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sexta-feira, março 08, 2013

Flanando na Terra da Pedra Pintada


 
Chegamos a Itacoatiara no final da tarde da última sexta-feira, dia 1º de março, debaixo de um temporal da moléstia, que nos acompanhou por 80 quilômetros (da cidade de Lindóia, antes da primeira ponte do Rio Urubu, até o início da zona urbana de Itacoatiara, depois da segunda ponte).
Ficamos hospedados no hotel Rio Amazonas, do boa-praça Anuar Mamede Filho, localizado na Rua Ministro Waldemar Pedrosa, nº 215, no Centro, exatamente em frente ao Passeio Público Jornalista Agnelo Oliveira, na orla fluvial do Rio Amazonas.
Nosso cicerone na cidade, o líder portuário Fernando Jerry Nelson, foi nos dar as boas vindas com uma denúncia:
– Roubaram a placa do passeio público há dois meses, mas o vereador Raimundo Silva, presidente da Câmara Municipal de Itacoatiara, já mandou providenciar outra...
Fui lá conferir a presepada.
Pra quem não sabe, foi o juiz aposentado, vereador em segundo mandato, intelectual humanista, contista, cronista, poeta, jornalista e meu mano Raimundo Silva que batizou o nome do passeio público prestando uma homenagem a um dos mais talentosos jornalistas nascidos na Velha Serpa.
Nunca trabalhei com o Agnelo Oliveira no mesmo jornal, mas ele sempre foi um dos grandes amigos que conquistei no meio jornalístico.
O “índio velho”, como a gente o chamava, era uma espécie de reserva moral do jornalismo esportivo e, ambos rionegrinos, nos tornamos amigos de infância por quase três décadas (o conheci pessoalmente, no Bar do Armando, no começo dos anos 80).
Agnelo Oliveira fundiu em um só trabalho as duas paixões que tinha e durante 33 anos foi um dos melhores jornalistas esportivos do Amazonas.
Trabalhou de domingo a domingo.
Morreu ainda jovem.
 
O deputado Sinésio Campos (PT) me entregando um diploma de honra ao mérito outorgado pelo prefeito Peixoto
Quando deixou a terra natal, Itacoatiara, para estudar jornalismo em Manaus, já tinha em mente o que queria cobrir: esporte.
Se fosse futebol, melhor ainda e, se possível, elogiando sempre seu time do coração, o Flamengo, ou, na falta deste, o nosso Rio Negro.
Seu primeiro emprego foi no jornal “A Crítica”.
Era rapaz do interior, não conhecia ninguém, mas foi se virando até ficar conhecido como o grande nome do jornalismo esportivo amazonense, ao trabalhar também no “Jornal do Norte”, “A Notícia”, “Diário do Amazonas” e “Estado do Amazonas”.
Na Assembleia Legislativa do Amazonas, sua morte prematura recebeu um voto de pesar pelo “exemplo de dedicação e amor ao esporte”, nas palavras do presidente Belarmino Lins, “pois fez da sua vida um sacerdócio de amor às lutas e façanhas do esporte amazonense”.
Agnelo foi membro fervoroso da Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas (Aclea) e prestava consultoria para a Secretaria de Esporte do governo.
Havia seis meses que era funcionário do Procon e queria até cursar Direito.
E se emocionara – talvez demais – com a formatura da filha, justamente em Direito, havia uma semana.
Tinha 57 anos, não fumava e pouco bebia.
Mas trabalhava sábado, domingo, feriado, trabalhava muito, não parava nunca, era viciado em trabalho.
Morreu de derrame, no dia 19 de fevereiro de 2008, em Manaus.
Sua morte me deixou meio baqueado.

Em 2009, quando fui homenageado pelo prefeito Antônio Peixoto (PT) pelos “serviços prestados pela divulgação da cultura de Itacoatiara em Manaus”, durante a festa de aniversário da cidade, em abril, fiz questão de tirar uma foto ao lado da placa alusiva à inauguração do passeio público.
Este ano, repeti a dose.
É uma maneira meio boba, reconheço, de perpetuar o Agnelo Oliveira em minha memória, mas... fazer o que?
Voltando à vaca fria.
Sempre apressado e parecendo que vai tirar o pai da forca, Fernando Jerry nos instalou no hotel Rio Amazonas e se mandou.
Ficou de se encontrar conosco mais tarde.

Quando o temporal diminuiu um pouco, fomos jantar no Restaurante Panorama, o mais tradicional da cidade.
 
Marie Jolie e Edy Savage encaram picanha na pedra e filé de tambaqui grelhado (que, soube depois, estava uma boa merda de tão velho e passado!).
Eu e Wild Skinhead fomos de frango a passarinho, batatas fritas, isca de calabresa e cerveja Original estupidamente gelada.


