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quarta-feira, outubro 07, 2009

Futebol de tucumã: uma paixão eterna!


Via e-mail, o sempre atento advogado trabalhista Luiz Alberto Gonçalves, leitor diário desse mocó, questiona por que não falei sobre o futebol de botão de tucumã, que ele sabe ter sido uma das minhas grandes paixões de adolescência, ao fazer um relato saudosista sobre os meus outros jogos futebolísticos favoritos.

Catzo, Albertão, mas sem querer você acabou me lembrando daquela história do “subversivo” Miguelito, que a gente costumava contar no Bar Berval sempre que estava sem assunto, tá ligado? Vou recordá-la:

Durante uma tourada na Plaza Del Toros, em Madrid, Miguelito se levanta no meio do público, provavelmente aborrecido com os intermináveis floreios do toureiro e a exasperante demora pra ver o touro ser logo liquidado, e dá um berro:

– Me cago en la cabeza del toro e en la cabeza del torero!

A multidão vai à loucura, tendo em vista que a tourada é um esporte sagrado na Espanha:

– Cala-te, perro, yo chingo tu madre en el asno todas las noches! Usted estas muy bombacho, maricón! Hijo de uma putana! Pelotudo di mierda!

Miguelito retrucou:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero e en la cabeza de todos ustedes, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Diante de tamanho desaforo, a polícia foi chamada.

Miguelito não deu a mínima:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Um delegado que estava sentado próximo saiu em defesa dos policias. Miguelito bateu de três dedos:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, en la cabeza del jefe de policia, del juez de la torada, del director del estádio, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Revoltado o delegado deu voz de prisão ao cidadão, suspeitando tratar-se de um perigoso subversivo, mas, por via das dúvidas, levou também o tal senhor vestido de branco.

Na delegacia, Miguelito não deixou barato:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, en la cabeza del jefe de policia, del juez de la torada, del director del estádio, del señor deputado, de su dignissima esposa, me cago en su cabeza señor comissário, em cabeza de su digníssima esposa, em cabeza de sus hijos, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Curioso o delegado pergunta:

– E por que o senhor está livrando a cara deste cidadão vestido de branco?

Miguelito, de bate pronto, como se estivesse explicando a Terceira Lei de Newton para a audiência:

– Arrá!... Porque este señor de blanco yo hé reservado para limpiarme el culo!...

Então é isso, Albertão. O jogo de botões de caroço de tucumã merecia um post exclusivo. Eu estava guardando ele, sei lá... Para uma ocasião especial, digamos assim...

Bem, mas muito diferente das molezas encontradas pelo meu eterno brother Anibal Beça, neto do primeiro grande cervejeiro da cidade, nunca custa relembrar que a nossa turma da Cachoeirinha era formada basicamente pela classe média baixa (quase todos filhos de operários, barnabés, domésticas, microempresários, etc).


Para sair em busca de tucumãs nas áreas de ocorrência natural, a gente montava verdadeiras expedições de guerra, com 15, 16 moleques dispostos a matar ou morrer. Os deslocamentos eram feitos a pé. Às vezes, essas expedições duravam um dia inteiro, o que deixava nossas mães à beira de um ataque de nervos. Havia perigos de todos os tipos nos rondando, de picadas de cobras a afogamentos acidentais nos inúmeros igarapés que tínhamos de atravessar (e eu nunca aprendi a nadar).

Para se ter uma idéia, basta lembrar que no final dos anos 60 a zona urbana da cidade terminava na Cohab-Am da Raiz, tendo como marco final o igarapé do Crespo. Dali em diante, na direção do Japiim e Distrito Industrial, era terra de ninguém – leia-se floresta fechada. E a gente se embrenhava naquela selva inóspita, seguindo uma pequena picada de terra chamada pomposamente de “Estrada da Refinaria”, com a determinação dos homens-bomba do Hezbollah.

A Rua Paraíba, por exemplo, terminava na Rua Salvador, e de lá seguia pra esquerda até a Rua Recife, de onde continuava até o bairro de Flores. Descendo a ladeira, em direção ao atual Manauara Shopping, era uma floresta praticamente intransponível. Pra direita, na direção do Aleixo, o marco final era a chamada “Furna das Onças”, mais ou menos onde hoje está localizado a sede da Sepror. O caminho também era feito em pequenas picadas abertas no meio da selva.

Pra complicar, os grandes tucumanzais nativos mais próximos estavam no Morro da Liberdade (conhecido inicialmente como Morro dos Tucumãs), mas a mão de obra que dava para atravessar o igarapé da Cachoeirinha por meio de catraias, ali no final da Rua Maués, desestimulava qualquer Jim das Selvas. Sem contar que os moleques de Santa Luzia costumavam receber os forasteiros na base da baladeira e tinham uma pontaria infernal.


Na minha época, o tucumã-arara era, mais ou menos, do tamanho de uma mexirica. Hoje, não passa do tamanho de um limão. Eles eram selecionados para serem atacantes. O tucumã-açu tinha o diâmetro de um pequeno ouriço de castanha. Eram selecionados para serem zagueiros (os famosos “beques”). O tucumã-piririca era pequeno, mas dava os melhores pontas e armadores.

O tucumã-purupuru era a escolha certa para a linha de médios, principalmente para o volante, vulgo “cabeça de área”. O tucumã-do-mato ou tucumã-babão era escolhido apenas pela sua beleza física – fornecia bons jogadores albinos.

A fabricação dos jogadores era feita em série. Normalmente, a molecada possuía alguém que fosse bom no manejo do terçado (na nossa turma, os irmãos Popó, Zezinho e Vico, todos eles halterofilistas militantes). A gente entregava o caroço de tucumã e avisava: atacante! O sujeito posicionava o caroço em um cepo e dava uma terçadada acima da metade do coquinho. Ou então: linha média! O sujeito dava uma terçada abaixo da metade do coquinho. Ou ainda: beque! A terçadada era dada a um dedo da extremidade do coquinho.

Partíamos então pra fase de ralação. A escolha recaía nas ruas de asfalto mais recente, onde o atrito era maior. Pra retificar a base dos jogadores era mais simples: bastava calçar uma sandália japonesa, pisar em cima do botão, e sair arrastando por uns duzentos metros.

Pra raspar as fibras da superfície dos caroços, não tinha jeito: era na base da ralação manual, também no asfalto. Nessa fase, era comum alguém se entreter na tarefa e acabar ralando o dedo, que, dependendo da força aplicada nos caroços, podia expor o osso das juntas. Presenciei vários acidentes desse tipo.

Somente nessa fase é que a gente descobria as imperfeições do jogador, traduzida em buracos abertos por brocas e outros inimigos naturais. Dependendo do grau de imperfeição (até três buracos eram admitidos), a gente ia em frente – os buracos seriam corrigidos, posteriormente, com a adição de cera proveniente de velas derretidas. Caso contrário, eles seriam sumariamente descartados.

Após a ralação, começava a fase do polimento. No início, com lixa grossa. Depois, com lixa d’água. Finalmente, com lixa fina. Quando os jogadores estivessem perfeitamente lisos, eram pintados com tinta de sapateiro e ficavam alguns dias ao sol. Mais tarde, ficavam submersos n’água – para liberar a amêndoa e absorver umidade. Só então eram engraxados, com graça de sapateiro, e depois recebiam uma camada de carnaúba. Estavam prontos pros embates.


Com os beques, o buraco era mais embaixo. Depois que o miolo do coquinho era retirado, eles eram enterrados na terra. Em uma lata, derretíamos chumbo e depois derramávamos o chumbo quente no interior dos beques, jogando em seguida água fria para que o choque térmico solidificasse o chumbo. Algumas vezes, o beque não agüentava a parada e se quebrava. O jeito era começar tudo de novo.

Pra fabricar os goleiros, havia uma espécie de molde escavado no barro, semelhante a uma caixa de fósforos. Era só derramar o chumbo derretido ali dentro e jogar água fria. Depois de retirar o molde de chumbo do buraco, era só retificá-lo para caber dentro de uma caixa de fósforos, e depois enfeitá-lo com as cores do clube.

As traves eram de madeira com redes de pano (normalmente voal transparente ou rendinha), tendo, nas suas dimensões, o dobro do goleiro de altura e cinco vezes o tamanho dele de largura.

A bola era feita de cortiça ou de lã. Os jogadores eram acionados por pentes (o pente Flamengo era o favorito, mas havia pentes artesanais feitos de osso que tiravam qualquer um do sério, em termos de potência, funcionalidade e direção).

Os times eram dispostos em campo quase sempre do mesmo jeito. Os dois beques chumbados embaixo da trave, ao lado do goleiro, um volante grandão na cabeça da área, dois médios se passando por laterais, e cinco atacantes. A regra adotada era a baiana (um toque). O resto, igual ao celotex.

Por exemplo, rebatida do goleiro pertence ao time que está atacando. Aí, um dos inventores de ocasião (Heraldo Cacau ou Airton Caju, não lembro) conseguiu introduzir vários alfinetes no peito do goleiro com o chumbo ainda derretido. O goleiro ficou parecido um porco-espinho, mas encaixava qualquer bola – e quanto mais forte o chute, melhor. Tivemos que proibir a presepada.

