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sexta-feira, julho 29, 2016

O 11º Festival Folclórico do Amazonas (1967)


A Zona Franca de Manaus (ZFM) foi idealizada pelo Deputado Federal Francisco Pereira da Silva e criada pela Lei Nº 3.173 de 06 de junho de 1957, como Porto Livre. Dez anos depois, o Governo Federal, por meio do Decreto-Lei Nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, ampliou essa legislação e reformulou o modelo, estabelecendo incentivos fiscais por 30 anos para implantação de um polo industrial, comercial e agropecuário na Amazônia.

Foi instituído, assim, o atual modelo de desenvolvimento, que engloba uma área física de 10 mil km², tendo como centro a cidade de Manaus e está assentado em Incentivos Fiscais e Extrafiscais, instituídos com objetivo de reduzir desvantagens locacionais e propiciar condições de alavancagem do processo de desenvolvimento da área incentivada.

Eleito governador, no dia 3 de setembro de 1966, em votação simbólica feita pela Assembleia Legislativa do Amazonas, o empresário Danilo Duarte de Mattos Areosa tomou posse no dia 31 de janeiro de 1967, com a incumbência de tirar a ZFM do papel.

Considerado unanimemente o melhor governador do Amazonas durante o período militar, Danilo Areosa nasceu no dia 24 de julho de 1921, em Manaus, filho do comendador Antônio Duarte de Mattos Areosa e de Dona Carlota de Mattos Areosa, portugueses radicados na cidade e que aqui estão enterrados. Sua infância foi vivida em Manaus, onde sua família desfrutava de alto conceito social. Com 18 anos, viajou para Portugal, onde fez o curso de Humanidades, Comercial e Contabilidade em Lisboa.

Retornando ao Brasil, completou a sua formação acadêmica dedicando-se ao comércio e à pesquisa de numismática, sociologia e urbanismo, em cuja ciência aprofundou seus estudos e especializações chegando a ser uma das maiores autoridades no assunto.

Tão logo assumiu o governo, Danilo Areosa elaborou um plano racional de trabalho para os seus quatro anos de mandato, que procurou executar sem fazer alarde, como era de seu feitio.

Assim, logo no primeiro dia de sua administração, reuniu todo o corpo de técnicos do Estado e discutiu em mesa redonda os planos já elaborados, recebendo sugestões e anotando aquelas que julgava necessárias ao êxito de sua administração. Seu gabinete se transformou em uma sala de estudos permanente, onde se processavam as revisões de antigos planos e a ampliação dos já aprovados para a devida execução.

Ele foi o principal responsável pela eletrificação do interior. Do total de 26 usinas termelétricas em pleno funcionamento no fim de seu governo, apenas três não haviam sido construídas por ele (Itacoatiara, Parintins e Manacapuru), mas outras cinco já estavam em fase final de acabamento (Nhamundá, Silves, Itapiranga, Anori e Urucurituba).

Uma das primeiras medidas do governador Danilo Areosa foi criar o Departamento de Promoções e Turismo (Depro), entregue ao jornalista Joaquim Marinho, com a incumbência de estimular a incipiente indústria do turismo. E a grande vitrine para o turismo, na época, ainda era o Festival Folclórico do Amazonas.


Coordenador do festival, o jornalista Luiz Verçosa estava meio acabrunhado em decorrência da baixíssima participação dos grupos folclóricos na pajelança anterior. Era o seu terceiro ano à frente do festival e, no histórico décimo aniversário do evento, ele só havia conseguido 41 agremiações (em 1963, Bianor Garcia havia conseguido a inscrição de 93 grupos e perigava colocar 120 na rua, no ano seguinte, se não tivesse ocorrido o golpe militar...). Alguma coisa estava fora de ordem.

Foi quando ele teve a brilhante ideia de escolher previamente uma Comissão Julgadora de alto nível para ajuda-lo a selecionar os grupos folclóricos que participariam do festival daquele ano, por meio de indicações e sugestões.

Na sequência, enviou um ofício ao governador Danilo Areosa, pedindo seu apoio pessoal para a realização do festival. O governador não só se prontificou em ajudar, como indicou para seu representante legal na referida comissão o próprio secretário de Educação e Cultura, Vinicius Câmara.

Por causa do gigantismo de alguns grupos (a Tribo dos Andirás havia se apresentado na última edição com 300 brincantes!), Luiz Verçosa solicitou do governador um novo tablado de 900 m² (30 X 30m). Foi atendido.

Não bastasse isso, Danilo Areosa disponibilizou antecipadamente no Banco do Estado do Amazonas os valores relativos à ajuda financeira para os grupos folclóricos, baseado nos valores concedidos pelo governador Arthur Reis no ano anterior. Bumbás, Tribos e Pássaros, NCr$ 500,00 (R$ 10 mil, em valores de hoje). Garrotes e Danças Nordestinas, NCr$ 400,00. Danças Regionais e Quadrilhas Adultas, NCr$ 300,00. Quadrilhas infantis, NCr$ 200,00.

O cruzeiro novo (NCr$) foi uma moeda que circulou transitoriamente no Brasil no período entre 13 de fevereiro de 1967 e 14 de maio de 1970. Esse padrão foi criado em virtude da perda de valor do cruzeiro, moeda que estava em vigor desde 1942 e que sofreu enorme depreciação por conta do aumento da inflação ocorrido por conta da instabilidade política e das contas públicas em descontrole.

Em virtude disso, foi preparada uma reforma monetária, na qual a nova moeda recebeu o nome de cruzeiro novo, para se evitar que houvesse confusão de valores entre as cédulas que seriam preparadas para o novo padrão com as do padrão então existente.

Um cruzeiro novo era o equivalente a mil cruzeiros do padrão então circulante, sendo que as cédulas remanescentes do padrão antigo foram carimbadas com valores entre 1 centavo e 10 cruzeiros novos.

Estas cédulas foram sendo gradualmente substituídas pelas novas cédulas que foram colocadas em circulação em 1970, com a retomada da denominação cruzeiro e foram retiradas de circulação entre 1972 e 1975, quando apenas as cédulas do novo padrão passaram a ter valor legal.


Além de Vinicius Câmara, a Comissão Julgadora contava com os seguintes membros: desembargador João Corrêa (presidente), coronel Ernâni Teixeira (comandante da PM), Guanabara Araújo (teatrólogo), Gebes de Melo Medeiros (teatrólogo), Herculano de Castro e Costa (jornalista) e professores Garcitilzo do Lago e Silva, José Braga, Antonieta Coelho, Lourdes Mota e Rubim de Sá.

Nunca ficou claro se as sugestões e recomendações feitas pela Comissão Julgadora foram acatadas integralmente por Luiz Verçosa, mas o certo é que a inscrição de grupos folclóricos naquele ano superou as expectativas mais otimistas: 55 grupos se credenciaram para participar do festival, alguns deles fazendo sua estreia na competição. Um salto significativo de 30% em relação ao ano anterior.

Os grupos foram divididos em oito categorias e a Comissão Julgadora elegeria somente o campeão de cada uma delas:

Bumbás: Caprichoso, Tira Teima, Garantido, Tira Prosa, Rica Prenda e Coringa.

Garrotes: Luz de Guerra, Malhado, Raio de Sol, Mineirinho, Mina de Prata, Sete Estrelas, Canarinho, Pena de Ouro, Pingo de Ouro, Dois de Ouro, Campineiro e Flor do Campo.

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça, Glorianos no Roçado, Escocesa, Juventude na Roça, Soçaite no Interior, Ajuri no Arraial, Jorgeanos no Mamoal, Borboleta de Verão, Flor Selvagem e Matutos Assanhados.

Quadrilhas mirins: Brotinhos do Eldorado, Curumins da Colina, Brotinhos da Ayrão, Caboclinhos do Amazonas, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos da Barelândia, Gaveanos no Roçado, Caboclinhos de Brasília, Araruaminha na Roça, Filhos do Primo do Cangaceiro, Dança de Roda da Tia Júlia e Dança de Roda Ciranda.

Tribos: Iurupixunas, Maués e Andirás.

Danças regionais: Gafanhoto, Peixe Vivo, Cacetinho (Tarianos) e Legendária Sucuriju do Grande Lago.

Pássaros: Japiim, Corrupião e Bem-te-vi.

Danças Nordestinas: Bando de Antônio Silvino, Cabras do Lampião, Cangaceiros da Chapada, Maneiro Pau e Primo do Cangaceiro.

A Comissão Julgadora também instituiu o prêmio “Raimundo Nascimento Fonseca – Zé Ruindade”, para o melhor amo de garrote, e o prêmio “Pedro Beira-mar”, para o melhor amo de bumbá.

O regulamento era simples. Cada garrote ou bumbá indicaria um amo para representa-lo. O amo deveria enfrentar seu adversário através de um desafio versificado.

Os versos cantados por um amo teriam que ser respondidos pelo amo adversário, logo após a cantoria do primeiro, não podendo cada verso ultrapassar 30 segundos, nem a resposta, intervalo superior ao mesmo tempo.

Os versos não poderiam fugir do tema folclórico sob pena de desclassificação do infrator.

A duração da competição seria de 20 minutos. Os contendores das pelejas seriam sorteados pela Comissão Julgadora minutos antes de começar o torneio.

As inscrições dos amos poderiam ser feitas até 18 de junho, domingo, com o jornalista Luiz Verçosa.


No dia 20 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Milhares de assistentes vibraram e aplaudiram a abertura do Festão”:

Uma incalculável multidão compareceu ao Estádio General Osório, domingo, à tarde, para prestigiar com sua presença a abertura do XI Festival Folclórico do Amazonas, que se constituiu num espetáculo de exuberante alegria popular. Além do povo, que acorreu em massa para aquele logradouro público, figuras as mais representativas da nossa sociedade também prestigiaram aquele espetáculo de cores e ritmos, numa demonstração soberba do que é o festão do Povo.

AUTORIDADES PRESENTES – Assim, ali estiveram presentes o Governador Danilo de Mattos Areosa; Prefeito Municipal, Dr. Paulo Pinto Nery; Coronel João Walter, representando o Presidente da República, Marechal Costa e Silva, e o Ministro do Interior; senhores Ivanhoé Gonçalves Martins. Governador do Amapá; Hélio Campos, Governador de Rondônia; Vice-Governador do Estado, Dr. Ruy Araújo; General Ayrton Tourinho, Comandante do Grupamento Especial de Fronteiras e da Guarnição Federal de Manaus; Vinicius Câmara, Secretário de Educação e Cultura; Francisco Lamartine Nogueira e Wanderley Normando, Presidente e Diretor do BASA; Coronel Floriano Pacheco, Superintendente da Zona Franca de Manaus; Deputados Federais José Lindoso e Raimundo Parente; Coronel Ernâni Teixeira, Comandante da Polícia Militar do Estado; Dalmo Geuino de Oliveira, Coronel Joaquim Lopes, Napoleão Dória e Neper Antony, destacados funcionários da SUDAM, além de muitas outras autoridades.

O DESFILE – Como se sabe, o desfile foi retardado um pouco, face à chuva que caiu justamente minutos antes da hora marcada para o início. Contudo, com a estiagem, logo se processou a belíssima parada de ritmos e cores, e o povo, como sempre, ávido por assistir o monumental espetáculo, fez-se pronto e disposto a aplaudir os milhares de brincantes. Terminada aquela parte, o Dr. Paulo Pinto Nery, Prefeito Municipal, fez uso da palavra, como Governador da Cidade, e logo mais passou-a ao Governador do Estado, Dr. Danilo de Mattos Areosa, que em breves palavras congratulou-se com todos os presentes.

