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domingo, setembro 18, 2011

Um final de semana inesquecível


Na última sexta-feira, a gente resolveu abrir o Boteco do Solarium por volta das 20h, para um bota-fora em petit comité em homenagem ao Jaques Castro, que, a essa altura do campeonato, já deve ter reassumido seu cargo de diretor geral do Hospital de Ipixuna, tendo como fundo sonoro uma seleção de velhos discos de vinil do Mestre João Roberto Pinheiro.


O regabofe teve como prato de sustentação um tracajá em miniatura (só eu mesmo para pagar por uma tartaruga de três palmos de peito e receber a metade de um tracajá de um palmo, cortesia do Bob Vigarista, um conhecido estelionatário de Manacapuru e agora meu ex-motorista particular), avidamente detonado pelo Lourenço Mestrinho Borghi, filho do saudoso médico Lourenço Borghi.


Para sair da saia justa, providenciei alguns queijos franceses e salames italianos que deram pro gasto, e o Aureo Petita nos brindou com uma fantástica mistureba de manga rosa cortada em cubos, azeitona verde, ricota, ovo de codorna, gergelim e pimenta malagueta, que ficou a cara dele, ou seja, uma grande merda.


Éramos apenas seis sujeitos (eu, Simas, Jaques Castro, Aureo Petita, Mestre Pinheiro e Domingos Ruim de Vida. O Lourencinho não bebe), mas estávamos com uma sede de anteontem.


A trilha sonora da muvuca incluía tão somente Muddy Waters, Buddy Guy, Junior Wells, John Lee Hooker, Bo Diddley e outras feras do mais autêntico blues, de forma que a presepada terminou por volta das 3h da madrugada, depois que as duas grades de antarctica foram para o espaço e ninguém teve coragem de ir comprar mais birita numa loja de conveniências localizada perto do boteco.


No sábado, o boa praça Afonso Libório, meu amigo de adolescência, vascaíno fanático e um dos fundadores do GRES Andanças de Ciganos, foi agraciado com uma festa surpresa pilotada por seu filho Marquinhos para comemorar seus 60 anos de existência.

A festa, que começou no meio dia do sábado e entrou pela madrugada, teve como prato de sustentação uma caprichadíssima tartarugada regional, um carneiro assado na brasa que era coisa de cinema e cervejas “canela de pedreiro” a dar de pau.


Estiveram presentes no fuzuê, entre outros, Luiz Lobão, Manuel Augusto, Sici e Sadok Pirangy, Helvécio, Paulo Nogueira e o renomado barman Selmo Nogueira, o “Caxuxa”, dono do inesquecível bar de mesmo nome, uma das glórias eternas de nossa velha Cachoeirinha.


Curtindo uma ressaca da moléstia, fiquei em casa o sábado inteiro, aos cuidados da Madame Butterfly, que me tratou à base de frutas vermelhas, sopa de ninho de andorinha e carinhos sem ter fim. E uma cervejinha ultra-gelada, que ninguém é de ferro.


Na mesma noite, a moleca ainda teve fôlego para disputar com outras 15 beldades o título de Garota Petrópolis, conquistando o primeiro lugar.

Não, não fui assistir a presepada. Preferi ficar em casa downloadando do site Pirate Bay a coleção completa do Buddy Guy.

Eu já sabia que ela iria ganhar.






A muvuca fazia parte das comemorações oficiais do bairro pelo seu 65º aniversário e, como prêmio, Madame Butterfly ganhou um moderno netbook.

Não tenho a menor ideia se ela será capaz de utilizar o mimo, já que seu forte mesmo é ficar tirando onda nas redes sociais via celular.

E o celular está para um notebook como uma serpente para um cabo de vassoura...


Pra completar, o glorioso Vascão meteu 4X0 no Grêmio, o São Paulo também meteu 4X0 no Ceará, e os meus dois times de coração assumiram a liderança e a vice liderança do campeonato nacional pela primeira vez na história.

Depois de um final de semana desses, estou absolutamente convencido de que já posso morrer em paz.

Sorry, periferia!

sábado, setembro 17, 2011

Hoje tem Zemaria Pinto na Livraria Saraiva


Inspirado na história real da águia que fora criada como galinha – contada por Leonardo Boff –, Zemaria Pinto conta a história de Grandona, um gavião que pensava que era uma galinha, e Beijinho, um beija-flor muito esperto que ajuda o gavião a descobrir sua verdadeira identidade.

A narrativa convencional do primeiro capítulo, mostrando o cotidiano de um grupo de crianças de férias em um sítio na bucólica Novo Airão, evolui para uma peça de teatro, onde as crianças representam, com muito humor, a história de Beijinho e Grandona.

O livro, com 50 páginas, é ilustrado por Humberto Rodrigues.

Contatos: 3635-1245/1324 (editora Valer); 9984-2407 (autor)

Lançamento: O Beija-flor e o Gavião

Preço: R$ 29,90

Projeto: Encontro com a palavra

Local: Livraria Saraiva - Manauara Shopping

segunda-feira, setembro 12, 2011

Encontro com a palavra na Saraiva MegaStore


A Editora Valer e a Livraria Saraiva MegaStore realizam no próximo dia 14, quarta-feira, mais uma edição do projeto Encontro com a Palavra.

Na ocasião será lançado o livro Poesia, do professor José Dantas Cyrino Júnior.

O evento acontecerá na Livraria Saraiva do Manauara Shopping, às 19h, com entrada franca.

A fonte da poesia é a vida.

As manifestações artísticas surgem da relação que os criadores estabelecem com a realidade.

Esse diálogo com o mundo é quase sempre tensivo, marcado por contradições e desencontros.

É nesse processo, entretanto, que vamos construindo nossas vivências e aprendizado – e assim vamos nos forjando subjetivamente.

A produção poética de José Dantas Cyrino Júnior é ilustrativa desse diálogo com a existência.

O poema Arque é revelador da percepção e sensibilidade do eu poético em face da vida:

No princípio era o verso, e o verso se fez frase
e habilitou nossa voz,
e ao inverso de ser carne, fez-se fala e cantoria.
No princípio era o verso
que fez nascer a poesia.

Uma das marcas do fazer poético de Cyrino é a simplicidade e a humanidade que perpassam seus textos.

O poeta Elson Farias, na apresentação à obra, ressalta esses aspectos: “Sua poesia, lançada por meio de uma forma predominantemente livre, com ousadia verbal, sensualidade explícita, liberdade vivencial... linguagem coloquial... insolente algumas vezes e libertina em outras, mostra sempre a face do professor, da escola, da vida, a política e a religião, numa poesia por vezes didática...”.

A exemplo dos velhos humanistas, seus versos são prenhes de sensibilidade e esperança.

A despeito de seus embates e decepções, não deixou fenecer em seu coração a crença na possibilidade do novo, de algo que possa representar o renascimento das coisas.

Poesia, livro que marca o batismo literário de Cyrino, é uma obra-testemunho: nela está presente uma subjetividade inquieta e, ao mesmo tempo, ciosa de sua relação e papel neste mundo feito de sonhos, angústias e possibilidades.

Os poemas que enformam esta obra são expressivos de suas vivências e circunstâncias, caracterizando-se pela diversidade temática e pela forma despojada com que concebeu seus textos.

Em todos, entretanto, está presente o olhar e o sentir de um homem que não perdeu a capacidade de se irresignar e se questionar diante da complexidade do real.

