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quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Turbantes em Fúria: Episódio 4


De uma branca para outra

Por Eliane Brum

Thauane,

Em 4 de fevereiro, você postou o seguinte texto em sua página no Facebook: “Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural: eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’, enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei ‘tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus’. Peguei e saí e ela ficou com cara de tacho. E, sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade, meu Deus”.

Ao final, você fez a hashtag: #VaiTerTodosDeTurbanteSim.

Desde então, Thauane, você deu entrevistas, foi xingada e foi elogiada nas redes sociais. Desde então, produziu-se uma grande quantidade de textos de opinião, matérias e posts sobre o que aconteceu com você. Uma parte significativa desse material produzido continha acusações ao movimento negro, de que estaria fazendo algo nomeado como “racismo reverso”.

O episódio relatado por você e a repercussão do seu relato são tudo menos uma banalidade. Ambos contam de um momento muito particular do Brasil no que se refere à denúncia do racismo. Um momento que, por sua riqueza, não pode ser interditado por muros. É por isso que decidi escrever minha coluna pública como uma carta para você. Porque não poderia falar de você como “a branca do turbante”, apenas. Sim, você é branca. E você colocou um turbante. Mas você também é Thauane, uma mulher e suas circunstâncias. E, assim, a carta é o gênero com que posso melhor expressar meu afeto.

Eu acredito muito em cartas, Thauane, porque elas pressupõem um remetente e um destinatário. E elas expressam algo ainda mais fabuloso, que é o desejo de alcançar o outro. Poucas coisas são mais tristes que cartas perdidas, extraviadas. Cartas que não chegam ao seu destino. E quando a gente conversa com um muro no meio, as cartas não chegam. O muro barra o movimento da palavra.

Assim, Thauane, eu inicio dizendo a você que não sei como é receber um diagnóstico de leucemia. Não sei como é perder o cabelo aos 19 anos. Não sei como é acreditar que encontrou uma saída estética para cobrir a nudez da cabeça e ouvir que esta saída não é ética. Não sei. Mas tento saber. Acredito profundamente em vestir a pele do outro. Mas sei também do limite deste gesto. Buscamos vestir, mas não conseguimos vestir por completo. A beleza deste movimento é justamente a busca.

Ao tentar vestir a sua pele, consciente dos limites deste gesto, posso sentir o quanto deve ter sido duro ouvir o que você conta ter ouvido: “Você não pode usar turbante porque é branca”. Ter câncer é estar nu de tantas maneiras diferentes, e a sua nudez estava exposta na sua cabeça. E você tinha encontrado um abrigo que te fazia sentido, que era um turbante bonito. Para você também não era só um acessório, talvez fosse quase uma casa. E a estranha que te aborda, cortando esta cena com um “não”, pode ter doído em porções do seu corpo que você nem sabia que existiam até então.

É isso que eu apalpo quando tento te alcançar tendo apenas lido você no Facebook. Você doendo. E, sentindo-se atacada, apropria-se do que considera seu direito de vestir o que quiser, de se expressar como quiser pelo que bota sobre seu corpo, e diz que, sim, TODOS podem usar turbante mesmo que negras digam a você que não porque, afinal, qual é o problema de ser branca e usar turbante? Afinal, não seria até mesmo um reconhecimento e uma homenagem, já que você considera algo identificado com a cultura negra tão bonito que escolhe botar na cabeça? E isso te parece bastante óbvio. E parece bastante óbvio para muitas pessoas que te apoiam.

Eu escuto você. E compreendo o caminho do seu pensamento. E percebo que, para mim, não é difícil vestir a sua pele, ainda que não possa, jamais poderei, vesti-la por completo. É neste ponto que sou atravessada pela primeira interrogação. É mais fácil para mim vestir a sua pele branca do que vestir a pele negra da mulher que te abordou com um não. Eu tenho mais elementos para vestir a sua pele branca e bem menos elementos para vestir a pele negra dela. Por uma razão bastante óbvia: eu tenho uma vida de mulher branca num país como o Brasil.

Esta constatação me faz perceber que, exatamente por ser mais difícil, eu preciso tentar mais. Bem mais. Sabe, Thauane, eu nasci e cresci numa cidade em que a maioria é descendente de imigrantes europeus, especialmente alemães. Eu mesma sou descendente de italianos. Cresci observando o racismo ser uma condição tão natural quanto comer e dormir. Não o racismo disfarçado de tantos, mas o racismo que sequer estranha a si mesmo. Assim, quando começaram os debates das cotas sociais X cotas raciais, e isso porque não estou contando a parcela da população que acha que não precisa de cota nenhuma, não me foi difícil concluir que as cotas deveriam ser raciais.

Na cidade da minha infância, as negras sequer eram aceitas como empregadas domésticas. Como os patrões eram descendentes de imigrantes europeus, não traziam a experiência da Casa Grande, em que os negros escravizados faziam todo o serviço pesado, dentro e fora das casas. Ao contrário. Os avós e bisavós da maioria, como os meus mesmo, conseguiram escapar da fome de seus países de origem graças à ideia de branqueamento do Brasil que esteve no cerne das políticas de imigração do século 19. Para evitar o risco de que o Brasil ficasse mais preto, importou-se carne branca. Na região em que eu vivia, havia dois párias: os indígenas e os negros.

No Brasil da minha infância, ser empregada doméstica era quase ser escrava. Como todos sabemos, ainda hoje, em tantos lugares, segue assim. Mas o racismo era tão profundo que nem para cozinhar, lavar e limpar sem limite de horas para terminar a jornada e ganhar um salário miserável ao final as negras serviam. Sabe por quê? Porque boa parte das famílias brancas não queria a pele negra “sujando” a sua comida, a sua roupa de cama, o seu mundo. Assim, até para os serviços com a pior remuneração e com as piores condições de trabalho a preferência era pelos brancos pobres. O racismo, mais uma vez, condenava as negras a ver seus filhos passarem fome.

Percebi então que eu, como mulher branca, descendente de imigrantes europeus, já nasço neste país com muitos privilégios. Percebi primeiro pela intuição, ao observar o meu entorno, e depois fui estudar para compreender também através dos fatos, das reflexões e do processo histórico. Nasço neste país com privilégios. Mas não só. Percebo que já me insiro neste mundo pela experiência de “existir violentamente”. Vou aprofundar este conceito mais adiante.

Quando a gente ouve um “não”, Thauane, nossa primeira reação é dizer um “sim”. Sim, eu faço. Sim, eu vou. Sim, eu posso. Especialmente numa época em que se vende a ideia de que podemos tudo. E de que poder tudo é uma espécie de direito. Mas não, não podemos tudo. E nos deparamos com essa realidade a cada dia. Compreendo também, Thauane, que você sabe disso talvez melhor do que a maioria, porque não há nada mais revelador de nossos limites do que uma doença que nos coloca diante da tragédia maior da condição humana, que é morrer. E uma doença como câncer, mesmo quando há muitas chances de cura, nos lança neste abismo. Porque só a possibilidade já é devastadora.

Mas tenho aprendido, Thauane, e isso me veio com o envelhecimento, que, muitas vezes, mesmo quando a gente pode a gente não pode. Ou, dizendo de outro modo: o fato de poder não quer dizer que a gente deva. Assim, é verdade. Você pode usar um turbante mesmo que uma parte significativa das mulheres negras digam que você não pode. Mas você deve? Eu devo?

Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas, nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.

A resposta mais completa que encontrei na minha busca foi um texto de Ana Maria Gonçalves. Escritora de grande talento, mulher, negra. Autora de Um defeito de cor, um romance extraordinário. Sugiro a leitura do texto inteiro, publicado no Intercept. Mas reproduzo aqui os trechos que me parecem fundamentais para que eu possa continuar a escrever a minha carta de branca. Ana Maria Gonçalves diz:

“Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separando-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem.

Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião ‘civilizatória’, ganhando um nome ‘cristão’ que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, ‘jeitinhos’, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho. Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui.

(...)

Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?

(...)

O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão”.