INICIADAS AS APRESENTAÇÕES – À noite de ontem, como estava programado, iniciaram-se as apresentações, de acordo com o programa previamente elaborado, e grande massa compareceu para aplaudir os conjuntos, que muito bem ensaiados, fizeram suas primeiras exibições no tablado, para hoje prosseguirem com a apresentação de outros grupos. As apresentações prolongar-se-ão até o dia 29 do corrente, data do encerramento.

A ordem de apresentação do XI Festival, com 55 grupos inscritos e mais de 5 mil brincantes, ficou assim definida:

Dia 18 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Danilo Areosa. Apresentação da Comissão Julgadora.

Dia 19 (segunda) – À noite. Garrote Raio do Sol, Dança Nordestina Bando do Antônio Silvino, Quadrilha Borboletas do Verão, Dança Nordestina Cangaceiros da Chapada e Garrote Canarinho.

Dia 20 (terça) – À noite. Quadrilha Escocesa, Garrote Mineirinho, Dança Regional Gafanhoto, e Bumbá Tira-Teima.

Dia 21 (quarta) – À noite. Garrote Luz de Guerra, Pássaro Bem-te-vi, Bumbá Caprichoso, Dança Regional Cacetinho (Tarianos) e Tribo dos Andirás.

Dia 22 (quinta) – À noite. Garrote Malhado, Quadrilha Araruama na Roça, Tribo dos Maués e Bumbá Garantido.

Dia 23 (sexta) – À noite. Quadrilha Glorianos no Roçado, Garrote Mina de Prata, Dança Regional Legendária Sucuriju Grande do Lago, Quadrilha Ajuri no Arraial e Garrote Flor do Campo.

Dia 24 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Brotinhos do Eldorado, Quadrilha Mirim Curumins da Colina, Quadrilha Mirim Brotinhos da Ayrão, Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas, Quadrilha Mirim Brotinhos de São Lázaro e Dança de Roda Ciranda. À noite. Quadrilha Soçaite no Interior, Pássaro Corrupião, Garrote Pingo de Ouro, Quadrilha Matutos Assanhados e Bumbá Coringa.

Dia 25 (domingo) – À tarde. Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado, Quadrilha Mirim Brotinhos da Barelândia, Quadrilha Mirim Araruaminha na Roça, Quadrilha Mirim caboclinhos de Brasília, Quadrilha Mirim Filhos do Primo do Cangaceiro, e danças e Cantigas de Roda da Tia Júlia. À noite.  Garrote Pena de Ouro, Quadrilha Juventude na Roça, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Dança Regional Peixe Vivo e Bumbá Rica Prenda.

Dia 26 (segunda) – À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Garrote Sete Estrelas, Dança Nordestina Maneiro Pau, Dança Nordestina Cabras do Lampião e Garrote Campineiro.

Dia 27 (terça) – Garrote Dois de Ouro, Quadrilha Jorgeanos no Mamoal, Pássaro Japiim, Tribo dos Iurupixunas e Bumbá Tira Prosa.

Dia 28 (quarta) – Noite especial com a competição de amos de bumbás e garrotes.

Dia 29 (quinta) – Desfile de encerramento, com o anúncio dos campeões e escolha das rainhas.


No dia 30 de junho, o vespertino Diário da Tarde publicou uma matéria intitulada “Grande multidão assistiu ao encerramento do Festão”:

Ontem à tarde, perante grande multidão que, desde cedo, lotou todas as dependências do Estádio General Osório, foi encerrado brilhantemente o XI Festival Folclórico do Amazonas, soberba realização dos líderes da imprensa amazonense, com o apoio do Governo Danilo Areosa, Prefeito Paulo Nery, Comando do GEF e GFM e da CEM. Houve desfile de todos os grupos participantes do certame, constituindo espetáculo maravilhoso de ritmos e de cores. Foram proclamados os vitoriosos, dentre estes, o bumbá Caprichoso, o garrote Luz de Guerra, o Pássaro Bem-te-vi, a Tribo dos Andirás, etc.

O governador Danilo Areosa, por motivos alheios à sua vontade, não pode comparecer ao encerramento do “Festão”, sendo representado, no ato, pelo coronel Themístocles Trigueiro, chefe da sua Casa Militar. Estiveram presentes diversas autoridades, dentre estas o prefeito Paulo Nery e o general Ayrton Tourinho, comandante do GEF e da GFM.

Coube ao prefeito fazer a oração de despedida do XI Festival e de saudação ao XII Festival, cujos preparativos, ontem mesmo, foram iniciados, porque o governador Danilo Areosa e o prefeito Paulo Nery, conforme este declarou em seu discurso, querem para 1968, um “Festão” maior do que o deste ano, com ampla repercussão em todo o País e no estrangeiro. Paulo Nery foi bastante aplaudido.


Computado os pontos de todos os grupos, a Comissão Julgadora apontou os seguintes campeões, ocorrendo alguns empates no primeiro lugar:

Bumbás: Caprichoso e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribo: Andirás.

Dança Regional: Cacetinho (Tarianos) e Gafanhoto.

Dança Regional do Brasil: Maneiro Pau.

Pássaro: Bem-te-vi e Corrupião.

Quadrilha adulta: Ajuri no Arraial.

Quadrilha mirim: Caboclinhos do Amazonas.

Dança de roda: Ciranda.

Outros Grupos: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Brincante: Ermelindo Gomes (Rapaz do Amo do bumbá Caprichoso).

Melhor Amo de Garrote: Edson Beicinho (Luz de Guerra) e Raimundo Nonato da Silva (Malhado).

Melhor Amo de Bumbá: José Ribamar do Nascimento (“Zé Preto”, do Caprichoso).

Rainha do Festival: Elisa Maciel (Quadrilha Juventude na Roça).

Rainha de Beleza: Maria Aparecida de Lima (Pássaro Japiim).

Rainha Mirim: Susana Costa (Filhos do Primo do Cangaceiro).

Rainha de Beleza Mirim: Francinete Souza (Dança de Roda Ciranda).

Nesse ano, por algum motivo, não houve a escolha do “Campeão dos Campeões” e o cobiçado troféu ficou definitivamente – e com justiça, é bom frisar – com a Tribo dos Andirás.

O 10º Festival Folclórico do Amazonas (1966)


Interessado em fazer da décima edição do festival um evento sem precedentes, o jornalista Luiz Verçosa tomou para si a tarefa de convidar pessoalmente todos os grupos folclóricos que já haviam se exibido no tablado do Estádio General Osório.

A tarefa não foi bem sucedida porque muitos grupos simplesmente haviam deixado de existir e muitos outros alegaram que não valia a pena investir na brincadeira para receber um simples troféu pelo esforço dispendido. A premiação em dinheiro, aparentemente, era a grande motivação de muitas agremiações.

Para “forçar” os recalcitrantes a participarem da festa, o matutino O Jornal começou a fazer essas cobranças indiretamente, como pode ser visto na matéria intitulada “45 grupos típicos têm encontro marcado no tablado do X Festival Folclórico”, publicada no dia 1º de junho:

Iniciamos, hoje, o mês do X Festival Folclórico do Amazonas, realização que a Empresa Archer Pinto, em combinação com o Governo do Estado, realiza anualmente para alegria do povo amazonense. A concretização da realização do “Festão”, como foi denominado o X Festival, foi a maior alegria do ano de 1966 para todos os habitantes de Manaus. Retardando um pouco, na sua apresentação habitual, o festival desse ano deixou uma grande expectativa em todos. Havia mesmo os que diziam que não mais se realizaria o Festival. Porém, graças à colaboração do governador Arthur Reis, o X Festival Folclórico do Amazonas aí está e é uma realidade. Todo o povo amazonense espera, agora, a atenção dos dirigentes dos grupos folclóricos, principalmente daqueles que há nove anos vêm participando da maior e mais linda festa típica do Brasil.

AUXILIOS – Deverá sair dentro de mais alguns dias os auxílios para os grupos folclóricos inscritos no X Festival. Assim, todos aqueles que já estão devidamente inscritos para a maior e mais linda festa típica do Brasil vão ter o auxílio prometido pelo governador Arthur Reis, após o dia 4 de junho, quando as inscrições serão encerradas.

SEC DEVE COLABORAR – Há muitos anos, ou seja, nas primeiras fases do nosso festival folclórico, os colégios, inclusive grupos escolares, vinham para o festival trazendo conjuntos folclóricos bem ensaiados, que se transformaram em alegria do povo. Entretanto, nos últimos três anos, foi completo o abandono, uma vez que a Secretaria de Educação não proporcionou aquele incentivo, que sempre é necessário nessas ocasiões. Vamos aguardar que nesse décimo festival, a SEC dê o seu apoio ao Governo do Estado, que é um dos realizadores da grande festa típica que todo o Brasil aplaude.

DATAS ESCOLHIDAS – Com seu início marcado para o dia 19, este ano teremos onze dias de competições, reunindo 45 grupos das mais variadas categorias. O desfile de encerramento deverá ocorrer na tarde do dia 29 de junho, dia de São Pedro, tradição em todos os festivais.


No dia seguinte, 2 de junho, o matutino O Jornal voltaria ao mesmo assunto, com a matéria intitulada “Faltam 3 dias para o encerramento das inscrições para o X Festival”:

O X Festival Folclórico do Amazonas começa a preparar-se para receber as mais altas autoridades do país. Na tarde de ontem, confirmaram suas presenças na maior e mais linda festa típica do país, os senhores Pedro Aleixo e Adauto Lúcio Cardoso, respectivamente Ministro da Educação e Presidente da Câmara Federal. Por outro lado, deverá ser feito convite ao sr. Aldo Moura de Andrade, presidente do Senado Federal, esperando que ambos compareçam à festa de abertura do X Festival Folclórico do Amazonas.

Como se vê, todo o Brasil, representado pelas suas mais altas autoridades, estará presente à sua maior e mais linda festa típica, numa prova eloquente de que realmente o Amazonas, no mês de junho, com o Festival Folclórico, transforma-se na capital do país. Além destes, outros nomes estão na lista de convidados, entre os quais se conta o sr. Ministro da Guerra, General Costa e Silva, que é também candidato à Presidência da República, governadores de outros Estados, embaixadores, etc. Todos aqueles, enfim, que se sentem atraídos pelo maior espetáculo folclórico do Brasil, terão convites para estarem em Manaus, a partir do dia 19 de junho, quando será realizada a abertura do “Festão”.

GOVERNADOR PRESTIGIA A FESTA DO POVO – O governador Arthur Reis é um dos maiores entusiastas do X Festival Folclórico do Amazonas, festival esse em que terá a oportunidade de despedir-se de todo o povo amazonense, uma vez que para o ano não estará mais no Governo do Estado. O governador Arthur Reis é o grande incentivador que, temos certeza, estará diariamente aplaudindo os conjuntos que subirem ao gigantesco tablado do X Festival para as competições que vão escolher os melhores de 1966.

