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terça-feira, julho 07, 2009

O declínio do rock e a ascensão do rap


Via e-mail, o arquiteto e roqueiro xiita Pedro Alexandre Xavier, o "Xandico Bad Boy", lá da nossa querida Belém do Pará, solta os cachorros:

“Poeta, meu brodão, já li o teu livro sobre o rock e achei ducarálio. Acho difícil que exista coisa melhor no gênero. Só que vou procurar nos sebos de Belém o livro do Jim Miller pra ver se é mesmo essa maravilha toda que você falou. Mas que merda é essa de dizer que o rap é o novo rock?...

Você pode não ter acompanhado o rock nos anos 80, mas nessa época despontaram muitas bandas legais: U2, R.E.M., Smiths, Stray Cats, Cramps, Cult, Siouxsie and the Banshees, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Band of Susans, Violent Femmes, Plasticland, Fuzztones, Vipers, pra gente ficar nas mais conhecidas.

Isso, sem falar na facção mais metaleira e esporrenta: Scorpions, Judas Priest, Whitesnake, Ozzy Osbourne, AC/DC, Iron Maiden, Venom, Van Halen, Metallica, Pantera, Slayer, Motley Crue, Def Leppard, Poison, Guns N’Roses, Dead Kennedys, Bad Religion, Megadeth, Anthrax, Sepultura, Quiet Riot e Ratt.

O rap é o novo rock meu ovo! Abração.”

Pô, Xandico, devagar com o andor que o santo é de barro! Quem falou isso pela primeira vez foi o jornalista Christopher John Farley, em um artigo publicado na revista Time, em fevereiro de 1999, esgrimindo números significativos: em 1998, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o rap ultrapassara as vendas da música country, até então líder absoluta das paradas gringas. Foram mais de 74 milhões de CDs, cassetes e álbuns do gênero contra 65 milhões da música country.

Entrevistado para o referido artigo, o empresário Russel Simons, diretor do selo Def Jam (faturamento de US$ 200 milhões em 1998), foi taxativo. “O rock já era. As pessoas criativas que falam atualmente sobre a cultura jovem são os rappers. O hip hop é a voz rebelde dos jovens. É o que o público quer ouvir”, garantiu.

Eu comecei a acreditar nisso alguns anos antes, assim que o baterista Jonh Bonhan morreu, no dia 25 de setembro de 1980, e levou para o buraco, junto com ele, o Led Zeppelin, a melhor banda de rock de todos os tempos. Pra quem ainda não era nascido na época, recordo a presepada.

O baterista havia deixado Worcestershire, região centro-oeste da Inglaterra, no dia anterior para se encontrar com o resto da banda nos Bray Studios, com objetivo de planejar uma nova turnê pelos Estados Unidos, que começaria em outubro. No trajeto, ele consumiu doses industriais de vodka com suco de laranja (o famoso “Hi-Fi”).

Depois da reunião, a banda seguiu para a casa de Jimmy Page, em Windsor, onde John Bonham continuou bebendo “Hi-Fi” pelo resto da noite. Por volta de 1h45 da tarde do dia 25 de setembro, o técnico de som Benji Le Fevre foi procurar por Bonham e verificou que ele havia apagado e que também estava sem pulso. Um médico foi chamado e confirmou a morte do baterista.

A autópsia revelou que a causa da morte foi um acidente: Bonham morreu sufocado pelo próprio vômito após beber o equivalente a 40 doses de vodka em 12 horas. Em 4 de dezembro de 1980, o Led Zeppelin confirmou oficialmente o fim da banda, visto ser impossível prosseguir sem o baterista. Pra mim, o rock comme il fault também morreu naquele dia.

O Xandico pode ficar puto, mas não vou polemizar com ele. Limito-me a relembrar os fatos. Estamos em 1982. Qual foi o sujeito que não ficou mesmerizado quando ouviu pela primeira vez os hits “Beat It”, “Thriller” e “Billie Jean”, do Maiko Jacko? Agora tente se lembrar de um rock de sucesso nessa mesma época...


Estava claro que aquele novo tipo de música jovem capitaneado pelo dançarino esquisitão – guitarras de rock, metais de funk e grooves da house music – iria dar as cartas no hit parade do planeta nos próximos anos e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Comecei a ouvir discos de rap por conta dessa constatação.

De repente, uma coisa extraordinária aconteceu com o gênero: contrariando todas as expectativas (inclusive as suas próprias), o rap virou um sucesso. Sucesso assim: execução em todas as rádios, discos passando da casa de um milhão de cópias, presença obrigatória nas pistas de dança e nas festinhas da periferia.

Sucesso de massa, do tipo que leva artistas à TV, que obriga a MTV a abrir um horário só para o gênero, que coloca fotografias em revistas de fofocas, que vira matéria de capa de revistas especializadas como a Rolling Stone e a Billboard, que transforma o até então subestimado Maiko Jacko em “rei do pop”. Não foi pouca porcaria.