Pra servir de campo, qualquer espaço servia. Os melhores em que joguei, pela ordem de importância, eram o corredor do Top Bar, do nosso querido “seo” Aristides, que a gente chamava de Morumbi.

O campo era perfeito, mas tinha o inconveniente de ficar exatamente em frente ao quarto de sua esposa, a saudosa dona Lindalva, pouco afeita a ouvir aqueles palavrões proferidos por moleques com os hormônios à flor da pele.

No segundo “puta que pariu, vai te foder, leproso!”, “seo” Aristides saía do bar, dizia “Opa, maninho, assim não dá...” e a partida era encerrada, normalmente com uma ácida troca de ofensas sobre qual jogador havia começado a baixaria.

Na casa do “seo” Moacir, pai do Marcos Pombão, ali na ladeira da Rua Parintins, o campo era no segundo quarto e, apesar de o piso ser de madeira com brechas de um cm entre as taboas, era tão bem encerado que compensava as dificuldades iniciais. O velho Moacir não dava a mínima para os palavrões, daí que jogar ali era mais ou menos como estar no Maracanã.

Outro campo excelente era na sala de estar do “seo” Vandinho, pai do Carlinhos e do Renato Doido, localizado na rua Parintins, entre as ruas Urucará e Maués. Disputei partidas memoráveis contra o dono da casa, aliás, um dos melhores jogadores de futebol de caroço que já conheci.

Outro bom campo era na casa do velho Zé Costa, pai de Fábio, Fernando e Chico, uma espécie de estádio do Pacaembu. O pátio na casa dele era de cimento polido, tratado com vermelhão. Uma beleza! O problema era que dona Otília, esposa do velho Zé, também não suportava palavrões.

De repente, no meio de um “vai tomar no cu, caralho... Chupa aqui!... Eu mandei tu preparar a porra desse teu goleiro antes de chutar... Não valeu o gol é meu ovo!”, surgia a Maria da Glória, nossa querida Gói, filha caçula do velho Zé, e jogava um balde de água com sabão no pátio, argumentando que precisava lavar o mesmo.

Puto da vida, a gente retirava os times de campo, sacaneava com os técnicos “bocas sujas” e ia discutir o que fazer no Top Bar, ali ao lado. Invariavelmente, acabávamos enchendo a cara de cachaça com leite moça. Pra virarmos biriteiros profissionais, foi conta de multiplicar.

Jogar no pátio da casa do Afrânio, filho do ex-presidente da CMM, Corrêa Lima, também era muito divertido porque, apesar de ser um jogador medíocre, Afrânio agia como se fosse o melhor técnico do mundo.

Quando seu time, o Benfica, entrava em campo, ele soltava vários rojões. Quando conseguia fazer um gol, além de soltar uma nova série de rojões, passava o resto do dia irradiando a jogada que originou o gol (mesmo que tivesse tomado uma surra de 5 a 1). Sua principal estrela era o atacante Eusébio, que vivia sendo polido com carnaúba a cada três minutos para “evitar cãibras”.


No quesito inovação, coube ao Arizinho, filho do “seo” Aristides, introduzir os jogadores de baquelite vermelha, que eram utilizados como tampas do perfume Bond Street. Em termos de funcionalidade (velocidade de deslocamento e potência de chute), eles deixavam qualquer botão de caroço no chinelo.

De repente, esse novo tipo de jogador virou objeto de desejo de dez em cada dez técnicos de futebol de caroço. Foi o começo do fim. Era muito mais prático adquirir os vidros de perfume para utilizar as tampas como jogadores do que se embrenhar nos tucumanzais nativos cada vez mais distantes – por causa do crescimento desordenado da cidade.

E nada mais foi como antes. A exemplo da camélia, o futebol de tucumã deu dois suspiros e depois morreu. Ficaram as lembranças.

Lóki na pista


Arnaldo, Rita e Sérgio Dias, os Mutantes, no embalo das duas rodas

Texto: Kátia Lessa
Fotos: ChristianTragni

Em 1970, Mutantes bombando, e de repente Arnaldo Baptista ficou um pouco de saco cheio de tudo. Da agitação das gravações, dos estúdios e da vida cheia de paparicações que levava com a família em São Paulo. Resolveu então, sem mais nem menos, que iria passear por outras bandas. Queria chegar até os Estados Unidos de moto, por exemplo. Coisa de rapaz de 22 anos.

“Meu pai tinha muitos carros, chofer, automóveis chapa branca (ele foi secretário particular do governador paulista Adhemar de Barros). Eu estava um pouco cansado daquilo e pensei que, se fosse viajar de moto por aí, conseguiria esquecer de tudo. E deu certo”, lembra.

No meio de tantas histórias que envolvem Arnaldo e seus companheiros dos Mutantes, essa e outras passagens que mostram a grande paixão de Arnaldo pelas duas rodas ficaram apenas na lembrança de quem conviveu com a turma da época.

O recente documentário Lóki, do diretor Paulo Henrique Fontenelle, por exemplo, não fala da paixão do músico pelas máquinas. Também não há uma única foto de Arnaldo motociclista nos bancos de imagem onde Trip procurou exaustivamente por semanas – da editora Abril, da Gazeta Esportiva, arquivos pessoais de Arnaldo e amigos, nada.

Para resgatar a história, resolvemos ir a Belo Horizonte promover o encontro de Arnaldo e dois de seus maiores companheiros motociclísticos, o engenheiro Eduardo Bastos Leme e o diretor de arte Paulo Orlando Lafer de Jesus, o Polé. Eles não se viam há mais de 20 anos.

Ainda no aeroporto de São Paulo, o boa-praça Polé relembra de causos dos tempos de hippie, como os jantares que fazia para Rita e Arnaldo em sua casa ou o festival onde presenciou a primeira viagem de ácido de Sérgio Dias.

E confessa a ansiedade pelo encontro: “Não vejo o Arnie desde que ele se jogou da janela do hospital no dia do aniversário da Rita (no dia 31 de dezembro de 1982). Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Não tive coragem de visitá-lo, éramos muito amigos e queria guardar boas lembranças de nossa infância e juventude”, justifica, e mostra o braço arrepiado.

No saguão do hotel Othon, em BH, Arnaldo surge de braços dados com a mulher, Lucinha. Ruiva, cabelo chanel e franjinha, é ela quem cuida de Arnaldo desde que ele saiu do hospital, em 1982.

Abraços calorosos. Os olhos de Polé e Eduardo marejam e se enchem de espanto: “Como você tá bem, rapaz! A Lucinha tá fazendo um bom trabalho”, manda Eduardo. “Caminho todos os dias. E você tinha cabelos compridos.”, retruca o Mutante em meio a gargalhadas, apontando para a careca do amigo.

Eufórico, Arnaldo os reconhece depressa. Embora em momentos da entrevista tenha pedido ajuda para lembrar de passagens antigas, sua memória não falha ao referir-se a modelos de motos e peças.

Voltemos à estrada. Quando decidiu que iria mesmo, Arnaldo pediu ajuda ao amigo Eduardo, que andava de moto há mais tempo, para escolher um modelo. Na oficina de seu Chico, mecânico do bairro, ficaram sabendo que as motos que tinham no Brasil não eram boas o suficiente para chegar aos “States”, e que o ideal para a road trip seria uma BMW. Decepcionados, quase desistiram da ideia.

Mas, poucas semanas depois, por umas dessas coincidências da vida, dois irmãos entraram na oficina de seu Chico. Eduardo conta o que aconteceu: “Os caras queriam vender duas BMWs iguais. Foi tão inacreditável que achei que era um sinal e decidi ir junto. Arnaldo comprou uma, eu comprei a outra. A minha era 1952, e a dele 1951. Eram BMW R50 de 500 cilindradas. Pagamos 2.500 e 2.400 do dinheiro da época. Tive que vender minha Harley-Davidson 52. Mas sobraram US$ 1 mil, que levei comigo”.



Polé nas 200 milhas de Interlagos, prova em que fez dupla com Arnaldo


No dia 4 de fevereiro de 1970, com a máquina de Eduardo vazando óleo e nenhuma revisão, os amigos pegaram a estrada. “Tinha certeza de que chegaria no máximo até Curitiba, eu era diferente do Arnaldo. Não era aventureiro, e ele era do tipo que vivia com a mão cheia de graxa, de tanto mexer no jipe e na sua primeira motinho, uma Matchless 500 de apenas 1 cilindro”, confessa.

“Eu tinha acabado de assistir a Easy Rider, queria ser igual aos motociclistas, com aquele vento no rosto”, manda Arnaldo. Eduardo, então estudante de engenharia, chegou até o Canadá, depois de quase três meses de viagem. Arnaldo abandonou o barco, ou melhor, o asfalto, um tanto antes, no Panamá. Como a banda já fazia muito sucesso, Arnaldo foi bastante assediado enquanto rodava dentro do Brasil. A mudança veio quando saíram do país.

“Ninguém me reconhecia, eu era livre. Deixei a barba crescer quando me mandei, porque a Rita não gostava de barba, e eu tinha medo dela. Lembro até hoje das paisagens maravilhosas dos Andes, com neve de um lado e mar do outro. Lembro de deitar no chão de terra para ver as estrelas quando parávamos para descansar na estrada, em sacos de dormir. Lembro que o sol era tão forte durante o dia que eu colocava o alumínio do papel de cigarro colado no nariz, para evitar queimaduras. Me recordo de ter achado as pessoas do Equador uma maravilha, muito internacionais”, enumera o Lóki.

