichoso, Ouro Preto, Veludinho e Garantido.

Garrotes: Malhado, Sete Estrelas, Flor do Bairro, Dois de Ouro, Vencedor, Veludinho, Pena de Ouro, Ás de Espada, Canarinho, Pingo de Ouro e Luz de Guerra. 

Quadrilhas adultas: Moçada na Roça, Soçaite no Interior, Araruama na Roça, Jovem Guarda, Mocidade na Roça, Brotinhos de São Francisco, Festa na Roça, São João na Roça, Os Granfinos do Arraial, Coronel Gama e Escoceses na Roça.

Quadrilhas mirins: Netos de Ajuricaba, As Quatro Rosas, Araruaminha na Roça, Tipiti no Roçado, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos de Santo Antônio, Curumins da Colina, Caboclinhos do Amazonas, Curupira na Roça, Cantiga de Roda Ciranda, Gavianos no Roçado, Santo Antônio na Roça, Caboclinhos de Brasília, Filhos do Primo do Cangaceiro e Cantiga de Roda Tia Júlia.

Danças Nordestinas: Nordeste Sangrento, Cangaceiro da Chapada, Bando de Antônio Silvino, Cabras do Lampião e Primo do Cangaceiro.

Pássaros: Papagaio, Jaçanã e Japiim.

Tribos: Andirás e Maués.

Danças Regionais: Cacetinho (Tarianos), Dança da Ciranda e Caninha Verde.


No dia 1º de junho, sábado, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo terá iluminação moderna e maravilhosa”:

O tablado do Festão do Povo já está subindo no meio do Estádio General Osório. No gênero, é o maior que se constrói no Amazonas e um dos maiores do Brasil. São mais de 900 metros quadrados para a evolução dos grupos típicos que se apresentarão de 23 a 30 deste mês, enchendo de alegria, de contentamento e de vibração a alma da nossa gente.

ILUMINAÇÃO MODERNA – Por outro lado, a iluminação do estádio, esse ano, será moderníssima, graças à cooperação da Companhia de Eletricidade de Manaus, que tem três diretores entusiastas do Festão e que tudo fazem para dar satisfação ao povo: Jorge Baird, Lourival Barreto e Ivo Oliveira. A iluminação será na base da luz de mercúrio, maravilhosa. O espetáculo, com isso, assume um aspecto bem diferente. Ademais, o letreiro oficial virá com nova tonalidade e muito mais expressão, sendo de destacar surpresas que vão ser oferecidas ao público, mostrando a habilidade de nossos profissionais em eletricidade, entre os quais Raimundo Rocha, Raimundo Santos e Faher Sahdo.

DESFILE MONUMENTAL – O desfile de abertura, no dia 23, será monumental, dele participando todos os grupos e todos os seus integrantes. Os grupos terão de vir com suas fantasias novas porque, desde o desfile, a Comissão Julgadora já começará a contar pontos para a sua decisão final. Conta ponto a beleza e originalidade da fantasia, o comparecimento maciço e tudo mais, desde ritmo, dança, música, autenticidade. Ninguém, por isso, deve faltar. A exigência é para todos, podendo até resultar em eliminação. O tempo de duração do festival é de apenas 8 dias e, por isso, todos os momentos terão de ser devidamente aproveitados, para que os grupos se apresentem magnificamente e o julgamento seja, como nos anos anteriores, absolutamente justo.

Ressalte-se, por outro lado, que a Secretaria de Turismo de São Paulo vai filmar o Festão, para difundi-lo por todo o Brasil e pelo mundo afora. Isto quer dizer que, em 1969, o Festival será atração internacional e nacional, em proporções muito maiores que as atuais. Far-se-á presente, por igual, a equipe filmadora da televisão BBC, de Londres, Inglaterra. Por tudo isso, os grupos folclóricos devem vir para o desfile de abertura com “força total”. As danças nordestinas deverão trazer suas carroças, as tribos, as suas tendas, ou a sua maloca, os bumbás, toda a grandiosidade de suas baterias e a beleza de sua roupagem, enfim, todos devem vir o melhor possível, para o êxito total do Festão, que vai significar convite permanente ao mundo para uma visita ao Amazonas, todos os anos, no mês de junho.

ENSAIOS PROSSEGUEM – Enquanto isso, os ensaios prosseguem em toda cidade.  Todas as noites, os grupos folclóricos treinam as suas músicas, as suas danças, os seus enredos. O “Comando” de nossos diários tem andado por toda parte, juntamente com autoridades locais e de fora, levando o apoio e o estímulo a todos os conjuntos, para que sintam que, deles, depende o sucesso do Festão. As visitas continuarão, devendo todos intensificar os seus ensaios, em busca da perfeição dos conjuntos, para soberbas exibições durante o XII Festival Folclórico do Amazonas.