Cronologicamente, menos de dez anos depois do lançamento daquele que todos - rappers e não rappers - reconhecem como o disco pioneiro do estilo (“Rapper’s Delight”, da Sugarhill Gang, de 1979), a música canto-falada que era propriedade exclusiva dos bairros negros e mais pobres das grandes cidades americanas tornou-se aquilo que os especialistas em marketing mais prezam - um crossover, uma forma musical capaz de ser bem sucedida em qualquer praça, independente de cor ou renda pessoal.

O sucesso do rap a partir dos anos 80 (e daí até hoje) foi ainda mais extraordinário se compreendido à luz das peculiaridades - suas e da sociedade americana. É fato consumado, por exemplo, que, mesmo com todas as vitórias civis dos anos 60 e 70, os EUA sempre repeliram instintivamente a integração racial, preferindo ver seu tecido social mais como uma prateleira de supermercado - coisas diferentes, lado a lado – do que como um cadinho de fusões.

Para que o rock, intrinsecamente negro (é só ouvir os primeiros discos de Bo Diddley Chuck Berry e Little Richards), se tornasse o que é hoje foi preciso o endosso e o batismo por radialistas e gravadoras brancas, a reboque de figuras como Alan Freed, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly - artistas brancos “aceitáveis” para o mercado de massa.

O rap, contudo, à exceção dos Beastie Boys e Eminem - que foram vistos e tratados mais como uma curiosidade passageira que qualquer outra coisa - permanece como área exclusiva de artistas negros. E mais: como o reggae (que até hoje ainda não conseguiu atravessar de fato para o veio principal dos EUA), o rap surgiu para ser, basicamente, uma forma de expressão e comunicação dentro de uma comunidade.

Musicalmente, o estilo sempre foi carnívoro, canibalesco e inclemente, triturando sem a menor cerimônia qualquer coisa que lhe parecesse útil, inclusive e principalmente o rock branco dos anos 60 e 70 - que, naquele exato momento, tornava-se “clássico” e ganhava um duvidoso posto no sacrário das relíquias históricas - e não cedendo um milímetro às necessidades harmônicas e melódicas do senso comum white.

No discurso poético, o rap sempre falou criticamente para iniciados, para a sua tribo, para seus homeboys: seus assuntos são coisas remotas para os meninos brancos da “grande” suburbiolândia americana que gosta de comprar discos: drogas, discriminação, batidas policiais, tiroteios, escuros horizontes profissionais. Sua fala era puro lingo, código, jive, incompreensível, propositalmente, para os periféricos.

E mais: com o crescimento, em tamanho, poder e violência, das gangues negras - que, nos anos 80, se profissionalizaram na esteira da disseminação do crack -, o rap celebrou mais uma duvidosa aliança: passou a ser não apenas “música de negro”, mas “música de gangues”, de bandidos dispostos a exigir seu quinhão em uma sociedade superabundante e consumista.

Apontar como explicação apenas a imensa maré de tédio musical que se abatia sobre o mercado musical do “primeiro mundo”, não satisfazia nem os anões de jardim que estavam curtindo a new wave. A própria insolência antimelódica do rap já seria causa suficiente para o seu sucesso numa praça enfadada com o passado e disposta a detonações pós-modernas.

A grande explicação só podia estar no próprio rap. Velocíssimo camaleão e voraz triturador, o estilo conseguiu se multiplicar em subcamadas suficientes para atender todas as expectativas - e, ainda, manter-se uno, original, diferenciado.

Assim, nos anos 80, a gente tinha o que se poderia chamar de “rap de raiz”, que vinha, em linha direta do histórico “The Message”, de Grandmaster Flash, e se encarnava em crônicas cada vez mais pesadas (em termos de som) e violentas (no discurso poético) da vida no gueto.


Public Enemy, em Nova York, e Ice T, em Los Angeles, eram as grandes vozes, mas a cada dia novos nomes engrossavam as fileiras - como o combo de Los Angeles que atendia pelo nome de N.W.A. (ou seja, “Niggers With Attitude”, algo como “Crioulos Malcriados” e que, sem a menor cerimônia, fez polaróides sem retoques da vida das gangues em seu álbum de estréia, Straight Outta Compton (Compton é um dos bairros negros mais pobres e violentos de Los Angeles) - e que vendeu 500 mil cópias em menos de um mês, com distribuição totalmente independente.

Para a cada vez maior e mais influente classe média negra, que queria distância física, emocional e cultural do gueto, existiam alternativas: o rap engraçadinho de DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, da Filadélfia, que falava dos mesmos dramas juvenis que deram a imortalidade a Chuck Berry - carros, garotas, escola - ou as bravatas sexuais do angeleno Tone Loc, que vinha dos subúrbios classe média do vale de San Fernando, e foi o primeiro rapper a ocupar o primeiro posto nas paradas de sucesso, com sua versão risquê para o hit sixties “Wild Thing” (Mais tarde, Fresh Prince se transformaria no mega-astro Will Smith...).