Percebe-se em seu discurso inquietudes que não se expressam em descrença, mas em confiança na renovação da vida.

Cyrino é um daqueles homens que funda sua vida numa história que tem como referencial o conhecimento, o compromisso com a educação e a fé na certeza de que a vida pode ser diferente e o amanhã poderá ser melhor.


José Dantas Cyrino Júnior é advogado e educador licenciado em Filosofia, com curso de pós-graduação na área de educação.

Nasceu em Manaus.

Desde 1980 atua como professor de Filosofia da Educação na Universidade Federal do Amazonas – Ufam.

Além do magistério, ocupou vários cargos de gestão, como coordenador do curso de Pedagogia, diretor da Faculdade de Educação, membro da Comissão do Vestibular, e conselhos superiores, além de outras comissões.

Foi um dos fundadores da Universidade do Estado do Amazonas – UEA, contribuindo na estruturação dos cursos de licenciatura da área de humanidades.

Diretor da Escola Normal Superior, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários e vice-reitor da UEA.

Foi ainda secretário de Educação de Manaus nos anos de 2005 e 2007.


Evento: Encontro com a palavra (Lançamento do livro Poesia)

Autor: José Dantas Cyrino Júnior

Editora: Valer

Páginas: 140

Data: 14 de setembro de 2011

Horário: 19h

Promoção: Livraria Saraiva e Editora Valer

Local: Livraria Saraiva do Manauara Shopping

Endereço: Av. Mário Ypiranga Monteiro (antiga Recife), 1300 – Adrianópolis.

Contatos: Valer: (92) 3635-1245

sexta-feira, setembro 09, 2011

Recordando os velhos tempos da Utam (Parte 1)


Colação de grau na Utam, em agosto de 1977: Rui Palmeira, Paulo Saraiva, Reinildo Cunha, Raimundo Campelo Arruda, eu e José Paulino

Março de 1974. Eu havia passado no vestibular da FUA para Licenciatura em Física e estava estudando pela parte da manhã em um prédio histórico na rua Monsenhor Coutinho, nas proximidades do Ideal Clube.

Como era uma turma de “bichos” de Ciências Exatas, acabei fazendo amizade com um estudante de Engenharia, Junior Bandeira de Melo, que era um ano mais velho do que eu e brincalhão o tempo todo.

Seu tipo físico e seu jeito estabanado de ser lembrava muito o do meu velho amigo Luiz Augusto, o “Careca”, do Colégio Batista Ida Nelson.

A matéria que mais nos atraía era ICC (“Introdução a Ciência dos Computadores”), ministrada pelo fabuloso professor Carlos Alberto Tinoco, um dos melhores mestres que já tive.

O boa praça Junior começou a frequentar a minha casa durante a semana, no começo da noite, porque eu passava o dia inteiro trabalhando na Sharp do Brasil.

A gente passava horas discutindo aqueles termos quase esotéricos (álgebra booleana, porta lógica, conjuntos binários, etc) e depois íamos escutar alguns discos de rock.

Em maio daquele ano, fui chamado a sala do diretor de Operações da Sharp do Brasil, um engenheiro paulista chamado Alberto Silva.

O sujeito estava apoplético:

– Que merda é essa de você só estar chegando na empresa por volta do meio dia? – disparou.

– É que pela manhã estou fazendo uma faculdade! – expliquei. “Mas tenho dado conta do meu serviço, o senhor pode perguntar do engenheiro Ali Ahmed e do meu parceiro Engels Medeiros. Se for preciso, eu trabalho até a meia noite...”

– Foda-se a sua faculdade, foda-se o Ali Ahmed, foda-se o Engels Medeiros, foda-se o seu trabalho até a meia noite! – detonou ele. “Eu não estou querendo um engenheiro, estou querendo um técnico de Controle de Qualidade. Se precisasse de um engenheiro, eu contratava em São Paulo e não aqui nessa merda. Negócio seguinte: ou você faz faculdade ou trabalha. Se a partir de amanhã você não chegar às sete da manhã como todo mundo, considere-se demitido. Pode ir embora!”

Saí da sala do arrogante diretor engolindo o choro.

Contei a patifaria para meu chefe, o engenheiro egípcio Ali Ahmed, que tinha por mim um carinho quase paternal.

Ele foi de uma sinceridade cruel:

– Alberto bichona muita filha da puta, muita filha da puta. Manda ela tomar no cu e faz faculdade. Brasil precisa engenheiro. Você novo, arranja bom emprego formado. Eu velho e longe meu país, precisa aguentar abuso de Alberto bichona pra sobreviver. Você não!

Na mesma noite, expliquei a situação pro velho Simão.

Eu mal havia completado dezoito anos, ganhava um bom salário que ajudava nas despesas da casa e ia jogar tudo fora pra voltar a viver de mesada? Aquilo não era vida.

O velho falou que apoiaria a minha decisão.

Aí, casualmente, me mostrou uma página do jornal A Crítica, onde havia o anúncio de um vestibular em julho para uma tal de Utam-Cetic, em que todos os cursos eram noturnos.

Resolvi encarar esse novo desafio e tranquei a minha matrícula na Universidade do Amazonas.

O professor Carlos Alberto Tinoco e o Junior Bandeira de Melo ficaram desapontados com a minha decisão.

Aliás, o Junior ficou tão aborrecido, que nunca mais visitou a minha casa.


O governador Danilo Areosa e o coronel João Walter (à dir.), que o sucedeu no governo. Jornal do Commercio, 23 ago. 1970

A Universidade de Tecnologia da Amazônia (Utam), vinculada ao Centro Tecnológico da Indústria e da Construção (Cetic) era um “tour de force” empreendido pelos dois mais renomados institutos militares da época: Instituto Militar de Engenharia (IME), do Rio de Janeiro, e Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos.

A idealização, criação e implantação da Utam partiu da política educacional e de qualificação de mão de obra do então governador do Amazonas, coronel João Walter de Andrade, que observou a insuficiência de técnicos para atender à demanda imposta pelo Distrito Industrial, quando a maioria das indústrias reclamava por ter de trazer profissionais do sul do país.

Esse processo também contou com a participação dos professores Roosevelt Braga dos Santos, Cônego Walter Gonçalves Nogueira (primeiro reitor), Samuel Hanan, Carlos Alberto Tinoco (primeiro vice reitor) e dos técnicos José Alves de Araújo, Alberto Carrozo, Giralsina Reis e Edson Alves Bandeira, dentre outras personalidades da área educacional.

No seu primeiro vestibular, a Utam oferecia cinco cursos de Engenharia Operacional: Eletrônica e Telecomunicações, Indústria da Madeira, Topografia e Estradas, Mecânica e Construção Civil, cada um deles com 50 vagas.

As aulas eram das 19h às 23h, durante a semana, e das 13h às 17h aos sábados.

A duração do curso era de três anos.

Fiz vestibular pra Eletrônica e Telecomunicações e fui aprovado.

Simone e Silene fizeram vestibular pra Indústria da Madeira e também foram aprovadas.

No primeiro dia de aula, uma boa surpresa: 30% da classe era formada por ex-alunos da minha turma de Eletrotécnica da ETFA e de companheiros de trabalho do Distrito Industrial.

De repente, era como se eu ainda estivesse fazendo o quarto ano do ensino secundário.


