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quinta-feira, abril 14, 2016

Escreva você também para Miss Corações Solitários


Xico Sá

Miss Corações Solitários é uma velha cigana da Andaluzia – de lá veio rapariga em botão – e sentou praça na tenda do Lameiro, ali na subida do Crato (CE) para a chapada do Araripe. No momento, interrompe o justo gozo de férias, na Serra do Rola-Moça, Minas, para atender as almas aflitas que buscam o refrigério para os seus caritós.

Carta 01: Extremosa Senhora, mudei-me para o Sul Maravilha, desde então o banzo me acomete e entrei numa roda-viva de aproveitamento mútuo, ‘leitadas’ casuais que não preenchem meu vazio interior. O modus-vivendi daqui é deveras diferente do meu Recife, até paquerar tem sido um aprendizado. Gostaria de saber vossa abalizada opinião sobre meu momento atual e que caminhos devo seguir.

Queria muito um namorado pra dormir de pé enroscado, fazendo cafuné e até ganhar ursinho de pelúcia todo dia 12 de junho, mas tenho pena de maltratar Santo Antonio buscando, desde já, esses fins escusos.

Procuro uma alma gêmea na colônia de pernambucanos do Rio? Insisto com os cariocas, que parecem ter o item ‘galinhagem’ de série, de fábrica? Me conformo em ser fubanga? Agradeço desde já a vossa colaboração. Assinado: Macabéa versão século XXI.

P.S. – “Fubango’’ é um neologismo que aprendi aqui. Os adeptos da fubangagem têm até comunidade no Instagram. Os dicionários também contemplam o termo: Fubanga -1. Homem ou mulher que tem relações eventuais, sem compromissos, porém dentro dos mais rigorosos preceitos éticos com relação a seu par momentâneo.

Resposta da Miss: Boa alma macabéica, interrompo meu sossego e vos digo: a fugacidade afetivo-corpórea do carioca é realmente uma desgraça. Os mancebos do balneário fazem questão de manter esse pendor avícola, só curável com um bom par de chifres, diga-se. Afinal de contas só uma gaia bem posta humaniza esse tipo de bípede, seja ele de quaisquer plagas, paulista, pernambucano, mineiro, cearense... Nada contra a prática da fubangagem, segura na mão de Deus e vai. Cariño, M.C. Solitários.

Carta 02: O que a sábia e almodovariana senhora diria para uma mulher que acabou de se amancebar e quer manter o enlace a todo custo, mesmo casada com um traste, nesse mundão perdido, volúvel e sem porteira? Beijos, Valzinha, Belo Horizonte.

Resposta: Estimada consulente, aproveite o enlace para cometer a mais linda e nobre das pornografias: o sexo com intimidade. O mais é assombro e preconceito de frase feita ou filosofia de pára-choque. Evite as discussões de relação e os patins nos finais de semana; fuja da pizza delivery  mesmo nos dilúvios e tempestades – a mussarela em domicílio provoca o fastio da alcova. Evitem idem a pijamização dos pombinhos. O pijama, tenho dito, burocratiza o desejo, o pijama, meu coração, é o paletó de madeira do amor. Sem mais, despeço-me, atenciosamente, sua M.C. Solitários.

E o direito do Brasil à ampla defesa?



Fernão Lara Mesquita

Distribuir postos privilegiados de tocaia ao dinheiro público a perseguidos pela polícia; contratar explicitamente o assalto ao Estado de amanhã para comprar a impunidade pelo assalto ao Estado de ontem; distribuir dinheiro, cargos e até ministérios, como os da Saúde e da Educação, não com a desculpa da “governabilidade”, como de hábito, mas declaradamente para salvar Dilma Rousseff de responder por seus atos?

Se não tivesse havido crime nenhum até esse momento – que houve –, aí está mais um flagrante de “desvio de finalidade” pra ninguém botar defeito.

Assim como não entendem o sentido de democracia, institucionalidade e interesse público, Dilma Rousseff e o PT nunca entenderam a natureza desta crise. Não custa repetir: a vitória sobre a regra é a crise; a garantia da vitória da regra, sempre, é o único antídoto para a crise.

Releve-se o acinte dos berros de “golpe”. Vamos que tudo isso “dê certo”; que todos os gatos de Lula e Dilma sejam vendidos por lebres não porque tenham deixado de ser gatos, mas porque os “seus” juristas e legisladores consigam impor uma lei determinando que gato passe a ser chamado de lebre. A confiança se restabelece? Desaparece o buraco? A economia retoma a sua marcha? Pois é. Cada vez que o PT comemora o “sucesso” de mais uma operação de uso da lei para driblar a lei e das instituições para destruir as instituições, mais irreversivelmente ele se descredencia para reverter a crise de confiança e liderar a ressurreição da economia.

