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terça-feira, julho 17, 2018

Juarez Machado, um gênio indomável



Juarez Machado nasceu em Joinville (SC) em 16 de março de 1941. É pintor, escultor, desenhista, mímico, caricaturista, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e designer. Passou sua infância em Joinville na companhia da mãe Leonora e de seu irmão Edson. Seu pai era caixeiro viajante, trabalho que o ausentava bastante do lar.

Aos 14 anos, Juarez Machado trabalhou em uma oficina gráfica, no setor de produções de rótulos de remédios, embalagens e cartazes para laboratórios. Nesse processo de criação, entre pincéis, tintas e papéis, um profissional estava sendo formado.

Como sua cidade natal era muito pequena, com características do velho mundo (grande parte da população era de origem alemã sendo, consequentemente, sua arquitetura semelhante a da germânica), Juarez Machado resolveu explorar outras cidades, indo assim para Curitiba aos 18 anos. Matriculou-se na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Logo ao se formar, realizou sua primeira individual na Galeria Cocaco de Curitiba, dando início a sua carreira de contínuo sucesso.

Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro – cidade que, como São Paulo, tinha maiores oportunidades e era onde tudo estava acontecendo – conseguindo, aos poucos, conquistar seu espaço. Na Cidade Maravilhosa, se tornou amigo de Millôr Fernandes, Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Claudius, Zélio e de toda a turma do Pasquim, do qual se tornou colaborador.

Mudou para Paris em 1978, onde fez seu terceiro ateliê – deixando o de Joinville e o do Rio de Janeiro (ambos em atividade) – mas antes, visitou Nova York, Londres, Itália, Dinamarca, Chipre, Israel e Grécia onde tomou partido dos acontecimentos do universo artístico de cada região.

Ganhou o prêmio da 5ª Bienal de Arte da Itália, prêmio Cenários em Televisão, o prêmio “Barriga Verde” de Artes Plásticas de Santa Catarina, o prêmio Nakamori (Japão) pelo melhor livro infantil, entre outros.

Sua cidade natal, deu-lhe o título de Cidadão Honorário em 1982, e o presidente da República concedeu-lhe a Ordem do Mérito de Rio Branco, em 1990.

Entre os sucessos de suas exposições, sua única reclamação é sobre o conservadorismo dos museus que, até hoje, não valorizam artistas do Novo Mundo provocando uma certa ausência de artistas da América do Sul.

Em relação a sua vida pessoal, Juarez Machado é orgulhoso em afirmar seu forte apego à família. Seus filhos, influenciados pela profissão do pai, optaram por seguir áreas de comunicação como produção de vídeos, cinema e TV, computação gráfica e desenhos animados.


No texto “A arte de ser artista”, Juarez Machado conta um pouco de sua história. Curtam:

O primeiro foi Fritz Alt, o segundo Eugenio Colin, ambos mortos.

Portanto, hoje, sou o mais velho artista joinvilense vivo. Título que não tem grande valor, também não quero que beijem o meu anel e nem se ajoelhem para pedir a benção. Apenas me dou o direito de contar uma pequena história aos jovens artistas de Joinville. Sentindo-se ameaçados, têm medo de fantasmas e não conseguem dormir. Traumas antigos da história de nosso povo, colonizados versus colonizadores.

Aprendi vendo isto como uma grande avenida de duas mãos. Os negros americanos fizeram da música dos brancos – Bach, Mozart, Schubert, e outros – a melhor música do mundo, o jazz. Na América Central, da música africana misturada à dança de salão, entre a valsa e minueto, fizeram o melhor ritmo do mundo, a salsa.

No Brasil, os escravos, com os restos da comida dos brancos, fizeram o melhor prato do mundo, a feijoada.

Toda avenida também tem contramão. Os ingleses no começo do século passado vieram ao Brasil trazendo o futebol. Rapidamente aprendemos e jogamos ainda melhor. Nos tornamos “O País do Futebol”. Hoje perdemos até para os franceses, vergonha que ainda sinto.

Éramos o País do Café, considerado o melhor do mundo, desde o século 18. Hoje o mundo toma café no “Starbucks”, americano, com fama de ser o pior. No período do cacau foi a mesma coisa. Nossa música, a bossa nova, foi para os Estados Unidos e foi tomada pelos americanos. Os músicos brasileiros estão procurando suas origens e esqueceram que já tínhamos encontrado a nossa identidade. Perdemos mais um título.

É vendo os erros e as experiências alheias que se aprende. Aproveitem a minha disponibilidade que é extremamente passageira. Não vim ao mundo para impor, mas deixar transparecer.

Na beira dos meus 70 anos, com a cara cheia de rugas, cabelos ralos, barba branca, porém com todos os dentes numa boca bastante afiada, digo a frase inicial:

– A vida é um grande espetáculo, cheia de surpresas e muitas ironias.

Em 1960, lá longe na história de Joinville – e minha também –, a nossa querida cidade só tinha uma rua principal, uma igreja católica, outra protestante, dois cinemas, uma sorveteria, um bordel, dois times de futebol, alguns bares e um só hotel, sem nenhuma estrela. O prédio mais alto da cidade era a torre do Corpo de Bombeiros, que é nosso orgulho até hoje. Duas rádios, um jornal...

Ah! sim, ia me esquecendo, um rio Bucarein, bonito e limpo, com três clubes de regatas, um movimentado porto com navios de bom calado e uma pequena praia. Três escolas públicas e um único colégio, o Bom Jesus, somente até a oitava série e nada mais.

Universidade? Ninguém sabia o que era. Museus?... Nem pensar. Teatro?... Muito menos. Recém-inaugurada, uma biblioteca, e na fachada, um painel do nosso primeiro artista, Fritz Alt.

