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segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Tudo índio, tudo parente!


No último sábado, no Bar do Jacó, rolou mais um ensaio técnico da Banda do Caxuxa.

Esta semana, a música oficial da banda vai ser gravada no estúdio do Joel.

Como pouca gente conhece a trajetória deste autêntico símbolo do bairro da Cachoeirinha, aí vai uma biografia básica do nosso patrono.

Filho de Sebastião Ramiro e Ozina Nogueira (aka “Dinoca”), Raimundo Selmo Nogueira (aka “Caxuxa”) nasceu em Santarém (PA), no dia 1º de fevereiro de 1938.

Boêmio e farrista da pesada, Sebastião abandonou a família quando Selmo tinha apenas quatro anos.

Ele nunca mais voltou a ver o pai.

Dinoca era a única mulher em uma turma de seis irmãos: ela, Hilário, Antônio, Raimundo, Elísio e Brígido Nogueira.

Em busca de uma vida melhor, seus irmãos mais velhos se mudaram para Manaus.

Em 1944, Dinoca também se mudou para Manaus, trazendo na bagagem o filho único.

Para garantir os proventos da casa, Dinoca trabalhava como lavadeira, cozinheira e empregada doméstica em casas de família.


Ela havia se casado com Sebastião no mesmo ano em que seu irmão Hilário se casou com a jovem Arminda.

Os dois fizeram um pacto: se algum dia eles ficassem viúvos, nenhum dos dois voltaria a se casar de novo e seus filhos seriam criados juntos, como se fossem irmãos.

Em Manaus, a bonita Dinoca teve outros dois filhos, frutos de relacionamentos casuais: Sérgia e Afonso.

Hilário e Arminda tiveram cinco filhos: Helvécio, Olga, Stanislaw, Ismelinda e Maria Gertrudes.

O tímido Stanislaw estudou comigo na ETFA e depois se tornou professor da instituição.

O boêmio Sebastião Ramiro morreu afogado em Santarém, durante uma crise de epilepsia, quando participava de uma farra na praia do rio Tapajós.

Selmo estava com 11 anos.

Coincidentemente, no mesmo ano, dona Arminda era vencida por um câncer intestinal.

Os dois irmãos viúvos juntaram todas as oito crianças na casa de dona Dinoca e os moleques foram criados como irmãos, sob o mesmo teto.

Para ajudar no sustento da nova família ampliada, Selmo, o mais velho de todos, começou a trabalhar.

Foi engraxate, vendedor de picolé, ajudante de pedreiro, operário da construção naval no Estaleiro Amazonas, balconista da empresa Souza Arnaud e vendedor das Casas Pernambucanas.

Por insistência do advogado Flávio de Castro, ele havia passado no exame de admissão da ETFA, mas se desiludiu com os estudos técnicos durante o ginásio e abandonou a escola.

Só muitos anos depois, ele concluiu o curso ginasial no Colégio Dom Bosco.


Em 1956, durante um baile no clube Ypiranga, Selmo ficou simplesmente hipnotizado quando colocou os olhos em uma bela morena ostentando um decotadíssimo vestido de linho azul, que se encontrava em uma das mesas do recinto.

Depois de muita insistência para tirá-la para dançar (a morena se recusava peremptoriamente, alegando que não sabia dançar “colado”), Selmo conseguiu levá-la ao salão sob os acordes de “Only You (And You Alone)”, na voz marcante do The Platters.

Quando a música terminou, os dois estavam irremediavelmente apaixonados.

A morena se chamava Telma Vieira e tinha 17 anos.

O pé-de-valsa Selmo tinha 18 anos.

Alguns anos depois, ao ser demitido sem justa causa das Casas Pernambucanas, Selmo decidiu que nunca mais iria ficar atrás de um balcão obedecendo às ordens de um patrão.

Ele mesmo seria seu próprio patrão.

Selmo começou a comprar sacos de farinha no atacado e a vender no varejo, nas feiras livres de Manaus.

Depois entrou para o ramo de compra e venda de arroz, feijão, verduras, legumes, peixes, ovos e galinhas.

Cada vez mais apaixonado, ele se casou com dona Telma, em dezembro de 1960, adquiriu um terreno na rua J. Carlos Antony, entre as ruas Borba e Carvalho Leal, levantou uma pequena casa de madeira e se estabeleceu no lugar.


Foi quando um de seus primos, o bancário Elísio Nogueira, o convenceu a participar de um concurso para escriturário temporário no Banco da Amazônia (Basa).

Selmo fez o concurso e foi aprovado.

Um ano depois, ele fez um concurso interno na instituição e se transformou em escriturário efetivo.