Mais tarde, Lúcio Preto e Mad Professor se juntaram à nossa turma para curtir o cantor Bebezão (ou será que ele se chamava Neném? Menino Samden? Bilu Teteia? Não lembro...), cujo repertório ia de Zeca Baleiro a Zé Ramalho, de Renato Russo a Raul Seixas, de Martinho da Vila a Marina, de Ednardo a Elimar Santos, de Noel Rosa a Nelson Ned.
 
O Fernando Jerry apareceu depois, acompanhado de sua esposa, a sempre sorridente Adriana, e a primeira neta do casal, Isabela, uma bonequinha de carne e osso.

Tão rápido quanto surgiu, ele desapareceu nas brumas de Avalon.
Desconfio que o sacana esteja viciado em remédio controlado por horário, provavelmente um dos tais de “tarja preta” da vida e vendidos no câmbio negro.
Com a sua eterna cara de cachorro-que-quer-um-osso, o Fernando Jerry nunca me enganou.

Lá pelas tantas, pedi a conta (couvert artístico, duas águas minerais, seis cervejas Original, três cervejas Skol, uma coca cola, uma isca de calabresa, uma isca de batatas fritas, uma isca de frango a passarinho, uma picanha na pedra e um filé de tambaqui grelhado) e estranhei o valor: apenas R$ 103,38.
Em Manaus, essa “fortuna” daria, no máximo, para pagar 600 gramas de picanha mal passada para duas pessoas, no badalado Picanha Mania.
Sei disso porque toda semana caio na mesma roubada e não aprendo nunca.
Como estava barato pra carálio, amassei a conta, fingi que jogara fora a comanda e pedi mais cervejas.
 
A atenciosa garçonete trouxe mais três cervejas Skol (R$ 13,50) e pediu a comanda anterior para fazer uma nova.
Expliquei que havia rasgado e jogado fora.
Ela quase surtou.
Segundo a garçonete, na comanda estava discriminada a despesa e não ficava uma segunda comanda de conferência no balcão.
Ela não sabia o que fazer.
Falei que eu lembrava o valor da comanda e que já tinha conferido a despesa anterior.
Estava tudo certo.
– Só quero checar se vocês são honestos! – ironizei. “Se aparecer algum valor diferente do que me foi apresentado na primeira vez, amanhã vou pra rádio Difusora e coloco a boca no trombone!”
Dali a cinco minutos, quase me pedindo desculpas, a garçonete me apresentou a nova conta.

O povo de Itacoatiara é honesto pra caralho!
Saímos de lá por volta da meia-noite.
No caminho para o hotel, Marie Jolie e Edy Savage ainda conseguiram encarar duas cuias de tacacá cada uma.
Haja fígado!

O sábado amanheceu com um sol radiante, sugerindo um dia jiboiando em algum balneário.
Fomos dar um rolê básico pela cidade, que estava muito limpa e asseada, com várias equipes da limpeza pública cuidando das ruas com um zelo incomum.
O prefeito Mamoud Ahmed Filho, exercendo o cargo pela quinta vez, garantiu que vai fazer uma administração inesquecível.
Pelo visto, está mesmo começando a dar conta do recado.
Das cidades que visitei esse ano (e o nome delas é legião), Itacoatiara é a mais limpa, arborizada e organizada que já conheci.
Fomos ao cais do porto (que não funciona há sete anos, uma vergonha!), tomamos café da manhã na padaria do Nelson, presidente da Associação Comercial de Itacoatiara, passamos no estádio Floro Mendonça para conferir a reforma e depois fomos visitar uma das últimas reservas florestais de seringueiras existentes no perímetro urbano da cidade, exatamente em frente à antiga madeireira Gethal, atualmente desativada.
 
 
 
 
 
 
As meninas adoraram o passeio.
Mais tarde, por sugestão do Anuar Mamede, resolvemos conhecer o Flutuante Sol Nascente, no Km 21 da Estrada do Piquiá, em pleno Rio Urubu, já na fronteira entre Silves e Itacoatiara.
Assim que colocamos os pés no flutuante, começou um novo dilúvio torrencial.
 
Para combater o frio e a chuva, encaramos doses moderadas de Itaipava e Skarloff Ice.
Primo do prefeito Mamoud Ahmed Filho, o dono do flutuante, Elias Tamer, tem mestrado e doutorado na arte de bem receber.
De cara, ele ligou logo o aparelho de som no volume máximo e colocou o Reginaldo Rossi pra tocar.
Devia saber bem com quem estava lidando.
Aqueles forasteiros bem apessoados não gostavam dessa praga chamada forró pé-de-serra, que se transformou em uma nova doença tropical na região amazônica.
Eles deviam gostar de música romântica...
(Também não custa lembrar que rock, em Itacoatiara, é apenas o nome de um folgado ajudante de palco do Sílvio Santos...)
 
