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terça-feira, setembro 15, 2009

O jogo das contas de vidro


Comecei a me interessar pelo jogo de bolinhas no final dos anos 60, quando ainda estudava no curso ginasial. No início da Rua Parintins, quase no canto com a Carvalho Leal, havia uma oficina de estofamento de carros, pertencente à família do Baiano, cujo imenso quintal espetacularmente plano, de barro batido coberto por uma fina camada de areia e arborizado por dezenas de árvores frutíferas (mangueiras, jaqueiras, jambeiros, abacateiros, pitombeiras), era um convite irrecusável para a prática da brincadeira.

Todo santo dia, das 8 da manhã às 6h da tarde, pelo menos uns trinta moleques se reuniam no local para “apostar” suas petecas, o que transformava o aprazível quintal da pacata oficina em um ruidoso cassino de Las Vegas, com dezenas de partidas transcorrendo simultaneamente e os palavrões mais cabeludos acompanhando as jogadas mal sucedidas.

Havia cinco tipos de bolinhas, por ordem crescente de importância e valor de troca:

1) As comuns, de vidro fosco, nas cores branca, azul, vermelha, preta, amarela e verde, em diferentes matizes e recombinações. As estilhaçadas pelo uso se chamavam “caraquentas”.

2) Os “ovinhos”, minúsculas bolinhas de um vidro transparente, semelhante às usadas no dosador das garrafas de Johnnie Walker.

3) As “carambolas”, que como o próprio nome diz traziam em seu interior uma autêntica carambola.

4) Os “petecões”, de tamanhos duas ou três vezes maiores que as bolinhas comuns.

5) E as indescritíveis “colombianas”, petecas coloridas artesanalmente à mão, em cores quentes, que lembravam muito um cubo mágico. Raras e belas.


Se fosse redondo, seria uma autêntica bolinha colombiana

As modalidades de jogo eram apenas três e, provavelmente, foram introduzidas na cidade por crianças inglesas no início do século 20, quando Manaus estava em pleno “boom” das folias do látex.

O jogo mais praticado era o “turite” (corruptela do termo “two hits”, “duas batidas”), seguido pelo ronda mate (corruptela do termo “round match”, “partida redonda”) e pelo ronda dedo, desenvolvido pelos próprios manauaras, já que não há notícia de que esse tipo específico de jogo seja praticado em outro lugar do país.

No turite, riscavam-se duas linhas paralelas distantes dois metros entre si. Na primeira linha, casavam-se as bolinhas que seriam apostadas (no mínimo uma por jogador) e tirava-se o ponto a partir da segunda linha. Não havia limites de jogadores. Cada um jogava uma vez, movimentando sua ponteira com o dedo (normalmente o indicador vergado sob o polegar funcionava como a alavanca de impulso da peteca), com a mão obrigatoriamente encostada no chão.

A ponteira do jogador que mais se aproximasse da linha de bolinhas casadas começava o jogo do local onde havia parado. As demais ponteiras eram jogadas na seqüência, de acordo com o grau de aproximação de cada uma delas à linha de “casadas”. Ganhava o jogo quem conseguisse acertar a ponteira em duas bolinhas simultaneamente com uma única jogada. Valia, inclusive, tentar o turite na hora de tirar o ponto.

Durante o desenrolar do jogo, havia ainda o expediente da “lavoura”: se com a sua ponteira você conseguisse jogar a ponteira de um adversário para depois da linha de ponto, ele lhe pagava uma bolinha. Se “estrelasse”, isto é, sua ponteira acertasse a ponteira do adversário, mas fosse a sua (e não a dele) a ultrapassar a linha de ponto, você pagava uma bolinha.

Para aplicar a lavoura, você podia tanto limpar o local onde estava a ponteira adversária, como colocá-la num “castelo” (montinho de areia, mais tarde substituído pela tampa plástica de pasta de dentes). Se a lavoura fosse bem sucedida, você teria direito a uma nova jogada. Se errasse ou estrelasse, não.

No ronda dedo, era feito um círculo de um palmo de diâmetro e riscado um “T” no seu interior. Nas pontas opostas da linha menor do “T” ficavam as ponteiras dos jogadores, nas pontas opostas da linha maior, as bolinhas casadas, de forma que a primeira bolinha ficasse entre as duas ponteiras. Eram apenas dois jogadores. Cada um jogava uma vez, também movimentando sua ponteira com o dedo e a mão sobre o chão.


O ronda dedo deve ter se originado do triângulo, muito praticado no resto do país

O jogo consistia em tirar as duas bolinhas de dentro do círculo, mas como havia alternância de jogadas, ganhava quem tirasse a última bolinha. Era um jogo de estratégia, já que qualquer vacilo era fatal. O ideal era afastar a ponteira do adversário para locais cada vez mais distantes, enquanto aproximava as duas bolinhas dentro do círculo, para então retirá-las com uma única jogada.

No ronda mate, era feito um círculo de três palmos de diâmetro, onde se casavam as bolinhas (no mínimo cinco por jogador) e era feito uma linha horizontal a quatro metros de distância do círculo. O ponto era tirado do círculo para a linha, jogando a ponteira com a mão (na maioria das vezes “petecões” ou esferas de aço, retiradas de rolamentos de carros) em direção à linha.

Começava o jogo – dessa vez da linha pro círculo – aquele cuja ponteira mais se aproximasse da linha. O jogo consistia em jogar a ponteira com força em direção às bolinhas casadas no círculo. Toda bolinha que a sua ponteira retirasse do círculo era sua. Se errasse (deixasse de retirar pelo menos uma bolinha) ou sua ponteira ficasse presa dentro do círculo (na “forca”), você cedia a vez pra outro jogador e a partida recomeçava até não ficar nenhuma bolinha dentro do círculo.

Se errasse, você recomeçava a jogar, na sua vez, a partir da parte do terreno onde parara a sua ponteira – daí a necessidade de saber bem dosar a força para não ficar muito afastado do círculo. No caso de sua ponteira ficar presa no círculo, você pagava uma bolinha pro adversário que a retirasse da forca e recomeçava a jogar da linha de ponto. Enquanto sua ponteira estivesse na forca, você não jogava. Pra quem jogava tendo como ponteira uma esfera de aço, esse era o maior risco.


Os petecões eram usados como ponteiras nos jogos de ronda mate

Se as regras eram claras e obedecidas pelos jogadores até com certo “fairplay”, na hora do Ângelus, às 6 horas da tarde, todo santo dia, era a vez de o cu da cotia assobiar. Bastava alguém gritar “abafa” e todo mundo se lançava em cima das bolinhas para agarrar o máximo de petecas que pudesse, fosse de quem fosse.

Às vezes, um jogador inexperiente se lançava naquela faina com uma das mãos cheias de bolinhas, aí bastava alguém esbarrar “sem querer” na sua mão e uma nova leva de bolinhas estavam disponibilizadas para o “abafa”. Nunca ter saído uma única porrada por conta daquela presepada me dá a certeza de que sempre fomos politicamente incorretos mas nem tanto.

No começo, eu apenas observava a estratégia dos melhores jogadores do pedaço – Baiano, Zé Quara, Armandinho, Rudiney, Fuinha, Branco, Sergio Velhote, Favela, Luiz Lobão, Chico Porrada, Heraldo Cacau – para tentar aprender suas técnicas.

Eles jogavam com o polegar pressionando levemente o dedo indicador (nas tiradas de ponto, aproximações táticas – chamadas de “abicorar” – e turites), mas usavam o dedo maior de todos nas lavouras. Os outros três dedos permaneciam fechados em direção à mão.

Nunca consegui imitá-los: eu jogava com o indicador preso atrás do polegar e os três dedos abertos, como se estivesse pedindo o lorto de alguém, o que era motivo de gozações inenarráveis.

Com o tempo, treinando força e direção no quintal de casa, desenvolvi uma técnica quase perfeita. Mesmo jogando daquele jeito pornográfico, eu era capaz de acertar com violência em qualquer bolinha a dois metros de distância.

Depois, comecei a jogar com os mais fracos – Clóvis, Zé Carlos, Sansão, Áureo, Arlindo, Sici, Dó, Julio, Didão, Zé Alfredo, Simas, Xereta, Bordado, Humbertinho, Breta, Pepéu, Louro – somente para testar minhas novas estratégias.

Alguns meses depois, resolvi encarar os chamados “pedra noventa”. Não dei vexame. Perdia dez bolinhas num dia, ganhava dez no dia seguinte, e ia levando.

Mas, em menos de um ano, assim que peguei a manha dos aclives e declives quase imperceptíveis do terreno, comecei a minha fase de “Átila, o huno”: por onde eu passava, não restavam mais bolinhas nos bolsos de ninguém.

As pessoas que freqüentavam a oficina se reuniam em torno dos locais onde eu jogava somente pra me ver desmoralizar os adversários, fosse no turite (casando dez bolinhas de cada vez), fosse no ronda dedo (apostando dez bolinhas por fora) ou no ronda mate (casando até 20 bolinhas de cada vez).

Minha pontaria era fuderosa – dava lavoura com até três metros de distância! Minha sorte (ou talento, quem sabe?) para fazer turites inesperados, acertando em duas bolinhas separadas meio metro entre si, por exemplo, era declamada em prosa e verso!

Ganhei tantas bolinhas, que passei a revender pela metade do preço para o taberneiro “seo” Luís, ali na Rua Borba, que as revendia para a molecada da rua a preço de mercado, só para ter o prazer de ganhá-las de volta no dia seguinte.

Basta dizer que na hora do “abafa” eu simplesmente guardava a minha ponteira no bolso e ia embora, não dando a mínima para quantas bolinhas minhas estivessem no jogo e os perebentos pudessem “abafar”.

Quando a paixão pelo esporte estava arrefecendo, cheguei a contabilizar em casa mais de 4 mil petecas de todos os tipos (menos as “caraquentas”, que eu quebrava a marteladas), incluindo umas duzentas “colombianas”.


Depois, me desinteressei pelo assunto e as bolinhas serviram de munição para o Simas caçar passarinhos nos quintais da redondeza durante vários anos.

Por meio dos poucos amigos privilegiados que costumavam passar as férias no Rio de Janeiro, como Sergio e Arlindo Mubarack, soube que na Cidade Maravilhosa o jogo de bolinha mais popular se chamava búlica.

Pelo que ainda me lembro, posto que nunca joguei aquela infâmia, consistia de três buracos eqüidistantes em linha reta, no chão de terra, onde começa quem lança sua bola mais perto do terceiro buraco, tanto faz se é daqui para lá ou de lá para cá que começa a disputa.

Se por acaso no início do jogo um dos participantes consegue fazer de cara uma búlica, ou seja, lançar a bolinha direta no terceiro buraco, já está com a chance de começar a “matar” as bolas dos outros adversários cujas bolinhas estejam por perto da búlica que ele acertou. Mas se acontecer de algum outro competidor também acertar nesta mesma búlica na primeira jogada, aí a partida estará cancelada e se começará uma outra.


Diferente daqui da taba, onde a mão, durante o arremesso das bolinhas, tinha que permanecer obrigatoriamente encostada na terra (a exceção era o ronda mate), na búlica as bolinhas eram arremessadas com a mão afastada do chão e a bolinha presa entre a unha do polegar e o dedo indicador, o que nos parecia coisa de viado, razão pelo qual o jogo nunca obteve a nossa simpatia.