Menino, fui um dos primeiros associados para ver figuras, ler e emprestar livros. Nas prateleiras, não havia um só livro de história da arte, biografia de artista ou museus do mundo. Nas paredes das casas dos moradores de Joinville, nenhum quadro. Salvo uma reprodução da “Santa Ceia” de Michelângelo na sala de jantar e outra reprodução sobre a cama do dono da casa, “Jesus refletindo solitário no Monte das Oliveiras”, e na cozinha, um calendário do Laboratório Catarinense com as fotos dos Alpes Suíços.

A cidade era feita apenas de fábricas e operários, e o tempo era medido pelo apito de cada fábrica. A palavra arte era sinônimo de “peraltice de criança”. Cultura era confundida com tradição.

Da festa da cerveja com música tirolesa até a quermesse da igreja nos dias santos, ao som de músicas religiosas e sertanejas no serviço de autofalantes, nada de mais emocionante acontecia. Tainha no inverno, caranguejo no verão e goiaba no pé o ano todo, e assim o tempo ia passando.

Os eventos mais próximos da cultura eram a Festa das Flores uma vez ao ano, nos salões da Sociedade Harmonia-Lyra. Aos domingos a banda do 13° BC (Batalhão de Caçadores), tocando marchas militares e até mesmo algumas músicas clássicas no coreto da Praça Lauro Müller.

Aos 19 anos, eu já estava de malas prontas para partir em busca do meu sonho maior... Ser um artista completo. Pintor, escritor, poeta, escultor, desenhista, ator. Conhecer museus, catedrais e monumentos. Caminhar por cidades, vilas e países. Conversar com pessoas – amigas, estranhas, professores, curiosos, poetas, sábios e loucos. Navegar em palácios, castelos e avenidas. Ir além da linha do horizonte e atravessar mares, rios e montanhas.

Descobrir novos paladares além da torta de banana da padaria Brunkow. Escutar sons mais melodiosos do que o apito das fábricas. Sentir refinados perfumes, além do Leite de Rosas que minhas primas usavam. Ser alguém bem informado e um aluno genial da mais reputada escola de arte do mundo: a Escola de Florença.

Com uma mala de papelão, uma pasta com alguns desenhos e oito dinheiros no bolso, em pé, dentro de um ônibus da Cia. Penha, depois de seis horas de viagem, cheguei em Curitiba. Só tinha feito 120 quilômetros. Para chegar em Florença, na Itália, ainda faltavam dez mil quilômetros e mais tantos zeros nos meus oito dinheiros. “Faço uma pequena parada, estou com fome”, pensei.

Na própria rodoviária comi o mais gostoso sanduíche da minha vida. Pão com duas fatias de sardinha em lata. Jamais esquecerei. Foi a luz do meu caminho. O Norte da minha bússola. Foi o canto dos anjos. Uma hora depois, me matriculei na escola de Música e Belas-Artes do Paraná. Paguei adiantado dois meses por um quarto de pensão de estudantes, com direito a comida e roupa lavada... et voilà! O começo tinha sido dado.

Por ironia, todos os meus professores tinham sido da Escola de Florença. Eram italianos ou alemães. Fui o último aluno desta culta geração de mestres. Muito jovem, feliz, tinha encontrado o meu ambiente, os artistas e outros jovens que pensavam como eu.

Em Joinville, meus amigos eram filhos de operários ou filhos dos donos das fábricas. Havia até mesmo uma certa discriminação por eu não querer ser engenheiro ou médico, e muito menos trabalhar numa fábrica.

Na minha sede de conhecer, estudei, pintei, modelei, fiz cenário para televisão e teatro, desenhei para jornais e revistas. Fiz minhas primeiras exposições, ganhei meus primeiros prêmios em salões de arte.

Nas férias, não voltava para Joinville, apesar de ter deixado uma namorada me esperando que já estava namorando um outro, um estudante de medicina (que bom para ela). Aproveitava este tempo para viajar. Ir para o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, centros urbanos importantes culturalmente. Visitar museus, ir aos teatros, visitar as oficinas de gravuras em metal e pedra, me deslumbrar na Bienal de São Paulo, fazer estágios com artistas mais experientes, novas técnicas, novos materiais.


Cinco anos depois, formado pela escola de Música e Belas-Artes do Paraná, agora, com um jogo de cinco malas em couro negro e várias pastas e rolos com meus trabalhos, fui morar no Rio.

– Que maravilha!

Começar tudo de novo. Outras amizades: cartunistas, jornalistas, arquitetos, músicos, diretores de teatro e cinema, escritores. Todos em Ipanema ditando o novo comportamento de vida para o Brasil inteiro em plena ditadura militar. Orgulhoso, sentia que como artista eu fazia parte da história de um novo tempo.

Revolução total. Nas ruas, o Exército confronta com cassetetes as manifestações dos estudantes e intelectuais. Nas praias euforia total, revolução sexual, liberação das mulheres, psicanálise, chopinho, Bossa Nova, rock e muita maconha. Novas ideias, novas informações, novas exposições.

Joinville tinha ficado distante, porém, sempre pensava com muito amor na minha querida cidade, e se um dia voltaria para abrir uma escola de arte para os jovens solitários e abandonados artistas.

Em direção oposta, comecei a fazer minhas primeiras viagens ao exterior. A primeira foi Israel. Conhecer e viver a cultura de um kibutz, a vida comunitária. De lá parti para Chipre, depois Grécia. Tudo parecia ser um filme de grandes aventuras de viver.

Cada ano uma nova viagem: Paris, Strasbourg, Londres e Nova York. Nunca como turista, mas como um sedento vampiro sugando todas estas culturas para depois digerir dentro de minha formação, meus valores, meus conceitos e até preconceitos e tentar ampliar os meus limites. Hoje tenho total certeza que a arte se alimenta da própria arte. Tal qual uma enorme serpente que começa a comer a ponta de seu rabo até chegar a sua cabeça.

