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sexta-feira, junho 06, 2014

Da série “meus ídolos continuam os mesmos”: com vocês, Marcos Faerman!


Desde que comprei nas bancas o primeiro jornal Versus, em meados dos anos 70, me tornei fã confesso do jornalista Marcos Faerman. Seu texto límpido e cristalino era a prova dos nove de que jornalismo e literatura podiam andar de mãos dadas sem assustar os leitores. Se um dia me tornasse jornalista, queria escrever igual a ele. Não consegui, é verdade, mas vou morrer tentando.

O jornal Versus foi amor à primeira vista. Na época, eu comprava apenas o Pasquim e, esporadicamente, os jornais Opinião e Movimento. Foi por meio do Versus que travei contato com vários jornais alternativos (Ovelha Negra, De Fato, Boca do Inferno, O Saco, Raposa, Pacu Tatu cotia Não, Varadouro, etc), dos quais logo me tornei assinante.

Um dos editores do Versus era o escritor Mouzar Benedito, que só conheci pessoalmente há oito anos, mas com quem troco figurinhas até hoje. Tão talentoso quanto Faerman, Mouzar mantém um blog interessantíssimo no site da Editora Boitempo, que visito sempre que posso, e que recomendo vivamente a quem gosta de boa literatura.

Também adquiri os dois volumes de jornais encadernados (do nº 03 ao 10 e do nº 11 ao 17), dos quais sobrou apenas o primeiro volume, que guardo como um troféu de guerra. O segundo foi inadvertidamente jogado no lixo por uma de minhas ex-mulheres.




Há alguns anos, recebi de um amigo a cópia de um texto intitulado “Marcos Faerman, um humanista radical”, da jornalista Isabel Vieira, que transcrevo em seguida como forma de homenagear a memória daquele que, ainda hoje, considero o melhor jornalista brasileiro de todos os tempos. Lendo o texto, muitos leitores me darão razão. Curtam:

Um ataque cardíaco fulminante levou Marcos Faerman na contramão de uma sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999, véspera de Carnaval. Em 5 de abril teria completado 56 anos (nasceu em 1943). Estava acima do peso, fragilizado, envelhecido, cego de um olho, abalado pela morte recente da mãe e da irmã, ambas de câncer de mama, mas trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, como de hábito, com o entusiasmo dos 20 anos. E aproveitando uma fase excepcionalmente tranquila na sua conturbada vida pessoal. Dias antes de morrer, havia trazido para a esposa Nina alguns vasinhos de xaxim, uma caixinha de música que tocava  “Love Story” e um pano de prato estampado com a frase “Aqui mora a felicidade”. Esse quarto casamento, no final de 1997, com a historiadora Maria Aparecida (Nina) Lomônaco, tinha lhe proporcionado algo que há muito não possuía: uma vida familiar. 

Tudo indicava que as turbulências do vendaval Marcão haviam sossegado. Assistia ao seriado de televisão “Chiquinha Gonzaga” com a esposa, na cama, ou lia para ela trechos de Rimbaud ou Nietzche antes de dormir.  Gostava de tomar chá com a sogra, de 90 anos, que vivia no mesmo prédio, na região da Paulista, em São Paulo. E havia recuperado algo precioso: o convívio com os filhos Laura (do primeiro casamento, com Marilza, nascida em 1975) e Julio (nascido em 1980, da segunda mulher, Maria Inês). “Venham jantar em casa”, convidava. “Encontrei uma mulher que faz o bife da minha mãe.”

“O cheiro do bife da mãe me acompanha pela Eternidade...”, Marcão havia escrito num texto que Nina acharia depois em gavetas, com o título de “Nunca mais”, grito lancinante pela seqüência brutal de perdas na família. O primeiro a ir embora foi o pai, em 1988. Depois o irmão caçula, Marcel, em 1994. Dos quatro filhos de Henrique e Helena Faerman, só ele, Marcos, o mais velho, e o segundo, Mauro, psiquiatra em Porto Alegre, continuavam vivos. “Cuidei dele como de um bebê”, diz Nina. Ela, paulista da gema, trabalhava no bairro judeu do Bom Retiro. Estava sempre em busca de receitas de pratos de que ele sentia falta, como os vareniques, pasteizinhos de batata que a mãe e a avó faziam. Estabilidade e carinho amenizaram-lhe as dores. Ao cunhado e amigo Vitor Vieira, viúvo da irmã Marilena, por quem nutria uma irmandade de espírito, Marcão confessou que há muito tempo não se sentia tão bem. Até o final manteve o hábito de ligar várias vezes por dia a Vitor, jornalista em Porto Alegre, para falar do Grêmio ou de qualquer outro assunto, importante ou banal.  

O último Natal foi festejado à maneira cristã – “um sonho dele”, segundo a esposa – na casa de Luciana, filha de Nina, na pequena cidade onde ela vive, Santa Isabel do Ivaí, no Paraná. Marcos e Nina tinham passado o final de 1998 lá e pretendiam voltar no carnaval. Na última hora desistiram da viagem, pois Marcão, como sempre, estava atolado de compromissos. Editava com especial desvelo a revista “A Hebraica”, para o público judeu de São Paulo, fazia matérias como repórter especial para as revistas “Educação” e “Ensino Superior”, da Editora Segmento, do amigo Edmilson Cardial, e era responsável pelo jornal-laboratório “Esquinas de SP”, da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, onde lecionava. 


Na sexta-feira, 12 de fevereiro, Marcão saiu ao meio-dia para fazer sua última entrevista, com Adriano Diogo, vereador petista. Ao terminar, ligou para a mulher avisando que ia fazer algumas compras. À noite, Laura viria jantar. Quando Nina chegou do trabalho, soube pelo porteiro que o marido havia voltado às quatro da tarde e subido com a chave que ficava na portaria. Estranhou o silêncio no apartamento. Bateu, tocou a campainha, e nada. O telefone tocava e ninguém atendia. Nina foi buscar um chaveiro do bairro para abrir a fechadura. Só conseguiu entrar em casa depois de quarenta minutos de angústia. Encontrou na geladeira tudo que Laura mais gostava de comer e beber. Sobre a mesa da cozinha, um pacote aberto de suco de pêssego Del Valle, que o marido adorava. Marcão jazia sem vida no espaço entre a cama e a janela do quarto.  “Não sei qual o efeito da paixão no coração, se dilata ou sobrecarrega as coronárias”, diria depois Luis Fernando Veríssimo em sua coluna no Estadão.

Em 1966, então colegas no jornal gaúcho Zero Hora, eles planejaram um caderno de cultura em condições precárias, na garagem da casa de Veríssimo em Porto Alegre. “Nunca conheci ninguém apaixonado pelo jornalismo como o Marcão. Lembrei dele em nossa garagem, há 30 anos, emocionado com a descoberta de um texto bem paginado. Emocionado com nada mais extraordinário que um texto bem paginado numa revista poeirenta.”

“Morreu de tanto viver”, resume a última companheira, Nina. 

Conheci Marcão em setembro de 1977, na velha casa da rua Capote Valente, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde funcionava a redação do Versus. Naqueles tempos em que a imprensa estava sob censura e as publicações alternativas falavam por nós, a estudante do terceiro ano de jornalismo sentiu-se honrada por ser recebida pelo editor do tablóide que era o meu preferido na faculdade. Versus, “um jornal de aventuras, idéias, reportagens e cultura”, como dizia o slogan, propunha a cultura como forma de ação política e tratava índios, negros e trabalhadores como os reais protagonistas da história latino-americana. Possuía colaboradores  de peso, como o jornalista uruguaio Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina”, o escritor argentino Julio Cortazar, o mexicano Carlos Fuentes, o poeta cubano Ernesto Cardenal, os brasileiros Érico e Luis Fernando Veríssimo, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Rodolfo Konder, Cláudio Willer e outros.

Habituado a trabalhar com profissionais desse quilate, Marcão tinha ao mesmo tempo a rara delicadeza de tratar focas com respeito e entusiasmo. Ficava empolgado com textos bem escritos. Acolhia e arrumava emprego para quem precisasse. Fazia o jovem jornalista se sentir capaz. “Foi padrinho e tutor de uma geração que se formou em torno do seu inesquecível tablóide dos anos de imprensa nanica, o Versus”, diz Alfredo Sirkis numa bela matéria no Observatório da Imprensa. Muitos desses afilhados fariam sólidas carreiras na imprensa. Um deles é Caco Barcellos, conterrâneo do Rio Grande do Sul.  

Tive a sorte de chegar na hora certa. Marcão me recebeu em 1977 como se já fosse profissional. Elogiou a matéria que eu trazia (sobre uma comunidade isolada de caiçaras no litoral norte de São Paulo) e a publicou. Em seguida, me incumbiu de uma pauta ambiciosa: a vida dos mineiros numa mina de carvão. Mas não qualquer mina. Queria uma mina em que a extração fosse feita por meio de métodos primitivos, “como no Germinal, de Émile Zola”, disse, me emprestando o romance que eu não conhecia. Mandou que lesse também um estudo sobre mineiros na Bolívia, “He agotado mi vida en la mina: una historia de vida”, de Juan Rojas e June Nash,  numa edição argentina. Deixei a redação com os volumes debaixo do braço e sem coragem de confessar que eu não tinha a menor idéia de onde havia minas de carvão no Brasil. Envergonhada, fui consultar enciclopédias e mapas. Assim encontrei a Mina do Leão, em Butiá (RS), a 100 quilômetros de Porto Alegre, tema da primeira de inúmeras matérias que eu faria sob orientação do Marcão.

E não só no Versus. Porque pelas mãos dele cheguei à revista Quatro Rodas, meu primeiro emprego como repórter. Fomos amigos próximos durante quinze anos, até o início de 1993. Convivemos no Jornal da Tarde e em revistas que ele criou e/ou editou, como “Singular & Plural” (1978-79) e “Ícaro Ponte Aérea” (1984-85), nas quais eu colaborava. E em “lições práticas” de reportagem. Apesar dos frilas brilhantes que costumava fazer para Quatro Rodas, Marcão nunca soube dirigir um automóvel. Sempre que podia, eu lhe dava carona e o acompanhava na apuração de suas matérias. Com ele aprendi mais sobre jornalismo e literatura do que em qualquer livro ou faculdade.


“Sou repórter, judeu, gaúcho, gremista e marxista.” Assim Marcão costumava definir-se – em geral nesta ordem. Via-se como um ser de múltiplas facetas, com identidades fortemente coletivas, e viveu cada uma com paixão. Todas as cinco identidades tiveram origem na pequena Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, onde ele veio ao mundo em 5 de abril de 1943. Os pais, Henrique e Helena Faerman, judeus de origem russa, eram comerciantes que tiravam o sustento da família de uma lojinha de aviamentos em cima da qual viviam com os quatro filhos. O incêndio que destruiu a loja e a casa é uma recordação marcante da infância de Marcos, um guri de cabelos encaracolados e olhos azuis, que gostava de ler gibis e tinha medo do escuro. À noite, escondido de todos, rezava pedindo perdão a Deus por ser judeu.

Em outro texto inédito encontrado por Nina, “Eu menino”, ele relembra comentários dos garotos católicos da escola e diz: “E aí aprendi que era judeu, que matei Cristo Nosso Senhor, filho de Deus. Eu, um menino judeu em Rio Pardo. E fui correndo para casa, chorei como depois correria de novo, chorando na calçada da rua João Pessoa, vendo nossa casa, a loja de meu pai queimar. Meu pai sentado na frente da nossa casa, tudo queimando, e as pessoas vendo o judeu chorar, o judeu que bem podia ter posto fogo na loja só para ganhar o seguro – estes estrangeiros são capazes de tudo, não é?”.

A Rio Pardo que emerge das lembranças de Marcão é uma cidade triste, com ruas de pedras, casas com porões, porões habitados por ratos, um rio de águas escuras, as ruínas do Forte Jesus-Maria-José, ecos de antigas bravuras e batalhas. Ele na matinê de domingo, “arrumadinho pela mãe na primeira fila do cinema”, e figuras queridas como seu Biaggio, o bibliotecário do museu, e a cozinheira Odósia, “que contava histórias de fantasma e talvez seja a principal cúmplice da minha paixão por Allan Poe”. “Onde nasce o fascínio pela leitura?”, pergunta-se. “Posso pensar, por exemplo, na paixão de meu pai pelos livros. Na biblioteca de meu pai, em Rio Pardo, os livros eram misteriosos. Quando ele me dizia: menino, a capa de uma aventura de Tarzan!...”