As regras também eram meio confusas – ou os irmãos Mubarack nunca souberam explicar direito. Por exemplo, pro sujeito não perder a vez quando desconfiava que poderia errar uma bola perto da búlica, ele era obrigado a gritar: “Ou bola ou búlica!”.

Quando o jogador tinha que acertar na bola de um adversário, mas acertava também na de um outro jogador, dizia-se que ele “carambolou” e a partida era encerrada sem vencedores. A melhor estratégia do jogo era ficar por último no início da partida, e para isso, tão logo era anunciado o jogo, o jogador gritava a palavra: “Marráio!”

Quando muitas bolas ficavam juntas, um jogador, querendo se aproveitar do erro do adversário da vez, aumentava a pressão psicológica dizendo: “Ferido, sou rei!”. Ocorre que “ferido” tinha uma pronúncia especial, típica de malandro carioca, então o dito ficava assim: “Feridô, sou rei!”.

Sinceramente, era ou não era coisa de viado?...

segunda-feira, setembro 14, 2009

A grande decisão


O gaudério Pedro Ivo Padilha, um simpático engenheiro eletrônico com quem tomei altos porres no saudoso Bar Consciente, ali na Rua Joaquim Nabuco, me enviou esta crônica do jornalista Davi Coimbra, do Zero Hora, me instigando a relembrar os tempos em que eu era o melhor jogador de Celotex (que a gente chamava "Solatex", imaginado que os jogadores eram feitos exclusivamente de látex) da Cachoeirinha. Vou pensar no assunto. Por enquanto, curtam a crônica do Davi Coimbra, que também me deu saudades dos velhos tempos:

Eu não era bom no gude. A começar pelo meu nhaque, que era... como direi para não chocá-los? Digamos que meu nhaque chamar-se-ia, em termos publicáveis, cloaca. Ou ânus de galinha.

Enfim.

O problema é que esse tipo de nhaque não tem muita propulsão. E, também, não se podia dizer que minha pontaria fosse bem calibrada. Então, eu me dava mal no gude, perdia minhas águidas todas. Craque era o Edu Brites, o nhaque mais potente do IAPI. A bolinha saía da mão do Edu feito um tiro de tresoitão, quebrava a joga da gente ao meio.

Aliás, o Edu era o tipo de cara bom em tudo. Existem caras assim. Ele jogava bem gude, boco, pião, bafo, pingue-pongue e, o mais importante, futebol. Tinha um chute de entortar travessões, o Edu Brites.

Só tem o seguinte: não me ganhava no botão. Ninguém me ganhava. Para se ter uma idéia da minha craqueza: nós jogávamos campeonato valendo botão. Comecei com um time humilde, contratado às pressas, meus puxadores tinham no máximo duas camadas e alguns não passavam de uma. Acho até que coloquei um panelinha de improviso na lateral-direita. Mesmo assim, ganhei tantos títulos que chegou um momento em que 11 times dividiam a caixa de sapatos onde se concentrava a delegação.

Agora um trauma: nunca tive Estrelão. Manja Estrelão, o campo do futebol de botão da Estrela? Pois é. Nunca tive. Uma careza. Jogava no parquê mesmo, minha mãe enlouquecia porque o assoalho ficava todo dentado pelas fichas. Estrelão era coisa rara na turma. Até que um dia resolvemos nos profissionalizar. Saímos pela Zona, um pedia madeira, outro pedia tinta, outro pedia grana mesmo. Conseguimos montar um baita estádio de botão, coisa mais linda. Era do tamanho de dois Estrelões, seria o Serra Dourada do botão. Ou melhor: o Maraca.

Organizamos um campeonato para inaugurar o estádio. E, pela primeira vez, não valia botão: valia taça e medalha. Taça e medalha, cara! Jamais havia ganho uma única taça, uma única medalha. Disputei todos aqueles torneios de colégio, torneio de futebol, de gaita de boca, de nilcon, participei de todas as corridas de carrinho de lomba, de bicicleta e até de patinete, joguei tudo, sem ganhar uma só medalha, uma só taça, ainda que pequenina. E agora poderia me redimir! Sim, porque ninguém me bateria no botão, no botão eu era o maioral, o kid, o Pelé, o John Travolta, o Wianey Carlet!

Começou o campeonato. E comecei a ganhar deles todos. Ganhei do Edu, do Barril, do Zoreia, do Languiça, do Apara Peido, do Floxo. Cheguei à final. Meu adversário era o Diana, aquele que era chamado de Diana porque tinha uma cadelinha chamada Diana. Meu, eu jogava muito mais do que o Diana. Sempre ganhava dele quando nos enfrentávamos no parquê, se bem que, preciso reconhecer, no parquê o mando de campo era meu. Mas jogava mais do que ele em qualquer lugar e, como minha campanha fora melhor, só necessitava do empate para levar a taça e a medalha. Barbada.

Porém, mal o jogo havia iniciado, o Diana, CABUMBA, meteu um gol lá do meio do campo. Mas que bá. Fiquei meio zonzo. Até porque a turma, em volta, vibrou. Pensei: pô, os carinhas estão torcendo pro Diana? Malditos traidores. Fui para cima dele. Pressão total. Só que, por algum motivo, os chutes dos meus atacantes não entravam. Pegava na trave, batia no goleiro, riscava o poste, o zagueirão de três camadas tirava. Não entrava! Aquilo foi me enervando. A partida durava 10 minutos e cinco já haviam se passado.

Lá pelos seis, a bolinha caiu a um palmo do meu meia Rivellino, um puxador de duas camadas muito elegante, azul em cima, branco em baixo, as bordas numa inclinação de 25 graus, que é a inclinação perfeita para um meia de botão. Rivellino. Que jogador! O goleador e maior astro do time. Um verdadeiro ídolo, os outros botões seguiam sua liderança. Pois o meu Riva mandou um chute de revesgueio, a bolinha saiu alta, fez tzin!, chocou-se com o travessão e... gol do David!!!

Para minha surpresa, o pessoal vibrou também! Ah, eles queriam era sacanear. O problema foi que já na saída o Diana deu um chutinho de nada, um pum, mas a bolinha rolou como uma moeda e entrou no meu gol. Faltavam uns dois minutos e meio, a turma não parava de fazer barulho em volta, eu pressionando, eu chutando, eu tentando, e nada.

Aí a bolinha parou diante do Rivellino outra vez. Respirei fundo. O jogo ia terminar. Como diriam os narradores, estávamos no apagar das luzes, não havia tempo para mais nada, era o último cartucho.

Fiz pontaria.

Respirei fundo de novo.

Assestei a ficha em cima do botão.

Anunciei:

— A gol!

O Diana:

— Chuta!

Respirei fundo pela terceira vez. Pensei na taça. Na medalha. Finalmente teria uma taça e uma medalha! Meu coração se apertou, ao lembrar delas, tão faiscantes. E aí minha mão pesou e a ficha escorregou. O Riva deslizou torto, bateu torto na bolinha e, para meu desespero, foi para fora! O jogo terminou. A turma vibrou.

Cara, fiquei nervoso com aquilo de taça e medalha e perdi! É por isso que entendo as exigências de uma decisão. É por isso que sei o valor de quem não se abala numa final.

sábado, setembro 12, 2009

Rui de Carvalho cantando Noel Rosa e João Nogueira


O cantor e compositor Rui de Carvalho me mandou esse convite, mas esqueceu de anexar a passagem aérea. Fica pra próxima:

Amigo, só pra lembrar:

Hoje, dia 12 de setembro, sábado, no Memórias do Rio (Gomes Freire, 287, quase esquina com a rua do Senado), tocaremos das 21 às 23h30. Eu vou cantar Noel Rosa e João Nogueira com o grupo e depois será improvisada uma Roda de Samba, com Zé Arnaldo e o Samba na Cabeça, como aquela que fazíamos no Bar Plural. Sejam bem-vindos!

Estaremos festejando o aniversário da Isa, filha mais velha do meu querido amigo e parceiro Zé Arnaldo Guima. Mais informações no flayer em anexo. Ouça Rui cantado Noel no www.myspace.com/ruidecarvalho

O dia em que o Batman entrou na maior gelada da paróquia


Na eleição de 1998, o deputado federal Luiz Fernando Nicolau (PPB), candidato à reeleição, elegeu como alvo preferencial o governador Amazonino Mendes (PFL), seu desafeto há quase quinze anos. No papel de uma das principais estrelas da oposição, Luiz Fernando criou gosto pela coisa e só batia no governador da sobrancelha pra baixo.

Enquanto a arena estava circunscrita aos palanques dos comícios, Amazonino tirava de letra. Mas bastou começar o horário eleitoral, para a irritação do governador ficar quase incontrolável, e sua diabetes, idem.

Não era para menos. Dia sim, dia não, lá estava Luiz Fernando dando bordoadas no “Negão”, sem dó nem piedade. Coordenador da campanha de reeleição do governador, o marketeiro Egberto Baptista reuniu o comitê de campanha e abriu o jogo: “Assim, não dá. O Luiz Fernando está batendo pesado no Amazonino e ainda não vi um candidato nosso partir para o contra-ataque. O governador não vai responder às ofensas porque é candidato majoritário e não vai se nivelar por baixo com um candidato proporcional. A briga dele é em outro nível. Agora, cacete, a gente precisa arranjar um cara pra dar porrada no Luiz Fernando. E tem que ser logo, eu preciso desse nome agora.”

Foram disparados dezenas de telefonemas para os candidatos a deputado federal pela situação, mas cada um deles deu uma desculpa convincente: “Meu perfil não é de bater-boca com outro candidato”, “Eu sou evangélico, não vai pegar bem eu me meter nessa baixaria”, “O negócio é não repercutir as bobagens do Luiz Fernando, que só quem ganha com isso é a oposição” e outras pérolas do gênero. A cada nova desculpa, mais o Egberto ficava irritado. O deputado estadual Ronaldo Tiradentes sugeriu o nome de um candidato que poderia resolver o problema: José Costa de Aquino, o Carrapeta.

– Carrapeta? Quem é esse cara? – perguntou Egberto, cada vez mais mordido.

– É um dos nossos candidatos a deputado estadual. Apesar de polêmico, ele já foi deputado estadual e vereador várias vezes. Hoje tem um programa diário, na TV Rio Negro, onde aparece fantasiado de Batman ou de outro super-herói dos gibis, numa cruzada contra o crime organizado. O bicho é meio desabusado, esculhamba com todo mundo, não tem medo de nada! – explicou o radialista Jefferson Coronel, na época Secretário de Comunicação do governo.

Carrapeta foi chamado às pressas ao comitê e tratado a leite de pato. Egberto lhe explicou a situação e garantiu: “Se você topar, a gente te coloca no ar diariamente”. Carrapeta, metido a caboco suburucu do cuião roxo, topou na hora e pediu para ver o script, que eu havia rascunhado.

O publicitário Renato Pitanga se encarregou de ler o roteiro: “O background terá uma música incidental do filme Batman Forever. O símbolo do homem-morcego ocupa toda a tela. Luz decrescendo. Carrapeta aparece no vídeo, fantasiado de Batman, com um par de algemas no cinto de mil utilidades. Olhando para a câmera, ele diz: “Este aqui é o meu presente de Natal para o deputado Luiz Fernando”, e mostra o par de algemas. Em seguida aparece no canto da tela uma foto do Luiz Fernando, quando...”