Todos os movimentos artísticos – os gregos, romanos, etruscos, fenícios, arte africana, oriental, impressionista, dadaísmo, enfim, todas as correntes de todas as civilizações – , fizeram o corpo desta imensa cobra, até mesmo a arte contemporânea que já não é mais tão atual. Tudo começou lá, na pontinha do rabo da tal serpente.

Bem longe na história, um fulano, ainda meio macaco, pintou com o dedo um bisão nas paredes de pedra de sua caverna. Foi o primeiro pintor, muralista ou até mesmo o primeiro grafiteiro. A maravilha da vida e da humanidade é contada por meio da arte. A tarefa do artista é, com talento, registrá-la.

Continuei a trabalhar, viajar e vampirizar tudo que fosse possível. Sem mais voltar para minha querida e pequena Joinville do meu tempo de menino. Agora Florença tinha me ensinado a observar a vida, através de um microscópio ou telescópio, e fazia parte de minha rota habitual.

Já com quase 50 anos, com apenas uma pequena maleta e uma imensa bagagem artística/cultural, fui morar definitivo em Paris, terra dos artistas. E começar tudo de novo.

É muito mais excitante disputar com pessoas maiores do que você, por que tirar pirulito de criança é covardia. Somente para todos terem uma ideia, na França estão inscritos no sindicato (la maison des artistes) 50 mil artistas do mundo todo, e todos de alto nível. Sem deixar por menos, mais trabalho, mais viagens, montei atelieres em Montmartre, depois Veneza, Boston, e Los Angeles. Hoje faço de três a quatro exposições por ano em várias partes do mundo. Publico livros, tenho vários colecionadores pelo mundo e sou chamado respeitosamente de “cher maitre”.

Voltei para Joinville somente alguns anos atrás para pintar o mural de entrada do Centreventos Cau Hansen, “O Grande Circo”. Qual a minha grande e agradável surpresa? Joinville tinha mudado, tinha crescido, tinha ficado culta. Só se falava em arte, ballet, teatro, festivais, artistas, museus, escolas de arte, me senti muito feliz, Joinville tinha sido salva da mediocridade.

E eu se tivesse esperado um pouco mais, teria a escola de Belas-Artes de Florença na minha própria esquina. Não teria sacrificado tanto minha família e principalmente o menino sonhador e solitário de Joinville.

Fico muito feliz pelos meus caros jovens artistas joinvilenses.

Parabéns, vocês conseguiram! Não tenham medo de aprender e conhecer culturas, quanto mais melhor, para depois criarem a sua própria linguagem. Cada um terá o seu próprio estilo.

Cultura é fundamental, e confesso: “Jamais faria o transplante do meu coração, caso fosse preciso, com um médico doutor autodidata.”
























Cacaso ou a poesia como brinquedo



Cacaso nasceu Antônio Carlos Ferreira de Brito em 1944 (Uberaba, MG) e morreu em 27 de dezembro de 1987, no Rio de Janeiro. Aos 12 anos ganhou página inteira de jornal por causa das caricaturas de políticos que enchiam seus cadernos escolares. Mas logo veio a poesia e antes dos 20 já estava colocando letras em sambas de amigos como Elton Medeiros e Maurício Tapajós. 

Em 67 veio o primeiro livro, A Palavra CerzidaDois anos depois formou-se bacharel em Filosofia pela UFRJ, em 1969. Na época já colaborava nos jornais alternativos Opinião e Movimento e participava ativamente dos movimentos estudantis contra o regime militar.

Entre 1970 e 1975 foi professor de Teoria Literária na PUC-RJ. Em 1974 e 1975 integrou os grupos poéticos Frenesi, com Roberto Schwarz, Francisco Alvim, Geraldinho Carneiro e João Carlos Pádua, e Vida de Artista, com Eudoro Augusto, Carlos Saldanha (Zuca Sardan), Chacal e Luiz Olavo Fontes, produzindo suas próprias coleções, antologias e revistas.

Sua produção poética inclui os livros Grupo Escolar (1974), Segunda Classe (1975), Beijo na Boca (1975), Na Corda Bamba (1978), Mar de Mineiro (1982), Beijo na Boca e Outros Poemas (Antologia - 1985) e Lero-Lero (Obras Completas - 2003).

São livros que não só revelaram uma das mais combativas e criativas vozes daqueles anos de ditadura e desbunde, como ajudaram a dar visibilidade e respeitabilidade à poesia marginal.


Sua obra, influenciada por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Oswald de Andrade, tematizou a política e o amor em tempos de ditadura militar e liberação sexual, com doses generosas de humor e crítica social. Como professor e teórico de Comunicação, conquistou a simpatia e a admiração de centenas de jovens poetas de todo o país.


No campo da música, os amigos/parceiros se multiplicaram na mesma proporção: Edu Lobo, Tom Jobim, Sueli Costa, Cláudio Nucci, Novelli, Nelson Angelo, Joyce, Toninho Horta, Francis Hime, Sivuca, João Donato, etc.


Nas aventuras da vida de artista e nas polêmicas da poesia, os companheiros de viagem se chamavam Leilah Assunção, Pedrinho, Rosa, Paula, Vila Arêas, Davi Arrigucci, Miúcha e Cristina Buarque de Holanda, Ferreira Gullar, Hélio Pellegrino, Afonso Henriques Neto, Ana Luísa, Bita Carneiro, Maurício Maestro e Ana Cristina César, entre outros.