Seu Henrique Faerman gostava de ler histórias em voz alta para os filhos, à luz inspiradora e fantasmagórica do lampião, e de levar Marcos e Mauro para comprar maçãs argentinas nos trens que passavam pela estação a caminho da cidade gaúcha de Santa Maria. “Maçãs vermelhas e redondas, como só eram assim as maçãs dos reis, mas nós não parávamos de chorar, o irmão e eu, até o pai voltar. Morríamos de medo do trem ir embora com o pai, para sempre.” Em casa, ouviam a Rádio Belgrano de Buenos Aires e torciam pelo Grêmio, o time de futebol do coração do pai. Nunca esqueceriam a primeira vez em que o acompanharam ao estádio em Porto Alegre para assistir a um jogo do tricolor gaúcho na arquibancada. O guri Marcos amava jogar bola, ler revista, ver filme de pirata, caçar gafanhoto e imitar Nelson Gonçalves. Queria ser cantor e até cantou na rádio local.

No final dos anos 1950, Rio Pardo tornou-se pequena para ele. Mudou para Porto Alegre e mergulhou na efervescência da política estudantil. Logo seria líder do grêmio do Colégio Júlio de Castilhos, o “Julinho”, tradicional escola pública da cidade. Amigos dessa época, como João Batista Marçal e Júlio Mariani, recordam o adolescente Marcos como um agitador inflamado, vestido com um capote cinza, enfrentando direitistas em congressos estudantis. “Um guri explodindo em rebeldias, que se joga de cabeça em todas as lutas de seu tempo.” Foi assim que conseguiu o primeiro emprego.


Numa tarde de 1960, Marcão foi entregar um manifesto do grêmio ao jornal Última Hora (que depois se transformaria em Zero Hora). O chefe de reportagem, Flávio Tavares, achou o texto bom demais para ser ter sido escrito por estudantes e perguntou quem era o autor. Ao saber que estava diante dele, não perdeu tempo: “Quer trabalhar como repórter da geral?”, convidou. “Pode ocupar aquela máquina de escrever lá no fundo e começar agora mesmo.” Aos 17 anos, sem cédula de identidade nem carteira profissional, Marcão teve de apresentar uma autorização do pai para ser contratado.

Os anos pré-1964 eram de esperanças e utopias. O jovem repórter e sua turma são seduzidos pelos ideais do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o Partidão, e vivem o sonho revolucionário comunista. No Julinho e na Faculdade de Direito da UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que ele deixaria sem concluir, Marcão ganha fama de contestador, participante ativo das aulas de filosofia e história e uma pedra no caminho de professores burocratas. Os meninos comunistas sonham em ter armas para fazer a revolução. “A arma do Marcão era a palavra, que jorrava aos borbotões, nas esquinas, nos colégios, nas assembléias, nos bondes. Sempre com os jornais sob o sovaco, repetia a frase da Passionária: ‘Não passarão’”, lembra Luiz Pilla Vares.

Com um curto intervalo em 1963, em que tenta ganhar dinheiro rápido vendendo enciclopédias – foi dissuadido pelo futuro editor de O Pasquim, Tarso de Castro –, Marcão sabe que o jornalismo é para ele o meio mais eficiente de subverter a ordem. E volta para Zero Hora, famosa escola de jornalistas na época. Júlio Mariani o recorda como “um vendaval permanente a atravessar a redação em todos os sentidos e direções, usina de idéias a expelir, sem cessar, novas propostas de trabalho, reportagens sensacionais que precisavam ser feitas com urgência, esquemas gráficos revolucionários, que botavam tontos os diagramadores, editores e até o dono do jornal”.

Depois do golpe de 1964, muitos militantes do PCB rompem com o partido e agrupam-se em diferentes tendências de esquerda. Marcão e seus amigos vão para o POC, Partido Operário Comunista, de orientação leninista, responsável pela vinda dele para São Paulo em 1968. O partido necessitava de um quadro gaúcho na executiva nacional. Marcão é destacado para a tarefa. Além disso, acenam-lhe com a possibilidade de integrar a equipe do Jornal da Tarde, onde companheiros do POC tinham trânsito. O vespertino do Estadão era o jornal mais inovador do país, um cobiçado campo de atuação para repórteres criativos e ousados. Marcão aceita a proposta. A namorada, Marilza Taffarel, estudante de Medicina em Porto Alegre e também militante do POC, decide interromper o segundo ano da faculdade para acompanhá-lo na viagem. Tinham-se conhecido em reuniões políticas em 1967 e se apaixonado. Em São Paulo, casariam e nasceria a filha do casal, Laura.

A mudança para a capital paulista marca uma nova etapa na vida de Marcos Faerman. É o início de sua trajetória iluminada no Jornal da Tarde, onde desenvolveria um estilo único, recriando a grande reportagem em textos nos quais combinava técnicas literárias e humanização de personagens, e da edição de publicações de vanguarda que fariam história no jornalismo brasileiro, como EX-, Bondinho e Versus. “Sem saber, começávamos a perder um militante, mas o jornalismo ganhava um de seus melhores repórteres”, diz Luiz Pilla Vares.

Luis Fernando Veríssimo tem outra versão para a saída do colega de Porto Alegre. Segundo conta, Marcão foi posto em ostracismo no Zero Hora e acabou responsável pela página feminina patrocinada pela Margarina Primor. Uma de suas obrigações era editar receitas de cozinha, trocando “manteiga” por “margarina” sempre que a palavra aparecesse. Veríssimo acredita que Marcão forçou sua própria demissão, deixando de fazer a troca e provocando queixas sucessivas do patrocinador ao departamento comercial do jornal. Conclusão de Veríssimo: “A Margarina Primor foi responsável pela ida do Marcão para São Paulo. O jornalismo brasileiro deve muito à Margarina Primor”.

Nos 24 anos em que foi repórter especial do Jornal da Tarde, de abril de 1968 a setembro de 1992, Marcão assinou 806 matérias, boa parte no Caderno de Leituras publicado aos sábados, com textos de fôlego elaborados a partir de pesquisas apuradas. Fez reportagens especiais e do cotidiano de todo tipo e em todas as áreas, de polícia a política, de saúde a educação, de cultura a futebol. Viajou pelo Brasil e países vizinhos da América do Sul como enviado especial, escreveu matérias longas e curtas, cobriu assuntos relevantes e banais. Viveu no JT o epicentro do new journalism no Brasil. Criado em 1966, no mesmo ano da revista Realidade, esse jornal praticava a cultura do bom texto e assimilava as inovações do jornalismo literário: o jeito de fazer perfis de Gay Talese, a literatura da realidade de Truman Capote, as coberturas humanizadas de John Reed, o texto enxuto de Hemingway. Revolucionário também no visual, o JT tinha uma paginação ousada, com fotos estouradas nas páginas, soluções gráficas inusitadas, casamento entre ilustrações e textos. A equipe era jovem e talentosa, formada por nomes como Valdir Sanches, Fernando Portella, Percival de Souza, Moisés Rabinovich, Fernando Mitre, Elói Gertel etc.

Marcão mergulhou de cabeça na proposta. Fez matérias extraordinárias, como “O caso Bensadon”, em que investigou o desaparecimento de uma modesta mãe de família de Itaquera e descobriu que tinha sido assassinada por vizinhos ligados às forças de segurança da ditadura militar. Motivo: briga entre os filhos por um carrinho de rolimã. A matéria resultou na prisão dos culpados. O trabalho no JT deu a Marcão o Prêmio Unicef, em 1986, por uma série sobre delinqüência juvenil,  e dois prêmios Esso: um em 1974, por “Nasceu o primeiro brasileiro pelo método Leboyer” (categoria informação científica), e outro em 1975, por “Os habitantes da arquibancada” (menção honrosa na categoria informação esportiva), enfocando torcedores nos estádios de futebol.  Sobre Leboyer, o médico francês que, nos anos 1970, pregou a idéia de “nascer sorrindo” – o parto humanizado, com procedimentos como música e luz suaves, entre outros, para receber o bebê sem pressa nem tapas nas costas –, Marcão declarou na época: “Gosto de escrever histórias a respeito de homens como Leboyer, que acreditam que o mundo pode ser melhor do que é”. Mas o JT era apenas um “emprego básico”. Paralelamente, sua carreira contabiliza a participação e/ou a criação de inúmeros projetos de vanguarda.

Recém-chegado a São Paulo, alinhou-se com a patota de O Pasquim (Tarso de Castro, Jaguar, Paulo Francis, Millôr, Ziraldo) e trabalhou na sucursal paulista do irreverente jornal carioca. Em 1972, fez parte da equipe da revista Bondinho, com jornalistas vindos da Realidade, como Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Woile Guimarães e Hamiltinho de Almeida Filho. Segundo Marcão, Bondinho era “uma revista viajante, psicodélica, o equivalente na imprensa ao tropicalismo, ao underground, ao teatro do Zé Celso Martinez. De apreensão em apreensão, morreu em poucas edições”. O nanico seguinte foi EX-, em 1973, que Marcão dirigiu por um período. Combinava a loucura tropicalista de Bondinho com provocação política. A edição de estréia trazia na capa uma foto-montagem de Hitler tomando sol como um nudista. O número 3 mostrava o presidente americano Richard Nixon, envolvido no escândalo Watergate, com roupas de presidiário. EX- foi fechado ao publicar um dossiê sobre o assassinato do jornalista Wladimir Herzog nos porões da Oban, a Operação Bandeirantes, em São Paulo. A edição de 50 mil exemplares esgotou e foram rodados mais 30 mil, que acabaram apreendidos.


Marcão deixou o EX- para fazer Versus. O primeiro número saiu em novembro de 1975. No início vendido de mão em mão, chegou a ter distribuição nacional e tiragens de 35 mil exemplares. Era bimestral, passou a mensal e voltou a ser bimestral. Circulou sob a direção de Marcão até o número 24, em setembro de 1978. Após sua saída, sairia até o número 34, em outubro de 1979. Para o jornalista Luís Carlos Eblak de Araújo, Versus fez basicamente dois tipos de ruptura: a primeira, com o estilo de texto curto e objetivo da grande imprensa, que começava a se consolidar e se intensificaria nas redações na década de 1980. A outra ruptura foi temática. “Seu fio condutor, que predomina da capa à última página, é a América Latina, tema pouco tratado pela imprensa na época. O que vai amarrar a estrutura do jornal com suas reportagens será um fato comum no continente: vários países da América Latina – Chile, Paraguai, Uruguai e, em 1976, também a Argentina –, vivem regimes militares.”

Eblak de Araújo lembra ainda que Versus se propunha dar à cultura um status que ela não possuía na imprensa brasileira. “Faerman não aceitava que o jornal fosse caracterizado de ‘cultural’ ou ‘literário’. Para ele, esses termos eram pejorativos. Segundo dizia, Versus tinha simplesmente de expor a cultura de uma região geográfica (América Latina), a cultura dos artistas, dos escritores e dos intelectuais latino-americanos.” Num editorial de aniversário de Versus, edição 6, outubro-novembro de 1976, Marcão o define como “um jornal sem vergonha de assumir a reflexão e a cultura, num momento em que na grande imprensa, letras, artes e pensamento são relegados à condição de ‘variedades’”. No número 12, Versus acrescenta o selo “Afro-Latino-América”.

Nas edições seguintes, temas da política brasileira começam a ocupar o primeiro plano e o jornal vai perdendo sua identidade original. Na redação, militantes da Convergência Socialista – corrente de esquerda que se consolidou em 1978 – defendem uma adesão clara a essa tendência, que acabaria tomando conta de Versus.  O número 24 publica a carta de despedida do editor Marcos Faerman (assinada também por alguns colaboradores, entre eles a que aqui escreve). O tablóide viverá por mais um ano, descaracterizado, dirigido por Jorge Pinheiro. “Marcão perdeu Versus para a Convergência, o que marcou o começo do fim de sua militância”, escreve Luiz Pilla Vares. “Versus foi o canto do cisne do Marcão político”, crê o amigo, com uma certeza: “Marcão não era um político, movia-se mal nos aparelhos, só se sentia plenamente à vontade diante de uma máquina de escrever ou de seus livros e revistas invariavelmente amassados e sujos. Fim da política, mas não de seu radicalismo, que sobreviveu sempre na ousadia de seus textos subversivos”.

Lembro de uma manhã, nesses dias, em que fomos à sua casa, o editor Hélio Goldenstein e eu, para dar-lhe um abraço solidário. Separado de Marilza, Marcão havia mudado para um apartamento na rua Oscar Freire, em Pinheiros, a poucas quadras da redação do Versus, onde a pequena Laura, uma fadinha loira, com os cabelos longos e cacheados, costumava muitas vezes visitar o pai. Esperávamos encontrar o guerreiro abatido com a derrota no Versus. Marcão nos recebeu com olheiras, a barba por fazer, as roupas desleixadas, e nos levou ao escritório num dos quartos. Na vitrola – sim, o tempo era esse – estava tocando a mais recente composição de Caetano, “Sampa”. Mas os olhos azuis do Marcão brilhavam. Não era tristeza. Empolgado, ele nos contou sobre seu novo projeto, a revista Singular & Plural. Já tinha um local onde instalar a futura redação e a garantia do patrocínio da editora Global durante seis meses. Quem quisesse, que o acompanhasse. Ele ia começar tudo outra vez...