Ao definir-se entre a véspera e o dia seguinte de uma eleição para o cargo máximo de um regime de representação como o avesso do que vendeu aos seus representados, Dilma Rousseff selou o seu destino. Teve uma oportunidade de remissão quando deu a Joaquim Levy a encomenda de desfazer o que tinha feito, mas a tentativa esvaiu-se na implacável determinação do PT de não retroceder um centímetro no território ocupado do Estado brasileiro.

Tudo o que aconteceu desde então tem sido um desperdício criminoso no altar de um delírio de poder antidemocrático e de uma arrogância doentia cujas falsas expectativas ninguém menos que o STF tem contribuído para alimentar. Tudo tem sido tratado como se só o que estivesse em causa fossem os direitos individuais de Dilma Vana Rousseff, e não os dos 204 milhões de brasileiros cuja obra de vida está sendo destroçada.

A estes se nega liminarmente o direito à “ampla defesa”, em nome da qual a continuação de todos os “crimes difusos” tem sido justificada, apesar dos flagrantes sucessivos da polícia. Única instituição com poder de definir limites para essa obra de desconstrução, o STF – seja quando provocado, seja por iniciativa individual de ministros que não se mostram à altura da instituição – tem produzido invariavelmente o efeito de empurrar sempre para mais longe as margens do atoleiro eventualmente alcançadas.

A discussão bizantina sobre se é crime ou não é crime destruir um país mediante o meticuloso processo com que se preparou passo a passo, com dolo e com cálculo, o terreno para o logro que foi esta eleição, revelado na minuciosa reconstituição dos fatos pela polícia, só permanece em pé graças aos sucessivos “habeas corpus” que têm sido concedidos às formalidades capengas por baixo das quais se esconde a mais rasteira e, graças a eles, reiterada má-fé.

Não é por acaso que o surrado expediente batizado nesta reedição extemporânea como “pedaladas fiscais” está exatamente descrito e tipificado como crime em todas as legislações democráticas do mundo, assim como na Lei de Responsabilidade Fiscal brasileira. Levar um país à desestruturação fiscal para comprar poder e privilégios para uma casta é o maior e o mais velho dos crimes.

O Brasil sabe por experiência própria que é assim que se arrasa a esmo a economia das famílias, destrói a obra e compromete-se o futuro de gerações inteiras. Manter tais processos ocultos mediante a falsificação de contas, a mentira e o terrorismo verbal é tão imperdoável quanto detectar um câncer num paciente, mas declará-lo são e proibir que seja tratado até que seja tarde demais para curá-lo.

O isolamento geográfico e institucional de Brasília é um dado essencial da tragédia brasileira. Fosse a capital da República aqui no país dos 10 milhões de desempregados só pelo aperitivo do desastre que se está armando e os palácios já estariam cercados. Mas lá, onde os empregos nunca se extinguem, os salários sobem por decurso de prazo e as aposentadorias valem 33 vezes o que valem as nossas, soa razoável que venham de dentro deles, e aos berros, as ameaças de “pegar em armas” contra a ralé que reclama por pagar com miséria por tais “direitos adquiridos”.

Os milhões de epopeias e dramas que constituem a carne e os ossos de tudo o que se abriga por baixo da expressão “economia brasileira” simplesmente não repercutem naquele mundo onde é no grito, quando não na “mão grande”, que se ganha a vida e todo argumento racional se dissolve no liquidificador do silogismo formalista.

Um tanto tardiamente a parte sadia do Congresso esboça uma reação. Mas para além da responsabilização de quem cometeu crime de responsabilidade sem a qual a economia não voltará a respirar, esta crise põe novamente em tela a urgência da mudança essencial pela qual o Brasil terá de passar se quiser um lugar num mundo que não tolera mais meias medidas.

Para garantir que os representantes dentro do nosso sistema de decisões de fato ajam no interesse de seus representados é preciso transferir o direito à última palavra sobre os destinos da coletividade das mãos de grupos delimitados cooptáveis que vivem numa redoma de privilégio para as dos próprios interessados mediante a tecnologia do voto distrital com recall, que põe esse poder nas mãos do conjunto dos eleitores e separa as verdadeiras democracias dos regimes obsoletos de servidão, mentira e exploração da miséria.