VENDA DE GULOSEIMAS – Os interessados na montagem de “bancas de venda” de guloseimas próprias da época, deverão procurar a redação dos nossos diários, para os respectivos entendimentos, a partir da segunda feira próxima, dia 3, das 17 às 18 horas.

No dia 15, uma comitiva de personalidades ilustres da República, incluindo parlamentares e empresários, desembarcou em Manaus para prestigiar o lançamento da pedra fundamental de um hotel que a Varig começaria a construir na Praia da Ponta Negra.

Ciceroneados pelo governador Danilo Areosa e pelo prefeito Paulo Nery, o ministro do Interior, Albuquerque Lima, o presidente da Embratur, Joaquim Xavier da Silveira, e o presidente da Companhia Tropical de Hotéis, Erick de Carvalho, entre outros, visitaram o canteiro de obras, fizeram um pequeno tour pela cidade e, à noite, estiveram no Estádio General Osório para assistir a a uma pequena prévia do festival daquele ano.

Campeões do ano anterior, o bumbá Caprichoso e a Tribo dos Andirás foram convocados para mostrar nosso folclore aos visitantes. Uma multidão incalculável compareceu ao evento.

“Considero uma extraordinária surpresa o festival folclórico do Amazonas, não só pela beleza e riqueza dos ornamentos e da arte plumária, como pela originalidade dos ritmos. É algo profundamente brasileiro e autêntico, que vem enriquecer, com uma contribuição de valor incontestável, o rico patrimônio histórico do nosso país”, elogiou o presidente da Embratur, após o encerramento das apresentações.


No dia 23, domingo, no matutino O Jornal, o padre Nonato Pinheiro, da Academia Amazonense de Letras, publicou um pequeno artigo simplesmente intitulado “XII Festival Folclórico”:

Sou membro da Comissão Amazonense de Folclore. Cabe-nos, a mim e aos demais membros, a missão de defender o Folclore e contribuir para o conhecimento dessa importante e simpática ciência das tradições populares. Sirvo-me do ensejo da ocorrência do XII Festival Folclórico que a Empresa Archer Pinto promove com tanto esplendor e espírito de serviço, amenizando as agruras do povo com um pouco de policromia e folgança, para apresentar a este mesmo povo sofredor alguns rudimentos e noções acerca de Folclore.

Se perguntarmos a um estudante como se diz  “povo” em inglês, certamente saberá dizer que é “people” (pípal). No inglês arcaico, entretanto, se dizia “folk”, vocábulo ainda encontradiço nos calepinos da língua inglesa, que entra na formação de várias palavras anglo-saxônicas.

O vocábulo “FOLKLORE” foi criado em 1846, na Inglaterra, sendo seus elementos constitutivos “folk” (povo) e “lore” (ciências). Folclore é, pois, a ciência do povo, a ciência das tradições de um povo, a cultura popular. Sim, há uma cultura popular, distinta da cultura livresca escolar e universitária. É a sabedoria do povo, que se revela nas maneiras como ele pensa, sente, age e reage, maneiras que constituem o fato folclórico. Dessarte, ao lado da Medicina, que o médico assimilou em seis anos de Faculdade, existe a “mezinha”, a “medicina caseira”, o remédio que a vovó ministra ao netinho, cujo pai não pode adquirir as drogas caríssimas dos antibióticos.

A sinonímia é opulenta. Vários vocábulos tem sido propostos para designar a ciência das tradições populares: demologia, demopsicologia, populário, etc. nenhum suplantou o “folclore”, que se generalizou. Meu amigo e confrade Padre Manuel Albuquerque, amazonense de Eirunepé, ora residente no Rio de Janeiro, não se conforma com o aportuguesamento, alegando que essa desinência é estranah à nossa língua. De fato, se excetuarmos “escore”, que é outra adaptação do inglês “score”, não se conhece outra palavra em nosso idioma com essa terminação. Padre Albuquerque propôs “folquelor” e assim grafa o vocábulo. Respeito seu ponto de vista, mas combater, nesta altura, a grafia do aportuguesamento, não me parece sensato. Seria malhar em ferro frio ou remar contra a maré.