RELAÇÃO DA COMISSÂO – Já estão escolhidos, devendo apenas serem convidados, os membros da Comissão Julgadora, que serão em número de onze. A relação desses membros deverá ser publicada no próximo sábado, dia 4 de junho, quando serão encerradas definitivamente as inscrições.

FINAL DAS INSCRIÇÕES – No próximo sábado, às 18 horas, serão encerradas, definitivamente, as inscrições para os grupos folclóricos que desejarem participar do X Festival Folclórico do Amazonas. Até o presente momento, 45 grupos já solicitaram inscrição e estão habilitados a receberem os auxílios a serem dados pelo governador Arthur Reis dentro dos próximos dias.

LOCAL DE ENSAIOS – Os dirigentes de grupos devem trazer á nossa redação, no horário das 17 às 18 horas, o nome do local e o dia de seus ensaios, para que possamos visita-los e, ao mesmo tempo, dar publicidade de seus treinamentos, que muito interessam aos brincantes e aos aficionados dos conjuntos folclóricos.

CUXIMIARIBAS – A Tribo dos Cuximiraibas deverá, este ano, ser uma das atrações do X Festival Folclórico do Amazonas, contando com grande número de brincantes, fantasias luxuosas e originais, dando um colorido bonito e alegre a quantos admiram e aplaudem aquele grupo folclórico.

CORRE CAMPO – Mais uma vez estamos apelando para que o bumbá Corre Campo venha para o Festival Folclórico do Amazonas, neste que será o “Festão”. Os grandes grupos não devem estar ausentes, principalmente os campeões. Todo o bairro da Cachoeirinha espera pela presença do bumbá Corre Campo. Vamos trazer o bumbá. O povo espera.

AVISO URGENTE – Devem comparecer com urgência à nossa redação para tratar de assuntos de seu interesse, os dirigentes dos seguintes grupos folclóricos: Pássaros Bem-te-vi e Japiim, Tribos Iurupixunas e Manaú, Bumbás Pai do Campo e Corre Campo, Garrote Teimosinho e Danças Regionais Tipiti, Caninha Verde, Imperiais, Ciranda, Jacundá, Macaco Sauim e Camaleão.


Apesar dos reiterados apelos publicados nos dois jornais da Empresa Archer Pinto, muitos grupos folclóricos preferiram brincar apenas nas suas comunidades em vez de se apresentar no festival.

Com muito esforço, o jornalista Luiz Verçosa conseguiu a inscrição de 41 grupos, que foram distribuídos em oito chaves, tal como no ano anterior.

Bumbás: Caprichoso, Tira Prosa e Tira Teima.

Garrotes: Campineiro, Luz de Guerra, Pena de Ouro, Dominante, Pingo de Ouro, Brinquedinho, Canarinho, Malhado, Veludinho, Dois de Ouro e Treme Terra.

Pássaros: Corrupião e Japiim.

Tribos: Andirás, Iurupixunas e Caximiraiba.

Danças regionais: Gafanhoto, Peixe Vivo e Cacetinho (Tarianos).

Danças Nordestinas: Primo do Cangaceiro, Mineiro Pau e Cabras do Lampião.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem, Soçaite no Interior, Matutos do Arraial, Glorianos no Roçado, Araruama na Roça, Quadrilha Escocesa, Caipiras da Ipixuna e Quadrilha Sertaneja.

Quadrilhas infantis: Gaveanos no Roçado, Caboclinhos do Amazonas, Arsenalenses na Roça, Caboclinhos de Brasília, Filhos do Lampião, Caipirinhas da Ipixuna, Cantigas de Roda da Tia Júlia e Brotinhos do Eldorado.

Entre as novidades daquele ano, a Dança Nordestina Mineiro Pau, a Dança do Gafanhoto (uma versão “inseticida” dos Cordões de Pássaros) e a Dança Regional Peixe Vivo.

Originária da cidade de Diamantina (MG), a Dança do Peixe Vivo representa uma pescaria na lagoa. Os cavalheiros iniciam a dança, munidos de vara de pescar, seguindo-se as damas, pescando com rapixé (uma rede com cabo usada na captura de cardumes).

Depois de fazerem os gestos correspondentes, guardam o material e dançam aos pares, sem se enlaçarem, com movimentos rítmicos e passos que se relacionam com os versos de uma conhecida música de domínio popular: “Como pode o peixe vivo / viver fora d’água fria / como poderei viver? / como poderei viver? / sem a tua, sem a tua, / sem a tua companhia / os pastores dessa aldeia / já me fazem zombaria / por me verem andar sozinho / por me verem andar sozinho / sem a tua, sem a tua / sem a tua companhia”.

O secretário de Educação e Cultura, André Araújo, e o secretário de Imprensa, José Cidade de Oliveira, foram encarregados pelo governador Arthur Reis de concederem o auxílio financeiro para os grupos folclóricos mediante a emissão de cheque ao portador a ser resgatado no Banco do Estado do Amazonas.

O escalonamento dos valores obedecia à seguinte tabela: Bumbá, Cr$ 400 mil (cerca de R$ 10 mil, em valores de hoje). Garrotes, Cr$ 300 mil. Pássaros, Tribos, Danças e Quadrilhas adultas, Cr$ 250 mil. Quadrilhas infantis e outros grupos, Cr$ 200 mil.


A ordem de apresentação do X Festival, com 41 grupos inscritos e cerca de 4 mil figurantes, ficou assim definida:

Dia 19 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório, como parte da abertura oficial do festival. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Arthur Reis. Apresentação da Comissão Julgadora. Subida ao tablado dos grupos campeões do ano passado.

Dia 20 (segunda) – À noite. Garrote Pingo de Ouro, Quadrilha Brotinhos do Eldorado, Garrote Pena de Ouro e Quadrilha Sertaneja.

Dia 21 (terça) – À noite.  Quadrilha Escocesa, Garrote Campineiro, Quadrilha Caipiras da Ipixunas e Tribo dos Cuxumiraibas.

Dia 22 (quarta) – À noite. Quadrilha Matutos do Arraial, Dança Regional Gafanhoto, Quadrilha Glorianos no Roçado e Garrote Veludinho.

Dia 23 (quinta) – À noite. Garrote Canarinho, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Dança Regional Cacetinho (Tarianos) e Bumbá Tira Teima.

Dia 24 (sexta) – À noite. Dança Nordestina Mineiro Pau, Garrote Brinquedinho, Quadrilha Soçaite no Interior e Garrote Luz de Guerra.

Dia 25 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Filhos de Lampião, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado, Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas e Quadrilha Mirim Caipirinhas da Ipixuna. À noite. Quadrilha Araruama na Roça, Pássaro Corrupião, Dança Nordestina Cabras do Lampião e Bumbá Tira Prosa.

Dia 26 (domingo) – À tarde. Festa dedicada aos meninos do Educandário Gustavao Capanema, Quadrilha Mirim Arsenalienses na Roça, Quadrilha Mirim Caboclinhos de Brasília e Escola de Acordeão Santa Terezinha. À noite. Quadrila Infantil Cantigas de Roda da Tia Júlia, Garrote Malhado, Tribo dos Iurupixunas e Bumbá Caprichoso.

Dia 27 (segunda) – À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Garrote Dois de Ouro, Dança Regional Peixe Vivo e Garrote Dominante.

Dia 28 (terça) – À noite. Pássaro Japiim, Garrote Treme Terra e Tribo dos Andirás.

Dia 29 (quarta) – À noite. Desfile de encerramento com todos os grupos típicos e entrega dos troféus aos melhores do festival.

A Comissão Julgadora ficou assim constituída: desembargador Mário Verçosa (presidente), desembargador João Rebelo Corrêa, professor Garcitilzo do Lago e Silva, Gebes de Melo Medeiros (teatrólogo), Antonieta Coelho (professora), capitão Juarez (representante do GEF), Herculano de Castro e Costa (jornalista) e Guanabara Araújo (teatrólogo).

Seriam levados em conta os seguintes critérios de julgamento: autenticidade folclórica (rigorosa observância dos enredos, passos e cânticos às suas raízes folclóricas), guarda roupa (levar em conta se a confecção dos vestuários e cores utilizadas estava de acordo com a tradição da brincadeira), coreografia (avaliar a movimentação dos personagens dentro do enredo), música e canto (observar a motivação, originalidade e coesão das letras e melodias dos cânticos).


Os campeões e vice-campeões daquele ano foram os seguintes:

Bumbás: Caprichoso e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribos: Andirás e Iurupixunas.

Pássaros: Corrupião e Japiim.

Dança Nordestina: Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião.

Outros Grupos: Maneiro Pau e Peixe Vivo.

Dança Regional: Cacetinho (Tarianos) e Gafanhoto.

Quadrilha Adulta: Soçaite no Interior e Flor Selvagem.

Quadrilha Mirim: Caboclinhos de Brasília e Filhos de Lampião.

Prêmio Especial: Danças e Cantigas da Tia Júlia.

Campeã das Campeãs: Tribo dos Andirás, que levou para o tablado mais de 300 brincantes.

Rainha do Festival: Esther Pinheiro (Tribo dos Andirás)

Rainha de Beleza: Maria Denise Lopes (Tribo dos Iurupixunas)

Rainha Mirim: Nazareth Ramos (Caipirinhas da Ipixuna)

A Comissão Julgadora, por iniciativa própria, também resolveu instituir naquele ano o “Prêmio Sepetiba”. Em sua justificativa para a criação da comenda, registrou o seguinte:

Cipriano Vieira foi o mais discutido amo de boi do passado. Ganhou fama e suas toadas até hoje são lembradas. Era o “Sepetiba”, paraense radicado no Amazonas, morando lá no Seringal Mirim, bairro do Boulevard Amazonas, onde o Mina de Ouro tinha curral armado. Nas grandes lutas de rua, na parte dos desafios, “Sepetiba” era infernal. Este ano, no decurso do X Festival, quis a Comissão Julgadora prestar homenagem ao grande brincante, desaparecido em 1962, aos 55 anos de idade, a maior parte deles dedicado ao bumbá. Por conta disso, foi instituído o “Prêmio Sepetiba”, que anualmente será concedido ao “mais animado brincante de boi” que comparecer ao Festival Folclórico. Este ano, o prêmio coube ao brincante Carlito, o Pai Francisco do garrote Veludinho.

O 9º Festival Folclórico do Amazonas (1965)


O golpe militar do ano anterior havia ocorrido supostamente para eliminar a subversão e a corrupção que grassava no país. Para evitar qualquer suspeita de malversação de verbas públicas em seu governo, o governador Arthur Reis resolveu oficializar e dar publicidade aos recursos destinados aos grupos folclóricos por meio de uma lei encaminhada para discussão na Assembleia Legislativa do Amazonas.

No dia 31 de maio, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Ruy sancionou a lei que destina recursos ao IX Festival Folclórico”:

Foi sancionada, ontem, pelo governador em exercício, Ruy Araújo, a lei que tomou o nº 209 e amanhã sairá publicada no Diário Oficial do Amazonas, que abre no Orçamento o crédito especial de Cr$ 12 milhões e 500 mil para ocorrer com despesas do IX Festival Folclórico do Amazonas, soberba promoção da Empresa Archer Pinto e que contará com o patrocínio do Governo Arthur Reis.