A viagem seguiu com inúmeras paradas para reparar as motocicletas. Os amigos contam que Arnaldo, líder nato, sempre andava na frente e era também o responsável por desvendar os problemas mecânicos das BMWs.

Quando chegaram ao Peru, uma das máquinas quebrou, e Arnaldo arrumou emprego em uma oficina para poder consertar a moto. “Ele era destemido, corria atrás de caminhões que o fechavam no deserto do Atacama e gritava: ‘Maricón! Maricón!’. Ele sempre teve um ouvido inacreditável. Percebia que havia um problema nas peças só pelo ronco da motocicleta”, lembra o companheiro.

“No Peru trabalhei nessa oficina e arrumei a moto de muita gente. Tive que pedir dinheiro para minha mãe para comprar uma peça, mas no fim deu tudo certo. Problema mesmo foi a lhama do hotel que cuspia o tempo todo na minha cara. Ela recebia uma mamadeira com leite e cuspia de volta. Uma graça”, diverte-se Arnaldo.

As histórias são inúmeras. Entre uma e outra, o olhar de Arnaldo se perdia, como se estivesse aos poucos calibrando a memória. E, num rompante, gargalhava e balançava as mãos ao divertir-se com algumas lembranças com riqueza de detalhes.

“O cérebro é a máquina mais perfeita que existe. Você lembra das baratas voadoras do Equador? E em Porto Bolívar, que tivemos que pegar um barco e dormir com porcos e galinhas? Lembra?” Eduardo confirma. “E você lembra por que teve que voltar ao Brasil?”, retruca. Arnaldo faz que não, com um sorriso amarelo no rosto. “Acho que tive que gravar com os Mutantes, não foi?” Mais ou menos.


Rita Lee com o cronômetro usado para marcar o tempo de Arnaldo em Interlagos

Ao chegarem ao Panamá, os viajantes resolveram dar uma volta nas redondezas do hotel. Na praça logo em frente, tiveram dois encontros marcantes. O primeiro foi com o guru dos Beatles, Maharishi Mahesh Yogi, com quem trocaram breves palavras sobre estudos com peyote e logo se despediram. O outro, com um americano que tocava um instrumento de corda, cujo nome eles não recordam, mas que foi o suficiente para chamar a atenção de Arnaldo.

“Ele logo fez amizade com o cara para aprender a tocar aquele troço. Acontece que o gringo era traficante, e papo vai, papo vem, abriu a jaqueta e ofereceu de tudo pra nós. Arnaldo voltou para o hotel cheio de material”, conta Eduardo.

“O cara vendia umas cartas escritas com LSD, aí eu comprei. Queria saber o que estava escrito nelas”, conta o Mutante. O problema é que no dia seguinte o cara foi preso e dedurou os brasileiros.

“A polícia nos procurou e, com medo, Arnaldo jogou tudo na privada. Fiquei apavorado, porque era careta. Nunca tomei um ácido na vida”, revela o ex-cabeludo.

Aproveitando que os Mutantes lançavam o álbum A Divina Comédia e tinham shows marcados, Arnaldo deu uma grana para um americano enviar sua moto de navio para o Brasil e se mandou para São Paulo de avião.

Apesar do susto, Eduardo foi até o Canadá e nunca mais parou suas andanças motociclísticas. “Hoje é um dia muito especial pra mim. O Arnaldo mudou a minha vida. Peguei um gosto pela estrada tão forte que já fiz viagens até o Amazonas, Alasca, Chile. Isso sem falar na minha vida profissional. Tudo mudou por causa dessa viagem e das coisas que ele me ensinou”, conta, emocionado.

Durantes os meses de poeira, Eduardo diz que o amigo estava obcecado por amplificadores, e ele ouvia e absorvia tudo. Na época o Brasil não possuía boa tecnologia na aparelhagem de som e, quando chegou aos Estados Unidos, Eduardo ficou embasbacado com os aparelhos que viu nos shows de rock.

Voltou para o Brasil e abriu uma empresa especializada nisso. Hoje aluga equipamentos para mega-apresentações do patamar dos shows de Madonna por aqui.


Eduardo Bastos (side car), Polé (garupa) e Arnaldo em Belo Horizonte

O Mutante, por sua vez, apesar da debandada no Panamá, nunca largou as duas rodas. Por sua garagem passaram modelos como uma Norton 500 cilindradas ou uma Triumph Boneville 650, embora a máquina de seus sonhos seja mesmo uma MV Agusta, esportiva italiana de primeira linha. “O Giacomo Agostini (italiano 15 vezes campeão de motovelocidade) ganhava todas as corridas com ela”, manda.

Quando voltou de viagem, Arnaldo logo vendeu sua BMW. “O pai da Rita tinha medo de guerra. Ele ficava louco quando ouvia o som da minha máquina, achei melhor vender.”

O tempo longe das duas rodas não durou muito. No ano seguinte, Arnaldo e o amigo Polé resolveram que iriam disputar as 200 Milhas de Interlagos. A máquina escolhida foi uma Bultaco, que apelidaram de Catalã.

“Estávamos empolgadíssimos. O Arnaldo tinha ido para a Inglaterra e trouxe um macacão amarelo de couro que foi um sucesso. Ele usou um capacete vermelho e eu vesti um emprestado do mecânico Chico Aragão”, ilustra.


Polé, Arnaldo e Edgar Bastos, no encontro promovido pela Trip em Belo Horizonte

No dia da prova, a dupla fazia uma média de 200 km/h. Rita Lee nos boxes cronometrava o tempo, quando Arnaldo assumiu o comando da Bultaco TSS 250 cilindradas. “Com 15 min de prova comecei a frear, frear. Tive problema com os dois tempos e rodei na curva três”, lembra, entre gargalhadas.

Polé correu como um louco até o local do acidente, mas o Mutante-motociclista levantou sem um ferimento. “Ele não machucou nada. Esse aí é cabeça dura. Bravo mesmo ele só ficou porque na queda perdeu o Rolex novinho. Ficou despedaçado”, lembra Polé.

Fim do encontro, tudo registrado em vídeo pela mulher de Eduardo, Polé entrega uma ferramenta usada na construção de seu avião para “Arnie”, como lembrança das aventuras que passaram juntos. “Era um sonho nosso de infância, mas tive que realizar sozinho”, completa.

Engana-se quem pensa que o músico aposentou o gosto pelas máquinas. “Meu desejo agora é construir uma moto com motor elétrico, movida a energia solar, para fazer outra viagem. Lucinha não vai porque tem medo. Não seria maravilhoso?”, planeja o Mutante.

E qual seria o destino dessa viagem, Arnaldo? “A Lua! Eu iria para a Lua.” E a trilha? “Pode ser ‘Ando meio Desligado’.”


(publicado na revista Trip nº 181)

segunda-feira, outubro 05, 2009

Quarta Literária: Os sertões – uma tragédia brasileira


Realizada sempre na primeira quarta-feira de cada mês, há 11 anos, a Quarta Literária do mês de outubro acontecerá no próximo dia 7, às 18h30, tendo como tema Os Sertões – uma tragédia brasileira. A palestra será ministrada pelo professor Zemaria Pinto.

Sempre que se faz uma pesquisa sobre os melhores ou mais influentes livros brasileiros, Os Sertões, de Euclides da Cunha, é lembrado. Uma unanimidade, desde que foi lançado, em 1902, quando o autor contava apenas 36 anos.

Fortemente influenciado pelas ideias positivistas e evolucionistas, o livro de Euclides da Cunha revela ao Brasil do litoral o Brasil do interior – os sertões brasileiros –, a partir da análise da guerra civil que aconteceu na região do rio Vaza Barris, em Canudos, no sertão baiano.

Uma comunidade cristã-comunista, que se recusava a reconhecer o recém proclamado governo republicano, e onde todos trabalhavam para o usufruto de todos, sob a liderança de Antônio Conselheiro, um beato letrado, que prometia o paraíso aos seus seguidores, consciente de que a vida terrena não precisa passar pelo jugo dos coronéis, que escravizavam os sertanejos, com poderes de vida e de morte sobre eles.

Estruturado em três partes – “A Terra”, “O Homem” e “A Luta” – Os Sertões é um livro de gênero híbrido, onde a ciência, a história e a literatura, numa linguagem de altíssima tensão poética, convergem para uma análise do “ser brasileiro”.

A primeira parte, “A Terra”, reflete sobre os aspectos geográficos, a geologia, as mudanças de temperatura e as condições de uso daquele solo ainda em formação. A segunda parte, “O Homem”, procura entender, à luz da antropologia, a figura do sertanejo – “antes de tudo, um forte!”.

Em alguns momentos, a análise de Euclides da Cunha parece cair num cientificismo ultrapassado e retrógrado, para emergir, adiante, em brilhantes deduções sobre as condições de vida e de sobrevivência do brasileiro do sertão.

A terceira parte do livro, “A Luta”, é o coroamento da verdadeira luta travada por Euclides da Cunha: por uma linguagem que, sem perder a poesia, é capaz de transmitir todo o horror de uma guerra fratricida.