"Aos 43 anos, Cacaso conservava o rosto juvenil, redondo, mantendo ainda os cabelos longos, a barba por fazer e as sandálias de couro. Para uma geração - a de 68 - Cacaso era o poeta, até na sua maneira desleixada de se vestir. (...) Também Cacaso tinha um lado teórico, que lhe servia para explicar aos seus companheiros o que estava fazendo. A poesia marginal, na verdade, foi o grande ‘poema sujo’ de uma geração. Esta poesia rejeitava os dogmas ou uma maneira de se fazer poesia que estava associada aos poetas concretos. Era uma rejeição vital. Afinal, eles não poderiam perder tempo lendo Ezra Pound - o grande mestre da geração concretista. Esta geração desejava falar de poesia e fazer poemas. Isto bastava. E fizeram. Cacaso era uma espécie de tutor deste movimento. Professor de Literatura da PUC, amigo do sociólogo Roberto Schwarz, leitor de autores marxistas, ele dava base teórica para aquela geração. E em vez de Ezra Pound, eles procuram a poesia - límpida e simples - de Manuel Bandeira."

(Wilson Coutinho in O som de um anjo. Jornal do Brasil. Caderno B. 1987.)

"É nas poesias daquela época [anos 70] que Cacaso - misturando procedimentos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Oswald de Andrade a uma percepção original - fez um retrato possível dos sentimentos vigentes num país imerso na ditadura. (...) Poesia política de lirismo discreto, sem nenhum pendor mobilizador, sem se pretender canto arrebatador ou denúncia sisuda de mazelas ditatoriais. Foi através do humor, das inversões de sentido à la Oswald de Andrade, que Cacaso obteve seus melhores resultados nessa fase. Nela, a política estava em maior evidência - mas, em nenhum momento deixou de fundar-se na individualidade de Cacaso, na sua nostalgia de situações perdidas e passadas e no seu estranhamento com o presente. Como no curto e direto ‘Lar Doce Lar’."

(Revista Veja in Trapaças da sorte. 1988.)

"A certa altura, Cacaso imaginou que a sua vida de intelectual e artista seria mais livre compondo letras de música popular do que dando aulas na faculdade. Na época chegou a idealizar bastante a liberdade de espírito proporcionada pelo mecanismo de mercado. Penso que ultimamente andava revendo essas convicções. Seja como for, o passo de professor a letrista, acompanhado de planos ambiciosos de leitura literária, histórica e filosófica, assim como de produção crítica, mostra bem a sua disposição de entrar por caminhos arriscados e de vencer em toda linha. Talvez apostasse que uma certa informalidade de menino lhe permitiria ignorar e superar as incompatibilidades que a nossa cultura ergueu entre arte exigente e arte comercial, entre estudos e estrelato, entre conseqüência política e fruição desinibida. (...)"

(Roberto Schwarz in O poeta dos outros. Novos Estudos Cebrap. 1988).













estações

Do corpo de meu amor
exala um cheiro bem forte.

Será a primavera nascendo?



lar doce lar

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.



indefinição


pois assim é a poesia:
esta chama tão distante mas tão perto de
estar fria.



história natural

Meu filho agora
ainda não completou três anos.
O rosto dele é bonito e os seus olhos repõem
muita coisa da mãe dele e um pouco
de minha mãe.
Sem alfabeto o sangue relata
as formas de relatar: a carne desdobra a carne
mas penso:
que memória me pensará?
Vejo meu filho respirando e absurdamente
imagino
como será a América Latina no futuro.



o fazendeiro do mar

mar de mineiro é
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem

(...)

mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zen
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
goiás
mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas


e com vocês a modernidade


meu verso é profundamente romântico.
choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores e ciganos.
ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!


happy end

o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente


estilos trocados

meu futuro amor passeia — literalmente — nos
píncaros daquela nuvem.
mas na hora de levar o tombo advinha quem cai.



sonata

ecos daquele amor ressonam profundamente
e cada vez mais leves absurdas pancadas deu no
que deu minha memória relata

escorrego para dentro dos decotes dela


ah!

ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
ah se pelo menos o coração não tivesse
[memória!
como seria menos linda e mais suave
minha história!



alquimia sensual

tirante meus olhos e mãos
quero me transformar em seu corpo
com toda nudez experiente
do passado e do presente
e naquela noite
entre suspiros
terei aguardado a hora incrível
de tirar o sutiã



busto renascentista

quem vê minha namorada vestida
nem de longe imagina o corpo que ela tem
sua barriga é a praça onde guerreiros
[se reconciliam
delicadamente seus seios narram
[façanhas inenarráveis
em versos como estes e quem
diria ser possuidora de tão belas omoplatas?

feliz de mim que freqüento amiúde e quando posso
a buceta dela



capa e espada

meu amor sentindo-se incapaz de ser amada
levanta herméticos escudos e duendes a qualquer
dádiva
que de mim — ai de mim! — possa brotar
nada mais ameaçador que os olhos do amor


táxi

o poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão deste universo.
como será o amor das pessoas rudes?
o poeta não se conforma de não conhecer

todas as formas da delicadeza.


imagens I

para evitar malentendidos
digamos desde já que nos amamos.



estilos de época

havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado

e foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.


poética

alguma palavra,
este cavalo que me vestia como um cetro,
algum vômito tardio modela o verso.
certa forma se conhece nas infinitas,
a fauna guerreira, a lua fria
encrustada na fria atenção.
onde era nuvem
sabemos a geometria da alma, a vontade
consumida em pó e devaneio.
e recuamos sempre, petrificados,
com a metafísica
nos dentes: o feto
fixado
entre a náusea e o lençol.
meu poema me contempla horrorizado.


surdina

primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Ellis Regina!
um arrepio gelado
um frio de cocaína!
a morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
e agora é Clara Nunes
que morre ainda menina!
é demais! Que sina!
a melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
lá vai a morte afinando
o coro que desafina...
se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina.



