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quinta-feira, março 05, 2009

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 3


CLIFF, Jimmy
Já houve um tempo em que ele era mais brasileiro do que jamaicano, com direito a mulher e filho na Bahia e o irmão de Pepeu Gomes, Didi, tocando em sua banda. Jimmy Cliff, porém, é um dos poucos astros que podem reclamar para si o título de “embaixador musical da Jamaica”. Foi assim desde a época em que tinha 15 anos e pentelhou o produtor Leslie Kong para gravar uma canção de sua autoria. Antes havia lançado o compacto “Daisy Got Me Crazy”, sem sucesso. A música que mandou financiado por Kong chamava-se “Hurricane Hatie” e foi um dos hits da era do ska.

Anos mais tarde, Cliff mudou-se para Londres, não obteve a repercussão esperada e baixou pela primeira vez no Brasil. O ano era 1968 e ele defendeu a Jamaica no Festival Internacional da Canção cantando “Waterfall”. Voltou à terra natal e interpretou o papel principal de The Harder They Come (Balada Sangrenta), o filme que exportou a cultura rude boy para o mundo inteiro. Ainda gravou belos álbuns de reggae como Give Thankx (puxado pelo hit “The Love I Need”, que virou tema da novela global Água Viva) e o avassalador Give The People What They Want.

Cliff, porém, nunca teve o talento devidamente reconhecido pela massa jamaicana. Seu trabalho foi muitas vezes uma diluição do reggae – o hit “Reggae Night”, por exemplo, é um funkão, composto por La Toya Jackson (ela mesma!) e gravado com o Kool & The Gang. A canção, contudo, foi uma das mais tocadas na Jamaica, em 1983.

É mais provável que o preconceito religioso (Cliff é muçulmano) na ilha tenha perseguido o artista. No livro Reggae: Música e Cultura da Jamaica, o jornalista inglês Stephen Davis afirma que rastas cuspiam nos palcos em que Cliff tocava. Mas, queiram ou não, Jimmy Cliff ainda é o principal artista jamaicano depois de Bob Marley.

COCOA TEA
Ele é um produto do dancehall, a inovação sonora que tomou conta da Jamaica nos anos 80. Mas Cocoa Tea preserva a mensagem antes de tudo. Rastafari convicto, ele transforma seus shows em pregações, mandando mensagens contra a Babilônia e sempre louvando o nome de Bob Marley. Ao mesmo tempo, é um romântico incurável (como mostra “One Woman Show”, faixa de seu belo CD Rikker’s Island). Ele também sabe combinar como poucos a doçura da voz com o punch verbal de DJ. Fez duetos campeões com Shabba Ranks (“Pirates Anthem”) e Cutty Ranks (“Champion Of The World”).

CULTURE
Este grupo se resume a duas palavras: Joseph Hill. Ex-motorista de ônibus, rastaman, poeta, maluco e cantor de voz anasalada, ele até hoje manda e desmanda no Culture. O grupo surgiu em meio ao boom rastafari dos anos 70 com a canção “Two Sevens Clash”, que previa o fim do mundo em 1977. Os rastas compraram o disco, esperaram pelo Armagedon e nenhuma tragédia aconteceu. E o Culture segue firme e forte, lançando discos com firmes mensagens rastafari.

DANCEHALL
O ritmo que colocou a Jamaica no futuro surgiu na segunda metade dos anos 80, apesar de o nome ser um velho conhecido dos jamaicanos – desde a década de 60, ele era usado para definir as festanças dançantes. O responsável pelo surgimento do dancehall chama-se King Jammy. Ao fazer experimentos com seu tecladinho Casio em 1985, ele criou uma nova batida eletrônica.

Jammy batizou a descoberta de sleng teng e chamou o cantor Wayne Smith para improvisar em cima do novo groove. Nascia então “Under Mi Sleng Teng”, canção-tema do dancehall.

O ritmo, porém, custou a pegar. Os jamaicanos torceram o nariz para a nova criação. O dancehall foi ter seu devido reconhecimento apenas quando o cantor Tenor Saw soltou nas paradas “Ring The Alarm”, canção em cima da base instrumental “Stalag 17” que metia a boca na violência do gueto. O dancehall passou a ser adotado por todos os produtores da ilha. Até mesmo Sly & Robbie, a melhor seção rítmica do planeta, não dispensam um bom ritmo eletrônico. “É mais barato, rápido e higiênico”, defendem.

O gênero, porém, trouxe uma certa banalização para a música jamaicana. A falta de imaginação impera: basta surgir uma nova batida e ela será exaustivamente seguida pelos outros artistas da Jamaica. Há também uma identificação perigosa com a boca-suja e a glorificação da violência por parte de alguns DJs. Muitos veteranos – Bunny Wailer, por exemplo – acham que o novo gênero é responsável pela decadência das letras de reggae e que, graças ao dancehall, a garotada repudia a filosofia rastafari e prefere falar de armas, violência e mulheres. Essa segunda bronca se mostrou uma grande bobagem: astros que só falavam em sacanagem e bandidagem acabaram se convertendo à fé rasta. E hoje não são poucos os bambas da velha geração que usam e abusam da eletrônica em seus discos – o próprio Bunny Wailer já se rendeu à sleng teng.

DJs
Os DJs eram os animadores de público nos sound systems, espécie de discotecas ambulantes que dominaram a Jamaica nos anos 50 e 60. Cabia a eles a tarefa não deixar o pique cair e colocar discos para tocar, como disc-jóqueis tradicionais. Com o passar dos anos, a comunicação com o público e o uso do microfone se tornaram mais importantes do que a própria seleção musical das festas.

Eles faziam o que se chama de talk over, ou seja, pegavam a base instrumental das músicas e davam seus recados. Foi assim que surgiram nomes como U-Roy (considerado por alguns o pai da criança – versão historicamente contestada), Prince Jazzbo e I-Roy. Através dos microfones eles faziam declarações de amor, trocavam provocações (é histórica a briga entre Jazzbo e I-Roy), faziam bravatas e mandavam mensagens de paz. Com a popularização do rastafarianismo, no final dos anos 60, os DJs passaram a fazer comentários sócio-políticos. Exemplo: Big Youth, de tanto alertar a população jamaicana, ganhou o apelido de O Gleaner Humano – uma alusão ao Daily Gleaner, o jornal mais importante da ilha.

A cultura DJ foi exportada para os EUA ainda nos anos 70, por meio do jamaicano Clive Campbell (DJ Kool Herc). Os habitantes dos guetos americanos assimilaram a novidade, que originou o hip hop. O talk over, portanto, é pai do rap.

O estilo mais sério dos DJs balançou a partir de 1979, com a ascensão de Yellowman. Os temas passaram a variar entre sexo (obsessão de Yellowman, em seus primeiro discos, e de Eek-A-Mouse), sátiras (especialidade do DJ que adotou como pseudônimo Charlie Chaplin). Esses reis do palavreado tornaram-se superstars na década de 90, quando nomes mais sacanas e mais grosseiros como Shabba Ranks, Ninja Man e Tiger assumiram os microfones. Hoje, muito mais do que qualquer astro de trancinhas, os DJs são os grandes ídolos, os verdadeiros senhores da música jamaicana.

DONALDSON, Eric
Ele é o autor de “Cherry Oh Baby”, reggae manhoso que ganhou o mundo em 1976, na interpretação dos Rolling Stones. Eric Donaldson integrava um grupo vocal chamado West Indians e ganhou notoriedade ao sagrar-se vencedor de um concurso de calouros - a música campeã era “Cherry Oh Baby”. Iniciou então uma carreira solo de altos e baixos que mantém até hoje. O seu melhor momento foi nos anos 70, quando tinha à disposição músicos do quilate de Cat Coore e Ibo Cooper (do Third World) e o percussionista Denzil Laing. No Maranhão, Donaldson é tratado como rei: fez diversos shows na terrinha e em 1997 animou o carnaval rasta da cidade.

DRUM’N’BASS
Denominação politicamente correta para o jungle, ritmo que invadiu a Inglaterra na segunda metade dos anos 90. O gênero se caracteriza por batidas loucas de acid house com baixo de reggae e vocal raggamuffin. Emergiu em raves e rádios piratas inglesas. Um dos primeiros astros a tirar o jungle do gueto foi o indiano UK Apache (não confundir com Apache Indian), que em 1983 estourou na Grã-Bretanha com “Gangsta Kid”.

No ano seguinte, DJs (que, para os ingleses, são os caras que ficam nas pick-ups) como Grooverider já promoviam raves nababescas na Brixton Academy. General Levy, então um mediano artista de raggamuffin, comandou a invasão jungle no carnaval de Notting Hill – o mesmo palco santo onde o Aswad gravou o LP Live And Direct. Hoje o jungle prefere ser chamado de drum’n’bass. Os vocais ragga foram preteridos por sons mais espaciais (vide LTJ Bukem) e até mesmo flertes com formatos eruditos ou progressivóides (Goldie e as pirações do disco Timeless, de 1995). Mas as conexões com a Jamaica não foram rompidas. “O jungle é um orgulho britânico, mais uma dos múltiplos derivados do reggae”, exulta Tony Gad, baixista do veterano grupo Aswad.

DEKKER, Desmond
Um dos primeiros candidatos a superstar internacional na Jamaica, Dekker (nome verdadeiro: Desmond Dacres) nasceu em Kingston, no ano de 1943. Veio de uma família musical (seu irmão, George, cantou nos Pioneers; a irmã, Pauline, gravou vários duetos com outros canários) e aos 19 anos de idade iniciou uma duradoura colaboração com o produtor Leslie Kong.

Estourou “Honour Your Mother And Father”, hit nos bailes, e o que veio em seguida faz parte da própria história da canção jamaicana. Desmond se juntou ao grupo vocal The Aces e juntos emplacaram canções como “007 (Shanty Town)”, que narrava a vida dura dos bairros de lata de Kingston, e o clássico “Israelites”. A canção foi composta em 1968 e rendeu ao cantor destaque na parada inglesa e turnê de sucesso no Reino Unido.

Em 1971, Leslie Kong morreu de forma misteriosa (dizem que foi praga dos Wailers) e Dekker perdeu o rumo. Hoje é mais lembrado por um ou outro vexame (chegou até mesmo a ser preso por dirigir embriagado) do que por ter sido um dos primeiros talentos natos a prenunciar a explosão mundial da música jamaicana.

DODD, Clement “Sir Coxsone”
Nos anos 50, a música da Jamaica vivia de compactos de R&B contrabandeados dos EUA. O sujeito que tivesse as bolachas mais raras abria um sound-system (espécie de discoteca a céu aberto), colocava o povo para dançar e fazia a vida. Clement Dodd foi um desses sortudos, mas teve visão suficiente para sobreviver além das discotecas. Abriu no ano de 1962 o Studio One, lendário celeiro de talentos do reggae.

Lee Perry foi técnico de som do lugar, os Skatalites eram “a banda da casa” e, entre os talentos que passaram pelo local, estão Bob Marley & The Wailers, Dennis Brown, Burning Spear e Mighty Diamonds. Se por um lado foi um visionário, por outro Dodd possuía todos os vícios dos “donos da música” da época: pagava tostões a seus contratados, roubava canções (Bob Andy perdeu as contas das co-autorias que deu ao empresário) e desconhecia toda e qualquer lei de direito autoral. Atualmente Coxsone Dodd mora em Nova York e o Studio One é apenas uma boa lembrança para os eternos veteranos do chacundum jamaicano.

DREADLOCKS
As chamadas “tranças horríveis” (na opinião preconceituosa dos anos 60) são um dos pilares do rastafarianismo. Para muitos, os dreads funcionam como uma antena que capta boas vibrações.

DREADZONE
Grupo formado por três ex-integrantes do Big Audio Dynamite (o baterista Greg Roberts, o tecladista Tim Brand e o baixista Leo Williams) que aposta nos efeitos psicodélicos e inebriantes do dub, adicionando à sua música efeitos tirados de filmes B, baixos cavalares e ruídos produzidos em estúdio. Demonstra conhecimento da história do reggae, mas aponta para o futuro: seu mais recente CD, Biological Radio, inclui uma versão ano 2000 para “Ali Baba”, do veterano John Holt.