Pauderley e Claudia Avelino, uma das filhas do famoso médico Platão Araújo

Da turma da ETFA, estavam Engels Medeiros, Sebastião Peixoto, Pauderley Avelino, Carlos Almeida, Geraldo Nogueira, Reinildo Cunha, Aldenir Alencar e Paulo Saraiva.

Havia mais dois professores da ETFA, nossos contemporâneos: Cyro e Joãozinho.

Do Distrito Industrial estavam Lean Cláudio (Sharp), Rui Palmeira (Philips)e José Paulino (CCE)

Na primeira semana, o primeiro problema.

Os ônibus que se dirigiam ao centro não circulavam na avenida Darcy Vargas, onde ficava a Utam.

Era necessário dar uma pernada até a Constantino Nery, a dois quilômetros de distância, para apanhar um ônibus em direção ao centro e, no terminal da Igreja Matriz, apanhar um segundo ônibus para ir ao bairro de origem.

E isso tudo tinha de ser feito antes da meia-noite, horário em que os coletivos paravam de circular.

Um estudante da nossa classe, moreno, baixinho, meio careca e marrento, falou que iria resolver o problema (a Utam ainda não havia constituído o seu primeiro Diretório Acadêmico).

Uma semana depois, cinco ônibus da empresa Ana Cássia estavam estacionando na frente da Utam, pontualmente às 23h, para levar os alunos ao centro da cidade sem paradas.


O estudante marrento (e hoje meu compadre) era Adalberto de Melo Franco, que ficou conhecido internacionalmente como “Batará”.

Ele havia abandonado o segundo ano de Engenharia Civil na FUA para fazer Engenharia Eletrônica na Ufam.

Nos primeiros anos, a maioria absoluta de professores era formada por militares.

Eu, particularmente, gostava mais dos professores do ITA (bem humorados, versáteis, bons de papo) do que dos professores do IME (turrões, disciplinados, ranzinzas).

Todos eles dominavam com perfeição suas respectivas matérias.

Os professores civis eram simples engenheiros oriundos da Embratel e Telamazon, sem nenhuma experiência acadêmica.

Pior: quase todos exerciam cargos burocráticos nas duas estatais enquanto nós estávamos diariamente metendo a mão na massa, consertando calculadoras, televisores e aparelhos de som no Distrito Industrial.

Eles logo se transformaram em saco de pancadas do universitário Sebastião Peixoto, o melhor aluno da classe desde os tempos de ETFA.

Recordando os velhos tempos da Utam (Final)


Certa vez, na matéria de “Circuitos Elétricos”, ministrada por um professor e engenheiro da Embratel, Sebastião Peixoto atingiu os píncaros da glória.

O sujeito entrou na sala e começou a desenhar na lousa o circuito elétrico de um amplificador.

Levou meia hora para concluir a lambança, a despeito de estar tão somente copiando o desenho de um de seus livros “secretos”.

Aí, numa linguagem confusa, começou a mostrar o funcionamento do circuito amplificador sobre uma onda senoidal.

Levou uns 15 minutos explicando passo a passo o comportamento da onda diante de transformadores, diodos, resistores, capacitores cerâmicos, capacitores eletrolíticos, bobinas e transistores até mostrar como ela havia sido amplificada na saída do circuito.

Quando ele terminou sua explicação, o Peixoto levantou a mão, pedindo a palavra.

O professor concedeu.

– O senhor passou esse tempo todo falando merda! – disparou o abusado Peixoto.

Aí, se levantando da cadeira, foi até a lousa e apontou para o desenho:

– Esse fio aqui na entrada do circuito está em curto com esse outro, logo não tem onda senoidal nenhuma saindo do amplificador!

O professor ficou pálido.

O pior é que o Peixoto tinha razão.

Seguiu-se um duro bate boca entre os dois.

Peixoto deu um cheque mate:

– Se o senhor me garantir presença na sua disciplina, eu nunca mais assisto uma aula sua. Só entro na sala em dia de prova. Eu entendo dez vezes mais de circuitos elétricos do que o senhor. Vá enganar o caralho!

Pálido que nem um defunto, o professor teve que aceitar as condições impostas pelo abusado aluno.


A partir daquele dia, quando o professor entrava na sala de aula, o Peixoto ia embora e se refugiava na biblioteca.

Nas provas, ele não levava mais de 15 minutos para entregar as respostas.

Tirou dez nas três provas sem ter assistido uma única aula.

Era abusado, mas também era inteligente pra carálio.

Peixoto se sentava na primeira cadeira da primeira fila à esquerda, encostado na parede.

Atrás dele se sentava o Paulo Saraiva e atrás deste o Joãozinho.


O Engels se sentava na primeira cadeira da segunda fila, eu ficava atrás dele e o Melo Franco logo atrás de mim.

O Carlos Alberto se sentava na primeira cadeira da terceira fila, o Geraldo Nogueira atrás dele e o Pauderley atrás do Geraldo.

O Aldenir se sentava na primeira cadeira da quarta fila, o Reinildo atrás dele e o José Paulino atrás do Reinildo.

O Lean Cláudio se sentava na primeira cadeira da quinta fila, o Rui Palmeira atrás dele e o Cyro atrás do Rui.

A nossa turma monopolizava as três primeiras fileiras da sala na maior cara de pau.

Os demais alunos ficavam putos, mas não reclamavam.

Durante as provas, os professores militares liberavam livros e cadernos para consultas, mas proibiam qualquer tipo de “cola”.

O professor de Cálculo 1, o afável capitão Almir Paz de Lima, do ITA, tinha uma explicação lógica:

– No mundo real, vocês vão ter que saber buscar as respostas certas para os problemas e é isso que nós queremos ensinar. Encontrando a resposta certa no trabalho alheio, você pode até passar de ano, mas não terá nenhuma garantia de que vai poder consultar esse seu amigo no dia em que precisar, quando estiver às voltas com um problema concreto no ambiente de fábrica, por exemplo.

Paulo Saraiva, que nunca levou muito a sério essa conversa, era um dos poucos cachorros da nossa matilha que ainda se utilizava daquele baixo expediente de “colar” dos outros.

O Peixoto fazia sua prova com o corpo recurvado sobre o papel almaço.

Para “colar” dele, só tendo visão de raio xis.


Inspirado na atuação da possuída Linda Blair, no filme “O Exorcista”, o Paulo Saraiva desenvolveu uma técnica de girar a cabeça totalmente para trás, mantendo o corpo virado para a frente, para poder “colar” do Joãozinho, que nunca fez um único gesto para desestimular o “colão”.

Desconfio até que ele chegava mesmo a incentivá-lo, já que ficava a uma boa distância da sua própria prova.

Paulo Saraiva devia treinar em casa leitura com espelho, para conseguir “colar” de uma prova que, no seu campo visual, estava de cabeça pra baixo. Mas ele era bom na tarefa.

Naquela época, nos dias de prova, os professores davam uma única folha de papel almaço em branco, contendo o timbre Utam-Cetic e dois campos para serem preenchidos: o nome do aluno e o nome da disciplina.

A prova, normalmente apenas uma questão, era escrita na lousa.

Os cálculos deviam ser elaborados em cadernos para só então serem passados a limpo para o papel almaço, que devia conter apenas a resposta, sem o enunciado da pergunta.

No caso de alguém danificar o papel almaço timbrado, sua prova seria automaticamente anulada e ele ganharia zero.

