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sexta-feira, outubro 30, 2026

Inaldo e Tony Medeiros, sangue vermelho em dose dupla

 

Os cantores e compositores Tony e Inaldo Medeiros

Filho de Wilson de Souza Cursino e Geny de Medeiros Cursino, o cantor, compositor, poeta popular, arte educador e ex-deputado estadual João Wellington de Medeiros Cursino, o “Tony Medeiros”, nasceu no dia 2 de novembro de 1964, em Parintins, sendo o caçula de uma prole de oito irmãos.

Um ano mais velho que Tony Medeiros, Inaldo Roberto de Medeiros Cursino também abraçou a carreira artística e se tornou compositor, poeta popular e arte educador. Ele foi destacado por sua mãe para ser o guardião do mais novo.

Ainda crianças, quando ambos faziam o grupo escolar, Inaldo ficou gravemente enfermo e foi reprovado pelo excesso de faltas. No ano seguinte, os dois irmãos estavam matriculados na mesma classe e assim continuaram até completar o ginásio.

Tornaram-se unha e carne, corda e caçamba, quase gêmeos univitelinos apesar da diferença de temperamento entre os dois: Inaldo, sempre muito sanguíneo, muito “bad boy”, muito “caboco brabo”, enquanto Tony sempre foi mais tranquilo e comedido, um autêntico “nice guy”.

Nascidos e criados na Rua Paes de Almeida, quase canto com a Getúlio Vargas, os irmãos Medeiros pertenciam geograficamente à área “azul” da cidade.

No período junino, o bumbá Garantido ia dançar exclusivamente no terreiro da casa de dois estivadores, Balaústre e Eduardo Engole Cobra, já que todos os demais moradores da rua torciam pelo Caprichoso.

Um dia, entretanto, para agradar o filho caçula que estava doente, o Garantido dançou no terreiro do seu Wilson Cursino. Resultado: a família inteira, que era Caprichoso, bandeou-se para o “contrário”.

– A gente começou a acompanhar o Garantido batendo lata pelas ruas, quando ainda éramos moleques – recorda Tony Medeiros. – Aí, quando ficamos adolescentes, entramos pra Batucada e tivemos a sorte de conhecer e conviver pessoalmente com a velha guarda do touro branco: Lindolfo e João Batista Monteverde, Ambrósio, Vavazinho, Braulino, Maximiliano, Nelson Baixinho... Aquilo foi uma escola de vida!

A dupla de parceiros-pra-vida-toda só experimentou um hiato de alguns anos quando Inaldo foi estudar o secundário em Campo Grande (MT), onde se formou em técnico em agropecuária, e logo depois Tony foi fazer o mesmo em João Pessoa (PB), onde estudou durante quatro anos no Conservatório de Música da Universidade Federal da Paraíba.

A veia literária dos dois irmãos começou a pulsar mais forte por influência de um tio dos meninos, Luiz Medeiros, que era poeta, cronista e escritor de baciada. Seus textos sobre a vida amazônica eram avidamente consumidos por Tony e Inaldo Medeiros. E foram aqueles textos que os formaram e informaram.

Em 1984, aos 20 anos, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado criaram o Grupo Ajuri e resolveram participar do 4º Festival da Canção de Parintins. A música “Cantiga Tropical”, inspirada em um dos poemas de Luiz Medeiros, contava a história do guerreiro Ajuricaba na sua luta contra os invasores na região do rio Negro.

Eles conquistaram o primeiro lugar, mas quase perderam o prêmio porque alguns jurados cismaram que aquilo era uma toada (e era!) que destoava da MPB tradicional que se exigia nos festivais. Coisa de tradicionalistas radicais!


Naquele mesmo ano, o boi Garantido sagrou-se pentacampeão do Festival Folclórico de Parintins e Tony Medeiros fez uma toada alusiva ao fato, comparando a constelação Cruzeiro do Sul aos cinco títulos conquistados pelo touro branco. Foi a primeira toada que ele fez para seu bumbá de coração.

– Naquela época, com quatro ou cinco versos se fazia uma toada – diverte-se Inaldo Medeiros. – As 18 toadas do Garantido cabiam numa folha de papel A4. A briga era para estar ali, naquela folha...