Não sei como você escuta isso, Thauane. Mas posso te contar como eu escuto. Escutar a voz de Ana Maria Gonçalves, assim como de outras mulheres negras, produz movimento em mim. As vozes dessas mulheres me alargam por dentro. Alargam a minha visão de mundo. Eu não conseguiria compreender desta forma, desta forma que atravessa o meu corpo, não fosse elas terem a paciência de me explicar com palavras que também atravessam seus corpos.

Eu compreendo que, para você, o turbante também significava abrigo. E talvez abrigo da dor. Mas você tem outras formas de encontrar abrigo para sua cabeça nua. Assim como eu tenho outros jeitos de me expressar através do que coloco na cabeça. As mulheres negras nos explicam que não. Que para elas o turbante é memória, é identidade e é pertencimento. É, portanto, vital. O que as mulheres negras nos dizem, Thauane, é que não querem que o turbante, que tão precioso é para elas, vire mera mercadoria na nossa cabeça. Então, Thauane, acho que eu e você precisamos escutá-las. E podemos não usar um turbante. Aliás, não usar um turbante é bem o mínimo que podemos fazer.

E podemos não usá-lo por muitos argumentos, mas aqui, me basta este. Porque são elas que me dizem. As mulheres negras, as que no passado foram arrancadas de suas terras e trazidas como carga para o Brasil para trabalharem como escravas, as mulheres negras que eram violentadas por brancos como desacontecimento cotidiano. As mulheres negras, que deixaram de amamentar seus próprios filhos para amamentar os filhos das sinhazinhas brancas. As mulheres negras, que foram obrigadas a criar os filhos de outras enquanto os seus eram esquecidos. As mulheres negras, que quando seus filhos sobreviviam à fome, aos maus tratos e às doenças, tudo o que podiam esperar de um futuro era que também fossem escravos. As mulheres negras, que no presente seguem tendo os piores salários, a mais baixa escolaridade, menos acesso a tudo. As mulheres negras, que hoje são as que mais morrem de parto, são as que mais perdem filhos pequenos para doenças que não deveriam mais matar, são as que mais sofrem com filhos adolescentes e adultos em prisões que são campos de concentração não disfarçados. As mulheres negras, que têm seus filhos executados pela polícia e por grupos de extermínio, vítimas de um genocídio que provoca escassa revolta na parcela branca da população. As mulheres negras, que são as que mais sofrem estupro e as que têm menos acesso à tratamento quando adoecem de câncer.

Se as mulheres negras me dizem que não posso usar um turbante porque para elas o turbante é um símbolo de pertencimento, eu escuto. E compreendo que não devo usar um turbante. Sim, Thauane, acho que você e eu e todas as brancas deste país em que a abolição da escravatura jamais foi completada podemos e devemos baixar a nossa cabeça em sinal de respeito e não usar um turbante apenas porque as negras dizem que não podemos. Apenas porque as fere que usemos turbantes. Há muitos outros argumentos, mas só este já me parece suficiente.

Mas eu entendo também, Thauane, que precisamos conversar sobre isso. Escuto de algumas mulheres negras que é demais pedir que tenham a paciência de nos explicar depois do tanto que sofreram esses séculos todos e com um genocídio negro se desenrolando agora mesmo sem causar clamor. E compreendo que é difícil. Mas ainda assim acho que é preciso. Porque se não conseguirmos estabelecer um diálogo que não seja mais do que gritos de um lado e outro, ergueremos novos muros ou aumentaremos ainda mais a altura dos já existentes. E acho que podemos concordar que se há algo que este país não precisa é de mais muros.

Gostaria de acreditar, Thaune, que se você em vez de ouvir um repentino “não pode usar turbante porque é branca” fosse abordada de outra maneira, que se em vez de “não pode usar” e “vou usar sim” houvesse uma conversa entre duas pessoas capazes de se escutar mutuamente, você talvez tivesse concluído que não deveria usar um turbante. E a história que você publicou no Facebook seria então outra, mais inspiradora e com muito mais potência.

Se esse episódio acontecesse alguns anos atrás, Thauane, eu talvez aderisse à sua hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. Porque acharia uma convocação mais igualitária. Até alguns anos atrás eu acreditava que era suficiente não ser racista. Eu me achava bacana por defender os direitos humanos e denunciar a violência contra as minorias. Eu me achava legal por não distinguir raça, mas enxergar pessoas. Eu teria convicção de que, ao usar um turbante, estaria fazendo um reconhecimento e uma homenagem à outra cultura. Até alguns anos atrás eu acreditava que era isso o que eu poderia fazer de melhor como branca num país racista.

Tenho aprendido, Thauane, que é mais complicado. E tenho aprendido que é mais complicado com as mulheres negras e com os homens negros. Desde que a internet e as redes sociais tornaram possível que suas vozes ecoassem mais e mais longe, já que os espaços tradicionais eram e seguem sendo bastante interditados para os negros, eu tenho tido a chance de aprender com eles. Isso não significa que exista uma voz absoluta que possui todas as verdades e que tem razão a priori. Significa ter a oportunidade de escutar e de interrogar e até de discordar porque aprender é movimento, não deglutição.

Escutando os vários movimentos negros, Thauane, tenho aprendido que às vezes somos racistas sem saber que somos. É algo tão entranhado na nossa apreensão de mundo que, mesmo quando acreditamos não sermos, às vezes somos. Nas palavras, nos gestos, no caminho que alguns pensamentos fazem. Quantas vezes, por exemplo, amigos brancos não acharam que eram muito bacanas por tratarem bem os negros? A própria ideia de se achar incrível por tratar bem alguém de outra raça pressupõe que haveria um motivo para não tratar bem alguém de outra raça. E este já é um pensamento racista. Ou o famoso “não sou racista, tenho até amigos negros”.


Mas o que para mim tem se tornado mais evidente, Thauane, é o que tenho chamado de existir violentamente. Por mais éticos que nós, brancos, pudermos ser, a nossa condição de branco num país racista nos lança numa experiência cotidiana em que somos violentos apenas por existir. Quando eu nasço no Brasil, em vez de na Itália, porque as elites decidiram branquear o país, já sou de certo modo violenta ao nascer. Quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta.

Por isso escrevi um texto aqui afirmando que, no Brasil, o melhor branco consegue no máximo ser um bom sinhozinho. Porque, sim, ainda somos sinhazinhas e sinhozinhos, mesmo quando tentamos ser igualitários. Porque a desigualdade racial é nossa condição cotidiana. E essa experiência de existir violentamente – ou de ser violenta mesmo sem ser violenta – é algo que me corrói.

É duro, Thauane, reconhecer e sentir nos ossos, a cada dia, que existo violentamente. Não posso escolher não existir violentamente, porque esta é a condição que me foi dada neste momento histórico. Mas penso que há algo que posso escolher, que é lutar para que meus netos possam viver num país em que um branco não exista violentamente apenas por ser branco. E para isso eu preciso escutar. E, principalmente, preciso perder privilégios. Me parece que hoje uma das questões mais cruciais deste país diz respeito a quanto estamos dispostos a perder para estar com o outro. Porque será preciso perder para que o Brasil se mova, para que o mundo se mova.

E às vezes os privilégios mais difíceis de perder, Thauane, são os mais sutis, assim como os mais subjetivos. Por séculos os brancos falaram praticamente sozinhos no Brasil, inclusive sobre o que é cultura e sobre o que é pertencimento. Os brancos falaram praticamente sozinhos até sobre o lugar do negro neste país. Agora, ainda bem, perdemos esse privilégio. E vamos ter que conversar. Mas o privilégio primeiro que perdemos quando as vozes negras começaram a ecoar mais longe é o da ilusão de que somos “limpinhos” porque não somos racistas. Não somos limpinhos. Porque não há como ser branco e ser limpinho num país em que os negros vivem pior e morrem primeiro. É isso que eu chamo de existir violentamente.

Escrevo esta carta para você, para todos e também para mim, na esperança de que ela atravesse os muros e chegue ao seu destino. E me despeço dizendo, Thauane, que com toda a sua dor e com toda a sua nudez, acho que você, eu, todas nós, mulheres brancas, precisamos escolher perder o privilégio de usar turbante, com tudo o que isso significa. Não apenas porque alguém barrou o gesto, mas porque somos capazes de escutar argumentos e aprender com eles. E porque queremos muito estar com o outro sem ser violentamente.

