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sexta-feira, outubro 23, 2026

A construção festiva do Bumbá Caprichoso

 


Para entender melhor o surgimento do Caprichoso no contexto do folclore de Parintins também é importante ler o livro “A Verdadeira História do Festival de Parintins”, de Raimundinho Dutra, versador tradicional do bumbá e oriundo de uma família tradicional do boi azul.

Em um de seus relatos, Raimundinho Dutra diz ter escutado de seus próprios pais que foi seu avô, o maranhense Marçal Mendes de Assunção, que trouxe as primeiras danças para Parintins, fato ocorrido em 1888.

O local de realização dos ensaios do Caprichoso, conhecido popularmente como curral, é chamado de Zeca Xibelão em homenagem ao primeiro tuxaua do boi-bumbá. Ele está localizado na parte considerada como azul da cidade.

O Bumbódromo situa-se na área central da cidade, traçando, juntamente com a catedral de Nossa Senhora do Carmo e o cemitério local, uma linha imaginária, que divide Parintins em uma metade leste e outra metade oeste. O lado leste pertence ao Caprichoso, o lado oeste, ao Garantido. Simples assim.

Como já foi visto, há muita controvérsia sobre a história do Caprichoso, uma vez que os bois de Parintins não eram associações legalmente registradas e nem possuíam ampla cobertura da imprensa até a criação do Festival.

Tudo o que se sabe atualmente foi levantado por pesquisadores a partir de entrevistas com membros das duas entidades, além de consultas a outros registros da tradição oral parintinense.

Some-se a isso o fato de que a extrema rivalidade entre os bumbás faz com que ambas as entidades busquem se afirmar como a mais antiga, o que leva seus torcedores e integrantes a defenderem teses que sugerem datas de fundação bastante remotas.


A diretoria do Caprichoso afirma, baseada em algumas versões da tradição oral, que o boi foi fundado por João Roque, Félix e Raimundo Cid, em 20 de outubro de 1913. Os três fundadores seriam irmãos, nascidos em Crato, que se mudaram para Parintins devido ao Ciclo da Borracha.

Ainda segundo esta versão, o boi recebeu esse nome devido à sugestão de um advogado, de nome José Furtado Belém, que conhecida um outro boi, de nome Caprichoso, que existia no bairro da Praça 14 de Janeiro, em Manaus.

Defensores desta tese alegam ainda que “Touro Galante” seria o apelido do Caprichoso à época. Ocorre que a própria diretoria do boi Caprichoso já entrou em contradição.

Em 2001, o então deputado estadual Zezinho Faria propôs na Assembleia Legislativa que fosse dado aos dois bois parintinenses a maior comenda de mérito cultural do Amazonas, a comenda Ruy Araújo.

O projeto foi aprovado e a cerimônia ocorreu em 7 de junho de 2001, no auditório Dom Arcângelo Cerqua, localizado em Parintins.

O Garantido foi representado por seu ex-Amo, João Batista Monteverde, filho de seu fundador.

Indicado como fundador do boi Caprichoso à ALE-AM, Luiz Gonzaga foi representado por sua viúva, a senhora Izolina Gonzaga.

A senhora Gonzaga recebeu a medalha em nome de seu ex-marido, indicando a verdadeira “paternidade” do touro negro, das cores azul e branca.


Em 2013, ano do suposto centenário dos dois bois, ocorreram algumas manifestações em Parintins, organizadas pelos descendentes vivos de Luiz Gonzaga, em que estes reivindicavam o reconhecimento de sua família como cerne da verdadeira identidade do fundador do boi Caprichoso.

Segundo a referida família, a diretoria do boi Caprichoso não prezava pela verdadeira história do boi azul, principalmente por querer “ocultar” os detalhes comprovados oralmente por inúmeras testemunhas sobre o surgimento da agremiação folclórica.

Maria Inácia Gonzaga, filha do suposto fundador, afirmou que o Caprichoso é parintinense, evidenciando ainda que Roque Cid (atualmente apontado como o fundador da agremiação pela diretoria) era o fundador do boi Galante.

“Querem colocar uma pessoa de fora para ser fundador do boi em vez de valorizar quem é da terra, isso é falta de respeito. Meu pai é parintinense, o Caprichoso nasceu em 1925, na rua Rio Branco, onde ainda moram filhos e netos de Luiz Gonzaga”, diz ela. A história é apoiada por Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde, o fundador do Garantido.