Assim que terminavam de escrever o problema na lousa, os professores saíam de classe.

Alguns ficavam entrando e saindo da sala, a cada quinze minutos, tentando surpreender algum aluno “colão”.

Sujeito altamente meticuloso, Joãozinho era o único da turma que usava caneta grafite.

O resto da classe usava caneta esferográfica.


Numa prova de Física III, o professor colocou como problema a resolução de uma cabeluda oscilação eletromagnética a partir das equações de Maxwell.

Depois de consultar uns três livros diferentes, Joãozinho começou a escrever os cálculos na folha de papel almaço.

Paulo Saraiva começou a copiar.

Joãozinho encheu a primeira folha de equações de todos os tipos e continuou na segunda folha.

Paulo Saraiva fez o mesmo.

Joãozinho, cada vez mais empolgado com suas equações cabalísticas, encheu a terceira folha.

Paulo Saraiva fez o mesmo.

Joãozinho passou para a quarta folha, que também ficou inteiramente preenchida com equações de todos os tipos.

Com a competência de um copista monástico da Idade Média, Paulo Saraiva também havia conseguido transpor para a quarta página de sua prova aquela quantidade inenarrável de cálculos matemáticos.

Alegre que só mosca em tampa de xarope, Paulo Saraiva estava se preparando para entregar a prova quando Joãozinho consultou um quarto livro, olhou para a parte final da prova, aí sacou uma borracha do bolso e começou a apagar lentamente todos os cálculos efetuados, página por página, até o papel almaço ficar novamente em branco.

O desespero na cara do Paulo Saraiva quase me tirou do sério.

Primeiro, ele precisou encontrar entre os alunos uma borracha que apagasse tinta.

Encontrou uma daquelas bandas de asa, vermelha e azul.

A parte macia, vermelha, apaga grafite.

A parte dura, azul, apaga tinta, mas é preciso passar um pouco de cuspe.

Faltando apenas 15 minutos para terminar o horário de prova, Paulo Saraiva entregou-se ao meticuloso trabalho de apagar seus cálculos feitos com esferográfica tomando cuidado para não “furar” o papel almaço.

Foi salvo pelo Sebastião Peixoto que, penalizado, deixou que ele copiasse a resposta certa de sua própria prova – não mais que seis linhas de cálculos.

Nunca mais Paulo Saraiva quis colar do Joãozinho ou de qualquer outro aluno.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Balé clássico e louvor são destaques na Mostra Cidade de Manaus




O Centro de Artes Nelson Neto, o Grupo Independente de Louvor a Cristo e o grupo de dança da Escola Municipal de Educação Especial André Vidal foram escolhidos como destaques da 3ª Mostra de Dança Cidade de Manaus, realizada no sábado e domingo (3 e 4), no Clube do Trabalhador do Amazonas.

Os três grupos vão integrar a programação cultural dos Jogos Regionais do SESI, que serão sediados em Manaus, de 11 a 15 de novembro, reunindo trabalhadores-atletas de empresas industriais de todos os Estados da região Norte.

Promovida em parceria pelo SESI Amazonas e Prefeitura Municipal de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Desporto e Lazer (Semdej), a mostra reuniu, no Ginásio Domício Velloso, do Clube, 28 grupos, 12 no sábado e 16 no domingo.

O evento atraiu um público de cerca de 300 pessoas em cada dia.

Os três grupos eleitos pela comissão julgadora representam a síntese dos estilos e gêneros de dança apresentados na mostra: o gospel, o balé clássico e o ritmo latino.

O diferencial veio da Escola André Vidal, que trabalha com pessoas com deficiência, tanto adultos quanto crianças e adolescentes.

Escolhida para abrir o primeiro dia da mostra, a Escola André Vidal levou dois grupos de alunos com as coreografias “Anos Dourados” e “Ritmo Latino”.

De acordo com a coordenadora do projeto de dança da escola, Heleny Gomes, 40, a André Vidal tem cerca de 400 alunos com deficiência, o que torna a dança, para eles, mais do que uma atividade física ou artística, uma terapia.

Nos grupos tem alunos com deficiência auditiva, com paralisia cerebral, com Síndrome de Down e autistas.

Também selecionado, o Grupo de Louvor a Cristo, foi um dos representantes do gênero gospel na Mostra Cidade de Manaus, que reuniu grupos católicos, como o da Escola Frei Mario Monacelli, e evangélicos, como o Grupo Maranatha.

Família de artistas

No domingo, 4, o público presente no Ginásio Domício Velloso vibrou com a performance dos alunos do Centro de Artes Nelson Neto, escola de balé clássico localizada no bairro São José IV, na zona Leste.

No final, aplaudiu a escolha do grupo entre os melhores da mostra.

Dirigido pela professora Marielva Monteiro, o Centro de Artes é formado por crianças e adolescentes da zona Leste e se apresentou com duas valsas, uma delas com a participação do aluno Richardson Jimmy, 13 anos, que fez um dueto com a irmã Viane Evelyn, de 11 anos.

Richardson e Viane são filhos da dona de casa Francisca e do pedreiro Osberto Ferreira, 12 filhos, moradores do Zumbi 2, na zona Leste.

Além do casal principal, a família está presente no elenco do Centro de Artes Nelson Neto por meio de Larissa, 11, Brenda, 8, e Brize, 5 anos, netas.

“Somos uma família de artistas”, diz Richardson com o troféu recebido pelo grupo na mostra.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Grandes Mestres da AMOAL: Carlos Imperial


Ao assumir a liderança da AMOAL, no início dos anos 60, o jornalista Carlos Imperial dissolveu sua estrutura templária, possibilitando que seus membros criassem seus santuários privativos em quitinetes ou quartos de motéis, e realinhou-a com a Sabedoria Devassa na qual originalmente havia sido inspirada.

Ele também estabeleceu dentro da Ordem um núcleo independente, “Clube da Pilantragem”, para poder driblar a censura das mães de família e a ditadura militar.

A AMOAL operou sob seu comando entre 1955 e 1992, durante o qual a Sabedoria Devassa foi completamente alinhada com a Corrente de Sodoma & Gomorra vigente nos bailes de carnavais do Rio de Janeiro.

Jornalista, produtor e compositor, Carlos Imperial morreu no dia 4 de novembro de 1992, com 56 anos de idade, no hospital Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca, Zona Norte do Rio, de infecção generalizada.

Ele havia sido internado 15 dias antes no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do hospital com problemas cardíacos e chegou a ser submetido a uma cirurgia para extração do timo, órgão que recobre grandes vasos da base do coração.

Seu filho, Marco Antônio, denunciou que um erro médico provocou a morte dele.


Carlos Imperial era conhecido e reconhecido como um gozador, um bon vivant, mulherengo e com especial predileção por garotas bem jovens.

No seu último ano vivia com uma menina de 14 anos, com quem pretendia se casar, segundo chegou a anunciar.

Filho de uma família rica capixaba, seu pai era banqueiro e foi prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, onde também nasceu Roberto Carlos.

Imperial foi casado duas vezes, a primeira com Rose, filha do ex-campeão de jiu-jítsu Carlos Gracie, com quem teve os dois filhos, Marco Antônio e Maria Luíza.

Ele foi um dos grandes incentivadores do rock & roll em sua primeira fase, especialmente por meio do “Clube do Rock”, grupo que reunia e apoiava artistas em torno do novo ritmo, e também nome de programa apresentado por ele na TV Continental, do Rio de Janeiro, a partir de 1958.