Em 16 de janeiro de 1980, no bar Persona, no bairro do Bixiga, em São Paulo, os amigos foram cumprimentar Marcão pelo lançamento de “Com as mãos sujas de sangue”, antologia das melhores reportagens publicadas no JT e no Versus até aquela data. Marcão estava feliz com o nascimento do filho Julio, de seu segundo casamento, com a mineira Maria Inês, e já havia assimilado o fato de Singular & Plural ter durado apenas os seis números garantidos pela Global. A revista, cuja primeira capa mostrava o renascimento do teatro nos palcos brasileiros – fruto dos ventos que sopravam com a abertura política –, não conseguiu anunciantes para ir adiante. A Editora Global também editou o livro, o único que Marcão publicou em vida reunindo suas reportagens. (Dois anos antes havia participado da coletânea “Violência e Repressão”, com os colegas Fernando Portela e Percival de Souza). Foi esta amiga quem datilografou em laudas de imprensa – sim, na máquina de escrever, era esse o tempo – as matérias que ele escolheu como as mais significativas que havia feito. Muitas vezes, nos anos seguintes, me ofereci para auxiliá-lo a organizar outros volumes. Mas Marcão, de natureza dispersiva e agenda caótica, sempre adiava a tarefa de selecionar as matérias.

Em entrevista ao JT de 16 de janeiro de 1980, ele fala sobre sua obra: “Com as mãos sujas de sangue é um livro com 14 histórias brasileiras. Eu poderia chamar estas reportagens de Os Miseráveis, se um certo Victor Hugo não tivesse um livro com esse título... São histórias de um Brasil silencioso e silenciado, que me fascina por sua pungente humanidade – e que há quase vinte anos percorro como repórter. Percorro o Brasil urbano e o Brasil rural, esses dois mundos, pelo Jornal da Tarde, onde tive um espaço aberto para escrever com a razão e o coração. Descobri as ruas sórdidas de São Paulo, onde as prostitutas se suicidam; percorri as delegacias; vi os corpos de bandidos e policiais atirados na porta de bancos; estive com posseiros expulsos de suas terras no litoral, em Trindade; vivi com os agoniados nordestinos, no sertão, em plena seca; e vi como um homem pode vender a última coisa que tem, seja uma bicicleta ou um disco de Agnaldo Timóteo; descobri que tribos  de índios andam em busca da Terra sem Males e que jamais a encontrarão. Por isso, de certa maneira, meu livro é uma proposta de viagem por aqueles lugares que os turistas nunca visitam. Quem iria a Alagados? Quem se interessa por aqueles homens que vivem em palafitas? O repórter chega até eles – e descobre não só a miséria palpável, mas algo que se pode chamar de a arte ou o milagre de sobreviver nas mais duras condições. Sobre-viver. Viver apesar da vida. É isto que me comove nos ‘personagens’ do meu livro.”

Depois houve outras revistas. Muitas. Shalom. Crisis (só um número, em 1989). Uma revista para caminhoneiros cujo nome não recordo. Ícaro Ponte Aérea, para ser lida nos aviões da Varig que voavam entre São Paulo e Rio, e que nas mãos do Marcão se transformou numa publicação antenada e original, como tudo que ele fazia. Antecipava tendências. Tinha idéias malucas também. “Vamos colocar uma adolescente de 13 anos escrevendo sobre rebeldias juvenis?” (Isso foi na Ícaro). O navegador Amyr Klink, na volta da primeira travessia do Atlântico Sul num barco a remo, foi capa da Ícaro (Marcão achava-o o máximo). Em outra capa, uma chamada sobre automedicação: “O país dos 130 milhões de médicos” (era a população do Brasil). Título em Singular & Plural: “Cuidemos do corpo, que a alma está perdida”. Pautava matérias sobre saúde preventiva e exercícios físicos quando ninguém ainda falava nisso; e sobre terceira idade duas décadas antes de isto ser assunto na mídia. 

Marcão não vivia só a política, estava ligado em tudo o que acontecia no mundo. Era um editor cuidadoso, respeitador do texto alheio – aquele com que todo repórter sonha para editar suas matérias. Podia sugerir como melhorá-las, mas jamais o ouvi fazer uma crítica que não fosse construtiva. Alfredo Sirkis diz que Marcão foi uma das figuras humanas mais decentes e dignas que ele conheceu. Alguém generoso, “despojado do veneno da inveja, que gostava de auxiliar nos projetos literários dos colegas. Sua maior diferença com certa cultura de redação que se firmou ao longo dos anos era o espírito de colaboração, o gosto pelo bom trabalho dos outros”, escreve o jornalista.

Certa vez, eu conversava com um editor do JT sobre os novos rumos que o jornalismo vinha tomando e ele lamentou que eu tivesse chegado àquela redação “dez anos atrasada” (em 1982). Quando repeti para Marcão o que ouvi, ele ficou indignado com o colega. “Não é coisa que se diga! Tu não vê o quanto a frase é destrutiva, guria?”, explodiu, com o sotaque gaúcho que nunca perdeu. Para ele, o jornalismo podia mudar o quanto fosse, mas sempre haveria espaço para as gerações que estavam chegando. Em depoimento a alunos da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos (SP), o jornalista Rivaldo Chinem conta que, certa vez, Marcão lhe disse que fora elogiado “por um figurão, não sei se Alberto Dines ou outro, como editor e não como repórter, o que para ele era a glória, e isso pelo trabalho na Ícaro”.

Como repórter ou como editor, a carreira do Marcão foi sempre norteada pelo que J. Luiz Marques chama de “uma reserva ética de rebeldia” – na visão desse colega gaúcho, Marcos Faerman era “um rebelde contra”, “militante do humanismo socialista”, que “honrava as melhores tradições do jornalismo”. Mais adiante na entrevista ao JT, Marcão conclui a apresentação do livro: “Meu coração se abre para os oprimidos. Meu livro é um testemunho do Brasil dos nossos tempos e de todos os tempos. Acredito na palavra e não posso ligar meu destino a nenhum sistema em que os homens e as palavras sejam escravizados pelo ditador de plantão. (...) O jornalismo humanista humaniza quem o escreve e quem o lê”. 

Não era à toa que Marcão admirava Amyr Klink. O espírito de aventura é, dizia ele, o alimento da alma do repórter. Quando falava “repórter” referia-se ao que chamamos, seguramente, de jornalista-literário ou jornalista-narrativo, mas que ele definia como “um ser em disponibilidade”, aquele que sai em busca de histórias “do outro” e consegue colocar-se na pele dele, ouvi-lo e emprestar-lhe sua própria voz. Aquele que “ouve com o coração” e “conta a história que precisa ser contada”.

Marcão atribuía vocação documental e literária à reportagem. Via-a como uma forma de conhecimento e um método de investigação da realidade. “Um método que difere da historiografia, da sociologia e da antropologia, e tem como centro a arte de investigar os fatos e saber descrevê-los. Isso se faz com melhor ou pior qualidade, dependendo da formação cultural de quem escreve.” Pregou incansavelmente a busca dessa qualidade. Repetia, invocando Roland Barthes, que a reportagem deve operar com o fascínio que só é gerado pelo “prazer do texto”. Leitor voraz, Marcão se considerava um “rato de sebos e bibliotecas”. 

Comprava livros e revistas em espanhol, francês, inglês e italiano – idiomas que aprendeu lendo. Não admitia um jornalista que não tivesse devorado uma lista básica de uns quarenta títulos, a começar dos clássicos de literatura juvenil, passando por Dostoievski, Camus e John Reed, até autores do new journalism, como Truman Capote, Tom Wolfe e Gay Talese. Era fascinado por aventureiros de todas as épocas, tanto autores como personagens. Amava Melville e a baleia Moby Dick. O garoto Jim Hawkins, de “A Ilha do Tesouro”, de Stevenson, escondido num barril de maçãs no convés do navio pirata. Daniel Defoe e o seu “Robinson Crusoé”. O jovem Jack London pendurado num vagão de trem, correndo atrás de histórias. E Sherlock Holmes, Júlio Verne, James Bond, Ernest Hemingway, correspondentes de guerra e...

E, séculos antes deles, Heródoto, que ele dizia ser o pai da reportagem e não da História. Esse grego nascido em 484 a.C., que “se dedicou a percorrer, sem preguiça ou tédio, os limites do mundo da época”, era para Marcão o exemplo ideal do repórter. Viajando pela Babilônia, Assíria, Pérsia, Egito, África, navegando pelo Mar Negro e pelo rio Nilo, Heródodo teria explorado seu tempo, na interpretação dele, como o enviado especial de uma publicação faz agora. Outro de seus ídolos era o jornalista francês Albert Londres, que “tinha de seu apenas um quarto, uma filha chamada Florence e uma mala sempre pronta para viajar”. Nos anos 1920, escrevia histórias reais em série, como folhetins. “Dramas que traziam para as páginas dos jornais a vida num presídio de Caiena, o tráfico de prostitutas de Marselha a Buenos Aires, as proezas dos pescadores de pérola em Java ou a fuga de judeus da Europa para a Palestina.” Londres morreu como viveu: o navio em que viajava para o Oriente, na década de 1930, foi a pique após um incêndio a bordo. Marcão gostava de uma passagem atribuída ao lendário repórter. Certa vez, ele teria ouvido do diretor de um jornal no qual iria trabalhar: “A linha do nosso jornal é...”. Indignado, recolheu o chapéu e a bengala e foi embora, dizendo: “Quem tem linha é trem”.


Marcão também detestava trilhos. Trabalhar numa reportagem era um exercício de liberdade. Vivia cada matéria como uma viagem extraordinária, uma aventura que começava com a pauta (várias ao mesmo tempo) e era saboreada em cada etapa: leituras, muitas; entendimento do tema, busca de personagens. Envolvia-se sinceramente com as histórias que ouvia e aprendia sobre todos os assuntos nesse processo. Não sossegava enquanto não tivesse clareza sobre o “abre” da matéria. Pensava em voz alta sobre o tema. Todo mundo sabia no que estava trabalhando, pois falava no assunto sem parar, sempre empolgado.

Nos bons tempos do JT, repórteres especiais podiam ficar semanas com a mesma matéria, mas sua prática em campo era igual se tivesse de entregar o texto no dia. Beatriz Marques Dias, foca no Estadão no final dos anos 1980, foi certa vez cobrir um incêndio numa favela. Era costume que cada jornal do Grupo Estado enviasse uma equipe própria. “Pelo Estadão éramos vários repórteres, pelo JT só o Marcão”, conta Bia. “Sozinho, ele nos deu um banho. Descobriu histórias incríveis. Não sei como nem onde. Eu estava lá e não vi o que ele viu.”

Na hora de escrever, Marcão era rápido. Passava por uma espécie de surto, muitas vezes de madrugada, pois sofria de insônia. “Ele tinha um poder de concentração instantâneo: sentava a bunda na cadeira, atacava furiosamente as teclas e só parava com o texto prontinho e, pasmem, sem necessidade de muita mexida ou revisão. Esse virtuosismo noturno sempre encheu de admiração escritores espasmódicos e matinais como eu”, lembra Sirkis. Mas às vezes as idéias não fluíam. Marcão chegava da rua e ficava horas agoniado diante da máquina de escrever. “Escrevia três ou quatro linhas, não gostava, rasgava o papel e começava tudo de novo. Dava um tapa na cabeça e reclamava: ‘Estou bloqueado!’ O bloqueio poderia durar minutos, horas ou dias, mas, uma vez superado, surgia a euforia do repórter, um crítico rigoroso de seu próprio trabalho”, lembra o colega Luiz Carlos Ramos.

Uma das últimas matérias em que Marcão trabalhou foi sobre “Água”, para a revista Educação. Juliana Monachesi, aluna da Faculdade Cásper Líbero na época, relata que, dias antes do infarto que o matou, Marcão havia ligado ao editor para dizer, eufórico: “Já tenho o lide! Vou descrever um cenário futurista em que as pessoas se digladiam pelo produto mais valioso da Terra: a água”. Entre os pertences que o jornalista João Marcos Rainho recolheria mais tarde da cabeceira do amigo morto estavam uns óculos quebrados, muitos papéis e uma quantidade de livros com anotações feitas a caneta, como era hábito de Marcão. Entre eles, o volume “Morte social dos rios”, de Mauro Leonel, recém-chegado pelo correio, certamente para auxiliar na matéria. 