DRUMMOND, Don
O primeiro gênio trágico da música jamaicana. Trombonista de formação clássica, Drummond foi um dos criadores do ska, junto com o guitarrista Ernest Ranglin. Foi também um dos primeiros músicos locais a aderir à filosofia rastafari – que na época não era muito aceita pela comunidade local. Sabia tudo de produção. Com sólida formação jazzística, era somente o “maestro” dos Skatalites até ser chamado por Clement Dodd para trabalhar no Studio One como arranjador. Drummond acabou levando consigo os Skatalites e deixando brilhantes participações em gravações como a de “I Should Have Known Better”, cover dos Beatles, e “Simmer Down”, dos Wailers.

O problema é que, se de gênio e louco todo mundo tem um pouco, Drummond possuía um nível de maluquice um tanto acima da média. Em janeiro de 1964, ele matou a amante – a dançarina Margarita Mahfood – a facadas. Preso e dado como insano, morreu abandonado num sanatório em Kingston.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 4


DUB
A psicodelia em versão reggae. O pai da criança foi Osbourne Ruddock, mais conhecido como King Tubby. Engenheiro de som de Duke Reid, ele comandava versões alternativas dos sucessos da casa, aumentando o volume de baixo e bateria e colocando efeitos especiais como ruídos e vozes. Mais tarde, a receita foi seguida e ampliada por Lee Perry – que aumentou sua potência psicodélica e viajante.

A princípio o dub era conhecido como “version” e ia direto para os lados “B” dos singles jamaicanos. Hoje é apreciado como prato principal. Existem artistas e discos essencialmente dedicados ao gênero – Dreadzone, Mad Professor – e o gênero já foi apontado como música do futuro. Em seu livro The Neuromancer, o escritor William Gibson descreve um futuro em que a ganja e o dub são largamente consumidos.

DUBE, Lucky
Ator de filmes de terror e cantor de música zulu, em 1985 este sul-africano mandou às favas a relativa fama que possuía e lançou Rastas Never Die, em busca do sonho de ser uma espécie de Peter Tosh do seu continente. O sucesso, porém, só ocorreu em 1989, com o CD Slave. As rádios locais, ainda impregnadas pelo apartheid, baniram as canções de Dube de sua programação, mas não impediram a ascensão do cantor.

Lucky tem um registro vocal que lembra muito o de Peter Tosh. Sua popularidade chegou até a Jamaica, onde ele estreou com sucesso em 1991. No Reggae Sunsplash daquele ano, encantou a massa – que, em êxtase, pediu bis, fato inédito na história do festival. É um dos artistas mais admirados pelos fãs de roots reggae, seja na África do Sul, Jamaica ou Brasil – onde tocou em 1996, no Ruffles Reggae.

DILLINGER
DJ rasta, estourou na Jamaica com “CD200” – uma homenagem à moto de sua preferência. Seu maior hit é o hino anti-drogas “Cocaine In My Brain”.

ELLIS, Alton
Um dos meninos de ouro de Duke Reid, rival de Coxsone Dodd nos sound systems, ele foi o grande ídolo da era do rock steady (pré-reggae). The king of rock steady soul, como era chamado, goza de enorme prestígio: o jornalista Roger Steffens, uma das maiores autoridades do mundo em reggae, diz que só Bob Marley está acima de Alton Ellis. Ele começou cantando calypso, tango e cha cha cha na dupla Alton & Eddie. Quando partiu para a carreira solo, iniciou o período do rock steady. A voz doce de Ellis embalou sucessos como “Ain’t That Lovin’ You” (mais tarde regravada por Dennis Brown), “Girl I’ve Got A Date” e “Black Man, White Man”. Com o declínio do rock steady, ele nunca mais recuperou sua popularidade, mas ainda brilha em festivais.

EEK-A-MOUSE
DJ jamaicano que viveu sua melhor fase nos anos 70 e levava a ladainha para o lado mais satírico. Como “Wa-Do-Dem”, um chaveco bem-sucedido.

ETHIOPIANS, The
Trio formado por Leonard “Sparrow” Dillon, Stephen Taylor e Aston Morris. Gravaram nos domínios de Coxsone Dodd, Duke Reid e tiveram como backing Peter Tosh e Bunny Wailer.

FRANKIE PAUL
Os jamaicanos chamam Frankie Paul de “Stevie Wonder da Jamaica”. Principalmente pelos vocais suaves e melodiosos (perto do alto padrão Motown) e pelo fato de o padrinho artístico de Paul ter sido o próprio Stevie Wonder. Quando visitou a Jamaica nos anos 70, o soulman americano engatou um dueto com seu pupilo numa escola para cegos mantida pelo Exército da Salvação. Frankie Paul iniciou a carreira musical em 1983 e trabalhou com os maiores produtores da ilha: Junjo Lawes (que produziu “Pass The Tu Sheng Peng”), Prince Jazzbo e Mad Professor.

GANJA
Maconha, na linguagem patois.

GOMES, Édson
Eis um exemplo vivo da conexão Jamaica-Bahia. Nascido em Cachoeira, a 110 quilômetros de Salvador, Édson é seguidor do roots reggae. Suas letras têm sempre mensagens de cunho social e religioso, falam em Babilônia e no deus Jah. O primeiro disco que lançou foi Reggae Resistência, em 1988. Na ativa até hoje, ele faz shows celebrados, a maioria no Nordeste, e seus discos têm vendagem considerável (coisa de mais de 100 mil cópias). Jah explica.

GERMAIN, Donovan
Produtor e dono do selo Penthouse. Germain iniciou sua carreira com Good Things Going (1981), álbum do cantor Sugar Minott que, incrivelmente, foi lançado aqui no Brasil. Hoje seu trabalho está intimamente ligado ao dancehall: Germain é padrinho artístico de Buju Banton e produz outros talentos do selo, como o cantor Wayne Wonder (soulman de voz adocicada).

GIBBS, Joe
Produtor, ajudou a moldar a cara do reggae nos anos 70. Entre seus contratados estavam Dennis Brown (a primeira versão de “Money In My Pocket”) e Peter Tosh (“Maga Dog”). Entrou em decadência nos anos 80.

GLADIATORS, The
Trio vocal jamaicano comandado pelo anasalado vocalista Albert Griffiths. Maior sucesso: “Look Is Deceiving”.

HALF PINT
Cantor de voz suave, identificado com a era do dancehall. Seu maior sucesso é “Greetings” (1986), emplacado com o produtor George Phang. O cantor também deu de lambuja uma canção para os Rolling Stones, fãs confessos da música jamaicana. Sua “Winsome” virou “Too Rude” no álbum Dirty Work (1986), do grupo inglês.

HAMMOND, Beres
Os espectadores do festival Sumfest de 1994 viram: Beres Hammond estava no palco, se derramando em paixão; soltava gracejos para a mulherada da platéia VIP e mandava um sorriso Colgate da melhor tradição do donjuanismo. De repente, um míssil voa da platéia: era uma calcinha vinda de fã mais ardorosa. Beres sorriu e mandou a menina pegar o presente no backstage.

Situações como essa fazem parte da rotina de Beres Hammond. Nascido em Anotto Bay, província de St. Mary, ele iniciou a carreira influenciado pelos trinados mágicos de Sam Cooke e Otis Redding. No ano de 1975, assumiu os vocais principais do grupo de reggae Zap Pow. Mas em 1976 já estava saltitando solo e gravando o disco Soul Reggae. A partir daí, o sucesso sorriu para Hammond.

Ele soltou “Putting Up Resistance”, clássico moderno no estilo “sou um jamaicano de fibra”; gravou ao lado de Maxi Priest (“How Can We Ease The Pain”) e, acima de tudo, conquistou o coração da mulherada em canções do tipo “She Loves Me Now” e “Tonight’s The Night” (de Rod Stewart).

HEPTONES, The
Grande trio vocal surgido na Jamaica em 1965. Formado por Leroy Sibbles, Earl Morgan e Barry Llewellen, The Heptones estouraram nas paradas com “Fatty Fatty”, uma ode às mulheres cheinhas. Anos mais tarde, devidamente convertidos ao ideal rastafari, emplacaram o clássico “Book Of Rules”, cacete bem mandado na condições sub-humanas em que vivem trabalhadores jamaicanos – o Inner Circle regravou esta canção depois.

Leroy Sibbles foi o primeiro a vislumbrar uma carreira-solo. Saltou da banda nos anos 70, migrou para os EUA, depois, para o Canadá, e hoje está de volta à Jamaica. Morgan e Llewellen reformaram os Heptones algumas vezes e ainda estão na ativa, misturando os clássicos de outrora com versões de Culture Club (“Do You Really Want To Hurt Me”).

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 5


HIGGS, Joe
Se o mundo do reggae tem um injustiçado, ele atende pelo nome de Joe Higgs. Cantor carismático, gente boa e compositor de mão cheia, ele hoje não tem nem 10% da fama que seus pupilos, os Wailers, alcançaram. Os brasileiros que o digam: Higgs passou incógnito por aqui anos atrás e só descolou algumas apresentações no Circo Voador (Rio) e em Curitiba.

Esse canário raro iniciou sua carreira ainda no início dos anos 60. Foi a época da dupla Higgs & Wilson (de Delroy Wilson) que brindava o público com R&B e um arremedo de reggae. A parceria durou até 1964 e depois o cantor foi trabalhar para Coxsone Dodd como professor de canto dos artistas. Higgs ensinou um tal de Bob Marley a usar melhor sua voz de tenor e sugeriu que o então The Wailers se chamasse Bob Marley & The Wailers – para desespero de Peter Tosh.

Ele é também o verdadeiro autor de “Stepping Razor” – surrupiada calhordamente por Tosh no álbum Equal Rights – e compôs uma obra magistral com os Wailers: o álbum Blackman Know Yourself, de 1990.

O seu compacto de 1983, “So It Go”, que chamou a atenção para a precarieadde dos pobres que não tem nenhum protetor nas altas esferas, causou problemas políticos a Higgs com o partido governista da Jamaica obrigando-o a partir para Los Angeles, onde ele viveu no auto-exílio até a morte, em dezembro de 1992, depois de vários meses lutando contra um câncer.

HOLT, John
Assim como Bob Andy, Holt fez parte dos Paragons, um dos grandes grupos vocais da Jamaica. É autor de “The Tide Is High”, canção que o grupo americano Blondie regravou em 1981. Solo, John Holt fez Police In An Helicopter, um dos álbum básicos do reggae, além de ter emplacado hits do quilate de “Wild Fire” – ao lado de Dennis Brown –, “How Could I Leave” e “Ali Baba”.

HARRIOT, Derrick
Em trabalhos solo ou ao lado dos Jiving Juniors, este cantor teve seu período de fama nos anos 60 – mais precisamente no terreno do rock steady. Atualmente ele é dono de uma das lojas de discos mais populares de Kingston.

HUDSON, Keith
Produtor, um dos papas esquecidos do dub. Seu álbum Pick A Dub é uma das bíblias do gênero.

I-TAL
Vital, essencial, fundamental, em patois.

I-THREES
Uma seleção vocal feminina de presença, treinada por ninguém menos que Bob Marley. O rei as convocou ao ver seus dois parceiros (Peter Tosh e Bunny Wailer) debandarem antes das gravações de Natty Dread (1974). As I-Threes são Marcia Griffiths (ex-senhora Bob Andy, considerada a grande dama do canto jamaicano), Judy Mowatt e a patroa Rita Marley, que dava seus trinados numa banda chamada Soulettes. O trio participou de diversos álbuns do rei do reggae e de vez em quando se aventura em turnês e discos, sempre emocionando os admiradores de um belo canto feminino. Recentemente, lançaram um CD só de canções do velho Bob – acreditem, é uma maravilha.

INNER CIRCLE
Kingston, capital da Jamaica, é repleta de tenement yards, terrenos baldios onde os rastas, ortodoxos ou não, se reúnem para fumar um e trocar idéias. Foi num deles que surgiu o Inner Circle, banda crucial do reggae dos anos 70.

Sua formação inclui músicos nobres: os irmãos Roger e Ian Lewis (guitarra e baixo, respectivamente) trabalharam no Studio One e tocaram até na clássica versão de “Cherry Oh Baby”, de Eric Donaldson (regravada depois pelos Rolling Stones). O tecladista Bernard “Touter” Harvey ainda usava calças curtas quando participou do fenomenal disco Live!, de Bob Marley. E o vocalista... Jacob Miller era um monstro. Convertia qualquer servo da Babilônia com sua versão de “Soul Rebel” e tinha nítidas influências de soul music.