De repente, o Elias, que ainda estava meio ressabiado com aqueles sujeitos meio românticos pintando no pedaço pela primeira vez, reconheceu o Mad Professor do tempo em que ele jogava no Penarol e no Gelopesca e, graças a isso, nos tornamos amigos de infância.
Elias apresentou Mad Professor para outro ex-jogador do Penarol, Rubinho Matador, irmão do ponta-esquerda Basílio, do Gelopesca, que estava fazendo uma visita de cortesia ao flutuante, e os três ficaram relembrando os velhos tempos de outrora.
O agora romântico Wild Skinhead, ex-roqueiro radical, colocou uma questão na mesa que quase me matou de rir.

Negócio seguinte.
Conhecemos o Mad Professor há quatro décadas e sabemos que ele não consegue ficar parado no mesmo lugar por mais de dez minutos, seja mesa de bar, banco de carro ou casa de raparigas.
Já aventamos vários fatos para esse tipo específico de TOC (“Transtorno Obsessivo Compulsivo”):
Mad Professor tem toxinas, giárdias e lombrigas, e o ataque simultâneo delas o faz ter que caminhar apressadamente para matá-las por sufocamento apertando as bochechas da bunda em um quase exercício tântrico.
Mad Professor tem uma impinge braba na auréola do plissadinho e o suor excessivo acaba por ativar o comichão recorrente, cuja coceira é simplesmente inenarrável e só alivia um pouco após uma longa caminhada.
Mad Professor tem um parafuso a menos, o que o torna um sujeito antissocial por excelência e não afeito a conversas moles ou papos descontraídos em mesa de bar.
Mad Professor é autista e detesta qualquer conversa civilizada que não envolva futebol dos anos 70, quando ele foi o craque do ano do Peladão pelo meu fantástico time “Murrinhas do Egito”.
Mad Professor é um hippie tardio que nunca usou drogas e por isso mesmo possui tendências homoeróticas ainda não sedimentadas nem superadas pela sublimação.
Mad Professor é um globe-trotter em potencial, que gosta de estar circulando 24h por dia, em toda e qualquer circunstância, chova ou faça sol.
 
– Hoje, eu quero ver esse sacana deixar esse flutuante e ir bater perna na casa do chapéu!... – ponderou Wild Skinhead, enquanto observava a agonia do Mad Professor estudando mentalmente as saídas possíveis da virtual prisão aquática.
Mad Professor teve que se render aos fatos e permaneceu no flutuante durante toda a nossa estada.
Quase fizemos uma queima de fogos pela façanha.
Por volta do meio-dia, pedimos uma banda de tambaqui assado para o almoço e, enquanto o acepipe era providenciado, Marie Jolie, Edy Savage e Mad Professor foram passear de voadeira pelo rio.
 
 
 
 
 

O Elias surgiu com um tambaqui vivo, matou na minha frente, bandou o animal e depois foi trata-lo.
Fiquei pasmo.
Fazia muito tempo que eu não via um tambaqui de rio – e, pra quem conhece, o gosto dele é completamente diferente dos tambaquis criados em gaiolas ou tanques escavados, quase sempre alimentados à base de ração.
Indiferente a estes detalhes gastronômicos, Marie Jolie e Edy Savage controlaram o medo inicial de morrerem afogadas e se divertiram pra valer na voadeira.
Pelo que elas me contaram depois, Mad Professor observou longamente o rio, mas não teve coragem de cair n’água e fugir nadando pra Itacoatiara ou Silves.
Na volta, por minha sugestão e depois de muita insistência, as duas resolveram tomar banho de rio.
 
 
 
 
 
 
 

Foi a primeira vez que encararam a parada e estranharam o fato de aquilo ser tão divertido e nunca terem feito antes.
Já haviam curtido banho de igarapé, claro, mas a diferença entre banho de igarapé e banho de rio é a mesma diferença entre pilotar um fusquinha envenenado na Estrada do Turismo e uma Ferrari Testarossa em uma freeway europeia.
A sensação de liberdade é a mesma, mas não é a mesma coisa.
Como a água estava muito legal (a chuva fria dá uma sensação térmica de que a água do rio ficou morna), me convidaram para também cair na gandaia.
Recusei, polidamente.
Nunca aprendi a nadar e, agora, com uma prótese no ombro direito em decorrência de um acidente em Borba que deixou sequelas, é que não me meto mesmo a Johnny Weissmuller, o nosso eterno Tarzan dos Macacos do saudoso Cine Ypiranga.