É vastíssima a ciência folclórica, porque abrange o estudo das tradições populares em toda a sua plenitude: crenças, crendices, superstições, mezinhas, lendas, provérbios, contos, canções, rodas, cirandas, jogos e danças populares. Como se vê, é um mundo incomensurável. O Festival Folclórico que a Empresa Archer Pinto realiza todos os anos constitui, apenas, uma parte do Folclore, a Lúdica, que se ocupa dos folguedos populares (rodas, cirandas, bumbás, caboclinhos, congos, reisados, bailados e danças populares, etc).

O fato ou fenômeno folclórico é constituído pelas maneiras de pensar, sentir e agir do povo. Deve ser popular, anônimo e tradicional. Sua característica é a espontaneidade. Se as manifestações não são autênticas e fiéis, não temos folclore.

Os estudos folclóricos assumem hoje papel de alta relevância no Brasil e no mundo. Temos um Conselho Nacional de Folclore, criado pelo Decreto nº 50.438, de 14 de abril de 1961, e presidido pelo Ministro da Educação e Cultura, ao qual foi proposta a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro.

Nosso folclore é resultante de um mestiçamento cultural e emana de três fontes: o português, o índio e o negro. Tem sido objeto de preciosos estudos, assim no passado como no presente. Entre nossos antigos folcloristas devemos citar Silvio Romero e João Ribeiro, que nos deixaram valiosos trabalhos de investigação. Entre os modernos e contemporâneos, alguns já falecidos, citarei Artur Ramos, Joaquim Ribeiro, Renato Almeida, Rossini Tavares de Lima, Luís da Câmara Cascudo, Théo Brandão, Bruno de Menezes, Mário Ypiranga Monteiro e Oneyda Alvarenga.

Entre os folcloristas brasileiros desejo dar o maior realce ao nome de Luís da Câmara Cascudo. Está festejando suas Bodas de Ouro literárias e culturais neste ano de 1968. Cascudo é, sem favor, uma das maiores culturas em nosso país. Seu “Dicionário do Folclore Brasileiro” é obra de encher mão. Que repertório opulentíssimo esse gigante conseguiu reunir sobre o nosso folclore! É autor, também, de uma esplêndida “Antologia do Folclore Nacional”.

Mário Ypiranga Monteiro é autor de numerosos trabalhos de investigações folclóricas, sendo sua obra capital o “Roteiro do Folclore Amazonense”, trabalho de fôlego e nomeada, ainda não concluído. É o Secretário Geral da Comissão Amazonense de Folclore (as Comissões não possuem Presidentes).

Ficam estes modestos apontamentos, escritos sem lustre de estilo e lantejoulas acadêmicas, porque dirigidos ao povo, que mais uma vez irá degustar o maravilhoso espetáculo de beleza, policromia e deslumbramento que é o já tradicional Festival Folclórico. Concluo com a belíssima exclamação dos salmos. “Felix populus qui exultare novitis!”. Feliz do povo que se sabe jubilar!


A ordem de apresentação do XII Festival, com 57 grupos inscritos e mais de 6 mil brincantes, ficou assim definida:

Dia 23 (domingo) – Desfile de abertura do “Festão do Povo”, a partir das 16 horas, no Estádio General Osório, de acordo com a ordem pré-estabelecida. Saudação das autoridades presentes no estádio.

Dia 24 (segunda) – À tarde. Cantiga de Roda Ciranda, Garrote Veludinho, Quadrilha Mirim Araruaminha na Roça e Garrote Canarinho. À noite. Quadrilha do Instituto Benjamin Constant, Pássaro Japiim, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Dança Regional Ciranda e Bumbá Garantido.

Dia 25 (terça) – À tarde. Quadrilha Curupira na Roça, Garrote Sete Estrelas, Quadrilha Mirim Brotinhos de Santo Antônio e Garrote Flor do Bairro. À noite. Quadrilha Granfinos do Arraial, Bumbá Veludinho, Quadrilha São João na Roça, Dança Nordestina Bando de Antônio Silvino, Quadrilha Coronel Gama e Bumbá Amazonas.

Dia 26 (quarta) – À tarde. Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas, Dança de Roda da Praça 14, Quadrilha Mirim Tipiti no Roçado e Garrote Pena de Ouro. À noite. Quadrilha Escocesa na Roça, Pássaro Jaçanã, Dança Nordestina Cangaceiros da Chapada, Dança Regional Caninha Verde e Bumbá Ouro Preto.

