Juarez Machado nasceu em Joinville (SC) em 16 de março de
1941. É pintor, escultor, desenhista, mímico, caricaturista, cenógrafo,
escritor, fotógrafo, ator e designer. Passou sua infância em Joinville na
companhia da mãe Leonora e de seu irmão Edson. Seu pai era caixeiro viajante,
trabalho que o ausentava bastante do lar.
Aos 14 anos, Juarez Machado trabalhou em uma oficina
gráfica, no setor de produções de rótulos de remédios, embalagens e cartazes
para laboratórios. Nesse processo de criação, entre pincéis, tintas e papéis,
um profissional estava sendo formado.
Como sua cidade natal era muito pequena, com características
do velho mundo (grande parte da população era de origem alemã sendo,
consequentemente, sua arquitetura semelhante a da germânica), Juarez Machado
resolveu explorar outras cidades, indo assim para Curitiba aos 18 anos.
Matriculou-se na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Logo ao se formar,
realizou sua primeira individual na Galeria Cocaco de Curitiba, dando início a
sua carreira de contínuo sucesso.
Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro – cidade que, como
São Paulo, tinha maiores oportunidades e era onde tudo estava acontecendo –
conseguindo, aos poucos, conquistar seu espaço. Na Cidade Maravilhosa, se
tornou amigo de Millôr Fernandes, Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Claudius, Zélio e
de toda a turma do Pasquim, do qual se tornou colaborador.
Mudou para Paris em 1978, onde fez seu terceiro ateliê –
deixando o de Joinville e o do Rio de Janeiro (ambos em atividade) – mas antes,
visitou Nova York, Londres, Itália, Dinamarca, Chipre, Israel e Grécia onde
tomou partido dos acontecimentos do universo artístico de cada região.
Ganhou o prêmio da 5ª Bienal de Arte da Itália, prêmio
Cenários em Televisão, o prêmio “Barriga Verde” de Artes Plásticas de Santa
Catarina, o prêmio Nakamori (Japão) pelo melhor livro infantil, entre outros.
Sua cidade natal, deu-lhe o título de Cidadão Honorário em
1982, e o presidente da República concedeu-lhe a Ordem do Mérito de Rio Branco,
em 1990.
Entre os sucessos de suas exposições, sua única reclamação é
sobre o conservadorismo dos museus que, até hoje, não valorizam artistas do
Novo Mundo provocando uma certa ausência de artistas da América do Sul.
Em relação a sua vida pessoal, Juarez Machado é orgulhoso em
afirmar seu forte apego à família. Seus filhos, influenciados pela profissão do
pai, optaram por seguir áreas de comunicação como produção de vídeos, cinema e
TV, computação gráfica e desenhos animados.
No texto “A arte de ser artista”, Juarez Machado conta um
pouco de sua história. Curtam:
O primeiro foi Fritz Alt, o segundo Eugenio Colin, ambos mortos.
Portanto, hoje, sou o mais velho artista joinvilense vivo.
Título que não tem grande valor, também não quero que beijem o meu anel e nem
se ajoelhem para pedir a benção. Apenas me dou o direito de contar uma pequena
história aos jovens artistas de Joinville. Sentindo-se ameaçados, têm medo de
fantasmas e não conseguem dormir. Traumas antigos da história de nosso povo,
colonizados versus colonizadores.
Aprendi vendo isto como uma grande avenida de duas mãos. Os
negros americanos fizeram da música dos brancos – Bach, Mozart, Schubert, e
outros – a melhor música do mundo, o jazz. Na América Central, da música
africana misturada à dança de salão, entre a valsa e minueto, fizeram o melhor
ritmo do mundo, a salsa.
No Brasil, os escravos, com os restos da comida dos brancos,
fizeram o melhor prato do mundo, a feijoada.
Toda avenida também tem contramão. Os ingleses no começo do
século passado vieram ao Brasil trazendo o futebol. Rapidamente aprendemos e
jogamos ainda melhor. Nos tornamos “O País do Futebol”. Hoje perdemos até para
os franceses, vergonha que ainda sinto.
Éramos o País do Café, considerado o melhor do mundo, desde
o século 18. Hoje o mundo toma café no “Starbucks”, americano, com fama de ser
o pior. No período do cacau foi a mesma coisa. Nossa música, a bossa nova, foi
para os Estados Unidos e foi tomada pelos americanos. Os músicos brasileiros
estão procurando suas origens e esqueceram que já tínhamos encontrado a nossa
identidade. Perdemos mais um título.
É vendo os erros e as experiências alheias que se aprende.
Aproveitem a minha disponibilidade que é extremamente passageira. Não vim ao
mundo para impor, mas deixar transparecer.
Na beira dos meus 70 anos, com a cara cheia de rugas,
cabelos ralos, barba branca, porém com todos os dentes numa boca bastante
afiada, digo a frase inicial:
– A vida é um grande espetáculo, cheia de surpresas e muitas
ironias.