E Marcão tinha também, infelizmente, aquele lado escuro, sombrio, que “acabou abreviando o tempo dele”, diz Vitor Vieira, numa tristeza tão funda que, oito anos depois, ainda não pôde abrir os originais do livro sobre skinheads em que Marcão vinha trabalhando e que o sobrinho Julio Faerman lhe enviou. Quando, exatamente, começou? A família e os amigos são unânimes em situar o envolvimento de Marcos com as drogas no contexto dos anos 1970, em que substâncias alucinógenas significavam novas experiências, criação, loucura. Muitas das melhores cabeças usavam drogas naqueles anos. Já nos tempos da redação de O Pasquim, Marcão havia se irmanado a Hamiltinho de Almeida Filho, que morreria em 1993, em decorrência do uso de seringas contaminadas. “Marcão não se iniciou nas drogas por ingenuidade”, revela a psiquiatra Marilza Taffarel, ex-mulher de Marcão, a alunos de jornalismo da Unisanta. “A busca pela quebra do cotidiano fez parte do processo criativo da época. As figuras ideais dele, como o escritor americano Ernest Hemingway, eram do tipo que, ao se deparar com a angústia da criação, se autodestruíam. Mas drogas e álcool são traiçoeiros, viciam. Ele foi se arriscar. E ele arriscava muito.”

Na época da separação tumultuada da segunda mulher, Maria Inês, por volta de 1985, o cunhado Vitor Vieira era chamado frequentemente para mediar conflitos entre o casal. Ele e Marilena ainda viviam em São Paulo, com as filhas Lisa e Lívia. A casa onde Marcão morava com a família, no bairro do Sumaré – e na qual permaneceria por muitos anos depois que Maria Inês e Julio mudaram para Uberlândia (MG) – era cenário das loucuras mencionadas por Alfredo Sirkis. “Eram tempos boêmios, de esbórnia. Marcão pegava pesado na busca frenética de experiências, vivências, prazer e angústia. A casa do Sumaré passou a ser minha guarida em Sampa City. Ali rolava de tudo.”

Vitor Vieira também acredita que “a descida do Marcão no fosso das drogas foi sintomática e emblemática de uma época. Fazia parte da concepção de vida dele. Achava-se forte, poderoso. Era de uma onipotência fantástica. Não aceitava tratamento. Dizia que tinha controle sobre tudo”.
Ouvi isso muitas vezes do próprio Marcão: “Na hora em que eu quiser, eu paro”. Embora eu só tivesse pinceladas dessa outra vida dele “fora” do jornalismo. “Tu é meu lado saudável”, ele dizia. Mas, de vez em quando, deixava escapar uma história sobre traficantes que o perseguiam ou ligava deprimido, com ressaca da vida. Tinha depressões homéricas nos anos 80. Alternava estados de euforia com prostração. Nesses momentos de baixa, queixava-se de que seu trabalho não era reconhecido. “Por que a Editora Abril não me convida para dirigir uma de suas revistas?”, lamentava-se. Achava-se injustiçado. Sentia-se um marginal tanto no ambiente jornalístico como no meio acadêmico. “Os outros jornalistas me vêem como intelectual, e os intelectuais me vêem como jornalista”, dizia. 

Acredito que a queda tenha acontecido aos poucos, degrau por degrau. No final da década de 1980 e início da de 1990, sucederam-se acontecimentos infaustos em sua vida. Numa manhã de 1988, seu Henrique Faerman pegou o lotação para ir trabalhar em Porto Alegre, como de hábito, e foi fulminado por um infarto na calçada do escritório. Poucos anos depois foi o caçula Marcel, “que fazia poesias e jogava uma bola finíssima”, segundo Vitor, e fora diagnosticado com esquizofrenia aos 16 anos. Numa véspera de Natal, despencou do quinto andar do apartamento em frente ao Parque da Redenção, na capital gaúcha, e se esborrachou numa marquise – não se soube se foi acidente ou suicídio. 

Álcool, maconha e cocaína arruinaram a saúde de Marcão. A artrose e a psoríase nas mãos, doenças com que vinha convivendo há anos, agravaram-se e dificultavam-lhe a escrita. Uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia de catarata resultou na perda total daquela vista. A visão do outro olho também estava ruim, mas ele relutava em operar, com medo de repetir o insucesso da primeira cirurgia. Para ler, precisava do auxílio de uma lupa. A esses infortúnios veio se somar a demissão do Jornal da Tarde, no final de 1992. Segundo o escritor e professor Adelto Gonçalves, amigo de longa data, Marcão havia ficado dispendioso para o JT. “Ele era de outra época, passava dias atrás de uma matéria. Por questões econômicas e por causa de uma visão imediatista, mesquinha, a grande reportagem morria nos jornais brasileiros.”

Outro amigo do peito, o ex-editor do Jornal da Tarde Moisés Rabinovitch, que foi correspondente internacional no Oriente Médio e com quem Marcão dividia as angústias pelas crises do povo judeu, aponta, além disso, as drogas como vilãs da demissão. “Ele misturava álcool, picos na veia, maconha e cocaína. Começou a perder os prazos de entrega das matérias e a ser visto como um fardo na redação. A ligação do estar drogado com o estado criativo matou o Marcão. Era um sujeito brilhante, não precisava disso”, lamenta Rabinovitch aos alunos da Unisanta. “Eu tinha autoridade, ele me ouvia. Dei muitas broncas nele, mas não tive poder suficiente para fazê-lo abandonar o vício.”

Rodolfo Konder, que ocupava o cargo de secretário municipal de Cultura na ocasião, estendeu o braço ao amigo, levando-o para dirigir o Departamento do Patrimônio Histórico, subordinado àquela secretaria da Prefeitura de São Paulo. Marcão esteve à frente do departamento de 1993 a 1995. Foi lá que encontrou Nina, funcionária da casa, iniciando com ela a relação redentora que teve no final da vida. Tinha chegado ao fundo do poço com a terceira mulher, uma certa Vânia, viciada em crack, que conheceu no submundo. Os rompantes tenebrosos da moça afastaram a família e muitos amigos do seu convívio. “Laura ficou um ano brigada com o pai”, conta Vitor. Marilza e a filha tiveram de trocar várias vezes o número do telefone para não ser incomodadas. O mesmo precisou fazer Nina, a quem Vânia intimidava com ameaças tanto em casa como no trabalho. Inconformada com a separação de Marcão, Vânia um dia deu um escândalo de tal proporção na frente do edifício público que tiveram de interromper o expediente. 

Adelto Gonçalves recorda que esteve com Marcão em 1997, na redação da revista Educação, e ficou triste ao vê-lo “um pouco gordo, com artrose e cego de um olho”. Deprimido, sofria com a morte da mãe e da irmã e com as dívidas pendentes da casa do Sumaré. Vitor conta que Edmilson Cardial, dono da Editora Segmento, foi quem quitou os débitos. “Edmilson era nosso companheiro no Estadão e apoiou muito o Marcão naquela fase difícil”, confirma Adelto. No encontro em 1997, Marcão mostrou-se arrasado com outra loucura de Vânia. “Ela havia jogado água em seus livros”, conta Adelto. “A biblioteca era o que ele mais queria. Portanto, aquilo havia sido uma ofensa muito grande, a mulher havia atacado exatamente em seu ponto mais vulnerável.”

Eu não cheguei a ver Marcão nesse estado. Sabia dele pelos amigos e sentia um grande desânimo. Não nos falávamos desde 1993, quando ele me anunciou seu desejo de se atirar de uma ponte sobre a Avenida Sumaré e perdi a paciência. Discutimos. Ele ficou furioso. Vi-o pela última vez um ano e meio depois, na Bienal do Livro de 1994, no pavilhão no Parque do Ibirapuera onde estava acontecendo a entrega do Prêmio Jabuti. Reconheci de longe sua figura alta e desengonçada. Estava mais gordo, parecia cansado. Os cabelos tinham ficado completamente brancos. Senti vontade de abraçá-lo. Saí do meu lugar e fui abrindo caminho na multidão, mas havia gente demais e demorei um pouco. Quando cheguei à frente do auditório, ele já tinha sumido no meio do povo.

Só depois da morte de Marcão pude saber que – ao menos quanto ao desejo dele de ser respeitado na academia –, suas mágoas não procediam. Em 1996, a paraibana Sandra Regina Moura defendeu dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, UFBA, sobre a narrativa de Marcos Faerman, abordando a relação entre jornalismo e literatura em duas grandes reportagens publicadas no JT nos anos 1970: “O caso Bensadon” e “Ah, esse Rio de Janeiro nos tempos de D. Pedro”.

“Entrevistei longamente o Faerman para o meu trabalho”, conta Sandra. “Conversamos durante uma semana inteira, em São Paulo, no final de 1994.” Os encontros foram no Departamento do Patrimônio Histórico. Sandra recorda que Julio, o filho adolescente, estava presente e que Marcão usava uma grande lupa para localizar textos nos dois volumes encadernados que trouxera de casa, com cópias de suas reportagens preferidas no JT. “Foi ele quem sugeriu as matérias para análise. Depois da defesa, mandei um exemplar da dissertação para ele. Aí vieram os desencontros, ele saiu da direção do Patrimônio Histórico e perdi o contato. Mas o Igor Fuser me disse que ele leu e gostou do trabalho.”


Mais tarde, em setembro de 2002, quem fez parte da banca de doutorado de Sandra Regina Moura na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), onde defendeu tese sobre o trabalho de Caco Barcellos, foi a professora Terezinha Tagé, do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ela também uma admiradora de Marcos Faerman. Terezinha brinca que Marcão foi o real “orientador” dela no doutorado, pois lhe forneceu um rico e farto material sobre seu objeto de estudo, a obra jornalística do teatrólogo Jorge Andrade. “A prática de Marcos era fruto das leituras que ele incorporou”, acredita Terezinha Tagé. “Antes do Novo Jornalismo, a idéia corrente era a de que quem tivesse talento faria literatura, quem não tivesse faria jornalismo.” Terezinha ressalta a importância da presença de Marcão na banca que aprovou a tese de doutorado de seu colega Edvaldo Pereira Lima, “Páginas Ampliadas: o livro- reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”, em 1990, na USP. “Marcos ficou feliz por Edvaldo ter trazido para a universidade a História da Reportagem, algo que ele queria fazer”, ela conta.

O professor Edvaldo Pereira Lima explica que foi possível indicar Marcão como examinador – um autodidata sem diploma universitário – porque, quando se trata de doutorado, permite-se que um dos cinco membros da banca seja pessoa de “notório saber”, desde que aprovada pelo orientador. Edvaldo sabia que seu orientador, Francisco Gaudêncio Torquato do Rego, gostava do trabalho de Marcos Faerman. Edvaldo também era velho admirador dos textos de Marcão. Conheceu-o primeiro como leitor quando, em 1971, com 20 anos de idade, fazia bicos no jornalismo para custear a faculdade de turismo. “Lia muito o Jornal da Tarde, era meu favorito. E acompanhava também a produção da imprensa nanica.”

Em 1976, na função de assessor de imprensa de uma universidade, Edvaldo organizou o 1º. Campeonato de Pipa de São Paulo no autódromo de Interlagos. E o JT destacou Marcão para fazer a matéria. Então pôde observar, em campo, como o repórter trabalhava. “Marcos era um homem grande. Eu o vi sentado no gramado, curvado, consolando com delicadeza uma criança que chorava. O menino havia perdido a pipa por deslealdade de um concorrente, que cortara seu barbante com cerol. Da conversa de Marcão com esse garoto surgiu a matéria de capa do Jornal da Tarde no dia seguinte”, lembra.

Para Edvaldo, ter Marcos Faerman em sua banca de doutorado foi uma forma de homenagear aqueles que mantiveram vivo o espírito do Jornalismo Literário, na prática, dentro nas redações. “Uma homenagem da academia não só a ele, mas a toda uma estirpe de grandes repórteres”, diz. Também em 2002, o jornalista Luís Carlos Eblak de Araújo, que havia escolhido Versus como objeto de pesquisa, defendeu a dissertação de mestrado em História Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação da professora Maria Aparecida Aquino, com o título “O Versus e a imprensa alternativa: em busca da identidade latino-americana (1975-1979)”.  