Mesmo tendo passado não mais que três semanas no teatro de operações, Euclides da Cunha conta com minúcias os detalhes das três primeiras expedições – quando os sertanejos, liderados pelo Conselheiro, impuseram humilhantes derrotas ao Exército Brasileiro – e da quarta expedição, quando finalmente o Exército triunfou, destruindo o povoado de Belo Monte, matando todos os resistentes e prendendo crianças, mulheres e velhos.

Euclides da Cunha escreveu que Os Sertões era, acima de tudo, “livro vingador”, uma denúncia para que o Brasil jamais esquecesse aquela chacina, onde cerca de trinta mil cidadãos perderam a vida. O título da palestra, “Os Sertões – uma tragédia brasileira”, procura dar a dimensão exata daqueles acontecimentos.

Sobre Euclides da Cunha


Euclides da Cunha, aos 22 anos, transformou-se em herói da luta pela implantação da República no Brasil, ao jogar sua baioneta de aspirante aos pés do ministro da Guerra. O “estudante da baioneta”, casado com a filha de outro herói da República, o General Sólon Ribeiro, entretanto, optou pela carreira de engenheiro civil, que o obrigava a longas viagens, distanciando-o da família.

Numa dessas viagens, já escritor consagrado, membro da Academia Brasileira de Letras, passou uma temporada em Manaus, sua “base” para um trabalho de reconhecimento de fronteiras realizado no Alto Purus. Antes de falecer precocemente, aos 43 anos, Euclides acalentava a idéia de escrever o que ele mesmo chamava de seu “segundo livro vingador”, cujo título provisório era Amazônia, um paraíso perdido.

O tema desse novo livro era novamente o sertanejo, melhor dizendo, o seringueiro. Além de Os Sertões (1902), Euclides da Cunha publicou Contrastes e Confrontos (1907, coletânea de ensaios e artigos), Peru X Bolívia (1907, um livro técnico sobre o litígio de fronteiras entre aqueles países) e À Margem da História (1909, onde o capítulo “Terra sem História” representa o embrião do que viria a ser seu “segundo livro vingador”). Outros livros apareceram ao longo dos últimos cem anos, com sua correspondência e suas anotações sobre a guerra de Canudos.

Sobre Zemaria Pinto


Ensaísta, dramaturgo e poeta, Zemaria Pinto é professor de Teoria da Literatura e de Literatura Brasileira. Além de inúmeras palestras sobre literatura, tem ministrado oficinas e cursos, com destaque para a poesia.

Tem oito livros publicados: dois de poemas (Fragmentos de silêncio – 1996 e Música para surdos – 2001), um de haicais (Dabacuri – 2004), uma peça de teatro (Nós, Medéia – 2003), dois de ensaios para o vestibular (em 2000 e 2001, em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger), organização de poemas de Octávio Sarmento (A Uiara & outros poemas – 2007) e um de teoria literária (O texto nu – 2008).

Livros inéditos: Ensaios ligeiros (artigos), Drops de pimenta (contos), A cidade perdida dos meninos-peixes (novela), Lira da madrugada (ensaio) e O conto no Amazonas (ensaio – a sair ainda este ano, pela editora Valer).

Peças de teatro: Papai cumpriu sua missão, Diante da justiça e O beija-flor e o gavião (encenadas); Nós, Medéia, A cidade perdida dos meninos-peixes (versão para o palco), Otelo solo e Cenas da vida banal (inéditas).

Lançamento

Após a palestra “Os Sertões: Um épico brasileiro” será lançado o livro As Lendas Amazônicas em Sala de Aula, da escritora Anervina Souza.

A obra é o resultado dos estudos desenvolvidos pela professora Enervina Souza durante seu Mestrado em Educação, contemplando os pontos considerados como base para uma reflexão sobre a importância da cultura de tradição oral da região amazônica e sua aplicação na escola, buscando a indicação da diversidade de enredos e temas das lendas amazônicas para que sejam explorados, de modo a levar as crianças a se interessarem pela leitura, deixando que sua imaginação criativa se encarregue de fantasiar e recriar as histórias, verificando a maneira como as influências socioculturais e a imaginação criativa das crianças interfere nessa recriação.

Para a autora, apontando essas histórias como elemento auxiliar na formação educacional e cultural, estaremos oferecendo a base para a criança que, por meio da lenda, poderá ser ajudada a perceber conflitos internos.

Evento: Quarta Literária
Tema: Os Sertões – uma tragédia brasileira
Palestrante: Zemaria Pinto
Lançamento do livro: As Lendas Amazônicas em Sala de Aula
Autora: Anervina Souza
Data: 7 de outubro de 2009
Horário: 18h30
Promoção: Livraria e Editora Valer
Local: Espaço Cultural Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro.
Quanto: Entrada franca
Contatos: Valer – 3635-1324; Zemara Pinto – 9984-2407; Anervina Souza – 9985-6243

domingo, outubro 04, 2009

Vinhos da uva-símbolo do Chile ganham destaque em evento


Relatando minha modesta participação na última reunião do Clube dos Discófilos Fanáticos, falei que o querido Humberto Amorim dera uma pequena aula sobre a origem da uva nacional do Chile, mas que Acram Isper e Waldir Menezes insinuaram que se tratava de um belo “chute”.

Segundo o nosso famoso jazzófilo, a uva Carmenère foi tirada do mapa na Europa pela praga filoxera no final do século 19.

Ocorre que alguns anos antes de a praga destruir as vinícolas francesas, o Chile importou cepas de uvas Merlot e recebeu junto, sem saber, também cepas da tal uva desaparecida, que foi cultivada como sendo Merlot.

Nos anos 90, um turista em visita ao Chile descobriu a existência da uva Carmenère acidentalmente ao degustar um vinho Merlot numa birosca qualquer.

Se a uva Carmènere era dada como desaparecida desde o final do século 19, como seria possível um turista, mais de 100 anos depois, identificar o sabor da mesma provando um simples vinho numa birosca qualquer? Isso, o Humberto Amorim não explicou.

Relatei a história para o Ricardo Peres, meu ghost buster do mundo virtual, e hoje ele me enviou um link para um artigo do Carlos Alberto Barbosa, publicado no portal Terra em 27 de agosto do corrente ano. Vou transcrevê-lo na íntegra:

Anualmente a Pro Chile, agência que promove exportações chilenas no mundo, realiza no Brasil uma série de ações que buscam dar visibilidade aos negócios internacionais envolvendo os dois países. Não é à toa que faz parte das ações um evento de degustações de vinhos que percorre, anualmente, mais de uma capital brasileira.

Em São Paulo, por exemplo, na última quarta-feira, dezenas de produtores chilenos, com ou sem importadores no Brasil, ofereceram ao público especializado degustações de diversos rótulos, entre eles, foi possível provar uma grande diversidade de exemplares elaborados a partir da Carmenère. Desde cortes até vinhos produzidos exclusivamente com ela em diferentes faixas de preço. A uva passa do anonimato para embaixadora do vinho chileno no mundo.

Entre os vinhos chilenos disponíveis, os da uva Carmenère tornaram-se emblemáticos. Tornou-se rapidamente a uva símbolo do Chile, apesar do seu cultivo ser ainda um tanto modesto no país quando comparado a outras castas tintas. A Carmenére ocupa hoje uma área cultivada de aproximadamente sete mil hectares, enquanto Cabernet Sauvignon tem 40 mil e o Merlot, 13 mil hectares.

Sua fama não se deve ao tamanho da área cultivada, mas sim à própria peculiaridade de sua existência. Dada como casta em extinção, após a disseminação da filoxera, praga que dizimou vinhedos na Europa no século 19, a Carmenére foi redescoberta no Chile em meados dos anos 90, quando o pesquisador francês Jean-Michel Boursiquot a identificou, diferenciando de variantes da uva Merlot, no caso a Merlot Chileno.

Essa identificação, conforme escreveu Anthony Rose em artigo para a revista britânica Decanter, gerou, inicialmente, certo temor em declarar no rótulo que o vinho era elaborado com uvas Carmenère, principalmente após tantos anos de rótulos com o nome Merlot encobrindo a nova casta identificada.

Em 1996 a Viña de Martino lançou o primeiro rótulo de varietal Carmenère, o Santa Ines Carmenère. Daí em diante foi caminho sem volta. Em 1998, a Carmenère foi oficialmente reconhecida pelas autoridades chilenas, e em 1999 os vinhos da casta já eram exportados para a Europa.

Os vinhedos de Carmenère passam então a receber os cuidados e aprimoramentos técnicos das demais castas já consagradas, resultando em vinhos de qualidade. Ao sair do papel de coadjuvante na elaboração de cortes de muitos dos grandes vinhos para assumir um papel solo, a uva também ganhou status de representante dos vinhos do Chile.

Resumo da ópera

O Humberto Amorim chutou ao falar que a uva tinha sido descoberta por um turista e não por um ampelógrafo conceituado, mas no geral estava correto. Daí ser necessário ter sempre um certo cuidado ao ouvir histórias de enófilos e de pescadores.

sábado, outubro 03, 2009

Síndrome do Cólon Irritável


Em 1989, o prefeito de Manaus, Artur Neto, um cristão-novo do recém-fundado PSDB, resolveu dar uma força para o senador Mário Covas, candidato à presidência da República.