Turbantes em Fúria: Episódio 5


Turbantes: a guerra ideológica virou pelada de campinho

Por Ismael Benigno

Não falo por mim. E talvez por isso já tenha sido convidado a não me pronunciar sobre outros dos temas de comportamento social. Ou porque não sou mulher, ou porque não sou negro, ou índio, ou quilombola. Mas como sou teimoso, me reservo o direito de opinar. Afinal, ao que parece, ficar calado é declarar posição e, mesmo que a gente não saiba, está sendo julgado. Então, já que nasci branco, preciso aqui declarar: não sou racista.

Li o texto da Ana Maria Gonçalves sobre a minha “branquitude” (digo “minha” porque, percebi, ter nascido branco me dá esse atributo automaticamente) e, tendo percebido toda a necessidade da autora de explicar o que significa um turbante para os povos negros (depois me corrijam se o termo “povos negros” soa racista, eu realmente não sei), percebi também que a única coisa a que as pessoas de pele branca têm direito é ficar quieto. E aguentar o julgamento sumário, por parte de desconhecidos, sobre o meu caráter, sobre meus valores pessoais, sobre o que penso de tudo isso.

Não importa que meu turbante, meu hijab, minha túnica, meu baby- sling escondam, se é o câncer, se é uma orelha de abano, se é um terceiro mamilo. O fato é que, na cruzada das reparações históricas, eu, que sou frequentemente julgado por usar camisa pólo ou sapato social, não posso cometer o “exotismo”, a “bacanidade” de ser “descolado” e usar um turbante, seja ele árabe, persa, ninja, africano – tudo será africano.

É onde entra a mais absoluta ignorância sobre o que significa cada um dos pequenos gestos da minha vida cotidiana. Eu decidi vestir um turbante porque sou racista e eu nem sabia.

E novamente não falo por mim. Eu não uso turbante africano. E por isso mesmo, sendo um estranho no ninho da discussão, não posso deixar de registrar minha estranheza com a polêmica, especialmente em Manaus, aonde a cultura, as tradições e os signos (é assim que fala?) africanos não são predominantes. Arrisco dizer que não há negros no Amazonas. E ainda assim, o que mais vejo são jovens brancos usando o adereço, assim como penteados africanos, ruivos usando black power, loiros usando dread-locks. O que pra mim não faz a menor diferença, a não ser ver que, muitas vezes, são exatamente essas pessoas as que estão, neste momento, explicando por A mais B porque usar o turbante é, sim, apropriação cultural, resultado da “branquitude” de pessoas que são racistas sem saber disso.

A ideologização generalizada é tal que, numa sociedade cheia de problemas graves como o saneamento, a pobreza e a violência, a gente ainda precisa aguentar, calado, o fato de que é racista, acusação frequentemente feita pelas mesmas pessoas que transformaram a cultura negra em posição política. Hoje, enquanto luto para trabalhar, criar minha família e pagar as minhas dívidas, sou acusado, por ter nascido com essa cor, das coisas que as pessoas que me acusam fazem.

Como eu disse, nessa confusão toda, mais uma vez, o coletivo pisa sobre a história de cada um. Por isso, nunca vai importar se a moça do trem tem câncer, ou que eu tenha vendido pastel na rua aos 10 anos, numa época em que alguns almoços foram arroz com maionese. Pouco vai importar a história de cada um.

Porque há um entendimento maior, uma verdade absoluta que ficam dizendo pra eu ler nos livros: eu sou de uma raça privilegiada, elitista, intolerante e racista. Se eu tiver amigos negros, terá sido porque eu queria posar de bacana. Se eu for visto numa roda de samba, terá sido porque quero posar de superior.

Para denunciar tudo o que já ocorreu, as torturas, os sequestros, os estupros, as surras e as mortes relegadas aos povos africanos no Brasil, é preciso dizer, a partir de agora, que não vale tentar não ser racista. Não vai colar eu ficar fazendo de conta que brancos e negros são iguais aos meus olhos. Afinal, em 1671 pessoas da minha cor açoitavam negros. Não adianta agir, pensar e ver as coisas diferentes em 2017. Não importa que a gente queira se misturar em 2017, porque é preciso reagir. Aos assassinatos de negros pela polícia, às violências nas salas de parto, nos supermercados.

A ordem para esmagar qualquer sinal de mistura é tão forte que nada pode escapar. Os séculos de violências sofridas, até hoje, têm responsáveis que precisam ser “coletivizados”. O turbante precisa ser respeitado, porque, segundo o mesmo texto, é o signo que carrega uma longa história de segregação e supressão de direitos e liberdade.

Vivemos a era do palco. E no palco, assim como no teatro, é preciso mais trejeitos, mais caras e bocas, mais empostação, mais linguagem corporal. Todos são protagonistas de alguma causa. Neste caso, mesmo que não façam parte dela, de modo que não vale lembrar que, se vamos partir para o patrulhamento dos adereços que cada um usa no ônibus, com base na cor da pele, está na hora de fazermos um censo racial no Brasil, definindo, talvez com instruções normativas ou decretos governamentais, quem sabe ditados por comissões raciais, o que cada um pode ou não usar na cabeça.

De tudo isso, fica somente a impressão de que, na era da informação e da tão propalada diversidade cultural, estamos cada vez mais com raiva da diversidade, do pluralismo e da consciência da existência dos outros. Todo sinal de pacifismo é tido como provocação, toda demonstração de tolerância é tida como deboche, toda vontade de se misturar, quem sabe começando no século 21 a mudar a história que não pode ser apagada dos séculos anteriores, é vista com desconfiança.

Eu, que achava não fazer parte dos agressores nem das vítimas, percebi que não há como escapar da guerra ideológica que virou pelada de campinho. Ou você é do time com camisa ou do time sem camisa. Mas, como eu disse antes, falo por mim. Sou um homem branco, não tenho como mudar isso. Não tive pai, passei por privações que a gente nem percebe quando criança. Mesmo assim, tive uma infância feliz.

Acho uma pena que causas justíssimas já nasçam com tutores intelectuais, quase sempre pessoas que não fazem parte das vítimas do problema, e cuja imaturidade ideológica acaba sempre levando problemas reais para o viés político, muitas vezes partidário até. É uma pena que a romantização do passado brasileiro, com gente livre posando de oprimida, com gente branca posando de quilombola, com gente rica posando de pobre, com gente solta posando de perseguida, esteja impedindo as pessoas de se misturarem, de se conhecerem, de criarem empatia com a história do outro.

É uma pena descobrir que, nesses tempos, frear o carro para não atropelar animais virou causa. Comer rúcula virou causa. Assanhar o cabelo virou causa. Usar um pano na cabeça virou causa. E a gente, que cresceu ensinado a ver todos como iguais, a ajudar as pessoas, a gostar de bicho, a gente vacilou e não alardeou essas coisas. Não se juntou a um coletivo que não mata cachorro, a um coletivo que come rúcula, a um coletivo que pode usar turbante, mesmo sendo branco.

A bondade, o caráter, a tolerância, o respeito e a empatia que a gente exercia em 1981, a gente não sabia, eram ideias que já tinham donos que só nasceriam em 1997. O que nos resta, agora, é continuar a ser bacanas, ter caráter, ser tolerantes, respeitar os outros, mas em silêncio.

Porque o câncer de uns é mais câncer do que o dos outros, e se já chegamos ao ponto de passar por uma banca julgadora para sermos livres de pensamento, o debate morreu. E como eu já senti na pele – e certamente sentirei novamente –, quem sou eu para falar de coisas que eu não sofro, né?

Bom, eu sou só um branco, como é branca a maioria dos patrulheiros da “branquitude” alheia. Eu só cometi um erro: o de não ter me associado a nenhum sindicato de brancos que posam de negros, ou de ruivos que posam de índios, ou de ricos que posam de pobres.

A não ser por esse texto, nascido da vontade de me defender do que não sou, eu sou só parte da silenciosa maioria que não está nem aí para os sindicatos da bondade.