Segundo o diploma legal, Cr$ 8 milhões e 950 mil cruzeiros serão destinados aos grupos já inscritos, como ajuda às luxuosas fantasias. Cr$ 3 milhões e 200 mil destinar-se-ão aos serviços de terceiros e outros encargos e CR$ 350 mil serão para a concessão de prêmios aos vencedores da grandiosa festa junina.

O custeio total do IX Festival Folclórico do Amazonas pelo Governo Arthur Reis é prova eloquente de que a cultura popular está merecendo o incentivo do Poder Público.  Em verdade, os festivais folclóricos realizados pela Empresa Archer Pinto sempre foram festas genuínas do povo, que não se cansa de aplaudir, de incentivar, a todos quantos tomam parte na maior e mais bela festa típica, no gênero, do país.

Vale ressaltar, também, que o Poder Legislativo do Estado deu a sua parcela de colaboração ao IX Festival, aprovando a Lei nº 209.

REUNIÃO HOJE PARA A COMISSÃO – A Lei nº 209, que hoje será publicada no Diário Oficial, prevê em seu artigo 3º a constituição de uma comissão composta do desembargador André Araújo (Secretário da Educação), que a presidirá, dr. José Cidade de Oliveira (Diretor Geral do DIPTEA), desembargador João Machado Junior (Presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), jornalista Aristophano Antony (Presidente da Associação Amazonense de Imprensa) e um representante da Empresa Archer Pinto, a qual se reunirá hoje, no Palácio, às 16 horas, para coordenar a aplicação dos recursos fixados na Lei acima aludida.


Braço direito de Bianor Garcia até o ano anterior, o jornalista Luiz Verçosa foi incumbido de organizar e coordenar o festival aquele ano, que teria seu desfile inaugural no dia 20 de junho, domingo, e seu encerramento no dia 28, segunda-feira. As competições seriam realizadas entre os dias 21 e 26. Ele se desincumbiu da tarefa a contento até porque o beabá do festival já estava praticamente incrustado no seu DNA. Na verdade, Bianor Garcia havia sido um excelente professor.

Quando as inscrições foram encerradas, havia 45 grupos inscritos. Para facilitar o trabalho da Comissão Julgadora, Luiz Verçosa distribuiu os grupos em oito chaves:

Bumbás: Pai do Campo, Corre Campo, Caprichoso e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra, Tira Teima, Canarinho, Dominante, Sete Estrelas, Veludinho, Estrela D’Alva, Dois de Ouro, Pingo de Ouro e Malhado.

Tribos: Iurupixunas, Andirás e Cuximiraibas.

Pássaros: Corrupião e Bem-te-vi.

Danças Regionais: Caninha Verde, Cacetinho (Tarianos), Ciranda (da Escola Senador Lopes Gonçalves), Tipiti (infantil) e Danças e Jogos Infantis.

Danças nordestinas: Primo do Cangaceiro, Cabras do Lampião, Netos de Cangaceiro e Sobrinhos de Maria Bonita.

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça, Real Madrid na Roça, Coronel Gerceano na Roça, Soçaite no Interior, Flor Selvagem, Matutos do Manaquiri e Quadrilha Escocesa.

Quadrilhas mirins: Caboclinhos de Brasília, Filhos do Lampião, Glorianos no Roçado, Brotinhos da 1º de Maio, Brotinhos de Amanhã, Brotinhos de Santo Antonio, Caboclinhos do Arari, Bossa Nova e Gaveanos no Roçado.

Como atrações especiais da categoria “Folclore Brasileiro – Hors Concours”, Dança do Café, Pastorinhas do Luso e Brigue Independência. Essa última escolha, provavelmente foi feita apenas para queimar a língua daquele renomado folclorista, nosso velho conhecido.

Aliás, o secretário da Comissão Amazonense de Folclore estava na muda desde que o nº 50 do boletim Jornal do Folclore havia sido encartado no jornal A Gazeta, no dia 1º de agosto de 1964.

Aparentemente, a prisão de Plinio Coelho, decretada pelo governador Arthur Reis, no dia 10 de agosto daquele ano, e o empastelamento dos jornais O Trabalhista e A Gazeta, ambos de propriedade do ex-governador, tenham contribuído para o melancólico fim da publicação. Era um corvo a menos para torcer pelo fracasso do festival.


O jornalista Luiz Verçosa, em comum acordo com os dirigentes dos grupos folclóricos, também estabeleceu que na segunda feira, dia 28, ocorreria a “Noite dos Campeões”, com todos os grupos vencedores marcando presença no tablado para receberem seus prêmios e fazerem uma nova apresentação para o público.

A Comissão Julgadora estabeleceu o tempo de exibição de cada grupo, em comum acordo com os dirigentes das brincadeiras: Bumbás, Garrotes e Quadrilhas mirins, 20 minutos, Quadrilhas adultas e Danças, 25 minutos, Cordão de Pássaros, 30 minutos, e Tribos Indígenas, 40 minutos.

O prefeito Vinicius Conrado concedeu uma ajuda de custo para todos os grupos no valor de Cr$ 50 mil (R$ 2 mil, em valores de hoje).

A ajuda do governador Arthur Reis foi um pouco mais substancial: Cr$ 200 mil para os bumbás, Cr$ 150 mil para as Quadrilhas adultas, Pássaros, Tribos e Danças Regionais, e Cr$ 100 mil para os Garrotes e Quadrilhas infantis.

Os sete melhores grupos campeões dividiram entre si o prêmio de Cr$ 350 mil, a critério da Comissão Julgadora, que era formada pelo desembargador Mário Verçosa (presidente), Aderson de Menezes, André Araújo, Garcitylzo do Lago e Silva, Alfredo Fernandes, Afonso Nina, Gebes Medeiros, João Correia, Aristophanos Antony, João Braga e major Souza Carvalho.

Como critério de julgamento seria observado os itens originalidade, autenticidade, coreografia, indumentária, música e alegria dos brincantes.


A ordem de apresentação do IX Festival, com 45 grupos inscritos e cerca de 4 mil figurantes, ficou assim definida:

Dia 20 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório, como parte da abertura oficial do festival. Abertura do festival pelo prefeito Vinicius Conrado. Saudação do governador Arthur Reis. Apresentação da Comissão Julgadora. Subida ao tablado dos grupos campeões do ano passado.

Dia 21 (segunda) – À noite. Quadrilha Adulta Glorianos no Roçado, Garrote Pingo de Ouro, Brigue Independência, Dança Nordestina Netos do Cangaceiro e Garrote Veludinho.

Dia 22 (terça) – À noite.  Quadrilha Adulta Matutos do Manaquiri, Garrote Dois de Ouro, Quadrilha Adulta Real Madrid na Roça, Garrote Dominante e Tribo dos Cuximiraibas.

Dia 23 (quarta) – À noite. Quadrilha Adulta Escocesa, Quadrilha Adulta Coronel Gerceano na Roça, Dança Regional Ciranda, Pássaro Bem-te-vi, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Tribo dos Iurupixunas e Dança Regional Cacetinho (Tarianos).

Dia 24 (quinta) – À tarde.  Quadrilha Mirim Caboclinhos de Brasília, Roda e Jogos Infantis, Garrote Estrela D’Alva, Quadrilha Mirim Filhos de Lampião, Garrote Sete Estrelas e Quadrilha Mirim Bossa Nova.  À noite. Garrote Malhado, Quadrilha Adulta Flor Selvagem, Dança Regional Caninha Verde, Bumbá Caprichoso e Tribo dos Andirás.

Dia 25 (sexta) – À noite. Quadrilha Adulta Araruama na Roça, Pássaro Corrupião, Dança Nordestina Cabras do Lampião, Garrote Luz de Guerra e Bumbá Pai do Campo.

Dia 26 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Brotinhos da 1º de Maio, Quadrilha Mirim Brotinhos de Santo Antonio, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado, Garrote Tira Teima,Dança Regional Tipiti, Quadrilha Mirim Brotinhos de Amanhã e Quadrilha Mirim Caboclinhos do Arari. À noite. Quadrilha Adulta Soçaite no Interior, Bumbá Tira Prosa, Garrote Canarinho, Dança Nordestina Sobrinhos de Maria Bonita e Bumbá Corre Campo.

Dia 27 (domingo) – À tarde. Desfile de encerramento. À noite. Proclamação dos eleitos campeões pela Comissão Julgadora.

Dia 28 (segunda) – À noite. Apresentação dos grupos proclamados campeões no tablado do IX Festival Folclórico do Amazonas e entrega dos prêmios a que fizeram jus.


O resultado final foi o seguinte, pela ordem de classificação (campeão e vice-campeão):

Bumbás: Corre Campo e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado. 

Pássaros: Bem-te-vi e Corrupião.

Tribos: Andirás e Iurupixunas.

Danças regionais: Ciranda e Cacetinho (Tarianos).

Danças Nordestinas: Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem e Araruama na Roça.

Quadrilhas infantis: Caboclinhos de Brasília e Filhos de Lampião.

Danças infantis: Danças e Cantigas de Roda e Dança do Tipiti.

Campeã das Campeãs: Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, que obteve o maior número de pontos entre todos os conjuntos participantes.

Rainha do Folclore: Nazira Gomes (Pássaro Bem-te-vi)

Rainha de Beleza: Raissa Mendonça (Ciranda).

Rainha do Folclore Mirim: Margarete Almeida (Caboclinhos de Brasília).


Rainha de Beleza Mirim: Maria Cilene (Brotinhos do Amanhã).

quinta-feira, julho 28, 2016

O 8º Festival Folclórico do Amazonas (1964)


O jornalista Bianor Garcia havia ficado irritado com o pífio número de grupos inscritos no ano anterior e tinha na ponta da língua o responsável por aquele estado de coisas: a famigerada Comissão Amazonense de Folclore (CAF).

Na reunião preparatória do evento, que acontecia no começo de janeiro, o jornalista abriu o jogo. Sim, ele aceitaria de bom grado organizar de novo o festival, mas desde que fosse com as regras de antes: ele próprio indicaria os grupos participantes, haveria disputas entre os grupos por categoria e os vencedores ganhariam uma premiação em dinheiro.

Depois de acaloradas discussões na redação do jornal, Bianor Garcia venceu a parada. Ele teria carta branca para agir e uma boa retaguarda para defendê-lo de possíveis retaliações da CAF.

Empolgado, o jornalista garantiu que iria escalar para a festa, no mínimo, 120 grupos folclóricos, num total de mais de 15 mil brincantes, na “maior passeata folclórica da história do Brasil” e se comprometeu a começar a procurar os dirigentes dos grupos folclóricos depois do carnaval.

As inscrições seriam abertas na segunda quinzena de abril e se encerrariam na primeira quinzena de junho.

Infelizmente, ele não teve tempo de poder exibir as cartas que trazia na manga.


Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído do presidente João Goulart (PTB). A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo.

Em busca de segurança, João Goulart viajou no dia 1º de abril do Rio, para Brasília, e em seguida para Porto Alegre, onde Leonel Brizola tentava organizar a resistência com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil para ser sepultado, em 1976.

Antes mesmo de Jango deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na Constituição de 1946, tal como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real, no entanto, encontrava-se em mãos militares.

No dia 2 de abril, foi organizado o autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas.

Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político brasileiro, como, por exemplo, o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP).

Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste.


O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado na traseira de um jipe militar e arrastado pelas ruas de Recife, como se fosse um boi a caminho do matadouro.