Cassado e preso duas vezes por desafiar a ditadura militar com discursos inflamados e combativos no Congresso, defensor de ideais que ganharam o respeito tanto da esquerda como dos próprios militares, e protagonista de uma vida marcada pela trágica morte da filha, Sílvia, num acidente de moto no reveillon de 76, Mário Covas era amigo íntimo de Artur Neto e uma das grandes lideranças do país até ser vencido pelo câncer, em 2001.

Desde 1989, muita gente se pergunta como foi possível o Brasil eleger Fernando Collor quando tinha à disposição um Mário Covas. O país perdeu, e nós com ele, uma boa chance de ter um grande presidente. Desses de esbravejar, bater na mesa, encher a paciência, mas fazer o melhor para botar a casa em dia e projetar um futuro mais justo.

O PSDB foi criado em função da candidatura Covas, natural para boa parte, mas não para a maioria, de um PMDB que escorregava para as mãos de Orestes Quércia.

Covas não foi eleito, mas repetiu o também tucano paulista Franco Montoro: fez escola, uma ótima escola.

Um exemplo pronto e acabado é Geraldo Alckmin, o ex-governador paulista. Austero, leal, certinho. O país e em particular a política andam precisando de tipos e princípios assim. A morte de Covas causou uma comoção não apenas paulista, mas nacional.

De todos os políticos, porém, quem mais teve a lamentar foi FHC. Ele e Covas nunca foram lá muito íntimos, estranharam-se na campanha de Covas, em 1989, tinham até lances de ciúme (e ciúme de homem a gente sabe como é). Mas eram correligionários, respeitavam-se. Covas às vezes tinha ímpetos de esganar FHC, mas jamais lhe foi desleal.

É evidente que Mário Covas tinha lá seus defeitos – a ranzinzice, por exemplo –, mas jamais foi pequeno. Ao contrário. Foi, do início ao fim, na política ou fora dela, na ditadura e na abertura, um grande homem.

Ardoroso defensor da candidatura Covas, Artur Neto fretou um jatinho Learjet numa sexta-feira à noite e convocou o secretário de Comunicação Jefferson Coronel e o tenente Fernando para acompanhá-lo na aventura.

O comandante da aeronave era o português Eurico (apelidado por Artur de “Salazar”, em homenagem ao ilustre ditador das terras lusitanas), auxiliado pelo sub-comandante Metin Yurtsever (um dos donos da Rico Linhas Aéreas).

O périplo aéreo era para tirar qualquer um do sério. Em 24 horas, eles iriam participar dos comícios de Covas em Alta Floresta (MT), Brasília (DF), Londrina (PR), Curitiba (PR), Duque de Caxias (RJ), Campina Grande (PB), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ), quando então retornariam para Manaus.

A despensa da aeronave foi abastecida exclusivamente com salgadinhos e refrigerantes, para ninguém correr o risco de chegar nos comícios fora de hora.

Até então, ninguém sabia que Jefferson Coronel sofria de Síndrome do Cólon Irritável (SCI), uma doença intestinal funcional capaz de causar estragos nas facções amigas e inimigas.


Na verdade, trata-se de um conjunto de manifestações gastro-intestinais crônicas ou recorrentes não associadas a qualquer alteração bioquímica ou estrutural conhecida até hoje.

A causa da SCI não é bem conhecida e, portanto, não se sabe como, a partir de um certo momento, uma pessoa passa a apresentar os sintomas.

Acredita-se que alterações nos movimentos que propagam o alimento desde a boca até o ânus (motilidade intestinal) e nos estímulos elétricos, responsáveis por esse movimento intestinal, estejam envolvidos no problema.

Alterações psicológicas como medo, depressão e ansiedade podem contribuir para a SCI. É possível que essas pessoas percebam e reajam de maneira mais intensa a estímulos menores.

Os principais sintomas são dor (“cólicas”) e distensão abdominal associados a um aumento da freqüência diária de evacuações e flatulência de odor fétido, capaz de nocautear gorilas e despertar lágrimas em crocodilos. Gás lacrimogêneo perde. Gás mostarda fica longe.

Para descontrair o ambiente, assim que a aeronave alçou vôo de Manaus, Artur Neto iniciou uma animada “guerra de salgadinhos” contra Fernando e Coronel.

Em meia hora, o carpete do avião havia se transformado numa pasta disforme de resto de pastéis, croquetes, empadas, quibes, coxinhas, canudinhos, militos e amendoins, temperado por todo tipo de líquido (refrigerantes, sucos, água, cerveja). Uma verdadeira pocilga, que deixou o comandante Salazar horrorizado.

Nas primeiras doze horas, Jefferson se comportou estoicamente, limitando-se a beber sucos cítricos e a se livrar da pontaria cada vez mais afiada do prefeito.

No final do comício de Curitiba, Mário Covas pediu pra ir pra Caxias no jatinho de Artur Neto, no que foi prontamente atendido. O secretário chamou o prefeito num canto e cantou a pedra:

– Quando o senador ver a zona que está dentro do avião, vai achar que o senhor é um pai de chiqueiro, prefeito! – avisou. “Não fica bem para um senador candidato a presidente da República viajar naquelas condições tão anti-higiênicas...”

Depois de escutar as ponderações razoáveis do secretário, Artur Neto deu uma desculpa qualquer para Mário Covas e evitou o vexame. O Learjet continuou levando exclusivamente os três ilustres passageiros.

No vôo de Recife para o Rio de Janeiro, Artur Neto turbinou a “guerra interna” com alguns novos mísseis que comprara no mercado São José: paçoca de bode, canjica, bolo podre, quindim, maria-mole, rapadura e garapa. A meleca no carpete e nas poltronas ficou infernal.

Na última escala da viagem, no Rio de Janeiro, já completamente vencido pela fome, Jefferson não resistiu: parou numa barraquinha de Angu do Gomes e meteu bronca. Seu biodigestor começou a trabalhar a pleno vapor.

Quando o comício terminou, já na madrugada de segunda-feira, Artur Neto entrou no avião com outras duas pessoas: o ex-deputado federal Zé Eudes e Jairo Roncari, diretor da Petrobras, que queriam uma carona até Manaus. Eles estranharam a bagunça dentro da aeronave, mas não falaram nada.

Mortos de sono, os dois novatos e os dois auxiliares do prefeito começaram a dormir. Artur Neto ligou a luz individual e começou a ler um livro do Umberto Eco.

Jefferson, que apenas fingia estar dormindo, soltou um “bufa” bem silencioso. O primeiro a perceber o cheiro de rato morto dentro da aeronave foi o comandante Salazar, que fechou a porta da cabine com violência.

O barulho acordou Zé Eudes e Roncari, que quase desmaiaram com o mau cheiro.

Percebendo que o tenente Fernando continuava dormindo o sono dos justos, enrolado sob cobertas até a cabeça, Artur matou a charada: o sacana estava apelando para a “guerra química”.

– Porra, negão, aqui não tem janela! – vociferou o prefeito. “Mais respeito, porra, mais respeito, que ninguém aqui é da tua laia nojenta!..”

Jefferson soltou o segundo “bufa”, mais mortífero que o primeiro.

Agora, o ambiente dentro da aeronave era de japoneses dentro do metrô de Tóquio, sendo bombardeados por gás sarin.

O cheiro de rato morto, amoníaco e ovo podre empestou a aeronave. Na cabine, Salazar e Metin estavam pilotando com a cabeça pra fora do avião.

Artur Neto estava possesso:

– Porra, negão, deixa de ser imundo! Caralho, até parece que você andou comendo carniça de urubu! –, berrava o prefeito. “Puta que pariu, vai ser preciso chamar um caminhão limpa-fossas do Adelson pra dar um jeito nesse teu bucho inchado de bosta! Respeita a gente, porra! Respeita a gente!...”

Sem saber do que se tratava, Fernando limitava-se a se enrolar ainda mais embaixo das cobertas, o que deixava Artur cada vez mais indignado.

Quatro “bufas” depois, o avião aterrissou em Manaus. Zé Eudes e Roncari estavam tão intoxicados, que foram direto para o Hospital Tropical e só receberam alta no dia seguinte. Nunca mais aceitaram uma carona do Artur Neto.

Em compensação, o tenente Fernando ficou proibido de viajar com o prefeito durante três meses.

Eu uso óculos. E daí?



Por Karime Isper

Miopia é uma condição clínica. Sim, brothers & sisters, isso é um fato comprovado cientificamente. Só quem tem esse problema sabe como é difícil conviver com isso... Marrelógico, desde que seja em graus mais elevados que os meros -0,5 cansados e velhos de guerra, que todo mundo gosta de ostentar. Para fazer tipo.

A minha miopia começou com erros gráficos absurdos no caderno de Português. Enxergar o quadro era realmente um esforço doloroso. Copiar aquelas baboseiras, quase um parto. Minha cabeça que o diga. Mas eu me esforçava, juro que me esforçava.

Reconhecendo minhas limitações, avisei minha mãe sobre a presepada. Ela custou a acreditar que não era uma simples vontade de ser diferente (vá entender cabeça de mãe...). Mas eu não fazia tipo, tipo “intelectual sem saco pra copiar aquela xaropada e passar de ano”.

No mínimo, ela pensava que eu escrevia os textos com a mão esquerda enquanto usava a mão direita (a destra!) para anotar pequenas inverdades nos relicários da turma. Como eu não fazia nem uma coisa nem outra, sofria duplamente com o absurdo. Kafka sabe do que estou falando.