E como tal, aceito continuar assistindo o debate morrer por dentro. Porque o que me importa é o que aprendi a ser, e o que posso ensinar meus filhos a serem. Bacanas, tolerantes, respeitosos, pluralistas, democratas, empáticos.

Mas, acima de tudo, livres disso tudo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

É um pássaro? É um avião? Não, é o CANDIRU...


Ivan Oliveira, eu e Neilo Batista, meus dois manos diretores do GRES Reino Unido da Liberdade, na fuzarca da Banda do Caxuxa no ano passado. É ganhamos o carnaval de 2016...

Respondendo aos e-mails da pedagoga Maria Augusta (a doce “Guguta”, de Óbidos-PA), do poeta Marcos Fernando (de Caicó-RN, terra dos violeiros Gerson Asa Branca e Paulão dos Oito Baixos, meus manos forever!), do sociólogo Júlio Andrade (de Barra do Piraí-RJ), do Milton Cardoso (meu querido “Miltinho”, de Corumbá-MT) e do resto da cachorrada que frequenta o mocó: Não, não vou descontinuar essa nossa pocilga. O que vai acontecer é que vou demorar um pouco mais pra contar as novidades. Só isso.

Explico melhor. Juntei um bando de cachorros doidos do meu mesmo naipe para fazermos uma revista cultural eletrônica. Uma revista antropofágica, em que cada um é o seu próprio guia. Achou um texto legal, publica. Se puder dar os créditos, ótimo. Se não puder, ótimo também. Nossa função é compartilhar informações pra diminuir o nível de imbecilidade do planeta.

Começamos essa odisseia há quase um mês. Falei pra eles não se preocuparem com audiência a partir de uma premissa básica dos dervixes Naqshbandi: “Quem quiser encontrar, acha. Quem não quiser, encontra as trevas.”

Somos dez malucos por literatura, informação, música e humor, não necessariamente nessa ordem. E sabemos que vamos competir em um ciberespaço onde são criados 10 milhões de sites por mês. Foda-se. A maioria deles é em chinês...

Quem é nosso público-alvo?... Porra, não é neguinho que entra na internet via redes sociais, com um smarthphone comprado a perder de vista. Ou um tablete comprado de um ladrão de ocasião.

Não queremos papo, pelo menos por enquanto, com essa gente do facebook, instagram, google +, linkedin e twitter. Pelo menos, por enquanto.

Queremos conversar com essas 15, 20 mil pessoas que ainda frequentam livrarias nesse nosso Brasilsão cada vez mais jerico, cada vez mais roceiro, cada vez mais atrasado.

Gente que ainda gosta de conversar com um ser humano olhando nos olhos. Sim, sei, sabemos, é um sintoma de atraso tecnológico. Mas ainda somos assim, fazer o que?

Cada um dos dez malucos é livre pra publicar o que achar interessante. Mas estabelecemos algumas regras, que nem sempre são cumpridas.

Vamos a elas, por que cada uma representa um bloco autônomo dentro do site.

MEMÓRIA VIVA – Lembranças de Manaus, de Paris, de New York. Vale biografias de gente que nos informou. Vale mostrar o passado como caminho para o futuro. Vale tudo.

CONVERSA DE BOTEQUIM – Conversas de papo de bar em forma de entrevista. Escutar o que essa gente tem pra dizer, independente de quando rolou o papo. Eu, particularmente, fiquei enlouquecido quando li a entrevista do Aldir Blanc. E também gostei muito da do João Ubaldo Ribeiro.

CAUSOS DE BAMBAS – Estórias engraçadas, tipo causos, de gente que conviveu com a gente. Ou não. Todas elas guardam uma máxima, um ensinamento, uma vertigem. Descobrir é função do leitor. Não temos nada com isso.

BOCA DO INFERNO – Tem sido nosso pior papel, pelo menos por enquanto. A regra era colocar coisas polêmicas. Possivelmente, nossos (meu e de mais dois editores) conceitos de polêmicas são polêmicos. Parceiros colocam lá o que querem. E isso é bom. Não vamos nos dispersar por causa disso.

CHUMBO QUENTE – Também aqui estamos perdendo o pé. Era pra ser a polêmica das polêmicas. Parceiros preferem investir nisso pra polemizar. Tem sido divertido discutir com eles, sem censurar, a presepada. Como a maioria acha que é mesmo por aí, nos quedamos em respeito.

CABARÉ CHINELO – Qualquer matéria que o coletivo não achar interessante, mas achar que deve ser compartilhada. Rola muitas coisas interessantes. É a que mais leio, a mais divertida, a mais sacana, a mais doida e a mais doída. Experimente.

Se acharem que estou de sacanagem, entrem em uma dessas seções do CANDIRU e se divirtam. Vocês vão achar muito mais divertido do que esse meu blog. Papo sério.


quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Concurso de Fantasias e Máscaras no Teatro Amazonas


O colorido das plumas e paetês vai dar o tom especial ao Carnaval 2017, com o encantamento promovido pelo tradicional Concurso de Fantasias e Máscaras do Carnaval do Amazonas que o Governo do Amazonas realiza, via Secretaria de Cultura, nos dias 19 e 26 de fevereiro.

Em sua 14ª edição, o evento terá lugar no Teatro Amazonas, em alusão à comemoração dos 120 anos da casa, e acontece a partir das 18h, no dia 19, e 19h, no dia 26.

O concurso acontece nas modalidades Fantasia Infantil, dia 19, e Fantasia Adulto e Máscara, dia 26. Na modalidade “Infantil”, terá as categorias Luxo Infantil e Originalidade Infantil, divididas nas faixas etárias de 03 a 05 anos, 06 a 08 anos e de 09 a 12 anos.

Já a modalidade “Fantasia Adulto” conta com as seguintes categorias: Luxo Masculino, Luxo Feminino, Originalidade Masculina, Originalidade Feminina, Mestre Sala e Porta Bandeira, e Melhor Idade. E na modalidade Máscara, as categorias Originalidade e Luxo.

Durante o concurso, serão avaliados itens como a consonância com o título da fantasia e o seu histórico, a criatividade na elaboração, o desempenho cênico do (a) modelo, e o acabamento da peça. Além disso, algumas categorias terão critérios específicos na avaliação, como sintonia, evolução, emprego de certos materiais, tanto alternativos como nobres ou luxuosos.

“Os Concursos de Fantasia realizados pelo Governo, via Secretaria de Cultura, são uma tradição no cenário cultural do Amazonas e nos remetem aos antigos carnavais, com a participação das famílias, principalmente, das crianças”, declarou o secretário de Cultura, Robério Braga.

As inscrições do concurso são gratuitas, e para o Concurso de Fantasias Infantil, podem ser feitas no período de 8 a 17 de fevereiro, na sede da Secretaria de Cultura, e no dia 19 de fevereiro, das 15h às 17h, no Teatro Amazonas.

Já as inscrições para o Concurso de Fantasias Adulto vão de 8 a 24 de fevereiro, também da sede da SEC, e no dia 26 de fevereiro, das 15h às 18h, no Teatro Amazonas.

O edital e os demais documentos relativos ao concurso estão disponíveis no site editais.cultura.am.gov.br. Para mais informações sobre outras ações, projetos e atividades desenvolvidas pela Secretaria de Estado de Cultura, acesse facebook.com/culturadoamazonas e o Portal da Cultura (www.cultura.am.gov.br).

Banda Pega na Inxada é a nova atração do Galvez Botequim


Considerado o mais charmoso bar cultural de Manaus, o Galvez Botequim vai participar das folias de Momo com a sua tradicional frevolândia, que será realizada no dia 25 de fevereiro, sábado gordo, a partir das 13h.

Até o ano passado, o bar era reduto do Bloco É Mole Mas é Meu, que tinha como símbolo a simpática tromba de um elefante cor-de-rosa segurando uma sombrinha de frevo.

Esse ano, entretanto, uma espertalhona chamada Cristiane Costa registrou o nome do bloco como se fosse originário da comunidade da Grande Vitória e conseguiu ser contemplada no edital de patrocínio da Manauscult, deixando os verdadeiros fundadores do bloco a ver navios.