Dentro do ataúde, a mulher grita


Valentina de Botas

Para quem uma mulher se veste? Para si mesma, o que inclui os homens e as outras mulheres. Mas evitemos generalizações: isso não se aplica a todas as mulheres, claro, somente àquelas que veem alguma graça na vida, que catam uma felicidade mínima aqui, outra ali, em instantes do cotidiano.

As mulheres e os homens mais próximos da presidente têm problemas com a lei: Erenice Guerra é investigada na Zelotes, Lula e Mercadante serão presos, Gim Argello acaba de ser preso, José Eduardo Cardozo será processado, Fernando Pimentel será cassado e ela mesma não se sente muito bem com os últimos gestos de Rodrigo Janot que finalmente descobriu que Eduardo Cunha não é o único nem o mais grave de todos os gravíssimos casos de polícia debaixo do nariz do Procurador-Geral.

Entretanto, isso nem é o pior para a governante durona diluída em crimes que vê pelas costas os partidos governistas se afastando de certo caixão que carregaram até a beirada da sepultura.

Dentro do ataúde, a mulher grita. Grita denunciando o vice-presidente por exercer as funções políticas e institucionais dele; acusando talvez mais de 2/3 dos brasileiros de golpistas que ela vitimou; queixando-se de um golpe do Congresso obediente ao rito que o próprio governo encomendou no Supremo Tribunal Federal ao custo de uma interpretação malandra da Constituição e da fraude ao regimento interno da Câmara resultando no prolongamento inútil do transe do país.

Ainda se debatendo em delinquências diárias no interior do esquife, repete, sempre aos gritos a lhe deformar as feições desgraciosas e os modos democráticos ausentes, que foi eleita-pelo-voto-popular como se não soubéssemos que só conseguiu isso fazendo o diabo: com fraudes, extorsão, propinas. E como se o voto que não imunizou Collor quando sofreu impeachment e que não impediu o PT de pedir o afastamento de Itamar Franco e FHC, pudesse imunizá-la contra a lei.

A escalada de crimes para preservar o poder mantém o governo nessa putrefação pública que poderia ser evitada se – e aqui, creio, reside a desgraça de Dilma Rousseff do ponto de vista pessoal – um dos homens ou das mulheres próximas da presidente tivesse, não digo honestidade que já é demais, mas alguma temperança para fazê-la saber que há limites para a falta de limites. 

Mas a insanidade mal calculada e a parvoíce eficiente não a fazem burra: Dilma sabe que sabemos que ela sabe que termina – domingo no Congresso (detestado pela mulherzinha de alma tirana na crença de que poderia e mesmo tinha o direito de governar sozinha) e, mais tarde, na cadeia – a mais sórdida mentira já havida num Brasil que terá visto de tudo quando os poderosos mentores e patronos dela ainda livres forem para cadeia porque, ricos ou pobres de origem, não são nem elite nem povo, mas escória.

No próximo domingo, a irascível czarina da roubalheira vestirá a mortalha do impeachment. Para quem? Será obrigada legalmente a fazê-lo por e para homens e mulheres indignados num país destruído que terá dado o primeiro passo para se refazer, ainda zonzo com a nova ordem que ele mesmo inaugura.

quarta-feira, abril 13, 2016

Coisas sobre sexo que você nunca quis saber, mas que eu faço questão de divulgar (1)


Sexo é mais antigo do que se possa imaginar. É verdade que, ainda assim, tem aqueles que juram que nunca se transou tanto, se fez tanta sacanagem, se chupou tanta laranja, se afogou tanto o ganso quanto nesses novos tempos das mídias sociais. 

Alguns registros históricos, entretanto, servirão para provar que o nosso conhecimento é apenas contemporâneo e que os antigos sabiam a respeito tanto quanto (ou mais do que) nós, simples cavaleiros templários deste novo mundo dominado pelos finders da vida. Atention, please!

TUDO PELO TESÃO – O imperador Tibério tinha uma ilha, como lugar próprio para orgias. Quando começou a sentir o peso da idade, o rei romano levava grupos de moças e moços para trepar num imenso salão. As cenas deveriam despertar o vulcão adormecido. Ele gostava de olhar bem de perto, de acariciar os rapazes e as menininhas. Quando ficava com tesão, ele então comia a bunda dos soldados de Roma. Depois, era enrabado e gozava aos berros.

