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sexta-feira, outubro 23, 2026

A construção festiva do Bumbá Garantido

 

Paulinho Faria, símbolo do touro branco

A família Faria foi a principal colaboradora do bumbá Garantido na época em que os bois de Parintins ainda não recebiam apoio financeiro de empresas privadas ou do governo e eram associados, com uma boa carga de preconceito, a uma simples festa popular para pessoas de baixa renda.

Com o suporte da Loja Jotapê, de José Pedro Faria, seus filhos Zezinho e Paulinho Faria comandaram o Garantido por cerca de duas décadas, mais especificamente dos últimos anos de Lindolfo Monteverde à frente do boi, no início da década de 70, até a chegada de investimentos externos, nos anos 90.

Nascido em 2 de janeiro de 1902, em Parintins, filho de maranhenses, o criador do Garantido, Mestre Lindolfo Monteverde, faleceu em 27 de julho de 1979, aos 77 anos.

Em 1982, foi fundada por Zezinho Faria a primeira pessoa jurídica dos bois de Parintins: a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido. A associação foi fundada para que a posse do terreno onde hoje é situado o Curralzinho da Baixa pudesse ser entregue pela Loja Jotapê ao Garantido, e não a uma pessoa física. A cerimônia de entrega da propriedade contou com a participação de autoridades locais da época, como o então prefeito Gláucio Gonçalves.

A gestão dos irmãos Faria é considerada, até hoje, a “Era de Ouro” do Garantido, sendo considerada a época mais vitoriosa do bumbá quando foi conquistado o único pentacampeonato da história do Festival Folclórico até hoje (1980-1984) e o primeiro título disputado no Bumbódromo, em 1988.

O Garantido venceu também o tira-teima no ano seguinte, em 1989, no festival que marcou a despedida de Zezinho Faria do comando do boi com a célebre frase: “A partir de agora, os bois já podem caminhar com suas próprias patas”, em referência ao novo formato que teria o Festival de Parintins, em que ambas as agremiações seriam patrocinadas pelo Governo do Estado e por empresas multinacionais.

Foi o fim da “Era de Ouro” do Garantido, período no qual o Boi da Baixa do São José conquistou oito dos dez títulos disputados e o início dos anos de Zé Walmir como presidente do Garantido.


A matriarca da família Faria, dona Maria Ângela, falecida em 20 de fevereiro de 2014, ficou conhecida como a eterna “Madrinha do Boi”, sendo homenageada todos os anos durante a Festa da Alvorada, com os torcedores do Garantido passando solenemente em frente à sua residência. Dona Maria Ângela morreu de causas naturais, aos 91 anos, na casa onde sempre residiu.

Considerada uma das principais personalidades da cidade, dona Maria Ângela ficou conhecida mundialmente por assumir o amor pelo boi do coração de uma maneira radical: ao pintar a casa e todos os móveis da residência com as cores vermelho e branco, transformando o local em um dos pontos turísticos da cidade.

Por conta disso, dona Maria Ângela conquistou a admiração não só de torcedores do boi vermelho e branco, mas também do “contrário”, que se inspiraram no seu exemplo para replicar a dose no bumbá Caprichoso.


O amor pelo Boi do Povão era tanto que dona Maria Ângela não admitia a entrada de nada azul, cor do Caprichoso, em sua casa: nem a piscina, também pintada de vermelho, podia ter água, senão ficava azul. A piscina permanentemente vazia era um dos charmes da residência.

O Garantido sempre teve um coração na testa, só que antes era pintado de preto. Em outubro de 1982, na inauguração da nova sede do Banco do Estado do Amazonas (BEA), onde hoje fica o Bradesco, Jair Mendes pintou um mural que exibia os dois bois de Parintins.

Dona Maria Ângela Faria, ao ver o mural, chamou Jair para pedir a ele que pintasse o coração de vermelho, pois, em suas palavras, “ficaria muito mais bonito”. O coração vermelho foi visto pela primeira vez neste mural na sede do BEA, tendo sido muito bem recebido pela galera vermelha e branca.

Ele apareceu pela primeira vez na cor vermelha na testa do Garantido no festival do ano seguinte, em 1983, ano em que o Garantido venceria o seu quarto título consecutivo que culminaria no primeiro, e até hoje inédito, pentacampeonato, consumado em 1984.