Dia 27 (quinta) – À tarde. Quadrilha Mirim Brotinhos de São Lázaro, Quadrilha Mirim As Quatro Rosas, Quadrilha Mirim Caboclinhos de Brasília e Garrote Ás de Espada. À noite. Quadrilha Mocidade na Roça, Dança Nordestina Nordeste Sangrento, Quadrilha Soçaite no Interior, Bumbá Tira Teima e Tribo dos Maués.

Dia 28 (sexta) – À tarde.  Quadrilha Mirim Netos de Ajuricaba, Quadrilha Mirim Curumins da Colina, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado e Quadrilha Mirim santo Antonio no Roçado. À noite. Quadrilha Jovem Guarda, Quadrilha Brotinhos de São Francisco, Garrote Malhado, Quadrilha Festa na Roça e Bumbá Tira Prosa.

Dia 29 (sábado) – À tarde. Roda de Cantiga da Tia Júlia, Quadrilha Mirim Filhos do Primo do Cangaceiro, Garrote Dois de Ouro e Garrote Vencedor. À noite. Quadrilha Araruama na Roça, Pássaro Papagaio, Dança Nordestina Cabras do Lampião, Dança Regional Cacetinho (Tarianos), Bumbá Caprichoso e Tribo dos Andirás.


No dia 30, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo termina hoje com desfile e apresentação dos campeões”:

Encerramos, hoje, o XII Festival Folclórico do Amazonas, fabulosa realização de nossos Diários, líderes da imprensa amazonense, com o apoio do Governador Danilo Areosa, Prefeito Paulo Pinto Nery, do Grupamento de Elementos de Fronteira e da Companhia de Eletricidade de Manaus, com a total solidariedade de nossa gente. Terminamos hoje o Festão, com pleno sucesso, êxito absoluto, positivando que se trata, realmente, da maior festa popular do Estado e, no gênero, uma das maiores do Brasil, e vque deverá se desenvolver ao longo de toda a nossa existência, sempre mais bela, mais pujante, mais grandiosa, para orgulho e satisfação de todos nós.

O ritual do encerramento inclui o monumental desfile de todos os grupos folclóricos participantes do “Festão”, que se concentrarão na Praça São Sebastião e às 16 horas se deslocarão para o Estádio General Osório, e, por último, a apresentação, pela Comissão Julgadora, dos campeões do “Festão do Povo” de 1968. Todos os atos serão presididos pelo prefeito Paulo Nery, que também representará o governador Danilo Areosa, que estará ausente por motivos superiores.

Chegando ao fim do maravilhoso espetáculo de ritmos e cores que, por 7 dias, divertiu grandemente a população e encheu de alegria a cidade; que deslumbrou gente de fora que veio aqui para assisti-lo ou que por aqui esteve casualmente; chegando ao fim o Festival Folclórico, de muitas histórias e de muitas glórias, cumpre-nos o dever gratíssimo de agradecer a todos quanto nos ajudaram a realiza-lo e contribuíram, decisivamente, para o completo sucesso que alcançou, honrando os seus patrocinadores e dignificando o s seus participantes, de par com os momentos felizes vividos por todo um povo bom e amigo, como é o amazonense.

Nesse agradecimento, também vai a garantia de que já estamos inaugurando providências e medidas relacionadas com o XIII Festival Folclórico do Amazonas que, com as bênçãos de Deus, e a ajuda dos homens, realizaremos, com maior entusiasmo e maior vibração, em 1969. Salve o povo do Amazonas!


A Comissão Julgadora apontou como campeões os seguintes grupos, em que ocorreu pela primeira vez um empate triplo no primeiro lugar:

Bumbás: Caprichoso e Garantido.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Danças Regionais: Cacetinho (Tarianos), Ciranda e Caninha Verde.

Danças Nordestinas: Cabras do Lampião.

Tribos: Andirás e Maués.

Quadrilhas mirins: Santo Antônio no Roçado.

Quadrilhas adultas: Granfinos do Arraial e Araruama na Roça.

Cantigas de Roda: Ciranda

Pássaros: Papagaio.

Dança Nordestina mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Brincante: João Ivo de Lima Santiago (Pai Francisco do Canarinho).

Melhor Amo de Bumbá: José Ribamar do Nascimento (“Zé Preto”, do bumbá Caprichoso).

Melhor Amo de Garrote: Hilário Felizardo de Souza (Malhado).

Rainha do Festival: Maria da Paz Fontenelle (Tribo dos Andirás).