O clima era de turbulência na Faculdade Cásper Líbero em meados de 1996. Alunos sem aula há semanas discutiam nos corredores, enfrentavam diretores no grito, faziam manifestações na Paulista. A turma rebelde custou a reparar na figura exótica que esperava para iniciar a aula. O novo professor era um velho de cabelos brancos e encaracolados, a barba por fazer, óculos tortos, roupa desleixada, uma pilha de papéis na mão e uma bolsa a tiracolo encardida e pesada, da qual – souberam depois – nunca se separava. Estava cheia de livros. Ele a jogou na mesa e, do alto de seus 1,90 metros de estatura, anunciou: “Com essa gritaria vocês pensam que vão fazer a revolução? Eu sou a revolução!” E, diante do espanto da classe, completou: “Minha aula só assiste quem quiser. Quem não estiver a fim, foda-se, pode sair que eu dou presença e passo de ano. Aqui só ficam os futuros jornalistas!”.

Como outras histórias na vida do Marcão, é provável que sua estréia como professor tenha outras versões – que, de tanto ser repetidas, adquirem vida própria e status de definitivas. Como sua distração ontológica, por exemplo (entortou os óculos de Rivaldo Chinem num abraço), ou o caso do livro que teria devolvido ao dono com uma fatia de mortadela marcando as páginas. (Alguns dizem que a vítima foi Rabinovitch e que o embutido não era mortadela e sim salaminho. Já Veríssimo acha que Marco Aurélio Garcia, colega de Zero Hora, é quem teria inventado a história, ao ver o Marcão atrapalhado tendo de abrir uma porta e sem saber o que fazer com um livro e um sanduíche).

Mas neste caso posso jurar que nenhuma versão passa longe da que é contada por alunos e professores da Cásper em artigos de jornais, revistas, sites na internet e na comunidade criada por fãs do “Mestre Faerman” no Orkut. Posso jurar porque esse é o Marcão que eu conheci. Posso reconhecê-lo na reunião de pauta narrada por Juliana Monachesi Ribeiro, saltando de uma idéia a outra com rapidez difícil de acompanhar, emendando o assunto ao de um livro de Camus, um conto do Borges, uma matéria da Realidade, um evento da história da Birmânia ou à Teoria do Caos. “Queria que seus repórteres enxergassem mais longe e fossem mais ousados do que a faculdade e a vida exigiam”, diz a aluna.

Ou no fechamento do  Esquinas de SP, jornal-laboratório que ele revolucionou, tanto editorialmente, publicando poesias, quadrinhos e matérias apuradas em profundidade, como ignorando prazos da gráfica até a edição atingir a perfeição buscada. Gustavo Vieira fala da caótica redação chefiada pelo mestre. “Originais manchados de gordura entre pizzas noturnas, fotos espalhadas pelas mesas das salas de aula, momentos mágicos. Criação era sua disciplina como professor voluntariamente indisciplinado. Paixão era seu saber, de que precisávamos para fugir do trágico destino de assessorias de imprensa.” Juliana Monachesi traz de volta uma noite em que editaram o Esquinas até tarde. “Já era madrugada e queríamos terminar tudo. Pois, quase de manhã, o Faerman não resolveu deitar no chão e dormir em vez de ir para casa? ‘Não vou abandonar minha equipe! Vou fazer como certos repórteres de antigamente que dormiam na redação, sentindo o trepidar das prensas’”, conta ela.

O Marcão atrapalhado, desligado, hiperativo. Comprando pilhas de jornais e revistas. Ensinando Fabio Diaz Camarneiro (como, vinte anos antes, havia ensinado a mim) a não usar gravador em entrevistas. “Escreva o que a pessoa disser... Se precisar, peça para ela repetir certos trechos... Não tenha vergonha de pedir para ela soletrar nomes ou títulos de obras...”

Sou capaz de vê-lo atravessar a Paulista entre os carros, sacudindo os ombros: “Eles que parem!!!”. E escapando de ser atropelado por um ônibus, não fosse o puxão com que o aluno João Cassino o reconduziu à calçada. “O buzu passou arregaçando, e o Marcão disse: ‘O filho da puta não parou!’”. E posso enxergá-lo nos corredores com seus passos pesados, “elegantes como os de um guerreiro”, como diz o diretor de jornalismo da Cásper na época, Marco Antonio Araújo, seguido pelos devotos, esparramando papeizinhos pelo chão. “A voz forte tonitruava citações eruditas, lembranças incríveis, histórias inventadas, projetos insanos, ternuras despejadas”, recorda ele. “Tinha defeitos maravilhosos, como não preencher diários de classe, dar notas ou organizar agendas. O cabelo despenteado, o sorriso e o abraço largos e grandalhões. Ele dava beijos em ponta de faca. E murros em máquina de escrever. Viveu como poucos suportariam – e morreu, o que parecia impossível.”

Às vezes ainda acho difícil conceber o mundo sem o Marcão. Mas é reconfortante saber que, no fim da vida, ele renasceu das cinzas e reencontrou seu brilho fazendo algo que tanto sabia: ensinar. “O contato com os estudantes rejuvenesceu seus ideais de lutar por uma causa justa, de deixar sua marca em uma nova geração, de editar um jornal-laboratório inovador. ‘Quero fazer um puta jornal, essa garotada vai aprender como ser um repórter de verdade!’ Tinha orgulho de enumerar uma dezena de alunos que já estavam trabalhando na profissão”, lembra João Marcos Rainho.

Recuperou o senso de humor. Ao mencionar fatos de sua vida, exagerava na dose e contribuía para perpetuar mitologias que alimentavam certo folclore em torno dele. A operação de catarata mal-sucedida, que resultou na perda de um olho, transformou-o no “bardo caolho”, que os alunos julgavam vitimado pela tortura no regime militar. Também teriam sido atingidas “aquelas mãos sofridas” de que fala Luciana Oncken, perguntando-se: “E as mãos castigadas, calos em todos os dedos... Seriam de tanto bater a máquina? Seriam marcas de tortura?”. Gustavo Vieira responde no Orkut: “Os dedos tortos traziam sua história. ‘Este foi quebrado pelos militares, nos porões da tortura, quando eu militava no POC – Partido Operário Comunista. POC era o som dos martelos dos proletários nas fábricas’, contava entre gargalhadas”. Vitor Vieira garante que, embora Marcão tenha sido detido durante dois meses, entre 1971-72, em razão dos vínculos com o POC, não deixou a prisão com ferimentos nem sequelas. 

Divertia-se com suas próprias histórias. Periodicamente, conta Fabio Diaz Camarneiro, brindava os alunos com uma pergunta feita em tom dionisíaco: “Alguém sabe o que é encher a cara de uísque e deitar nu no chão da cozinha, lendo Ernest Hemingway?”. Segundo Fabio, o final comportava variações: “lendo Jorge Mautner”, “lendo Rimbaud em voz alta” etc. Cobrava leitura dos alunos. Ensinava-os a criticar a tendência das notas curtas, publicadas sob a desculpa de que o leitor não tem tempo para ler. “O que o Faerman não atinava era com a idéia de que alguém não tivesse tempo para ler. Para ele, era como dizer que fulano não tem tempo para respirar, ou que outro não come há seis meses porque não deu tempo”, diz Fabio Camarneiro. 

E foram esses estudantes que formaram a maior parte do cortejo que, na manhã de 13 de fevereiro de 1999, foi velar o Mestre Faerman na sede do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Era carnaval, havia muita gente viajando. O jornalista Audálio Dantas e o poeta Cláudio Willer fizeram discursos emocionados. A certa altura, alguém lembrou de colocar sobre o corpo uma camisa do Grêmio. Na noite anterior, a notícia havia atropelado Vitor Vieira na chegada ao litoral gaúcho, com as filhas e a neta, onde iam passar os feriados. Voltou a Porto Alegre para buscar Mauro – agora o único irmão sobrevivente. Não havia mais vôos disponíveis. Os dois viajaram para São Paulo de carro, na contramão do trânsito, durante 18 horas seguidas. Chegaram quando o caixão já estava baixando no crematório de Vila Alpina, para dar-lhe o último adeus.

Marcão havia pedido para ser cremado. Os judeus não enterram mortos aos sábados nem permitem a cremação. Mas o amigo e rabino Henri Sobel compareceu ao velório no Sindicato dos Jornalistas. “Estou aqui não porque morreu um judeu, mas porque morreu um homem”, disse no discurso fúnebre. Também conforme o desejo de Marcão, as cinzas foram divididas ao meio e jogadas nos dois rios de sua vida: o Tietê, em São Paulo, e o Guaíba, em Porto Alegre. “Enterrem meu coração na curva do rio”, ele costumava dizer, brincando. Nina se emociona quando lembra a cena. “Eram as cinzas de um vulcão...”

quinta-feira, junho 05, 2014

Paulo Cesar de Araújo: uma outra boa história sobre Roberto Carlos


O historiador que escreveu a biografia não autorizada do Rei lança uma obra com os bastidores do processo que proibiu sua venda

Camila Guimarães

Aos 15 anos, o baiano Paulo Cesar de Araújo deixou sua cidade natal, Vitória da Consquista. Decidira tentar a vida em São Paulo, com um irmão e sua mãe, Alzenira. De origem simples, dona Alzenira queria que seus filhos fossem algo mais do que ela. Desejava dar aos filhos melhores oportunidades de estudo e a chance de entrar numa boa faculdade. Era 23 de fevereiro de 1978, e o jovem Araújo carregava na bagagem discos, recortes de jornais e revistas com notícias sobre Roberto Carlos, seu ídolo desde criança.

Ele ainda não sabia que naquela mala estava o embrião do livro que escreveria quase 30 anos mais tarde, a biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes, lançada em 2006 pela editora Planeta.  Muito menos que seria processado por seu ídolo, que o acusou de má-fé e conseguiu que a Justiça, em 2007, banisse o livro das prateleiras. Alegou invasão de privacidade. Uma atitude medieval que flertou perigosamente com a censura e colocou em risco a liberdade de expressão garantida pela Constituição brasileira.

O equívoco de Roberto Carlos criou uma outra boa história para Araújo nos contar. Em O réu e o Rei – Minha história com Roberto Carlos em detalhes (Companhia das Letras), Araújo – formado em história e jornalismo – conta, em 520 páginas, a primeira vez que ouviu uma música do rei; como ela esteve presente, de forma marcante, em sua infância e sua juventude; e como, mais tarde, norteou seu trabalho de pesquisador da MPB. A narrativa mostra de que forma o mito Roberto Carlos foi criado e sustentado por milhões de fãs Brasil afora, como Araújo, de origem simples, até culminar no momento em que o grande ídolo se voltou contra o fã. “Quando Roberto proibiu o livro, ele me deu um tema que não existia. Eu precisava contar essa história”, afirma Araújo.

O destaque da obra é o capítulo em que Araújo descreve a audiência em que esteve cara a cara com o Rei, em São Paulo, em abril de 2007. Ali, Roberto Carlos afirmou: “Minha história é patrimônio meu”; “Livro é um documento, é algo que fica para sempre”; e “Ninguém pode escrever minha biografia sem minha orientação, porque ninguém melhor do que eu para contar a minha própria história”.

Ao final, depois que os advogados da Planeta aceitaram o acordo que proibia a venda do livro sem consultar Araújo, o juiz Térsio Pires tirou de uma bolsa um CD de sua autoria e o entregou a Roberto Carlos. Disse: “Também sou cantor e compositor, com o nome artístico de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse esse disco e desse sua opinião sincera.” Horas antes, durante a audiência, o juiz ameaçara fechar a editora Planeta.

Naquela mesma noite, dentro do ônibus de volta a Niterói, onde vive, Araújo passou por suas piores horas. “Só conseguia pensar que 15 anos de pesquisa, as mais de 250 entrevistas, meu livro, tudo tinha acabado. Me senti muito sozinho.”

Não poderia estar mais enganado. Logo outros escritores, como Paulo Coelho, e artistas, como Lobão, Ney Matogrosso e Rita Lee, deram opiniões públicas a favor da circulação da obra. Outros tantos defenderam Roberto, e a proibição do livro tornou-se o exemplo mais radical da discussão sobre a publicação de biografias não autorizadas no Brasil.

Os advogados de Roberto Carlos usaram como base os Artigos 20 e 21 do Código Civil. Eles exigem autorização prévia do biografado para a publicação de obras com fins comerciais a seu respeito e consideram a vida privada “inviolável”. Mas a Constituição Federal afirma: “A expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação é livre e independe de censura ou licença”.

Para fazer valer a Constituição, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) move uma ação direta no Supremo Tribunal Federal para anular os Artigos 20 e 21. O Procure Saber, movimento cuja lista de fundadores inclui o próprio Roberto Carlos (que depois abandonou o grupo), Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, quer que os artistas e seus herdeiros permaneçam com o direito de impedir a publicação de biografias. Lutam ainda para que biografados ou suas famílias recebam parte do lucro obtido com a venda das obras.