Para não deixar a peteca cair, o estado-maior do Galvez Botequim – Álvaro José, Célio Cruz, Torrinho, Mario Jorge Costa, Renan Freitas Pinto, etc – resolveu colocar um novo bloco na rua e o nome escolhido por unanimidade foi “Banda Pega na Inxada”.

A frevolândia do Galvez vai ser animada pelo grupo Meninos de Olinda e pelo DJ Nego Léo, especialista em mixar frevo tradicional com Pink Floyd e Led Zeppelin.

Estão estranhando o nome da banda?...

No Nordeste, a corruptela “inxada” tanto significa a ferramenta agrícola conhecida como sachola, charrua, enxada ou tapira quanto o órgão sexual feminino conhecido como perseguida, bacorinha, racha ou vagina.

Mas também pode designar o órgão sexual masculino, também conhecido como estrovenga, pomba, rola ou carne crescida.

Pegou em um, pegou em Deus.

O frevo da banda ainda está em fase de composição, mas já podemos adiantar alguns trechos da letra:

Nesse carnaval vou tirar o panema
Me fartar de mato, terra preta e urucu
Meu arpão já está bem afiado
Só vô embora se comer um baiacu

Dos caruanas quero só o maracá,
As cantorias e o cigarro tauhary
Uma cabrocha na paioça ou na ubá
Beber cauim e rebater com cunambi

Vem curupira, vem tomar chibé
Vem cá fazer uma pussanga da pesada
Que logo mais vai começar o fuzuê
Com uma boa ajuda da rapaziada:

Pega na inxada pra plantar a mandioca
Soca bem o pilão pra fazer piracuí
Bota peconha pra mode subir o pau
Que o carnaval pede beiju e açaí!

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Recordando João Nogueira


No primeiro ano do Projeto Pixinguinha, em 1977, uma aula de samba com João Nogueira e Cartola

Ele se definiu como “sambista de calçada”: não era do morro, não foi forjado pela tradição das escolas de samba e tampouco era da zona sul carioca, com o berço de classe média.

João Batista Nogueira Júnior – ou, simplesmente João Nogueira – cantava o que via nas ruas suburbanas do Rio de Janeiro, a boemia dos botequins, a malandragem, as histórias cariocas e também os sentimentos humanos com a musicalidade inata dos grandes sambistas, influenciado pelo som de Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa.

Neste ano, completam-se 17 anos da morte do intérprete e compositor. Ele partiu no dia 5 de junho de 2000, aos 58 anos, vítima de um enfarte. Seu legado conta com uma rica discografia de 18 discos-solo e outras participações em lançamentos coletivos e mais de 300 composições – a maioria gravada por ele mesmo, mas também interpretadas por nomes como Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Beth Carvalho, Alcione e outros. João Nogueira deixou quatro filhos, sendo um deles seu herdeiro musical: Diogo Nogueira.

João Nogueira nasceu no dia 12 de novembro de 1941, e cresceu no meio do samba e do choro: seu pai, com quem compartilhou o nome, era violonista e chegou a tocar com Noel Rosa. A casa da família, no Méier, zona norte da capital fluminense, era frequentada por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Donga e João da Baiana. João Nogueira deu seus primeiros acordes no violão para acompanhar o pai, que morreu precocemente, quando o sambista tinha apenas dez anos.


A ausência do pai levou João a trabalhar como vitrinista, vendedor e bancário. Mas nunca se afastou da música: desde os 15 anos, João compunha sambas para os blocos de carnaval do bairro. O sucesso veio no início da década de 70: o primeiro álbum, que levou seu nome, foi lançado em 1972. Mas só em 1974, quando lançou o segundo disco, “E Lá Vou Eu”, trazendo os sucessos “Batendo na porta”, uma ode à escola de seu coração, a Portela, e “Sonho de bamba”, composta junto com o grande parceiro Paulo César Guimarães, o som de João Nogueira explodiu.

Além de enfileirar clássicos como “Poder da Criação”, “As Forças da Natureza”, “Espelho”, “Nó na Madeira”, “Mineira”, “Súplica”, “Eu sei Portela”, João Nogueira marcou posição na defesa dos artistas nacionais e pela valorização do samba.

O Clube do Samba, criado por ele, Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho em 1979, teve a sua casa, no Méier, como primeiro endereço. O nome do movimento batizou, inclusive, um dos discos de João. Por ali passaram sambistas de várias gerações, compositores das escolas de samba e intérpretes. O bloco de carnaval do Clube do Samba também foi lançado, levando, todos os anos, para a Avenida Rio Branco a tradição do ritmo e as canções dos velhos carnavais.

João Nogueira foi mais que um compositor e letrista refinado: ele era também um cantor marcante, de voz grave e aveludada. Inovador, fazia interpretações recheadas de carioquismo, malícia e ritmo. Parte dos críticos consideram João Nogueira como o melhor intérprete de Noel Rosa.

Boêmio inveterado, flamenguista de coração e apaixonado pela Portela, João costumava dizer que em suas composições homenageava as coisas simples da vida, que são a matéria prima dos grandes sambas.

Neste especial do programa Samba na Gamboa, exibido pela TV Brasil, Diogo Nogueira homenageia seu pai, cantando os grandes sucessos de João Nogueira.

Os convidados são Paulo César Feital, amigo e parceiro de João, e Gisa Nogueira, irmã do sambista e compositora. Curta:

terça-feira, janeiro 31, 2017

Uma Noite Vermelho e Branco no GRES Andanças de Ciganos


Nesta sexta-feira, 3, a partir das 21 horas, na quadra do GRES Andanças de Ciganos, a simpática escola de samba da Cachoeirinha realiza a sua aguardada “Uma Noite Vermelho e Branco”, com a participação especial de Quinho do Salgueiro, Rebeca Pinheiro (mulata de ouro do carnaval carioca) e Cris Alves (musa da bateria do GRES Acadêmicos de Salgueiro).

Entre as atrações locais vão estar presentes a Bateria Show da Grande Família, a Bateria Vai ou Racha do Andanças de Ciganos e as Rainhas do Carnaval amazonense Rayssa Santos (2016) e Mayla Jéssica (2014). As Ciganas Glamurosas também vão mostrar uma coreografia especial. As mesas estão sendo vendidas a R$ 100 e o ingresso individual, R$ 10, pelo telefone 99202-7605. A quadra dos Ciganos fica na Rua Borba, entre as ruas Parintins e Tefé, na Cachoeirinha.

“Arrepiiiiiia, Salgueiro. Pimba, pimba! Ai que lindo, que lindo!” Quem nunca cantou junto de Quinho esse grito de guerra, dos mais conhecidos da Sapucaí? Pois é. Em 2015, ninguém cantou. Dono de um carisma particular, o cantor saiu da cena carnavalesca como num passe de mágica.

Após abandonar o carro de som da vermelho e branco para se candidatar à presidência da escola em 2014 – e, posteriormente, ter sua chapa impugnada –, o intérprete ficou sem microfone nas mãos para o desfile do Grupo Especial.


Quase três anos depois de sua frustrada busca pelo poder maior da “Academia do Samba”, o puxador admite que sua empreitada política foi um erro.

– Minha candidatura à presidência do Salgueiro foi um devaneio. Nunca mais vou tentar isso. Eu sou cantor, sempre fui, e se hoje eu sou o Quinho, devo ao samba. Não fiquei satisfeito como aconteceu, meu nome é sinônimo de alegria, quero manter sempre assim – confessa Quinho, que por 20 carnavais guiou os sambas do Salgueiro na Avenida.

Em outubro do ano passado, o Salgueiro fez uma grande festa para a escolha do samba enredo do carnaval de 2017. A presidente Regina Celi, chorando copiosamente e muito emocionada, anunciou o samba de Marcelo Motta como o grande vencedor.

A agremiação recebeu várias personalidades do mundo do samba, mas uma delas chamou a atenção de todos. Sempre irreverente, o intérprete Quinho passou quase toda a noite chupando pirulito e falou sobre um possível retorno para a escola:

– Estou com uma saudade imensa dessa escola que me projetou, que me tornou campeão por duas vezes, com sambas inesquecíveis e a presidente Regina Celi mais uma vez provou que é uma mãezona e está me recebendo aqui de braços abertos.