Rainha mirim: Ana Maria Rodrigues (Curumins da Colina).

sexta-feira, julho 29, 2016

O 11º Festival Folclórico do Amazonas (1967)


A Zona Franca de Manaus (ZFM) foi idealizada pelo Deputado Federal Francisco Pereira da Silva e criada pela Lei Nº 3.173 de 06 de junho de 1957, como Porto Livre. Dez anos depois, o Governo Federal, por meio do Decreto-Lei Nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, ampliou essa legislação e reformulou o modelo, estabelecendo incentivos fiscais por 30 anos para implantação de um polo industrial, comercial e agropecuário na Amazônia.

Foi instituído, assim, o atual modelo de desenvolvimento, que engloba uma área física de 10 mil km², tendo como centro a cidade de Manaus e está assentado em Incentivos Fiscais e Extrafiscais, instituídos com objetivo de reduzir desvantagens locacionais e propiciar condições de alavancagem do processo de desenvolvimento da área incentivada.

Eleito governador, no dia 3 de setembro de 1966, em votação simbólica feita pela Assembleia Legislativa do Amazonas, o empresário Danilo Duarte de Mattos Areosa tomou posse no dia 31 de janeiro de 1967, com a incumbência de tirar a ZFM do papel.

Considerado unanimemente o melhor governador do Amazonas durante o período militar, Danilo Areosa nasceu no dia 24 de julho de 1921, em Manaus, filho do comendador Antônio Duarte de Mattos Areosa e de Dona Carlota de Mattos Areosa, portugueses radicados na cidade e que aqui estão enterrados. Sua infância foi vivida em Manaus, onde sua família desfrutava de alto conceito social. Com 18 anos, viajou para Portugal, onde fez o curso de Humanidades, Comercial e Contabilidade em Lisboa.

Retornando ao Brasil, completou a sua formação acadêmica dedicando-se ao comércio e à pesquisa de numismática, sociologia e urbanismo, em cuja ciência aprofundou seus estudos e especializações chegando a ser uma das maiores autoridades no assunto.

Tão logo assumiu o governo, Danilo Areosa elaborou um plano racional de trabalho para os seus quatro anos de mandato, que procurou executar sem fazer alarde, como era de seu feitio.

Assim, logo no primeiro dia de sua administração, reuniu todo o corpo de técnicos do Estado e discutiu em mesa redonda os planos já elaborados, recebendo sugestões e anotando aquelas que julgava necessárias ao êxito de sua administração. Seu gabinete se transformou em uma sala de estudos permanente, onde se processavam as revisões de antigos planos e a ampliação dos já aprovados para a devida execução.

Ele foi o principal responsável pela eletrificação do interior. Do total de 26 usinas termelétricas em pleno funcionamento no fim de seu governo, apenas três não haviam sido construídas por ele (Itacoatiara, Parintins e Manacapuru), mas outras cinco já estavam em fase final de acabamento (Nhamundá, Silves, Itapiranga, Anori e Urucurituba).

Uma das primeiras medidas do governador Danilo Areosa foi criar o Departamento de Promoções e Turismo (Depro), entregue ao jornalista Joaquim Marinho, com a incumbência de estimular a incipiente indústria do turismo. E a grande vitrine para o turismo, na época, ainda era o Festival Folclórico do Amazonas.


Coordenador do festival, o jornalista Luiz Verçosa estava meio acabrunhado em decorrência da baixíssima participação dos grupos folclóricos na pajelança anterior. Era o seu terceiro ano à frente do festival e, no histórico décimo aniversário do evento, ele só havia conseguido 41 agremiações (em 1963, Bianor Garcia havia conseguido a inscrição de 93 grupos e perigava colocar 120 na rua, no ano seguinte, se não tivesse ocorrido o golpe militar...). Alguma coisa estava fora de ordem.

Foi quando ele teve a brilhante ideia de escolher previamente uma Comissão Julgadora de alto nível para ajuda-lo a selecionar os grupos folclóricos que participariam do festival daquele ano, por meio de indicações e sugestões.

Na sequência, enviou um ofício ao governador Danilo Areosa, pedindo seu apoio pessoal para a realização do festival. O governador não só se prontificou em ajudar, como indicou para seu representante legal na referida comissão o próprio secretário de Educação e Cultura, Vinicius Câmara.

Por causa do gigantismo de alguns grupos (a Tribo dos Andirás havia se apresentado na última edição com 300 brincantes!), Luiz Verçosa solicitou do governador um novo tablado de 900 m² (30 X 30m). Foi atendido.