A formação clássica do Inner Circle gravou discos como Reggae Thing (lindo!). Em 1980, pouco depois de ter passado quase despercebido pelo Brasil (veio junto com Marley), Miller morreu num desastre de carro e o grupo deu uma parada de seis anos. Voltou acrescido do vocalista Calton Coffie e do baterista Lancelot Hall. O retorno às paradas se deu em 1992, com a balançada “Sweat (A La La La Long)” e no ano seguinte eles fariam uma das (muitas) turnês pelo Brasil.

Em 1995, Coffie foi substituído pelo cantor Kris Bentley. E a paixão do Inner pelos brasileiros continua a toda, com parcerias com Cidade Negra e Akundum.

IRIE
Legal, em patois. Alegria, diversão.

ISAACS, Gregory
Na Jamaica, ele é o equivalente a Roberto Carlos. Cantor de voz mansa e jeitão suave, ele tem o poder de conquistar a mulherada apenas com os "ahn" que derrama entre um verso e outro. A carreira de Isaacs estava definida já na infância. Ele era uma espécie de cantor-prodígio, arrebentando em qualquer show de calouros que aparecesse. Os hits começaram ainda em 1973, quando também lançou o selo African Museum. Vieram “All I Have Is Love”, “Love Is Overdue” e outros mela-calcinhas do canto gregoriano.

Nesse período áureo, engatou parcerias com Sly & Robbie (Soon Forward), trabalhou com o produtor africano Wally Badarou (Night Nurse) e foi um dos astros da gravadora inglesa Virgin. O vício em drogas pesadas (especialmente crack), porém, quase colocou tudo a perder. O Cool Ruler – um de seus vários apelidos – experimentou um período de ostracismo na década de 80 e só foi resgatado por Gussie Clarke, que produziu Rumours (1988).

Gregory ainda está na ativa, mas não provoca o mesmo frisson – hoje esta tarefa está a cargo de DJs mais jovens e abusados. Seus shows rolam num esquema Tim Maia de performance: ele murmura a frase inicial da canção e deixa a galera cuidar do resto. Aliás, em 1991, Mr. Isaacs foi em cana no Maranhão ao tentar fugir sem dar todos shows previstos em contrato e pagos antecipadamente.

ISRAEL VIBRATION
Grupo vocal formado no início dos anos 80, o Israel Vibration tem pelo menos uma curiosidade: seus três integrantes são paralíticos, vítimas de poliomelite. Eles se apresentam ao lado da Roots Radics Band (liderada pelo excepcional baixista Flabba Holt) e suas harmonizações têm “propriedades medicinais”. Embalaram a fisioterapia do percussionista Alvin “Seeco” Patterson – o homem que apresentou a filosofia rasta a Marley – quando ele se recuperava de um derrame cerebral.

I-ROY
DJ e discípulo de U-Roy, ele ficou famoso nos anos 70 ao trocar bravatas com Prince Jazzbo.

JAH
Deus, para os rastas. Ele surge na figura de Hailé Selassié, imperador da Etiópia e tirano de marca maior. Selassié se dizia descendente do rei hebreu Salomão – que “pulou a cerca” com a Rainha de Sabá. O etíope governou o país com mão de ferro até 1975, quando foi deposto e exilado em seu próprio palácio – onde veio a falecer no mesmo ano.

JAMMIN’
Curtindo, se divertindo adoidado, em patois.

JOHNSON, Linton Kwesi
Nascido em 1952, na Jamaica, radicado em Londres e formado em sociologia, ele é o mestre da poesia dub. Respeitado como intelectual e poeta, Linton grava discos (ou livros falados) que são uma verdadeira aula de cultura negra. Seus discos mais famosos são os do final da década de 70 e começo dos anos 80, inspirados nos escritos do erudito negro americano W.E.B. Du Bois.

Linton Johnson compõe “com uma linha de baixo já na cabeça”, e, como bom jornalista (que ele também é), apresenta fatos sobre discriminação racial com sua carismática voz sepulcral. Sempre acompanhado pela Dub Band – cujo destaque é o soberbo baixista Dennis Bovell, que trabalhou no disco de estréia d’O Rappa.

Linton tem laços estreitos com o Brasil. Ele visitou o país em 1994, numa festa do Olodum – o Pelourinho só não foi abaixo por milagre, e também participou de “Navegar Impreciso”, faixa do álbum Severino, dos Paralamas do Sucesso.

JUNIOR GONG
Rebento desgarrado de Bob Marley, fruto da união do rei do reggae com Cindy Breakspeare. Damien – seu nome verdadeiro - iniciou sua carreira no duo Shepherds, uma versão fumacenta de Sandy e Júnior. Hoje Junior Gong usa a verborragia de DJ para mendar mensagens com influências rastafari.

JAH SHAKA
DJ, engenheiro de som, músico... Tem colaborações com do Aswad e emplacou nos terreiros dub o CD Dub Symphony (uma obra-prima).

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 6


KING JAMMY
Ele colocou a Jamaica no futuro. Dono de um dos sound systems mais populares da ilha, Jammy precisava de uma nova batida para acabar com seu concorrente – o Black Scorpio. Criou mais do que isso. Com um tecladinho Casio e um tecladista mediano – Tony Asher, que simplesmente transformou em notas as idéias do chefe –, ele inventou o dancehall, ritmo que domina a Jamaica. A música era “Under Mi Sleng Teng” e foi um dos grooves mais copiados pelos outros produtores da ilha naquele ano.

Assim como Coxsone Dodd nos anos 60 e King Tubby na década de 70, Jammy foi o grande produtor do dancehall. Não apenas por ser o pai da criança, mas também pelo fato de ter os melhores astros da ilha sob contrato. Entre os bambas que cantavam para King Jammy estavam o DJ Pinchers (autor de “Bandolero”, canção que o Skank venera até hoje), Chaka Demus (mais tarde parceiro do cantor Pinchers), Admiral Bailey (sucesso nos terreiros com “Punnany”) e Josey Wayles.

O sound system dessa fera da produção – que está na ativa até hoje – também viu surgir a maior estrela do reggae depois de Marley. Um DJ com voz de lixa e discurso sexista, que tentou em vão uma carreira como DJ Co-Pilot. O nome da fera? Shabba Ranks.

KING TUBBY
Osbourne Ruddock já tem lugar garantido na história por ter inventado o dub. Engenheiro de som de Duke Reid, ele criou este novo gênero musical ao aumentar a potência de baixo e bateria, esmagando os outros instrumentos na mixagem.

Mas King Tubby também se revelou um produtor de mão cheia, ao trabalhar com Augustus Pablo e a dupla Sly & Robbie. Seus trabalhos com dub entortam qualquer usuário de LSD, com baixo e vozes que parecem surgir do nada e uma caixa empapuçada de eco. King Tubby morreu em 1988 de um modo estúpido. Foi baleado por um meliante durante uma discussão de rua.

KONG, Leslie
Jamaicano descendente de chineses, ele tinha todas as qualidades e defeitos que alguém pode ter na indústria fonográfica. Por um lado, lançou e bancou o início da carreira de gente como Jimmy Cliff, Bob Marley e Desmond Dekker. Por outro, trabalhava num esquema sujo de “your ass is mine” (“você me pertence”): pagava uma merreca aos artistas que mantinha sob contrato.

Kong era um simples dono de restaurante até ser convencido por Cliff a lançar um single, “Hurricanne Hattie” (1962). Pouco depois Kong acolheu o então soldador Bob Marley e com ele gravou, pela bagatela de 15 dólares, “Judge Not”.

Em agosto de 1971, quando Bob e seus Wailers já estava trabalhando com Lee Perry, Kong soltou uma coletânea sem pedir autorização. Bunny Wailer foi tirar satisfações com o produtor e, depois de uma acirrada discussão, esbravejou: “Você não vai ter muito tempo de vida para aproveitar nosso dinheiro.”

No dia seguinte, Leslie Kong apareceu morto. A causa mortis era um problema no coração, mas ninguém tira da cabeça dos jamaicanos que o chinês foi para o vinagre graças a uma mandinga do místico Bunny.

KELLY, Pat
Outro rei das radiolas do Maranhão, Pat está identificado com o período do rock steady. Cantou nos Techniques – substituindo Slim Smith – e estourou a canção “I Don’t Care” para o então mecenas Duke Reid.

LEVY, Barrington
Surgido em meio à febre do dancehall, na segunda metade dos anos 80, este jamaicano se destaca por seu estilo original, que mistura cânticos de devoção rastafari com vocalises yodel (aqueles do tiroleite). Barrington é responsável por um dos grandes clássicos do cancioneiro enfumaçado, “Under Mi Sensi”.

O selo americano MCA o contratou em 1994: no mesmo ano saiu Barrington, discão cheio de convidados especiais (entre eles Vernon Reid, do Living Colour) e regravações de singles jamaicanos. A experiência não deu certo – ele está de volta aos selos independentes –, mas o cantor ainda é capaz de causar comoção nos shows que faz na Jamaica.

LODGE, J.C.
Cantora jamaicana, gravou seu primeiro álbum sob a coordenação de Gussie Clarke. O sucesso valeu contrato com o selo americano Tommy Boy, especializado em rap, por onde relançou “Telephone Love” (um reggae tele-sexo que tocou nas noites reggae de São Paulo no começo dos anos 90) e alcançou os primeiros lugares da parada dance americana. Dona de grandes recursos vocais, J.C. varia entre o dancehall e a música romântica, gravando covers bem interessantes (uma delas é “It’s Too Late”, de Carole King). Quem quiser tirar a prova dos nove, basta conferir Love For All Seasons (1996) que junta romantismo e refinamento sob a produção do maestro do dub Mad Professor.

LUCIANO
Ao lado de Garnet Silk (precocemente falecido num incêndio), é um dos grandes expoentes do revival rastafari que domina a Jamaica atualmente. Debutou em 1992 com uma cover de “Ebony And Evory” (de Paul McCartney) e chamou a atenção do veterano cantor Freddie McGregor, que o contratou para seu selo Big Ship Records.

Na época, ainda usava o nome artístico de “Luciana” (por esquisitice mesmo, sem conotações andróginas – impensáveis na machista Jamaica). Sob a batuta de McGregor e dos técnicos do Music Works, de Gussie Clarke (em especial Fatis Burrel), lançou “Shake It Up Tonight”, primeira posição na parada de reggae da Inglaterra.

O acontecimento atiçou os executivos da Island, que o contrataram em 1995. No mesmo ano, soltou Where There Is Life, pedrada rasta produzida por Burrel. O próprio Luciano, porém, quase põe tudo a perder quando, no meio de uma apresentação para a imprensa mundial, anuncia que vai dar um tempo na carreira. A tal paradinha não aconteceu: dois anos depois, ele atacou com Messenger, que traz uma novidade: a faixa “Life”, definida pelo próprio Luciano como “um cruzamento entre samba e salsa.”

LEE, Byron
Baixista e dono de dos Dragonnaires, uma das bandas mais quentes da ilha – que acompanhou até Jimmy Cliff – Byron fez tudo tudo: ska, rock steady, reggae. Atualmente centra forças no calipso e outros ritmos calientes.


MAD PROFESSOR
Neil Fraser é um nome cada vez mais estranho para este produtor nascido na Guiana inglesa e criado na Inglaterra, onde se tornou um dos grandes nomes do dub. O apelido vem dos tempos de escola. “Meus amigos me chamavam de Professor Maluco porque eu preferia ficar brincando num estúdio de gravação a jogar bola”, revela.

A nerdice compensou: Mad estreou no começo dos anos 80, com o álbum Dub Me Crazy, cheio de barulhos espaciais, cortes abruptos de melodia e outras invencionices. Antecipou o cenário drum’n’bass ao lançar “The Heart Of The Jungle” (de 1984) e criou o selo Ariwa, que projetou os talentos Macka B. e Pato Banton.

Também ciscou no terreiro do Massive Attack, a última palavra em dance contemporânea, sendo responsável pelas entortadas dub da banda no álbum No Protection e no single "Risingson".

MAJEK FASHEK
Os africanos o consideram não apenas um dos melhores performers da terrinha, mas um artista visionário e excelente “fazedor de chuvas”. Ele nasceu na Nigéria e se iniciou no mundo artístico tocando kpangolo, uma música tradicional africana cuja sonoridade é bem próxima do reggae.

Fashek, porém, costuma dizer que optou pelo chacundum jamaicano após um sonho místico. E mesmo falando de Jah em suas letras, ele não se considera um adepto da filosofia rastafari. Prefere se autodenominar um “prisioneiro da consciência.”