A junta baixou um “Ato Institucional” – uma invenção do governo militar que não estava prevista na Constituição de 1946 nem possuía fundamentação jurídica. Seu objetivo era justificar os atos de exceção que se seguiram. Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos Policiais-Militares (IPMs).

Chefiados em sua maioria por coronéis, esses inquéritos tinham o objetivo de apurar atividades consideradas subversivas. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados.

Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes.

Dos políticos amazonenses, o então deputado federal Gilberto Mestrinho (PST-RR) foi o primeiro a ser cassado. Ele sustentava ser vítima de revanchismo pessoal do general Muniz de Aragão, ex-comandante da Guarnição Federal de Manaus (GFM).

Na eleição de 1962, quando apoiava a candidatura de Plínio Coelho, Mestrinho teve uma altercação com o general no meio da rua, por causa de um comício da oposição, e prometeu que ele seria afastado da região.

Dito e feito: a pedido de Mestrinho, o presidente João Goulart mandou prender e remover o general. O general de fato foi transferido, mas nunca foi preso. De Manaus, ele foi exercer a função de chefe de Estado-Maior do 4º Exército, comandado pelo general Castelo Branco.

A vingança, segundo Mestrinho, viria após o golpe. O general Aragão teria incluído o nome dele, à caneta, na primeira lista dos 100 cassados.


Cunhado de Gilberto Mestrinho, o advogado, jornalista e deputado estadual Arlindo Porto (PTB), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, nem precisou esperar pela fúria dos militares: ele foi cassado pelos seus próprios pares – em um caso inédito e vergonhoso nos anais políticos da história do Brasil – e ficou detido por 128 dias em um quartel do Exército, em Manaus.

O jornalista Bianor Garcia não era político, mas era muito próximo de Gilberto Mestrinho e lidava com milhares de pessoas no período do festival. E se, de repente, os militares encasquetassem que ele era um potencial subversivo?

O jornalista preferiu se afastar da ribalta e entregar a organização do festival para um triunvirato formado pelos jornalistas Luiz Verçosa, Philiphe Daou e Milton Cordeiro.

A nova Comissão Organizadora resolveu seguir as linhas mestras traçadas por Bianor Garcia, ou seja, não dar a menor pelota para as recomendações da kafkiana CAF.

Sem saber ainda que Bianor Garcia havia se afastado da organização do festival, Mário Ypiranga Monteiro resolveu ir à forra, com o único objetivo de satanizar o ex-coordenador do festival.


No dia 23 de maio, sábado, no editorial “Paleio no Copiar” do Jornal de Folclore nº 40, ele lançava uma série de indiretas e diatribes contra uma suposta inautenticidade dos grupos folclóricos da cidade e não poupava das críticas sequer o saudoso Bruno de Menezes, falecido no ano anterior:

Aproxima-se o mês de junho, mês das maiores tradições populares no Amazonas. Podemos assegurar que essas tradições populares surgem ao ensejo do descobrimento dos rios das Amazonas para a Europa. Com quatro séculos e um quarto de conhecimento, as levas de conquistadores implantaram os seus usos e costumes na região, mas não conseguiram eliminar completamente as tradições nativas, que se firmaram de um lado pela excedência populacional e influência vertical da língua e dos costumes. Podemos contar com quatro séculos de efetiva movimentação do nosso folclore, principalmente nativo, folclore este que recebeu a suplementação europeia e mais tarde a mestiça, de outras regiões do Brasil.

Esse folclore se desenvolveu até poucos anos sem intromissão de leigos, sem a participação direta e indevida de pessoas não autorizadas culturalmente para dirigi-lo e orientá-lo. Isto significa em termos mais claros que o nosso folclore foi autêntico e espontâneo até quando não submetido a duras experiências de interessados e interesseiros, passando vertiginosamente a constituir mistificações quando manipulado frontalmente pelos que, não possuindo nem cultura nem experiência, se atiram numa aventura cujo fim não é difícil de prever.

Salva-se desse descalabro uma meia dúzia de grupos que, por serem tradicionais, ainda guardam certa harmonia, uma linha de tradição, que se vai aos poucos deixando corromper. Há muitos desgostosos, muitos atribulados, mesmo elementos que reagem dignamente contra injustiças, contra coações, contra privilégios. Em matéria de folclore o que se deseja é plenitude, autenticidade, espontaneidade. Esse ano, por exemplo, muitos grupos folclóricos deixarão de circular por causas várias que serão analisadas mais tarde. E vão aparecer grupos que absolutamente possuem tradição no Amazonas, nem sequer mesmo poderão apresentar-se à altura de corresponder à verdade. Não vamos ajuizar muito a fundo o problema. Deixaremos para quando terminar a estação junina.

O que se nota realmente é um fracasso coletivo na tradição. Já sabemos que bois, tribos, etc, deixarão de aparecer por falta de estímulo e de ajuda financeira condigna. Muitos outros grupos não aparecerão por falta de quem os oriente e ensine. A Comissão Amazonense de Folclore tem sido procurada constantemente para resolver esse problema, mas, desde que, situada numa posição de observação, eximiu-se de qualquer responsabilidade. Não dá mesmo nenhuma contribuição, pois a sua linha de conduta, honesta e científica, não lhe permite mais envolver-se em problemas atuais que estão criando problemas futuros. Sendo assim, o que se vai ver este ano em matéria de folclore autêntico, reduz-se apenas a bumbás, tribos e pássaros. O resto é pura mistificação. E note-se que até os genuínos grupos folclóricos de Manaus já estão se distanciando do autêntico, perdendo gradativamente a beleza radical.

Em compensação, aumentou desproporcionalmente o número de “quadrilhas”, que de quadrilhas só portam mesmo o nome. Nenhuma delas garante autenticidade. E não culpamos aos ensaiadores. Não. Culpamos, sim, àqueles que, ignorando o que seja folclore, se intitulam orientadores. Há poucos dias, ao ensejo da apresentação, parece, dos discos Colúmbia, um radialista estava aconselhando os interessados em festas juninas a adquirirem o disco de uma daquelas quadrilhas marcadas pelo cômico Zé Trindade! Isto é fazer folclore! Deveria haver pelo menos um certo policiamento, uma autocrítica, uma cautela ao abordar o assunto. Exemplo de como certa gente entende de folclore foi a “lição” que um pseudofolclorista morto o ano passado, deu a respeito do boi-bumbá. Perguntado o porquê da denominação “bumbá”, respondeu ele com segurança: que era porque o boi caía: “bumba!”

Estamos repetindo sempre que o folclore é uma ciência, e que uma ciência não pode servir de pretexto para projeções de nomes, a não ser quando esses homens são de fato honestos cultores dela. Improvisar-se folclorista é cursar a borda de um precipício. O tal que o faz seria incapaz de resistir a cinco minutos de debates, acabaria desmoralizado, confundido. Esse é o caminho que conduz o mistificador a projeções lábeis.


No mesmo boletim, no artigo intitulado “Cordão de Índios”, as bordoadas de Mário Ypiranga Monteiro eram dirigidas aos alunos da Escola Técnica de Manaus:

Em 1953, exibiu-se em Manaus o Cordão dos Índios Aimorés, proveniente da cidade de Tefé, dirigido pelos cidadãos Ambrósio e Fares Saddo. A cidade de Tefé nos tem proporcionado muito folclore e portadores dele, radicados aqui desenvolveram suas atividades não encontrando grande receptividade. Desse antigo Cordão dos Aimorés originou-se o atual Tarianos, que foi ensaiado pelo Ambrósio e pelo Saddo no Beco do Macedo. Agora é ensaiado pela rapaziada da Escola Técnica. Ano passado fui obrigado a dirigir uma crítica a esse cordão, que deixou a tradição para um lado e meteu um lundu muito mal apresentado. Vamos ver se esse ano os Tarianos circulam com o programa completo. Naquele tempo, os Aimorés possuíam mais autenticidade e maior brilhantismo, estando em decadência quando passou a ser ensaiado por outros elementos. A tradição deve ser mantida. Nisso é que está a beleza intrínseca do folclore.

Nesse grupo dança-se o cacetinho, item que verdadeiramente não é nosso, não é dos índios legítimos, mas apenas uma assimilação. A parte do cacete é europeia, dançando-se em Portugal pelos conhecidos “pauliteiteiros”. Dança-se também em outras regiões da América do Sul. O que também não é nosso são as partes conhecidas como “paima” e “laços”, de origem europeia. Também a versão dos Tarianos, letra da cantiga, é daqui mesmo de Manaus, pois o original é diferente. Isto aparentemente não tem muita importância, pois um motivo folclórico pode ter várias versões. A parte chamada “tipiti”, que já se tornou fabulosamente conhecida, e é dançada pelo mesmo grupo, foi também anexada ao mesmo e é dançada por quase todos os povos do mundo, europeus, asiáticos e americanos. Era dançada pelos índios do México e conhecida como “dança do sol”. A primeira vez que a vi dançar foi na povoação de Carvoeiro, há mais de trinta anos, antes, portanto, de aparecerem os grupos Aimorés e Tarianos.

Entre nós não é respeitada a tradição como se vê, por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde é conhecida por “pau de fitas”, como na Europa, ou “palo de tranzas”, nas regiões de fala espanhola. Tipiti é, todavia, uma denominação que soa bem e está concorde com a técnica de trançar fitas semelhante ao famoso tipiti. Depois que o Colégio Estadual do Amazonas divulgou mais acertadamente a dança com os passos originais, menos dois que são mais difíceis, o Tipiti alcançou grande popularidade entre os manauenses.

Os grupos folclóricos possuídos de tradição é que deveriam marcar presença nos Festivais, para serem vistos, e não as marmeladas que com o título de folclore são apresentadas, como, por exemplo, as quadrilhas sem pé nem cabeça e as danças suspeitas com títulos arrivistas. Estamos muito longe de manter fielmente uma nota técnica. A prova está nesse grupo que escolhemos para referir hoje. Se houvesse uma direção capaz, a primeira coisa a usar-se era a cabeça, no sentido de provocar uma reconstituição honesta dos grupos desaparecidos de Manaus.

No caso dos Aimorés, com o seu programa perfeito, a sua exibição ritualística. Naquele tempo, que eu me lembre, os índios se ataviavam modesta, mas originalmente, não usando plumas de espanadores, mas penas reais de aves. Praticavam como se estivessem em plena sociedade local, usando de uma exigente disciplina, de recursos que lhe davam mais valor do que qualquer outro grupo. Igual a esses só conheci a Tribo dos Manauaras, que deixou de circular por motivos que conhecemos. Assim vão desaparecendo os mais perfeitos e mais belos motivos folclóricos da cidade, só resistindo aqueles que por motivos vários se apegam à tradição. Mas nem esses resistirão. O que falta para garantir-se a presença dos genuínos grupos folclóricos? Que respondam os que se tornaram responsáveis diretos pelo desgosto de uns, desarmonia de outros, etc.


No dia 5 de junho, sexta feira, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Povo prestigia com vibração e entusiasmo a festa do Amazonas”:

Em todos os bairros e em muitas artérias do centro da cidade, há ensaios, grupos cantam e dançam, preparando-se para o desfile de abertura e para as suas exibições durante o fabuloso VIII Festival Folclórico do amazonas, soberba realização de O Jornal e Diário da Tarde. O monumental certame será inaugurado, com todas as pompas do estilo, no dia 14, reunindo cerca de 8 mil brincantes, vestidos tipicamente e distribuídos em 52 diferente grupos folclóricos, desfilarão sob os vivas e calorosos aplausos do nosso povo que, em massa, como nos anos anteriores acorrerá ao Estádio General Osório, prestigiando, fortemente, a sua maior festa inteiramente a céu aberto.

