segunda-feira, dezembro 21, 2009

A fotografia de primeira página


Abril de 1992. Eu estava trabalhando na agência G&F Comunicações, do Valdo Garcia, ali na Rua Ituxi, no Vieiralves, quando o telefone tocou.

Do outro lado da linha, um sujeito explicou que gostaria de falar comigo pessoalmente. Ele havia chegado recentemente de Curitiba e vinha recomendado pelo poeta Hélio Leites.

Ensinei o endereço da agência. Dali a meia hora, entrou na minha sala o poeta, artista plástico e fotógrafo profissional Alberto César Araújo.

Ele me contou a sua história. Nascido em Manaus, Alberto Araújo tinha picado a mula aos 15 anos de idade. Depois de morar em São Paulo e Rio de Janeiro, fixou residência no Paraná, onde conheceu Hélio Leites.

Publicou livros de poesias, estudou fotojornalismo, participou de oficinas de textos, trabalhou em jornais de Curitiba e Londrina, fez exposições de artes plásticas, se filiou ao Sindicato de Fotógrafos e Cinegrafistas Profissionais e Autônomos do Paraná, participou de congressos, seminários, conferências, cursos, ciclos de debates e palestras relacionadas com o exercício da atividade profissional, enfim, o moleque de pouco mais de 20 anos exibia um currículo cascudo.

Ele havia retornado a cidade para fundar uma associação profissional de fotógrafos, mas estava desempregado. Precisava de minha ajuda.


Ricardo Oliveira, Alexandre Fonseca e Alberto Araújo

Na mesma hora, telefonei para o jornalista Mário Adolfo, que na época era o editor da primeira página do jornal Amazonas Em Tempo. Expliquei a situação.

Ele concordou em receber o Alberto Araújo para uma entrevista no dia seguinte. Solicitou apenas que o fotógrafo levasse seu portifólio para, se fosse o caso, ser mostrado para a diretora de redação do jornal, jornalista Hermengarda Juqueira.

Trocamos telefones, desejei boa sorte a ele e o Alberto Araújo foi embora.

Cerca de dois meses depois, encontrei o moleque casualmente no Bar do Armando e começamos a conversar. Alberto havia sido contratado pelo jornal Amazonas Em Tempo, mas estava puto com o Mário Adolfo.

– Aquele teu amigo é um cretino! – desabafou o fotógrafo. “Ele não entende porra nenhuma de fotojornalismo e ainda quer queimar meu filme...”

Pelo que me contou, Alberto fazia diariamente uma porrada de fotografias de alto nível, que deixava os pauteiros e os editores dos cadernos encantados. Mas quando o Mário Adolfo começava a examinar as mesmas fotografias, só encontrava defeitos.

– Está uma merda, Alberto, está uma merda! Eu quero uma fotografia de primeira página, porra! Cadê a minha fotografia de primeira página? Isso aqui é tudo lixo! – detonava implacavelmente.

Alberto havia feito um contrato de experiência de três meses e Mário Adolfo já cantara a pedra: se naquele período ele não emplacasse uma foto na primeira página seria demitido sumariamente. Aquela situação esdrúxula deixava o fotógrafo indignado.

Ainda mais que ele desconfiava que Mário Adolfo o boicotava propositalmente. Para provar o que dizia, Alberto me mostrou algumas cópias das fotografias recusadas pelo editor da primeira página. Eram mesmo muito boas.

No dia seguinte, liguei pro Mário Adolfo para reclamar que ele estava sendo muito exigente com o moleque. Acabamos discutindo. Mário Adolfo estava irredutível:

- Ou ele faz a porra de uma fotografia de primeira página ou eu não renovo o contrato dele.


Andreia Mayumi, Alberto Araújo e Alexandre Fonseca

Alguns dias depois, alguém telefonou para a redação do jornal para avisar que estava acontecendo um incêndio catastrófico no Porto da Jonasa, ali na estrada da Ponta Negra. Único fotógrafo presente na redação, Alberto Araújo foi despachado para cobrir a tragédia.