MUITO DAQUILO – Alexandre, o Grande, um dos maiores reis da Antiguidade, morreu de esgotamento em 323 AC, aos 32 anos, de tanto trepar.

BRINQUEDO ANTIGO – O arqueólogo inglês Timothy Taylor defendeu a tese de que o sexo na Pré-história não tinha por finalidade só a reprodução, mas principalmente o prazer. Sua afirmação tem como base objetos paleolíticos que apresentam, por exemplo, figuras de mulheres se masturbando ou dois pênis esculpidos em pedras, muito semelhantes aos atuais vibradores. E ainda hoje há quem diga que isso não tem utilidade.

TAMANHO CHINÊS – Os chineses de antes de Cristo já se preocupavam com o tamanho do pênis. Algas marinhas misturadas com extrato de fígado de cachorro branco, aplicadas três vezes ao dia, aumentavam o tamanho do pênis em três polegadas, o equivalente a seis centímetros.

FAVOR DIVINO – Na alta antiguidade e em algumas civilizações não era permitido ao marido deflorar sua esposa. Na Idade Média, era comum os padres e nobres resolverem esse problema, comendo pela primeira vez a mulher do próximo. Ave Maria!

SUBIU, CANTOU – Durante o século XI surgiu a punição através do canto de salmos penitenciais. O homem que tivesse ejaculação noturna deveria levantar-se em seguida e entoar sete salmos. E durma-se com um barulho desses...

UMA POR HORA – Cerca de um século depois de Cleópatra, Messalina se tornou a grande ninfomaníaca de seu tempo. A esposa do imperador romano Cláudio converteu-se, durantes as ausências de seu marido nas guerras, na mais notória prostituta de Roma. Há registro, inclusive, de uma prova de tesão disputada entre Messalina e outra fogosa da época. Messalina venceu, pois fornicou 25 vezes no espaço de 24 horas.

REZA NO COLCHÃO – Em 567 DC, o Concílio de Tours decidiu que dois padres não poderiam dormir na mesma cama. Entenderam que a ocasião é que faz o ladrão...

LÚXÚRIA ATÉ O FIM – A rainha Zíngua, no século XVII, em Angola, mantinha grandes haréns de homens. Às vezes organizava batalhas de morte entre os guerreiros, sendo que o vencedor adquiria o direito de levá-la para a cama. Algumas vezes fazia amor com um homem durante uma noite inteira, para na manhã seguinte ordenar sua morte. A rainha Zíngua continuou sua sangrenta lúxuria sexual até os 77 anos, quando se converteu ao catolicismo e parou de fornicar. Mas, pô, quem ainda querer comer aquele bagulho?...

COMEDOR DA CORTE – Documentos recentemente descobertos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro dão provas definitivas de que D. Pedro II era mesmo um dos bons de cama da corte. A pesquisa mostra cartas, bilhetes, fotografias e confirma que ele chegou a conviver com cinco diferentes amantes ao mesmo tempo, enquanto estava casado com Dona Theresa Cristina Maria. Para justificar suas escapadas, o imperador argumentava que sua esposa era manca, vesga, gorda e baixinha. Incomestível, portanto, como diria um ex-ministro.

BICHA VELHA – A descoberta de uma múmia nos Alpes austríacos, em 1991, com idade estimada em 5 mil anos, chamou a atenção pelo seu reduzido pênis e resquícios de sêmen em seu reto. De repente, os pesquisadores se deram conta que estavam diante do primeiro ancestral gay de que se tem notícia. Uia!

PORCO SEGURO – Numa antiga mina de sal de Hallsteins, na Áustria, foi encontrado um preservativo com data estimada de 2.500 anos. A descoberta é dos pesquisadores alemães da Universidade de Marbugo. Eles identificaram como bexiga de porco o material utilizado na confecção da camisinha.

GRANDE E GULOSA – Catarina, a Grande, quando se casou com Pedro III, escandalizou a corte russa com sua sexualidade insaciável. Confessou publicamente que mantinha relações sexuais seis vezes ao dia e ainda possuía 21 amantes “oficiais”. Os historiadores afirmam que o número de amantes “não oficiais” passava de 100. A czarina russa era do ramo...

França é o quinto país da Europa a punir os clientes das prostitutas


Prostitutas de Paris protestam contra nova lei que pune clientes

Na semana passada, a França aderiu ao grupo de países europeus que punem os clientes de prostitutas, uma medida polêmica que tem sido alvo de debates e divide tanto a classe política como as associações de proteção das prostitutas.

