sábado, novembro 26, 2011

A festa dos quinze anos de minha primeira musa inesquecível


Maio de 1966. Eu havia acabado de fazer dez anos e estava enfeitiçado pela Vera Helena, uma linda moreninha de cabelos negros como as asas da graúna, que morava na Vila Operária, em frente ao grupo escolar Getulio Vargas.

Havia um complicador.

A Vera Helena ia completar quinze anos e era um mulherão.

Eu era um pivete raquítico e tímido, que ainda usava calças curtas e cabelo “corte militar”.

Além disso, o mais temido garanhão do bairro, Carlinhos Playboy, também estava de olho gordo na menina.

Cinco ou seis anos mais velho do que eu, Carlinhos Playboy foi um autêntico herói pop anônimo daqueles anos 60.

Com um corte de cabelo exatamente igual aos dos Beatles no início de carreira, ele usava as roupas mais descoladas do pedaço: calças Saint-Tropez ultrajustas, botinhas sem meia e camisas psicodélicas com a gola em pé na altura da orelha.

Quando desfilava pela área externa do grupo, provocava uma hecatombe na terra desolada da adolescência feminina.

As alunas ficavam excitadíssimas, histéricas, agitadas.

Acredito, sem poder provar, que até as professoras ficavam molhadinhas.


Conheci a Vera Helena no dia em que eu e Serginho, meu colega de classe no grupo escolar Getulio Vargas, fomos dividir um prosaico guaraná Andrade em uma taberna existente nas proximidades da escadaria de cimento que dava acesso a Vila Operária.

A menina entrou na taberna para comprar meia dúzia de pães massa grossa e um pote de margarina Claybom.

Fiquei hipnotizado pelas suas coxas grossas sob uma minissaia de índigo blue.

Quando ela foi embora, resolvi segui-la, apesar dos protestos do Serginho.

Acabei descobrindo onde ela morava.

Com a ajuda de alguns homeboys da área, fiquei sabendo o seu nome e onde ela estudava (quarta série ginasial do Patronato Santa Terezinha, localizado nas proximidades da Escola Técnica Federal do Amazonas, turno matutino).

Para minha sorte, ela não tinha namorado.

Para meu azar, Carlinhos Playboy estava lhe paquerando há mais de três meses.

Na escala Richter de viver com estilo, Carlinhos Playboy dava banho até mesmo na sua turma de galalaus metidos a garanhões.


Ele foi um dos primeiros moleques do bairro a ter uma motocicleta, a mais mítica, Harley Davidson VRSCA V-Rod.

Quando sua galera ainda usava camisa “Volta ao Mundo” e calças de tergal, ele já curtia macacão Lee e camisa Hang Ten.

Quando sua galera ainda achava o máximo calçar sapato Motinha, ele já desfilava de tênis Tiger ou All Star.

Quando os mais descolados fumavam os primeiros cigarros Continental sem filtro, ele já fumava maconha “cabeça de negro” vinda do Maranhão.

Enquanto seus homeboys gamavam por suburbanas de vestidinho floral falando “Benhêêê...”, ele já descolava as loirinhas mais lindinhas da festa e arrastava para a deserta praia da Ponta Negra.

Não dava pra competir com ele.

De qualquer forma, resolvi ir de “penetra” ao aniversário de quinze anos da Vera Helena, em uma festa que movimentou a Vila Operária.


Eu andava cismado de que aquela música do Leno que vivia tocando no rádio havia sido feita pra nós dois:

“Na festa dos seus quinze anos, mais uma vela se acendeu / Você estava tão bonita, mas nem sequer me percebeu / Tão triste eu olhava pra você, eu olhava pra você / Notei que você só dançava com gente que eu não conhecia / Por fora eu me controlava, mas por dentro eu morria / De longe eu olhava pra você, eu olhava pra você”.

Foi exatamente o que aconteceu.

A Vera Helena ignorou solenemente o fedelho com alma de poeta e se derreteu de amores pelo Carlinhos Playboy.

Tomado de ódio, deixei a festa antes que começasse a valsa.

Eu é que não ia permanecer naquela maldita casa pra ver aquele salafrário encoxando a minha quase-namorada ao som de Danúbio Azul.

A música do Leno tinha um final feliz:

“Sozinho então fui pro jardim / Ouvindo a valsa começar / Tão triste nem notei você / Correr chorando e me abraçar / E a valsa nós dançamos ao luar, / Nós dançamos ao luar / Nós dançamos ao luar...”.


Naquela noite abominável, entretanto, não havia sequer luar no céu.

Era uma noite negra como a minha alma solar havia se transformado em questão de minutos.

Caminhando solitariamente em direção a casa dos velhos, com um nó na garganta e uma espécie de aperto no coração, eu não sabia se chorava ou se me matava.

Mas quando se tem dez anos, a gente não tem coragem de tomar certas decisões definitivas.


O rádio de um vizinho estava sintonizado na rádio Baré e Roberto Carlos parecia me sacanear:

“Quem não acreditar / Venha ver a multidão / Que com ela quer dançar / Ela adivinha que eu / Estou sofrendo / Também querendo / Com ela dançar / Fico em pé olhando / E esperando / Que ela se afaste da multidão / Para eu me aproximar / Com ela dançar / Do meu carinho / Do meu amor, do meu amor / Poder falar”.

Aquilo devia ser um complô.

Passei uma três semanas deprimido e macambúzio, me sentindo mais baldeado do que açude com pouca água.

Mas quando se tem dez anos, essa merda chamada tristeza passa logo.

Ainda bem.

3 comentários:

melvin disse...

Valeu o testemunho! Será que todos moleques são iguais? A minha era ''Cristina'', o estado era outro (SP),o ricardão era o ''carcaça'' mas o sentimento de raiva, de perda é o mesmo. Detalhe: ele tinha um Maverick V8 e eu, um fusquinha
Boas lembranças...

Anônimo disse...

muito lindo !!!!!

Anônimo disse...

Ameiii não sou dexeh tempo...maix ja tou vivendu minha primeira paixao..tenho 15 anox e garoto ki eu gosto nem sabi que eu existuh..:(