Como a redação do jornal ficava em São Jorge, em menos de dez minutos ele foi o primeiro fotógrafo a chegar ao local. As labaredas gigantescas proporcionavam um visual primoroso. Era a chance que ele tinha de fazer a tal fotografia da primeira página.

Alberto bateu uma foto dali, outra daqui, correu pra cá, correu pra acolá, invadiu um galpão, contornou um muro, sempre captando ângulos cada vez mais diferentes.

Não satisfeito, ele resolveu fazer uma fotografia aérea e subiu em um poste de quase 10 metros de altura. Empoleirado lá de cima, botou pra disparar sua tele-objetiva.

Quando os fotógrafos dos outros jornais chegaram ao local, os bombeiros já haviam debelado o incêndio. Só o jornal Amazonas Em Tempo teria fotografias do incêndio em todo o seu esplendor. A fotografia de primeira página estava garantida.

Ocorre que Alberto Araújo sofre de acrofobia (medo de altura). Com a adrenalina a mil por hora, ele conseguiu subir no poste, na maior facilidade. Mas agora que a situação estava calma, com seu organismo em condições normais de pressão em temperatura, o fotógrafo entrou em pânico:

– Me tirem daqui! Me tirem daqui! Eu não posso olhar pra baixo que sofro de vertigem! – berrava ele, desesperado, demonstrando ansiedade e angústia verdadeiramente desproporcionais.

Os bombeiros tiveram que interromper o trabalho de rescaldo e usar uma escada magirus para resgatar o aloprado fotógrafo. Os fotógrafos dos demais jornais não perderam tempo e o resgate de Alberto Araújo virou alvo de dezenas de tele-objetivas.

Não lembro se alguma fotografia dele pegou a primeira página do jornal Amazonas Em Tempo, mas ele próprio foi primeira página em todos os outros jornais da cidade.

Hoje, Alberto Araújo é professor de fotojornalismo da UniNorte e subeditor de fotografia do mesmo Amazonas Em Tempo, depois de ter trabalhado nos jornais A Crítica, Diário do Amazonas, Correio Amazonense e Jornal do Norte.

Como freelancer tem trabalhos publicados nos principais jornais e revistas do país: O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Zero Hora, Valor Econômico, O Dia, Veja, Época e National Geographic, entre outras publicações.

No exterior suas fotos já ilustraram as páginas do San Francisco Crhonicle, Sun Sentinel, New York Times, Newsweek, e The Independent. Atualmente tem contrato de parceria com a Agência Estado e Folhapress.


Em 2001, Alberto Araújo venceu o Prêmio Esso de Fotojornalismo, com a foto “Horas de tensão”. Ele registrou o instante decisivo em que o artista conhecido como “Rambo da Amazônia” sai do seu ateliê, com o filho de 1 ano e 4 meses nos braços, apontando uma faca para o abdômen do menino.

A ação acabou tendo um desfecho feliz, após exaustiva negociação, mas o registro de Alberto eternizou a surpreendente cena. “Todos aguardavam a saída do artista, mas ninguém esperava uma cena daquelas. O meu posicionamento propiciou o ângulo ideal para a composição da foto”, explicou o fotógrafo.

Além de ter ajudado a fundar a Associação Amazonense de Fotojornalismo, Alberto Araújo também coordenou a I Semana de Fotografia de Manaus, trabalhou na documentação do Centro Histórico para a Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria de Cultura do Amazonas, foi selecionado para o “II FotoNorte”, livro editado pela Funarte que fez um mapeamento da fotografia na região e ministrou a oficina “Linguagem fotográfica através da Fotografia Documental”, no Sesc.

O fotógrafo com eterna cara de menino continua fazendo o seu currículo ficar cada vez mais cascudo. E também continua um homeboy cada vez mais chegado. Acontece.

Um comentário:

Anônimo disse...

pretty cool stuff here thank you!!!!!!!