A previsão é que o STF julgue a matéria ainda neste semestre. Em outro campo de batalha, a Câmara dos Deputados, um projeto de lei que libera a venda de biografias não autorizadas foi recentemente aprovado. O texto precisa agora passar pelo Senado e, em seguida, receber a sanção da Presidência da República.

Araújo diz não ter ressentimentos de seu ídolo. “Herdei isso da minha mãe. Não guardo rancor. Sei das limitações do Roberto, que não tem familiaridade com os livros. Tudo o que posso fazer é lamentar.” E escrever mais. O réu e o Rei, diz ele, “é um ato de resistência”.

Não toquem em Machado de Assis


É uma hipocrisia apoiar adaptações de textos literários para facilitar a leitura. Porque ler nunca é fácil

Luiz Antônio Giron

Chego tarde à discussão sobre a legitimidade de adaptações de obras literárias do passado para facilitar a leitura das novas gerações.

Mas não tenho como desviar de um assunto que só se torna relevante porque o Brasil continua a ser o país dos vira-latas (ou do neo-viralatismo), dos espertalhões e do triunfo da ignorância.

As adaptações de livros clássicos não passam de uma camada do aterro sanitário que entulha a cultura do país desde que os portugueses rezaram a Primeira Missa em Porto Seguro e constataram que a população local se mostrava dócil à evangelização.

Dá asco pensar no tema, mas vou tapar o nariz e tentar manter a lucidez.

As políticas do livro e da educação nacionais são infames e parece que não irão melhorar nunca.

Dessa forma, o futuro de nossa cultura já está traçado: caímos na tentação da visão antropológica que rebaixa o indivíduo a sua condição primitiva e não permite que ele saia do estágio folclórico e étnico a que está condenado desde o início dos tempos.

Bons selvagens,os brasileiros são obrigado a  celebrar as “manifestações culturais” mais primárias como se a população estivesse condenada sumariamente à fogueira de São João e ao trio elétrico.

Ora, esse ambiente sulfúrico torna coerente e até elogiável a facilitação da leitura - prefiro chamá-la de vulgarização.

Afinal, para que submeter os jovens leitores ao sacrifício de ler Homero, Cervantes, Graciliano Ramos e Machado de Assis quando tudo pode ser resolvido numa narrativa direta e concisa no estilo?

A vulgarização poupa trabalho do aluno e rende uma boa grana às editoras e aos autores das adaptações de obras de domínio público – que, do contrário, sairiam de graça para o leitor.

A ideia de que rebaixar o ato de ler é um gesto culturalmente correto constitui um dos dois argumentos em confronto hoje na discussão das adaptações.

O outro preconiza que os textos clássicos não podem ser alterados, pela própria sacralidade artística que eles contêm.

Obviamente, defendo o segundo argumento – embora não acredite na arte como religião.

Se valer um testemunho, perdi muito tempo na minha infância e adolescência lendo Homero, Cervantes, Jack London e outros autores clássicos em adaptações de medalhões brasileiros como Clarice Lispector e Carlos Heitor Cony.

Isso porque eu deveria ter lido os textos originais, ou pelo menos as traduções diretas.

Acabei lendo bons textos de segunda mão de Cony e Clarice que não substituíram os originais.

Antes, desviaram minha atenção.

É claro que não havia naquele tempo (como não há agora) edições didáticas desses textos.

A produzir introduções, ensaios e notas sobre obras canônicas em edições críticas, as editoras brasileiras sempre preferiram a lei do menor esforço.

Em vez de preparar e orientar o jovem leitor, as editoras lhe entregam edições embonecadas e facinhas.

O resultado é o que vemos: cada vez mais jovens lendo baboseiras para jovens leitores – a chamada literatura para jovens adultos, uma literatura-salgadinho.

O resultado é que os jovens adultos (e crianças) ignoram com crescente soberba os autores importantes.

Afinal, para que enfrentar a dieta pesada de Guimarães Rosa se é possível devorá-lo em versão nacho com queijo?

Os jovens nutridos nessa formação rala e prejudicial ignoram também que ler é difícil.

Trata-se de uma atividade que precisa ser elaborada ao longo dos anos. 

Envolve aprendizado, treinamento e, no caso do texto literário, vivência, intimidade com a natureza humana.

Se a maior arte dos professores do ensino fundamental e médio do Brasil gostasse mesmo de ler, os estudantes entenderiam que o esforço vale a pena.

Mais, que ler é mais compensador que jogar videogame ou assistir a uma série de televisão.

Tudo isso me faz pensar em postar as hashtags #NãoToqueemMachado, #NãoToqueemHomero e #NãotoqueemCervantes e assim por diante.

Só de pensar que alguém possa alterar os textos canônicos me dá calafrios.

Que dizer quando um professor apresenta um projeto desses ao governo federal e ganha milhões para executar Machado de Assis em praça pública em nome do consumo fácil das tribos autóctones analfabetas funcionais?

É o último círculo do inferno.

Não toquem na sutileza de Machado de Assis, na concisão de Graciliano Ramos e na complexidade de Guimarães Rosa.

Tirem suas mãos porcas da pouca literatura que nos resta!
      

Conheça 10 sites para aprender mais de 200 idiomas estrangeiros gratuitamente


Com o processo de internacionalização cada vez mais intenso dos países, aprender um idioma estrangeiro é requisito indispensável. 

Tanto por questões pessoais quanto profissionais, ter domínio ou até conhecimento básico de outras línguas estreita laços de amizade e também é capaz de favorecer o crescimento na profissão. 

E com o surgimento e a evolução das ferramentas tecnológicas o que não faltam são opções que ajudam no processo de aprimoramento das habilidades dos estudantes que se aventuram em conhecer outros idiomas.

Sendo assim, confira a lista de 10 plataformas gratuitas, tanto brasileiras quanto internacionais, que abrigam diferentes cursos de idiomas que vão do inglês - passando pelo mandarim, espanhol, polonês - até o russo. São mais de 200 idiomas para suprir os interesses mais diversos possíveis.


O site é ideal para quem quer aprender inglês com americanos nativos. As aulas acontecem através do Hangout, videoconferência do Google, que ajuda a praticar a fala e compreensão auditiva. Para quem não tiver um microfone, for tímido ou quiser apenas ouvir, é possível ainda assistir a transmissão ao vivo das aulas ou acompanhá-las depois pelo YouTube. Para acessar a plataforma é preciso ter cadastro no Facebook e as aulas acontecem por meio de convites dos administradores.


No site, as pessoas podem criar o próprio perfil ou fazer o login via Facebook. É possível aprender até 12 idiomas como alemão, francês, espanhol. São 18 milhões de pessoas cadastradas na plataforma. Há recursos como vocabulários, diálogos, gravador de voz, podcasts e revisão. O acesso à conta básica é gratuito e o novo usuário tem à disposição sete dias para usar os serviços premium, depois disso, o premium passa a ser pago.


É considerado um dos maiores guias de pronúncias do mundo. A plataforma é perfeita para quem tem curiosidade de saber como se pronuncia uma determinada palavra. Além disso, pode ajudar outros usuários gravando pronúncias de seu próprio idioma. Há diferentes línguas como russo, tártaro (língua falada por mais de 5 milhões de pessoas na República do Tartaristão, na Rússia). Há 300 mil pessoas cadastradas e na plataforma é possível ainda saber quantos usuários estão on-line.


Nesta plataforma, as pessoas podem tanto aprender quanto ensinar um outro idioma pra alguém, sem pagar nada. Os usuários vão ganhando créditos tanto corrigindo atividades ou dando dicas, que podem ser convertidos para acessos a áreas premium do site, que são normalmente pagas. Há mais de 6 milhões de membros em todo o mundo e é considerada a maior comunidade on-line de aprendizado de outros idiomas.


A plataforma é voltada a pessoas que já têm algum conhecimento em um determinado idioma e querem ampliar o vocabulário. São 220 línguas disponíveis. É também considerada ideal para os professores que querem desenvolver, a longo prazo, a aprendizagem de seus alunos, pois o site oferece recursos em que os alunos podem aprender o idioma, por exemplo, a partir da cultura geral com imagens ou músicas de um país específico. O estudante também pode acompanhar o rendimento dos cursos que realiza.


Neste site brasileiro, os usuários podem aprender até quatro línguas diferentes: português, inglês, espanhol e francês. Na plataforma, é possível estudar a partir de textos que trabalham situações do cotidiano como o café da manhã, a hora almoço, uma hospedagem no hotel, entre outras. Além disso, os estudantes podem aprender como pronunciar as palavras, realizar testes e acompanhar o rendimento de suas aulas.

Your Language Exchange (http://www.mylanguageexchange.com/)

Este site permite que estudantes se conectem diretamente com outros usuários nativos para aprender um novo idioma. O diferencial desta plataforma é que reúne outros recursos como dicionários, planos de aulas e recursos em áudio. Há também jogo de palavras em cada língua, para que os estudantes aprendam expressões formando palavras. São cerca de 1 milhão de membros cadastrados em 133 países, falantes de 115 línguas distintas.


Esta plataforma também conecta estudantes com usuários de outras partes do mundo. Nele, a interação acontece via Skype e o objetivo é que se tornem tanto alunos quanto professores de sua própria língua. Para acessar a conta, é preciso criar um perfil simples, marcar o idioma de origem e selecionar a língua que quer aprender e ter a sorte de encontrar alguém on-line querendo conversar.


A plataforma oferece uma área exclusiva com inúmeros recursos como vídeos, áudios, textos, vocabulário, pronunciação, gramática e testes. É possível aprender até 40 línguas como os tradicionais inglês e espanhol até mesmo suíço e polonês.


Esta também é outra opção que conecta estudantes de uma língua com seus nativos. Os usuários precisam criar uma conta, selecionar seu idioma e escolher o país em que pretende encontrar um nativo para aprender uma nova língua. Eles têm acesso a chats, vídeos e exercícios.

Minhas lembranças de Leminski


Jotabê Medeiros

Utilizando-se às vezes de artifícios da obra mais experimental do poeta Paulo Leminski, Catatau (1975), e estabelecendo um paralelo entre a própria história de vida e a de Leminski (além de recorrer a uma espécie de recurso “mediúnico”), o escritor Domingos Pellegrini gestou um livro que, embora não deixe de ser uma biografia, vai além do gênero. É como se fosse uma transbiografia.

Minhas Lembranças de Leminski chega às livrarias 25 anos após a morte de Leminski, num momento em que a obra do artista atinge impressionante celebridade – 200 mil visitantes viram a mostra Múltiplo Leminski, em Curitiba; a exposição Ocupações Paulo Leminski do Itaú Cultural (2009), com curadoria de Ademir Assunção, foi um dos destaques culturais daquele ano; e o volume Toda Poesia (Companhia das Letras) chegou a bater best-sellers importados, como 50 Tons de Cinza.

Nos anos 1980, havia um grafite famoso no muro da Universidade Federal do Paraná: “Pau no Leminski!”. A inscrição é bastante atual hoje: o livro de Pellegrini chega num cenário em que um cruel paradoxo se desenha: apesar de toda a badalação, para se escrever sobre Leminski, um libertário, os autores encontram um paredão de censura prévia, exercida pela família.

Pellegrini (de Londrina, cidade cujos cidadãos natos costumavam ser chamados de Pés Vermelhos) desfrutou da amizade de Leminski (de Curitiba, de origem polonesa, ou polaco), a partir do início dos anos 1970. Morou com ele em São Paulo, durante investida de Leminski para conquistar o mundo pop, tempo em que tomavam quatro garrafas de vodca dupla e depois o poeta mascava bala de hortelã, “por via das dúvidas”.

Além do senso de humor, a iconoclastia militante, a profunda erudição sem vaidade e as aparentes contradições bem resolvidas, o próprio processo de produção poético de Leminski é analisado pelo amigo, que confessa não partilhar de certos gostos do autor – como, por exemplo, a admiração pelo concretismo.

Pellegrini divide Leminski em dois: um pop, com uma estratégia de divulgação pessoal calcada na poesia acessível e numa mitologia pessoal, e o intelectual, contido especialmente em sua obra em prosa, como os Ensaios Crípticos e o Catatau. A saga alcoólica de Leminski, o Polaco, aparece com grande impacto no livro de Pellegrini, o Pé Vermelho.

segunda-feira, junho 02, 2014

E se não tiver Copa?


Mouzar Benedito (*)

A pergunta que faço aos militantes do movimento “Não vai ter Copa”, e aos não militantes também, é essa: se esse movimento tiver sucesso e não acontecer a Copa do Mundo no Brasil, o que acontecerá? Que resultados teremos?