Ex-integrante da banda Jah Stix, Fashek se lançou como artista-solo em 1988. Foi nessa época que cresceram os boatos de que era “fazedor de chuva”: todos os locais que Fashek tocava eram “visitados” por autênticos pé-d’água. Sua versão para “Redemption Song”, de Bob Marley, e a canção “Send Down The Rain” são os destaques de seu repertório.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 7


MARLEY, Bob
Jamaicano, rasta, herbsman, semideus, gênio musical, excelente compositor, visionário, mulherengo, bom de cama e de briga, companheiro, vidente... Bob Marley é a própria razão do reggae ter se popularizado pelo mundo inteiro.

O gênio nasceu em 6 de fevereiro de 1945, em St. Ann (distrito de Nine Miles, interior da Jamaica), fruto de um fugaz romance entre a jamaicana Cedella Booker e o oficial inglês Norwall Marley. Foi criado pelos avós e aos seis anos de idade “recebeu” o dom da clarividência: por alguns trocados, lia mãos nas feiras da vizinhança. Nessa época ele aprendeu sua primeira canção, um lamento de feirantes para as mulheres que enrolavam muito na hora de comprar as frutas e legumes que iriam levar para casa.

Ainda adolescente, mudou-se para Trenchtown, favela de lata nos arredores de Kingston. Ali, entre guitarras imaginárias e com um pé na bandidagem, montou os Wailing Wailers (depois apenas Wailers). Eram Bob, seu meio-irmão Bunny Livingstone, Beverly Kelso, Junior Braithwaite e Peter Tosh. Os Wailers tiveram a mesma trajetória de vários grupos vocais da época: gravaram singles com Leslie Kong, passaram um tempo sob as bençãos de Coxsone Dodd no Studio One (nessa fase lançaram uma versão magistral de “And I Love Her”, dos Beatles), sem obter o devido reconhecimento.

Bob Marley foi morar com a mãe nos EUA (em Wilmington, Delaware), onde trabalhou como operário. Antes de embarcar, porém, casou-se com Rita Anderson, vocalista das Soulettes. O exílio americano durou sete meses.

De volta à Jamaica, Bob encontrou os amigos enfronhados na filosofia rastafari, que pregava a volta dos negros para a África e ensinava que o imperador etíope Hailé Selassié era a encarnação de Jesus Cristo. Os Wailers também tinham outra proposta sonora. Ao trabalhar com o produtor Lee Perry, descobriram o poder hipnótico do baixo e da bateria na figura dos irmãos Aston “Family Man” e Carlton Barret. De trio vocal que fazia ska e rock steady, os Wailers viraram um autêntico grupo de reggae.

A formação da época era: Bob Marley (guitarra, vocais), Peter Tosh (guitarra e vocais) e Bunny Wailer (percussão e vocais). O grupo então surrupiou a seção rítmica de Perry e, acrescido do tecladista Earl “Wire” Lindo, foi fazer história. Assinou contrato com o selo Island, de Chris Blackwell, e lançou Catch A Fire, marco na história da música jamaicana.

O ano de 1973 nem tinha acabado quando essa turma mandou Burnin’ para as lojas. À essa altura, o grupo havia sido rebatizado de Bob Marley & The Wailers. Ao ouvir Burnin’, Eric Clapton se encantou com “I Shot The Sheriff” e decidiu gravar a canção em 461 Ocean Boulevard. A música foi direto para o primeiro lugar na parada americana.

Peter Tosh e Bunny Wailer saíram antes das gravações de Natty Dread (1974). Marley então reformou a banda com as I-Threes, os guitarristas Earl “Chinna” Smith e Al Anderson, o percussionista Alvin “Seeco” Patterson e o tecladista Bernard “Touter” Harvey. Essa formação invadiu e conquistou o Rainbow Theatre, em Londres. O resultado repousa belo e lampeiro no álbum Live!, gravado no Lyceum Theatre.

Bob Marley passou a ser o primeiro (e até hoje único) superstar originário do Terceiro Mundo. Ganhou uma mansão na zona nobre de Kingston e capas das principais revistas do planeta. Em 1976, porém, sofreu um atentado em sua própria casa: pistoleiros de aluguel atingiram o cantor, o empresário Don Taylor e Rita Marley. Bob se mandou para a Inglaterra a tempo de abençoar o então nascente movimento punk. Lá, homenageou bandas como Sex Pistols e The Clash na canção “Punk Reggae Party”.

A banda que o acompanhava neste single, aliás, era composta por alguns de seus alunos mais aplicados: Stephen “Cat” Coore (guitarra, do Third World), Michael “Ibo” Cooper (teclados, também do Third) e Drummie Zeb (bateria, do Aswad). Foi nessa época que o guitarrista Junior Marvin entrou para os Wailers. Marvin tinha participado de alguns discos de Stevie Winwood pela Island e encheu os olhos de Chris Blackwell. Hoje é o guitarrista quem está à frente dos Wailers tocando o projeto de Marley.

A tão sonhada volta para a África se realizou em 1978. Bob tocou na festa de independência do Zimbábue, que havia recém se libertado do jugo inglês. Um episódio da época dá a exata dimensão dos valores do cantor. O príncipe Charles representou a realeza britânica na cerimônia. Ao saber que Bob estava num avião ao lado do seu, mandou um representante para conversar com o rei do reggae. “O príncipe da Inglaterra faz muita questão de conhecê-lo pessoalmente e pede para que o senhor vá até o avião dele.” A resposta veio de bate-pronto. “Eu sou Bob Marley. Se quiser me conhecer, ELE que venha até o meu avião.”

A África que Bob viu não o satisfez plenamente. Foi nessa época que ele se conscientizou de que Hailé Selassié era um ditador e que as nações africanas ainda sofriam com milenares guerras tribais. Dessa experiência nasceu Survival (1979), o álbum mais político do rei do reggae. Bob pede a união de todos os africanos (“Africa Unite”), reclama dos problemas do mundo (“So Much Trouble In The World”), homenageia o Zimbábue (“Zimbabwe”) e apela para a mobilização do homem africano (“Wake Up And Live”). O atentado sofrido em 1976 – e que era um tabu na vida do cantor – é exorcizado em “Ambush”.

Uprising (1980) foi gravado muito às pressas porque Marley não tinha muito tempo. Nele está um dos grandes clássicos do rei do reggae: a lindíssima, arrepiante “Redemption Song”. “Bad Card” é um recado malcriado ao ex-empresário Don Taylor e “Could You Be Loved” é considerada por muitos como uma precursora do dancehall.

Foi no Velho Mundo que ele sofreu o controverso acidente que lhe custou a vida. Acredite, se quiser: Bob feriu o pé enquanto jogava futebol. O machucado infeccionou e o médico sugeriu que o cantor amputasse o dedão – proposta recusada com base nas confusas crenças rasta. A infecção jamais sarou e, segundo alguns médicos, acabou gerando um tumor que depois originaria câncer cerebral, descoberto três anos depois.

Marley ainda tentou se curar através de quimioterapia, mas não obteve sucesso: morreu em 11 de maio de 1981, depois de ter espalhado pelo planeta inteiro a música jamaicana, o orgulho negro e os valores humanitários de sua poesia.

MARLEY, Julian
Um dos filhos bastardos do rei do reggae, Julian nasceu na Inglaterra. Sua mãe era uma modelo branca que se enrabichou com Bob em 1976. Julian fez seu debut artístico em 1991, durante o Reggae Sunsplash, cantando velhos sucessos de Bob pai. Na mesma época foi morar na Jamaica, onde divide o teto com Ziggy, Stephen, Sharon e Cedella. Em 1997, Julian lançou seu primeiro álbum solo.

MARLEY, Ziggy
O filho mais velho de Bob foi um dos poucos que não nasceu em berço de ouro. Em agosto de 1968, o rei do reggae ainda trampava duro para descolar alguns trocados. David (nome verdadeiro de Ziggy) nasceu sobre um monte de jornais.

Com a morte do pai, em 1981, Ziggy formou os Melody Makers ao lados dos irmãos Steven, Cedella e Sharon – esta, filha de Rita Marley com outro homem. O grupo gravou dois álbuns, mas decolou apenas em 1987, com Conscious Party. Vieram discos corretos como One Bright Day (1989) e ousados como Jahmekya (1991), mas que nunca deram a Ziggy o estrelato.

Pessoalmente, ele não lembra o espírito bom chapa do pai: arrogante, apesar dos bons trabalhos, nunca foi muito respeitado pelo público ortodoxo de reggae da Jamaica.

MCGREGOR, Freddie
Um dos grandes talentos vocais da Jamaica, Freddie iniciou suas atividades como cantor dos Claredonians. Tinha na época sete anos e era chamado de “pequeno Freddie”. Depois de passar uma temporada sob a supervisão de Coxsone Dodd, ele assumiu os vocais principais do Soul Syndicate nos anos 70 e depois trabalhou como produtor.

Freddie foi casado com Judy Mowatt, das I-Threes, e apadrinhou o vocalista Luciano. Dono de um registro vocal próximo aos do soulmen americanos, ele passou a década de 90 revisitando o cancioneiro jamaicano. Seus discos Sings Jamaican Classics Vols. 1, 2 e 3 são básicos em qualquer discoteca reggae.

MEDITATIONS, The
Eles são um dos grandes grupos vocais da Jamaica, ao lado de Wailing Souls e Mighty Diamonds. E um dos poucos a sobreviver à febre de música sacana (as famosas slack songs) que assolou Jamaica na segunda metade dos anos 80. Ansel Cridland, Danforth “Danny” Clarke e Winston Watson costumavam freqüentar os arredores de Kingston e aprenderam as mumunhas do canto de tanto assistir Bob Marley e os Heptones. A princípio a banda se chamava Ansell e The Meditations. Eles assinaram contrato com o músico Ossie Gilbertl depois de interpretarem “Sitting On The Sidewalk”. O ano era 1972.

Em 1976, já como Meditations, lançaram o álbum Message From The Meditations. Dois anos depois o grupo caiu nas graças profanas de Lee Perry e nas bençãos sagradas de Bob Marley – que havia escutado as canções do trio durante seu exílio na Europa. Eles gravaram “Rastaman Live Up” e “Blackman Redemption”. A colaboração com Marley ainda rendeu uma participação do trio no One Love Concert.

Os Meditations sofreram um pequeno racha em 1984, quando Danny e Winston foram morar nos EUA – e deixaram Ansell na Jamaica. A dupla se uniu ao cantor Linval Thompson e lançou No More Friends (título sugestivo).

A formação original se reagrupou em 1990 depois de insistentes pedidos de feras do reggae – entre elas, Jimmy Cliff, que declarou publicamente ser um dos maiores admiradores dos Meditations. A volta foi coroada com a coletânea Deeper Roots (1994) e o trio se encontra na ativa até hoje, brilhando em noites dedicadas a veteranos do chacundum.

MYAL
Uma forma de magia branca (para o bem).

MIGHTY DIAMONDS
Entre os alhos e bugalhos surgidos no reggae nos anos 70, o trio formado por Donald “Tabby” Shaw, Lloyd Ferguson e Fitzroy Simpson foi certamente bom fruto. Com vocais suaves, próximos da soul music americana, eles defenderam como poucos a causa rasta em canções como “Poor Marcus” e o hit “Right Time”. Contratados pela Virgin – que na metade dos anos 60 foi descobrir o que é que a Jamaica tinha –, eles impressionaram uma platéia de convidados: entraram no palco brandindo reluzentes machados.

Os Mighty Diamonds chegaram a gravar disco com produção do veterano de Nova Orleans Allen Touissant (Ice On Fire, de 1977), mas não estouraram nos EUA. Na Jamaica continuaram espalhando hits – entre eles, “Pass The Kutchie”, “passa o baseado” – e inspiração para bandas como The Itals e Israel Vibration. O grupo infanto-juvenil Musical Youth estourou no mundo todo em 1982 com uma versão sanitizada de “Pass The Kutchie”, “Pass The Dutchie”.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 8


MILLER, Jacob
O falecido cantor do Inner Circle construiu uma carreira solo de respeito, ao mesmo tempo em que transformava sua banda num dos bastiões do reggae jamaicano. Entre seus maiores sucessos estão “Shaky Girl” e “Fly Away”. Miller morreu em 1980, pouco depois de ter visitado o Brasil ao lado de Bob Marley. Ele tentava dirigir e chupar cana ao mesmo tempo (sério!) quando o carro que dirigia bateu num poste e o vocalista quebrou o pescoço. Depois da morte de Miller, o Inner nunca mais foi o mesmo.