Eu te amo

seu amor me furta
seu horror me encanta
minha vida é curta
minha fome é tanta
minha carne é fraca
minha paz é louca
minha dor é farta
minha parte é pouca
minha cova é rasa
meu lamento é mudo
seu amor me arrasa
sua ausência é tudo
minha sorte é cega
sua luz me esconde
minha morte é certa
meu lugar é onde
seu carinho é pena
seu amor é mando
minha falta é plena
minha vez é quando

Nosferatu tropical na geleia geral brasileira


* Teresina (PI) – 9 de novembro de 1944
+ Rio de Janeiro (RJ) – 10 de novembro de 1972

Filho de um promotor público e de uma professora primária, o piauiense Torquato Neto estudou em Salvador, no mesmo colégio de Gilberto Gil, de quem se aproximou aos 17 anos nas rodas artísticas de Salvador, onde conheceu também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Mais tarde, em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez alguns anos de faculdade de jornalismo, sem se formar.

Apesar disso, exerceu a profissão de jornalista em diversos periódicos, como o Correio da Manhã (no suplemento Plug), O Sol (suplemento do Jornal dos Sports) e Última Hora, onde nos anos de 1971 e 72 escreveu sua badalada coluna Geleia Geral, em que defendia as manifestações artísticas de vanguarda na música, artes plásticas, cinema, poesia etc.

Fundou também jornais alternativos, o Presença e o Navilouca, que só teve um número, mas fez história.


Em 1968, com o AI-5 e o exílio dos amigos e parceiros Gil e Caetano (além de outros emigrados), viajou pela Europa e Estados Unidos com a mulher Ana Maria, morando algum tempo em Londres.

De volta ao Brasil, no início dos anos 70, ligou-se à poesia marginal e aos ícones do cinema marginal, Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Ivan Cardoso.

Também era amigo dos poetas concretistas, Décio Pignatari, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, e do artista plástico Hélio Oiticica.

Seu suicídio, um dia depois de seu 28º aniversário, provocou espanto. Torquato voltou de uma festa com a mulher — que foi dormir —, trancou-se no banheiro e ligou o gás, sendo encontrado morto no dia seguinte pela empregada.

Deixou um bilhete de despedida que dizia: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”.

Thiago era o filho de três anos de idade.


Artigos da coluna Geleia Geral e poesias inéditas foram reunidos no livro “Os Últimos Dias de Paupéria”, organizado por Waly Salomão e a viúva Ana Maria em 1973.

Além disso, o cineasta Ivan Cardoso produziu o documentário Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália.

Uma das últimas coisas escritas por Torquato Neto, “Pra mim, chega” é também o nome de polêmica biografia do escritor, realizada pelo curitibano Toninho Vaz, que em 2002 estreou no formato escrevendo “O Bandido que Sabia Latim”, uma biografia de Paulo Leminski.

Em sua nova recontagem da vida de Torquato, Toninho Vaz tocou em assuntos delicados, tendo uma personagem principal complexa, profunda e de personalidade pouco conhecida em sua totalidade.


O poeta é geralmente citado como tímido, reservado, introspectivo, melancólico.

A biografia revela uma personalidade diferente: abrangente, expansiva.

Melancólica, sim. Mas também radical, anarquista, incansável, cheia de excessos e paixão pela vida.

Pessoa tão grande que é, um levantamento da história da vida de Torquato não poderia acontecer sem percalços.

Um detalhe surgido na apuração de sua biografia mostrou-se delicado, mas revelador.


Nana Caymmi, em entrevista, lembrando uma das primeiras tentativas de suicídio do poeta, comentou: “Pra mim, ficou claro que era uma paixão pelo Caetano. Todos ali falavam disso”.

Caetano Veloso, entrevistado pelo autor da biografia, foi categórico.

“Se você me perguntar se nós éramos namorados, amantes ou coisa assim, eu posso garantir: não!”, afirmou.

O autor desconfia que esse tenha sido um dos motivos para a desaprovação pública à biografia por parte da viúva de Torquato, Ana Maria Duarte.

Originalmente divulgado como projeto da editora Record, acabou abortado, até ser encampado, com aura de “maldito”, pela Casa Amarela, que publica a revista Caros Amigos.


Com 73 entrevistas, o livro explica na introdução: Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia se escusaram de falar sobre ele.

Chamado de “ideólogo do movimento tropicalista” por Toninho Vaz, Torquato Neto foi talento arrebatador, sensível, louco, inclassificável nos seus interesses.

Como letrista – sua faceta mais conhecida –, emprestou palavras para melodias de Edu Lobo (“Pra Dizer Adeus”), Gilberto Gil (“Louvação” e “Geleia Geral”), Caetano Veloso (“Nenhuma Dor” e “Mamãe Coragem”), Jards Macalé (“Let’s Play That”), Capinam e Gil (“Soy loco por ti America”) e parceria póstuma com Sérgio Brito, gravada pelos Titãs (“Go Back”), entre dezenas de outras.

Como jornalista, escreveu em periódicos como Correio da Manhã e Última Hora, onde manteve por muitos anos coluna de intensa agitação cultural. Como poeta, teve obra esparsa, rascunhada, apenas organizada postumamente.



Há pouco tempo, a editora Rocco organizou essencial trabalho de compilação de toda a obra escrita de Torquato, nos dois volumes de “Torquatália” (“Do Lado de Dentro” e “Geleia Geral”), com letras, poesias, colunas jornalísticas, roteiros, cartas, anotações, ideias e um diário de certo período em que esteve internado – voluntariamente, diga-se – em um hospital psiquiátrico carioca.

Este período é lembrado em detalhes no livro “Pra Mim Chega”, entre outras histórias de solidão, paixões e inconformismo, inclusive do seu período pós-tropicalista, já cabeludo e interessado em cinema e drogas, com lembranças surpreendentes de relações com Glauber Rocha, Zé Celso, Hélio Oiticica.