Quando as duas voltaram para o flutuante, meia hora depois, confessaram que estavam curiosas a respeito do nome do rio.
– É urubu por que as águas são escuras? – quis saber Marie Jolie.
– Não, não é por isso não! – expliquei.
E contei a elas o que um antigo índio aculturado me contara há algumas décadas.
Segundo o índio, o rio era um dos locais de pesca de seu povo até começarem a chegar os homens brancos em busca das famosas “ervas do sertão”.
De uma hora pra outra, o rio começou a ficar infestado de urubus.
Eles iam conferir e só encontravam cadáveres de homens brancos de bubuia sendo destroçados pelos urubus.
Como o rio tinha poucos jacarés e tucunarés, ele se transformara num berçário natural e colossal de piranhas pretas e vermelhas, ambas totalmente agressivas quando se trata de defender as ninhadas.
Os índios sabiam disso e só pescavam de canoa.
Os brancos não sabiam.
Entravam no rio para escovar os dentes com a água pela cintura, sentiam uma fisgada na batata da perna e, antes que se dessem conta do que estava acontecendo, sua perna já havia sido totalmente descarnada por milhares de piranhas.
Uma morte dolorosa e cruel.
Foram os próprios brancos que batizaram o rio de Urubu, “porque ele tinha cheiro de cadáver, evocava a morte, lembrava corpos em decomposição”.

Quando terminei o relato, Marie Jolie me olhava estupefata, como se tivesse acabado de ouvir o terceiro segredo de Fátima.
– Você tá zoando da nossa cara! – argumentou. “Não acredito que se tivessem mesmo piranhas nesse rio você teria coragem de nos pedir pra entrar...”
– O truque é não parar de se movimentar, que elas não atacam! – expliquei. “Mas se você tiver um pequeno ferimento no corpo, elas vão atacar em massa com certeza, mesmo que você dance break dentro d’água...”
Marie Jolie ficou lívida.
Edy Savage ficou passada.ponto.com.


Elias, que estava escutando o relato com bastante atenção, entrou na história e jogou uma pá de cal:
– Pior do que as piranhas, só mesmo os candirus... E, aí nesse rio, candiru faz lama, minha filha, candiru faz lama!... É uma praga, uma praga!
– E cobra? Também tem cobra?! – questionou Marie Jolie, sem esconder o nervosismo.
– Só sucuriju de três metros... – avisou Elias, com desdém, enquanto providenciava uma nova caixa de isopor com bebidas.
Quase que Marie Jolie e Edy Savage me cobriam de tabefes, de tão injuriadas que ficaram.

Para minha sorte, o almoço foi servido naquele momento e escapei pela bola sete.
Lá pelas tantas, depois do almoço, a Marie Jolie resolveu pescar de caniço e quase arma um incidente internacional.
Os ajudantes do Elias (dois adolescentes completamente siderados pela beleza fulgurante da menina) tentaram convencê-la de que isca de pão serve para fisgar alguma merda.
Era um truque ordinário: assim que a isca batesse n’água, uma piaba ia comer o pão e deixar o anzol limpo.
Não havia qualquer hipótese remota de algum peixe mais esperto meter a boca no anzol sem isca.
Um dos moleques ia colocar o problema no manejo errado da vara de pescar e tentar encoxar a Marie Jolie por trás, supostamente para ensinar a maneira correta de lançar a linha.
Cortei a curica deles.
– Escuta aqui, porra, vocês acham que estão lidando com alguma idiota? – entrei pisando na linha do pescoço. “Pede pro Elias fazer uma isca de peixe cru e me traz aqui, que eu vou ensinar a Marie Jolie a pescar. E essa porra de miolo de pão vocês enfiem na tarrasqueta...”
Os adolescentes, claro, ficaram putos.
Uma encoxada daquelas serviria de moldura mental para uns três meses de punheta.
Eles me olharam com tanto ódio, que sequer estranharia se tivessem rosnado em pensamento “careca filho da puta, tu vai morrer de acidente de carro ainda hoje, seu leproso!”
Azar.