Não bastasse isso, Danilo Areosa disponibilizou antecipadamente no Banco do Estado do Amazonas os valores relativos à ajuda financeira para os grupos folclóricos, baseado nos valores concedidos pelo governador Arthur Reis no ano anterior. Bumbás, Tribos e Pássaros, NCr$ 500,00 (R$ 10 mil, em valores de hoje). Garrotes e Danças Nordestinas, NCr$ 400,00. Danças Regionais e Quadrilhas Adultas, NCr$ 300,00. Quadrilhas infantis, NCr$ 200,00.

O cruzeiro novo (NCr$) foi uma moeda que circulou transitoriamente no Brasil no período entre 13 de fevereiro de 1967 e 14 de maio de 1970. Esse padrão foi criado em virtude da perda de valor do cruzeiro, moeda que estava em vigor desde 1942 e que sofreu enorme depreciação por conta do aumento da inflação ocorrido por conta da instabilidade política e das contas públicas em descontrole.

Em virtude disso, foi preparada uma reforma monetária, na qual a nova moeda recebeu o nome de cruzeiro novo, para se evitar que houvesse confusão de valores entre as cédulas que seriam preparadas para o novo padrão com as do padrão então existente.

Um cruzeiro novo era o equivalente a mil cruzeiros do padrão então circulante, sendo que as cédulas remanescentes do padrão antigo foram carimbadas com valores entre 1 centavo e 10 cruzeiros novos.

Estas cédulas foram sendo gradualmente substituídas pelas novas cédulas que foram colocadas em circulação em 1970, com a retomada da denominação cruzeiro e foram retiradas de circulação entre 1972 e 1975, quando apenas as cédulas do novo padrão passaram a ter valor legal.


Além de Vinicius Câmara, a Comissão Julgadora contava com os seguintes membros: desembargador João Corrêa (presidente), coronel Ernâni Teixeira (comandante da PM), Guanabara Araújo (teatrólogo), Gebes de Melo Medeiros (teatrólogo), Herculano de Castro e Costa (jornalista) e professores Garcitilzo do Lago e Silva, José Braga, Antonieta Coelho, Lourdes Mota e Rubim de Sá.

Nunca ficou claro se as sugestões e recomendações feitas pela Comissão Julgadora foram acatadas integralmente por Luiz Verçosa, mas o certo é que a inscrição de grupos folclóricos naquele ano superou as expectativas mais otimistas: 55 grupos se credenciaram para participar do festival, alguns deles fazendo sua estreia na competição. Um salto significativo de 30% em relação ao ano anterior.

Os grupos foram divididos em oito categorias e a Comissão Julgadora elegeria somente o campeão de cada uma delas:

Bumbás: Caprichoso, Tira Teima, Garantido, Tira Prosa, Rica Prenda e Coringa.

Garrotes: Luz de Guerra, Malhado, Raio de Sol, Mineirinho, Mina de Prata, Sete Estrelas, Canarinho, Pena de Ouro, Pingo de Ouro, Dois de Ouro, Campineiro e Flor do Campo.

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça, Glorianos no Roçado, Escocesa, Juventude na Roça, Soçaite no Interior, Ajuri no Arraial, Jorgeanos no Mamoal, Borboleta de Verão, Flor Selvagem e Matutos Assanhados.

Quadrilhas mirins: Brotinhos do Eldorado, Curumins da Colina, Brotinhos da Ayrão, Caboclinhos do Amazonas, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos da Barelândia, Gaveanos no Roçado, Caboclinhos de Brasília, Araruaminha na Roça, Filhos do Primo do Cangaceiro, Dança de Roda da Tia Júlia e Dança de Roda Ciranda.

Tribos: Iurupixunas, Maués e Andirás.

Danças regionais: Gafanhoto, Peixe Vivo, Cacetinho (Tarianos) e Legendária Sucuriju do Grande Lago.

Pássaros: Japiim, Corrupião e Bem-te-vi.

Danças Nordestinas: Bando de Antônio Silvino, Cabras do Lampião, Cangaceiros da Chapada, Maneiro Pau e Primo do Cangaceiro.

A Comissão Julgadora também instituiu o prêmio “Raimundo Nascimento Fonseca – Zé Ruindade”, para o melhor amo de garrote, e o prêmio “Pedro Beira-mar”, para o melhor amo de bumbá.

O regulamento era simples. Cada garrote ou bumbá indicaria um amo para representa-lo. O amo deveria enfrentar seu adversário através de um desafio versificado.

Os versos cantados por um amo teriam que ser respondidos pelo amo adversário, logo após a cantoria do primeiro, não podendo cada verso ultrapassar 30 segundos, nem a resposta, intervalo superior ao mesmo tempo.