Tudo muito natural para o poeta que escreveu que um poeta não se faz com versos: “É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.”


Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


O Poeta é a Mãe das Armas

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois

torquato neto /8/11/71 & sempre.


Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

a alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo e Mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro
ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
e quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
doce mulata malvada, um LP de Sinatra, maracujá, mês de abril
santo barroco baiano, superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim
ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

plurialva, contente e brejeira miss linda Brasil diz “bom dia”
e outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia
ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
voz do morro, pilão de concreto tropicália, bananas ao vento
ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi


Literato Cantabile

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu que agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.


Pacato Cidadão

era um pacato cidadão de roupa clara
seu terno, sua gravata lhe caíam bem
seu nome, que eu me lembre, era ezequias
casado, vacinado e sem ninguém.
brasileiro e eleitor, seu ezequias
reservista de terceira e com família
três filhos, prestações e alguns livros
(enciclopédias e biografias)
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
cumpria seus deveres, trabalhava
chegava cedo em casa de madrugada
lutando pelo pão de cada dia.
era um pacato cidadão de roupa clara
e todo dia passava e me dizia
que o mundo estava andando muito mal
eu perguntava por que, eu perguntava
seu ezequias nunca me explicava
apenas repetia
lá dentro do seu puro tropical
este mundo vai seguindo muito mal
este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal.
ah, seu ezequias!
que pena, que desastre, que tragédia
que coisa aconteceu naquele dia
seu ezequias. ah, seu ezequias
saiu do emprego e foi tomar cachaça
e apenas de manhã voltou pra casa
batendo na mulher, xingando os filhos
seu ezequias, ah seu ezequias
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
e agora é a vergonha da família.


Ai de mim, Copacabana

um dia depois do outro
numa casa abandonada
numa avenida
pelas três da madrugada
num barco sem vela aberta
nesse mar
nem mar sem rumo certo
longe de ti
ou bem perto
é indiferente, meu bem

um dia depois do outro
ao teu lado ou sem ninguém
no mês que vem
neste país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim: quero
voar no concorde
tomar o vento de assalto
numa viagem num salto
(você olha nos meus olhos
e não vê nada -
é assim mesmo
que eu quero ser olhado).

um dia depois do outro
talvez no ano passado
é indiferente
minha vida tua vida
meu sonho desesperado
nossos filhos nosso fusca
nossa butique na augusta
o ford galaxie, o medo
de não ter um ford galaxie
o táxi, o bonde a rua
meu amor, é indiferente

minha mãe, teu pai a lua
nesse país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim.


Pílulas

Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. Na mesma base: deixa.

Primeiro passo é tomar conta do espaço. Tem espaço a beça e só você sabe o que o que pode fazer do seu. Antes ocupe. Depois se vire.

Não se esqueça de que você está cercado, olhe em volta e dê um rolê. Cuidado com as imitações.

Imagine o verão em chamas e fique sabendo que é por isso mesmo. A hora do crime precede a hora da vingança, e o espetáculo continua. cada um na sua, silêncio.

Acredite na realidade e procure as brechas que ela sempre deixa. Leia o jornal, não tenha medo de mim, fique sabendo: drenagem, dragas e tratores pelo pântano. Acredite.

Poesia. Acredite na poesia e viva. E viva ela. Morra por ela se você se liga, mas por favor, não traia. O poeta que trai sua poesia é um infeliz completo e morto. Resista, criatura.

Sínteses. Painéis. Afrescos. Reportagens. Sínteses. Poesia. Posições. Planos gerais. "O Close-up é uma questão de amor". Amor.

Eu, pessoalmente, acredito em vampiros. O beijo frio, os dentes quentes, um gosto de mel.

16/11/71 - 3ª-feira


Let’s play that

quando eu nasci
um anjo louco
muito louco
veio ler a
minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo
me disse
apertando a
minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that
até o fim

sexta-feira, julho 13, 2018

Quatro dicas para um bicho-grilo sobreviver no século 21



Por Luciene Garcia

Se você usou perfume Patchouli, bolsa de lhama do Peru, sandalinha comprada na Feira Hippie da Praça da Liberdade em Belo Horizonte, virou as tiras das sandálias Havaianas para ficar da mesma cor (uma tortura), você já foi um bicho-grilo, expressão que, lamento, os mais novos nem conhecem.

E se você insiste em só usar camiseta lisa comprada em promoção de lojas de departamento, ou no máximo na banca de ofertas da Hering, usa aquele velha calça desbotada até rasgar e tênis All Star imprestável, você continua sendo um ripongo.

Mas nem tudo está perdido. Temos quatro dicas para você continuar sendo um meio-ripongo-capitalista-fashion no século 21.

1 – Junte uma grana com os frilas que faz e troque o Corcel II, conhecido por Corsário (Corcel de otário), por um carro moderno. Pode ser até uma KA. Com um carro legal você vai poder ouvir Ednardo cantando “Pavão Mysterioso” na maior altura (feche o vidro pra ninguém mais escutar). Você sabia que existe sensor de ré? Não é isso que você está pensando, safado. O sensor apita quando você vai bater e mudar de carro já te dá um certo status de capitalista.

2 – Troque o All Star (aquele que serve, o outro jogue no lixo, puro chulé) por um desses sapatênis bonitinhos. Tem até de bolinha se você quiser ser um capitalista mais egocêntrico. Compre uma calça jeans (ou duas, pelo amor de Deus), que pode ser até essas do Lojão das Fábricas, e jogue a velha fora, sem deixar sua mulher riponga cortar pra fazer bolsa. As camisetas novas podem ter apliques para dar um ar mais moderno, mas não compre aquelas que têm estampa em inglês se você não sabe a tradução. Você corre o risco de sair da loja com uma em que está escrito bem na frente: “I’m a moron”. Pergunte pra alguém que sabe. Apesar de gostar de Janis Joplin, você fugiu das aulas de inglês, né?