Disc-jockey e agitador cultural, Carlos Imperial também criou o grupo Os Terríveis, onde Roberto Carlos iniciou sua carreira.

Foi autor das primeiras músicas gravadas por Roberto Carlos (“João e Maria” e “Fora do Tom”).


Ainda apresentou os programas “Festa de Brotos” na TV Tupi e “Os Brotos Comandam” na TV Continental e Rádio Guanabara, que lançou artistas jovens como Eduardo Araújo, Erasmo Carlos, Rosemary, Ed Wilson e Renato e Seus Blue Caps.

Em São Paulo, dirigiu Wilson Simonal na TV Record no programa “Show em Si... monal”.

Com ele, Nonato Buzar e o grupo Som Três (Sabá Oliveira, César Camargo Mariano e Toninho Pinheiro), Imperial criou o movimento “Samba jovem”, que acabou ficando mais conhecido como “Pilantragem”.

Deste novo ritmo surgiram composições como “O carango”, parceria com Nonato Buzar, gravada por Erasmo Carlos e Simonal, “Mamãe passou açúcar em mim” e “Nem vem que não tem”, também do repertório de Simonal.”

São dele ainda as clássicas “Prima Daisy” e “O Bom”, gravadas por Eduardo Araújo, com que dividiu a parceria de “Vem Quente Que Estou Fervendo” e de “A Praça”, sucesso com Ronnie Von.

Foi também nesta época que ficou conhecido no Brasil inteiro ao participar do programa “Esta Noite se Improvisa”, onde demonstrou um grande conhecimento da música brasileira, provando que seu interesse musical não se limitava apenas ao rock.


Na atração da TV Record, criou um personagem arrogante, que destratava os adversários e o próprio público.

Era sempre recebido pelo auditório com vaias.

Cunhou então uma de suas frases mais famosas: “Prefiro ser vaiado no meu Mercury Cougar do que ser aplaudido de pé num ônibus”.

Na década de 70, movimentou o noticiário do Rio de Janeiro ao fundar o Clube da Pilantragem, com Jece Valadão, o cineasta Rui Guerra, Daniel Filho e Hugo Carvana, com o objetivo declarado de “abater lebres” (“modelos, atrizes e garotinhas”).

Os “sócios” se revezavam em um apartamento em Ipanema que se tornou endereço conhecido no Rio.

Nos anos 80, para se contrapor ao movimento feminista, criou então o Clube dos Machões, que manteve até morrer, e cujo último sócio honorário convidado foi o ex-ministro Bernardo Cabral “por ter fugido da Zélia (a ex-ministra da Economia)”, segundo definiu Carlos Imperial ao fazer-lhe o convite um mês antes de morrer.

Ele foi vereador no Rio por duas legislaturas, pelo PDT, sendo que em 1984 foi o mais votado da cidade.


Jurado de quadros do programa Sílvio Santos, no SBT, onde continuava a atuar, chegou a fazer uma peça de teatro, o “Edifício 2.000” e a dirigir filmes pornográficos financiados pela sua produtora.

Nos seus últimos anos vivia entre a Barra da Tijuca e Miami, animado com projetos da sua empresa, a construtora Imperial, responsável pelas obras de condomínios cuja concepção exportava para os Estados Unidos.

“Imperial sempre foi polêmico”, relembrou na época um de seus maiores amigos, o ator Jece Valadão, que dividiu com ele alguns anos de boêmia. “Mas era absolutamente careta, não bebia, não fumava, não cheirava”, garantiu. “Seu prazer eram as menininhas”.


Valadão recordou o escândalo provocado por um cartão de Natal enviado por Carlos Imperial durante a ditadura militar, quando foi promulgado o AI-5, a algumas autoridades, incluindo o presidente, ministros e generais, em que aparecia sentado em um vaso sanitário.

Foi preso e ficou uma semana confinado no presídio da Ilha Grande.

Como compositor também gerou confusão ao assumir a autoria de “Meu limão, meu limoeiro”, do cancioneiro popular, que assinou, datou e gravou.

Para Jece Valadão, Imperial morreu “porque não agüentou a emoção de transar cinco vezes por dia com uma garota de 14 anos e teve uma vida muito louca”.

E aqui cabe uma história interessante envolvendo o nosso inesquecível cafajeste.

Os anos 60 foram de grande discriminação ao mestre Luiz Gonzaga e ao gênero do baião.

Estamos no meio da década.

É época de Bossa Nova, Jovem Guarda, canções de protesto, guitarras elétricas, modismos estrangeiros e caseiros.

O espaço que sobra para o baião são as cidades do interior.


O velho Lua chegou até a pensar em “pendurar” o fole prateado, mas sabe que o Nordeste, sua terra, ainda o acolhe.

Na quase virada dos anos 60 para os 70 muito se fala em “rock caipira” e “rock rural”.

Uma exótica mistura de ritmos é imediatamente denominada “baião-rock”.

Era nessa época que Carlos Imperial vivia o apogeu de sua carreira artística.

Famoso como produtor, apresentador, jurado de programas de TV e um dos pilares do movimento da Jovem Guarda, ele há muito já proclamava a semelhança que alguns viam entre Gonzaga e a country music americana.

A mesma que serviu de base para o rock de Elvis, Bill Halley e dos consagrados Beatles.

Assim, em 1968, Carlos Imperial convidou Gonzagão para participar de um dos seus programas televisivos, ocasião em que se discutia o “baião-rock”.

Meio sem jeito, sobretudo porque teme o que se possa dizer caso ele confirme a apregoada semelhança, o Rei do Baião não se define e se vê quase perdido nas sombrias encruzilhadas desses entrelaçados musicais.


Nesse momento, Carlos Imperial bate na mesa, levanta-se e, olhando para Gonzaga, categoricamente afirma: “Esse homem que representa a simplicidade nordestina, sendo o criador e o divulgador-mor do baião, na sua modéstia, não se sentiria à vontade para comentar semelhanças entre a música dos Beatles e a sua toada, como ele próprio classifica, e que é, pelo menos, 20 anos mais antiga...”

Num gesto um tanto teatral, ele desvia o rosto para outra câmera, como se quisesse olhar nos olhos e falar com o telespectador, e continua, dessa vez aumentando o tom de voz e demonstrando indignação: “Vocês – agora apontando para os demais debatedores – críticos de Música Popular Brasileira, que abominam o xote, o xaxado, a toada, o baião e a sanfona de Luiz Gonzaga, por vocês chamada de sanfona cafona da mediocridade, saibam todos, e eu tenho a prova aqui: os Beatles acabam de gravar Asa Branca de Luiz Gonzaga!!!”

A revelação teve o efeito de um terremoto.

Até Gonzaga, que desconhecia as reais intenções do apresentador, ficou surpreso: “É verdade, seu Imperial?...” – é a simples e humilde pergunta que ele faz.

A partir daí, os focos dos refletores se voltam para o Rei do Baião.

Toda a imprensa quer entrevistá-lo, seu cachê aumenta, seus discos recomeçam a vender em maior quantidade.


Músicos e cantores de todas as idades, vindos do movimento pós-Bossa Nova ao Tropicalismo, todos determinam unanimidade nacional em torno do pernambucano de Exu.

Novamente cortejado e, por todos os méritos e direitos, reverenciado como a majestade única do baião, Luiz Gonzaga sustenta a inverídica notícia.