Os versos não poderiam fugir do tema folclórico sob pena de desclassificação do infrator.

A duração da competição seria de 20 minutos. Os contendores das pelejas seriam sorteados pela Comissão Julgadora minutos antes de começar o torneio.

As inscrições dos amos poderiam ser feitas até 18 de junho, domingo, com o jornalista Luiz Verçosa.


No dia 20 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Milhares de assistentes vibraram e aplaudiram a abertura do Festão”:

Uma incalculável multidão compareceu ao Estádio General Osório, domingo, à tarde, para prestigiar com sua presença a abertura do XI Festival Folclórico do Amazonas, que se constituiu num espetáculo de exuberante alegria popular. Além do povo, que acorreu em massa para aquele logradouro público, figuras as mais representativas da nossa sociedade também prestigiaram aquele espetáculo de cores e ritmos, numa demonstração soberba do que é o festão do Povo.

AUTORIDADES PRESENTES – Assim, ali estiveram presentes o Governador Danilo de Mattos Areosa; Prefeito Municipal, Dr. Paulo Pinto Nery; Coronel João Walter, representando o Presidente da República, Marechal Costa e Silva, e o Ministro do Interior; senhores Ivanhoé Gonçalves Martins. Governador do Amapá; Hélio Campos, Governador de Rondônia; Vice-Governador do Estado, Dr. Ruy Araújo; General Ayrton Tourinho, Comandante do Grupamento Especial de Fronteiras e da Guarnição Federal de Manaus; Vinicius Câmara, Secretário de Educação e Cultura; Francisco Lamartine Nogueira e Wanderley Normando, Presidente e Diretor do BASA; Coronel Floriano Pacheco, Superintendente da Zona Franca de Manaus; Deputados Federais José Lindoso e Raimundo Parente; Coronel Ernâni Teixeira, Comandante da Polícia Militar do Estado; Dalmo Geuino de Oliveira, Coronel Joaquim Lopes, Napoleão Dória e Neper Antony, destacados funcionários da SUDAM, além de muitas outras autoridades.

O DESFILE – Como se sabe, o desfile foi retardado um pouco, face à chuva que caiu justamente minutos antes da hora marcada para o início. Contudo, com a estiagem, logo se processou a belíssima parada de ritmos e cores, e o povo, como sempre, ávido por assistir o monumental espetáculo, fez-se pronto e disposto a aplaudir os milhares de brincantes. Terminada aquela parte, o Dr. Paulo Pinto Nery, Prefeito Municipal, fez uso da palavra, como Governador da Cidade, e logo mais passou-a ao Governador do Estado, Dr. Danilo de Mattos Areosa, que em breves palavras congratulou-se com todos os presentes.

INICIADAS AS APRESENTAÇÕES – À noite de ontem, como estava programado, iniciaram-se as apresentações, de acordo com o programa previamente elaborado, e grande massa compareceu para aplaudir os conjuntos, que muito bem ensaiados, fizeram suas primeiras exibições no tablado, para hoje prosseguirem com a apresentação de outros grupos. As apresentações prolongar-se-ão até o dia 29 do corrente, data do encerramento.

A ordem de apresentação do XI Festival, com 55 grupos inscritos e mais de 5 mil brincantes, ficou assim definida:

Dia 18 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Danilo Areosa. Apresentação da Comissão Julgadora.

Dia 19 (segunda) – À noite. Garrote Raio do Sol, Dança Nordestina Bando do Antônio Silvino, Quadrilha Borboletas do Verão, Dança Nordestina Cangaceiros da Chapada e Garrote Canarinho.

Dia 20 (terça) – À noite. Quadrilha Escocesa, Garrote Mineirinho, Dança Regional Gafanhoto, e Bumbá Tira-Teima.

Dia 21 (quarta) – À noite. Garrote Luz de Guerra, Pássaro Bem-te-vi, Bumbá Caprichoso, Dança Regional Cacetinho (Tarianos) e Tribo dos Andirás.

Dia 22 (quinta) – À noite. Garrote Malhado, Quadrilha Araruama na Roça, Tribo dos Maués e Bumbá Garantido.

Dia 23 (sexta) – À noite. Quadrilha Glorianos no Roçado, Garrote Mina de Prata, Dança Regional Legendária Sucuriju Grande do Lago, Quadrilha Ajuri no Arraial e Garrote Flor do Campo.