3 – Baseado, jamais. Baseado está por fora. Além de cheirar a cocô de gato, ele deixa os dedos amarelos e os miolos moles. Fala pro Janilson, seu traficante, que você não quer mais, não tá a fim, não usa mais. Vire “Geração-Saúde”. Compre roupas de ginástica (sim, aquele short que aperta os bagos), um tenizinho legal e vá para a academia no carrão. Siga as instruções do personal. Puxe peso, faça leg, leg 45º, puxe corda, ombro, bíceps, tríceps, esteira, bicicleta. Assim você vai ficar moderno e perder essa barriga de cerveja que te deixa com cara de pobretão que só toma Brahma de Agudos.

4 – Compre um celular novo e aprenda a fazer selfie. Esse seu celular que não tira foto é peça de museu. Meu filho, resistir à tecnologia é pura bobagem. Hoje, na barriga da mãe, o moleque já sabe identificar, no painel digital do shopping, onde fica a loja do Mc Donald’s. Tenha twitter, Facebook, whtsApp, o diabo. Conecte. Entre em sites de sacanagem, faça amigas virtuais e verás que as siliconadas são bem melhores que as ripongas. Elas se depilam.

quinta-feira, julho 12, 2018

Adeus ao Pato Donald



Por Rafael Galvão

É mais ou menos como se, de repente, você recebesse a notícias de que seus avós estão se separando.

Na semana passada, a notícia de que a Editora Abril tinha perdido os direitos de publicação dos personagens Disney no Brasil chocou os fãs mais antigos. A manchete do Planeta Gibi, que deu a notícia, resume tudo: é o fim de uma era.

Eu cresci com esses quadrinhos, e os considero muito melhores que os da Turma da Mônica; enquanto Carl Barks e Don Rosa nos apresentam o mundo, Maurício de Sousa nos regala com as pequenas coisinhas fáceis de um mundo restrito à rua do Limoeiro. Para a Abril, no entanto, esse episódio deve ter um peso ainda maior.

A Abril nasceu com a revista do Pato Donald, em 1950. Victor Civita costumava parafrasear Walt Disney ao dizer que “tudo começou com um pato”. Há uns 20 anos, uma matéria com um colecionador das revistas do Pato Donald no Brasil, no caderno de cultura da Gazeta Mercantil, contava que a publicação do Pato Donald era uma questão de honra para a Abril, algo que transcendia os meros interesses comerciais; tive a impressão de que os Civita viam o Pato Donald como o Tio Patinhas via a sua moedinha número 1. A notícia então se torna ainda mais melancólica. Mesmo sendo a Abril, uma editora cujos desserviços para o país são numerosos demais para contar, é impossível não ficar triste. É um pedaço da história de um bocado de gente que vai embora.

Aí pela segunda metade dos 70 havia umas quatro editoras que publicavam quadrinhos de maneira mais consistente. A Vecchi, com seus faroestes tipo Tex e Zagor e os personagens da Harvey (além da Mad); a legendária Ebal, que publicava entre outros Tom e Jerry, a DC, Epopéia Tri e Zorro; a RGE (depois Rio Gráfica e finalmente Globo, quando a rede carioca conseguiu comprar a Editora Globo gaúcha), que publicava a Marvel, Fantasma e Mandrake, Sítio do Picapau Amarelo; e finalmente a Abril, a melhor de todas, com uma qualidade editorial muito superior às concorrentes e que tinha também a Turma da Mônica.

Uma a uma, essas editoras foram desaparecendo. A Vecchi faliu no início da década de 80. A Ebal agonizou durante anos, e quando fechou já não tinha nenhuma relevância. Em 1985 a Abril parecia ser a dona do mundo: Disney, Mônica, Marvel, DC — tudo parecia estar em suas mãos. É verdade que esse fastígio absoluto não durou muito tempo e logo depois a Turma da Mônica foi para a Globo; mas ainda assim a Abril era a grande editora de quadrinhos do país. No início dos anos 2000 foi a vez dos super-heróis irem para a Panini, e a partir daí a decadência parece ter se acelerado, inexorável.

Mais ou menos nessa época, uma olhada nas bancas deixava claro que os quadrinhos Disney passavam por uma fase muito ruim. A Abril tinha deixado de produzir histórias da Disney já fazia algum tempo, e a qualidade das revistas era muito inferior ao padrão a que ela havia nos acostumado ao longo de décadas. (Curiosamente, foi nessa época que, graças ao Inagaki, descobri Don Rosa.)

Mas de lá para cá a situação havia mudado, e isso é o mais irônico. Parecia que a Abril tinha encontrado uma saída comercial para a crise óbvia no setor de quadrinhos, publicando edições de luxo com o melhor da sua produção e reedições dos manuais que tinham feito a alegria das crianças dos anos 70. Ela tinha se voltado para um segmento mais específico e de maior poder aquisitivo — velhos saudosistas e fãs de quadrinhos, especificamente. Além disso, tinha ressuscitado alguns dos seus títulos clássicos, como Disney Especial e Almanaque Disney, embora sem a qualidade editorial de outrora — o novo Almanaque Disney, por exemplo, não tinha nada a ver com a revista original e era muito inferior.

Eu não faço ideia do que está acontecendo, obviamente. Mas os números dos prejuízos recorrentes da Abril, impressionantes, devem servir de indício. A Abril está em processo de falência há muito tempo, e não para de encolher. O que foi um império simbolizado pelo prédio imponente ao lado da rua do Sumidouro está implodindo de maneira consistente há muitos anos, e quando ela chega ao noticiário é com demissões e “reestruturações”, uma palavra bonita que nunca significa outra coisa que não encolhimento. Normalmente, essas notícias são lamentadas por jornalistas que vêm seu mercado de trabalho encolher, ou comemoradas por quem, como eu, tem verdadeira ojeriza ao papel malfazejo da Abril na política nacional. Mas dessa vez não há nenhum aspecto positivo na notícia.