Militante do proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB), Selmo costumava comprar a revista “Novo Rumo”, editada pelo partido, e emprestá-la para os funcionários do banco.

Ele também fazia trabalho de proselitismo político junto aos feirantes da cidade.

A “Redentora” veio alcançá-lo, em 1964, como chefe de Carteira do Basa.

Demitido, sumariamente, pelo seu envolvimento com o Partidão, Selmo ficou desempregado de uma hora para outra e já tendo duas filhas para criar (Socorro e Wânia).

O lendário advogado comunista Francisco Alves, especializado em questões trabalhistas, saiu em seu auxílio e entrou com um processo contra o banco que se estendeu por três anos.

Para sobreviver, Selmo montou um pequeno quiosque em frente à sua residência, onde vendia bolinho de trigo (“filhós”), banana frita, bolo de macaxeira, tapioca doce, bolo de milho, canjica e mungunzá, acompanhado de refresco de frutas regionais.

A única bebida alcóolica que vendia era a famosa “caipirinha” de Cocal, servida exclusivamente para meia-dúzia de cobradores de ônibus, seus antigos camaradas de Partidão.


Em 1967, quando finalmente o Basa resolveu lhe indenizar, Selmo já estava quase matando cachorro a grito.

O dinheiro arrecadado no quiosque mal dava para manter o nível básico de sobrevivência da família.

Para ajudar nas despesas da casa, Telma estava trabalhando como enfermeira.

Assim que colocou a mão na bufunfa, Selmo comprou uma alcova completa e um jogo de cozinha para presentear a esposa.

Aí, disposto a nunca mais ser empregado de ninguém, transformou o pequeno quiosque no imponente Caxuxa Drinks e Lanches.

Em menos de um ano, Selmo já havia se transformado no melhor barman da Cachoeirinha.

Suas “batidas” mágicas de frutas regionais eram disputadas a tapa.


Irmão caçula de dona Dinoca, seu Brígido casou com dona Glória, teve 15 filhos naturais (Vicente, Geraldo, Ana, Fátima, Aparecida, Cláudio, Tomaz, Elisa, Brígido Jr., Maria de Jesus, Maria da Glória, Mário Roberto, Deolinda, Hilário e Edneide) e adotou outras três crianças, Maria da Piedade e as gêmeas Ana Lúcia e Ana Cristina.

Vicente Nogueira foi secretário estadual de Educação.

Geraldo Nogueira estudou comigo na ETFA e na Utam.

Tomaz Nogueira é o atual superintendente da Suframa.

Durante a adolescência, a hoje assistente social Aparecida (“Cida”) teve um namorico com o Mário Adolfo – um dos poucos sujeitos que conheço a namorar uma moradora do bairro de Aparecida sem ser residente do bairro e sobreviver para contar a história.

Irmã de dona Glória, dona Helena casou com seu José Cyrino Dantas e teve seis filhos: Vânia, Conceição (“Ceita”), José Cyrino Dantas Jr. (“Zeca”), Ana Coeli, Publio Caio e Mona Helena.

Ex-secretário municipal de Educação, José Cyrino foi meu contemporâneo no ICHL, ele fazendo Filosofia, eu fazendo Administração, em meados dos anos 70.

Somos amigos até hoje.


Irmã de dona Helena, dona Adelaide casou com seu Ulimar Vanderley e teve três filhas: Lucia Helena, Ana Lucia e Claudinha.

Eles moravam na av. Carvalho Leal, nas proximidades da casa da dona Magnólia Figueiredo.

Lucia Helena casou com Jefferson Coronel, Ana Lúcia casou com Caio do Cavaco e Claudinha casou com Edu do Banjo.

Irmã de dona Adelaide, dona Elisa casou com seu José Ribamar e teve 11 filhos: José Ribamar Bessa Filho (“Babá”, o fero cronista da coluna “Taqui pra Ti”), Regina, Helena, Estela, Ângela, Ricardo, Roberto, Aparecida, Celeste, Elisa e Maria do Céu.

O jornalista Mário Adolfo foi aluno do Babá no ICHL e depois trabalhou com ele na redação do jornal Porantim, de defesa da causa indígena.

Conheci o Ricardo e o Roberto Bessa e me tornei amigo deles há mais de três décadas.

Quer dizer, tudo índio, tudo parente - para ficar naquela sacação genial do poeta Eliakim Rufino.

Como metade dessa parentada do Selmo já garantiu que vai estar presente no fuzuê, isso significa dizer que o 1º ano da Banda do Caxuxa vai ser um sucesso.

Quem viver, verá! Evoé, Momo!



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