Por questão de ética e de respeito ao público, faz isto de uma maneira singular: não a confirma e nem a desmente.

A única coisa que realmente o interessa nisso tudo é voltar a tocar xote e baião para o povo dançar por esse Brasil afora.

E o Brasil redescobre a magia da música de raízes do querido Lua, o eterno Rei do Baião, graças a um insight providencial do inesquecível mestre Carlos Imperial.

Assim surgem as lendas.

terça-feira, setembro 06, 2011

1º Simpósio Internacional Margens e Periferias da UEA traz o escritor Ondjaki


O angolano Ondjaki lança em Manaus, nesta quarta-feira (07), Há Prendisagens com o Xão - o segredo húmido da lesma e outras descoisas, um de seus mais premiados trabalhos, apresentado no último fim de semana ao público da Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Sociólogo, doutor em Estudos Africanos, autor de romances, contos, poesias e livros infantis, traduzidos para o francês, espanhol, alemão, inglês, sérvio, sueco e até chinês, o escritor Ndalu de Almeida, ou Ondjaki como ficou conhecido em todo o mundo, é considerado pela critica especializada um fenômeno da literatura moderna.

Aos 34 anos de idade, o jovem angolano publicou mais de 10 livros, fez dezenas de palestras em todo o mundo e coleciona prêmios em Portugal, Angola, Etiópia, Itália e no Brasil, onde ganhou em 2010 o Jabuti Juvenil, mais cobiçado prêmio literário do país.

“O texto de Ondjaki é inconfundível por sua capacidade de criar imagens cheias de poesia”, explica Otávio Rios, responsável pelo convite a Ondjaki que participará do Simpósio Internacional Margens e Periferias organizado pela Universidade do Estado do Amazonas em comemoração aos três anos de criação da Cátedra Amazonense de Estudos Literários, grupo de pesquisa de pós graduação da universidade.



O Café Literário com o autor dá início à programação do Simpósio Internacional Margens e Periferias que reúne até a próxima sexta-feira (09) alguns dos mais importantes nomes da literatura de língua portuguesa.

O Café com Ondjaki será o primeiro de uma série de encontros onde a história e a cultura africanas serão discutidos por convidados de expressão internacional como a ex ministra da Cultura de Portugal Isabel Pires de Lima e autores reverenciados pela crítica especializada como Inocência Mata e Teresa Bermudz, ambas professoras de universidades portuguesas.

Palestras e mesas redondas com professores da Universidade de São Paulo (USP), das universidades federais Fluminense, de São Carlos e do Rio de Janeiro também integram a programação do simpósio que terá ainda a participação de vários escritores amazonenses.

O lançamento de Há prendisagens com o xão acontece às 18 h de quarta-feira,
dia 07, na Livraria Saraiva Megastore.
Av. Mário Ypiranga Monteiro, 1300 – Adrianópolis
Fone: 3236-0200

Programação

7 de setembro (quarta-feira)
15 às 17h – Reitoria da UEA - credenciamento
18h – Livraria Saraiva Megastore - Manauara Shopping
Café Literário com o escritor angolano Ondjaki.
Mediação: Allison Leão (UEA)
- Lançamento do livro “Há prendisagens com o xão” (Ondjaki)
- Lançamento do livro “Arquipélago contínuo: literaturas plurais” (Otávio Rios, Org.)

8 de setembro (sede da Reitoria da UEA)
8h – Credenciamento
9h – Cerimônia de abertura
9h30min – Conferência de abertura: “Discutindo fronteiras: literaturas e globalização ou a ‘condição pós-colonial’ das literaturas africanas”, por Inocência Mata (UL).
Apresentação: Jorge Valentim (UFSCar).

10h30min – Mesa plenária: “Páginas de e-mail, páginas de livros: palavras cruzadas”, Tânia Ramos (UFSC); “As margens do corpo e as margens da arte: a imagem das fezes na obra de Rubem Fonseca”, Vinícius Carvalho (IFMT/UFRJ).
Mediação: Juciane Cavalheiro (UEA).

12h às 14h – intervalo para almoço

14h – Mesa plenária “Nomear o desejo: homoerotismo, gênero e resistência em A Confiança, de Bernardo Santareno”, Jorge Valentim (UFSCar); “Apontamentos para a gênese da negritude na poesia africana de língua portuguesa”, Mario Lugarinho (USP).
Mediação: Emerson Inácio (USP)

15h30min – Mesa plenária: “Páginas de fim de século: a escritura de Fialho de Almeida”, Luci Ruas (UFRJ); “Unamuno e Portugal: de suicídios e naufrágios”, Paulo Motta (USP).
Mediação: Maurício Matos (UEA).

17h – exibição de painéis

9 de setembro (sexta-feira)
manhã: Escola Normal Superior da UEA
tarde: sede as Reitoria da UEA

8h às 12h – Minicursos
I. Vozes da poesia periférica, Prof. Dr. Emerson Inácio (USP)
II. Literaturas Africanas de língua portuguesa na contemporaneidade, Prof. Dr. Mario Lugarinho (USP)
III. Da costa dos murmúrios ao grito das margens: o discurso descentralizador de Lídia Jorge, Prof. MsC Nicia Zucolo (UFAM/USP)
IV. A poética de Manuel Rui: riso e utopia, Profa. MsC Veronica Prudente (UEA/ UFRJ)
V. Rubem Fonseca: margens, fezes e abjeção, Prof. MsC Vinícius Carvalho (IFMT)
VI. Literatura galega: margens & periferias, Profa. Dra. Teresa Bermúdez (Universidade de Vigo)

12h às 14h – intervalo para almoço

14h – Mesa plenária: “A Amazônia de Euclides da Cunha”, Allison Leão (UEA); “Sobre a busca de um eldorado tropical na Amazônia das obras de Tenreiro Aranha”, Maurício Matos (UEA).
Mediação: Teresa Bermúdez (UVigo)

15h – conferência intermediária “Vozes da poesia periférica”, Emerson Inácio (USP).
Apresentação: Otávio Rios (UEA/UFRJ)

16h30min - Mesa Plenária: “Literatura galega: margens e periferias”, Teresa Bermúdez (Univ. de Vigo); “Reflexões sobre vozes poéticas femininas em Moçambique”, Carmen Tindó (UFRJ).
Mediação: Verônica Prudente (UEA/UFRJ).

18h15min – Conferência de encerramento: “Portugal, cais de chegada: identidades em trânsito na imigração portuguesa”, Isabel Pires de Lima.
Mediação: Luci Ruas (UFRJ).

sexta-feira, setembro 02, 2011

Histórias da nossa velha Caxuxa


Ao lado da casa do “seo” Aristides, na ladeira da rua Parintins, ficava a casa da Dona Francisca, mãe do Luiz Lobão, que possuía dois meio-irmãos mais velhos, Moacir e Rui.

Enfermeira do Sanatório Adriano Jorge, Dona Francisca era um doce de pessoa e durante muitos anos fez parte da Ala das Baianas do GRES Andanças de Ciganos.

No aniversário do Luiz Lobão, em setembro, ela ia de casa em casa pedindo autorização dos pais pra levar os moleques amigos do Luiz para a comemoração do seu aniversário no balneário do Tarumãzinho.


A gente (umas 20 crianças) se aboletava na carroceria de um caminhão pilotado pessoalmente pelo pai do Luiz, o inesquecível Arthur Azeitona, que bancava sozinho a esbórnia.