Perguntado sobre o fato de estar chupando um prosaico pirulito, ele explicou:

– Estou numa fase zen. Comigo tudo sempre foi muito intenso, quando fumava charuto, que sempre gostei muito, fumava bastante, quando bebia meu uísque gostava de beber bem, mas agora estou numa fase de beber uma água, uma coisa mais zen e estou curtindo um pirulito.

É essa nova fase zen do grande intérprete que os manauaras vão poder conferir na próxima sexta feira, na quadra do GRES Andanças de Ciganos. Todo mundo lá.

O conselheiro come...


Por João Ubaldo Ribeiro

Quando eu era estudante em Salvador, tinha sempre um colega ou professor especialista em histórias sobre Ruy Barbosa, a maior parte delas com certeza inventada. Não pode ser verdadeira, por exemplo, a anedota segundo a qual ele chegou a Londres e publicou um anúncio no Times: “Ensina-se inglês aos ingleses”. Também não boto muita fé em que ele se distraía arrolando dezenas de sinônimos para “chicote” ou “prostituta”, embora até hoje existam muitos conterrâneos meus que se aborrecem com quem desmente essas e outras alegações.

Mas há histórias sobre ele em que acredito. Uma delas, aliás, nem o tem como protagonista, mas, sim, sua mulher. Dizem que, procurado para dar um parecer ou realizar um trabalho qualquer, Ruy Barbosa, como acontece com muitos intelectuais, não costumava puxar o assunto do pagamento. E contam que, depois de ver o marido explorado com frequência, a mulher dele chamava o visitante para uma conversinha, na saída. Perguntava se tinham acertado alguma remuneração e, como a resposta era quase sempre negativa, ela, delicadamente, pedia ao visitante que voltasse e combinasse um pagamento.

– O conselheiro come... – explicava ela.

Pois é, o conselheiro comia. E eu, apesar de não ser nem conselheiro nem Águia de Haia, também como. Mas creio que há muita gente que acha que escritores, de modo geral, não comem, nem precisam de dinheiro para nada.

Como tudo mais, deve ser culpa da imprensa, que costuma falar em escritores de best-sellers internacionais, os quais ganham dois milhões de dólares por mês, papam nove entre cada dez estrelas de cinema e têm vastas coleções de carros e relógios de luxo.


A verdade, ai de nós, é que a maior parte dos escritores, não só aqui como no mundo todo, tem que se virar de várias formas para conseguir viver modestamente.

Acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática. As pessoas esperam que o escritor trabalhe de graça o tempo todo e ficam grandemente ofendidas quando ele se recusa.

Há poucos dias, um grupo de estudantes universitários passou para mim a tarefa que lhes tinha sido incumbida pelo seu professor de literatura brasileira e, como eu não concordei em fazer o trabalho por eles, ficaram aborrecidíssimos e só faltaram xingar toda a minha árvore genealógica. Para não falar que, mesmo que eu quisesse fazer o trabalho, não saberia responder a perguntas do tipo “como caracterizar sua inserção no contexto da literatura brasileira pós-moderna”.

As encomendas de trabalhos escolares aparecem mais ou menos a cada mês. Já originais de livros para meu exame chegam todos os dias. A impressão que tenho é que a maior parte dos autores deseja que eu largue tudo o que estiver fazendo, leia sofregamente os originais, adore tudo, escreva um prefácio arrebatado e edite o livro – após o que ele passará a ganhar dois milhões de dólares por mês, a papar nove em cada dez estrelas de cinema e, enfim, viver essa vidinha de escritor.


E, na verdade, a pessoa não quer uma opinião sincera, como sempre alega. Quer, o que, aliás, é natural, receber a confirmação de seu talento. Mas, se eu fosse ler todos os originais que me surgem, não faria outra coisa na vida. Além disso, tenho muito pudor de dar opinião sobre o trabalho alheio, não me acho qualificado. E fico sem graça e me sentindo culpado porque não posso ler os originais. Não é justo, pois não posso mesmo, mas é o que acontece.

Entrevista é outro trabalho de lascar. Parece-me que a entrevista devia ser destinada a obter informações que ainda não tenham sido tornadas públicas. Por exemplo, todo mundo que já ouviu falar de mim sabe que eu sou baiano e moro no Rio. Contudo, a esmagadora maioria dos entrevistadores começa perguntando onde nasci e se ainda moro em Itaparica. Uma repórter iniciou sua entrevista perguntando se eu era escritor.

As perguntas são invariavelmente as mesmas e podiam ser respondidas com uma olhada nos arquivos do jornal ou revista, mas eu tenho de dar a entrevista e, novamente, trabalhar de graça. Não aguento mais contar que livros publiquei, que gosto de escrever de manhã, que aprendi inglês quando era menino, que nasci em Itaparica e passei a infância em Sergipe etc. etc. etc.

No caso da televisão costuma ser pior. Todo mundo que trabalha em televisão, aqui neste país onde ela é das coisas mais importantes que existem, se acha o máximo porque trabalha na televisão. A síndrome de Bozó, do Chico Anysio, assume várias formas. Os seguranças tratam a gente como lixo, devendo dar-se por felicíssima por ter a chance de aparecer na tevê. Para trabalhar de graça, a gente tem de comparecer ao estúdio, identificar-se, botar crachá, ficar esperando e obedecer ordens estranhas, tais como não olhar para a pessoas com quem se está falando, mas para a câmera.


Uma vez me fecharam num cubículo durante um tempo interminável e aí, amedrontado, fugi. De vez em quando, alguém fica indignado porque uso óculos e dá reflexo, ou porque sou careca e também dá reflexo, quase me obrigando a pedir desculpas por existir.

O interessante é que, se o camarada é amigo do dono do armazém ou da quitanda, não lhe ocorre pedir para fazer a feira da semana de graça. Afinal, trata-se de um negócio, sobrevive-se daquilo. O escritor e o jornalista também sobrevivem de seu trabalho, mas parece que ninguém acredita nisso. Volta e meia sou levado a crer, pelo jeito imperioso com que frequentemente me intimam a trabalhar de graça, que acham que recebo um estipêndio do governo para exercer essas funções.

Quando, certa feita, aceitei pagamento para escrever e assinar um anúncio, caíram de pau em cima de mim e dos outros que toparam o mesmo serviço, como se tivéssemos vendido nossas santas e puras almas ao diabo. Sei que talvez fizesse muito melhor figura de escritor se vivesse bebum, esmolambado e tomando uns trocados emprestados aqui e ali. Mas, infelizmente, me falta vocação, devo ser um falso escritor, nem milionário nem miserável.

domingo, janeiro 29, 2017

T5 Jamaica bate o Vila Mamão e conquista o Peladão Brahma diante de 27 mil pessoas


Por Camila Leonel

Com inteligência e habilidade, o T5 Jamaica, da Compensa, conquistou o Peladão Brahma ao vencer o Vila Mamão por 3 a 1, gols de Sid, Brauli e Rafael. Claudinho descontou para o Vila Mamão. A partida final foi prestigiada por mais de 27 mil pessoas, em uma inquestionável sucesso de público.

Como não poderia deixar de ser, o título foi muito comemorado pelos jogadores e comissão técnica do T5. "Estou há dois anos no time, perdemos uma final e agora ganhamos. Então foi uma grande felicidade hoje, na Arena, com tanta gente assistindo, uma maravilha. O Peladão é tudo aqui para o futebol do Amazonas", destacou o jogador Raílton 'Gatinho', do T5 Jamaica.

Para o treinador do time campeão, o título foi fruto de um trabalho longo. "Estamos treinando há sete meses, coisa que nem time profissional faz. Só nós que estamos no dia a dia com o time e sabemos o que é preciso fazer para ser campeão. E hoje conseguimos", disse Evanilson Ferreira.

Do lado do Vila Mamão, a resignação com o resultado. "O time deles estava com mais vontade do que a gente, e foi o vencedor", desabafou Daniel, o treinador do vice-campeão.