Em 1960, lá longe na história de Joinville – e minha também
–, a nossa querida cidade só tinha uma rua principal, uma igreja católica,
outra protestante, dois cinemas, uma sorveteria, um bordel, dois times de
futebol, alguns bares e um só hotel, sem nenhuma estrela. O prédio mais alto da
cidade era a torre do Corpo de Bombeiros, que é nosso orgulho até hoje. Duas
rádios, um jornal...
Ah! sim, ia me esquecendo, um rio Bucarein, bonito e limpo,
com três clubes de regatas, um movimentado porto com navios de bom calado e uma
pequena praia. Três escolas públicas e um único colégio, o Bom Jesus, somente
até a oitava série e nada mais.
Universidade? Ninguém sabia o que era. Museus?... Nem
pensar. Teatro?... Muito menos. Recém-inaugurada, uma biblioteca, e na fachada,
um painel do nosso primeiro artista, Fritz Alt.
Menino, fui um dos primeiros associados para ver figuras,
ler e emprestar livros. Nas prateleiras, não havia um só livro de história da
arte, biografia de artista ou museus do mundo. Nas paredes das casas dos
moradores de Joinville, nenhum quadro. Salvo uma reprodução da “Santa Ceia” de
Michelângelo na sala de jantar e outra reprodução sobre a cama do dono da casa,
“Jesus refletindo solitário no Monte das Oliveiras”, e na cozinha, um
calendário do Laboratório Catarinense com as fotos dos Alpes Suíços.
A cidade era feita apenas de fábricas e operários, e o tempo
era medido pelo apito de cada fábrica. A palavra arte era sinônimo de “peraltice
de criança”. Cultura era confundida com tradição.
Da festa da cerveja com música tirolesa até a quermesse da
igreja nos dias santos, ao som de músicas religiosas e sertanejas no serviço de
autofalantes, nada de mais emocionante acontecia. Tainha no inverno, caranguejo
no verão e goiaba no pé o ano todo, e assim o tempo ia passando.
Os eventos mais próximos da cultura eram a Festa das Flores
uma vez ao ano, nos salões da Sociedade Harmonia-Lyra. Aos domingos a banda do
13° BC (Batalhão de Caçadores), tocando marchas militares e até mesmo algumas músicas
clássicas no coreto da Praça Lauro Müller.
Aos 19 anos, eu já estava de malas prontas para partir em
busca do meu sonho maior... Ser um artista completo. Pintor, escritor, poeta,
escultor, desenhista, ator. Conhecer museus, catedrais e monumentos. Caminhar
por cidades, vilas e países. Conversar com pessoas – amigas, estranhas,
professores, curiosos, poetas, sábios e loucos. Navegar em palácios, castelos e
avenidas. Ir além da linha do horizonte e atravessar mares, rios e montanhas.
Descobrir novos paladares além da torta de banana da padaria
Brunkow. Escutar sons mais melodiosos do que o apito das fábricas. Sentir
refinados perfumes, além do Leite de Rosas que minhas primas usavam. Ser alguém
bem informado e um aluno genial da mais reputada escola de arte do mundo: a
Escola de Florença.
Com uma mala de papelão, uma pasta com alguns desenhos e
oito dinheiros no bolso, em pé, dentro de um ônibus da Cia. Penha, depois de
seis horas de viagem, cheguei em Curitiba. Só tinha feito 120 quilômetros. Para
chegar em Florença, na Itália, ainda faltavam dez mil quilômetros e mais tantos
zeros nos meus oito dinheiros. “Faço uma pequena parada, estou com fome”, pensei.
Na própria rodoviária comi o mais gostoso sanduíche da minha
vida. Pão com duas fatias de sardinha em lata. Jamais esquecerei. Foi a luz do
meu caminho. O Norte da minha bússola. Foi o canto dos anjos. Uma hora depois,
me matriculei na escola de Música e Belas-Artes do Paraná. Paguei adiantado
dois meses por um quarto de pensão de estudantes, com direito a comida e roupa
lavada... et voilà! O começo tinha sido dado.
Por ironia, todos os meus professores tinham sido da Escola
de Florença. Eram italianos ou alemães. Fui o último aluno desta culta geração
de mestres. Muito jovem, feliz, tinha encontrado o meu ambiente, os artistas e
outros jovens que pensavam como eu.
Em Joinville, meus amigos eram filhos de operários ou filhos
dos donos das fábricas. Havia até mesmo uma certa discriminação por eu não
querer ser engenheiro ou médico, e muito menos trabalhar numa fábrica.
Na minha sede de conhecer, estudei, pintei, modelei, fiz
cenário para televisão e teatro, desenhei para jornais e revistas. Fiz minhas
primeiras exposições, ganhei meus primeiros prêmios em salões de arte.
Nas férias, não voltava para Joinville, apesar de ter
deixado uma namorada me esperando que já estava namorando um outro, um
estudante de medicina (que bom para ela). Aproveitava este tempo para viajar.