Depois de várias provas de que minha visão não era exatamente igual às dos meus coleguinhas de classe, fui ao oftalmologista, que confirmou meus -0,75 iniciais.

Ok, não era exatamente o fim do mundo. Mas enxergar aquelas cabalísticas fórmulas físicas, num quadro negro, às 7h30 da manhã, sinceramente... Era evidente que eu precisava de uma ajudinha extra. De onde viria, eu sequer imaginava.

Depois de mil recomendações e umas trocentas receitas diferentes, partimos rumo à Ótica Avenida para escolher meu novo “acessório”. Mal comparando, é mais ou menos como você ir a um matadouro: mesmo sobrevivendo, nada mais será como antes.

Minha mãe escolheu uma armação que, para ela, pareceu moderna. Eu simplesmente odiei. Começou a pior fase da minha vida, a de adaptação ao novo acessório: espanto (“Cê tem três olhos?”), brincadeiras estúpidas (“A cegueta não conta, escolhe outra!”) e perguntas impertinentes dos amiguinhos adjacentes à minha mesa escolar cativa: “É verdade que se a gente colocar seus óculos no sol focado num monte de gravetos, ele pega fogo?”

Além dessas babaquices todas, eu também ainda tinha de lembrar que agora precisava de mais uma coisa pra levar todo santo dia pra sala de aula: a tralha dos óculos de grau!

E, meu Deus, parece que esse artigo raro vem com imãs acoplados com alta atração por bundas femininas! Eu saía pro recreio, deixava os óculos na cadeira, voltava conversando com alguém e... cataplum! Sentava em cima.

Pelo menos uns três ficaram tortos ou sem lentes devido às minhas sentadas desatentas. Fazer o que?

O tempo foi passando e a cada retorno ao médico, ele me dava uma nova receita. Pior: ele me recomendava sempre um novo grau! Quer dizer, em vez de melhorar, meus olhos ficavam cada vez mais exigentes (sempre queriam um grau maior). E os meus óculos, reinando cada vez mais soberanos.

De repente, comecei a precisar deles para mais do que umas simples “ajudinha” na hora de ler a legenda de um filme em alemão no cinema (se bem que se o áudio dos cinemas brasileiros fosse minimamente razoável eu nem dispenderia tanto esforço).

E como soe acontecer com que é adolescente, fiz 18 anos.

No dia seguinte, estava na porta do Detran para tirar a carteira de motorista. Passei no psicotécnico. Passei na legislação. Passei na direção. Aliás, eu passaria em cima de qualquer um que tentasse me sacanear, já que aprendi a dirigir com 13 anos, por insistência de meu pai, Acram Isper.

No teste médico, uma surpresa: eu nunca mais deveria tirar os óculos nem no banheiro. Cumequié? Sim, eles haviam atestado 5 graus de miopia. Trocando em miúdos, conforme me disseram os caras antes de me entregar a carteira de habilitação, meus óculos agora eram uma necessidade constante pro resto da vida. Principalmente dirigindo.

É evidente que, aos 18 anos, todo mundo é rebelde. Pilotando os carros do velho, a 120 km por hora, eu me fazia de autosuficiente e colocava os óculos sobre os cabelos, como se fosse uma simples tiara. Eu ainda acreditava que usar óculos “queimava o filme”.

Nas festinhas, batia o terror. O problema era que, além de passar por metida e esnobe (afinal, como se cumprimenta alguém de longe se você não sabe que a pessoa esta lá, lhe acenando?), eu ainda acabava precisando de amigas para me ajudar a paquerar.

Pior: acabava paquerando errado (sorrindo inocentemente para os sujeitos mais feios, marrentos e travosos da festa!). Quando, enfim, resolvia colocar os óculos, os sujeitos fugiam de mim como se eu fosse uma nerd exponencial querendo catequizá-los.

Meio no desespero, tentei trair o “movimento nerd” e aderir às inovadoras lentes de contato, bonitinhas pero ordinárias. Meu pai importava dos EUA exclusivamente pra eu usar. Eram gelatinosas, confortáveis, fáceis de colocar e retirar... Mas nem tanto!

A sensação constante de cisco nos olhos não fazia minha cabeça. Sem contar que aquilo era uma fonte constante de infecções oculares. Deus me livre! Perdi várias lentes no banheiro, na hora de retocar a sombra, e, devido a coceiras enfurecidas, ficava, digamos assim, “meio cegueta”, vendo bem apenas de um lado só. As lentes mudavam de posição quase que sozinhas. Um horror!

Foi quando me rendi à parceria inseparável, e até charmosa, dos óculos. A reação do “público” é diversa. Uns, amam de paixão e elogiam. Outros encaram como falta de vaidade e criticam. O certo é que, pra mim, é uma necessidade física.

Enxergar legal é muito mais bonito. Eu uso óculos. E daí? Vai encarar...

sexta-feira, outubro 02, 2009

Recordando o Woodstock brasileiro


A revista Tpm (também conhecida como “Trip da mulherada”) de setembro publicou uma matéria interessante sobre o Festival de Águas Claras, do qual eu mesmo nem me lembrava mais – apesar de tê-lo acompanhado por meio da revista Geração Pop, que colecionava.

Pelo menos nesse quesito, os manauaras foram pioneiros. Enquanto o Festival do Lixo rolou no mesmo ano do Festival de Woodstock, o Festival de Águas Claras só aconteceu seis anos depois. Mas até hoje é considerado o “Woodstock canarinho”.

O texto é da jornalista Luara Calvi Anic, diretamente de Iacanga. As fotos da matéria fazem parte do arquivo pessoal de Carlos Alberto de Carvalho Maria, Giséle Calvi Anic, Leivinha, Mário Thompson, Mauro Scarpinatti, Sétima Lua, Susi Tavares, Victor Gottez, Viviane Xavier Sacramento e Zé Brasil.

Se você participou dos festivais, o documentaristas Thiago Mattar está interessado na sua história. Entre em contato pelo e-mail memoriafestival@hotmail.com.

Mas chega de lenga-lenga e deliciem-se com a matéria da Luara:

O Festival de Águas Claras não existiu. Pergunte àquela tia riponga e ela vai te contar. Ou não. Aos moldes do Woodstock, cada uma das quatro edições reuniu mais de 30 mil pessoas sem memória.

“Pra fazer esta matéria você vai ter que escavar as camadas mais ancestrais da cabeça de quem for entrevistar. É um tema apagado da memória pela cannabis”, acredita a atriz Marisa Orth. Ela esteve lá e preservou a lembrança. Mas muita gente não lembra do que viveu ali. E quem não foi, pouco ouviu falar.


Aos 16 anos, Marisa era virgem e não tinha escolhido ser bicho-grilo. Topou acompanhar a prima num show de três dias e, sem nunca ter montado uma barraca, partiu para a cidadezinha de Iacanga, a 376 quilômetros de São Paulo, onde aconteceu o festival.

Arnaldo Baptista, ex-Mutante, não tem ideia do que se passou lá. “Infelizmente o Arnaldo não tem nenhum registro e também não se lembra do que ocorreu”, avisou Lucinha Barbosa, sua esposa, por e-mail.

Acompanhando a banda Patrulha do Espaço, ele não conseguiu tocar. O músico passou exatas três horas em cima de uma árvore tocando flauta – jura de pé junto o iacanguense Nicolau Abdala Neto, um dos organizadores do festival.

Foi por Nicolau que Maria José Abdala Neto, paulista de Sorocaba, se apaixonou entre um show e outro. Até hoje, há exatos 30 anos, estão juntos – vivem em Iacanga desde 1979.

Ela resume bem o clima do evento: “Todo mundo em paz, nenhuma briga. Deixava meu filho solto na multidão, sempre tinha alguém cuidando dele. Um tinha arroz, outro feijão. Todos se ajudavam”.


Marisa Orth se diverte lembrando dos dias em que passou na fazenda – garante que seus pais só a deixaram ir porque não tinham noção do que acontecia lá. “A maconha era absolutamente liberada, a moeda de troca”, conta.

Apesar de o LSD também rolar, eram especialmente a maconha e os cogumelos que faziam a cabeça dos malucos.

Na edição de maior sucesso, em 1981, o festival levou para a cidade artistas como Raul Seixas, Hermeto Paschoal, João Gilberto, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Alceu Valença e mais de 15 nomes do rock nacional e da música popular brasileira.

Os shows começavam no fim da tarde e se estendiam pela madrugada. As quatro edições – 1975, 1981, 1983 e 1984 – são lembradas por muitos como a versão brasileira do Woodstock.

Para o grande responsável, o ex-barbudo e hoje advogado Antonio Checchin Junior, o Leivinha, a festa foi “uma grande quermesse brasileira”. Hippie que é hippie não perdeu.


O clima de quermesse a que se refere estava em atrações como o globo da morte, a competição de motocross, um balão colorido e os palhaços de perna de pau que bailavam durante o show de Egberto Gismonti.

Na época, o cantor lançava o disco Circense. A apresentação de Egberto, Raulzito bebaço sem conseguir cantar e João Gilberto emudecendo a plateia diante do seu “dim dim dom” são os momentos mais lembrados.