O texto, aprovado de maneira definitiva pela Assembleia Nacional (Câmara Baixa), estabelece que “a compra de atos sexuais será punida com uma multa de 1.500 euros, e até 3.500 em caso de reincidência”.

Está prevista a possibilidade de uma pena complementar, consistente em uma formação obrigatória para conscientizar sobre as condições da prostituição.

Todos os países europeus castigam o proxenetismo, mas a França é apenas o quinto a punir os clientes das prostitutas, depois da Suécia, o primeiro país a fazer isso em 1999, e da Noruega, Islândia e o Reino Unido.

Segundo estimativas oficiais, na França há entre 30 mil e 40 mil prostitutas, em sua maioria estrangeiras, originárias da Europa Oriental, África, China e América Latina.

O tema foi alvo de polêmica e divisões. Para os partidários, a punição dos clientes ajuda a dissuadir a demanda e torna as prostitutas vítimas e não delinquentes. Para os opositores sancionar os clientes coloca as prostitutas em perigo, pois ficarão mais isoladas.

O texto já havia passado pelo Senado, onde foi rejeitado, e voltou pela quarta vez à câmara baixa, que tinha a palavra final, segundo explica o jornal “Le Monde”.

Durante a votação, foi realizada uma manifestação das profissionais do sexo que exibiam cartazes onde se lia “Clientes penalizados, putas assassinadas”.

Os sotaques do Bumba-meu-boi do Maranhão


Diferente dos bois bumbás de Manaus, Parintins e Belém, que utilizam praticamente a mesma cadência melódica nas toadas, os grupos de Bumba-meu-boi do Maranhão são divididos em sotaques (estilos, formas e expressões): Sotaque de Matraca, Sotaque de Zabumba, Sotaque de Orquestra, Sotaque de Costa-de-Mão e Sotaque da Baixada.

A série “Sotaques do Bumba-meu-boi”, do Repórter Maranhão, da TV Brasil, mostra com bastante clareza as origens dos sotaques e como um desses sotaques foi parar no Amazonas e Pará para se transformar no nosso conhecido boi bumbá.

Sotaque de Matraca

Vindo de São Luís, tem como principal instrumento a matraca, dois pedaços de madeira e o pandeiro rústico. O sotaque de Matraca tem um ritmo frenético e contagiante. 


Sotaque de Zabumba

O sotaque de zabumba, é marcado pela presença da percussão rústica e cadenciada. Usam roupas aveludadas, saias bordadas e chapéus com fitas. Teve sua origem na região de Guimarães e arredores.


Sotaque de Orquestra

Tem origem na região de Munim. Utiliza instrumentos de sopro e corda. Os participantes usam trajes de veludo com bordados e miçangas.


Sotaque de Costa de Mão

Tem origem na região de Cururupu, tem um ritmo cadenciado ao som de pandeiros tocados com as costas da mão, caixas e maracás. As roupas também têm bordados em calças e casacos e seus chapéus em cogumelo funil são adornados com flores.


Sotaque da Baixada

Tem o som mais leve e suave, com pandeiros e matracas. As roupas vem com penas e bordados em base de veludo e chapéus de fitas. O Cazumba, bicho e homem são personagens característicos desse sotaque.

segunda-feira, abril 11, 2016

Resistir é Preciso: a Imprensa Alternativa enfrenta a Ditadura Militar


Está em cartaz no History Channel 2 (ou H2, como é chamado) um documentário em série sobre a imprensa alternativa na ditadura militar: Resistir é Preciso.

Dividido em dez episódios, o documentário é uma produção da TV Brasil, em parceria com a TC Filmes, TVM, e com apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Narrada e apresentada pelo ator Othon Bastos, a série traz depoimentos e material historiográfico de jornalistas que atuaram em três frentes de combate à ditadura militar: a imprensa alternativa, a imprensa clandestina e a imprensa que atuava no exílio.

PifPaf, Pasquim, Movimento, Opinião, Versus, Coojornal, Porantim, Varadouro, Em Tempo, Repórter, De Fato, Lampião e Ex são alguns dos jornais alternativos apresentados na série.

Para relembrar e construir essas histórias, Resistir é Preciso conta com depoimentos de grandes nomes do jornalismo da época como Alex Solnik, Raimundo Pereira, Juca Kfouri, Laerte, Ziraldo, Audálio Dantas, Paulo Moreira Leite, José Hamilton Ribeiro, Bernardo Kucinsky, Tonico Ferreira, Antônio Candido e muitos outros.