Finalmente, havia o público informado das universidades que, de Bob Dylan a R.E.M. sempre foi motor de mudanças no pop americano. Para as rádios college que achavam Public Enemy muito extremo, existia o rap melodioso de um Shinehead, por exemplo, que, ao mixar o estilo com o reggae de sua Jamaica natal, retomou uma das matrizes formadoras do rap, o toast jamaicano.

Ou, de repente, a trinca De La Soul, que vinha do ultra-classe média subúrbio de Amityville, em Long Island, tinha nomes psico-crípticos como Trugoy (Yogurt ao contrário), Pase Master Mase e Posdnuos, idade média de dezoito anos e fazia a mais ousada e incandescente mistura de rap e psicodelismo já ouvida do lado de lá, de Sly Stone a George Clinton.

Assim, ao se permitir estas discretas, mas substanciais diversões de curso, o rap garantiu para si mesmo uma longevidade e um alcance que nem seus defensores mais otimistas poderiam imaginar.

Insolente, desrespeitoso com a sagrada institucionalização do pop, versátil, mutável, imediato, prático, portátil, acessível a qualquer um com um microfone, um toca-discos e um mínimo de criatividade, o rap, ironicamente, veio colher, por outras vias e quase uma década depois, as promessas do punk - faça você mesmo a sua trilha sonora.

O resto, conforme se diz, é história.

Microdicionário – É claro que a maioria das pessoas não entende metade do que os rappers dizem / cantam: essa é parte da idéia. Como toda subcultura, o rap tem seu código verbal próprio, desenvolvido pelos próprios DJs e rappers ou tomado emprestado das ruas e guetos, com o mesmo objetivo de toda subcultura: tornar-se impermeável aos forasteiros e selar alianças internas.

Estas palavras e expressões já são clássicas, e algumas, na esteira do próprio rap, já vazaram para o inglês moderno de uso corrente.

Chill – Também usado nas expressões “Chill in” e “Chill Out”, significa dar um tempo, ficar frio, ficar na sua.

Cuz – O mesmo que “like” para o garotão branco - interjeição que não quer dizer nada, apenas serve para pontuar a frase, dar um certo ritmo à fala.

Posse – Turma, pessoal. No universo das gangues, uma “posse” ou “set” era uma subdivisão das duas grandes facções, Crips e Bloods, de Los Angeles, e representa alianças de bairro ou de quarteirão.

Homeboy / Homegirl – Amigo, companheiro, colega de bairro. A rigor, a palavra define o membro de uma gangue, mas já passou a ser usada de um modo mais amplo. Sinônimo: Dude.

Dope – Ótimo, excelente, genial.

McGyver – Coisa dificílima de fazer, missão impossível.

Crib – Literalmente “berço”. Casa, cantinho.

Crew – O mesmo que “posse”, mas no sentido de turma para fazer alguma coisa juntos.

Sucker – Pessoa por fora, otário, careta, idiotas em geral.

Rope – Literalmente “corda”. Colar grosso de ouro que os rappers e seus fãs adoram usar.

Diss – Prejudicar, atrapalhar.

Jam – O próprio rap, ou melhor, a fusão de palavras + mixagem sonora.

Um comentário:

João Pedro disse...

Cara, Eminem num é curiosidade passageira, depois de seu último álbum Recovery ele vem sendo até comparado com as grandes lendas do Rap Tupac e Notorious Big, na qual faltou você citar pelo menos o Tupac, já que ele foi o cara que vendeu mais álbum em menos tempo de carreira, só 6 anos e vendeu 75 milhões de cópias, e mais 40 milhões de álbuns pós-tumulo, o que fez com que ele se tornasse o Rapper que mais vendeu até hoje, o cara ganhou disco de diamante com álbum pos-tumulo, e sempre comparam Tupac com o Biggie (as richas entre West Coast e East Coast, já que os dois eram os melhores de cada lado), e depois do álbum Recovery, o Eminem também entrou nessa comparação, então ele num é modinha passageira, é o segundo Rapper que mais vendeu discos, 90 milhões de discos, e é o Rapper que mais vendeu discos durante a sua carreira, e os Beastie Boyz também num foram mera curiosidade passageira, eles foram os percusores o Rap Metal, e foram os dicipulos do Run-DMC (que pra mim foi o melhor grupo até a chegada do NWA) e faltou mais um Rapper branco que também fez muito sucesso, o Vanilla Ice, é isso, e a postagem fico muito boa cara, muito boa mesmo, pena que hoje em dia o Rap que ta fazendo sucesso é uma bosta o Swag, que é pros negros de classe média, o gangsta Rap só continua sendo ouvido no gueto, e por mais alguns de seus amantes (como eu) pelo mundo, mas acredito que com o lançamento do ultimo álbum do 50 Cent agora no comecinho de 2013 o Gangsta vai voltar com tudo, também tem o álbum Detox do Dre que ta a dez anos pra sai e num sai, mas quando sai vai se um sucesso, já que o Dre mesmo a dez anos sem lança um álbum foi o artista que mais lucrou esse ano, só produzindo os intrumentais pros Rappers de sua gravadora e com as vendas dos HeadPhones "Beats by Dre", e é isso cara