– Peraí! – Carrapeta interrompeu a leitura do publicitário. “Vocês querem que eu apareça na televisão, vestido de Batman e com uma algema para prender o Luiz Fernando?...”

– É isso, aí! Não é assim que você aparece no seu programa?... – argumentou Jefferson Coronel.

– Bom, gente, mas lá é diferente! – apartou Carrapeta, já ficando mofino. “Se eu faço uma coisa dessas, no outro dia o Luiz Fernando manda me dar uma surra com galho de goiabeira!...”

– Cara, essa pode ser uma boa idéia! – apartou Renato Pitanga. “No segundo dia, você entra com a roupa do Batman em farrapos, cheios de hematomas e diz, olhando pra câmera: ‘Aquele criminoso mandou seus capangas me baterem. Mas a Liga da Justiça está atenta. A partir de hoje, quem vai prender o Luiz Fernando é o Homem-Aranha.’ Aí, a gente faz uma fusão e você já aparece com o uniforme de Homem-Aranha, soltando os cachorros em cima do deputado, mais super-herói do que nunca!”

– Vai ser um sucesso, cara! – reforçou Ronaldo Tiradentes. “Isso vai ser matéria até do Fantástico! A repercussão vai ser tão grande que o Boris Casoy e o Jô Soares vão querer te entrevistar!”

– Vocês não conhecem o Luiz Fernando – suspirou Carrapeta, visivelmente nervoso. “Ele vai mandar dar uma surra em mim e em cada parente meu. Não vão escapar nem as mulheres.”

– Eu ligo agora mesmo para o secretário de Segurança Klinger Costa e te arranjo seis policiais militares, pra ficarem contigo 24 horas por dia. Eles vão te acompanhar até ao vaso sanitário, se for preciso – insistiu Egberto.

– Com o Luiz Fernando, isso não vai funcionar! – desmontou o Carrapeta.

E, aos prantos, começou a implorar:

– Me tirem dessa, pelamor de Deus, que eu tenho dois netinhos pra criar. Se for preciso, vocês podem vetar meu nome no horário eleitoral, cancelar a minha candidatura, suspender o meu programa na TV Rio Negro, mas me tirem dessa. Pelamor de Deus, me tirem dessa. É só o que eu peço, me tirem dessa!

Egberto queria expulsar o Homem Morcego da sala a pontapés, mas foi contido.

Carrapeta perdeu a eleição, perdeu o programa de televisão e perdeu a mística de super-herói do zé-povinho. Só que até hoje nunca contou pra ninguém porque tem tanto medo do Luiz Fernando.

Os conhecidos vilões Pinguim, Charada e Coringa estão loucos para descobrir o mistério e acabar com o reinado do Batman também em Gotham City...

Porque hoje é sábado!


Nós, na casa da Gracionei Medeiros: No primeiro plano, eu, Dora Tupinambá e Renato Pitanga. No fundão, Álvaro, Davi Almeida, Jorge Álvaro, Dinari, Alberto e Ana Domingues (não deu pra identificar o sujeito coberto pelo Pitanga. Foda-se.)

Entre as poucas coisas que nos fazem brigar (eu e a Dinari), uma delas é eu ficar enchendo a cara de uísque até amanhecer o dia (não tenho pressa), com o aparelho de som no volume máximo tocando house music. Bobagem. Aqui perto de casa há uma igreja de crentes cujos hinários enlouquecidos me deixam à beira de um ataque de nervos. Nunca reclamei.

Do outro lado da rua, em frente de casa, há uma família distinta (a matriarca é a melhor quituteira de tartaruga que já conheci na vida) que tem uma paixão especial por duplas sertanejas. A impressão que me dá é que eles querem reviver aquela festa da peãozada de Barretos aqui no bairro. Utilizam, inclusive, umas caixas de som tamanho família que ficam posicionadas diretamente aqui pro meu escritório. Nunca reclamei.

Duas casas depois da minha, a presepada é samba mauriçola. Do meio dia até meia noite, todo santo dia. Com o aparelho de som no volume máximo, eu tenho que suportar (esse, o termo exato) aquelas porcarias berradas por Alexandre Pires, Rodriguinho, Belo, Exaltasamba, Sorriso Maroto, Art Popular, Boka Loka, Araketu, Gustavo Lins, Jeito Muleke, Guigg Guetto, Revelação, Sem Compromisso, Pixote, Harmonia do Samba e Herlon. Nunca reclamei.

Nessa sexta-feira, eu havia me programado para participar do aniversário de 15 anos do Augusto, um dos filhos diletos do meu brother Geraldo Karaiba, lá pras banadas do Parque das Laranjeiras. De repente a minha macuxi começou a se queixar de dores estomacais. Conhecedor desses argumentos baixos (lato senso), senti que o aniversário havia ido pras cucuias. Aqui em casa, havia uma garrafa de Johnnie Walker Red Label dando sopa. Desconfiei: é com esse andarilho que eu vou.

Telefonei pra moçada da rádio táxi Ajuricaba solicitando gelo pra uísque, umas latinhas de red bull, meia dúzia de cervejas em lata, queijo, azeitonas, salame, essas coisas. Fiquei me divertindo na tevê vendo o presidente, com aquela sua habitual falta de jeito com as regras gramaticais, explicando que a crise passou por causa do pessoal do programa Bolsa Família. Quem tem o nível intelectual do Lula deve gostar muito do que ele fala. Eu, não. Mas nunca reclamei.

De repente, toca a cigarra daqui de casa. Fui abrir o portão, era o Renato Pitanga e a França, esposa dele. Pitanga trazia nas mãos uma sacola de gelo. Eu, que ainda não havia tocado em álcool, tomei um susto. Que porra era aquela? O Renato Pitanga havia se transformado em motorista da rádio táxi?...

Desfeito o equívoco (sabedor que eu tinha uísque em casa, ele resolvera trazer uma sacola de gelo. Simples, assim), nos abarcamos para escutar os velhos hits dos anos 70 – em volume alto, capaz de abafar os crentes, os sambistas mauriçolas, os sertanejos, a merda toda. Sem reclamações de parte a parte.

Nós dois nos concentramos na cachaçada. Renato Pitanga, na sua nova paixão (garrafinhas long neck, da Brahma), eu, no meu eterno modismo (Red Label nas pedras). Quando o motorista da rádio táxi chegou com o resto dos suprimentos, a gente já havia começado a fazer uma festa. Dinari e França foram assistir o último capítulo da novela “Caminho pra Índia” e preparar as poções de tira-gosto. Bem feito.

Duas horas depois, telefonamos pro Oliveira (leia-se Bar Snoopy) e o cu da cotia assobiou: ele despachou pra gente aqueles indescritíveis bolinhos de bacalhau, jabá com macaxeira, língua à moda do Porto, pernil escandaloso - uma espécie de "pirarucu à casca" feito de leitão – e duas caixas de long neck. O que era uma festa, virou um fuzuê. O Renato olhava pra os novos suprimentos como se estivesse com seis anos de idade e descobrisse uma locomotiva a pilha embaixo da árvore de natal. Foi um porre de juntar crianças.

Pra quem não sabe, o Renato Pitanga é um dos melhores amigos que tenho. Atualmente, ele mora em Benjamin Constant e dirige a rádio “Encanto do Rio”, que atinge os municípios de Tabatinga, São Paulo de Olivença e Atalaia do Norte. Vivo dando desculpas cada vez mais esdrúxulas pra não colocar os pés naquele canto perdido do mundo. Infelizmente, o repertório está acabando. E ele me cobra uma ida ao alto Solimões cada vez com mais veemência. Devo ir por lá em novembro.

Conheci o Renato Pitanga em 1998, mas tenho a impressão de que somos amigos há pelo menos uns 500 anos. Explico. Dos amigos que ele teve (ou tem) entre os anos 70 e os 80, eu era um brother chegado de quase 90% dos homeboys dele, incluindo a "turma do Canto", que se reunia em frente ao edifício Cidade de Manaus. Não é pouca porcaria.

O fato de a gente nunca ter se falado nesses tempos todos, tendo tantos amigos em comum, credito a sua (dele) falha de caráter. Ele devolve na mesma moeda. Como tenho 53 anos, e ele fez 50 no último dia 24 de agosto, imagino que seja coisa de rebeldia. Coisa de jovem. Só o conheci, fisicamente (ele sempre um pouco mais gordo do que eu, apesar da nossa luta conjunta para desmoralizar as balanças), em agosto de 1998.

Na época, eu era redator da agência Grafite, do Mário Junior. Uma outra empresa, DMP Comunicações, do qual o Mario Jr. era sócio, foi escolhida para fazer a propaganda dos candidatos a deputado estadual e federal do então governador Amazonino Mendes, candidato a reeleição. Ele me escalou para a tarefa.

O secretário de Comunicação, Jéferson Coronel, e o ex-secretário de Comunicação, deputado Ronaldo Tiradentes, me apresentaram pro Renato Pitanga, na presença do Mario Jr., Shibuya (presidente da DMP) e Samuel Hanan, candidato a vice-governador. Única recomendação: não queremos baixaria!

Segui o script direitinho. Eu fazia os textos, os candidatos liam (ou improvisavam em cima) e o Pitanga editava. A gente acompanhava os programas da oposição apenas pra ajustar o discurso, sem nenhum estresse. Era uma moleza tão grande que, um dia, falei pro Pitanga: “Se eu não estiver aqui, você mesmo faz as escaladas – chamadas pro assunto do dia – que eu assumo a presepada. Confio em você!” – e ia me embriagar no Bar do Armando, que sempre fui filho de Deus.

Umas duas semanas depois, Deus me pegou pela palavra. Eu estava no Bar do Armando, numa quinta-feira, desde as 6 horas da tarde, quando fui chamado no telefone do português. Devia ser umas 10 da noite. O Renato Pitanga exigia minha presença imediata no estúdio. Chamei um táxi e fui. Estavam lá Egberto Batista, Samuel Hanan, Klinger Costa e o estado-maior da Policia Militar.

No programa daquele dia, o deputado estadual Eron Bezerra (meu brother!), do PC do B, havia detonado o Samuel Hanan. Entre outras baboseiras, Eron tinha dito que ele havia caído de pára-quedas em Manaus. Era uma idiotice sem tamanho, mas aquilo exigia resposta imediata. E até nisso a oposição havia sido esperta: a gente só tinha até 8h da manhã de sexta-feira para entregar o programa que seria exibido no sábado.

Apesar do meu adiantado estado etílico, pedi pro Samuel Hanan me contar a vida dele, que eu conhecia vagamente. Anotei o que servia e o que não servia. Depois, solicitei fotografias para ilustrar a matéria. Elas chegaram em menos de meia hora. Como não havia scanner no estúdio, o Renato Pitanga filmou as fotografias em alta definição. Já devia ser quase meia-noite. Os nossos locutores oficiais haviam ido dormir.

Depois de alguns minutos de discussão, liberei o Samuel Hanan (“vá pedir votos pro Negão!”), o Klinger Costa e o estado maior da Policia Militar. Egberto Batista queria ficar, mas também o liberamos pra ir atrás de votos, garantindo que deixaríamos uma cópia do programa na portaria do Tropical Hotel, onde ele morava. No estúdio, ficamos eu, Renato Pitanga e o vigia.

