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quarta-feira, junho 30, 2010

Recordando o famigerado bloco Aluga-se Moças


Fevereiro de 1983, domingo gordo de carnaval. Por volta do meio-dia, o contador Olíbio Trindade, acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de mulher, totalmente “divino maravilhoso”. Olíbio estava de saia rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana. Zé Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e peruca channel.


Dali a meia hora, dois cunhados de Olíbio, Mazinho e Nilsinho, também apareceram no boteco fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que incluía salto alto, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a presepada:

– A Emamtur liberou a avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 18h. Uns dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro. A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na gandaia. Você não está a fim de ir não?...

Eu já estava meio calibrado e o Olíbio estava com uma sacola dentro do carro que ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos. Perguntei do Simas, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:

– Bicho, se tu fores eu também vou! – garantiu.

Cada um de nós dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.

Dali a pouco, surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e colocando na cabeça. O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da história e também colocou uma peruca na cabeça. O Rubens providenciou vestidos, saias e blusas de suas irmãs. Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar de reprovação do pessoal que jogava sinuca.

Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar. Haja sombras, cílios postiços, pó de rouge, delineador e batons em cores escandalosas. Ela gastou metade do seu estojo da Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial. Compramos quatro caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra. No carro do Arlindo, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio, ele, Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.

Deixamos os carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:

– Vamos protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz...

Nem discutimos. Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro). Nos juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão, e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.




Desconfio que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a plateia. É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados. A gente parava em frente a um lance da arquibancada e perguntava:

– Vocês querem feijão? Vocês querem arroz?...

Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos de plásticos vazios estendidos pelos populares. A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada. No meio do desfile, o nosso estoque acabou. Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes. Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome naquele dia...

Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos beber em frente ao clube Ipiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite. Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Jaqueira, ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muito deles tinham vontade de fazer aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente, querendo saber detalhes daquela experiência inédita.

No ano seguinte, a Turma do Jaqueira (tendo Jairo, Belisca, Romito e Fonseca na linha de frente) se fantasiou de mulher, alugou um trio elétrico, colocou uma Miss Simpatia em cima (o fantástico Paulo Delgado, de biquíni prateado, peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiu ao Bar do Aristides, onde já havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher. Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas do bairro, depois se dirigia até a João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica.



Nos últimos desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já começava a assustar os desavisados. Eram cerca de 3 mil foliões, os homens invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres fantasiadas de homens. Apesar do grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.

O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia. Espada-matador juramentado em cartório, Paulo Delgado não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa. Pra complicar, sua família era evangélica. Depois de duas horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do minúsculo soutien e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e tanto. Paulo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos parentes, para não ser excomungado. Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar pela mesma provação. Um santo!

Em meados dos anos 90, o bloco parou de desfilar abruptamente. Até hoje ninguém sabe o motivo. De qualquer forma, o “Aluga-se Moças” faz parte das histórias inesquecíveis do carnaval amazonense. O Paulo Delgado que o diga!

4 comentários:

Anônimo disse...

O correto é alugam-se moças.

Anônimo disse...

Isso mesmo, rapaz,tá errado. Ficou muito tempo na gandaia e esqueceu de estudar, é nisso que dá. Fugiu da escola, virou publicitário.

Anônimo disse...

Quero que se fodam com o seu vocabulario de merda...
Buceta, xota, xereca, não importa como se escreve eu quero é meter meu piru.

Simão Pessoa disse...

Conviver com os "inguinorantes" de sempre é uma delícia... Não ocorreu aos babacas que o bloco simplesmente se apropriou da grafia (errada de nascença, obvious!) do clássico filme da Rita Cadilac e que era exatamente nisso que residia a ironia da brincadeira. Às vezes é preciso mesmo desenhar pro desdenhadores de ocasião entenderem a piada...