“João Gilberto tocou às cinco da manhã, chovendo e no meio da lama. Só tinha bêbado, chapado, o povo viajando, cheio de ácido na cabeça. E ele não parava de tocar!”, lembra Cláudio Prado, um dos organizadores do festival e ex-produtor de shows de bandas como Os Mutantes e Novos Baianos.

A folia toda aconteceu graças ao pai de Leivinha. Fazendeiro e dono de farmácia, ele queria que o filho – que aos 22 anos já tinha rodado meio mundo – se aquietasse no Brasil. Para “segurá-lo”, liberou a house party ao ar livre.

Leivinha, envolvido com teatro e rodeado por amigos músicos, agilizou tudo. “O objetivo era abrir a cabeça dos jovens interioranos para a música brasileira”, explica o próprio.

Tal qual o Woodstock, o que era para ser uma pequena apresentação no campo virou um festão. “Começou a chegar aquele povo que andava pelo Brasil inteiro, os hippies. Eles não carregavam nada, só bondade. Eram muito educados”, recorda o ex-policial de Iacanga José Carlos Biondo, 53, enquanto varre as folhas da frente de sua casa.


Trio maravilha: Raul Seixas, Wanderléa e Leivinha, o cabeça do festival

Na época em que José estava na ativa, a cidade tinha 3 mil habitantes (hoje tem 9 mil). Edgard Cantão, 45, músico e radialista de Iacanga, não se esquece da multidão – brasileiros e sul-americanos aos punhados – desembarcando na praça central.

“No começo o povo estranhou, achava que os hippies comiam criancinhas”, conta, e garante que estava na praça quando Gilberto Gil chegou lá com sua banda. “Com aquela bolsinha de lado e o cabelo torneado, perguntou se podia fumar maconha. Eu disse que sim.”

Na primeira edição de Iacanga, 1975, dez anos antes do fim da ditadura, grandes shows ao ar livre não faziam parte do cotidiano da juventude, principalmente a interiorana. “O que aconteceria ali era uma incógnita para nós, da organização. A ideia de deixar a cidade cheia de gente estava no nosso imaginário, mas não tínhamos como medir de que tamanho seria aquilo”, conta Cláudio Prado, um dos organizadores.

“O primeiro sinal de que ia rolar eram as bandas topando. Isso resultou numa avalanche de gente.” Raul Seixas ligou pessoalmente para Leivinha querendo participar. O músico, festejado mês passado por causa dos 20 anos de sua morte, na época era o rei da hipparada. O Maluco Beleza ganhou seu lugar no palco às cinco da manhã.


Lagoa azul: o banho era no lago e as vestes, mínimas

A água era escassa e a comida também. Os mercadinhos de Iacanga não deram conta daquele mundaréu de gente em nenhuma das quatro edições do festival. O banho era no rio, o banheiro, ao natural, e as vestes, mínimas.

“Tinha um lago onde todo mundo nadava nu, menos eu”, garante Marisa Orth. “Lembro de um cara que andava pelado e usava só uma bandana no pescoço. Ele se apaixonou por mim e eu era novinha, virgem, ficava superconstrangida!”

A atriz lembra que, na época, mulher bonita tinha cabelo crespo, bunda grande e peito pequeno – o modelo de beleza da Gal Costa.

Alceu Valença, que tocou na edição de 1981 e na época estava lançando o álbum Coração Bobo, se lembra bem dessas mulheres. “Eram lindas, gostosas. Iacanga tinha um clima de sonho, de delírio. Era uma coisa natural, não se usava camisinha, namorar era fácil. Arranjei muitas gatas nessa época”, conta o músico pernambucano.

Músicos topando, ingressos vendendo, Leivinha entendia de política e foi atrás de uma autorização dos militares.


Especial sobre o festival na Geração Pop, revista de comportamento jovem extinta em 1979

“No começo ouvi um ‘não’ do delegado da cidade. Fui para São Paulo e passei um mês esperando o coronel Erasmo Dias (secretário da Segurança Pública durante o regime militar) me atender. Mandaram, então, eu falar com Silvio Pereira Machado, delegado do Deops (Departamento de Ordem Política e Social). Tive de assinar um termo atestando que o festival não teria nenhuma subversão ou apologia às drogas”, conta.

Maria José, a que foi pra Iacanga e não voltou, se emociona ao relacionar o festival à ditadura: “Na escola não podíamos falar nada, dar opinião sobre o governo. No festival não se tocou na palavra ‘ditadura’ , mas aquilo era claramente um movimento de libertação”.

Sônia Abreu, uma das primeiras DJs de São Paulo e maluca beleza nos anos 70, sente saudades daqueles dias “pulsantes, de música o dia todo, paz e multidão”. Era ela quem, nos intervalos dos shows, acionava o play para soltar os hits de Woodstock: Joe Cocker, Jethro Tull, Janis Joplin. Enquanto a música soava nos alto-falantes, a moçada curtia a quermesse mais livre que o Brasil já teve.


Flyer do evento

Na juventude, Sétima Lua e Maria José estiveram no Festival de Águas Claras, em Iacanga. Quase três décadas depois da primeira edição do evento elas continuam na cidade.

Na época, a paulistana Sétima Lua, apelido de Rosa Maria Cheixas, tinha 20 anos, três namorados e rodava o Brasil vendendo artesanato. Ela não acreditou muito quando ouviu falar do evento: “Tantos artistas conhecidos numa cidade que eu nunca tinha ouvido falar?”.

Mesmo assim, convenceu um dos três namorados e, um mês antes do início da festa, já estava na estrada. De carona em carona, chegou até a cidade dez dias antes da abertura. Montou sua barraca e viu a fazenda ser preenchida por cerca de 30 mil pessoas.

Depois do festival, Sétima Lua morou em outras cidades brasileiras, mas ao engravidar da primeira filha, Aluana, hoje com 22 anos, resolveu que era em Iacanga que ela seria criada. Aos 47 anos, Sétima mora em Iacanga com dois dos três filhos e uma neta. É conhecida na cidade como “A hippie” e virou amiga de Maria José.


Sétima Lua e sua neta

Maria José Abdala morava em Sorocaba, SP, quando soube do Festival de Águas Claras. Tinha 19 anos, disse para a mãe que passaria uma semana na casa de uma amiga e partiu para Iacanga. Sem mochila nem barraca, só com a roupa do corpo.

Chegando lá, encontrou amigos de Sorocaba e, com pouca grana no bolso, resolveu pular a cerca e não pagar ingresso. Nicolau Abdala Neto, um dos organizadores do evento e seu futuro marido, viu Maria José invadindo a fazenda. O clima era de comunidade, ele deixou passar.

Meses depois a sorocabana foi apresentada ao cúmplice por meio de amigas em comum. Se apaixonou, casou e voltou para a cidade onde tinha vivido “a maior emoção da vida”, o Festival de Águas Claras.

Aos 55 anos, Maria José tem dois filhos, Pablo e Adelita, trabalha com artesanato e como assistente social de Iacanga. “Nunca imaginei que voltaria para Iacanga para casar e criar meus filhos”, diz emocionada.

Na sua gaveta ainda estão guardadas as fotos dos shows e o vestido usado no festival. Memórias de quem viu de perto todas as quatro edições do Woodstock brasileiro.


Vista aérea da fazenda Santa Virgínia, em Iacanga

quinta-feira, outubro 01, 2009

Mais uma noitada de arromba no CDF


Depois de uma suspensão sabática de cinco anos, voltei a ser convidado para uma sessão de birita e boa música no Clube dos Discófilos Fanáticos (CDF), na aprazível residência do médico Arnaldo Russo. O fuzuê rolou na última terça-feira.

Dos titulares do clube – onde mulher não entra! – estavam presentes Arnaldo Russo, Lucio Meirelles, Humberto Amorim, Expedito Teodoro, Acram Isper, Roberto Benigno, Waldir Menezes, Paulo Monteiro, Oswaldo Frota, Augusto Menezes e Edson Gil.

A única ausência foi a do empresário Salomito Benchimol, que deve estar garimpando discos raros nos EUA para fazer sua apresentação anual. O nível de qualidade das apresentações está cada vez mais alto.

Na “patuléia” (nome genérico dos convidados) estavam Joaquim Marinho, Jefferson Garrafa, Edmar e Ernesto Costa (irmãos do Edson Gil), Sergio Benigno, Joaquim Nogueira, Ronaldo Tiradentes, Chaguinha, José Carlos, Barroso, Roberto Russo e Marleno Junior, o único Benigno a não ostentar o famoso sobrenome - razão pela qual ele se auto-intitula de Junior Maligno.


A quantidade de quitutes à disposição dos “clubistas” (queijos, pastéis, pernil, salame, uvas frescas, salgadinhos variados, caviar beluga, croissants, uísque 12 anos, vinhos, cervejas, refrigerantes, etc) daria para alimentar um campo de refugiados da África durante duas semanas.

Na primeira meia hora de apresentação, Marco Heleno Benigno apresentou o filme “O Mágico de Oz” sincronizado com a sonoplastia do disco”The Dark Side Of The Moon”, do Pink Floyd.


De acordo com o Marco Heleno, existe uma lenda urbana dando conta de que o disco foi feito em cima da história da pequena Dorothy – e si non é vero, é bene trovatto!