Em 1985, Inaldo Medeiros também emplacou sua primeira toada no repertório do Garantido, intitulada “Vou Fazer do Meu Canto, a Toada Mais Bela”, ainda bastante tradicional, numa época em que o acompanhamento das toadas era totalmente percussivo.

Foi quando os dois irmãos decidiram juntar forças para compor juntos e criar novas harmonias para o festival, explorando melhor o universo indígena – uma das obsessões do caçula desde seus tempos de criança.

O resultado foi “Filhos do Sol”, uma toada que exaltava os povos originários: “Tribo dos Andirás / Tribo dos Kayapós / Tribo dos Karajás / Vamos acender a fogueira / E fazer valer o tratado de paz”.

Gravada pelo Grupo Carrapicho, tornou-se um sucesso estrondoso em nível nacional.

A parceria entre os dois deu tão certo que nunca mais foi desfeita. Para se ter uma ideia do impacto de “Filhos do Sol” para o festival de Parintins, foi a partir dessa toada que a temática indígena passou a ser parte importantíssima do espetáculo, sendo item obrigatório para ambos os bumbás na apresentação dos “Povos Indígenas”, “Tuxauas” e “Ritual”, por exemplo.

– Mas não foi fácil emplacar “Filhos do Sol” no repertório do Garantido – recorda Tony Medeiros. – Muita gente dizia: ‘Pô, Tony, esse negócio de índio não tem nada a ver com boi-bumbá...’. Foi uma briga feia, mas acabamos ganhando a queda de braço. O certo é que logo depois o Ronaldo Barbosa começou a fazer esse mesmo tipo de toada com temática indígena no Caprichoso e aí não teve mais volta. Quem ganhou com isso foi o festival!

Da pena e do talento dos dois irmãos saíram verdadeiras obras-primas como “Haximu Quer Viver” (“Na cobiça do ouro / Mataram meu povo / E roubaram meu chão / Derramaram na terra / O sangue inocente / Da minha nação”), “Espírito da Mata” (Mutawariçawa anga açú / Mutawariçawa haira angá / Ameríndio seu grito de guerra / Em defesa da terra sagrada / Que um dia Tupã lhe entregou, ô, ô, ô”), “Toada da Vaqueirada” (“A vaqueirada vem galopando / Saltitando no balanço da toada”), “Boi de Pano” (“Meu boi de pano / É cultura popular / Atravessou o oceano / Veio de longe pra cá”), “Um Canto Novo” (“A lua gira, e gira muito bem / O tempo voa, voa como ninguém / A noite dorme, dorme, dorme / Já dormiu comigo, já dormiu comigo, já dormiu comigo”), “Naiá” (“No encontro do Sol e Lua / As águas tornam-se nuas / Iluminando Naiá”) e “Asa Dura” (“Neste ano eu vou pra minha ilha meu amor / De vermelho e branco, eu vou, eu vou eu vou / Se meu amor não quiser ir / Eu vou sozinho, mas eu vou”), para só citar algumas das mais de 70 toadas feitas pela dupla – as duas últimas aqui citadas com participação do promotor público Davi Jerônimo.

É evidente que os dois irmãos também fizeram músicas, individualmente, com outros parceiros. Por exemplo, “Coração de Batuqueiro”, de Inaldo Medeiros e Marcos Lima, é quase uma espécie de hino do Garantido: “Deixa a poesia da toada te levar / Num eterno mundo de prazer / Em Parintins é tão gostoso declarar / Garantido sou feliz por ter você / O sentimento mais sublime desse povo / Surge na voz do cantador a ecoar / No toque forte, na cadência ritmada / Dos batuqueiros da Baixa / Meu touro branco vem brincar / Garra e emoção, raça e tradição / Bate mais forte o coração da Batucada / Contagiando livremente a Galera avermelhada / E o Batuqueiro é quem conduz essa magia / Traduzida em harmonia no batuque do tambor / E no compasso o coração vence o cansaço / Garantido é minha vida e meu amor / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, sangue, suor e paixão.”

Para o jornalista Wilson Nogueira, pesquisador de festas populares na Amazônia, a toada foi o item que mais se modificou ao longo dos anos. As transformações ocorreram à medida em que a brincadeira foi ganhando atenção do mercado de cultura de massas na década de 1990. Para o pesquisador, “a pressão nas bases tradicionais não estancou os testes com ritmos que distanciavam cada vez mais os bumbás de suas raízes. Criou-se, então, um novo ritmo que se aproxima das exigências que vêm do mercado com o sentimento do passado”.