MINOTT, Sugar
Cantor veterano, compositor, músico e produtor da Jamaica (seu nome verdadeiro é Lincoln Barrington Minott), Sugar tem sido um dos grandes destaques no crescimento do reggae em todo o mundo. Ele se envolveu com música ainda na adolescência, participando de sound systems locais. Logo depois fundou um só seu, o Black Roots.

Em 1966, uniu-se aos cantores Tony Tuff e Derrick Howard e fundou o grupo African Brothers. Na época, só fazia harmonias. O trio gravou para produtores como Coxsone Dodd, Ronny Burke e Ruppie Edwards. Alguns dos sucessos da época foram “Lead Us Father” e “Mistery Of Nature”. Sugar Minott se lançou em carreira solo no ano de 1974. Gravou alguns singles para o Studio One e foi parceiro de John Holt e Ken Boothe.

Sugar continuou a trabalhar com o Studio One até 1979, quando fundou seu próprio selo. Nessa época, adquiriu notoriedade internacional, excursionando pela Inglaterra e pelos EUA. O jeito suave de cantar já conferiu a Sugar o título de “criador do lovers rock” (os ingleses atribuem a ele a invenção do gênero). Principalmente depois do lançamento de Music For Roots Lovers.

Sugar não é apenas bom compositor, mas sabe se dar bem no repertório dos outros. Regravou “Walk On By” (de Burt Bacharach), “Never My Love” (do Association) e “Good Things Going” (do Jackson Five, que alcançou o segundo lugar na parada britânica). Ele também descobriu o grupo de reggae juvenil Musical Youth. O estouro do dancehall na década de 80 trouxe Sugar trabalhando com Sly & Robbie, Donovan Germain, Bobby Digital e Tappa Zukie. Em 1997, ele lançou três CDs pelo selo independente Hamma Records.

MOSES, Pablo
Pablo Henry nasceu em Manchester (a da Jamaica) e se tornou um conceituado artista nos anos 80, ainda que ignorado por boa parte do público. Ele iniciou carreira como um dos vocalistas dos Canaries, grupo que se desdobrava em shows de calouros e harmonias vocais para cantores do Studio One. Em 1975, inspirado no seriado de TV Kung-Fu, escreveu seu primeiro grande sucesso: “I Man A Grasshopper”, canção que contava a história de um ex-policial alcoólatra que decide virar cantor. Moses então estudou na Jamaica School Of Music e participou de um show de televisão muito popular na ilha. Ele se voltou definitivamente para o reggae em 1980, com o álbum A Song. Com participações do fino do chacundum jamaicano e inglês, o álbum é considerado um dos clássicos do reggae moderno. Pablo é figura constante em festivais dedicados ao gênero, mas nunca decolou como merecia.

MUNDELL, Hugh
O cantor jamaicano é conhecido pelo clássico “Africa Must Be Free”, belo protesto contra os desmandos do governo racista da África do Sul. Pena que Mundell não tenha vivido o suficiente para ver o país liberto da minoria branca. Ele morreu ainda nos anos 80, durante um tiroteio.

MURVIN, Junior
Espécie de “Curtis Mayfield” do período rastafari, ele entrou para a história em meados da década de 70 com um álbum genial, Police & Thieves. A faixa-título, relato dos conflitos entre a polícia e a galera de tranças, virou hino dos punks ingleses regravada pelo Clash. Murvin era um dos cantores prediletos de Bob Marley.

MUTABARUKA
Um dos mestres da poesia dub jamaicana. Mutabaruka se iniciou no reggae nos anos 80, pelo selo de Bob Marley (Tuff Gong). Seus shows são uma verdadeira celebração da crença rastafari. Com pés descalços, sem camisa e com uma mecha branca adornando as tranças, Muta – como é conhecido – entretém o povo contando histórias sobre racismo e recitando poemas, sempre acompanhado pelas melhores bandas da ilha. Ele também é dono de um restaurante e de uma descolada lojinha de CDs em Kingston, onde se pode comer a melhor I-Tal food e curtir os bambas do reggae da Jamaica, da África e da Europa. Além disso, comanda um talk show numa rádio jamaicana.

MELODIANS, The
O trio vocal é responsável por “Rivers Of Babylon”, da trilha de The Harder They Come, o filme que mostrou o reggae para o mundo. Eles surgiram nos anos 60 e gravaram com todos os grandes produtores da ilha – leia-se Duke Reid, Leslie Kong etc. Os Melodians também são autores de “Sweet Sensation”, canção coverizada pelo UB-40 em seu disco The Labour Of Love.

MORGAN, Derrick
Ele ficou conhecido – injustamente, diga-se – como o homem que NÃO descobriu Bob Marley. Derrick era um caça-talentos do selo de Leslie Kong e recusou o rei do reggae apenas porque ele faltou no dia da seleção. Morgan, porém, foi um dos destaques na ascensão do ska, tendo estourado a canção “Forward March”. Ainda hoje participa de festivais do gênero.

NAGAH
Termo pejorativo para negro.

NASH
Vagina, na linguagem patois.

NASH, JOHNNY
Ele seria apenas mais um cantor americano de soul music. Só que Johnny Nash, nascido no Texas em 1940, foi o primeiro astro a descobrir o potencial do reggae jamaicano. E nos anos 60 se mandou para a ilha, onde formou os selos Joda e Jada. Nash contratou Bob Marley como compositor (e graças ao rei do reggae encheu as tripas de dinheiro com “Stir It Up” e “Guava Jelly”) e emplacou o reggae na parada mainstream. “I Can See Clearly Now” foi primeirona nos charts americanos, em 1973.

NINJA MAN
O homem que trocou seus dentes podres por diamantes; o raivoso que incitava a massa com mensagens pacificistas como “Murder Them” ("Mateos”) e “My Weapon” (“Minha Arma”); o descontrolado que ameaçou pegar Shabba Ranks de porrada durante uma edição do Sunsplash (Shabba, morto de cagaço, desceu no local de helicóptero); o marginal preso às vésperas de um show no Sunsplash por envolvimento com tráfico de armas (fez um “show intimista” para o FBI). Tudo isso faz parte do passado. Ninja se converteu ao cristianismo e atende pelo nome de Brother Desmond. Uma mudança curiosa para quem sacudiu a Jamaica nos anos 90 com discursos pró-violência e atitudes pouco amistosas. Na parte musical, fica a lembrança de um dos DJs mais criativos da história. Ninja sabia mexer com ritmos eletrônicos (um de seus fãs é Marcos Suzano, fera brasileira da percussão) e um palavreado que deixava Buju, Pato e outros bantons comendo poeira.

OBEAH
“Ciência” tradicional africana, relacionada aos problemas do espírito, maldições e adivinhações.

OKOSUNS, Sonny
Ao lado de Majek Fashek, é um dos destaques do reggae produzido na Nigéria. Ex-roqueiro, o cantor se converteu ao reggae na década de 70 e até agora lançou 16 discos. Seu melhor trabalho é Black Star Line (1973), coletânea que apresenta Okosun cantando em inglês e na língua nigeriana ishan.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 9


PABLO, Augustus
Trabalho de sopro era com ele mesmo. Horace Swaby, conhecido nas quebradas de Kingston como Augustus Pablo, era um dos reis da escaleta – uma espécie de teclado Hering que funciona como instrumento de sopro.

Augustus começou como pianista, mas logo se bandeou para a escaleta querida. Trabalhou com produtores como King Tubby e Lee Perry; tocou nas produções iniciais dos Wailers e gravou discos dos mais originais na história do dub. Quem duvidar, que ouça a pérola King Tubby Meets Rockers In A Fire House.

Quando não estava queimando ervas sagradas ou tocando sua loja de discos em Kingston, Augustus ainda dava uma mãozinha para alguns modernos ingleses. Participou, inclusive, de um CD do Primal Scream, Vanishing Point.

O instrumentista vivia tranquilamente com sua família em uma casa nas colinas próximas a Kingston até ser acometido por um mal raro e incurável (miastenia gravis), que afetou o seu sistema nervoso central a ponto de ele não conseguir mais reconhecer as pessoas, vindo a falecer no dia 18 de maio de 1999. Estava com 45 anos.

A importância de Augustus Pablo para a evolução do reggae talvez nunca venha ser devidamente reconhecida, mas o seu legado felizmente continuará a embalar as nossas noites e nos inspirar com suas melodias inconfundivelmente belas. É só escutar a escaleta dele na clássica “Sun is shinning”, do mestre Bob Marley.

PARALAMAS DO SUCESSO
Os Paralamas foram fundamentais para o nosso chacundum. Mexem com o ritmo desde o primeiro disco, Cinema Mudo (1983), e popularizaram o ska no segundo álbum, O Passo do Lui (1984). A partir de Selvagem? (1986), inauguraram a era da fusão do reggae com a música brasileira. O álbum tinha dub (“Teerã Dub”), canções na linha de Yellowman (“Marinheiro”) e influências de Black Uhuru (a faixa-título). Com Selvagem?, o reggae brazuca – antes tangenciado por Jards Macalé, Gilberto Gil, Baby Consuelo e Myriam Rios (sim, ela mesmo!) – virou coisa séria.

PATRA
A DJ se vangloria de fazer letras chamando os homens na chincha (“um homem não é macho se não der duro na cama”, professa “Worker Man”) e se define como “uma máquina de fazer sexo”. Participou de algumas coletâneas (como Lady P) até cair nas graças do produtor Bobby Digital – o mesmo de Shabba. Seu primeiro álbum, Queen Of The Pack, foi lançado em 1993. A fama – ainda relativa – chegou apenas com Scent Of Atraction (1995). Seu grande hit é uma cover de “Pull Up To The Bumper”, de Grace Jones, com a seção rítmica da gravação original (Sly & Robbie). Patra cantou em “Realidade Virtual”, faixa de O Erê, do Cidade Negra.

PERRY, Lee
Este ficou com certeza Maluco Beleza. E entrou para a história da música jamaicana como o homem que inventou o reggae, apresentou o caminho da erva a Bob Marley e produziu alguns dos discos mais sensacionais dos anos 70.

Perry iniciou como DJ do sound system de Coxsone Dodd. Anos mais tarde, montou seu próprio estúdio, onde produziu os Wailers e outros candidatos a superstar do reggae.

O dono da Island, Chris Blackwell, cresceu os olhos para cima do trabalho de Perry e o trouxe para sua gravadora. O maluco ganhou um estúdio - o Black Ark - onde trabalhou em discos básicos como War In A Babylon (do vocalista Max Romeo) e Police & Thieves (Junior Murvin).

Amante da birita e de doses regulares de ganja, Perry surtou: tacou fogo no estúdio por conta das “más vibrações” que estariam tomando conta da Jamaica. Mesmo assim, não parou de produzir desde então. Fez trabalhos para The Clash, foi saudado por Adrian Sherwood, dono do selo On-U-Sound (um dos mais respeitados do reggae inglês), e, ao lado da banda Dub Syndicate, lançou as obras-primas Time Bomb X The Devil Dead e From The Secret Laboratory.

Lee mora atualmente na Suíça, onde foge dos credores e fatura uma grana soltando discos piratas de Bob Marley. Participou do Tibetan Freedom Concert, foi capa da revista Grand Royal, dos Beastie Boys, e é cada vez mais cultuado. “Out Of Space”, do Prodigy, chupa descaradamente sua “Chase The Devil”.

PRIEST, Maxi
Ele tem sangue bom nas veias. É primo (distante) de Jacob Miller, a alma do Inner Circle e um dos melhores amigos de Bob Marley. Inicialmente seguia a profissão de disc-jóquei (daqueles que berram “vamos lá galera” entre uma e outra pedrada reggae). Assinou contrato com o selo independente Ten Records, foi subindo, subindo e está até hoje na crista do reggae. Muito do seu sucesso se deve às parcerias, que escolhe a dedo. Maxi trabalhou com o Aswad (Intentions), aproveitou as batidas do Soul II Soul (em Bonafide) e pede toques e grooves a Sly & Robbie (nos discos Maxi e Fe Real).

PRINCE BUSTER
Cecil Bustamante Cambpell foi um dos primeiros superstars locais da Jamaica. Seus singles eram hilariantes e sexistas. Influenciaram várias gerações de astros (Shaggy que o diga: virou milionário ao regravar “Oh Carolina”, sucesso de Buster). Ex-lutador de boxe, PB se iniciou no mundo do reggae ao trabalhar como segurança de Coxsone Dodd. Depois montou seu próprio sound system, seguido por um selo. Nos anos 70, Buster lançou artistas como Dennis Brown e John Holt.