Falei pro Pitanga: “Edita essas fotos, desde ele criança até hoje. Depois cola essas imagens dele conversando com a população. A gente vai fechar com a pior fotografia possível do Eron”. Falei pro vigia: “Vá procurar cervejas e não volte sem trazer pelo menos uma dúzia” (o estúdio da DPM ficava defronte ao antigo Parque Amazonense, no Beco do Macedo). Com quinze minutos, a gente já estava caindo nas latinhas de Skol.

Por volta das duas horas da madrugada, eu havia feito o texto completo (quase 8 minutos) e obriguei o Renato Pitanga a fazer a locução. Quase que sai porrada. Ele argumentava que ganhava como editor, não como locutor. Eu argumentava que, pessoalmente, eu nem devia estar ali, naquele horário, participando daquela merda. Devia estar no bar do Armando, enchendo a cara. Mas já que estava ali, a gente precisava fazer o melhor. Não era questão de ideologia. Era questão de profissionalismo. Ele concordou em ler o texto.

Lá pelas quatro, Pitanga começou a gravar. Era uma corrida contra o tempo. “Faltou ênfase na parte tal”, eu dizia. Ele recomeçava. O vigia trouxe uma garrafa de cachaça. Eu, enchendo a burra, oferecia uma dose pra ele soltar a voz, mas o Pitanga recusava. Devia ser mais profissional do que eu. Por volta das cinco horas, falei: “É isso aí! Valeu! Vamos editar”. O Pitanga quase me beijou os pés.

O programa foi pro ar no sábado. Naquele seu vozeirão de locutor de FM, Renato Pitanga ia desfiando a vida do candidato a vice-governador Samuel Hanan: esse cidadão nasceu em Manaus no dia tal, estudou no grupo escolar tal, fez o colegial no grupo tal, se formou na FUA no dia tal, montou a primeira empresa no Distrito Industrial no dia tal, participou da fundação da Utam no dia tal, é professor universitário desde o dia tal, foi condecorado na ONU por conta disso e daquilo, etc.

No final, a gente mostrava o Samuel Hanan sendo abraçado pelos populares em algum canto da cidade e, em off, o Pitanga insistia: “Samuel Hanan é um profissional competente que enche de orgulho qualquer cidadão de bem...”.

Aí, dava uma paradinha, entrava no ar uma foto do Eron Bezerra (barbas desgrenhadas, cara de louco, jeito de marciano, uma das piores fotos que já vi) e o Pitanga continuava: “... enquanto o deputado Eron Bezerra não passa de um comunistazinho mal educado...”. O programa abalou geral.

Na segunda-feira, Amazonino Mendes, Samuel Hanan, Klinger Costa, Pauderney Avelino, Egberto Batista, Jéferson Coronel, Ronaldo Tiradentes, etc, foram lá no estúdio nos parabenizar pela desforra. E exigir que a gente fosse participar da criação dos programas majoritários da Oana, que estavam sem "punch". Mas isso é uma outra história.

Como é que um sacana desses não ia se tornar meu amigo de infância?

sexta-feira, setembro 11, 2009

Atendendo a uma solicitação do Blog da Floresta ("Onde você estava no dia 11 de Setembro de 2001?")



No dia 11 de setembro de 2001, o então prefeito de Manacapuru e atual deputado estadual Angelus Figueira (PV) havia me convidado para um café da manhã no seu apartamento, no condomínio Residencial Florença, ali na Av. Efigênio Sales, para discutir algumas questões políticas de seu novo mandato (ele havia sido reeleito prefeito no ano anterior).

De repente, no meio da conversa, Ricardo Coutinho ligou a televisão da sala (ele não perdia os desenhos animados do programa da Xuxa) e as imagens, em vez de desenhos animados, mostravam uma das torres do World Trade Center pegando fogo. A primeira associação que fiz foi com o pavoroso incêndio do Edifício Joelma, ocorrido no centro de São Paulo, em fevereiro de 1974.

A gente (eu, Angelus, Cezinha, Ricardo, Ezequiel, etc) ficou uns quinze minutos discutindo sobre o que estava acontecendo (nem os repórteres da rede Globo sabiam do que se tratava), quando surgiu no horizonte um novo avião e se chocou com a segunda torre. Ao vivo e a cores.

Alegando que aquilo cheirava a terrorismo, Angelus mudou de canal para a rede CNN. Uma vinheta da emissora esclarecia o assunto: “America under attack” (“América sob ataque”). Pela primeira vez em sua história, o território norte-americano havia sido atacado por estrangeiros.

Só então ficamos sabendo que terroristas da organização Al-Qaeda, liderada pelo bilionário saudita Osama Bin-Laden, haviam sequestrado quatro jatos comerciais para iniciar uma série de ataques suicidas contra alvos nos Estados Unidos.

Um dos aviões atingiu o Pentágono, o comando das Forças Armadas americanas no Condado de Arlington, na Virgínia. Outro, que se dirigiria para o Capitólio, sede do Legislativo, foi abatido no ar ou caiu por conta da reação dos passageiros.

Mas o atentado que ficou para sempre na memória do mundo foi o que demoliu as torres gêmeas do World Trade Center, um dos edifícios mais altos do mundo, marco de Manhattan, no centro de Nova York, causando a morte de 3,2 mil pessoas e o desaparecimento de outras 24.

Em um único ataque, os terroristas causaram mais mortes do que no bombardeio da base naval de Pearl Harbor, no Pacífico, que colocou os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião, morreram 2,4 mil militares americanos.

A violência dos dois atentados foi tal que as duas torres caíram totalmente, como se tivessem sido “implodidas”, numa das cenas mais impressionantes que já assisti ao longo da vida. Outros 25 edifícios nos arredores também sofreram danos. O mundo nunca mais foi o mesmo.

Sexta Filosófica na Livraria Valer


A Associação Cultural Nova Acrópole de Manaus (ACNA-Manaus) e a Livraria Valer realizam nesta sexta, dia 11, o último encontro do projeto Sexta Filosófica. Kelly Botelho Aguiar, vice-diretora da ACNA-Manaus ministrará a palestra Mitologia Indiana – O Bhagavad-Gîta e a Guerra Interior.

As atividades iniciam às 19h, no Espaço Cultural da Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro). A participação é gratuita e aberta ao público em geral.

O Bhavagad-Gîta é uma epopeia indiana que embora traga um nome que nos aparente estranho traz também um conflito que nos é bem familiar – o conflito entre o ser e o não-ser. Será uma visão oriental deste conflito e de sua harmonização.

O projeto

SEXTA FILOSÓFICA apresenta clássicos da mitologia universal e filosoficamente esclarece seus simbolismos. O evento consiste em uma palestra expositiva de uma hora de duração, seguida de 30 minutos para o esclarecimento de dúvidas e discussão.

As palestras aproximam o público de ideias atemporais, que em muito contribuirão para o desenvolvimento pessoal. A mitologia universal traz consigo símbolos que vistos sob a ótica da filosofia à maneira clássica contribuem para o desenvolvimento das potências de bondade, beleza e justiça encerradas no homem.

Os temas abordados do ciclo Mitologia Universal:

Mitologia Celta – O Mito do Rei Arthur e a Saga Humana (24/7);

Mitologia Grega – A Odisseia de Homero e o Sentido da Vida (21/8);

Mitologia Indiana – O Bhagavad-Gîta e a Guerra Interior. (11/9).


Associação Cultural Nova Acrópole de Manaus

É uma associação internacional não lucrativa, de caráter filosófico, cultural e social, fundada em 1957 com a finalidade de promover a filosofia como um conhecimento global que permite conjugar ciências, artes, ética e metafísica, em um ideal de realização humana. Este ideal se realiza por meio de programas concretos de formação teórico-prática em diversos campos de atuação.

Presente em mais de 50 países, nos 5 continentes, reúne milhares de membros ativos e simpatizantes, que se expressam em mais de 15 línguas e representam uma ampla gama de heranças culturais, origens étnicas e crenças, oferecendo um valioso exemplo de convivência e solidariedade. Seus objetivos se expressam pela filosofia eminentemente prática e ativa.

Ao ser integrada por pessoas de todas as idades e níveis sociais, a Nova Acrópole harmoniza princípios de união e colaboração para além de todas as diferenças culturais, sociais ou religiosas. Seus membros e simpatizantes participam ativamente na vida social, docente e profissional das distintas comunidades, por intermédio do voluntariado de seus integrantes.

Serviço

Evento: Sexta Filosófica (Ciclo: Mitologia Universal)
Palestra: Mitologia Indiana – O Bhagavad-Gîta e a Guerra Interior.
Datas: 11/9
Horário: 19h
Promoção: Associação Cultural Nova Acrópole de Manaus e Livraria Valer
Local: Espaço Cultural Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro
Entrada Franca
Contatos: Valer – 3635-1324 / Kelly Aguiar - 9181-4734.

Poetação na Cidade Maravilhosa


Quem dá a dica é meu brother Euclides Amaral: "O poeta (e letrista de plantão) Sergio Natureza lançará o livro de poemas “Minimal Necessário” dia 14 de setembro (segunda-feira) a partir das 19:00 horas no Casarão de Austregésilo de Athayde (Rua Cosme Velho, 599 – Cosme Velho). A entrada é franca & a extração de poemas da camada do pré-sal vai rolar com certeza!"

Quem estiver de bobeira no Rio de Janeiro já pode agendar a parada. Eu recomendo.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Nóis na fita


Filho do jornalista Mario Dantas, do Blog da Floresta, o fotógrafo Michael Dantas, do jornal A Crítica, vai ser agraciado hoje em São Paulo com Menção Honrosa pelo prêmio "Leica Fotografe 2009", aberto à participação de fotógrafos profissionais de todo Brasil.

Daqui da regiao Norte, só o moleque foi escolhido pelo júri da mais importante revista de fotografia do Brasil. O tema desse ano era "Cores do Brasil". Michael fotografou essa "lavanderia" doméstica na Zona Leste. Detalhe: a mãe sai pra trabalhar e deixa o filho preso em casa para que os amigos do alheio não levem as roupas secando ao sol.

Parabéns, homeboy!

quarta-feira, setembro 09, 2009

Aniversário da Karlinha no outro lado do mundo


Eu e Karlinha, durante sua feijoada de despedida de Manaus, na Vivenda Verde, no início do ano

Hoje é dia do aniversário da jornalista Karla Costa, filha da quituteira Maria Costa e sobrinha do publicitário Renato Pitanga. Se ela ainda estivesse em Manaus, a gente iria começar com um happy hour no Galvez Botequim, depois fechar o trânsito no Bar Snoopy e, finalmente, esticar até de manhã na boate Les Gens ou no Café Cancun.

Como ela está morando em Trípoli, capital da Líbia (onde o álcool é expressamente proibido), vai se contentar em dividir um pote de coalhada azeda de leite de cabra com seu marido Ricardone Ricardini, engenheiro da Odebrecht, e depois varrer a casa. Bem feito.

Leio que os italianos derrotaram os turcos otomanos na região de Trípoli em 1911 e permaneceram na Líbia até 1943, quando se deram mal na II Guerra Mundial. A Líbia, então, foi administrada pela Organização das Nações Unidas até 1951, quando se tornou independente.


Em 1969, o coronel Muammar Abu Minyar al-Kadhafi assume o poder depois de um golpe de estado que derrubou o rei Idris I. Torna-se presidente do Conselho Revolucionário, comandante do Exército e este ano completa 40 anos no poder.