Era um dia inteiro de gandaia no balneário, sob a constante vigilância dos adultos.


Fernando Linguinha, Luiz Lobão, Betinho, Paulo César Dó, Gilson Cabocão e Felipe

Almoçávamos tambaqui na brasa, galinha assada, maionese, arroz, feijão, macarrão e farofa de ovo.

De sobremesa, fatias de melancia, tangerinas e laranjas.

Os adultos se fartavam de cerveja XPTO, a molecada, de guaraná Andrade.

Sim, éramos uns perfeitos “farofeiros”, dá licença?

Como eu passava mais tempo jogando bola no areal existente no entorno do igarapé do que dentro d'água, nunca aprendi a nadar direito.

Oportunidades não faltaram.


Marcos Pombão (o primeiro a esquerda), ao lado da Dona Francisca, e os adultos encarregados de controlar a matilha

Quando retornava pra Cachoeirinha, por volta das 16h, com todo mundo sã e salvo, Dona Francisca entregava os moleques de volta, um a um, em suas casas.

Apesar de pacifistas natos, Moacir e Rui faziam parte da famosa “Barreira de Índios” do bumbá Corre Campo.

Vê-los subindo a ladeira com aquelas fantasias deslumbrantes, era de tirar o fôlego de qualquer curumim.

Luiz Lobão continua sendo um dos amigos mais queridos que tenho até hoje.


Na infância, seu Arthur Lopes da Silva, pai do Luiz Lobão, morou na rua General Glicério, entre as ruas Ipixuna e Ajuricaba, mas depois sua família se mudou para a rua Mundurucus, no centro da cidade.

Ele começou a trabalhar com 12 anos na Manaustran, a companhia de energia elétrica de Manaus.

Como passou a ser o responsável pelos proventos da família, ele parou de estudar e só concluiu o curso primário.

Sua caligrafia, entretanto, era primorosa.

Com pouco mais de 20 anos, seu Arthur já era um dos melhores eletricistas profissionais da cidade.

Ele foi o primeiro eletricista da taba a montar sozinho uma sub-estação rebaixadora de energia nas dependências da Indústria Papaguara.

Até então, o serviço era realizado por técnicos vindos do sul do país, a um custo exorbitante.

Amicíssimo dos irmãos José e Maurício Santos, proprietários da empresa Andrade, Santos & Cia Ltda, foi com uma pequena ajuda financeira deles que seu Arthur montou sua primeira firma individual, a Esec Engenharia, especializada em serviços elétricos.

Apelidado pelos amigos de “Azeitona Preta”, seu Arthur incorporou o apelido ao nome e passou a ser conhecido nos quatro cantos da aldeia como “Arthur Azeitona”.


Ele se mudou do centro para o Boulevard Amazonas, na Praça 14, depois de se casar com Dona Marieta Rocha da Silva, com quem teve quatro filhos: as meninas Aldeci, Aldenira e Aldenice e o moleque Aldemir, que se destacaria no futebol amazonense como o talentoso jogador “Torrado”, antes de encerrar prematuramente a sua carreira futebolística para se dedicar a profissão de engenheiro civil e agitador cultural do GRES Vitória Régia.

Ponta esquerda arisco e marrento, Torrado é primo do lateral direito Jonas, que atuou no Nacional, nos anos 60, e ficou conhecido pela mídia como “Pau de dar em doido” tal a disposição suicida com que enfrentava os pontas esquerdas inimigos.

Eu gostaria muito de ter assistido um embate dos dois primos jogando por times adversários.

Entre outras façanhas, Arthur Azeitona executou todos os projetos elétricos das obras do arquiteto Severiano Mário Porto, em Manaus, incluindo o famoso restaurante Chapéu de Palha, em Adrianópolis, e, por último, era o responsável técnico pela parte elétrica dos empreendimentos imobiliários da empresa J. Nasser Engenharia.

Nunca ninguém reclamou de seus serviços.

No final dos anos 60, ele abriu a Esec Comércio, especializada na venda de produtos elétricos, localizada ao lado de sua residência no Boulevard Amazonas.

Mais tarde, ele se associou ao ex-gerente do Banco do Pará, Hamilton Gomes Loureiro, e ao empresário Moacir Ribeiro e fundou a Matel - Materiais Elétricos Ltda, uma das mais conceituadas empresas do setor em todos os tempos.

Em meados dos anos 70, ele abriu a Hidrolux – Materiais Hidráulicos e Elétricos, localizada na rua Carvalho Leal, exatamente ao lado da casa do Sici Pirangy.


Um dos balconistas da empresa era José Roberto Pinheiro, hoje conhecido como “Mestre Pinheiro” e renomado como um dos maiores especialistas em MPB e rock de raiz do planeta.

Seu Arthur era um espada matador registrado em cartório, mas desconfio que o Luiz Lobão foi o único filho que ele teve fora do casamento.

Ele também era um excelente capoeirista e não tinha medo de cara feia.

No aniversário de um ano do Luiz Lobão, o temido Otinha, um dos mais famosos valentões do bairro de Educandos, resolveu entrar na festinha doméstica sem ser convidado - provavelmente para “abrir uma porrada”, como se costumava dizer.

Seu Arthur encarou o malandro:

- Escuta aqui, meu garoto, essa é a casa da minha patroa! Vê lá o que tu vai aprontar...

Otinha acusou o golpe:

- Qualé, chefia, está me estranhando? Eu só passei aqui pra te dar um abraço...

Aí, deu meia volta e foi embora.

Seu Arthur morreu em setembro de 2006, vítima de infecção hospitalar contraída na Santa Casa de Misericórdia, onde se internara para fazer uma prosaica operação de vesícula.

Durante o velório, Dona Marieta, viúva do seu Arthur, levou o maior susto: Luiz Lobão, usando bigode, óculos de grau e um chapéu panamá havia se transformado em uma cópia fiel do falecido pai.

Ela passara a vida inteira desconfiando que Luiz não era um filho legítimo do Arthur Azeitona, mas nesse dia deu o braço a torcer e abraçou o Luiz Lobão com muita ternura e afeto.

Noblesse oblige.


Luiz Lobão, Ednez e os dois filhos do casal, Toni e Arthur, durante um desfile do GRES Andanças de Ciganos.



NOTA DO EDITOR DO MOCÓ

Essa e outras histórias postadas no blog fazem parte do livro de memórias “Paladinos da Galhofa”, que pretendo publicar em dezembro - antes que o publicitário Durango Duarte tenha a mesma idéia e publique as minhas memórias antes de mim.

Cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça

Laços de família


A esta altura do campeonato, meu filho caçula, Marcus Vinicius, já deve estar batendo pernas pelas ruas de Milão.

Ele foi continuar seu curso de mestrado em Design no Politecnico di Milano, reputado como o mais prestigiado instituto técnico da Itália.

Segundo ele, o Politecnico abriga mais de 1.000 professores e pesquisadores e mais de 40 mil alunos em 17 departamentos, e está envolvido em atividades de pesquisa avançada em diversos campos, variando de nano-tecnologia à indústria aeroespacial, de biotecnologia a tecnologia da Informação e Comunicação.

Marcus viajou pra São Paulo na madrugada de quinta e deve ter passado o dia inteiro no aeroporto internacional governador André Franco Montoro, em Guarulhos, porque seu voo estava marcado para as 22h.