Indiferente ao barraco que eu estava armando, a Marie Jolie continuou pescando com isca de miolo de pão, sob o olhar vigilante da Edy Savage.
Uns quinze minutos depois, chamei o Elias, paguei a conta (meia hora de passeio de voadora, 12 Itaipavas, 10 Skarlofs Ice, quatro cocas colas, dois salgadinhos e uma banda de tambaqui assado, com baião de dois, farofa e vinagrete): R$ 154. 
Uma mixaria!
Eu já estava entrando no carro, quando ouço a Marie Jolie gritando desesperadamente na saída do flutuante.
– Eu fisguei um peixe, mas o seu Elias me tomou! Volta aqui e toma dele, que eu quero fazer uma fotografia do meu peixinho!
Dei de ombros.
Aparentemente, a Marie Jolie havia fisgado um bagrinho de dez centímetros e o Elias aproveitou a oportunidade para reforçar a comida dos tambaquis vivos que cria embaixo do flutuante, deixando a pescadora de primeira viagem totalmente injuriada.
Azar.

quinta-feira, março 07, 2013

Chifral do Barão, um pedaço da Cornualha em Itacoatiara!


 
Simon Le Bon, do Duran Duran
É longo o trajeto para a Cornualha, o braço mais ao sul da maior ilha da Europa, a Grã-Bretanha. Além dos penhascos com imensas paredes lapidadas pelo impacto constante do Canal da Mancha e do Mar Celta, ornadas com ruínas de castelos medievais que emergem no imaginário das lendas da Távola Redonda, os britânicos e os visitantes estrangeiros têm outro motivo para conhecer o local: trata-se da maior concentração de cornos por metro quadrado do planeta.
Portanto, foi com um misto de incredulidade e surpresa que descobri que a bonita cidade de Itacoatiara possui um pedacinho da Cornualha incrustrado em seu território urbano na forma de um restaurante temático chamado “Chifral do Barão”, localizado na Avenida Sete de Setembro, 152, Centro, a dois quarteirões do hotel Rio Amazonas, onde a nossa banda tecnopop (eu, Wild Skinhead, Marie Jolie e Edy Savage) estava hospedada e desfrutando das maiores mordomias.
 
O restaurante pertence ao gentleman Ezilane Batista Viana (aka “Barão”), um caboco perreché nascido na Terra do Guaraná e que se mudou ainda criança para a Terra da Pedra Pintada.
Há onze anos, com a cara e a coragem, ele abriu seu restaurante, que hoje se transformou em uma das atrações turísticas da cidade, sendo frequentado por empresários, políticos, intelectuais, jornalistas, boêmios, músicos, estudantes e malandros de todos os calibres.
Oriundo da Terra dos Papagaios Falantes (como Maués também é conhecida), o grande Barão, naturalmente, não consegue passar dois minutos de tramela fechada.
Ele conta dezenas, centenas, milhares de casos hilariantes acontecidos com os frequentadores do restaurante, enfileirando uma história depois da outra, e, se o cristão não morrer do coração durante um acesso de riso, com certeza vai se transformar em amigo de infância do eterno gozador.
Aconteceu comigo.

O cardápio do restaurante é um espetáculo à parte.
São mais de 50 pratos, em porções generosas e preços acessíveis.
Na noite de sábado, durante o jantar, a nossa banda encarou caranguejo à moda caiçara, filé à milanesa, javali à caçadora, picanha na pedra, guisado de porco, coelho desossado com anchovas, sucos de laranja, refrigerantes e dezenas de garrafinhas de Heineken e Itaipava estupidamente geladas e a dolorosa não passou de R$ 120.


 
 
 
Tivesse a mesma esbórnia acontecido em Londres, Roma ou Manaus, e teríamos desembolsado praticamente o dobro. Ou o triplo.
Ficamos tão empolgados com o atendimento Vip e o preço de liquidação com queima de estoque do cardápio, que repetimos a dose no almoço de domingo para conferir se aquilo não tinha sido sorte de amadores.
Dessa vez, encaramos filé com fritas, lasanha, guisado de língua, bisteca no bafo, bife de fígado, coelho a Transmontana, sucos de laranja e bastante água mineral (nada de cerveja porque de lá íamos pegar a estrada e pretendíamos retornar pra aldeia são e salvos, o que de fato aconteceu).
A dolorosa novamente nos surpreendeu: míseros R$ 60, ou o preço equivalente a um mísero prato meia-boca em um dos Lig-Ligs da vida em Tóquio, Amsterdam ou Manaus.

Esse Barão é porreta!
Bom, mas quanto à origem do inusitado nome do restaurante temático?
Segundo o próprio Barão, “apenas tiração de onda pra escandalizar a província!”
– Em uma das viagens que fiz ao Nordeste, eu conheci o bar Confraria dos Chifrudos, em Recife (PE), e achei muito engraçado – recorda. “Aí, quando resolvi abrir um restaurante aqui na cidade, me inspirei nele!”
Entre as atrações do restaurante está o chapéu de viking exclusivo dos membros da confraria, as duas poltronas “chifrônicas” utilizadas pelos casais para registrarem sua passagem pela casa e uma espécie de chocalho de boi, badalado alegremente sempre que um novo confrade entra no restaurante.