PUNAANI OU PUNNI
Vagina, tema das slack songs jamaicanas.

PRINCE FAR-I
DJ de inclinações rasta, Prince teve um bom nível de popularidade na década de 70. Graças à qualidade de sua prosa, sempre citando a Bíblia e o Apocalipse. Depois, migrou-se para Londres, onde sua voz grave encantou o minigênio Adrian Sherwood (do selo On-U-Sound). Prince Far-I morreu assassinado na cama no final dos anos 80.

PARAGONS, The
No princípio eles eram The Binders e sua formação incluía Bob Andy, Junior Menz, Tyrone Evans e Leroy Stamp. Em 1964, Stamp foi substituído por John Holt. O grupo então virou Paragons e gravou singles preciosos sob o comando de Coxsone Dodd e Duke Reid. Depois, Andy voou solo e Menz se mandou para os Techniques, deixando a vaga nas mãos – e gogó – de Howard Barrett. No ano de 1968, o trio se dissolveu.

PIONEERS, The
Autores de “Long Shot Kick De Bucket”, canção que alcançou os primeiros lugares da parada inglesa. Seu line up mais famoso incluía Sidney Crooks, Jackie Robinson e George Dekker. Depois de trabalhar com Duke Reid e com o produtor Joe Gibbs, a banda se dispersou em 1973.

PYAKA
Desonesto.

RANGLIN, Ernest
Falar de Ranglin é se lembrar do legendário Mário Américo, ex-massagista da seleção brasileira, e sua frase imortal: “Com essas mão, já massageei muitos craque.” Boa parte da história da música jamaicana passou pelos dedos ágeis deste guitarrista sessentão. De formação jazzística, Ernest criou o molejo do ska ao lado de Don Drummond, fez parte de uma das várias formações do Skatalites e trabalhou como session man do Studio One. Com o fim da época áurea do ska, ainda nos anos 60, ele voltou-se para sua grande paixão – o jazz. Tocou em diversos festivais do gênero e recentemente tem lançado discos com versões jazzísticas para sucessos como “Satta Massagana” (dos Abyssinians) e “54-46 (That’s My Number)” (de Toots & The Maytals).

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 10


RANKS, Shabba
Ele saiu dos guetos malcheirosos de Trenchtown para se tornar a grande promessa do reggae dos anos 90. Rexton Rawlston Fernando Gordon era um admirador do veterano Josey Wales quando iniciou na profissão de DJ, inicialmente com o apelido DJ Co-Pilot. O nome não decolou e ele adotou o codinome de Shabba Ranks em homenagem à Rainha de Sabá.

Shabba virou uma sensação na Jamaica fazendo o que todo mundo faz e gosta - sexo, sexo, sexo. Dizia que era um “malvado na cama” (“Wicked In Bed”), que resolvia a carência da mulherada toda (“Mr Loverman”), que fazia e acontecia.

O sucesso na Jamaica o catapultou para um contrato multimilionário com a Sony Music. E Shabba continuou com sua prosa lascada em discos como As Raw As Ever e X-Tra Naked. Só caiu em desgraça ao comentar, num programa de auditório, que “os homossexuais deviam ser apedrejados até a morte.” A turma do politicamente correto crucificou o jamaicano e, desde então, ele tem dado poucos sinais de que conseguirá recuperar o prestígio que possuía.

RAPPA, O
Surgiu em 1993, como banda de apoio do astro de reggae-baba Papa Winnie. Na época eles se chamavam Conexão Xangô e a formação era a seguinte: Marcelo Yuka (bateria, ex-KMD5 – o atual Negril), Nelson Meirelles (baixo, produtor do Cidade Negra), Xandão (guitarra) e Marcelo Lobato (teclados). O vocalista Falcão chegou tempos depois.

Rebatizado como O Rappa, o grupo assinou contrato com a WEA em 1993 e soltou seu CD de estréia no ano seguinte. O trabalho foi mixado por Dennis Bovell, lendário expert em dub.

Rappa Mundi, o trabalho seguinte, tem uma produção mais pop (a cargo de Liminha, o mesmo de Cidade Negra e Titãs). Nelson Meirelles foi substituído por Lauro Farias, irmão de Bino, baixista do Cidade Negra. O Rappa também fugiu das amarras do reggae, adicionando elementos de música brasileira (a regravação de “Vapor Barato”, sucesso de Gal Costa nos anos 70), funk e rock.

RAS
Título usado pelos rastas. Pode significar “senhor” ou “cabeça”. Também é rei na língua etíope.

RAS MICHAEL & THE SONS OF NEGUS
Negus é um título de nobreza do imperador da Etiópia Hailé Selassié, o senhor do movimento rastafari. E ninguém paga mais tributo ao deus rastafari do que Ras Michael e sua banda. Usando a percussão como elemento principal, eles promovem autênticas missas rasta desde os anos 70. Ainda fazem barulho na Jamaica, agora adicionando uma parafernália eletrônica a seus hinos de devoção rasta. Parece uma missa do ano 2 mil.

RASTAFARIANISMO
Filosofia que mistura crendices e profecias no mínimo contestáveis com uma interpretação própria da Bíblia. As raízes da filosofia rastafari foram plantadas na sociedade jamaicana por Marcus Mosiah Garvey, líder negro jamaicano que se radicou nos EUA. Grande orador, ele pregava que os negros deviam voltar à África e, em 1919, fundou um jornal (The Negro World) e uma revista (The Black Man) para difundir suas mensagens. Acreditava que a Terra Prometida do povo negro era a Etiópia.

A Garvey foi atribuída a seguinte profecia: “Olhem para a África. Quando um rei negro for coroado, é sinal que a redenção está próxima.” O pastor foi preso por sonegação de impostos e morreu na Inglaterra, em 1940, sem nunca ter conseguido a sonhada redenção. Mas o estrago já estava feito: em 1930, Ras Tafari Makonnem se autoproclamou Imperador da Etiópia, reinvindicando para si os títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judah.

O soberano que mudou o nome para Hailé Selassié (que significa “o poder da Santíssima Trindade”) era na verdade um tirano de marca maior, que preferia alimentar seus leões a matar a fome do povo. Mas os jamaicanos o tomaram como divindade e dirigiram suas preces a ele.

Um grupo liderado pelos “teóricos” Leonard P. Hovell, o reverendo Claudius Henry, Edward Emanuel e Vernal Davis se encarregaram então de criar os preceitos da filosofia rasta. Eles achavam que a Bíblia havia sido adulterada e fizeram uma espécie de “revisão” do livro sagrado.

O rastafarianismo vê a Igreja Católica, o governo e a polícia como agentes do mal, a Babilônia – “apelido” dado ao corrupto sistema ocidental. Os rastas não devem cortar seus cabelos. As longas tranças nunca podem ser penteadas nem lavadas. Elas são uma espécie de “antena” para captar vibrações positivas.

Os rastas execram o consumo de carne de porco e carne vermelha. A culinária deles se baseia na I-Tal Food, composta de legumes, raízes e frutas. Vez ou outra, peixe ou frango.

A maconha é uma erva sagrada – teria sido encontrada no túmulo do Rei Salomão. Serve para ajudar na compreensão das coisas e é usada como incenso nas igrejas. Hoje a filosofia rasta não tem a mesma popularidade que tinha nos anos 70 (quando Bob Marley propagou o nome de Hailé Selassié em todo o mundo) mas ainda atrai curiosos fãs de reggae.

REBEL, Tony
O DJ Patrick Barret nasceu para cantar as maravilhas da seita rastafari. Tudo isso embalado pela melhor produção que o dancehall tem para oferecer. Seu grande sucesso foi “Fresh Vegetables”, de 1991. O álbum Vibes Of Time, lançado dois anos depois, é considerado seu melhor trabalho.

RED
Chapado de erva, na língua rastafari.

REID, Duke
Grande rival de Coxsone Dodd no reino dos sound systems, Reid era arrogante e gostava de exibir armas junto dos compactos raros de R&B americano que tocava, lá pelo final dos anos 50. Dono de uma loja de bebidas em Kingston, ele entrou de cabeça na produção de discos, investindo tudo que tinha no rock steady e apadrinhando cantores como Alton Ellis. Quando o rock steady afundou, Reid foi junto – e nunca mais se recuperou.

REID, Junior
Ele já tinha uma carreira-solo de relativo sucesso quando foi convidado para assumir os vocais do Black Uhuru. O ano era 1986. Reid gravou um belo disco de estréia (Brutal), mas depois sofreu as inevitáveis comparações com o cantor Michael Rose – aqui entre nós, infinitamente superior. Em 1988, lançou One Blood. E foi cuidar de sua vida, gravando ao lado do grupo inglês Soup Dragons (na cover de “I’m Free”, dos Rolling Stones) e soltando trabalhos de qualidade superior ao Black Uhuru atual (Long Road, de 1993).

ROCK STEADY
Foi uma evolução mais sincopada e harmoniosa do frenético ska que saiu do sound system de Duke Reid no começo dos anos 60. Parente do rhythm & blues americano da época, mais lento e gostoso de se dançar junto, o gênero é o pai do reggae. Grandes nomes que você precisa conhecer: Alton Ellis, Paragons, Ken Boothe e Delroy Wilson.

ROMEO, Max
Coube a ele a “honra” de ter a primeira canção jamaicana a levar pau da censura inglesa. “Wet Dream” – ou “sonho molhado” – teve sua execução proibida pela BBC de Londres por causa do “conteúdo pornográfico” nos anos 60. Mas Romeo só disse a que veio mesmo nos anos 70, quando, ao lado de Lee Perry, gravou o álbum War In A Babylon. Isso foi em 1976, ano marcado por brigas entre os dois principais partidos políticos jamaicanos - com direito a distúrbios de rua e o escambau. As letras fortes de Romeo, que retratou bem o espírito da época, bateu forte nos poderosos da ilha.

ROSE, Michael
Antes de entrar para o Black Uhuru, na década de 70, Rose já havia estourado nos terreiros jamaicanos com “Guess Who’s Coming To Dinner”. Sua grande sacada vocal são os mantras que solta entre uma virada e outra de Sly & Robbie (um segredo: inventou aquilo porque simplesmente esqueceu o que ia cantar). Michael saiu do B.U. em 1984 e segue uma carreira irregular, dando uma no cravo (o bom disco Michael Rose, de 1995) e outra na ferradura (o chatérrimo Be Yourself, de 1986). Michael mudou a grafia de seu nome para Mykal Rose, aproveitando para modernizar o som.

ROOTS RADICS
A banda in da Jamaica nos anos 80. Gravou com todo mundo: de Gregory Isaacs (no magistral Night Nurse, de 1982) a Bunny Wailer (Rock & Groove). Com Dwight Pinkney na guitarra e Erol “Flabba” Holt no baixo, Style Scott na bateria e Steelie nos teclados, eles ajudaram a construir a história do reggae na década passada. Seu álbum World Peace III (de 1992) vale uma conferida.

SATTA
Rejubilar-se, meditar, agracer e rezar.

SAW, Lady
Perto do que esta moça faz, as reboladas de Cada Perez são brincadeira de criança e as simulações sexuais de Madonna não passam de fúria de freirinha. Lady Saw é uma safada (no melhor sentido da palavra) que tomou a Jamaica de assalto nos anos 90. Marion Hall - seu verdadeiro nome - era uma inocente cantora do sound system The Romantics. Não obteve o sucesso esperado porque sua voz era muito parecida com a de Tenor Saw - que ainda estava vivo e cantante nos terreiros da Jamaica. A opção que ela encontrou pela frente foi partir para a sacanagem. E nesse quesito teve iniciativa de vencedora. Nomes de algumas de suas músicas de sucesso: “Find A Good Man” (“Encontre Um Homem Decente”) e “Love Me Of Lef Me”. Nos shows, não é raro ela simular um ato sexual no palco e apalpar a genitália para delírio dos machões jamaicanos.

SCIENTIST
Praticante de bruxaria.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 11


SHAGGY
O jamaicano Orville Burrel tirou do amigo do Scooby-Doo o nome artístico. Apelidado de Salsicha (“Shaggy”) pelos companheiros de escola, ele fez uso da homenagem para iniciar uma tímida carreira de DJ. A primeira tentativa não rendeu o esperado e Shaggy serviu ao exército americano durante a Tempestade no Deserto, operação militar na guerra contra o Iraque. De volta ao mundo do reggae, alcançou sucesso mundial com a regravação de “Oh Carolina”, hit jamaicano pré-reggae (1960) dos Folkes Brothers. Shaggy então assinou um contrato de um milhão de dólares com a Virgin e vem justificando o investimento. Boombastic (1995) foi considerado o melhor disco de reggae do ano por diversas publicações. De quebra, ressuscitou a banda inglesa Mungo Jerry ao tirar do baú a canção “In The Summertime” – que acabou na trilha sonora do filme Flipper.