Kadhafi implanta um sistema político próprio. Em “O Livro Verde”, escrito em 1973, descreve a Terceira Teoria Universal, uma combinação do socialismo com o islamismo, derivado em parte de práticas tribais. Para o coronel, tal sistema político deve ser implementado pelo próprio povo líbio, numa forma única de “democracia direta”.

No início do ano, ao assumir a presidência da União Africana, Kadhafi disse que o melhor sistema político é o da Líbia, onde não são permitidos os partidos de oposição. O presidente Lula adorou a idéia. O coronel Chavez já está tentando implantar o sistema na Venezuela. O cocalero Evo Morales pretende ir pelo mesmo caminho.


De qualquer forma, como verdadeira jornalista militante e pessoa antenada com o que acontece no resto do mundo, a Karla deu um bocado de sorte: desde fevereiro deste ano, dezenas de jornais e de publicações estrangeiras estão legalmente à venda na Líbia, depois de mais de 25 anos de proibição.

Basta lembrar que na sequência do golpe de Estado do coronel Kadhafi contra o rei Idriss, a paisagem midiática foi dominada pelo gabinete geral da imprensa líbia, que administra três jornais diários, e todos os valores ocidentais (imprensa livre, entre eles) jogados no lixo da história.

Somente em 2007, a editora Al-Ghad, uma empresa privada de jornalismo pertencente a Seif Al-Islam, um dos filhos de Muammar Kadhafi, lançou dois diários independentes, que quebraram os tabus tradicionais publicando críticas ao governo e defendendo os opositores exilados, assim como a primeira cadeia de televisão privada do país.

Mas, ainda hoje, pra uma mulher acessar a internet é necessária uma autorização expressa do coronel Kadhafi, referendada pelo tutor legal da infeliz – no caso o marido, o pai, o avô, o tio mais velho ou um dos irmãos. Como a Karla já consegue surfar na rede (durante meia-hora, sempre entre as duas e as quatro horas da madrugada, em dias alternados), desconfio que esse pequeno problema já foi sanado.


Nos últimos três meses, a Karla tem ligado pra Maria aos prantos porque é obrigada a ficar trancada na cozinha toda vez que algum cidadão líbio entra na sua (dela, Karla) própria casa. E porque tem que caminhar nas ruas sempre atrás, mantendo uma respeitosa distância de dois metros do marido, como um cãozinho ensinado. E porque não pode abrir a boca em lugares públicos. E porque se, ao sair de casa, esquecer de colocar um véu ou uma máscara cirúrgica corre o risco de ser currada à luz do dia (à noite ela não pode sair nem comboiada pelas forças de segurança da ONU). E porque só pode ir pra praia se estiver de burca. Enfim, a Karla chora por pequenas bobagens.

Ora, ora, ora, eu falei a respeito disso tudo durante uma feijoada de despedida da jornalista, antes de ela se mandar da taba, mas a Karlinha pensou que eu estivesse de sacanagem. Bem feito.

Entre outras coisas, avisei: as empresas estrangeiras que atuam na Líbia precisam importar mão-de-obra. O cidadão líbio médio não se sujeita ao trabalho braçal. Quer um cargo de chefia, mas não possui qualificação.

A maioria dos trabalhadores vêm da Ásia e de outros países africanos. Algumas empresas chegam a administrar empregados de mais de 20 nacionalidades em seus canteiros de obras. Ocidentais não-muçulmanos que trabalham nas obras locais lamentam a proibição de consumir bebidas alcoólicas. Também sofrem com as barreiras culturais.

Olhar para uma mulher líbia na rua é praticamente pedir para ser degolado a golpes de cimitarra. Pornografia também é proibida no país. Contrabandear uma revista Playboy dá expulsão por justa causa. Apesar das proibições, consegue-se comprar cerveja, uísque e outras coisas no mercado negro, mas você tem que se embriagar escondido dentro do banheiro.

De qualquer forma, desejo a Karla Costa um feliz aniversário. Noblesse oblige.

E pra quem quiser conhecer mais um pouco sobre a Líbia recomendo clicar aqui, e conferir esse texto escrito por um companheiro de infortúnio, digo, de trabalho do marido da Karlinha.

Os novos bárbaros já estão no corredor


Diferente de Coari, nos territórios ocupados pelo Hamas a pedofilia é admitida oficialmente, incentivada e reconhecida como de "utilidade pública". Esse bando de "noivinhas" está se preparando para a grande lua-de-mel com essa cambada de marmanjos. Não sei não, mas, lendo essa notícia, o ex-prefeito Adail Pinheiro deve estar dizendo, "meu reino por um camelo!" com a bunda voltada para Meca. Para ler a matéria completa, clique aqui. Pode?

terça-feira, setembro 08, 2009

Morre o inesquecível professor Heyrton Bessa


Márcia Siqueira e Sidney Rezende curtindo a dupla premiação

Cheguei de Itacoatiara na manhã desta terça-feira. Assim que o humor voltar, farei um relatório circunstanciado a respeito do “Festival dos Festivais”, o slogan oficial da 25ª edição do evento. Pra quem ainda não sabe, a música “Dança”, de Sidney Rezende, interpretada por Márcia Siqueira, abiscoitou o 1º lugar (Márcia também ganhou o prêmio de melhor intérprete). A música “Oriente Amazônico”, de Zé Beto Correa, interpretada pelo próprio, ficou em 2º lugar. Em terceiro, “Faróis”, de Candinho, interpretada por Lili Andrade.

Na Velha Serpa, tomei conhecimento das mortes prematuras de dois outros amigos, ocorridas recentemente: o baterista Almir Fernandes, que durante quase dez anos foi um dos músicos da banda oficial do Fecani, e o artista plástico e médico Ademar Brito, um dos fundadores da banda do Mandy’s Bar, a pioneira do carnaval de rua amazonense. Foi um baque fodido.

Bom, mas se a internet daqui é assim, imaginem a de Itacoatiara... Durante cinco dias – de quinta-feira a segunda – não consegui sequer abrir meus e-mails. Resultado: a caixa ficou superlotada com mais de 600 informes. Num dos primeiros que abri, um novo choque: Geraldo Katatau participava sua tristeza pela perda do irmão Heyrton.

Puta que pariu, eu fiquei tão mareado que escrevi de volta pra ele, solicitando confirmação do fato. Não precisava. Em um outro e-mail, enviado no domingo, Geraldo anexara a belíssima crônica do Ribamar Bessa, publicada no mesmo dia, no Diário do Amazonas, que estou transcrevendo na íntegra. Que merda!

Conheci o Heyrton Bessa em 1971, quando eu cursava o 1º ano de Eletrotécnica na ETFA e ele era professor de Física. Suas aulas eram inesquecíveis, uma espécie de permanente alumbramento. A facilidade com que ele transformava os conceitos mais espinhosos de cinemática em postulados acessíveis por qualquer pessoa com mais de um neurônio na chacola era digna de figurar em galerias de arte. Um gênio sem idiossincrasias, um educador na mais completa acepção da palavra, um amigo solidário em constante estado de bom humor!

Lembro que, no meio das aulas, ele parava o discurso e fazia um teste-relâmpago sobre o que acabara de explicar. Quem resolvesse a questão por primeiro ganhava um ponto para a prova mensal. Eu fiquei tão fissurado nesses testes, que estudava antecipadamente as matérias que ele ainda ia ensinar. De cada dez questões propostas, eu era o primeiro a matar a charada em pelo menos seis vezes (e isso em uma turma de 50 moleques).

Por conta disso, às vezes eu chegava na prova mensal com 12 pontos na carteira (ele assinava o papel com as respostas corretas de cada teste e na hora de lançamento das notas bastava apresentar no “caixa”, que os pontos eram computados na nota final). Pra eu começar a vender os meus pontos para os piores alunos da classe, foi conta de multiplicar.

Como o Heyrton sabia que eu era filho de um operário da Reman e que, portanto, estava dando os meus pulos para garantir os trocados da passagem de ônibus (na maioria das vezes eu ia a pé da ETFA, na Sete de Setembro com a Duque de Caxias, para a minha casa, lá na Parintins com a Borba, uma verdadeira maratona para um moleque de 15 anos), sempre fez vista grossa para a traquinagem.

Claro que ele sabia quem era o verdadeiro dono dos pontos apresentados por Frank Seixas, Zé Magro, Samuel, Papagaio, Jacy, Nego Alexandre, etc. Se não, como explicar que eles tivessem se saído tão bem nos testes-relâmpagos e depois se fodido nas provas mensais? Mas como ele nunca esteve interessado em foder a vida de alguém, computava os pontos pra quem apresentasse o papel com a sua assinatura. A exemplo do jogo do bicho, pro professor Heyrton valia o escrito.

Das centenas de professores que tive ao longo da vida, ele foi o que mais me influenciou. Quando me formei na ETFA, já acalentava o sonho de ser físico nuclear. No ano seguinte, em 1974, fiz vestibular pra Licenciatura em Física, na FUA, onde estudei por três meses. Aí, tive que optar entre trabalhar e estudar – o curso da FUA era diurno – e acabei trancando a matrícula.

No meio daquele mesmo ano, passei no vestibular da UTAM pra engenharia eletrônica (curso noturno) e acabei arquivando o velho sonho. Mas o brilhantismo, a integridade, a dimensão humana e o bom humor do Heyrton sempre foram uma referência existencial ao longo de minha vida. Saber que nunca mais vou vê-lo me deixou com um gosto amargo na boca. A crônica do Ribamar Bessa só reforçou aquilo que sempre intui de uma maneira ou de outra: Heyrton era um autêntico gênio da raça. Deo gratias tê-lo conhecido pessoalmente. E à família enlutada, os sinceros pêsames desse escriba.


Clã Bessa, da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Lucinha, Eduardo, Heyrton, Juliana (falecida), Marta, Geraldo, Elisa, Gugu e Dodora

Taquiprati – Diário do Amazonas - José R. Bessa Freire – 06/09/2009

O NETO DA VOVÓ

De onde é que tio Eduardo tirou aquele nome? Ninguém sabe. Mas da Bíblia, que ele lia diariamente, não foi. Não existe, nem no Antigo nem no Novo Testamento, profeta, apóstolo, evangelista ou santo chamado Heyrton. Foi, porém, com esse nome raro – Heyrton - que batizou o filho, pimbudo e ligeiramente estrábico, nascido em 1937, num seringal em Sena Madureira (Acre). O primogênito encabeçou uma lista de quarenta netos da vovó Marelisa, reinando durante algum tempo, soberano, como primeiro e único, até o nascimento dos demais.

Quase todo mundo tem apelido. Mas, engraçado, o Heyrton não! É fácil explicar. Um dos irmãos dele, por exemplo, reconhecido internacionalmente pelo nome artístico de Djwery Power, seria um ilustre desconhecido, se fosse apenas um Geraldo qualquer. Isso porque, em toda família que se preza, há sempre um Geraldo. Djwery Power, porém, só tem um. Aqui, o apelido é que confere a singularidade, a notoriedade.

Não é o caso do Heyrton, que carece de apelido, posto que só três seres no planeta – e olhe lá! - giram a cabeça, quando escutam esse nome: os dois Heyrton, pai e filho, e um cachorro de raça, na Bélgica que, por sua fidelidade e beleza, deu origem ao “Troféu Heyrton da Planície de Flandres”, se o Google não mente.