Só Deus sabe o que tem sido a sua efetivação. Exatamente, por isso, como certame que resulta do esforço e do sacrifício que resulta do esforço dos que desejam a alegria da população, o VIII Festival será muito maior e mais vibrante, que os dos anos anteriores. Com certeza a coletividade manauara o prestigiará com todas as forças do seu entusiasmo.

O VIII Festival tem o apoio do Governo do Estado, da Prefeitura de Manaus, da Companhia de Eletricidade de Manaus (CEM), do industrial João Furtado, da Serraria Rodolfo, do Grupamento de Elementos de Fronteira (GEF) e da Guarnição Federal de Manaus (GFM). E, sobretudo, conta com a solidariedade dos grupos folclóricos e o estímulo do nosso povo. Há de se coroar, por isso mesmo, de êxito.

AUXÍLIOS – Os auxílios concedidos pelo Governo do Estado aos grupos folclóricos para ajuda-los na confecção de suas vestimentas serão pagos a partir de hoje, segundo nos garantiu o secretário de Finanças, dr. Mário Jorge Couto Lopes. Os que ainda não receberam seus ofícios devem fazê-lo em nossa redação. Em nosso poder encontram-se os ofícios de auxílio do conjunto do Educandário Gustavo Capanema, do Maracatu de Pernambuco, do Balé Folclórico Japonês, Dança Regional do Instituto de Educação do Amazonas, Dança Regional da Escola Comercial Sólon de Lucena, Dança Regional Cantigas Infantis, Dança Regional do Arara, Tribo dos Tarianos, Quadrilha Rancho Alegre e Dança Regional Desfeiteira.

ANDIRÁS – O “tuxaua” Carlito Souza, sobre a sua afinada Tribo dos Andirás, prestou-nos, ontem, os seguintes esclarecimentos: “A Tribo dos Andirás, antigamente localizada no rio Andirá, no município de Barreirinha, pertence à grande família dos Maués, que habitava com os Mundurucus, a Mundurucânia, ou seja, a grande ilha Tupinambarana. A nossa Tribo dos Andirás se constitui apenas numa reconstituição da tribo do rio Andirá, de origem Maués. Muitas das cenas que se passam são originais. Os instrumentos musicais e de dança vieram diretamente da Ponta Alegre, no rio Andirá, adquiridas pelo professor Mário Ypiranga Monteiro. Da festa da “tucandira” foi omitida apenas a “dança real” e os versos, o porantim ou remo mágico dos Maués ou Andirás, zarabatana, cartucheira, gambá, curupira, luvas para a dança da tucandira, mauáco, o apito mágico. O ritual da tucandira e o do cipó são reais, bem como a luva onde os moços dão a prova de virilidade. Os cantos são de inspiração nossa, mas a língua geral é verdadeiramente autêntica.”

SÁBADO – REUNIÃO OBRIGATÓRIA – Sábado, às 16 horas, haverá reunião para todos os dirigentes dos grupos folclóricos inscritos no VII Festival Folclórico, oportunidade em que serão sorteados os lugares para o desfile de abertura e encerramento, bem como a tabela para as noitadas de apresentação.

CUNHANTANS PURANGAS – A Quadrilha Cunhantans Puranga estará à noite de amanhã reunindo seus brincantes, no sentido de realizar mais um ensaio para adestrar com afinco o seu conjunto, a fim de conquistar o tão almejado título de campeão. Este ano novos passos serão introduzidos na Quadrilha Cunhantans Purangas, daí a seriedade dos ensaios.

CAPRICHOSO – O tradicional bumbá Caprichoso estará no sábado, dia 6, realizando o seu ensaio geral, preparando-se para a grande festa de abertura do próximo dia 14. O Caprichoso desponta como um dois mais sérios concorrentes ao título de campeão dos bumbás. Com novas toadas e belas fantasias, contando com um grande número de brincantes, o caprichoso não teme qualquer concorrente. Sábado, no grande ensaio geral, todos os brincantes estarão presentes. Para dar maior brilho e entusiasmo, também serão mostradas as novas fantasias.

CAIÇARAS NA ROÇA – Pela primeira vez disputando o título de quadrilha mirim, Caiçara na Roça vem treinando assiduamente, disposta a superar os seus rivais. Muito bem orientada, a quadrilha mirim Caiçaras na Roça reúne todas as características de um conjunto que poderá brilhar no VII Festival Folclórico.

CIRANDA – O grupo regional Ciranda, formada por alunos da Escola Comercial Sólon de Lucena, em virtude da falta do ensaiador José Silvestre, o qual é lamentada por todos os brincantes e que nós, da Comissão Organizadora do VIII Festival, apelamos, no sentido de que o sr. José Silvestre venha tomar a frente do referido conjunto, conforme é vontade dos mesmos, ainda não realizou seu ensaio. Ontem à noite, grande número de brincantes esteve em nossa redação, no sentido de que formulássemos esse convite ao sr. José Silvestre, para que o mesmo, único conhecedor do ritmo e passos da tão querida dança que conquistou brilhantemente o título do ano passado e reuniu para si um grande número de adeptos, venha a dirigi-los como aconteceu anteriormente.


No dia 6 de junho, sábado, o Jornal do Folclore n° 42, em novo editorial folcloricamente cabotino, voltava a soltar os cachorros contra o jornalista Bianor Garcia, dando a impressão de que o editorialista já tinha ciência de que o jornalista não fazia mais parte da organização do festival:

Hoje, o leitor encontrará neste modesto jornal dedicado especialmente ao movimento folclórico do Amazonas, um ligeiro histórico documentado dos festivais folclóricos de Manaus, a começar de 1946. Não pretendemos fazê-lo de modo exaustivo, pois se assim fosse roubaríamos espaço de outros assuntos não menos importante. É só uma ligeira referência para conhecimento dos interessados. Naqueles tempos os festivais não possuíam os nomes que hoje têm – eram realizados durante certos arraiais, ou mesmo propositadamente, mas sempre com o auxílio direto dos poderes constituídos, na forma de taça aos grupos vencedores, de transportes para os brincantes. Lembramos que auxiliaram esses festivais os drs. Aluísio Brasil, Chaves Monteiro, Álvaro Bandeira de Melo, então prefeitos municipais.

Nesses festivais notava-se a presença principalmente de bois e pássaros, quadrilhas poucas e pastorinhas. O povo comparecia seguidamente à praça do General Carneiro, da rua de Ajuricaba, da avenida de João Coelho esquina da rua de Leonardo Malcher,  e desta com a de Getúlio Vargas, à então Festa da Mocidade, e a outros locais como o Parque Amazonense, com a mesma receptividade, o mesmo carinho, apesar de serem esses locais às vezes mais distante, depender de bonde, etc. Houve um tempo em que certos clubes recreativos tomavam os arraiais sob patrocínio, como o Internacional, o Satélite. Não é de hoje, portanto, a ocorrência desses festivais, como se poderá ver pelo calendário que publicamos. Nem se justifica o privilégio defendido aos gritos e clamores por certo cidadão que se intitulava nababescamente “inventor” dos festivais folclóricos de Manaus, quando de 1946 a 1956 tais festivais vinham sendo realizados em vários pontos da cidade com o mesmo ajuntamento de povo, posto que com menor número de grupos originais.

E quem introduziu o folclore regional diferente, fora do comum, nesses e noutros festivais, foi o secretário da Comissão Amazonense de Folclore, chamando as tradições folclóricas do interior para a cidade, a fim de que essas tradições fossem conhecidas melhor e difundidas. Não com o propósito de “abrilhantar” os festivais. Não com este fim, mas com o objetivo de divulgar e de ensinar. Este sim, deve ser a finalidade dos festivais. Entretanto, ocorre o contrário. Todos os anos os portadores de folclore querem aparecer com uma inovação (excetuando-se os bois, pássaros e tribos), a fim de sobressair-se aos demais. É um erro. O folclore só pode sobreviver se houver continuidade, e essa continuidade, repetimos mais uma vez, é que faz a tradição. A tradição firma-se no conhecimento do povo e se transmite. Essa é que é a lição a ser observada. Essa é que deveria ser a sistemática dos festivais: educação pela observância e não recorrência a recursos exibitórios. É por tudo isso que vimos lutando danadamente.

Calendário dos Festivais Folclóricos de Manaus: 

Em 1946 – Local: Avenida de João Coelho canto com a rua de Leonardo Malcher. Promotores: Bar Balalaika e Prefeitura Municipal, com taças e prêmios de Cr$ 300,00 ao vencedor (bois). 

Em 1947, 1948, 1950, 1951, 1952 e 1953 – Local: Praça de General Carneiro. Promotores: Internacional Futebol Clube e Prefeitura Municipal. Prêmios: taças. 

Em 1948, houve concursos em três lugares diferentes, incluindo o Parque Amazonense. 

Em 1950, houve um concurso de pastorinhas e pastoris na Festa da Mocidade. 

Em 1949 e 1954 – Local: Avenida de Ajuricaba. Promotores: Prefeitura Municipal. Prêmios: taças.


No VIII Festival Folclórico do Amazonas, o auxílio financeiro dado pelo governo ficou assim distribuído. Bumbás: Cr$ 80 mil (em valores de hoje, R$ 6.400,00). Garrotes, Tribos e Quadrilhas adultas: Cr$ 60 mil. Quadrilhas mirins: Cr$ 20 mil. Danças regionais e Pássaros: Cr$ 30 mil. O prêmio dos vencedores de cada categoria seria o dobro desses valores.

Em termos comparativos, a ajuda financeira aos grupos folclóricos havia regredido para menos da metade do que eles haviam recebido no último ano do governo de Gilberto Mestrinho. O governador Plinio Coelho atribuiu o problema à baixa arrecadação estadual de tributos devido à desaceleração econômica do país e ao aumento da carestia.

Foram inscritos 39 grupos, com aproximadamente 5 mil brincantes:

Bumbás: Caprichoso, Pai do Campo, Tira Prosa e Mina de Ouro.

Garrotes: Teimosinho, Malhado, Luz de Guerra, Tira Teima, Pingo de Ouro, Canarinho e Dominante.

Pássaros: Bem-te-vi, Japiim e Corrupião.

Tribos: Iurupixunas, Andirás e Amazonas.

Danças regionais: Imperiais, Dança do Tipiti, Dança do Jacundá-Camaleão Suim, Dança do Arara-Desfeiteira, Maracatu de Pernambuco e Rancho das Rosas.

Quadrilhas adultas: Flor do Plano, São João na Roça, Camponeses, Araruama na Roça, Cunhantans Purangas, Asa Branca, Rancho Alegre, Glorianos na Roça, Flor Selvagem, Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião.

Quadrilhas mirins: Dança de Roda e Brincadeiras Infantis, Caiçaras na Roça, Brotinhos de Amanhã, Caboclinhos de Brasília e Filhos do Cangaceiro.