Compartilho com todo esse pessoal a indignação com o destino de muitos bilhões de reais para um evento efêmero, indo boa parte dessa grana parar nas contas bancárias de empreiteiras mutreteiras, políticos safados, mercantilizadores do esporte e instituições imperiais corruptas e mandonas. E acredito que idealizadores desse movimento sejam contra o capitalismo e odeiem a Fifa e a CBF. Compartilho isso também.

Talvez eu precise tomar conhecimento do “e daí? O que faremos em seguida?”, para poder embarcar nessa campanha também. Mas enquanto não souber o conjunto todo da proposta, prefiro outras vias. Não sei se haverá o que modernamente chamam de “empoderamento” do povo, se será criado um clima para derrubada do capitalismo ou, pelo menos, se haverá uma mudança na política brasileira que ponha fim a um Congresso vendilhão, que só funciona à base do toma-lá-dá-cá.

COPAS PASSADAS NÃO MOVEM MOINHOS?


Antes de voltar a discutir a Copa de 2014, gostaria de lembrar de algumas outras copas que “presenciei” à distância.

Minha primeira Copa foi a de 1958. Tinha 11 anos de idade, estudava na primeira série do curso ginasial e ganhava um dinheirinho vendendo frutas e engraxando sapatos, morando numa cidade do Sul de Minas com cerca de dois mil habitantes na área urbana.

Não tínhamos rádio, assim como a maioria da população. Numa cidade em que o dinheiro circulava pouco, era difícil comprar qualquer coisa industrializada que não fosse de primeira necessidade. Então, fomos todos para a frente do cinema – isso mesmo, naquela época, uma cidade minúscula tinha cinema! – ouvir a final Brasil X Suécia pelo alto-falante instalado ali. Uma multidão vibrava na praça. E a conquista do campeonato foi como uma declaração de poder, de tomada de uma autoestima inédita. Acabava-se o mito de que brasileiro era perdedor por natureza.

Na Copa seguinte, de 1962, a conquista foi como uma reafirmação dessa autoestima.

Em 1970, já morando em São Paulo e estudando na USP, com ideias de esquerda – que preservo e até radicalizo –, no auge da ditadura, havia também uma pedra no meio do caminho: se o Brasil vencesse, a ditadura ia faturar em cima, ganhar mais popularidade. Por isso, corria a proposta de torcer contra o Brasil. Mas durou pouco: assistimos e vibramos no pátio do prédio de Geografia e História, todos os jogos do Brasil. E a ditadura realmente faturou em cima. Enquanto se torturava e matava opositores do regime nos porões da ditadura, ouvia-se direto a música “Pra frente, Brasil”. Mas até os presos políticos, em boa parte, torceram pela seleção, que jogou bem e bonito, mereceu vencer.

Em 1982, na Espanha, a seleção jogava bonito como nunca, mas perdeu. Foi uma tristeza imensa, mas até hoje se reconhece o valor daquele time. Acredito que pelo menos o pessoal um pouco mais velho se lembra dela com mais saudade do que das seleções vencedoras de 1994 e 2002. E a perda serviu para os burocratas do futebol se dedicarem a exigir um abandono do chamado futebol-arte, imitando o futebol-força europeu. Uma pena. Quando o Barcelona se tornou o time que vencia jogando bonito, o técnico disse que estava fazendo com o time simplesmente o que aprendeu vendo o Brasil jogar “antigamente”.

VOLTANDO A 2014


Acredito que se, há seis ou sete anos, houvesse um plebiscito para decidir se o Brasil disputaria o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, o sim venceria fácil. Pouca gente era contra.

Mas se fôssemos informados de todas as condições que a Fifa impôs e o governo brasileiro aceitou, de nos submetermos a essa instituição imperialista como colonizados sem vontade própria, obedientes e subservientes, aí sim, acredito que o “Não vai ter Copa” seria quase unânime.

O Brasil se submeteu. Numa linguagem vulgar, abriu totalmente as pernas. A Fifa manda e desmanda. Para começar, houve a escolha das cidades que sediariam os jogos. A Fifa impôs o que quis. Por que escolher, por exemplo, Natal, que não tinha um estádio à altura, nem tanta torcida, além de ser relativamente perto de duas sedes – Fortaleza e Recife – e deixar de fora Belém, que já tinha um estádio pronto, “padrão Fifa”, na linguagem atual, e além disso tem uma torcida enorme que freqüenta esse estádio para ver jogos do Payssandu e do Remo?

Como torcedor do Internacional, que tem o Saci como mascote, pergunto: por que deixar de lado um estádio pronto, também “padrão Fifa”, recém-construído pelo Grêmio e ter que fazer um estádio novo, do Inter?

Como simpatizante do Corinthians, perguntou: por que deixar de lado o estádio do Morumbi, que se fosse na Europa seria festejado pela Fifa, e fazer um estádio do zero em Itaquera, com o custo de quase um bilhão de reais, fora as obras do entorno?

E o caso do Maracanã? O estádio passou por uma grande reforma para os Jogos Panamericanos, estava quase “zero quilômetro” e a Fifa exigiu que fosse posto abaixo para ser refeito, a um custo de mais de um bilhão e muitos problemas.

A grana tinha que rolar alto, não é? Quanto mais gastos, mais lucros para a Fifa. E para empreiteiras também: é comum aqui ganhar uma concorrência para fazer uma coisa por uma valor e a obra acabar custando muitas vezes mais. Além disso, fazendo de propósito que a obra atrase, encosta-se o poder público na parede: “Se não puser muito mais grana, não vai ficar pronto a tempo”. Claro que os atuais assentados no poder não fizeram nada para mudar isso. E claro também que a “culpa” tem muito a ver com o tão glorificado empresariado, tratado como honesto e não sei que mais pela mídia e por uns babacas que fingem acreditar que existem corruptos sem existirem corruptores.

E a questão “do” mascote (sei que mascote é palavra feminina, mas ninguém fala “a” mascote)?

PERNETA, E DAÍ?


Mesmo sabendo que a Fifa (e a CBF também) encara o esporte como um negócio, simplesmente, propusemos o Saci como mascote da Copa. Já expus várias vezes o motivo. Em síntese, o Saci era um indiozinho guarani, foi transformado em negro e ganhou o gorrinho mágico presente em mitos europeus, então é uma síntese do brasileiro.

Nesses tempos em que se fala tanto em meio ambiente, o Saci tem a vantagem de ser um protetor da floresta.

Nesses tempos em que se fala tanto em combate ao racismo, o Saci tem a vantagem de ser negro. Aliás, maior parte dos jogadores brasileiros, do Pelé aos pernas de pau, é negra.

Nesses tempos em que se fala tanto em aceitar as diferenças, o Saci tem a vantagem de ser perneta. Mas apontam isso como um problema: como chutar bola tendo uma perna só? Brinco: ele tem o apoio do redemoinho.

E mais: mesmo sendo pobre, negro (dois motivos para ser estigmatizado nesta terra que muito teoricamente não tem preconceitos), o Saci é brincalhão e alegre. Quer algo mais brasileiro do que isso?

Escolher o Saci como mascote da Copa seria um recado para o brasileiro olhar para si mesmo, e com certeza não só ele, mas toda a mitologia brasileira seria valorizada, estudada aqui e divulgada fora daqui.

Mas o Saci tem uma qualidade a mais, que para a Fifa e a CBF é um defeito: ele é um personagem pronto. Não seria preciso pagar milhões para uma agência de publicidade… mas também não seria possível cobrar royalties por ele. Qualquer pessoa ou grupo criaria a sua imagem do Saci em camisetas, por exemplo.

Milhares e milhares de pessoas mandaram mensagem para a CBF propondo o Saci como mascote, mas os burocratas comerciantes do futebol não deram nenhuma resposta. Chegamos a pedir que nos explicassem que critérios usariam para escolher o mascote, mas nem deram bola. Nunca falaram sobre isso. É próprio dela e da Fifa. São instituições que se julgam no direito de não precisar dar respostas a ninguém.

Enfim, escolheram o que queriam, mas só depois de patentear os possíveis nomes que o coitado do tatu-bola teria. Muitos bobalhões votaram pela internet, como se estivessem decidindo alguma coisa, para ele ter o fuleiro nome de Fuleco.

Se o Saci não podia ser escolhido por ter uma só perna, o coitado do tatu-bola entra numa situação pior: bola é para ser chutada, não para chutar. E tem esse nome infeliz. Fuleco!

O certo é que acredito que se o Saci fosse mascote, milhões e milhões de brasileiros (além de estrangeiros também) estariam usando camisetas com algum desenho dele com a bola no pé, na cabeça ou no redemoinho. Alguém viu por aí uma camiseta com o Fuleco?

Ah, falam que a escolha do tatu-bola, um animal em extinção, ajudaria as instituições que o pesquisam e tentam fazer que sobreviva, receberiam muito apoio. Uma boa causa, enfim. Mas aconteceu? Vi recentemente nos jornais que a instituição que propôs a escolha do tatu-bola não recebeu um centavo.

SEM COPA?


Volto agora à possibilidade de não ter Copa.

Nem ponho em questão coisas do tipo “como ficará a imagem do Brasil no exterior”. Será que o capital, as empreiteiras, a Fifa e os corruptos em geral seriam atingidos de alguma forma? Será que alguém acredita que o dinheiro gasto (desperdiçado, na maioria) voltará automaticamente e será usado para construção de casas populares e melhoria dos sistemas de educação e de saúde? Será que os corruptos e corruptores serão identificados e punidos? Será que caminharemos para um sistema econômico mais democrático?

Acredito que o movimento “Não vai ter Copa”, seja mais para “Vai ter Copa, mas com protestos”. Impedir totalmente a sua realização, agora que já houve a gastança toda, me parece que significa perder mais ainda.

Então, pelo menos provisoriamente, minha ideia é que a Copa não só aconteça como seja muito legal, e que a seleção brasileira jogue bem e bonito, e ganhe sempre.

Isso não implica em apoio à Fifa, à CBF, aos que se locupletam superfaturando obras, aos oportunistas nem nada. Que o movimento continue e cobre tudo isso.

Se houver um movimento pós-Copa para que se realize o que ele propõe hoje e vá até muito além, estou dentro, sem perdoar quem quer que seja. Que o Brasil tenha e seja tudo o que querem os ativistas do “Não vai ter Copa”.

Mas não contem comigo para “protestar” depredando pequenos comércios, como bancas de jornais (isso é contra o capitalismo?) e provocações inúteis. Vamos direto ao ponto, contra os que mantêm o sistema econômico e político atual, as injustiças em geral. Contra eles, “tamos aí”.

E não contem comigo, também, para participar de movimentos com nome em inglês. Black, red, seja que cor for, é coisa deles e imitar gringo me parece que é voltar à estaca zero, ao tempo em que ser brasileiro era ser sinônimo de perdedor por natureza. Não que os movimentos gringos sejam em princípio ruins, mas são deles, e pronto. Nos tempos da ditadura e da Guerra Fria, o então ministro Juracy Magalhães disse uma frase que ficou célebre como postura submissa: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Isso me causa ojeriza até hoje.

SONHANDO UM POUCO


O “Não vai ter Copa” poderia ir um pouco além e conquistar algumas coisas relativas ao próprio esporte.

Um exemplo: é difícil torcer pelo Brasil sem termos jogadores atuando aqui. Foi-se o tempo em que nos identificávamos com os atletas do Santos (Pelé, hoje estaria nesse time?), do Corinthians (viva Sócrates!), do Botafogo (nossa: nele jogaram ao mesmo tempo, Nilton Santos, Garrincha e Didi, depois teve o Gerson), do Flamengo (com Zico e muitos outros), do Cruzeiro (que timaço, com Tostão, Dirceu Lopes e Joãozinho!), do Internacional (time de Falcão)… Agora, para gostar de um jogador é preciso assistir a jogos do Barcelona, do Real Madrid, do Manchester, do Milan e até times da Ucrânia. Não tem graça.

A mercantilização do esporte manda todos os que se destacam para a Europa, então o futebol daqui fica cada vez mais pobre, embora também mercantilizado. E isso não acontece só com o Brasil. Basta dar uma olhada nas escalações de várias seleções para ver que poucos atuam em seus países. Não seria o caso de chamar só jogadores que atuam dentro do país?

Certo, o jogador tem o direito de ir pra Europa ganhar dinheiro, mas teria como opção ganhar aquela grana toda ou ter a possibilidade de jogar na seleção. Podem dizer que nossa seleção ficaria muito mais fraca. E daí? Perder por perder, melhor perder decentemente. Duvido que se na Copa da África do Sul teríamos uma campanha pior do que a seleção do Dunga.