Porque em tudo isso há um aspecto que não devia passar batido, e que deve ajudar a dar a dimensão real desse acontecimento: nos últimos 68 anos, em nenhum momento deixou de haver uma revista Disney nas bancas brasileiras. Isso não aconteceu sequer nos Estados Unidos, onde a Disney passou alguns períodos sem ser publicada. É isso que estamos perdendo agora. É bem provável que os quadrinhos sejam assumidos por alguma editora — a melhor aposta seria a Panini, que já tem todo o resto, mesmo —, e quem gosta dos personagens que ajudaram a definir a visão de mundo de gerações vai continuar sendo servido, talvez até melhor.

Mas há um pessoal que gostava, também, da Disney na Abril. Talvez porque ver o Pato Donald ou o Mickey numa banca de revistas lhes desse um pouco de segurança e familiaridade em um mundo que não para de mudar e que, nos últimos tempos, passou a desafiar até os mais otimistas. Talvez porque mesmo em tempos de Facebook a desgraça dos outros não seja motivo de regozijo. Eu me junto a eles.

Biografia não autorizada do Bione



Adentrei o tapete verde da chamada grande imprensa nos idos da década de 1970. Foi fascinante. O cheiro de fumaça de cigarro, misturado com os odores do chumbo derretido da oficina, no ambiente fervilhante da redação me enchiam de energia criativa. No final da noite ainda tinha o corre-corre do fecha-fecha do jornal...
E a censura comia solta. As páginas de telex a determinar o que não podia ser publicado eram pregadas no quadro de avisos. Isso nos deixava por dentro do que se passava nas entranhas da ditadura. O quadro era o “jornal” mais lido pelos jornalistas. Até que um novo telex do SNI – Serviço Nacional de Informações – determinou que as mensagens proibitivas deveriam ficar restritas aos editores. A “gloriosa de 1º de abril”, como batizou Stanislaw Ponte Preta, tinha suas sabedorias. Eu tocava minha vida entre os estudos de medicina e o jornalismo. E aos poucos ia se descortinando para mim um mundo de interesses escusos – e às vezes até claros demais – em cada linha e em cada foto publicadas.
Nessa época, numa noite qualquer, acordei sobressaltado. Um sonho estranho invadira meu dormir. Atravessava eu a ponte Duarte Coelho, no centro do Recife, quando me deparei com Luiz Gonzaga a puxar sua sanfona branca, fazendo dueto com Fagner, num forró danado de bom. Diga-se que tal parceria só viria a se concretizar anos depois – meus sonhos têm dessas coisas premonitórias. Enquanto eu olhava, embevecido, para aquela dupla, um colega de redação me convidava de dentro do rio Capibaribe para juntar-me a ele. 
O colega – já falecido, que Deus o tenha – chafurdava na lama da maré baixa, atolado até o peito. Eu, deslumbrado com a música e até cantando junto com “seu Luiz” e com Fagner, sinalizava que rejeitava aquele convite. Ele insistia que eu fosse me “banhar” naquele rio de lama. Ante minha recusa, ele saiu do rio na tentativa de me arrastar até aquele lodaçal. Lembro que acordei baratinado, após correr léguas intermináveis, perseguido pelo colega enlameado. Ufa!, o despertar me salvou.
Dá pra sentir a relação esquizóide que, desde sempre, mantive com a chamada grande imprensa. O cheiro da tinta, do fumo, do chumbo – sim, nessa época off-set e computador eram coisas futuristas –, os sons das rotativas, os berros histéricos dos editores eram aromas e músicas aos meus sentidos. O clima de medo, corrupção, covardia, dedurismo, me enojava como a lama fétida do rio.
É A LAMA, É A LAMA – E assim passaram-se os anos. E pouca coisa mudou. Mudaram os atores, os personagens, os diretores, a ditadura deu com os burros n’água, mas a comédia burlesca é a mesma. Talvez até com roteiro mais medíocre. Naquele tempo, pelo menos, a maioria tinha um inimigo comum, o regime militar. Hoje, manda o famigerado mercado. 
Peguem-se episódios isolados para termos uma visão do todo. Revistas semanais garantem seu faturamento a partir da extorsão a setores do governo, que devem garantir um mínimo de páginas de anúncios, senão surgirá uma nova “denúncia” contra alguém próximo à presidência, ao ministério ou à estatal que reduziu ou cortou a cota publicitária. O sagrado instituto da fonte passou a funcionar como balcão de negócios. Vide as capas de revistas semanais inspiradas nas “denúncias”. Enfim, tudo pode ser reduzido a três palavrinhas: negociata, extorsão, jabá. Por falar em jabá, estão aí as grandiloquentes matérias sobre os lançamentos hollywoodianos ou sobre CDs/DVDs de infames duplas sertanejas que não me deixam mentir.
Por essas e por outras, resolvi cair fora desse barco povoado de ratazanas. Daí, criei um jornal do qual sou o fundador, presidente, editor e office-boy: o tal Papa-Figo velho de guerrilha, uma instituição sem fins lucrativos. Faz, agora em agosto, 34 primaveras sem tirar de dentro. Não ganho porra nenhuma, mas pelo menos me divirto um bocado. É o que sempre digo em meus papos com estudantes e jovens jornalistas: entre a imprensa escrita, falada ou televisada, prefiro um bom prato de jabá.



Manoel Bione é psiquiatra, jornalista e editor do Papa-Figo, o jornal de humor mais antigo em circulação na América Latina – depois do Diário de Pernambuco, é claro. Agora, gozando na rede: (papafigo.com). Boa leitura.