Por meio de sorteio, o bumbá Caprichoso, que estava completando 52 anos de existência, foi escolhido para abrir o desfile inaugural, seguido pela Quadrilha Flor do Plano, Tribos dos Iurupixunas, Pássaro Bem-te-vi, Garrote Teimosinho e Dança do Tipiti. O bumbá Mina de Ouro seria o último a desfilar.

Também, por meio de sorteio, ficou decidido que o bumbá Tira Prosa mostraria o auto completo do boi, incluindo a matança, mas que esse último item não contaria pontos para o julgamento.

O grande ausente do VIII Festival foi o bumbá Corre Campo. Em carta endereçada aos organizadores, Astrogildo Pereira dos Santos, o popular Mestre Tó, informou que sua mãe estava muito adoentada e já desenganada pelos médicos. Ele havia prometido dedicar todo o seu tempo à genitora, sem se afastar um só minuto de sua cabeceira, e, por esse motivo, não teria condições psicológicas de colocar o boi na rua.

Entre as novidades daquele ano, o Pássaro Bem-te-vi, ensaiado pela famosa Mãe Joana Galante, de São Jorge, que voltava a se apresentar depois de 18 anos de ausência, e o grupo Danças de Roda e Jogos Infantis, ensaiada pelo professor Isidoro Barbosa (o famoso “Titio Barbosa”, que apresentava um programa radiofônico na Rádio Rio-mar intitulado “Teatrinho Infantil”), que pretendia fazer a plateia empreender um verdadeiro mergulho na infância a partir de brincadeiras tradicionais como “Chicotinho queimado”, “Ciranda, cirandinha”, “Fui no Tororó” e “Terezinha de Jesus”.

A carismática Joana Almeida dos Anjos, nome verdadeiro da Mãe Joana Galante, foi a babalorixá mais famosa de Manaus, tendo sido preceptora da Mãe Zulmira, do Morro da Liberdade.

Vinda do Pará, ela foi morar na Rua Leonardo Malcher e depois se mudou para o bairro de São Jorge.

Personalidade carismática, Mãe Joana nasceu em 28 de junho de 1910 e iniciou seus trabalhos com a umbanda e o candomblé ainda aos 28 anos de idade.

Festeira, recebeu o nome de Galante, por ter sido madrinha e patrocinadora do Boi-Bumbá Galante, do Boulevard Amazonas.


O enredo do Pássaro Bem-te-vi, apresentado pela Mãe Joana, contava a seguinte história:

Em uma floresta existia um lindo Bem-te-vi e um caçador, ao saber da existência de tão bela ave, resolveu caçá-lo. Ao saber que o audacioso caçador havia penetrado em sua floresta, o Princípe e a Princesa ordenaram rapidamente ao Guarda do Bosque que fosse chamar o Tuxaua de uma tribo, para o qual entregaram a pequena ave fazendo-o jurar que a protegeria com sua própria vida.

O Tuxaua leva o Bem-te-vi para a sua maloca, mas o esperto Caçador, com a ajuda de uma Feiticeira, faz a tribo inteira adormecer, após os índios ingerirem uma bebida chamada caulim, facilitando a entrada do caçador na maloca para atirar na ave.

Neste momento, o Guarda Bosques que por ali passava ouviu o estampido do tiro e correu para a maloca, encontrando apenas o passarinho quase morto. Um Matuto, que também correu para o local, presenciou a mesma cena que o Guarda do Bosque e, juntos, foram avisar o ocorrido para o Príncipe e a Princesa.

O Príncipe, indignado, ordenou que o Guarda do Bosque trouxesse à sua presença, presos, o Caçador e a Feiticeira.  A Feiticeira, entretanto, havia se escondido. Após passar o efeito da bebida, os índios também tomam conhecimento do acontecido e, enfurecidos, saem em busca do Caçador.

Ele é levado preso à presença do Príncipe e, então, pede perdão pelo seu ato tresloucado. O Príncipe, que era piedoso e tinha bom coração, diz que só liberta o Caçador se ele fizer o Bem-te-vi voltar a viver.

O Caçador pede ao Soldado para chamar o Doutor. Depois de examinar detidamente o passarinho, o Doutor diz que a cura dele está além da sua ciência e que nada pode fazer para trazer de volta a vida da avezinha.

Escutando a conversa do Doutor, o Matuto diz que conhece um macumbeiro, que seria capaz de fazer o passarinho ficar bom.

O Príncipe, desejando ardentemente que o pássaro reviva, ordena ao Matuto para chamar o tal macumbeiro, na verdade um Pajé, que chega rapidamente, pondo-se a fazer seu trabalho por meio de cânticos, chamando um de seus espíritos.

O Doutor, ao ver aquela invocação, põe-se a dar gargalhadas zombeteiras e o Pajé, vendo a zombaria do doutor, passa a sua espada sobre a cabeça do mesmo, fazendo-o incorporar um espírito e entrar na dança.

Ao término da dança, o Pajé faz a entrega do pássaro com vida ao Príncipe e depois da lição dada ao Doutor, retira o espírito do mesmo, que voltando a si, envergonhado e encabulado, some rapidamente do local.

Depois de liberto, o Caçador promete nunca mais voltar à floresta e, ao sair, encontra a Feiticeira, que já o esperava, e os dois vão embora, juntos. 

O Guarda do Bosque, juntamente com o Matuto e seu filho, começam a canta uma música de despedida de muita graça e ritmo, e todos os brincantes se despedem do público cantando e dançando.


Para julgar os participantes do VIII Festival, a Empresa Archer Pinto Ltda delegou poderes ao Padre Raimundo Nonato Pinheiro, homem culto e de profundos conhecimentos sobre o folclore, para reunir os juízes que integrariam a Comissão Julgadora e definir os critérios de julgamento.

A Comissão Julgadora ficou constituída pelo coronel João Walter (presidente), desembargadores Leoncio Salignac, João Rebelo Correa e João Pereira Machado, acadêmicos Padre Nonato Pinheiro, Aderson de Menezes e Aristophanes Antony, jornalista Satyro Barbosa e professor Garcitilzo do Lago e Silva.

Também ficou estabelecido que, entre os grupos vencedores de cada categoria, seria escolhido o campeão oficial do festival, com direito a uma gigantesca taça de bronze ofertada pela própria Empresa Archer Pinto.

A posse da taça seria provisória, tornando-se definitiva se um grupo folclórico obtivesse duas vitórias consecutivas ou três vitórias intercaladas, a partir daquele ano.

No dia 13 de junho, sábado, o general Castelo Branco anunciou uma nova lista de cassações, que pretendia ser a última, de acordo com o AI-1, atingindo dezenas de pessoas, entre as quais 11 parlamentares, o governador do Amazonas Plínio Coelho e quatro ex-ministros de João Goulart.

Nesse mesmo dia, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI), com a finalidade de assessorar o presidente na orientação e coordenação das atividades de informação e contra-informação, em particular aquelas de interesse para a segurança nacional. Assumiu a chefia do novo órgão o general Golberi, que ali permaneceria durante todo o governo Castelo.

No dia seguinte, 14 de junho, domingo, o programa de abertura do festival deveria ser cumprido à risca conforme havia sido estabelecido pelos organizadores:

15h30: Chegada ao palanque oficial da Comissão Julgadora do certame.

15h45: Início do desfile dos grupos folclóricos.

16h45: Saudação e agradecimento da Empresa Archer Pinto Ltda.

17h: Abertura solene pela palavra do prefeito Josué Cláudio de Souza.

17h15: Saudação do governador Plinio Coelho ao povo em geral.

17h3: Apresentação dos membros da Comissão Julgadora do Festival e palavra de seu presidente.

17h45: Apresentação especial do Coral João Gomes Junior.
 

Quando Plinio Coelho ainda estava discursando, entretanto, surgiu no evento o coronel José Alípio de Carvalho, comandante do 27º BC, e informou ao chefe da Casa Civil do governador que Plinio estava deposto por ter seus direitos políticos cassados.

Informado da situação, o governador não reagiu. Ele concluiu seu discurso se despedindo do povo de Manaus e, em companhia do coronel Carvalho, se dirigiu à casa do general Jurandir Bizarria Mamede, comandante militar da Amazônia, onde tomou ciência oficial de que havia sido cassado no dia anterior pelo general Castelo Branco.

O governador ficou pálido, cinza, bege, tom-sobre-tom, mas ainda assim não esboçou qualquer resistência. Em companhia de alguns secretários estaduais, Plinio Coelho foi comboiado ao Palácio Rio Negro pelo general Mamede, onde deu posse ao deputado estadual Anfremon Monteiro como novo governador do Amazonas, por volta das 22 horas.

Na segunda feira, 15 de junho, primeiro dia da competição, um forte aguaceiro desabou sobre a cidade o dia inteiro, entrando pela noite, e as apresentações foram suspensas. Os grupos escalados para a segunda feira se apresentaram juntos com os grupos escalados para terça feira, num total de sete apresentações. Foi o único incidente sério que ocorreu no festival daquele ano (descontando-se, evidentemente, a deposição do governador).

Entre as atrações especiais mais aplaudidas pelo público, destacou-se o grupo dos “Aqualoucos”, ensaiados pelo tenente Cavalcante, que fizeram uma série de saltos ornamentais e acrobáticos de tirar o fôlego, sozinhos ou em grupos, na piscina do estádio.

Entre os convidados especiais, a nova diretora do Serviço Nacional de Teatro, Barbara Heliodora, crítica de teatro do Jornal do Brasil, teatróloga e tradutora renomada.

Muito aplaudida pelo público presente, Barba Heliodora pediu para ser fotografada junto a alguns grupos regionais, mas entrou em pânico quando se aproximou dela uma índia da Tribo dos Andirás trazendo uma inofensiva jiboia enrolada no corpo.

A crítica teatral recebeu um diploma de participação ofertado por Maria de Lourdes Archer Pinto e elogiou muito a originalidade dos grupos presentes no festival.

Eleito pela Assembleia Legislativa do Amazonas para substituir o governador Plínio Ramos Coelho, o historiador, escritor e professor Arthur Cézar Ferreira Reis participou da festa de encerramento do VIII Festival, fazendo um breve discurso logo após a saudação do prefeito Josué Cláudio de Souza. Foi ovacionado por quase 80 mil pessoas presentes no Estádio General Osório.


Na sequência, a Comissão Julgadora, após a apuração de todas as notas, proclamou os seguintes campeões por categorias:

Bumbá: Pai do Campo.

Garrote: Luz de Guerra.

Quadrilha adulta: Cabras do Lampião (que com seus 126 pares luxuosamente fantasiados, também foi eleita “Campeã dos Campeões”, ficando com a posse provisória do troféu alusivo ao título).

Quadrilha mirim: Brotinhos de Amanhã.

Tribos: Iurupixunas e Andirás.

Pássaros: Japiim e Bem-te-vi.

Dança regional: Dança dos Imperiais.

Rainha do Festival: Ana Cláudia (“Maria Bonita” da Quadrilha Cabras do Lampião).

Rainha de Beleza: Maria Paula (Dança do Tipiti).

Rainha Mirim: Elizabeth Oliveira (Filhos do Cangaceiro).

Nesse meio tempo, o “papa do folclore tupiniquim”, por meio de sua solitária trincheira no boletim Jornal do Folclore, não cansava de arrotar bacaba sobre a possível ignorância do apresentador das danças que se exibiam no festival.