O jogo

Movimentação não faltou no primeiro tempo da final da categoria principal entre Vila Mamão e T5 Jamaica. O primeiro a colocar fogo no jogo foi o Vila Mamão com Pedrinho saindo em velocidade pelo meio do campo no primeiro minuto de jogo. Parado com falta, Claudinho cobrou, mas a bomba foi defendida pelo goleiro Ian, do T5 Jamaica. Aos três minutos, novamente Claudinei chegou soltando uma bomba em direção ao gol adversário, mas o goleiro defendeu novamente.

Mesmo com um começo mais intenso do Vila Mamão, quem abriu o placar foi o T5 Jamaica. Maik, ao cobrar falta, rolou a bola para Thiaguinho tocar em Sid. O camisa oito  de fora da área chutou um balaço de primeira e a bola parou no fundo da rede. T5 1 a 0.

Atrás no placar, o Vila Mamão se lançou ao ataque. Com a forte marcação do T5, o jeito era apostar em jogadas individuais. Aos 12 minutos, Iran fez bela jogada individual e mandou para o gol, mas Ian salvou o T5 mais uma vez.
Outro lance de perigo aconteceu aos 24 minutos, com Irla chutando colocado de fora da área. A bola entraria no ângulo se não fosse a bela defesa de Ian.

No segundo tempo, o ritmo de jogo diminuiu, as equipes mais cautelosas evitavam dar muitos espaços para os adversários. Isso durou até os 10 minutos quando o T5 começou a crescer no jogo e pressionar. E a pressão resultou em gol. Com 13 minutos do segundo tempo, Michael cruzou da direita para Brauli cabecear no segundo pau. O goleiro do Vila Mamão até tocou na bola, mas ela já havia ultrapassado a linha do gol. T5 2 a 0.

Com a vantagem no placar, o T5 Jamaica passou a administrar o jogo. O Vila Mamão até tentava esboçar uma reação como aos 27 minutos após jogada de Claudinho para Paulinho, mas faltou alguém para concluir a jogada. O T5 jogando no contra ataque quase amplia primeiro com Thiaguinho e depois com Rafael, mas o goleiro evitou  os gols.

Aos 33 minutos o juiz marcou pênalti para o Vila Mamão. Claudinho bateu e descontou. Dois minutos depois quem foi derrubado na área foi o jogador do T5 Jamaica. Pênalti. Rafael cobrou e fez para o delírio da torcida que já gritava é campeão.  O placar seguiu inalterado até o fim, restando apenas a festa para toda a torcida da Compensa

sábado, janeiro 28, 2017

“Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra brincar”, é tema da 31ª Banda da Bica


A Banda Independente da Confraria do Armando (BICA) completa 31 anos e deve realizar a tradicional festa de carnaval no dia 18 de fevereiro. O bloco desce a rua 10 de Julho, no Centro Histórico de Manaus, a partir das 15h até 00h. A expectativa de público é de 70 mil pessoas.

Com o tema “Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra brincar” – inspirado em um bordão que ficou conhecido nas eleições para Prefeito de Manaus de 2016, a banda traz a tradicional crítica à situação política do país. “A banda da BICA sempre faz crítica do cenário político”, comentou uma das organizadoras e dona do bar, Ana Cláudia.

Diversas apresentações devem animar os milhares de foliões. Segundo a organização, devem se apresentar na BICA, a bateria da escola de samba Reino Unido da Liberdade, o bloco do Cauxi Eletrizado, a Orquestra Manaus Frevo e a Banda do Adal, trazendo as tradicionais marchinhas de carnaval.


Os ensaios (esquentas) irão começar no dia 2 de fevereiro, e devem continuar nos dias 9 e 16 do mesmo mês.

Recentemente homenageado com o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, o Bar do Armando foi fundado na década de 1970 pelo português Armando Dias Soares, que chegou a Manaus em 1953 e morreu em abril de 2012, aos 77 anos.

“É uma banda muito importante da cidade de Manaus que tem como característica manter as marchinhas de Carnaval. E outra tradição é que é uma banda segura, as pessoas vão confiantes de que vão brincar, e tem sido assim durante os 30 anos", afirmou a filha do Armando Soares, Ana Cláudia.

Conheça abaixo as duas primeiras marchinhas da BICA que já estão tocando nas rádios:



Marchinhas: tradição ou preconceito?


Por Guilherme Franco

Muito antes dos sambas-enredo das escolas de samba e dos trios elétricos fazerem sucesso, quem animava os foliões eram as marchinhas de carnaval. Alegres e fáceis de aprender, elas exprimem espírito das festas de rua ao mesmo tempo que fazem crônicas breves de seu tempo, se incorporando à cultura musical do país.

O auge da marchinha coincide com o auge do rádio, entre as décadas de 1930 e 1960, antes que a televisão começasse gradualmente a ocupar espaço na criação de modas e tendências associadas à música. Desde as primeiras composições, na década de 1920, as estrofes eram cheias de duplo sentido, deboches e em alguns casos, preconceitos.

A historiadora Rosa Araújo, juntamente com o jornalista Sérgio Cabral, fez uma pesquisa na qual ouviram mais de 1.300 composições entre as décadas de 1920 e 1970 para criarem o espetáculo teatral “Sassaricando: e o Rio inventou a marchinha”. Como verdadeiras crônicas do cotidiano da época, as marchinhas abordavam praticamente todos os assuntos: comportamento, vida doméstica, família, economia, clima, serviços urbanos, história do Brasil, entre outros.

De acordo com ela, não havia temática proibida à época quando o assunto eram as marchinhas de carnaval, o que valia era a criatividade e a brincadeira. As canções eram como cartuns, uma maneira rápida e vívida de cristalizar um aspecto engraçado ou paradoxal de uma situação qualquer.

“Elas faziam a crônica dos temas cotidianos com sarcasmo e bom humor, de tudo que atrai a atenção do povo. Não havia preocupação com questões político-sociais. No carnaval tudo é festa e alegria, pois são dias em que o Brasil está de perna para o ar”, explica.

Segundo a historiadora, as sátiras estavam adaptadas ao contexto político do momento. “Naquele período ninguém tinha noção do politicamente correto, o feminismo estava nascendo e o racismo era velado. No entanto, as pessoas sabiam que existiam esses preconceitos, mas foram noções que se desenvolveram com mais clareza no século XXI”.

Rosa Araújo entende que as marchinhas de carnaval ainda vão animar por muitos anos os foliões. “Elas são eternas, um patrimônio nacional. Serão sempre bem-vindas, pois retratam a história do Brasil”, crê.

Entre as marchinhas mais conhecidas com viés preconceituoso estão “Cabeleira do Zezé“— em que a homofobia está presente ao se perguntar se o “Zezé” é “transviado” e mandando cortar seus cabelos — e “Maria Sapatão” — em que se confunde identidade de gênero e orientação sexual. No caso da marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, música da década de 30, o verso “Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata eu quero o teu amor” é ilustrativo de um racismo nada implícito.

Para a militante feminista e autora do blogue “Que Nega é Essa?”, Aline Ramos, o fato das letras terem sido criadas num contexto político diferente do atual não significa que elas eram aceitas pelos grupos minoritários. “A diferença está na maneira em que essas pessoas se organizavam para reivindicar seus direitos e apontar o preconceito. Precisamos encarar as marchinhas como dispositivos culturais com forte poder de mensagem. E se essa mensagem violenta um grupo social de algum modo, ela deve ser revista”, opina. “Homofobia, racismo, transfobia e machismo matam do mesmo modo que matavam no passado”, completa.

Aline aponta os novos blocos de rua como um fator que pode ganhar força e se diferenciar das letras compostas nas últimas décadas. “Atualmente, esses blocos não possuem um apelo popular grande, mas são manifestações que estão surgindo de grupos que não estão satisfeitos com o que está estabelecido. Imagina que legal estar no bloco das negas empoderadas em vez do bloco da nega maluca?”, conclui.

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Uma explicação medianamente desnecessária


Em maio de 2011, ou seja, dez anos depois de ter lançado com sucesso um livro contando a gênese da música eletrônica (“Funk, a música que bate”, duas edições esgotadas, de 3 mil exemplares cada uma), resolvi fazer um post ironizando a baixa aceitação do gênero aqui na taba.