– Quando um dos dois não quer se sentar na poltrona para ser fotografado ou, quando se sentam, mas ficam um pra lá e outro pra cá, eu já começo a sentir cheiro de chifre queimado! – explica o psicólogo Barão. “Agora, quando os dois se sentam de mãos dadas é porque os chifres já estão pra derreter...”
Pesquisador do assunto, Barão tem na ponta da língua a resposta para todos os problemas filosóficos, estéticos ou existenciais que angustiam os cornos da cidade.
– É quase um lugar comum dizer que o homem é o último a descobrir que é corno, mas isto se deve a reação passiva da maioria, que prefere acreditar na mulher e não nos amigos mais chegados! – analisa. “Aí, quando o corno descobre, a Inês é morta e o Ricardão já deu o fora...”
Se por um lado existe um corno que quase sempre sai mal na foto, do outro lado da história está o sujeito que se aproveita da situação e consola a mulher alheia.
– Os ricardões, os zorros, os pés de panos, os fuleragens, os bate-bola, os clóvis e os miguelitos também frequentam o restaurante numa boa porque esse aqui é um espaço democrático! – diz Barão. “Eles não podem é fazer graça com mulheres acompanhadas se não levam chumbo!”

Para não receber um metal pesado na moleira e se transformar em corno manso (ou corno do mato, aquele que quando recebe um chifre fica dizendo “Eu mato! Eu mato! Eu mato!”), Barão dá algumas dicas a serem seguidas, todas de caráter preventivo:
1 – Evite casar com mulher quenga. As mulheres muito dadas antes do casamento também costumam continuar dando muito depois. Sim, há exceções.
2 – Se tiver condições prefira mulher que seja virgem, mas é bom saber que está cada vez mais difícil de achar este produto no mercado. A vantagem é que elas nunca vão te comparar com outros porque não tiveram outros. Mas no dia que tiverem, sai de perto...
3 – Procure saber se a mãe da sua futura cara metade já corneou o marido. Árvore defeituosa costuma dar fruto ruim. Há exceções, claro.
4 – Desconfie das muito certinhas, do tipo que não fala com ninguém, fica vermelha com certos tipos de conversa e parece uma santa em pessoa quando está na sua frente: ela pode esconder uma chifradeira em potencial.
5 – Escolha bem antes de casar. Nunca esqueça que mulher é igual relógio: depois que der o primeiro defeito, nunca mais anda direito.

6 - Ignore chinelos e toalhas molhadas, telefone e buzine na esquina antes de chegar em casa, use sempre a campainha e nunca, em hipótese alguma, chegue mais cedo do trabalho.
7 – Se chegar em casa e ver alguma coisa, não esquente. Apenas se finja de cego. Disfarce. Dê uma de João-sem-braço. Entre numas de Stevie Wonder. Tire onda de David Assayag. Enfim, finja não estar vendo aquilo que só o seu coração sente e o povo na rua sabe.
8 – Não dê ouvidos a boatos. Afinal de contas, chato não é ser corno: o chato mesmo são os comentários a respeito.
9 – Se por acaso apanhar a sua mulher no flagra, não esquente a cabeça pra não derreter o chifre que ela lhe deu com tanto amor e carinho.
10 – Se o Ricardão for valente e principalmente muito forte, faça como os celulares de pobre: permaneça sempre fora da área ou totalmente desligado.

11 – Respeite o chifre alheio, porque os direitos são iguais.
12 – Se descobrir que está sendo corneado, levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima: chifre cresce, mas não dói!
13 – Mesmo que pegue os dois adúlteros no ato pecaminoso em cima da sua cama, faça de conta que não viu nada. Pelo contrário. Entre no facebook e poste uma foto da sua mulher em pose bem sensual afirmando que é melhor dividir pudim com os outros do que comer merda sozinho.
14 – Nunca esqueça que é melhor ser corno do que ser prefeito! Prefeito são só quatro anos, mas corno é pra vida inteira.
15 – Não tema ser corno, porque chifre é como alma penada: geralmente só aparece pra quem tem medo.

– Se mesmo seguindo todos esses conselhos você ainda assim for chifrado, não se desespere: na Associação de Cornos de Itacoatiara há vagas e no Chifral do Barão sempre cabe mais um! – diz o eterno gozador Ezilane Viana.
Quando visitar Itacoatiara, dê uma passadinha no restaurante Chifral do Barão.
Você não vai se arrepender.