Através deles conhecemos as dificuldades de produção da época, as perseguições da censura militar e a manobras para manter os jornais em circulação. O Porantim, por exemplo, era feito em um porão da Arquidiocese de Manaus, ali na Av. Joaquim Nabuco, em uma sala pertencente ao Grupo Kukuro de Defesa da Causa Indígena, capitaneado pelo saudoso Ricardo Parente.

O primeiro episódio começa em 21 de maio de 1964, somente 51 dias após o golpe militar de 1º de abril, quando o jornalista Millôr Fernandes colocava nas bancas do Rio de Janeiro a revista PifPaf, com colaboradores que formavam a nata carioca dos jornalistas, escritores, intelectuais e cartunistas da época: Sérgio Porto, Rubem Braga, Antônio Maria, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Jaguar, etc.

Nos dez episódios da série são citadas quase 100 publicações, desde as mais importantes, como os jornais Pasquim, Opinião e Movimento, passando pelos jornais estudantis, de comunidades e sindicatos, incluindo jornais do Acre, Amazonas, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande Sul.

O documentário busca destacar o papel importante que a imprensa regional e independente desempenhou durante a ditadura militar, papel este pouco conhecido pelas novas gerações.

Há mais de 50 entrevistas com os protagonistas desta história. Um documentário imperdível para quem ama jornalismo.











domingo, abril 10, 2016

A poesia erótica e satírica de Bernardo Guimarães


Duda Machado

Uma dupla condenação vem mantendo a poesia erótica e satírica e os poemas humorísticos de Bernardo Guimarães (1825-1884) longe dos leitores e do lugar de destaque que merecem.

De um lado, um juízo crítico equivocado subestima a parte mais viva de sua obra poética em nome de critérios que privilegiam a eloquência sentimental e a dicção indianista do romantismo brasileiro.

De outro lado, uma inexplicável e espantosa atitude de consentimento à censura vem confinando – há mais de 140 anos – a publicação de poemas como “Elixir do Pajé” e “A Origem do Mênstruo” a edições clandestinas cada vez mais raras.

Nas últimas décadas, a criativa linguagem de humor e sátira de Bernardo Guimarães vem sendo devidamente reavaliada por poetas e críticos como Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima e Flora Sussekind.

No entanto, o sabor desta poesia continua ignorado pelos leitores. Divulga-lo é parte imprescindível de sua reavaliação.

A qualidade de poemas como os dois citados anteriormente e mais “A Orgia dos Duendes” supera amplamente a maior parte da produção do romantismo brasileiro, tão débil e tão divulgado.
Mais ainda: estes poemas – ao lado de muitas outras peças de humor e bestialógico – constituem a mais divertida e consistente crítica às debilidades e convenções deste romantismo.

A linguagem destes poemas – marcada pelo humor, pela paródia e pela sátira – é uma inventiva demolição de temas, clichês e convenções poéticas. E, deste ângulo, dialoga à sua maneira com parte essencial do modernismo brasileiro.

Publicado no dia 7 de maio de 1875, numa impressão clandestina feita em Ouro Preto (MG), “Elixir do Pajé” tem como alvo o ritmo e a retórica de Gonçalves Dias em poemas como “I-Juca Pirama” e “Os Timbiras”, expressões máximas da imagem sublime do índio.

Só em Oswald de Andrade (“O Santeiro do Mangue”) e Gregório de Matos encontra-se algo próximo a esta grossa prosa de palavrões, erotismo satírico e escatológico, tramada em tão inventiva poesia antipoética.

Por fim, um lembrete: Bernardo Guimarães, o autor desta “Trilogia Sacana”, é em tudo avesso ao romancista que ganhou fama com o clássico “A Escrava Isaura”.

A Origem do Mênstruo


Bernardo Guimarães

(De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua)

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...

Rapava bem o cu, pois resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.

Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e, peidando,
caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava,
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...

Essa ninfeta travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A Branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre pupúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...

 (É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)

– “Ora porra” – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...

– “Estou perdida!” – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...

Mas era tarde! A Cípria, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:

“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?!

Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?...

Ó Adonis! Ó Júpiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!

Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo.

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...

Em negra podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!”

Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...

Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
a puta que o pariu...

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta
das setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...

No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se a aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque naquele curativo
espera certa a paga...

Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...

Sorriu o furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – “Bem-feito!”

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

– “Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver...”