Dia 24 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Brotinhos do Eldorado, Quadrilha Mirim Curumins da Colina, Quadrilha Mirim Brotinhos da Ayrão, Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas, Quadrilha Mirim Brotinhos de São Lázaro e Dança de Roda Ciranda. À noite. Quadrilha Soçaite no Interior, Pássaro Corrupião, Garrote Pingo de Ouro, Quadrilha Matutos Assanhados e Bumbá Coringa.

Dia 25 (domingo) – À tarde. Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado, Quadrilha Mirim Brotinhos da Barelândia, Quadrilha Mirim Araruaminha na Roça, Quadrilha Mirim caboclinhos de Brasília, Quadrilha Mirim Filhos do Primo do Cangaceiro, e danças e Cantigas de Roda da Tia Júlia. À noite.  Garrote Pena de Ouro, Quadrilha Juventude na Roça, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Dança Regional Peixe Vivo e Bumbá Rica Prenda.

Dia 26 (segunda) – À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Garrote Sete Estrelas, Dança Nordestina Maneiro Pau, Dança Nordestina Cabras do Lampião e Garrote Campineiro.

Dia 27 (terça) – Garrote Dois de Ouro, Quadrilha Jorgeanos no Mamoal, Pássaro Japiim, Tribo dos Iurupixunas e Bumbá Tira Prosa.

Dia 28 (quarta) – Noite especial com a competição de amos de bumbás e garrotes.

Dia 29 (quinta) – Desfile de encerramento, com o anúncio dos campeões e escolha das rainhas.


No dia 30 de junho, o vespertino Diário da Tarde publicou uma matéria intitulada “Grande multidão assistiu ao encerramento do Festão”:

Ontem à tarde, perante grande multidão que, desde cedo, lotou todas as dependências do Estádio General Osório, foi encerrado brilhantemente o XI Festival Folclórico do Amazonas, soberba realização dos líderes da imprensa amazonense, com o apoio do Governo Danilo Areosa, Prefeito Paulo Nery, Comando do GEF e GFM e da CEM. Houve desfile de todos os grupos participantes do certame, constituindo espetáculo maravilhoso de ritmos e de cores. Foram proclamados os vitoriosos, dentre estes, o bumbá Caprichoso, o garrote Luz de Guerra, o Pássaro Bem-te-vi, a Tribo dos Andirás, etc.

O governador Danilo Areosa, por motivos alheios à sua vontade, não pode comparecer ao encerramento do “Festão”, sendo representado, no ato, pelo coronel Themístocles Trigueiro, chefe da sua Casa Militar. Estiveram presentes diversas autoridades, dentre estas o prefeito Paulo Nery e o general Ayrton Tourinho, comandante do GEF e da GFM.

Coube ao prefeito fazer a oração de despedida do XI Festival e de saudação ao XII Festival, cujos preparativos, ontem mesmo, foram iniciados, porque o governador Danilo Areosa e o prefeito Paulo Nery, conforme este declarou em seu discurso, querem para 1968, um “Festão” maior do que o deste ano, com ampla repercussão em todo o País e no estrangeiro. Paulo Nery foi bastante aplaudido.


Computado os pontos de todos os grupos, a Comissão Julgadora apontou os seguintes campeões, ocorrendo alguns empates no primeiro lugar:

Bumbás: Caprichoso e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribo: Andirás.

Dança Regional: Cacetinho (Tarianos) e Gafanhoto.

Dança Regional do Brasil: Maneiro Pau.

Pássaro: Bem-te-vi e Corrupião.

Quadrilha adulta: Ajuri no Arraial.

Quadrilha mirim: Caboclinhos do Amazonas.

Dança de roda: Ciranda.

Outros Grupos: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Brincante: Ermelindo Gomes (Rapaz do Amo do bumbá Caprichoso).

Melhor Amo de Garrote: Edson Beicinho (Luz de Guerra) e Raimundo Nonato da Silva (Malhado).

Melhor Amo de Bumbá: José Ribamar do Nascimento (“Zé Preto”, do Caprichoso).

Rainha do Festival: Elisa Maciel (Quadrilha Juventude na Roça).

Rainha de Beleza: Maria Aparecida de Lima (Pássaro Japiim).

Rainha Mirim: Susana Costa (Filhos do Primo do Cangaceiro).

Rainha de Beleza Mirim: Francinete Souza (Dança de Roda Ciranda).

Nesse ano, por algum motivo, não houve a escolha do “Campeão dos Campeões” e o cobiçado troféu ficou definitivamente – e com justiça, é bom frisar – com a Tribo dos Andirás.