Confraria dos Chifrudos, onde todos são bem vindos!


Por Geordie Filho, de João Pessoa (PB)
Editor do Cariri Ligado
Conversas sobre traições e adultérios deram origem ao bar Confraria dos Chifrudos, no mercado público da Madalena, um dos mais frequentados da cidade do Recife (PE).
O Cariri Ligado esteve por lá e conversou com o proprietário do estabelecimento, o senhor Fernando Correia, que nos contou como tudo começou.
Segundo Correia, tudo começou com um quiosque para vender bolo de bacia e caldo de cana, que depois evoluiu para uma rabada e terminou virando um bar.
Brincadeira vai, brincadeira vem, e todos se chamavam de cornos.
Mutuamente, sem brigas, só de brincadeira. De anarquia.

O bar não tinha nome, colocaram boteco dos Cornos.
Mas Correa achou o nome pesado.
Temia afugentar a clientela, mudou para Confraria dos Chifrudos, onde há um sino na parede, com a convocação “Quem não for corno seja bem-vindo. Quem for, toque o sino”.
A brincadeira continua: “Corno é assim, tudo que vê, quer ler.”
O local freqüentado assiduamente pelos caririzeiros que residem no Recife, entre eles, Zelito Nunes, Edinho Barros, Nido Farias, Walter Farias, Wilson Feitosa, Pedro Rômulo Nunes, Holdair Martins e outros mais.
Os que não residem por lá também se aventuram, como este que vos escreve.
O bar é tampa de crush, onde até o telefone é enfeitado com chifres.

As origens do mal
Corno, conforme se sabe, é uma gíria que designa o homem que foi traído pela esposa (ou pela namorada, ou pela amásia, ou pela ficante, você decide!) e aceita normalmente a situação ou que então faz “vista grossa” para as escapadinhas da distinta.
Há vários outros nomes para designar a raça, dentre eles chifrudo, cornudo, alce vermelho, boi-da-cara-preta, galhudo, maxixe, miolo-de-boi, etc.
No Brasil, o corno é um personagem-vítima de muitas anedotas populares, nas quais normalmente se dá mal.
Quanto à sua índole, o corno pode ser manso, brabo, dissimulado, convencido etc.

O Inmetro já catalogou mais de 500 tipos de corno, sendo que o mais recente é o corno ponto cego: aquele que fica preso no aeroporto enquanto a mulher se esbalda em casa!
O epíteto “corno” teria surgido de uma lenda medieval na qual a cabeça do marido traído começaria a doer na região da testa, e que, ao melhor estilo do realismo fantástico, surgiriam cornos que cresceriam na sua fronte.
Um gesto chulo (e um insulto na Itália), indicando que alguém é corno, consiste em fechar os dedos da mão, prender o dedo médio e o dedo anelar com o polegar, deixando levantados os dedos mindinho e indicador.
Esse gesto insultuoso se transformou no principal gesto de afirmação dos jovens fãs de heavy metal.
Os fãs de hip-hop fazem o mesmo gesto, mas levantando o polegar e o mindinho, e mantendo os outros três dedos flexionados no meio da mão.

segunda-feira, março 04, 2013

Tributo ao cerzidinho


Companheiro inseparável de todas as horas, o nosso cerzidinho tem sido ultrajado desde que o homem é homem e o boiola é boiola.

Não há no mundo quem não esteja disposto a meter o pau nele a todo momento.

Por toda parte, querem cutucá-lo com vara curta e também, o que é pior, com vara longa e grossa.

Ele é, acima de tudo, ou melhor, abaixo de tudo, um injustiçado.

Pergunta-se: por que será que não o deixam em paz, por que é afinal que não tiram o olho dele?

Preconceito!

Sim, certamente fazem tudo isso apenas porque o infeliz é escurinho.

Ou será porque, de tão antigo, já está todo enrugado, cheio de estrias?

Talvez o repreendam porque é humilde, porque vive escondidinho, quase nunca aparece...

Outros dizem que quando aparece é pra fazer merda.

E há ainda os que alegam que ele só gosta de nos ver pelas costas...

Mas não é verdade!

É certo que ele não é dos mais asseados, que não se depila com regularidade...

Mas, quem já imaginou a nossa vida sem o cerzidinho?

Quem já se imaginou privado do prazer de sentar na privada enquanto lê o jornal ou fuma um cigarro?

Quem alegará em sã consciência que jamais se sentiu aliviado ao apertar a descarga, com a sensação de dever cumprido?

E mais: se não fosse o nosso querido cerzidinho seríamos como balões flutuando na atmosfera com a barriga cheia de pum!