Ainda na década de 90, Tony Medeiros assumiu o cargo de Amo do Boi após a saída de João Batista Monteverde, filho de Lindolfo.

– Lindolfo foi o primeiro amo do Garantido. Após a morte do Lindolfo, o João Batista assumiu o cargo. Ele acabou levando uma facada em um dos pulmões durante uma briga, e depois disso nunca mais foi mais o mesmo. Perdeu o vozeirão que tinha. Por conta disso, fui convidado pra assumir o cargo. O amo do boi era um item que carregava uma tradição muito grande e não era muito empolgante. O item “amo do boi” estava praticamente desaparecendo. Eu tirei a melodia do verso da tonalidade menor para a tonalidade maior, que é a mais animada. Eu sou o terceiro amo da história do Garantido – diz Tony Medeiros.


Ao longo de sua trajetória como cantor, Tony Medeiros participou de várias apresentações memoráveis. Em 1998, ele participou de um show no estádio Parque dos Príncipes, em Paris, na França, para comemorar os 500 anos do Brasil. Um dos convidados na plateia era o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

– Eu cantei duas vezes em Nova York, cantei no Parque dos Príncipes, em Paris, para mais de 120 mil pessoas. A minha geração pegou o boi e levou para o mundo. Com o tempo, a nova geração ainda vai fazer o mesmo porque a renovação é importante para manter a tradição – garante ele.

Paralelo à sua carreira de compositor, cantor e amo do bumbá Garantido, Tony Medeiros também desenvolveu uma brilhante carreira política. Técnico em agropecuária, graduado em Educação Artística com habilitação plena em música pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pós graduado em Tecnologia da Educação, ele foi presidente da Fundação Villa Lobos, secretário de cultura e secretário especial da Prefeitura de Manaus.

Em 2010, Tony Medeiros foi eleito deputado estadual. Na ALE-AM, foi presidente da comissão de Assuntos Municipais, presidente da frente parlamentar “Pró-Cultura”, membro da comissão de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e titular das comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e Sustentável, Educação, Cultura e Assuntos Indígenas e de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás e Energia.

Além disso, foi vice-prefeito e secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Parintins na gestão 2017-2020, tendo sido reeleito juntamente com o prefeito Frank Bi Garcia para a gestão 2021-2024.

Em 2020, com o apoio de 16.403 eleitores, Tony Medeiros retornou para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, assumindo novamente o cargo de deputado estadual e retomando suas bandeiras nas áreas de turismo, cultura, direitos indígenas, setor primário e desenvolvimento econômico do interior.

Atualmente, ele é presidente do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura de Manaus.


Na madrugada do dia 17 de março de 2025, Inaldo Medeiros Cursino faleceu em sua residência, após um infarto fulminante. No dia anterior, ele havia passado na casa de sua mãe, tomou um chá com torradas e foi para casa, por volta das 20h.

No dia seguinte, por volta de 9h, o filho mais velho, Gaspar, ex-amo do Garantido, estranhou não ouvir o bom dia que lhe mandava sempre e foi até a casa dele. Inaldo estava caído, ainda com a roupa do dia anterior, já rígido.

“Perdi minha alma gêmea”, disse Tony Medeiros, que estava em Manaus quando soube do acontecimento.

“Eu me despeço de um grande amigo de jornada que vai para os braços da eternidade e deixa a sua inestimável obra como contribuição para o Boi-Bumbá, além de muitas recordações das nossas vivências em Parintins”, escreveu David Assayag.

Conhecido como “coração de batuqueiro”, Inaldo não bebia, não fumava e dormia cedo, mas era sedentário, só admitindo deslocamentos de moto ou carro.

Em 2018, ele sofreu um infarto e ficou muito mal. Desde então, rebelde, não fez os acompanhamentos médicos requeridos.

Na véspera, talvez numa premonição da própria partida, escreveu uma despedida emocionada para Jair Mendes, nas exéquias deste em Parintins. “Depois do episódio do meu enfarte agudo, meu coração ficou vulnerável a grandes emoções. Acompanhei o cortejo a distância. Jair Mendes jamais será esquecido!!! Foi em paz, tenho certeza!!!”, escreveu, na sua página do FaceBook.

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