SHINEHEAD
Carl Aiken é Shinehead porque costumava passear pelas quebradas de Brooklyn (EUA) com o cocuruto reluzente. Musicalmente, ele eleva a moral da galera com uma mistura esperta de reggae, rap, e funk da melhor qualidade.

Seu début se deu em 1984, com uma versão cheia de ginga para “Billie Jean”, de Michael Jackson. O primeiro álbum, Unity, era uma pedrada só, com releituras para canções de Sam Cooke (“Chain Gang”, que tocou nos bailes funk cariocas), críticas ao crack (“Gimme No Crack”) e uma chupada em “Come Together”, dos Beatles (na faixa-título).

Ao vivo, Shinehead faz barba, cabelo e bigode. Brinca com a banda, se joga no meio da galera, imita Gregory Isaacs e Michael Jackson.

SILK, Garnett
Para alguns críticos, ele era o Bob Marley dos anos 90. Garnett Silk tinha mesmo qualidades – carisma, convicção rasta, uma voz divina – que o aproximavam do eterno rei do reggae. Nascido em Manchester (a da Jamaica), ele se mudou para Kingston em 1987. Logo caiu nas graças de produtores top (King Jammy, Steely & Clevie) e emplacou seu primeiro hit em 1991. Dois anos depois já era uma celebridade, headliner de festivais como o Sumfest e estampado na capa de revistas especializadas. Um dos destaques dessa época foi “Mama”, adaptação regueira de “Patches”, clássico do soulman americano Clarence Carter (você conhece essa: foi vertida por Nando Reis e virou “Marvin” nos Titãs muito antes de ser cantada por Silk). O cantor morreu no Natal de 1994, quando um botijão de gás estourou e incendiou a casa de sua mãe, em Kingston. Numa tentativa de salvá-la, Garnett Silk atravessou a cortina de fumaça e nunca mais voltou.

SKANK
O reggae com tutu à mineira desse grupo já conquistou gente tão distinta quanto Maxi Priest e Michael Platini. Formado por Samuel Rosa (guitarra, vocais), Lelo Zanetti (baixo, vocais), Haroldo Ferreti (bateria) e Henrique Portugal (teclados), o Skank se diferenciou de outras bandas brasileiras por fazer um reggae moderno, mais voltado para o dancehall de Shabba Ranks e Shaggy do que para o roots reggae de Peter Tosh.

O grupo já era respeitado no circuito alternativo quando lançou um CD independente. O ano era 1992. O sucesso do álbum – que esgotou sua prensagem inicial – despertou a atenção da Sony Music, que contratou a banda no ano seguinte. Mas o Skank só iria se consagrar definitivamente com Calango (1994), disco de reggae com um pé na modernidade e o outro no Brasil, estouro de mais de um milhão de cópias e marco inicial da associação com o produtor Dudu Marote.

O Samba Poconé veio em seguida, superando expectativas: “Garota Nacional” arrebatou os prêmios de melhor clipe na votação dos espectadores da MTV e foi um dos singles mais tocados na Espanha e no América do Sul. Hoje o Skank é um grupo respeitado não apenas nacionalmente, mas também em diversos países do Primeiro Mundo. Não por acaso, o quarteto foi convidado para fazer o show de abertura da Copa do Mundo de 1998 na França.

SKA
Ritmo surgido na Jamaica, no final dos anos 50, fusão do mento (uma espécie de calipso jamaicano) e canções ancestrais com todos os gêneros que rolavam na ilha naquela época:, R&B americano e jazz. O nome saiu da boca do músico Jah Jerry – um dos muitos pais da criança. Era nada mais que uma onomatopéia para o som de sua guitarra: skat, skat.

SKATALITES
Grupo formado por experientes músicos de jazz jamaicanos que teve sua época áurea no início dos anos 60, era da “febre do ska”. Sob a batuta do trombonista Don Drummond, emplacou hits locais e trabalhou no Studio One como “banda da casa”. Eles ajudaram a construir sucessos de Bob Marley, Bob Andy & Marcia Griffiths e outros. Quando Drummond matou a namorada a facadas em 1964, a credibilidade dos Skatalites foi para o espaço. O grupo se desfez e só voltou nos anos 80, com alguns dos integrantes originais. Está na ativa até hoje mostrando preciosidades.

SLACKNESS
Sacanagem, canções de apelo chulo.

SLY & ROBBIE
Dizem que Sly Dunbar completa Robbie Shakespeare e vice-versa, feito feijão-com-arroz. Pode acreditar: os dois tocam desde os anos 60 e são conhecidos como a maior seção rítmica da história do reggae. Sly (bateria) e Robbie (baixo) tocaram com quase todos os grandes artistas da Jamaica e do mundo: foram da Word, Sound & Power (banda de apoio de Peter Tosh), brilharam na melhor formação do Black Uhuru e incrementaram as carreiras de Dennis Brown, Gregory Isaacs e muitos outros. Sly & Robbie também fizeram sucesso com astros fora do circuito reggae, como Bob Dylan (no álbum Infidels) e Carly Simon. Donos do selo Taxi e do estúdio Mixing Lab, eles estão ainda com força total.

SMALL, Millie
Millie ainda usava vestidinho curto quando, lançada por Chris Blackwell, emplacou “My Boy Lollipop”, um rock steady danadinho, nas paradas da Inglaterra. Foi o primeiro hit da então pequena Island. O ano era 1964 e a música ganhou versão até no Brasil – “Meu Bem Lollipop”, cantada por Wanderléia e pelo Trio Esperança.

SOUL SYNDICATE
Um dos primeiros supergrupos da Jamaica nos anos 70, era formado por George “Fully” Fulwood (baixo), Carl “Santa” Davis (bateria), Earl “Chinna” Smith (guitarra) e Freddie McGregor (vocais). Emplacou hits locais e se esfacelou com a partida de Freddie (carreira solo) e “Chinna” Smith (até hoje no clã Marley).

SMITH, Slim
Nos anos 60, ele era o cantor principal dos Uniques. Muitas vezes comparado a Curtis Mayfield (uma de suas maiores influências), Smith nunca teve o reconhecimento merecido. E morreu de maneira trágica nos anos 70, quando meteu a mão numa janela de vidro e sangrou até morrer.

STEEL PULSE
A cidade inglesa de Birmingham, que deu ao mundo Black Sabbath e UB-40, é também o berço do Steel Pulse. O grupo surgiu em 1975 sob a batuta do cantor e guitarrista David Hinds e se diferencia de outros grupos do gênero por aliar uma performance cênica à força de sua música. Eles costumam “desacelerar” as músicas durante os shows – como se tivessem sido desligados da tomada – e interagem sempre com a platéia. Bob Marley se encantou com o SP e os convidou para os shows de abertura de sua turnê européia em 1978. Depois de entrar em decadência na segunda metade dos anos 80, o grupo retomou as letras com mensagens e a postura rasta do início de carreira.

STEELY & CLEVIE
Alunos da última fase do Studio One, os produtores foram celebrados no início dos anos 90 como “o Sly & Robbie da era digital”. Festejados pelo trabalho com Shabba, Diana King e Patra, continuam lançando novos artistas e trabalhando com veteranos como Leroy Sibbles e John Holt.

SUPERCAT
DJ indiano criado na Jamaica, Supercat tem o apelido de Don Dada. O homem é mesmo mafioso: anda sempre de metranca e se meteu num estranho tiroteio em 1992 – que vitimou o DJ Nitty Gritty. Assinou um contrato com a major Sony Music, mas ainda não alcançou projeção internacional. “My Girl Josephine” entrou na trilha do filme Pret-A-Porter.

SANCHEZ
Cantor identificado com o movimento dancehall. Ente seus estouros estão releituras para Tracy Chapman (“Baby Can I Hold You”) e para o grupo americano Bread (“Baby I´m A Want You”).

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 12


TOSH, Peter
Winston Hubbert McIntosh veio ao mundo para criar confusão. Nasceu em agosto de 1944, não conheceu o pai, sequer a mãe. Foi criado (largado) pela tia, que o deixou perambulando pelas ruas de Trenchtown, a famosa favela de Kington. Num dos poucos mimos ao sobrinho, ela o presenteou com um violão em frangalhos.

Tosh sabia arranhar umas notas quando conheceu Bob Marley e seu meio-irmão Bunny Livingstone. Eles formaram os Wailing Wailers, que mais tarde seriam rebatizados como Wailers e depois Bob Marley & The Wailers. Quando viu seu amigo (Bob havia roubado sua namorada, Rita Anderson, mas continuara amigo) ser alçado à liderança do grupo, Peter Tosh saiu em carreira solo. Que foi tocada aos trancos e barrancos, mas deixou obras marcantes.

Guitarrista e cantor com voz de barítono, Tosh estava gravando seu álbum quando policiais jamaicanos invadiram o estúdio – no exato momento em que Tosh colocava os vocais. O cantor foi espancado e jogado num canto do hospital. O atendimento demorou horas – quem chegasse ao local era “convidado” pela polícia a dar uma olhada no estropiado rastman. Foi uma espécie de aviso aos Wailers, que começavam a incomodar os poderosos da Jamaica.

Legalize It saiu em 1976. A música-tema pedia a liberação da erva e sua mensagem até hoje é contundente (o Planet Hemp que o diga: eles usaram um sample do hino em “Legalize Já”). O disco teve participações das I-Threes e de diversos instrumentistas dos Wailers, como Aston “Family Man” Barret e Seeco Patterson.

A amizade entre Bob e Peter – que sofreu uma ligeira balançada com a saída de Tosh da banda – Winston azedou de vez naquele ano. Um dia, quando saía da Island House (a mansão que Bob ganhou de Chris Blackwell, dono da Island), o carro que levava Tosh e sua mulher, Yvonne, foi atingido por um motorista bêbado. O cantor quebrou várias costelas e Yvonne morreu depois de vários dias em coma. O “Mystic Man” atribuiu o acidente aos espíritos malignos que dominavam a casa dos Marley.

Equal Rights foi lançado em 1977. É um trabalho mais bem-resolvido, com participação de Sly & Robbie e canções que caceteavam o injusto establishment jamaicano. Como “Equal Rights”, em que Tosh brada: “Todo mundo quer ir para o céu/ Mas ninguém quer morrer/ E eu digo: nós nunca teremos paz/ Até o dia em que tivermos direitos iguais e justiça”. O disco também mostrava manifestações de africanismo (“African”), uma regravação dos Wailers (“Get Up, Stand Up”) e uma canção roubada de Joe Higgs (“Stepping Razor”).

A repercussão de Equal Rights chamou a atenção de Mick Jagger e Keith Richards, que estavam formando o cast da Rolling Stone Records. Peter Tosh lançou pelo selo da linguinha seu melhor disco: Bush Doctor (1978), uma paulada certeira com pitadas de soul music americana (“Don’t Look Back”, dos Temptations, um dueto precioso com Mick Jagger), recordações dos tempos de wailer (“Soon Come”, “I’m The Toughest”) e novas exaltações à cannabis (“Bush Doctor”, que tem uma ajudinha da guitarra preguiçosa de Keith Richards).

Tosh buscou sempre o confronto e sua rebeldia às vezes beirava o mau-caratismo. Durante um concerto para o primeiro-ministro da Jamaica, fumou maconha no palco e soltou fumaça para as autoridades – semanas mais tarde, teve a mão esmigalhada por policiais durante uma batida. Keith Richards teve a ousadia de pedir de volta a casa em Ocho Rios que havia emprestado para Tosh. Foi ameaçado de morte. Conclusão: a Rolling Stones Records deu cartão vermelho para o rasta.

Os brasileiros puderam conferir a audácia de Tosh em 1980, quando ele tocou no Festival de Jazz de São Paulo. Foi uma das melhores apresentações na história dos shows no Brasil: acompanhado de uma superbanda (essa escalação tem de ser dada: Sly Dunbar, bateria, Robbie Shakespeare, baixo; Darryl Thompson e Mickey Mao Chung, guitarras, Keith Sterling, teclados; Sky Juice na percussão e os vocais de apoio dos Tamlins), ele entrou no Palácio das Convenções do Anhembi vestido de egípcio e levou o público à loucura. Deu golpes de caratê no ar, soltou “Jah Rastafari” a dar com pau e fumou toda a maconha que havia em São Paulo.