Ir para o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, centros
urbanos importantes culturalmente. Visitar museus, ir aos teatros, visitar as
oficinas de gravuras em metal e pedra, me deslumbrar na Bienal de São Paulo, fazer
estágios com artistas mais experientes, novas técnicas, novos materiais.
Cinco anos depois, formado pela escola de Música e
Belas-Artes do Paraná, agora, com um jogo de cinco malas em couro negro e
várias pastas e rolos com meus trabalhos, fui morar no Rio.
– Que maravilha!
Começar tudo de novo. Outras amizades: cartunistas,
jornalistas, arquitetos, músicos, diretores de teatro e cinema, escritores.
Todos em Ipanema ditando o novo comportamento de vida para o Brasil inteiro em
plena ditadura militar. Orgulhoso, sentia que como artista eu fazia parte da
história de um novo tempo.
Revolução total. Nas ruas, o Exército confronta com
cassetetes as manifestações dos estudantes e intelectuais. Nas praias euforia
total, revolução sexual, liberação das mulheres, psicanálise, chopinho, Bossa
Nova, rock e muita maconha. Novas ideias, novas informações, novas exposições.
Joinville tinha ficado distante, porém, sempre pensava com
muito amor na minha querida cidade, e se um dia voltaria para abrir uma escola
de arte para os jovens solitários e abandonados artistas.
Em direção oposta, comecei a fazer minhas primeiras viagens
ao exterior. A primeira foi Israel. Conhecer e viver a cultura de um kibutz, a
vida comunitária. De lá parti para Chipre, depois Grécia. Tudo parecia ser um
filme de grandes aventuras de viver.
Cada ano uma nova viagem: Paris, Strasbourg, Londres e Nova
York. Nunca como turista, mas como um sedento vampiro sugando todas estas
culturas para depois digerir dentro de minha formação, meus valores, meus
conceitos e até preconceitos e tentar ampliar os meus limites. Hoje tenho total
certeza que a arte se alimenta da própria arte. Tal qual uma enorme serpente
que começa a comer a ponta de seu rabo até chegar a sua cabeça.
Todos os movimentos artísticos – os gregos, romanos,
etruscos, fenícios, arte africana, oriental, impressionista, dadaísmo, enfim,
todas as correntes de todas as civilizações – , fizeram o corpo desta imensa
cobra, até mesmo a arte contemporânea que já não é mais tão atual. Tudo começou
lá, na pontinha do rabo da tal serpente.
Bem longe na história, um fulano, ainda meio macaco, pintou
com o dedo um bisão nas paredes de pedra de sua caverna. Foi o primeiro pintor,
muralista ou até mesmo o primeiro grafiteiro. A maravilha da vida e da
humanidade é contada por meio da arte. A tarefa do artista é, com talento,
registrá-la.
Continuei a trabalhar, viajar e vampirizar tudo que fosse
possível. Sem mais voltar para minha querida e pequena Joinville do meu tempo
de menino. Agora Florença tinha me ensinado a observar a vida, através de um
microscópio ou telescópio, e fazia parte de minha rota habitual.
Já com quase 50 anos, com apenas uma pequena maleta e uma
imensa bagagem artística/cultural, fui morar definitivo em Paris, terra dos
artistas. E começar tudo de novo.
É muito mais excitante disputar com pessoas maiores do que
você, por que tirar pirulito de criança é covardia. Somente para todos terem
uma ideia, na França estão inscritos no sindicato (la maison des artistes) 50
mil artistas do mundo todo, e todos de alto nível. Sem deixar por menos, mais
trabalho, mais viagens, montei atelieres em Montmartre, depois Veneza, Boston,
e Los Angeles. Hoje faço de três a quatro exposições por ano em várias partes
do mundo. Publico livros, tenho vários colecionadores pelo mundo e sou chamado
respeitosamente de “cher maitre”.
Voltei para Joinville somente alguns anos atrás para pintar
o mural de entrada do Centreventos Cau Hansen, “O Grande Circo”. Qual a minha
grande e agradável surpresa? Joinville tinha mudado, tinha crescido, tinha
ficado culta. Só se falava em arte, ballet, teatro, festivais, artistas,
museus, escolas de arte, me senti muito feliz, Joinville tinha sido salva da
mediocridade.
E eu se tivesse esperado um pouco mais, teria a escola de
Belas-Artes de Florença na minha própria esquina. Não teria sacrificado tanto
minha família e principalmente o menino sonhador e solitário de Joinville.
Fico muito feliz pelos meus caros jovens artistas
joinvilenses.
Parabéns, vocês conseguiram! Não tenham medo de aprender e
conhecer culturas, quanto mais melhor, para depois criarem a sua própria
linguagem. Cada um terá o seu próprio estilo.
Cultura é fundamental, e confesso: “Jamais faria o
transplante do meu coração, caso fosse preciso, com um médico doutor
autodidata.”
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