“Amém! Amém!”, com voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
“Amém! Amém!”, sussurram... 

A Orgia dos Duendes


Bernardo Guimarães

                    I
Meia-noite soou na floresta
No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.

Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.

Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.

Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo.

Getirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que ali mesmo co’as unhas sangrava.

Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade
Adubado com pernas de aranha,
Fresco lombo de um frei dom abade.

Vento sul sobiou na cumbuca,
Galo-Preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a mutuca,
No cupim o macuco piou.

E a rainha co’as mãos ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A corte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:

"Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.

Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.

Ide já procurar-me a bandurra
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussura,
Pendurada no arco-da-velha.

Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c’um beijo ]
Lá no teu tenebroso covil.

Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.

Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das danças da lei?

Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.

Lobisome, que fazes, meu bem
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c’roa te deu de grão-duque?”
 
                    II

Mil duendes dos antros saíram
Batucando e batendo matracas,
E mil bruxas uivando surgiram,
Cavalgando em compridas estacas.

Três diabos vestidos de roxo
Se assentaram aos pés da rainha,
E um deles, que tinha o pé coxo,
Começou a tocar campainha.

Campainha, que toca, é caveira
Com badalo de casco de burro,
Que no meio da selva agoureira
Vai fazendo medonho sussurro.

Capetinhas, trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.

Crocodilo roncava no papo
Com ruído de grande fragor:
E na inchada barriga de um sapo
Esqueleto tocava tambor.

Da carcaça de um seco defunto
E das tripas de um velho barão,
De uma bruxa engenhosa o bestunto
Armou logo feroz rabecão.

Assentado nos pés da rainha
Lobisome batia a batuta
Co’a canela de um frade, que tinha
Inda um pouco de carne corruta.

Já ressoam timbales e rufos,
Ferve a dança do cateretê;
Taturana, batendo os adufos,
Sapateia cantando — o le rê!

Getirana, bruxinha tarasca,
Arranhando fanhosa bandurra,
Com tremenda embigada descasca
A barriga do velho Caturra.

O Caturra era um sapo papudo
Com dous chifres vermelhos na testa,
e era ele, a despeito de tudo,
O rapaz mais patusco da festa.

Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. Condessa!...

E dançando em redor da fogueira
vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:

                    III

TATURANA

Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.

Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
 
GETIRANA

Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
 
GALO-PRETO

Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.

Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
 
ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.

Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
 
MULA-SEM-CABEÇA

Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.

Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.

Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
 
CROCODILO

Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c’um aceno;
E também por servir aos amigos
té nas hóstias botava veneno.

De princesas cruéis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem sono.

Eu na terra vigário de Cristo,
Que nas mãos tinha a chave do céu,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos caí de boléu.
 
LOBISOME

Eu fui rei, e aos vassalos fiéis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos cruéis
As esposas e filhas roubar.

Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michelas, carrascos e frades
Do meu trono os degraus rodeei.

Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para enfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.
 
RAINHA

Já no ventre materno fui boa;
Minha mãe, ao nascer, eu matei;
E a meu pai, por herdar-lhe a coroa
Eu seu leito co’as mãos esganei.

Um irmão mais idoso que eu,
C’uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado às ocultas morreu
Afogado no fundo de um poço.

Em marido nenhum achei jeito;
Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,
Uma noite co’as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.

Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim num abraço
pelas costas cravei-lhe um punhal.

Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus régios favores
Nos abismos do mar se sumia.

No banquete infernal da luxúria
Quantos vasos aos lábios chegava,
Satisfeita aos desejos a fúria,
Sem piedade depois os quebrava.

Quem pratica proezas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.
 
                    IV

Do batuque infernal, que não finda,
Turbilhona o fatal rodopio;
Mais veloz, mais veloz, mais ainda
Ferve a dança como um corrupio.

Mas eis que no mais quente da festa
Um rebenque estalando se ouviu,
Galopando através da floresta
Magro espectro sinistro surgiu

Hediondo esqueleto aos arrancos
Chocalhava nas abas da sela;
Era a Morte, que vinha de tranco
Amontada numa égua amarela.

O terrível rebenque zunindo
A nojenta canalha enxotava;
E à esquerda e à direita zurzindo
Com voz rouca desta arte bradava:

“Fora, fora! esqueletos poentos,
Lobisomes, e bruxas mirradas!
Para a cova esses ossos nojentos!
Para o inferno essas almas danadas!”

Um estouro rebenta nas selvas,
Que recendem com cheiro de enxofre;
E na terra por baixo das relvas
Toda a súcia sumiu-se de chofre.
 