Em 1976, o filho caçula de dona Maria Ângela, Paulinho Faria, se tornou o primeiro apresentador do boi Garantido, aos 15 anos de idade, ocupando este posto por 26 anos, tendo recebido nota máxima dos jurados durante 24 festivais. Ele deixou o posto em 2002, fazendo a passagem de faixa para Israel Paulain na primeira noite de apresentação do Garantido.

Filho do compositor Carlos Paulain, Israel é também um grande vencedor em seu item, tendo recebido nota máxima dos jurados ininterruptamente desde 2006. Naquele ano, o apresentador conduziu o espetáculo sem ler o roteiro, uma inovação que foi adotada pelos dois bois a partir de então.

Os presidentes do bumbá Garantido, dos anos 70 em diante, foram os seguintes: Zezinho Faria (1978-1992), Jair Mendes (1993), Aimée Faria (1994), Ronildo Monteverde (1995-1996), Zé Walmir (1997-1998), Raul Goés (1999-2000), Antônio Andrade (2001-2002), Zé Walmir (2003-2005), Vicente Matos (2005-2009), Telo Pinto (2009-2014), Adelson Andrade (2014-2017), Fábio Cardoso (2017-2020), Antônio Andrade (2020-2023) e Fred Góes (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Emerson Maia (1984-1990), Paulinho Faria (1991-1994), David Assayag (1995-2009), Edilson Santana (2020-2022), Márcia Siqueira (2020-2022) e Sebastião Júnior (desde 2010).

Os Apresentadores foram os seguinte: Paulinho Faria (1975-2001) e Israel Paulain (desde 2002).

Entre os principais compositores do Garantido estão Lindolfo Monteverde, Mestre Ambrósio, Venâncio, Nelson Bulcão, Vavazinho, Braulino Lima, Emerson Maia, Chico da Silva, Tadeu Garcia, Paulinho Du Sagrado, Inaldo Medeiros, Mencius Melo, Tony Medeiros, Helen Veras Filho, Demétrios Haidos, Geandro Pantoja, Cézar Moraes, Murilo Maia, Enéas Dias, Emerson Faria Maia, Ronaldo Barbosa Jr., Rafael Marupiara, Ademar Azevedo, Maurício Filho e Alfredo Campos.


O ex-apresentador do Boi Bumbá Garantido, Paulinho Faria, de 61 anos, morreu vítima da Covid-19, no dia 22 de fevereiro de 2021. Ele estava internado em um hospital particular de Manaus. Paulinho tinha sido transferido da cidade natal para continuar o tratamento contra a Covid-19 em Manaus no início de fevereiro. O corpo do ex-apresentador foi sepultado em Parintins.

Paulinho Faria acumulou 24 vitórias no Festival Folclórico de Parintins durante 26 anos como apresentador do Garantido. Em entrevista ao Paneiro, da Rede Amazônica, em 2016, o artista comentou que foi forçado a se afastar do posto em 2001 por causa de um problema auditivo.

O prefeito de Parintins, Frank Bi Garcia, publicou uma nota de pesar em redes sociais sobre a morte do ex-apresentador.

“Filho de Dona Maria Ângela, eternizada na história como madrinha do boi vermelho e branco, Paulinho Faria marcou gerações como apresentador na Baixa do São José. Conhecido pelos improvisos e uma narrativa riquíssima, mudou a forma de se apresentar o Festival. Nossa cidade perde um ícone do seu maior patrimônio, a cultura”, comentou o prefeito.

Também em redes sociais, o Boi Bumbá Garantido publicou uma mensagem por conta do falecimento do ex-apresentador:

“Impossível não chorar com a sua perda, o Amazonas precisa te reconhecer como uma das pessoas mais importantes para o crescimento da cultura parintinense no nosso estado. Você me apresentou durante 26 anos, você era praticamente imbatível, foi o melhor apresentador da história do festival, em todos esses anos perdeu apenas uma única vez e honradamente foi para outra lenda, Arlindo Jr.

A importância de Paulinho Faria na construção do festival em seu início é algo ímpar, o carinho e o carisma com a sua galera também. O amor por mim, seu brinquedo, seu boi de pano, estará sempre guardado em meu coração.

Gostaria de relembrar a sua despedida como apresentador, em 2001, onde as duas nações em uma única voz pela primeira vez se uniram em coro por aquilo que era a sua grande marca, a contagem de abertura do meu espetáculo”.

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