E tem essa coisa de ganhar uma grana exagerada. Fico pensando: como pode um jogador de futebol ganhar num mês o que um trabalhador comum às vezes não ganha na vida inteira? Em alguns casos, o cara ganha num jogo mais do que um proleta em toda a vida. É justo? Poderão dizer: não, não é, mas a coisa funciona assim. Ora, se queremos mudar tudo, com o povo conquistando o poder e fazendo o que lhe é útil, essas coisas estariam na nossa pauta também, não? Assim como apresentadores de televisão que ganham milhões por mês. Vamos radicalizar: concessões de rádio e TV a grupos capitalistas e políticos, privilégios em geral, reforma (preferiria dizer “revolução”) política, lucros de empresas… Gostaria de ter Copa e mudar tudo isso. Inclusive tomar da Fifa tudo o que ela está nos tirando e, se possível, acabar com ela.

(*) Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

9 coisas que você pode aprender com um garçom


Saiba como servir bem para servir sempre!

Edson Aran

1 – Olhar sem enxergar, mesmo que você esteja diante dele agitando a mão sem parar.

2 – Ouvir sem escutar, mesmo que você esteja ao lado dele falando “ei, psiu, ô garçom, por favor!”

3 – Ouvir absolutamente qualquer coisa, com exceção de “ei, psiu, ô garçom, por favor!”

4 – Desenvolver a inacreditável habilidade de confundir “salada caprese” com “carré de cordeiro” e “sushi de robalo” com “javali com risoto”.

5 – Servir o chope sempre quente para combinar com os bolinhos de arroz sempre gelados.

6 – Beber disfarçadamente até ficar tonto e derrubar chope no cara de terno que acabou de sentar. Na hora do almoço.

7 – Trazer a conta com 10 chopes a mais. Se o freguês reclamar, pedir desculpas, subtrair cinco e acrescentar três couverts.

8 – Confundir Pinot Noir Reserva 1967 com cachaça Mijo de Égua 2010.

9 – Anotar o pedido atentamente e depois reler uma coisa completamente sem sentido. “Pro senhor, castanholas ao molho de salmonela e, para a senhora, presilhas com varões ao poste, certo?”

Volume reúne todos os poemas e letras de música de Waly Salomão


O poeta Waly Salomão, morto em 2003, é homenageado com 'Poesia Total', livro que reúne sua produção poética e as letras de músicas que escreveu para artistas como Maria Bethânia, Gal Costa e Cazuza 

Maria Fernanda Rodrigues

Há muito não se via um livro de poesia nas listas de mais vendidos no Brasil, mas o curitibano Paulo Leminski conseguiu tal feito este ano quando a Companhia das Letras lançou um volume com toda a sua produção poética. Ele chegou, inclusive, a desbancar o best-seller erótico Cinquenta Tons de Cinza.

Quem entra na briga pela atenção do leitor brasileiro agora é Waly Salomão, baiano de Jequié, filho de pai sírio e mãe sertaneja, e poeta que agitou o Rio de Janeiro nos anos 70, 80, 90, morreu precocemente e fez escola influenciando novas gerações de poetas.

Poesia Total, que será lançado nesta segunda-feira no Rio e no dia 31 em São Paulo, traz, além de seus poemas, as músicas que escreveu e que ficaram famosas na voz de artistas – entre elas estão Vapor Barato, gravada por Jards Macalé, Gal Costa e Rappa; Mel, por Maria Bethânia e Caetano Veloso; e Assaltaram a Gramática, interpretada por Lulu Santos e Paralamas do Sucesso.

Waly Salomão não falava, declamava. Era todo gestos, caras, bocas e sorrisos largos. Inventou um personagem e viveu nele até perder a batalha para o câncer em 2003 – nessa época, ele era também secretário nacional do livro enquanto o amigo Gilberto Gil comandava o ministério da Cultura.

O movimento de resgate da obra de Waly Salomão (1943-2003), iniciado agora com o lançamento de Poesia Total, terá desdobramentos durante o ano. Omar Salomão, poeta como o pai, músico e artista visual, está organizando um show em São Paulo com a presença de Gal Costa, Jards Macalé e Lirinha e de cantores da nova geração, como Alice Caymmi e Botika.

No Rio, está prevista para setembro a exposição A Biblioteca de Grifos de Waly Salomão. Omar, curador ao lado de Anna Dantes, conta que a mostra que estará em cartaz na Biblioteca Pública do Estado partirá do acervo de seus pais e das anotações que ele fazia nas beiradas dos livros. Será uma boa oportunidade de rever Waly Salomão ou de apresentar à nova geração o artista hiperativo, “de olhar periférico”, que vivia em constante estado de alerta e representando seu personagem, e que teve a primeira grande motivação para escrever quando foi pego numa blitz com fumo e levado ao Carandiru.

“O fato de eu ver o sol quadrado foi uma concentração até espacial do meu desejo e meu primeiro texto jorrou daqui de dentro”, ouvimos o poeta contar em Pan-Cinema Americano, documentário de Carlos Nader sobre ele.

O texto a que se refere é Apontamentos de Pav Dois, e o também poeta e letrista Antonio Cicero comenta sobre ele num dos vários textos críticos que completam o volume lançado agora com as letras e os livros do autor – Me Segura Q’eu Vou Dar um Troço (1972), Gigolô de Bibelôs (1983), Algaravias: Câmara de Ecos (1996), Lábia (1998), Tarifa de Embarque (2000) e Pescados Vivos (2004). De Poemas de Armarinho de Miudezas (1993) e Hélio Oiticica: Qual é o Parangolé? (1996), livros de gêneros mistos, foram extraídos alguns textos.

Ao Estado, Cicero disse que a poesia do amigo é, ao mesmo tempo, vital e elaborada. Ele explica: “Pela vitalidade dos seus poemas, pode-se pensar que eles surgiram num jorro. De certa maneira, sim: elas surgiam num jorro. Por outro lado, esse jorro inicial era submetido a um trabalho exaustivo, até chegar ao ponto de ser publicado”.

A amizade dos dois e admiração mútua remete aos anos 1970. Cicero já tinha ouvido músicas escritas por Waly Salomão quando o conheceu num jantar na casa de Gal Costa e de sua mãe, “uma distinta senhora”. A casa estava cheia e o poeta estava há muito trancado no banheiro. “Ao aparecer na sala, sem cumprimentar ninguém, anunciou, com sua voz megafônica, que ia nos mostrar, em primeira mão, alguns de seus novos poemas. E começou a recitar. Entretanto, os versos que ele dizia não pareciam em nada com os poemas e as letras dele que eu já tinha ouvido. Falavam de crianças, flores, borboletas borboleteando, etc.”. Ele e Caetano Veloso se entreolharam sem entender nada. “De repente, dona Mariah gritou, com sua voz rouca: ‘Ladrão! Esses poemas são meus!’”, conta Cicero – e isso dá uma ideia de sua personalidade.

Os dois viraram amigos e Cicero, tímido, teve a ajuda de Waly para se soltar. “Com sua irreverência, ele tinha a capacidade de desarmar qualquer situação de convencionalismo repressor ou caretice. Ele expunha a farsa subjacente a tais situações. Isso me fez muito bem.”

O poeta Ramon Mello, de 30 anos, não conheceu Waly, mas, admirador de sua obra, desabafa em determinado ponto de seu Poema Atravessado Pelo Manifesto Sampler: “Alô Waly. Ah, se você ainda estivesse por aqui”. Ele tem todos os livros em primeira edição. “Era um poeta que estava muito a frente de seu tempo e que fazia uma poesia que estava em diálogo com as manifestações culturais e artísticas. Isso é fundamental”, conta.

Da mesma geração de Ramon, Bruna Beber se encantou primeiro pela música Mel, que a mãe ouvia sem parar. “Depois fui pescando uma letra dele aqui e ali quando comecei a ouvir Gal e Jards Macalé. Daí para os livros foi um passo só”, comenta. E completa: “Eu não conheci o Waly, mas é difícil ler seus livros sem sentir sua presença, ao mesmo tempo impávida e doce. Seu nome me remete à palavra ‘vigor’ em todos os seus significados”.

Waly Salomão fazia da vida uma atividade poética


Luciano Trigo

Quem teve a chance de conhecer pessoalmente Waly Salomão sabe que, mais que escrever poesia, ele fazia da própria vida uma atividade poética. Nesse sentido, o título “Poesia total”, dado à reunião de seus livros (Companhia das Letras, 520 pgs. R$ 49) é mais que adequado. Mas serve também para lembrar que o volume que o leitor tem em mãos corresponde apenas a uma fração de um projeto estético e existencial que, para ser plenamente entendido, exige um olhar em perspectiva e uma consciência do contexto em que sua obra foi produzida.

Baiano de Jequié, filho de pai sírio e mãe sertaneja, Waly formou-se em direito, mas nunca exerceu a profissão. Cedo ele descobriu sua vocação de agitador cultural, que fazia da palavra trincheira. Portador de uma "brava alegria" e uma "felicidade guerreira", nele se combinavam o entusiasmo e a força criativa, a erudição e a irreverência, mas também, quando necessário, a revolta e a raiva, que o levaram a comparar o Brasil a um “buraco de cárie”.

“Poesia total” reúne todos os livros de Waly, de “Me segura qu'eu vou dar um troço” (1972) a “Pescados Vivos”, publicado postumamente em 2004 (Waly morreu em 2003, aos 59 anos, meses após assumir a Secretaria do Livro e da Leitura a convite do então ministro Gilberto Gil. Na área pública, foi também diretor da Fundação Gregório de Matos e coordenador do carnaval da Bahia, quando apoiou blocos afro como Ilê Ayê e Olodum).

Capa de Além das obras publicadas de forma avulsa, o volume inclui letras de canções inéditas e um apêndice com uma fortuna crítica do poeta, incluindo textos de Antonio Cícero, Francisco Alvim, Paulo Leminski (também recentemente reeditado pela Companhia das Letras), Armando Freitas Filho, Caetano Veloso, Davi Arrigucci Jr e Heloísa Buarque de Hollanda.

Waly começou a ganhar projeção em 1972, em Salvador, quando publicou no jornal alternativo “Verbo Encantado” textos em que anunciava seu projeto de um "alargamento não-ficcional da escritura". No mesmo ano lançou seu primeiro livro, “Me segura qu'eu vou dar um troço”, que, em parte escrito na prisão, pode ser entendido como um inventário de aventuras underground escrito no fio da navalha da linguagem.

Mas Waly não gostava de ser identificado como um poeta da geração 70, marcada pela resistência à censura e à ditadura, ou com os tropicalista, embora tivesse laços profundos com o grupo: "Eu não sou um fóssil, sou um míssil". Permanentemente inquieto, já em “Gigolô de Bibelôs”, seu segundo livro, afirmou: “tenho fome de me tornar em tudo que não sou”. Movido pelo impulso de romper limites – entre a vida e a poesia, inclusive – e subverter convenções formais, Waly foi, nas décadas seguinte, letrista de canções famosas (como Mel, Memória da Pele, Fábrica do Poema, Vapor Barato e Mal Secreto, entre muitas outras), produtor de discos hoje cultuados e diretor de espetáculos musicais antológicos. Foi, ainda, Interlocutor de Hélio Oiticica e Lina Bo Bardi e criador dos poemas visuais “Babilaques”.

Ainda que Waly sempre pensasse a produção literária a partir de sua articulação com as outras artes, sua ambição maior era mesmo a poesia, "a menos culpada de todas as ocupações". Assim, ele continuou se reinventando como poeta até o fim da vida, em livros como “Lábia”, “Armarinho de miudezas”, “Tarifa de embarque” e “Algaravias”.

Alguns poemas de Waly Salomão

A memória é uma ilha de edição – um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?


ANTI-VIAGEM

Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.
Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?
Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal do Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.
Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um pára-choque.
Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.
Medito é beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:
EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.
Ou seja:
AGUARDE VENENO DA ÁGUA PARADA.
ÁGUA ESTAGNADA SECRETA VENENO.


POESIA

Barroco
Mundo e ego: palcos geminados.
Quero crer que creio
E finjo que creio
Que o mundo e ego
Ambos
São teatros
Díspares
E antípodas.
Absolutos que se refratam/difratam…
Espelhos estilhaçados que não se colam.
Entanto são
Ecos de ecos que se interpenetram
Partículas de ecos ocos, partículas, partículas de ecos plenos que se conectam
Aí cosmos são cagados, cuspidos e escarrados pelo opíparo caos
E o uso do adjetivo está correto
Pois que o caos é um banquete.
Fantasmas de óperas.
Ratos de coxias.
Atos truncados.
Há uma lasca de palco
em cada gota de sangue