Na boléia

Aos quatro anos, sem ter freqüentado escola, Heyrton olhou uma placa e soletrou em voz alta: E-pa-mi-non-das, nome da avenida que corta a rua Monsenhor Coutinho, no centro de Manaus, onde vovó morava, num casarão com porão e jardim. Assombrou a família. Passou a ser atração dos vizinhos, lendo manchetes do Jornal do Commércio, como a notícia do bombardeio de Pearl Harbor pelos japoneses, em dezembro de 1941.

Foi assim que os netos cresceram, ouvindo essas e outras façanhas, enriquecidas ao longo do tempo com novos detalhes, recriados nas reuniões familiares, que eram muitas, naquela Manaus dos anos 1950, onde as famílias viviam tribalmente. A casa da vovó era uma grande maloca, com cheiro de tabaco do cachimbo, que ela pitava, e de café, que ela pessoalmente pilava. Ora tibis! Como era bom o cheiro da vovó!

Maloca aglutinadora. Ela unia e reunia a tribo. Nas noites quentes de Manaus, enquanto os adultos discutiam a empresa de ônibus estatal Transportamazon, criada pelo PTB local, os netos de todas as idades se aboletavam na carroceria de uma fubica do tio Manoel, dirigida pelo Heyrton, já com 18 anos, olhado por todos com reverência e admiração. A fubica descia a João Coelho e subia o boulevard até a Caixa D´Água, no meio de muita algazarra. Era uma senhora aventura! O lugar dele, na boléia, nunca foi questionado.

Logo depois, Heyrton encontrou Rosilene, paixão fulminante, com quem casou, levando a sério o “até-que-a-morte-nos-separe”. Quando o genro predileto, anos mais tarde, lhe prestou homenagem, batizando suas próprias úlceras – eram duas - com os nomes de Rose, uma, e de Lene, a outra, o sogro fez um comentário matemático: “É. Ela vale mesmo por duas”.

Graduado em química, Heyrton fez a pós-graduação em física, na Universidade Federal do Paraná, onde nasceu a primeira filha. De regresso a Manaus, trabalhou como pesquisador do INPA e de lá saiu, concursado, para lecionar física na Universidade Federal do Amazonas e na Escola Técnica Federal de Manaus. Suas aulas inesquecíveis lhe renderam homenagem dos alunos, que batizaram, com o nome dele, o Laboratório de Iniciação Científica.

Era seresteiro. Tocava violão e piano. Foi a primeira pessoa que ouvi cantar em espanhol: “Malagueeeeeeeña, salerosa”. Depois, a partir dos anos 1970, as noitadas de dominó e as conversas regadas à cervejinha, que ele tanto apreciava, foram tecendo relações sólidas de afeto e cumplicidade. Deixamos de ser primos. Passamos a ser irmãos, compartilhando reflexões, entre outras, sobre a educação dos filhos.

Defendeu com pensamentos, palavras e obras o direito de cada um decidir sobre sua própria vida, sobretudo seus filhos, cuja liberdade de escolha foi sempre por ele estimulada. Era um compromisso radical, que os meninos souberam apreciar e valorizar. Mas não abdicava do seu lugar na boléia: - “Baixinha, vamos combinar assim: você cuida do teu câncer, que eu cuido do meu” – ele disse pra filha mais velha, com câncer de mama, que tentava, no desespero, encaminhar o tratamento do pai.

Estou indo

No início dos anos 1990 – ele já aposentado – nossas famílias mudaram para Niterói, de onde essa coluna passou a ser remetida semanalmente até os dias de hoje. Ele dizia que era um caso singular, alguém ter que andar quase dois quilômetros - a distância entre nossas casas - para se comunicar via internet. É que, analfabeto digital, eu lhe levava um disquete com a crônica semanal. Ele me hospedava na sua home-page – Cidade Virtual dos Bessa e Birutério – e era de lá que repassávamos o artigo.

A coluna, antes de ser enviada ao jornal, era lida por ele, a quem eu solicitava críticas, argumentando: - “É para o controle de qualidade”. Suas observações, quase sempre incorporadas, me davam segurança. Heyrton tinha um raciocínio lógico, científico, rigoroso, que usava para olhar o mundo, os fatos, o cotidiano, com a precisão de um cirurgião ou de um relojoeiro, mas com um humor discreto, elegante, comedido, refinado. Era enxuto, não apreciava a verborragia nem a retórica ribombante.

Um dia, em julho de 1995, a coluna fez gozação com o prefeito de Manaus. Aí, um vereador puxa-saco, que sequer havia sido mencionado, subiu à tribuna e esculhambou o Taquiprati, só pra mostrar serviço. O troco veio na semana seguinte, procurando, porém, poupar a irmã do bajulador, uma figura doce, que merecia explicações. A sugestão do Heyrton foi substituir um parágrafo de quinze linhas por um recado fulminante que dizia tudo: “Peço desculpas, mas teu irmão atirou primeiro”.

Seu humor funcionava como uma fisgada sutil, ágil, de onde aflorava a verve popular. Os quatro testamentos do Judas, publicados em versos, em anos diferentes, foram redigidos por ele. No ano passado, Judas não poupou nem o Eduardo Braga: “E pro povo do Amazonas / governado pelo Dudu / deixo apenas a esperança / de não mais tomar na rima”. No testamento de 1987, Judas contemplou o então vice-governador: “Vivaldo Frota a ti deixo / neste claro mês de abril / pra curar tuas hemorróidas / tubinhos de Cola Mil”.

Cada ano, a família comemorava o aniversário de nós dois, com uma única festa, celebrada no mesmo dia. O último foi há menos de dois meses, quando somando as idades, completamos 134 anos. Sopramos as velinhas correspondentes que enfeitavam o bolo, onde aparecia impressa a foto da vovó cercada dos netos. De lá para cá, seu estado de saúde se agravou celeremente, o que podia ser constatado em cada visita.

Domingo passado, falamos sobre a morte. Quem puxou a conversa foi ele, quando perguntei: - “E aí?”. Respondeu sereno, digno, quase altivo: - “Estou indo. Contrariado, mas sem medo”. Enquanto o neto da vovó se ia, lembrei o poeta Vallejo: “Tanto amor y no poder nada contra la muerte”.

Se você entrar agorinha no blog e clicar em “Perfil do Heyrton”, vai ler essa frase: “Heyrton não fez nada de novo recentemente”. Não é mais verdade. Fez sim. Nessa quinta-feira, dia 3 de setembro, às 13:30hs, ele foi embora, em paz, segurando a mão do filho e da filha, cercado do carinho da família, em casa, como queria, mantendo a lucidez até o final.

Teve uma única mulher, três filhos e seis netos, mas deixou muitas viúvas e dezenas de órfãos. Sou um deles. No próximo ano, completo, na maior solidão, apenas 63 anos, com a dor dos 73 que se foram. Rose perdeu seu companheiro de meio século. Dodora, seu mano de toda a vida. Os filhos, o pai exemplar. Todos nós perdemos o patriarca, o primo, o irmão, o tio, o avô, o conselheiro, o parceirinho querido de tantos dominós, porém ficou sua referência ética. O leitor da coluna também perde seu “controle de qualidade”, a rima e a veia poética desse cavalheiro de fina estampa. Ele se foi, levando com ele o cheiro da vovó.

A grande pedida do próximo sábado




(clique na imagem para ampliar)

quarta-feira, setembro 02, 2009

Histórias do Clube da Madrugada (1)


Setembro de 1958. Desconfiados de que o escritor, poeta e crítico literário padre Nonato Pinheiro atracava de popa, os intelectuais ligados ao Clube da Madrugada incumbiram o poeta Luiz Bacellar de tirar a prova dos nove. O poeta monarquista não se fez de rogado.

Uma tarde, Bacellar e padre Nonato estavam tomando umas cervejas no bar Alemão, na rua Marechal Deodoro, e conversando sobre os poetas simbolistas franceses, quando, sem mais nem menos, Bacellar fez uma pergunta aparentemente inoportuna:

– Padre, dar o cu é pecado?...

O padre Nonato tomou um susto.

– Que é isso, Bacellar?! Eu estou aqui falando sobre Rimbaud e Verlaine e você me vem com uma pergunta dessas? Pôxa, assim não dá... Mas como eu ia dizendo, Verlaine leva a musicalidade e o efeito sugestivo das palavras a um limite até então desconhecido na literatura européia. Somos atingidos pelo efeito dos ritmos e dos sons de qualquer poema simbolista, mesmo que não conheçamos profundamente o idioma em que ele foi escrito.

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já ficando levemente embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, dar o cu é pecado?...

O padre começa a ficar cabreiro:

– Que é isso, Bacellar?! Eu estou aqui recitando um dos melhores poemas de Verlaine e você me interrompe com uma pergunta dessas? Pôxa, meu amigo, assim você está ficando inconveniente... Mas como eu ia dizendo, Verlaine deixou os mais célebres versos desta sedução do movimento simbolista pela música em Canção de outono: Le sanglots longs / Des violons / De l’automne / Blessent mon coeur / D’une langueur / Monotone. Quer dizer, nós somos atingidos pelo efeito dos ritmos e dos sons de qualquer poema simbolista, mesmo que não conheçamos profundamente o idioma em que ele foi escrito. Perceba essa tradução do referido poema de Verlaine: Os lamentos longos / Dos violinos / Do outono / Ferem o meu coração / De um langor / Monótono.

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já ficando meio embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, me explique de uma vez por todas: dar o cu é pecado?...

O padre ameaça perder as estribeiras:

– Olha, Bacellar, não sei por que você insiste nesse assunto, mas já estou ficando incomodado... Pôxa, nós dois aqui, conversando sobre coisas do espírito e você me faz uma pergunta estúpida dessas?... Assim, é melhor a gente ir embora... Bom, mas como eu estava dizendo, o nosso grande poeta Cruz e Souza foi especialista na utilização de imagens ousadas como efeito de sugestão e encantamento musical. Mesmo a morte, na obra do simbolista brasileiro, possui uma terrível musicalidade: A música da Morte, a nebulosa, / Estranha, imensa música sombria, / Passa a tremer pela minh’alma e fria / Gela, fica a tremer, maravilhosa...

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já totalmente embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, só entre nós dois: dar o cu é pecado?...

O padre Nonato sorveu lentamente uma nova tulipa de cerveja, retirou e limpou os óculos num lenço imaculadamente branco, recolocou os óculos, encarou Bacellar nos olhos e informou:

– Olha, Bacellar, desde que seja com moderação...

No dia seguinte, após o relato do poeta monarquista, os intelectuais do Clube da Madrugada teriam suas suspeitas confirmadas.

terça-feira, setembro 01, 2009

Nos tempos da Redentora


O imponente prédio de três andares da área de administração da Sharp do Brasil

Agosto de 1978. Funcionário da Sharp do Brasil desde 1973, onde entrara com 17 anos, eu tinha tudo para ser um executivo bem sucedido: engenheiro eletrônico formado na primeira turma da Utam, cursava o 2.º ano de Administração na FUA, era assessor técnico do Diretor Industrial (Antônio José Areosa, filho do ex-governador Danilo Areosa, que era o Diretor Superintendente) e homem de confiança de Matias Machline, o dono da empresa. Na época, a Sharp era a maior empresa da ZFM com cerca de 5 mil funcionários e três unidades fabris.