Antes de criticá-lo, é preciso que se saiba que não há no universo quem nos conheça mais a fundo do que o nosso cerzidinho!

Que esse pequeno e obscuro amigo está conosco e não abre!

E, se abre, a culpa não é de todo sua, mas de seu dono, um tremendo vacilão.

Portanto, basta!

Chega de desprezo e de calúnia!

É hora de redimirmos aquele que está sempre por baixo e nunca reclama!

É tempo de render uma homenagem àquele furo fraterno que segura nossa barra, ou melhor, nosso barro nos momentos mais difíceis, quando não há um banheiro por perto!

Viva o cerzidinho, viva o operário mais reto de todos!

Viva, viva esse obreiro incansável, que trabalha por um salário de merda!

Viva o cerzidinho, nosso infatigável buraquinho, que está conosco, juntinho, há muitos e muitos ânus!

Viva essa maravilha da natureza e única razão concreta de as mulheres serem tão desejadas pelos autênticos cavaleiros da AMOAL.

O resto é coisa de viado!

O Mongo e o Executivo


Por Stella Maris

Se você é daqueles que sonha em ser um alto executivo, mas ainda ocupa o cargo de baixo rola-bosta, não esmoreça!

Esqueça Roberto Shinyashique, ponha pra correr Layr Ribeiro, dê um safanão no primeiro Augusto Cury que vier com conversa mole.

Esconjure de uma só vez qualquer Gustavo Cerbasi, Bernardinho, Vendedor Pit-Bull ou Família Schürmann que tentem lhe vender estratégias pré-moldadas para a sua, convenhamos, merda de vida.

Se é para auto-ajudar-se, então auto-ajude-se com gente grande, com os verdadeiros manda-chuvas, os maiores tycoons de todos os tempos.

Aqui vai nosso top-five (catado na Amazon.com!) a respeito:


5º - “If Aristotle Ran General Motors”

O velho filósofo cheio de idéias que ensinou Alexandre, o Grande a deitar na relva helênica tinha tudo para deixar Jack Welch e outros maiorais de Detroit no chinelo em qualquer brainstorm sobre Ética, Metafísica, reenginering, outsorcing e troca de óleo. Principalmente se a discussão fosse em Grego clássico. Pena que, por uma sutil contingência do destino, Ari tenha morrido dois mil anos antes da GM precisar de sua consultoria. Do mesmo autor de "If Harry Potter Ran General Electric"! (US$ 11.20)


4º - “Elizabeth I, CEO – Strategic Lessons in Leadership from the Woman Who Built an Empire”

Mocréias do mundo, unite! Sob este lema, a Rainha Virgem, na falta do que fazer (sem TV e sem querer, digamos, abrir seu capital) deu aquele empurrãozinho para a Inglaterra tornar-se um dos impérios mais vastos, bem-vestidos, snobs e escrotos que já existiram. Aprenda seus segredinhos, mas não saia por aí com cintos de castidade e roupas bufantes... (US$ 12.00)


3º - “Moses: CEO”

Este guia é um verdadeiro maná na chupeta. Além de garoto de recados do implacável Jeová (Deus, em sua fase Bad Boy), Moisés foi o maior rogador de pragas que o mundo já conheceu. Um talento que você precisa dominar se quiser passar a perna, de forma sagrada, no seu faraó ou capitão do mato. Apesar de péssimo guia de viagens (levou mais de 40 anos para ir do Egito à Terra Prometida, que é logo ao lado), o imortal autor do Pentateuco tem o mapa da mina para você chegar à sua Palestina particular. (US$ 14.00)


2º - “The Leaderships Secrets of Attila, the Hun”

Olha o flagelo dos deuses de Wall Street aí, gente! Atarracado, cabeçudo, analfabeto de treze gerações, porcalhão convicto, mas com uma cimitarra deesse tamanho. Podia ser um brasileiro qualquer, mas assim era o invocado Átila, um especialista avant la lettre em aquisições imobiliárias agressivas e lei de falências (onde botava os pés, nada mais dava certo). Entre para o clube dos bárbaros com MBA e detone a "face humana do capitalismo" e outras frescuras. (US$ 10.46)


1º - "Make It So: Leadership Lessons from Star Trek the Next Generation”

A série podia ser uma merda do tamanho da galáxia de Andrômeda, mas aquele lugarzinho onde “nenhum homem jamais esteve” guarda segredos que podem fazer sua carreira deslanchar de vez, nem que seja rumo ao primeiro buraco-negro da esquina. (US$ 16.10 - Grátis um par de orelhas do Sr. Spock)