Confesso que nunca tinha ouvido falar nessa história. Já li e reli o livro do John Harris sobre os bastidores da obra-prima do Pink Floyd e em nenhum momento há qualquer referência ao famoso musical.


De qualquer forma, a audição proporcionada pelo Marco me deixou com uma pulga atrás da orelha. Há uma série de coincidências entre o clima musical do disco e a história de Dorothy.

Por exemplo, a faixa “The Great Gig In The Sky” (“O grande concerto no Céu”) coincide com o tornado, que leva a casa pelos ares – e é quase impossível não acreditar que a música foi feita para aquelas cenas.

A faixa “Money” (“Dinheiro”) também coincide com Dorothy chegando à estradinha amarela (de ouro?) que leva à cidade dos Munchkins, no país de OZ – e o filme passa de P&B para colorido.


Comentando o fato com o antenado Ricardo Peres, meu ghost buster do mundo virtual, ele não só confirmou a história como disse que há uma mais recente envolvendo a clássica “Another Brick In The Wall” e o robozinho Wall-E.

Abaixo, repasso os dois links que ele me enviou para que os interessados tirem suas próprias conclusões.

O Mágico de Oz

Wall-E

Bom, mas o ponto alto da noite era mesmo a apresentação do Edson Gil sobre uma nova categoria musical criada por ele, chamada “harmonização enomusical”. O ovo de Colombo? Associar as qualidades de uma determinada uva às qualidades de um determinado compositor brasileiro.


Confesso que sou um completo ignorante em questões vinícolas.

Há uns 20 anos, quando presenciei, no Bar do Armando, uma feroz discussão entre o promotor Francisco Cruz e o juiz Jomar Fernandes sobre um determinado tipo de vinho (Chicão dizia que era “gordo e encorpado”, Jomar, que era “magro e seco”), pensei que eles estivessem discutindo sobre o formato da garrafa.

Também, por mais que me esforçasse, nunca consegui sacolejar uma taça de vinho contra a luz (para acordar o dorminhoco bouquet), aproximá-la das narinas e sentir aroma de frutas vermelhas, ervas finas, trufas, manjericão, alcaçuz, com reminiscências de folhas de tabaco, groselha preta e queijo gorgonzola, e um leve toque de grama molhada após uma partida de futebol society.

Daí eu sempre encarar com um misto de rancor, inveja e desprezo esses seres superiores que nasceram com um decantador de substâncias raras e belas no lugar do nariz e procurar manter, sempre que possível, uma distância civilizada de qualquer tipo de vinho. Meu negócio é cerveja gelada e uísque nas pedras.


Acontece que o Edson Gil não é apenas o maior especialista em vinhos que já conheci, como um profundo conhecedor de MPB. Ele selecionou 23 tipos de uvas brancas e 23 tipos de uvas vermelhas e – acredite se quiser! – conseguiu relacioná-las com 45 compositores diferentes (Roberto Carlos, como alguns tipos de uvas usadas em vinhos assembled, entrou duas vezes).

Mas não era só isso: as gravações eram feitas por intérpretes escolhidos a dedo, de Tânia Maria cantando “Ilusão à toa” (Johnny Alf) a Fernandinha Takai cantando “Estrada do Sol” (Dolores Duran), de Cristina Braga e Eugene Friesen cantando “Disparada” (Geraldo Vandré) a Susanah McCorkie cantando “Wave” (Tom Jobim), e assim por diante. O resultado ficou simplesmente fantástico!

A audição comandada por ele durou cerca de quatro horas e ainda deixou um gosto de “quero mais!”. Sem contar que o humor escrachado e inteligente do Acram Isper não deixa ninguém ficar entediado.


O Edson Gil explicava as características da uva, o tipo de vinho resultante e associava ao compositor. A tarefa dos presentes era identificar o compositor. Waldir Menezes, que ajudou Edson Gil na apresentação, travou uma guerra particular com Expedito Teodoro: os dois acertaram o nome de metade dos compositores (o Waldir ganhou de 14 a 12, salvo engano).

Eu mesmo acertei uns três. O Acram acertou uns cinco, mas suas observações ferinas quando ninguém acertava e o nome era revelado pelo próprio Edson Gil, tiravam qualquer um do sério. Grande Acram!

Por exemplo, a uva Merlot origina vinhos aveludados, moderadamente ácidos e complexos, mas não precisa envelhecer para atingir seu apogeu. Logo, portanto, por conseguinte, as músicas do João Donato casam bem com ela, porque são bem assimiladas na primeira audição, seja de que fase forem da vida musical do compositor acreano.

Outro exemplo: A uva Sauvignon Blanc é de uma casta inconfundível, onde a intensidade aromática, com notas minerais e vegetais, é do agrado de muitos consumidores. Inconfundível, também, são as músicas de Noel Rosa, o compositor que talvez melhor tenha descrito o cotidiano em suas canções.


Lá pelas tantas, o Humberto Amorim, a quem a audição foi dedicada, deu uma “canja” explicando a origem da uva nacional do Chile. Waldir e Acram me confidenciaram que ele havia “chutado”. Ainda não consultei o oráculo mundial para saber quem tem razão.

No final de sua palestra, como é de praxe, Edson Gil presenteou os presentes com um belíssimo livro, "A Música e o Vinho", contendo dois CDs, com a trilha sonora da audição. Só biscoitos finos.





O anfitrião Arnaldo Russo já me convidou para a apresentação dele, em dezembro, sobre musicais da Broadway.

Depois dessa magistral apresentação do Edson Gil, deve vir chumbo grosso por aí. O New York Times informará.

Histórias dos Meninos do Morro (1)


Apaixonado por samba desde menino, o delegado Petrônio Carvalho começou na Vitória Régia, se mudou para a Sem Compromisso e resolveu deitar raízes na Reino Unido, depois que descobriu que um de seus subordinados, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor de bateria da escola.

Petrônio Carvalho gostava de tocar caixinha de guerra, mas não tinha muita intimidade com o instrumento. Amigavelmente, Jairo Beira-mar lhe colocou para tocar tarol na "furiosa".

Em 1989, a Reino Unido estava concentrada ao lado do cemitério São João Batista, no Boulevard Amazonas, pronta para descer (ou subir, sei lá!) a avenida Djalma Batista com o enredo “Axé Mãe Preta”.

Jairo posicionou a bateria como se deve: caixinhas e taróis aqui, frigideiras e reco-recos ali, surdos acolá, treme-terra mais atrás, cuícas e agogôs desse lado, tamborins no miolo, essas coisas.

Um atraso inexplicável no desfile – a Barelândia, do saudoso mestre Maranhão, havia cismado de fazer um protesto e teimava em não retirar os carros alegóricos da avenida – fez Jairo ir saber o que estava acontecendo.

Quando voltou, vinte minutos depois, quase teve um infarto. A bateria havia se transformado numa animada roda de pagode, comandada pelo delegado Petrônio Carvalho.

As garrafas de cachaça circulavam de mão em mão, dezenas de vagabundas, passistas e baitolas rebolavam provocativamente, transeuntes estavam tocando instrumentos da bateria, enfim, uma zorra total.

Jairo ficou simplesmente puto. Enquanto reorganizava a bateria, a escola começou a desfilar.

O trabalho de reposicionar os ritmistas – alguns em adiantado estado de embriaguez alcoólica – era quase desumano.

Mesmo assim, Jairo foi em frente. Os que cismavam de tocar “atravessado” recebiam uma bordoada do exigente diretor.

Quando a escola entrou na Djalma Batista, o delegado Petrônio Carvalho levou a primeira baquetada no ombro, que quase lhe partiu a clavícula:

– Toca direito, porra! Se não quiser tocar, corre pro mato e vai embora! Só não quero ver neguinho vacilão fazendo merda aqui na avenida! Isso aqui é sério, caralho, isso aqui é sério! – fulminou Jairo Beira-mar.

O delegado ficou passado com a reprimentada chula do subordinado, mas não disse nada.

Antes de chegar na Tevelândia, Petrônio Carvalho já havia recebido meia dúzia de baquetadas no ombro. Seu braço esquerdo estava quase desmontado.

Na área de dispersão, com todo mundo chorando, se abraçando e confraternizando pelo belíssimo desfile da escola (que acabou ganhando o título daquele ano), Petrônio chamou o subordinado:

- Porra, Jairo, eu nunca apanhei desse jeito nem do meu pai. Não quero mais saber dessa porra de bateria não. No próximo ano, vê se me arranja um lugar na diretoria de Harmonia. Eu estou saindo daqui pra ir falar com o massagista Dico Paiva, porque acho que meu ombro está fraturado...

Na segunda-feira seguinte, Petrônio apareceu na delegacia com o braço esquerdo na tipóia. Sua clavícula tinha ido pro espaço.

Ele explicou aos subordinados que o problema acontecera quando ele estava perseguindo uns bandidos nas quebradas do Puraquequara e levara uma queda em uma das ruelas do bairro.

O investigador Jairo Beira-mar, na maior cara dura, confirmou a história.

Banda Joy colocando pra ferver

Eu estava devendo as fotos da banda Joy durante o Gothic Celebration. Ei-las. Solicito à turma do gargarejo não colocar quebranto na vocalista Nayara. Apreciem com moderação.

E quando pintar uma nova oportunidade, matem ou morram mas não deixem de assistir a banda Joy em ação, ao vivo e a cores. Eu recomendo.