                    V

E aos primeiros albores do dia
Nem ao menos se viam vestígios
Da nefanda, asquerosa folia,
Dessa noite de horrendos prodígios.

E nos ramos saltavam as aves
Gorjeando canoros queixumes,
E brincavam as auras suaves
Entre as flores colhendo perfumes.

E na sombra daquele arvoredo,
Que inda há pouco viu tantos horrores,
Passeando sozinha e sem medo
Linda virgem cismava de amores.

O Elixir do Pajé


Bernardo Guimarães

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?

Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?

Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.

Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a dextra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?

Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.

Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.

Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!

Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: “Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré”,
— assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co'o pé:
— Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?”

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.

Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...

Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...

Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...

Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas,
d'hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!

Se manca, Letícia!


Valentina de Botas

Se Letícia Sabatella procurar acertos de Dilma Rousseff nas farmácias dos hospitais públicos abastecidas pelo SUS, ou nos dados de segurança pública pertinentes à administração federal, nos projetos de saneamento básico ou nas políticas públicas para erradicar a prostituição infantil e a leishmaniose tegumentar, não os encontrará. Os acertos, segundo a Lava Jato, deram-se com os operadores do Petrolão.

Mas a que erros Sabatella alude em “Não querem tirar Dilma pelos erros, mas pelos acertos”? O único erro de Dilma foi tornar-se ministra e candidatar-se à presidência; depois disso não errou mais, só delinquiu. Se manca, Letícia, é crime até mesmo usar o Planalto para tal estroinice de ataque contra uma nação indignada.

Um reiterado crime da presidente flagrada no gozoso jeito lulopetista de governar que faz do gangsterismo um instrumento de Estado. Isso não vigoraria sem um zeitgeist mal-assombrado que anima a desqualificação dos indignados numa linguagem odiosa, cercada pelo silêncio convergente, que agora os chama golpistas.

Os artistas, intelectuais e jornalistas criativos (nem falo do JEG), calados a respeito, passaram a acusar o ódio e o radicalismo de quem está farto de ser tratado de modo radicalmente odioso. A frase de efeito da Sabatella teve o efeito pilantra de sugerir que os pró-impeachment não queremos um Brasil são, mas foi o bando integrado por Dilma que sempre rejeitou, como oposição e governo, o saneamento do país.

A atriz adere à novilíngua que, aprendemos em Orwell, não é uma língua nova, mas um uso novo do significado que vai habitar outro significante por imposição do pensamento aprisionado na ideologia à prova de luz e ar; vigarice que, na voz melíflua de Sabatella, vigarice permanece. O verbo na terceira pessoal do plural sem a referência a nenhum termo anteriormente identificado indetermina o sujeito nas frases em português, mas o “querem” da Sabatella abriga 80% de brasileiros determinados a se livrarem da súcia e dessa metafísica que lhe dá suporte filosófico-estético, um lixo com jeito bacana de coisa progressista.

Somos o “eles” indeterminado na novilíngua da escória para quem a nação é coisa difusa e desimportante obrigada a custear o nós-escória incluindo os capangas de Boulos e Stédile que a ameaçam se a lei for cumprida. O que farão os exércitos imaginários de delinquentes reais? Não sei se avançarão além do que já fazem impunes as minorias fascistoides opressoras da maioria pacífica.

O que sei é que a truculência delas tem suporte na metafísica que ataca a lei e a verdade nas declarações e atitudes pró-governo ecoadas por certo jornalismo, como o editorial da Folha de domingo pretendendo apenas substituir a Constituição. Sem que haja nada consistente contra o vice-presidente, o jornal repele a solução constitucional na posse de Temer e quer eleições porque ele é impopular, os crimes de Dilma não estão cabalmente (!) comprovados, o impeachment deixaria ressentimentos (sic).

Ora, quando aderiu ao impeachment de Collor, o jornal não cobrou popularidade de Itamar Franco; não refutou os crimes apontados; e não temeu mágoas remanescentes. É que vale qualquer disparate contra a Constituição para resguardar um governo mafioso (os erros), mas de esquerda (o acerto) – eis do que se trata.

Juristas contra a lei, intelectuais contra o pensamento, artistas contra a dissidência e jornalistas defendendo essa porcaria, todos embotados no nauseabundo esquerdismo que determina o lado da verdade e da lei quando a verdade e a lei, com erros e acertos, só têm um lado: o da verdade e o da lei. Se manca, Letícia.