Depois de mais 11 horas de voo, deve ter desembarcado no aeroporto internacional Malpensa, em Milão, na manhã desta sexta-feira.

Na última quarta-feira estive na casa da avó dele, Dona Adair, para as despedidas de praxe e com a missão de detonar um tambaqui assado com baião de dois, ambos feitos pela Marilene, mãe do moleque.


Das minhas ex-mulheres, a Marilene é a única que ainda se preocupa em “catar” as espinhas do peixe antes de eu comer porque sabe que sou um desastrado em potencial.

As outras, desconfio, adorariam me ver engasgado com uma espinha na garganta só pelo prazer de curtir o meu sufoco.

Nunca lhes dei essa confiança.

Por conta do tambaqui catado pela Marilene, comi três pratarrazes pra ninguém botar defeito.

Quase não consigo me levantar da mesa.

Enquanto a gente aguardava o Marcus Vinicius, a Marilene me levou pro quarto para mostrar seu novo álbum de “retratos”, da época em que éramos todos jovens.


Quando começamos a namorar, em março de 1979, ela tinha 16 anos e eu, 23.

Ela estava noiva, de casamento marcado.

Eu era casado e pai de dois filhos.

Tinha tudo para não dar certo, mas acabou dando – mesmo aos trancos e barrancos.

Foi amor a primeira vista e uma paixão incendiária cujas brasas permanecem acesas até os dias de hoje.

A gente não pode ficar em algum canto, sozinho, por cinco minutos, que acaba se agarrando alegremente como dois colegiais em uma colônia de férias.

Nessa noite de quarta-feira, meu neto Mathews estava brincando no quarto da avó com seu primo Vitor, filho do Toni Pinheiro, o que, tecnicamente, impossibilitava nossas travessuras.

Em uma das fotos, a Marilene aparecia experimentando a minha cafoníssima camisa de veludo azul piscina.

Hoje, eu só usaria uma merda daquela sob a mira de um pelotão de fuzilamento, mas era moda na época, porra, fazer o que?


A foto era de julho de 1980, provavelmente feita no mesmo dia em que fabricamos a jornalista Maíra, atualmente fazendo pós-graduação em Jornalismo Literário em Dublin, na Irlanda.

Recordei a história da foto para a Marilene, que não lembrava mais da presepada.

No ano anterior, eu havia sido contemplado em um consórcio de carros e estava com um Corcel II GT 79, verde metálico, que era o sonho de consumo dos moleques da época.

Apesar de ter carteira de habilitação, eu não gostava de dirigir.

O carro passava a maior parte do tempo com o Jones Cunha.


No começo de uma noite de sexta-feira daquele mês de julho, ele nos deixou (eu e a Marilene) em uma das suítes do motel Rip e foi pegar sua namorada para irem a um barzinho.

Combinamos de ele nos apanhar antes da meia-noite, já que a moleca era “dimenor” e de família.

Quando deu 1h da madrugada, estranhei o fato de o Jones ainda não ter aparecido no pedaço.

Ele era rigorosíssimo em questões de horário e nunca dava “furo”.

Por volta de 2h da madrugada, comecei a ficar preocupado.

O Jones Cunha ainda não dera nenhum sinal de vida.

Quando deu 3h da madrugada, a preocupação inicial virou desassossego.

Aquele Jones era um filho da puta!

As horas começaram a passar numa velocidade estonteante.

Quando o relógio marcou 6h da manhã, comecei a imaginar o pior: o sacana havia se envolvido em um acidente de trânsito.

Pra complicar, minha bolsa com dinheiro e documentos havia ficado dentro do carro.


Sem perceber a gravidade da situação, a Marilene parecia estar achando aquilo tudo muito divertido.

Só queria saber de sexo selvagem.

Por volta das 9h da manhã de sábado, resolvi agir.

Deixei a Marilene dormindo no quarto, fui até a portaria e expliquei a situação para o gerente.

Ele concordou em manter a garota no quarto como refém, enquanto eu providenciava o dinheiro do resgate.

Apanhei um táxi e fui até a casa do Jones Cunha, lá na rua Borba.

O meu carro não estava na garagem de sua casa.

Deduzi que o acidente de trânsito tinha sido pior do que eu imaginava.


No Bar do Aristides, o boêmio Nei Parada Dura já estava iniciando as atividades do dia.

Expliquei rapidamente a situação.

Ele pagou a corrida de táxi, pegou seu carro, me colocou dentro e voltamos para o motel.

Na portaria, ele desceu do carro e já foi gritando a plenos pulmões para o gerente, assustando os transeuntes que passavam pela rua:

– Eu vim pagar o resgate da namorada do meu amigo Simão Pessoa Filho, que está detida no apartamento 112. E fecha a conta mais ligeiro do que mijada de rã, que nós ainda vamos perseguir um ladrão de carro!

Nei Parada Dura era o único da turma a me chamar desse jeito.

Nunca soube o motivo.

Fiquei tão constrangido que quase me escondi dentro do porta-luvas.

Colocamos a Marilene dentro do carro, descemos em direção ao mercadinho da Cahoeirinha e paramos a uns dois quarteirões de sua casa.

Ela fez um escândalo:

– Escuta aqui, porra, vocês estão pensando que eu sou alguma vagabunda pra ser deixada assim, no meio da rua? Vocês vão ter que me deixar lá na porta da minha casa...

O Nei Parada Dura não contou conversa.

Desembestou na direção da casa da Marilene e parou em frente da casa cantando pneus, no maior escarcéu.

Metade da vizinhança correu pra janelas pra ver que esculhambação era aquela.


Segurando os sapatos em uma das mãos e a nécessaire em outra, a Marilene desceu do carro morrendo de rir, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma menina de família, de apenas 16 anos, chegar em casa na manhã seguinte, depois de ter passado a noite inteira na gandaia.

Eu e Nei Parada Dura voltamos pro Bar do Aristides.

O Jones Cunha já estava lá, jogando sinuca com Lúcio Preto e Baixinho, na maior tranquilidade do mundo.

Eu estava mordido.

– Porra, bicho, que putaria foi aquela de ontem? E que fim levou a porra do meu carro? – questionei.

– Rapaz, eu voltei no motel às 11h da noite e me disseram que vocês já tinham ido embora. A menina da portaria conferiu umas três vezes o número do apartamento, interfonou, fez o cacete e não localizou vocês dois. Eu não ia discutir com ela. Aí, eu trouxe o carro, estacionei na garagem do teu pai e entreguei a chave pra ele! –, explicou.

Fui pegar o carro na casa do velho.

Felizmente, a bolsa com os documentos e o dinheiro ainda estava no mesmo lugar.


Por volta das 15h, liguei para a Marilene.

Ela me contou que havia recebido um “ralho” do pai, da mãe e dos irmãos, mas que já estava tudo bem.

Perguntou se a gente ia sair de novo naquela noite.

A Marilene era mesmo da pá virada.

Quando terminei de contar a história, ela, excitadíssima com as lembranças, expulsou os dois moleques do quarto, sentou no meu colo e começou a me beijar.

Mas aí, de repente, entrou no quarto a Juliana, noiva do Marcus Vinicius, avisando que os dois já estavam indo para o aeroporto e tivemos que adiar nossos planos.

Pelo menos até o dia em que a gente se encontrar de novo e ficarmos sozinhos em algum canto.