A partir de 1975, de vez em quando eu era despachado na sexta-feira à noite pra São Paulo levando documentos sigilosos para serem entregues pessoalmente na mansão do Morumbi, onde morava o clã Machline, e retornava pra Manaus na noite de domingo trazendo novos documentos, também sigilosos, para serem entregues na Suframa.

Eu aproveitava essas viagens para também levar alguns discos importados para o primogênito do empresário, José Maurício, que tinha a minha idade, pequenos mimos para a dona Carmem, enviados pelo Tomzé Areosa, e algumas engenhocas eletrônicas para o caçula, Paulo, então com nove anos. Com os dois outros filhos do empresário, Sergio e Carlos Alberto, meu relacionamento era apenas protocolar.

Além de pombo-correio de luxo, comecei a participar de outras traquinagens altamente sigilosas, incluindo “contrabando” de peças de reposição para as assistências técnicas da empresa espalhadas pelo país, já que a legislação vigente impedia a importação das peças pelas vias legais. Como já se passaram mais de trinta anos, espero que o crime tenha prescrito.

O “contrabando” era simples. Alguém da minha equipe (Jaques Castro, Francisco Neto, Anselmo, Assis e Zeca Boy, todos técnicos de mão cheia e funcionários de confiança) retirava o chassi de uma televisão ou de um aparelho de som e enchia o aparelho de peças de reposição (válvulas, transistores e circuitos integrados) até ele ficar com o mesmo peso original.

Aí, bastava identificar o aparelho com os dizeres “Segregar no Almoxarifado Central e enviar aos cuidados de Paulo Aratangy – Engenharia de Campo – Sharp do Brasil – São Paulo”, colocava o selo de "internação" e entocava o aparelho-muamba dentro de uma carreta.

Por fax, eu informava ao Paulo Aratangy em que carreta estava seguindo a “encomenda” e a quantidade de componentes enviados, com códigos de fabricação e preço FOB. Não lembro dos números, mas em três anos eu devo ter enviado mais de US$ 800 mil em peças de reposição.


O empresário Sérgio Machline à frente do retrato do pai, Mathias Machline

Em 1977, eu havia passado dois meses no escritório central da Sharp, na avenida Bela Cintra, em São Paulo, sendo treinado para liderar uma reorganização funcional na empresa idealizada por alguns economistas da FGV (nos anos 90, esse procedimento adotaria o pomposo nome de “reengenharia”) e estava prestes a passar uma temporada na terra do Sol Nascente, estagiando na Sharp Corporation, prometida para o início de 79. Foi quando a cobra Norato se mexeu embaixo do cais do porto.

Recém-chegado dos Estados Unidos, onde fizera um curso de pós-graduação no Massassuchets Institute of Tecnology (MIT), o engenheiro eletrônico Geraldo Nogueira, irmão do ex-Secretário de Educação, Vicente Nogueira, e meu colega de turma na Utam, foi contratado, em junho de 78, para me auxiliar na tarefa de “reengenharia”.

A gente logo descobriu o truque embutido na nova organização preconizada pela FGV. Os grumetes nativos (nós, de Manaus, que havíamos colocado a mão na massa e transformado a Sharp numa potência) iriam apenas servir de escada para os executivos paulistas abordarem a embarcação e controlar o navio. Expliquei para o operariado o que estava acontecendo e eles me mandaram ir em frente.

Nas internas, a batalha já havia começado. O atual deputado estadual Liberman Moreno, na época Gerente Contábil da empresa, estava ensinando a legislação aduaneira para um sujeito medíocre que depois, automaticamente, seria seu novo chefe.

O ex-prefeito de Novo Airão, Luis Carlos Areosa, na época Gerente Administrativo, estava ensinando as normas e procedimentos da empresa para um sujeito mais medíocre ainda, que depois também seria seu chefe.

A mesma coisa estava ocorrendo dentro das fábricas (no meu caso específico, dei um pouco mais de sorte: meu “virtual” novo chefe seria o talentosíssimo engenheiro argentino Daniel Dazcal, fundador da Tec Toy e morto precocemente de câncer em meados dos anos 90).

As cartas estavam dispostas na mesa e não havia ponto de retorno. Ou nós partíamos para a radicalização, exigindo que os cargos gerenciais continuassem nas mãos dos amazonenses, ou seríamos simples “lambaios” da paulistada, cuja competência empresarial era bastante discutível (tanto que a empresa faliu...).

Optamos pela primeira via e, em plena ditadura militar, no mês do cachorro louco, fizemos a primeira greve do Distrito Industrial, com paralisação total do operariado.

Durante três dias, eu, Geraldo, Liberman, Luís Carlos, Reinildo, Lean, Sales e os demais gerentes encaramos o aparato militar colocado em campo pelo Matias Machline com o único intuito de nos intimidar.

Na calada da noite, um dos gerentes roeu a corda e nos entregou (eu e Geraldo) de bandeja. Fomos os únicos demitidos no final das negociações.

Machline prometeu mundos e fundos para quem retornasse ao trabalho, afirmando categoricamente que não haveria represálias. Claro que ele não cumpriu o acordo e, nos seis meses subseqüentes à greve, mais de 80% dos gerentes foram substituídos ou simplesmente demitidos.

O diabo é que o famigerado Grupo de Relações Industriais (GRI), uma máfia formada por gerentes e chefes de pessoal do Distrito Industrial, plantou o boato de que aquele movimento nativista estava sendo orquestrado pelos engenheiros eletrônicos da Utam.

Da primeira turma de formandos, quem trabalhava no Distrito foi demitido sumariamente: Engels Medeiros e Carlos Almeida (Evadin), Adalberto de Melo Franco e Paulo Roberto Saraiva (Semp-Toshiba), Aldenir Alencar (Telefunken), e por aí afora. Com os nomes inscritos na lista negra do GRI, nossa única alternativa era tentar o serviço público.


Carlos Almeida e sua filha Tatiana, no dia de casamento da mesma

Em novembro de 78, ainda desempregados, estávamos discutindo o que fazer da vida (assaltar um banco, seqüestrar um empresário paulista, explodir as fábricas da ZFM ou se mudar para o interior) num boteco chamado Farol das Batidas, em frente à TV Amazonas, na Cachoeirinha, quando um sujeito todo de branco passou pela nossa mesa.

Carlos Almeida achou que era o garçom e pediu mais uma nova rodada de batidas. O sujeito explicou que não era garçom, que tinha entrado no bar apenas para comprar cigarros, e a gente caiu na gargalhada. Bêbado ri de tudo.

Quinze minutos depois estaciona ruidosamente uma camionete Veraneio da Polícia Militar em frente ao boteco e descem do carro seis policiais da tropa de choque armados de metralhadoras. Eles encostam as armas nas nossas costelas e começam a nos xingar, numa balbúrdia infernal.

Geraldo e Engels tentam confabular, mas são escorraçados. O sujeito de branco reaparece, aponta para o Carlos Alberto e diz “foi aquele”. Os meganhas se lançam em cima dele, torcem seus braços para trás, algemam, abrem a porta do camburão e o jogam lá dentro, com brutalidade. Aí, ligam a sirene e saem cantando pneus no rumo da Praça Catorze. A cena toda não durou três minutos.

Entramos em pânico, já que naquela época era comum a repressão “sumir” com os inimigos do regime (Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho haviam sido mortos no ano anterior, na PE paulista). Adalberto de Melo Franco me levou à casa do ex-senador Artur Virgilio Filho, que eu ainda não conhecia, onde relatei o ocorrido.

Ele nos mandou procurar urgentemente o Felix Valois ou o Paivinha. Era um sábado, início da noite, e no escritório jurídico mais famoso de Manaus estava apenas o Alberto Simonetti, debruçado sobre um processo volumoso.

Explicamos logo nossa situação: estávamos desempregados e, portanto, sem condições de pagar um tostão furado pela causa. Ele nos tranqüilizou: “Quem mandou vocês aqui foi o nosso senador Artur Virgílio Filho? Então é uma causa justa, meu irmão!”

O Simona agiu como um verdadeiro herói. O sujeito de branco era um coronel aposentado da PM, que dava expediente na Segunda Seção. As prisões efetuadas por ele não eram registradas nos livros de ocorrências das delegacias e o preso ficava no isolamento total.

Para soltar alguém que o tal coronel prendia, somente com uma ordem pessoal do comandante da PM, na época o coronel Oyama. Para completar o quadro, o coronel Oyama havia ido pernoitar em um sítio na Manaus-Itacoatiara.

Até hoje não sei a mágica, mas Simonetti conseguiu falar com o coronel (provavelmente por meio de um rádio-amador), que entrou em contato com o comando geral da PM, na Praça da Polícia, autorizando a liberação do detido.

Com um oficial da PM a tiracolo, Simonetti rodou praticamente todas as delegacias de Manaus procurando pelo detido. Em cada uma delas, o advogado ameaçava processar o delegado plantonista se este estivesse mentindo sobre o paradeiro do rapaz.

Finalmente, por volta da meia noite, ele localizou Carlos Almeida numa delegacia do Japiim, depois que o engenheiro fez um verdadeiro escarcéu ao escutar, da cela, a discussão do advogado com o delegado.

Carlos havia sido colocado no isolamento, junto com o bandido conhecido por “Osga”, que anos depois seria morto pela polícia. Segundo ele, “Osga” havia apanhado tanto que nem conseguia ficar de pé e os policiais já haviam advertido que ele seria o próximo.

Nossa dívida com o Alberto Simonetti, portanto, sempre foi impagável (nos dois sentidos), mesmo porque nós não lhe demos, sequer, o dinheiro da gasolina.

Carlos Almeida é hoje procurador de contas do TCE e professor universitário. O empresário Matias Machline morreu num acidente de helicóptero, nos EUA, em 1994. A justiça decretou a falência da Sharp do Brasil em 2000. Há dois anos, Sergio Machline tenta reerguer a empresa. Torço para que consiga.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Edgar Allan Poe - literatura e revelação


No próximo dia 2 de setembro, às 18h30min, a Quarta Literária da Livraria Valer promoverá um encontro especial em homenagem ao poeta, contista, crítico literário e editor americano Edgar Allan Poe, que completa em 2009 dois séculos de nascimento e 160 anos de morte. Trata-se da palestra intitulada Edgar Allan Poe - literatura e revelação, que será proferida pelo escritor Cláudio Fonseca no Espaço Cultural da Livraria Valer (avenida Ramos Ferreira, 1195 - Centro).

Edgar Allan Poe (Boston, 19 de janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de outubro de 1849) escreveu o famoso poema O Corvo, um dos mais traduzidos do mundo e deu início ao moderno romance policial com Os crimes da rua Morgue. Sua influência se estendeu à poesia simbolista, à ficção científica, ao realismo fantástico e ao romance policial moderno e psicológico.

Poe escreveu novelas, contos, poemas e crítica literária, exercendo larga influência em autores fundamentais como Baudelaire, Verlaine, Borges, Maupassant e Dostoievski. Os contos de horror ou góticos apresentam invariavelmente personagens doentias, obsessivas, fascinadas pelo mistério, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como espectros assustadores de um terrível pesadelo.