No nº 45 do boletim, publicado no dia 27 de junho, sábado, sob o título de “Reparos oportunos”, escreveu esse texto:

Um locutor, durante a abertura oficial do VIII Festival Folclórico, referindo-se aos grupos que desfilavam, disse umas coisas que nós resolvemos retificar com o objetivo sadio de orientar:

TIPITI – Não é uma dança exclusivamente amazônica nem está influenciando outros povos, como disse o locutor. Já escrevemos neste mesmo jornal, declarando sua universalidade. Apenas o nome “tipiti” é amazônico, bem como alguns itens da dança.

CAMALEÃO – O locutor estranhou o seu aparecimento no festival, dizendo nunca haver aparecido nos outros festivais. É um equívoco: surgiu o ano passado, ensaiado por nós.

IMPERIAIS – Lembramos ao locutor que a dança não se filia ao gênero tribo, como ele disse, porque esta é de brincantes travestidos à indígena.  O mesmo locutor estranhou estarem os brincantes “com a cara pintada de branco”.

Referindo-se à quadrilha CUNHANTÃS PURANGA, privou-a da acepção feminina, dizendo “O Cunhantã Puranga”. Lembramos ao locutor que cunhantã é menina.

Foi decerto um grande sabido que soprou para o locutor que a festa dos índios era denominada “putirum”.  Engano: é dabacuri.

Lá para as tantas, o locutor referiu-se a uma “tribo de Gambá”, que não existe. Existe a dança de mesmo nome.

Um dos oradores, atribuindo-se conhecimentos de folclore de que nós nos admiramos justamente por desconhecer-lhe qualquer experiência no assunto, atribui ao festival a natureza de “congresso”.

PREVENÇÃO – A Comissão Nacional de Folclore não possui nem divulgou qualquer norma técnica para julgamento de grupos folclóricos, mesmo porque, conscientemente, ela desaprova esses concursos, contrários à ética folclórica. Portanto, toda e qualquer referência à Comissão Nacional de Folclore, divulgada em público, como vem sendo feita, é mero recurso explorativo, sem nenhuma validade. Que se faça o julgamento como melhor pareça, vá lá, mas que se meta a Comissão Nacional do Folclore numa atividade a ela completamente estranha é ir além da ética. Que exibam os promotores dos festivais qualquer documento nesse sentido, para que nós saibamos ao menos o que está ocorrendo, pois até hoje ignorávamos que a Comissão Nacional do Folclore estivesse interessada em concursos dessa natureza.  E se estivesse seríamos nós os primeiros a haver conhecimento dos fatos. Em todo caso, a Comissão Amazonense de Folclore vai pôr-se em contato com a CNF, a fim de aclarar a questão.


Como as críticas do renomado folclorista não repercutiram além das duas centenas de leitores do jornal A Gazeta, ele voltou à carga no Jornal do Folclore nº 46, de 4 de julho, com nova pérola de cabotinismo pernóstico:

Terminaram as festas juninas e também o VIII Festival Folclórico, organizado sem a necessária visão e o conhecimento de uma técnica de base. O resultado não foi nada promissor. A crítica popular que o diga. Faltaram os melhores grupos, os grupos também representativos do nosso folclore legítimo. Ouvimos dizer – e o registramos sob reserva – que o brigue Independência foi riscado do programa sob o pretexto de que circulava pelo carnaval e portanto não era folclore. A ser verdade essa história, isso marca um capítulo novo no conhecimento da ciência, um capítulo que nós ignorávamos. Uma das coisas mais fúteis que observamos foi a notícia publicada de que o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo havia declarado que o “nosso festival era a mais linda festa típica do Brasil” (lugar comum sem variações), como se na verdade o homem tivesse vindo cá e assistido a coisa.

No final do festival, houve como prêmio de consolação um sururuzinho entre grupos, para reafirmar, mais uma vez, o que sempre dissemos: folclore é espontâneo e toda e qualquer intromissão de leigos só poderá degenerar em anarquia. Uma outra situação desfavorável se exprime no fato de que houve um julgamento feito sem nenhuma técnica e o jornal promotor chegou ao cúmulo de dizer que esse julgamento era de acordo com o exigido pela Comissão Nacional de Folclore. Na verdade, a Comissão Nacional de Folclore nunca expôs razões a esse respeito nem reconhece qualquer situação idêntica nem muito menos os nomes dos “estudiosos” do Folclore que tomaram parte naquela comissão julgadora, mesmo porque eles jamais escreveram sobre folclore. E assim vai indo, de vento em popa, o nosso folclore, desmantelado, anarquizado.

A Comissão Amazonense de Folclore fez bem em não se meter naquilo. Nenhum membro dela tomou parte na comissão julgadora. E o que vaticinamos antes, verificou-se depois: os protestos dos grupos são justos. E se não houve mais protestos é porque os dirigentes de grupos desconhecem, ignoram as próprias situações. O erro mais triste que houve foi classificar-se em primeiro lugar a Dança dos Imperiais, metida à força numa chave em que apareciam o Tipiti, o Camaleão e o Jacundá. Isso prova que os membros da comissão julgadora desconhecem o verdadeiro folclore amazônico e a diversidade deles. Mais uma para a história dos Festivais.


No dia 11 de julho, no matutino O Jornal, o professor José Braga, responsável pela Dança dos Imperiais, exibida pelos alunos do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), publicou um artigo intitulado “Qual o erro, professor?”, questionando o abusivo comentário feito anteriormente pelo renomado folclorista:

Leio sempre o seu Jornal do Folclore, professor Mário Ipiranga, inserto em “A Gazeta”. O do dia 4, nas críticas ao VIII Festival Folclórico, diz que “o erro mais triste que houve foi classificar-se em primeiro lugar a Dança dos Imperiais, metendo-a à força numa chave em que apareciam o Tipiti, o Camaleão e o Jacundá”.

Sabe o meu ilustre amigo que sou o responsável, como professor, pelo grupo de moças e rapazes do Instituto de Educação, que mostrou a Dança dos Imperiais naquele festival.

Sua crítica roubou-me a mim e a meus alunos, que ainda exultávamos – menos pela classificação no concurso do que pelo brilho de nossas duas apresentações ao público durante as festas juninas –, a alegria e o entusiasmo.

O amigo sabe também – e se não quis dizê-lo o fez por modéstia – que a dança foi escolhida sob sua orientação e ensaiada, no ano passado, com o seu concurso, havendo o sr. José Marques, que é filho de Tefé, município onde ainda hoje subsiste a Dança dos Imperiais como exemplo de cultura, contribuído de modo decisivo para a sua organização.

Procurei formar um grupo o quanto possível autêntico, observando todas as instruções que me deu o amigo. Até mesmo a descrição feita por mim no VIII Festival foi fiel àquilo que aprendi com o folclorista.

Por tudo isso, caro professor Mário Ipiranga, surpreendi-me ao ler o seu “Paleio no Copiar” do sábado passado. Gostaria mesmo que o amigo esclarecesse melhor se o “erro” está em haverem os promotores do festival incluído a Dança dos Imperiais na chave do Tipiti, Camaleão e Jacundá, assim impedindo, pela diversidade dos grupos, um julgamento equânime ou se consiste na falta de condições do conjunto para a classificação que lhe coube.

É que não temos motivo, os moços do Instituto de Educação e eu, para envergonhar-nos do título que, em podendo ser de qualquer dos participantes do VIII Festival, nos coube, ainda que a presença do colégio naquela festa não tivesse outro objetivo senão o de oferecer a sua mensagem de cultura ao público que a apladiu. Um abraço, professor.

Mostrando mais uma vez que “cão que ladra, não morde”, Mário Ypiranga Monteiro preferiu meteu a viola no saco a continuar a polêmica e fez quase um humilhante pedido de desculpas públicas ao professor José Braga, conforme pode ser lido no Jornal do Folclore nº 48, de 18 de julho:

O nosso comentário de sábado retrasado, sobre a vitória do grupo “Imperiais”, no último festival, provocou o artigo do professor José Braga, inserto n’O Jornal do dia 11 de julho, sob o título “Qual o erro, professor?”, a que respondemos no jornal A Gazeta, de 14 de julho. Publicamos a seguir a nossa resposta, que agradou não somente ao articulista, mas a muita gente que, embora não sendo entendida em folclore, aprecia discussões em torno do assunto. Eis a nossa resposta:

O professor José Braga, a quem eu tenho em alto merecimento, escrevendo na edição de O Jornal de 11 do corrente, me força a uma explicação sobre o conteúdo do “Paleio no Copiar”, do Jornal do Folclore, de sábado atrasado. Parece-me que ele supôs haver eu feito severas restrições à apresentação do grupo “Imperiais”, grupo que, afinal de contas, me é caro e para cuja exibição contribui com uma modesta parcela de meus conhecimentos do folclore amazonense. Posto que contrário, por muitas razões, ao processo de competições folclóricas (razão ver que a Comissão Amazonense de Folclore deixou de tomar parte no festival), acho que a vitória do grupo “Imperiais” foi justa, de um certo ponto de vista que o professor José Braga já conhece. Quanto a esta parte, está tudo Ok. Nada há que aduzir: o grupo “Imperiais”, no seu gênero, entrou no tablado sem competidores.

O que ocorreu foi simplesmente isso: meteram à força, numa chave, quatro grupos que mereciam primeiramente ser estudados nos seus diversos itens, tal se juntassem alhos com bugalhos. Se o professor me entendeu bem, sacrificaram uma dança tipicamente regional, o “Jacundá”. E como nem o “Jacundá” nem o “Imperiais” são do mesmo gênero, restavam dois grupos, “Camaleão” e “Tipiti”. Vai daí que estes dois também não formavam parelha. Então, o caro professor José Braga deve estar compreendendo que todos os quatro grupos entraram no páreo vencedores, com direito, cada um, ao seu prêmio. Morou?

Infelizmente, folclore não é futebol, coisa fácil de ser posta em chaves. Estudioso de folclore não se improvisa da noite para o dia. Consequentemente, se o meu simpático grupo “Imperiais” ganhou justamente um prêmio, injustamente deixou-se de conferir prêmio a quem a ele fazia jus. Essas injustiças continuadas provocam uma reação nos grupos. Muitos deixarão de comparecer a esses torneios absurdos para não sofrerem humilhações. É por isso que quem estuda Folclore estuda também Psicologia. Eu previ o que iria acontecer quando li a tal chave. Uma aberração. O erro não foi seu, caro professor José Braga. O erro gritante é de quem se improvisa, por vaidade, entendedor de assunto que eu há mais de trinta anos estudo e acho que ainda estou encontrando surpresas...

Louvo a sua dedicação e o desempenho dos alunos do Instituto de Educação do Amazonas, a quem, mais uma vez, cumprimento pela vitória e pela apresentação magnífica, posto que, como sempre, seja contrário a disputas. E para os perdedores, “Jacundá”, “Camaleão” e “Tipiti”, só posso oferecer palavras de estímulo e de conforto. Até para perder é preciso possuir dignidade. Que tenham paciência. Desta vez ainda calaram sobre um Convênio e uma Lei de Estado, desprestigiando a Comissão Amazonense de Folclore. Um dia aparecerá alguém que lhe fará a merecida justiça, isto é, quando nesses festivais houver verdadeiros amigos da ciência. (Mário Ypiranga Monteiro).