Peter também deu o ar de sua graça em Água Viva, novela de Gilberto Braga. Ele cantou “Legalize It” tendo Fábio Jr. nos vocais de apoio. Três anos depois, o cantor deu um cano federal em empresários brasileiros que o contrataram para apresentações aqui. Pegou o dinheiro, alegou “dores nas costas” e ficou lagarteando sob o sol de Kingston.

Em 1987, Peter Tosh devia para Jah e o mundo e estava sujo e sem crédito na praça. Devia até dinheiro de drogas para uma turma de bandidos de Kingston. No dia 11 de setembro daquele ano, a galera do mal foi cobrar a dívida e não admitia voltar de mãos vazias. Tosh se recusou a atender os caras e morreu com quatro balaços no peito.

THIRD WORLD
Considerada uma das mais consistentes bandas da história do reggae, surgiu depois que Michael “Ibo” Cooper, Stephen “Cat” Coore e Milton “Priliy” Hamilton deixaram o Inner Circle em 1973. A formação se estabilizou quando adicionaram o baixista Richie Daley e o baterista Carl Barovier.

O Third World incorporava quase tudo à sua música: raízes jamaicanas, música africana e o R&B americano. Assinou com a Island e lançou álbuns importantes como 96° In The Shade e Journey To Addis. Depois da entrada do cantor Bunny “Rugs” Clark veio o estouro mundial, com “Now That We’ve Found Love”.

E o Third World continuou entusiasmando o público do mundo com grandes apresentações ao vivo, fazendo jus ao título de embaixadores do reggae. Hoje, após completar 20 anos de carreira, o grupo atualizou seu som com elementos de dancehall e hip hop.

TIGER
É o Tião Macalé do reggae. Só não faz “tchan!”. DJ de voz roufenha, abalou os guetos jamaicanos em 1987 com o sucesso “Wanga Gut”. Suas músicas obedecem ao esquema “sai pra lá, polícia, vem pra cá, garota” que marcou o reggae no início dos anos 90. Tiger não proseia, rosna. E seus ronrons despertaram a atenção do grupo de funk inglês Brand New Heavies, que o convidou para o projeto Heavy & Rhyme Experience (1992).

A Sony Music contratou Tiger no ano seguinte. Ele lançou então Claws Of The Cat, um álbum mediano, que traz participações dos Heavies e do rapper Q-Tip (do A Tribe Called Quest). A velocidade, ao lado das mulheres e do reggae, era uma das grandes paixões do DJ – e que acabou por atrapalhar sua carreira para sempre. No final de 1993, Tiger sofreu um acidente de moto. Depois de vários meses em coma, ele sobreviveu, mas não se recuperou totalmente. Hoje tem dificuldade até para falar.

TOOTS & THE MAYTALS
A voz apaixonada e treinada em igrejas batistas de Toots Hibbert (comparada a de mestres da soul music como Otis Redding) é o grande trunfo deste grupo seminal surgido em Kingston em 1962, como The Vikings. O nome definitivo foi adotado dois anos depois. Logo depois vieram os hits “If You Act This Way” e “John And James”, cruciais no estabelecimento do ska.

Em 1966, Hibbert foi preso – por porte de maconha, ora veja! Quando saiu, gravou pelo Beverley, selo de Lesley Kong, “54-46” (música depois regravada pelo Aswad e tocada no Brasil pelo Skank), sobre a vida de penitenciário, e “Do The Reggay” (sic), primeira canção a usar o termo reggae. No começo dos anos 70, Toots & The Maytals tornaram-se conhecidos mundialmente pela participação no fume The Harder They Come. Nos anos 80, Hibbert gravou nos EUA o belo disco Tools In Memphis, no qual interpreta clássicos da soul music.

TOSH, Andrew
Filho mais velho de Peter Tosh, Andrew fez sua estréia nos funerais do próprio pai, ao embalar uma platéia jamaicana com os sucessos de Peter. Lançou um belo disco de estréia em 1990 (Original Man, que tinha o hit “Poverty Is A Crime”) e se apresenta com músicos da antiga banda de Peter Tosh – a Word, Sound & Power –, como George “Fully” Fulwood (baixo) e Carl “Santa” Davis (bateria).

TRIBO DE JAH
A Tribo de Jah é a banda mais conhecida do Maranhão e tem um trabalho apreciado no país inteiro. A grande curiosidade é que quatro integrantes do sexteto são cegos e um é caolho. Apenas o líder Fauzy Beydoun, um paulista radicado em São Luís, enxerga direito. A banda animava bailes junto com um sistema de som: quando Fauzy comprou o equipamento, acabou herdando a Tribo de Jah. O som é calcado no reggae roots e a militância no gênero, acima de modismos, verões e gravadoras, inspira “respect” no Brasil inteiro.

TECHNIQUES, The
Uma das várias seleções vocais da Jamaica. A banda teve em sua formação Slim Smith e Pat Kelly, além de Winston Riley e Frankie White. Os Techniques foram descobertos por Duke Reid em 1964 e entre os seus maiores hits estão “I Wish It Would Rain” (dos Temptations) e “Queen Majesty”.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 13


UB-40
Tendo à frente os irmãos canhotos Ali e Robin Campbell, o grupo provoca grande celeuma entre os fãs de reggae. Os mais ortodoxos preferem classificá-lo como banda pop que vive de regravar pérolas da canção jamaicana (como fizeram nos álbuns Labour Of Love, de 1984, e Labour Of Love 2, de 1989). Mas há quem defenda os ingleses dizendo que eles são muito importantes para a popularização mundial do reggae. Se hoje ouve-se falar fora da Jamaica em John Holt, U-Roy e outros astros, isso se deve ao UB-40.

A banda teve mesmo grandes momentos, principalmente entre o final dos anos 70 e o início dos 80. O iúbi – como é popularmente conhecido, a partir do som de UB em inglês (o nome vem do código do seguro-desemprego britânico) – temperou o reggae com boas doses de música pop e lançou discos emblemáticos como Baggariddim (1985) e Present Arms (1980). O vocalista Ali Campbell é um dos grandes incentivadores do reggae moderno: financiou as primeiras raves de jungle em Birmingham, quando o ritmo ainda não causava frisson entre os modernos.

U-ROY
Shabba Ranks tem de ajoelhar para esse vovô (mais de 70 anos); Ninja Man reza todo dia por seu bem-estar. Sem U-Roy, não haveria o blablablá esperto que marca o atual reinado dos DJs na música jamaicana. Não foi U-Roy quem inventou, mas vêm dele as principais influências no desenvolvimento do estilo talk over: no alto do sound system, o DJ usava a base instrumental do disco para dar o seu recado e divertir a massa.

U-Roy é anterior ao próprio reggae: começou a tagarelar improvisando nas pequenas partes sem vocal dos sucessos do rock steady. Em 1970, já era tão popular que chegava a ter o primeiro, o segundo e o terceiro lugares da parada jamaicana. Bob Marley o citou numa entrevista no começo da carreira dos Wailers, ao falar sobre influências: “Me like U-Roy.”

A voz empapuçada de eco e reverb do DJ seguiu com muito sucesso fazendo versões dos hits de seu fã Bob Marley (uma clássica performance é “Soul Rebel”) e de outros cantores dos anos 70. Ao longo da década seguinte, U-Roy, rasta convicto, perdeu a coroa para sujeitos mais rápidos e safardanas, mas sempre será respeitado como the king of DJs.

WAILER, Bunny
Desde que abandonou os Wailers, Bunny tem mantido uma carreira irregular. Lança álbuns divinos (Blackheart Man, de 1976), mas se recusa a divulgá-los no exterior porque tem medo de avião. Cai de cabeça nos sons mais modernos do reggae, mas critica os DJs – o que lhe custou uma chuva de garrafas num festival na Jamaica. Bunny não tira seu sustento de música – é fazendeiro – e vive numa eterna nuvem de fumaça e devoção a Jah.

WAILERS, The
Com a morte de Bob Marley em 1981, os Wailers juntaram os cacos e seguiram em frente. Seis anos depois, eles perderam o baterista Carlton Barret, assassinado por um Ricardão jamaicano – o bandido traçava a mulher do pobre rasta. Com Junior Marvin (guitarrista americano, que entrou na banda em 1977 – nenhuma relação com Junior Murvin) à frente, o grupo excursiona pelo mundo e mostra que um dia foi a maior banda de reggae do planeta.

WAILING SOULS
Este grupo vocal jamaicano teve diversas formações, sempre capitaneadas pelos chapas Winston “Pipe” Matthews e Lloyd “Bread” McDonald. Ao lado do cantor Buddy Hayes, a dupla iniciou a carreira em 1965 no Studio One. Na época eles se chamavam Renegades. Sua primeira composição foi “Lost Love”. Garth Dennis (ex-Black Uhuru) se agregou à banda e eles mudaram o nome para Wailing Souls. Essa formação gravou álbuns com produção de Sly & Robbie, estourou clássicos como “Bradda Gravalicious” e “Babylon Back Against The Wall”... Durou até 1984, quando Dennis e Hayes seguiram em carreira solo. Pipe e Bread voltaram à Jamaica e contrataram o novato Ziggy Thomas. Vieram os discos Lay It On The Line, Kingston 14 e Reggae Inna Firehouse. Em 1992, já sem Ziggy Thomas, eles lançaram o disco All Over The World, com participação especial de U-Roy.

WANGA-GUT
Faminto, na linguagem patois.

WILSON, Delroy
Ex-parceiro de Joe Higgs na dupla Higgs & Wilson, ele foi muito popular no início dos anos 70. Emplacou o hino da campanha socialista jamaicana em 1972 (“Better Must Come”), mas perdeu espaço para os ideais rastafari de Bob Marley, Peter Tosh e outros. No ostracismo, tornou-se alcoólatra e morreu de cirrose em 1994.

YAGA YAGA
Uma expressão do dancehall, que serve para agitar a platéia.

YELLOWMAN
Ele é albino, desbocado e mais feio do que cão chupando manga. Mas as mulheres não ligam para esses pequenos detalhe se elegeram Winston Foster símbolo sexual do Jamaica.

Essa relação amorosa se iniciou em 1979, quando ele subiu ao palco de um show de calouros em Kingston trajando um berrante terno amarelo. Na ponta da língua, canções com termos chulos, em que contava vantagens sobres suas proezas sexuais. Este esquisito DJ reinou absoluto na Jamaica entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80. Sempre se gabando (“Yellow Like Cheese”, “Be My Guest”), descendo a lenha na polícia (“Nobody Move, Nobody Get Hurt” – refrão que Sérgio Britto emenda em algumas versões de “Polícia”) e comemorando a liberdade de Gregory Isaacs (“Gregory Free”).

O melhor disco dessa fase é King Yellowman (1982), gravado em Nova York, com produção de Bill Laswell e participação de Afrika Bambataa. Até hoje o repertório desse trabalho consiste no filé das apresentações de Yellowman no mundo todo – inclusive no Brasil, país que ele visitou pelo menos quatro vezes. Tem “Strong Me Strong”, a versão sacaneada de “Country Roads” (de John Denver, morto recentemente) e muita prosa sacana (“Mi Belief”, “Girls Don’t Do It”).

A partir da segunda metade da década de 80, Yellowman entrou em decadência. Teve de arrancar o maxilar por causa de um tumor (o que lhe deu uma aparência mais estranha) e foi trocado por rappers mais jovens e rapidinhos (Shabba Ranks, Buju Banton etc) na preferência do público. Mesmo assim, continua na ativa até hoje. E com a vantagem de compor rápido e sobre qualquer tema. Bi Ribeiro que o diga. Ao pedir um autógrafo para Yellowman depois de uma apresentação do jamaicano em Londres, ele pediu uma caneta para Herbert Vianna. O amarelo gostou da sonoridade da palavra e criou um rap que tinha caneta como tema. Se ficou bom, só Bi (e os outros dois paralamas) sabem.

ZION TRAIN
O futuro do reggae provavelmente está nos vagões deste sound system inglês que produz uma mistura alucinada de reggae, dub e dance music, trocando o surrado discurso rastafari por mensagens pró-ecologia e antifascismo. Seu álbum Homegrown Fantasy (1995) é obra básica para se entender a cultura reggae desse novo milênio.