Entre os contos, destacam-se O gato preto, Ligeia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice e O barril de amontillado. Os contos analíticos, de raciocínio ou policiais, entre os quais figuram os antológicos O mistério de Marie Roget, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada, ao contrário dos contos de horror, primam pela lógica rigorosa e pela dedução intelectual que permitem o desvendamento de crimes misteriosos.

Em seus contos, Poe se concentrava no terror psicológico, vindo do interior de seus personagens ao contrário dos demais autores que se concentravam no terror externo, no terror visual se valendo apenas de aspectos ambientais. Geralmente, os personagens sofriam de um terror avassalador, fruto de suas fobias e pesadelos, que quase sempre eram um retrato do próprio autor, que sempre teve sua vida regida por um cruel e terrível destino.

Em seus relatos, o delírio do personagem se mistura de tal maneira à realidade que não se consegue mais diferenciar se o perigo é concreto ou se trata apenas de ilusões produzidas por uma mente atormentada.Em quase todos os contos, sempre há um mergulho nas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente, em recônditos desvãos do subconsciente. Por esses aspectos a psicanálise estudou a obra de Poe, uma vez que ela possui uma grande leva de exemplos que ilustram suas demonstrações.

Independentemente desse aspecto, sua obra é lembrada pelo talento narrativo impressionante e impressivo, pela força criadora monumental e pela realização artística invejável, fazendo com que Edgar Allan Poe seja considerado um dos maiores autores de contos de mistérios de todos os tempos e o primeiro verdadeiro crítico literário americano.

O palestrante

Cláudio Fonseca é economista, administrador e professor universitário. É pós-graduado em História e Crítica da Arte, Gestão da Qualidade e Gestão Estratégica Empresarial. Escreveu a peça de teatro Borges - A linguagem do Sonho, ganhadora do Prêmio Governo do Estado, em 2003. Na quarta literária já apresentou a obra de Mário Quintana, Jorge Luis Borges, Baudelaire e Franz Kafka. Cláudio Fonseca estará autografando a segunda edição de seu livro de poemas VITRAL, lançado pela Editora Valer.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Parece que foi ontem...


César Abu, Jaques Castro e esse vosso escriba

No último sábado, meu brother Jaques Castro completou 55 anos bem curtidos. No cardápio, uma suculenta feijoada brasileira preparada no capricho pela quituteira Ângela Castro. Pro pessoal da diretoria – todos apreciadores da gastronomia de caça –, ensopado de tatu canastra, veado-mateiro assado na folha de bananeira e queixada (“porco do mato”) ao molho de vodka, todos preparados pelo chef Nelson Beruri. Não deu pra quem quis.

Entre os velhos amigos que prestigiaram o evento estavam Marcão, Menandro, Eliana Feijó, Renan Freitas Pinto, Stones Machado, Dermilson Chagas, Mestre Pinheiro, César Abu, Gigio Bandeira, Laerte Aguiar, Zé Guedes, Mario Dantas, Áureo Petita, Simas Pessoa, Miltinho, Cachito, Paulo Sérgio, Elesbão, Jurandir e Toinho. A banda Raio da Silibrina garantiu o alto astral do fuzuê, com seu repertório calcado no mais legítimo forró pé de serra nordestino.

Lá pelas tantas, depois de sete garrafas de cachaça de cabeça (tira gosto preferencial: caju e careta!), cinco garrafas de Red Label e umas sete grades de cerveja, bateu uma nostalgia disgramada e o aniversariante começou a se lembrar do tempo em que éramos todos jovens.


Zé Guedes, Stones Machado, eu e Jaques Castro

Filho do saudoso comerciante Humberto Castro, um dos mais poderosos ticoons de Cruzeiro do Sul (AC), Jaques era um playboy das antigas, que adorava destruir carros do ano em “pegas” alucinados e se aproveitar das donzelas incautas da cidade. Seu pai resolveu dar-lhe um corretivo e o despachou para Manaus. Ele foi trabalhar comigo e Engels Medeiros no Controle de Qualidade da Sharp do Brasil.

O papel do Jaques era pilotar um carrinho hidráulico de mão e levar os produtos (chassis da Fiação, chassis da Revisão Elétrica, chassis da Calibragem e aparelhos do Acabamento) para a gente analisar em busca de possíveis defeitos de fabricação. Essa tarefa era feita a cada uma hora, das 7 da manhã às 17h.

Como a gente apenas indicava o aparelho que queria analisar e cabia ao Jaques a tarefa de recolhê-lo (às vezes, ele precisava retirar 60 chassis de um lote até encontrar o escolhido e depois recolocar os 59 chassis de volta no lugar), os chefes de setores começaram a desconfiar que o aloprado acreano estava danificando os produtos.

Com uma semana na empresa, Jaques Castro já era o cara mais odiado pela produção, das montadoras aos chefes de setores. Só não foi demitido porque a gente tinha a última palavra e ele, realmente, era um trabalhador incapaz de se queixar dos xingamentos sofridos e das tentativas de agressão (que não foram poucas). Pra conhecer detalhes dessa história, clique aqui.

Depois de alguns meses, Jaques fez amizade com o César Abu, responsável por pilotar a jurássica máquina de telex da empresa e gerenciar uma das máquinas de xérox do setor administrativo, e os dois acabaram dividindo um “apartamento” no bairro da Glória. Por sugestão deles, algum tempo depois também acabei me incorporando à “república”, que, aliás, já possuía dois outros inquilinos.

O “apartamento” não passava de um ridículo quarto-e-sala, localizado em cima do forno de uma padaria, na Rua do Matadouro, no bairro da Glória, o que garantia uma temperatura ambiente constante em torno dos 35 graus, mesmo em dias de dilúvio.

Além de nós três, moravam no pardieiro o Ruy Johnny Mathis, funcionário da FUA, e “seo” Manoel Vicente, um comerciante português de 70 anos. Como o português passava a noite administrando um boteco nas imediações da igreja da Glória, a gente só se encontrava nos finais de semana.


Sharp do Brasil: do lado esquerdo, a fábrica de televisores. Do lado direito, o almoxarifado e o setor administrativo

Estávamos em 1975. Na época, a Sharp do Brasil era a maior empresa de produtos eletroeletrônicos do Distrito Industrial, com cerca de 5 mil funcionários distribuídos em quatro plantas: fábrica de calculadoras, fábrica de aparelhos de som, fábrica de televisores e almoxarifado central, onde ficavam, também, os setores administrativos e os departamentos auxiliares de produção.

Dos 5 mil funcionários, 4.500 eram mulheres. Dos 500 machos, 400 eram operários. Os demais eram técnicos eletrônicos (uns 50), pessoal administrativo (uns 30) e chefias e gerentes (uns 20). Em termos de precedência hierárquica para abater lebres, nós, os técnicos eletrônicos, só estávamos abaixo das chefias e gerentes. Quer dizer, era que nem pescar em bilha.

O ritual era quase sempre o mesmo. Por volta das 4h da tarde da última sexta-feira do mês, o Chefe de CQ da Sharp do Brasil, o engenheiro egípcio Ali Ahmed, nos chamava em sua sala, nos entregava um envelope pardo e a gente assinava uma folha de pagamento. Dentro do envelope, em dinheiro vivo, os rendimentos mensais de cada um com a descrição detalhada de créditos e débitos.

No dia de pagamento, invariavelmente, nós três saíamos da fábrica diretamente para um supermercado da Casas do Óleo (o saudoso “CO”) e enchíamos três carrinhos de compras: o primeiro apenas com garrafas de destilados (uísque, gim, vodka, cachaça, pisco, rum, etc), o segundo, apenas com garrafas de fermentados (cerveja, catuaba, vinho Raposa, sidra, etc) e o último, apenas com latas (salsichas, almôndegas, sardinha, azeitona, etc). Era esse o nosso cardápio básico.

Por volta das 8h da noite, as fêmeas – nunca menos de seis e nunca repetidas – começavam a chegar ao apartamento. Birita vai, papo vem, César Abu atacava de DJ e as mais saidinhas começavam a dançar entre elas. Daí a pouco, um de nós entrava na roda. Mais meia hora de birita e o quarto se transformava em uma ruidosa muvuca.

Em virtude da temperatura ambiente, a gente normalmente ficava em casa sem camisa e trajando apenas aqueles imensos calções de futebol sem nada embaixo (cueca era coisa de viado!). Pra incrementar a “boate”, alguém começava a apagar e acender a única lâmpada do quarto. Os intervalos entre “claro” e “escuro” iam aumentando. De repente, sem nenhuma combinação prévia, a gente aproveitava um dos intervalos da escuridão para se livrar dos calções, mas continuávamos dançando.

Quando a luz era acesa de novo, havia duas situações: ou as meninas se assustavam com aquela aparição intempestiva dos “bráulios”, davam um grito horrorizado e saíam correndo pelas escadas (a gente morava no segundo andar) ou aproveitavam a deixa pra também se livrarem de suas roupas – o que quase sempre acontecia. E a noite estava apenas começando.


Simas, César, Jaques, Gigio e eu. Lá atrás, de camiseta preta, Laerte Aguiar jogando canastra.

Pra recordar aqueles tempos heróicos (parece que foi ontem), eis a música favorita do DJ César Abu, de preferência na voz da Thelma Houston:

Don’t leave me this way
(Não me deixe desse jeito)

I can’t survive, I can’t stay alive
(Eu não posso sobreviver, eu não posso continuar viva)

Without you love, oh baby
(Sem o seu amor, oh baby)

Don’t leave me this way
(Não me deixe desse jeito)

I can’t exist, I will surely miss
(Eu não posso existir, eu certamente vou sentir falta)

Your tender kiss
(Dos seus beijos suaves)

So don’t leave me this way
(Então não me deixe desse jeito)

Oh baby, my heart is full of love and desire for you
(Oh, baby, meu coração está cheio de amor e de desejo por você)

So come on down and do what you’ve got to do
(Então fique esperto e faça o que você tem que fazer)

You started this fire down in my soul
(Você começou esse incêndio em minha alma)

Now can’t you see it’s burning, out of control
(E agora você não pode ver que está pegando fogo, fora de controle...)

So come down and satisfy the need in me
(Então fique esperto e satisfaça essa minha necessidade)

Cos only your good loving can set me free
(Porque só o seu bom amor pode me libertar)

Don’t leave me this way
(Não me deixe assim)

I don’t understand how I’m at your command
(Eu não entendo como estou à sua disposição)

So baby please don’t leave me this way
(Então, baby, por favor, não me deixe assim)

Don’t leave me this way
(Não me deixe desse jeito)

Cos I can't exist
(Porque eu não posso existir)

I will surely miss
(Eu com certeza vou sentir falta)

Your tender kiss
(Dos seus beijos suaves)

So don’t leave me this way
(Então não me deixe desse jeito)

Oh baby, my heart is full of love and desire for you...
(Oh, baby, meu coração está cheio de amor e de desejo por você)

Don’t leave me this way
(Não me deixe assim)

I can’t survive, I can’t stay alive
(Eu não posso sobreviver, eu não posso continuar viva)

Without you love, oh baby
(sem o seu amor, oh baby)

Don’t leave me this way
(Não me deixe assim)

I can’t exist, I will surely miss
(Eu não posso existir, eu com certeza vou sentir falta)

Your tender kiss
(Dos seus beijos suaves)

So don’t leave me this way
(Então não me deixe assim)

Oh baby, my heart is full of love and desire for you...
(Oh, baby, meu coração está cheio de amor e de desejo por você)