O cantor e compositor Chico da Silva, conhecido por suas célebres toadas para os dois bois, afirmou, em 2018, durante o programa #Toadas, do site BNC, que o boi Caprichoso foi fundado em 1925, e o contrário em 1924. 

“O Garantido é de 1924 e o Caprichoso de 1925, esse é meu depoimento e vamos parar com essas outras historinhas sem fundamento”, detonou.

Os presidentes do bumbá Caprichoso, dos anos 80 em diante, foram os seguintes: Rubem Santos (1985-1988), João Andrade (1989-1992), Ray Viana (1993-1996), Joilto Azêdo (1997-2000), Dodózinho Carvalho (2001-2002), César Oliveira (2003-2005), Carmona Oliveira Filho (2006-2010), Márcia Baranda (2011-2013), Joilto Azêdo (2013-2016), Babá Tupinambá (2016-2019), Jender Lobato (2019-2023) e Rossy Amoedo (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Franco Costa (1983-1988), Arlindo Júnior (1989-1999), Renato Freitas (2000-2001), Robson Junior (2002-2004), Arlindo Júnior (2005-2006), Edilson Santana (2007-2009), David Assayag (2010-2020) e Patrick Araújo (desde 2021).

Os Apresentadores foram os seguintes: Mário Gordo e Franco Costa (1983-1986), Marcos Santos (1987-1989), Gil Gonçalves (1990-1997), Arlindo Júnior (1998-2004), Júnior Paulain (2005-2013), Arlindo Júnior (2014), Júnior Paulain (2015), Fabiano Neves (2016) e Edmundo Oran (desde 2017).

Os Amos do Boi foram os seguintes: Rey Azevedo (1984-1998), Benedito Siqueira (1999-1999), Rey Azevêdo (2000-2003), Renato Freitas (2004), Edilson Santana (2005-2006), Prince do Boi (2007-2009), Edilson Santana (2010-2013), Junior Paulain (2014), Edmundo Oran (2015-2016), Prince do Boi (2017-2024) e Caetano Medeiros (desde 2025).

Entre os principais compositores do Caprichoso estão José Carlos Portilho, Ronaldo Barbosa, Carlos Paulain, Chico da Silva, Raimundinho Dutra, Sílvio Camaleão, Mailzon Mendes, Carlos Batata, Simão Assayag, Alceo Anselmo, Paulinho Du Sagrado, Robson Júnior, Tadeu Garcia, Alex Pontes, Zezinho Cardoso, Hugo Levy, Geovane Bastos, Ademar Azevedo, Adriano Aguiar, Klinger Araújo, Ronaldo Barbosa Jr., Maurício Filho, Davi Jerônimo e Cézar Moraes.


O histórico compositor e poeta Raimundo Nonato de Jesus Dutra, conhecido como Raimundinho Dutra, faleceu na noite de domingo, 4 de maio de 2025, em Manaus, aos 94 anos.

A diretoria do bumbá Caprichoso postou nas redes sociais a seguinte Nota de Pesar:

É com profundo pesar que recebemos a notícia do falecimento de Raimundinho Dutra, um dos grandes nomes da história e da poesia do Boi Caprichoso e do Festival de Parintins.

Poeta talentoso, Raimundinho marcou gerações com sua sensibilidade e genialidade. Suas toadas, como “Aquarela do Touro Negro”, “Meu Cântico de Guerra”, “Mocidade” e “Solo Amado”, embalaram as noites de Boi de Rua e despertaram o sentimento mais genuíno de amor pelo boi da estrela na testa.

Foi ao som de suas composições que o Boi Caprichoso ganhou vida nas ruas de Parintins, nos primórdios desta manifestação popular que hoje encanta o mundo.

Sua contribuição para a preservação e valorização da nossa cultura é imensurável, e seu legado permanecerá vivo na memória de todos os azulados.

Em nome do presidente Rossy Amoedo e do vice-presidente Diego Mascarenhas, o Boi Caprichoso decreta luto oficial de três dias e se solidariza com os familiares, amigos e com toda a nação azul e branca neste momento de dor e despedida.

Obrigado por tudo, Raimundinho. Sua poesia viverá para sempre.

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