Para minha surpresa, dezenas de idiotas de plantão não entenderam o espírito da coisa e começaram a me espinafrar por meio de comentários preconceituosos, sem eira nem beira.

Além de me chamarem de gordo, feio e pobre (qualidades morais que nunca neguei!) e de morar no meio de índios (da tribo dos Papacus, sempre é bom lembrar...), começaram a achar que sou um “inguinorante” musical.

Porra, para um moleque que era DJ com 17 anos e ouvia Kraftwerk desde os quinze, isso soou como uma infâmia.


No início, achei divertido – e publicava os comentários. Com o tempo, virou um pé no saco – e comecei simplesmente a informar ao blogger que aquilo era spam. Foda-se.

Sim, porque a maioria dos comentários era assinada por um tal de “anônimo”. E de anônimo, já basta minha conta numerada na Suíça.

Confesso que não sei lidar com idiotas de plantão – sequer sei como eles vêm parar aqui no meu mocó, já que faço de tudo para mantê-los afastados.

Desconfio – sem poder provar – que é gente acostumada a transitar com desenvoltura na cracolândia virtual das chamadas redes sociais (facebook, whatsapp, google +, instagram, et caterva), em que o xingamento é publicado em tempo real.


Aqui no blogger, entretanto, o buraco é mais embaixo. Os comentários, negativos ou não, aguardam o moderador do blog para serem publicados.

E, como qualquer sujeito hedonista que adora compartilhar informações, eu publico ou não.

Dito isso, vamos entrar em um acordo: quem ficar puto com as minhas postagens, que guarde suas críticas bem escondidinhas no olho do cu e me esqueça completamente, já que não dependo de seus “likes” para ser feliz.

Sem contar que também não quero ser responsável pela sua frustração intelectual de retornar ao post diariamente e constatar que sua “crítica maravilhosa” não foi publicada.

Perca tempo com isso não, mainha... Vá dar duas horas de cu com o relógio parado, painho... Procurem o que fazer ali na esquina, mas me deixem em paz, please!

Existem 580 milhões de blogs na internet. Encontrem um pra chamar de seu, mas me errem, carálio!...

Now, quem tem senso de humor e sabe separar o joio do trigo, vai continuar sendo bem-vindo ao mocó. É para eles que continuo escrevendo. Simples assim.

Aviso aos meus queridos navegantes!

Eu, Iran e Marlon no primeiro esquenta da Banda da Caxuxa

Fiquei quatro meses sem aparecer aqui no mocó por que estava envolvido em uma série de projetos. O maior deles, em importância, era ressuscitar o site Candiru, o único portal de humor da cidade (os outros também são de humor, mas se acham sérios...). 

Por enquanto, a experiência está sendo bem-sucedida. Se quiserem conferir, acessem aqui.

Entre os demais projetos estava publicar dois novos livros ainda este ano, um sobre os 60 anos do Festival Folclórico do Amazonas e outro sobre os 35 anos do Carnaval de Educandos, além de copidescar um inédito (todo manuscrito) livro de crônicas do meu dileto amigo Moacir Andrade, falecido abruptamente no ano passado.

O livro sobre o festival já está em fase de revisão, o do carnaval está andando e o do Moacir Andrade ainda está nos primeiros passos porque muitas vezes tenho que adivinhar o que sua caligrafia octogenária estava querendo dizer. Choses.

Por enquanto, é isso. O New York Times informará.

Ah, e que 2017 seja pior do que 2018, mas infinitamente melhor do que 2016.

Vila Mamão é o representante da Zona Sul na final do Peladão


Depois de trinta anos de espera, o Vila Mamão F.C., de São Francisco, vai disputar sua primeira final no maior campeonato de futebol do planeta, segundo o jornal londrino The Guardian, que teve mais de 500 clubes na disputa desse ano. O jogo será realizado neste sábado, na Arena da Amazônia, a partir das 15h. O adversário da Vila Mamão será o T5 Jamaica, da Compensa, campeão do ano passado.

No último sábado, 21, o campo do Clube da Petrobrás ficou pequeno quando Vila Mamão F.C e Liga do Aleixo/Náutico Clube disputaram a semifinal que daria a vaga ao primeiro finalista da categoria principal. Empurrado pelos gritos e cantos da torcida, o Vila Mamão acabou superando o adversário por 2 a 0 e garantindo a inédita passagem à grande final do Peladão.

“É um sonho de infância. Graças a Deus nós chegamos nessa final, devido à união de toda a comunidade da Vila Mamão. O time tem mais de 30 anos de Peladão e hoje tá fazendo história”, resumiu o treinador da equipe, Daniel Ricardo.

Sem perder a humildade, o Vila Mamão F. C. está cada vez mais confiante de erguer o título de campeão e coroar uma temporada de superação do time. “A união do grupo é o diferencial. Começamos mal nas primeiras rodadas do Peladão, os dois primeiros jogos foram empate devido ao time não se conhecer. Tivemos várias divergências de vaidade, mas no final o time se uniu e estamos indo pra decisão com o coração no bico da chuteira”, diz Edlúcio, um dos cartolas do clube.


Emily Moisa e Renata Penha (finalistas) e a nova rainha do Peladão, Thais Bergamini, vão participar da festa na Arena da Amazônia

Conhecido pela beleza de suas candidatas – Kelly Taline, Bruna Dayane, Camila Vieira, Paloma Albuquerque, Rossicléa Castilho, Luana Batista, Ana Paula e Luana Silva, entre outras, que sempre ficaram entre as 18 finalistas do concurso de Rainha do Peladão –, o Vila Mamão F. C. agora quer ficar conhecido pelo seu bom futebol. Por enquanto, a equipe contabiliza nove vitórias e apenas dois empates.

Na 1ª Fase, o Vila Mamão empatou com o Amigos do Beco (1x1) e com o Jardim Brasil (0x0), e derrotou o Locomotiva (5x0) e o Amigos do Roger (4x0). Na 2ª fase, foram quatro vitórias seguidas: 2x1 no Sete Quedas, 5x0 no Inefável, 2x1 no Unidos do Bueiro e 1x0 no Treze de Maio. Nas oitavas de final, o Vila Mamão fez 1x0 no Núcleo 5. Nas quartas de final, 3x0 no Caça Barca. Na semifinal, 2x0 no Liga do Aleixo/Náutico Clube.

Entre os destaques do time estão o goleiro De Leon (que já defendeu dois pênaltis), Parintins (ex-São Raimundo), Claudinho (ex-São Raimundo), Iran, Serginho (ex-campeão do Peladão pelo Alvorada) e Rossi (ex-capitão de equipe do Compensão). Entre os torcedores fanáticos estão Ivancy Wilkens (ex-campeão amazonense de jiu-jitsu) e Áureo Petita (primeiro craque do Peladão pelo Murrinhas do Egito, em 1974).

Hegemonia da Zona Sul


Nesses 43 anos, a taça de campeão do Peladão foi conquistada apenas duas vezes por times do interior do Estado (Furacão, em 1985, e Entram, em 1993 – ambos de Manacapuru). Nas outras 41 edições, o título de melhor equipe de pelada ficou em Manaus, e desse total, o grito de “é campeão!” foi ouvido 21 vezes nos bairros da Zona Sul.

A Zona Sul não abriga somente o maior número de títulos. É de lá também o time mais vitorioso da história do Peladão. A máquina de levantar troféus do maior campeonato de pelada do mundo atende pelo nome de Arsenal. A equipe da Colônia Oliveira Machado já foi campeã seis vezes. E em cinco edições bateu na trave, ficando com o vice-campeonato. Uma delas foi em 2012.

Se o Vila Mamão conquistar esse título inédito vai se juntar a uma pequena galeria onde já se encontram Arsenal, Estrela (Praça 14, um título), Estalo (Santa Luzia, dois títulos), Arranca Toco (Educandos, um título), Tuna Luso (Praça 14, três títulos), Zaire (Cachoeirinha, um título), Transmiro (Praça 14, um título), Janjão Gouvea (Praça 14, um título), Park Club (Cachoeirinha, um título), União da Ilha (Manaus Moderna, dois títulos), Alternativa (Petrópolis, um título) e Martins Vical (Adrianópolis, um título). O bicho vai pegar.