Pesquisar este blog

terça-feira, novembro 12, 2019

Afinal, Moby Dick era o homem ou a baleia?



Por Ruy Castro

Na Nova York dos anos 20 e 30, ninguém podia considerar-se a salvo das frases e gozações da turma que compunha a famosa “mesa-redonda” reunida diariamente no hotel Algonquin. Entre os alvos favoritos daqueles escritores e jornalistas, estava um amigo e colega deles: Harold W. Ross, fundador e editor da revista The New Yorker, na qual quase todos trabalhavam ou colaboravam. Ou seja, Ross era o patrão (e generoso nos pagamentos), mas nem assim o poupavam. E, conhecendo bem seu temperamento estouvado e cômico, faziam questão de que ele soubesse das piadas. Pois um livro recém-lançado nos EUA, Letters from the Editor – The New Yorker’s Harold Ross (Thomas Kunkel, org., Modern Library, 428 págs., US$ 15,95), com centenas de cartas e memorandos que ele escreveu de 1917 a 1951, faz finalmente justiça ao homem. Harold Ross era um gênio como editor de revista.

Ross tinha 33 anos quando lançou a New Yorker em fevereiro de 1925. A revista, previamente anunciada como a publicação mais sofisticada que os EUA jamais veriam, foi um retumbante fracasso nos primeiros meses – chegou a ser considerada “um dos maiores fiascos de 1925”. Entre outros motivos, porque era ruim mesmo.

Ross ainda não acertara o ponto e, no começo, seus amigos do Algonquin – Robert Benchley, Dorothy Parker, Alexander Woollcott, Ring Lardner, Herman J. Mankiewicz, Robert Sherwood, George S. Kaufman, Franklin P. Adams, a nata do humor americano – não se dispuseram a colaborar regularmente.

Sem anúncios, sem circulação e reduzida a menos de 50 páginas, The New Yorker só não fechou pela obstinação de Ross, que vendeu os móveis e empenhou as jóias de sua mulher, Jane Grant, para manter a revista respirando. Foi salvo à beira do precipício pelo dinheiro injetado por seu sócio, Raoul Fleischmann, herdeiro da célebre marca de fermento e que, com isso, se tornou acionista majoritário. Em 1927, como se estivesse sendo engrossada com maizena, The New Yorker aprumou-se e começou a crescer. No fim da década, já era um sucesso editorial e comercial, e não seria abalada nem pela depressão pós-estouro da Bolsa em 1929.

As piadas que se faziam com Ross no Algonquin tinham a ver com sua aparência e ignorância. Ross era desajeitado, muito feio (tinha uma falha entre os dentes frontais na qual caberia, fácil, outro dente) e frenético – exceto em emergências, não conseguia ficar sentado (ou de pé) por mais de dois minutos. Quanto a seus conhecimentos, as paredes do Algonquin quase desabaram quando ele perguntou (a sério) na mesa-redonda: “Afinal, Moby Dick é o homem ou a baleia?” Ross podia não saber de literatura, de música ou de artes plásticas, mas tinha uma qualidade já então rara em jornalistas: sabia ler – no sentido de que, se sobrevivesse a seu lápis, qualquer texto alheio sairia enxuto, coerente, perfeito.


Esse perfeccionismo no detalhe era estendido à sua idéia do que uma revista deveria conter: rigoroso equilíbrio e ritmo entre as matérias (artigos, reportagens, cartuns, serviço), as quais deveriam ter em mente o interesse do leitor e o interesse público. Quando se tratava de fazer revista, Ross enxergava a floresta, a árvore e a folha: em poucos anos, The New Yorker deixou de ser uma revista apenas “sofisticada” para dar shows de reportagem, análise e criatividade no resto da imprensa americana, nisso incluindo sua arqui-rival Time, de Henry Luce.

Vários livros anteriores sobre a revista têm ressaltado a importância de Ross: Here at The New Yorker, de Brendan Gill, The Years with Ross, de James Thurber, e até Ross, The New Yorker and Me, de Jane Grant (de quem ele se separou sem ser correspondido). Mas, mesmo esses livros não conseguem ignorar o folclore que o cercava: seu permanente desespero com o fechamento da edição, com a incompetência de sua equipe e com a preguiça dos colaboradores – tudo levado a um exagero caricatural e compensado logo depois com cargas de elogios à competência da mesma equipe e com reajustes e gratificações salariais. Esse folclore tem turvado as fantásticas realizações de Ross como editor, muitas das quais se tornariam padrão na melhor imprensa mundial. O livro de suas cartas (para funcionários, amigos ou inimigos) mostra, pela primeira vez, o próprio Ross falando. É nelas (não importa o destinatário) que se percebe o que ele fez.

Ross cuidava de tudo na redação: contratava e demitia, criava assuntos, aliciava colaboradores e, nas emergências, juntava-se à redação nos fechamentos. Apesar de fazer-se cercar por editores tão exigentes quanto ele (Katherine e E.B. White, Wolcott Gibbs, Rogers Whitaker, William Shawn), lia cada original (dando palpite até nas vírgulas), discutia a precisão das informações e sugeria fontes quentes para os repórteres. Era um jornalista completo, mas não se contentava com isso: interferia também na publicidade e na administração.


Mesmo nos tempos de penúria financeira, estabeleceu a regra de recusar anúncios obviamente mentirosos ou de mau gosto e vetou matérias sobre hotéis ou resorts “restritos” (ou seja, que não aceitavam judeus). Num memo de 1932, deu um exemplar puxão de orelhas em seu patrão Raoul Fleischmann, por este ter pedido, por intermédio da redação, ingressos para a estréia de um show – Ross insistia em que a revista não pedisse ou aceitasse nada de graça. E, isso, apesar da mudança de seu status em relação a Fleischmann: ao ver que a revista se viabilizara, Ross vendera-lhe suas ações, reduzindo-se a funcionário da empresa que criara – para não perder o “ponto de vista dos empregados”.

Foi Ross, ao contratar a jovem Janet (“Genêt”) Flanner, como correspondente em Paris, quem estabeleceu a máxima que deveria ser seguida por todos os correspondentes: “Não quero saber o que você pensa sobre o que acontece em Paris. Quero saber o que os franceses pensam.” Falando de correspondentes, Ross recusava-se a ter um fixo em Hollywood, embora o cinema e suas fofocas fossem a diversão maciça dos americanos nos anos 20 e 30 (e ele fosse amigo pessoal de James Cagney, Ginger Rogers e Orson Welles).

Pelo mesmo motivo, vetou a idéia de uma coluna permanente sobre rádio, cuja força era então equivalente à da televisão hoje. Não era bem um preconceito contra o cinema e o rádio — porque, para Ross, Wall Street também não merecia uma coluna fixa. Segundo ele, os assuntos deviam valer pela notícia, não pela importância que seus militantes se auto-atribuíam.


Ross inventou Dorothy Parker como crítica de livros e, depois dela, entregou a coluna literária a Edmund Wilson (o que equivalia na época a contratar J. Edgar Hoover como chefe de segurança do prédio). Ross ajudou a fazer muita gente, mas gostava também de atrair os pesos pesados para a revista, desde que os admirasse  Hemingway, H.L. Mencken, S.J. Perelman, John O’Hara, Rebecca West – e dava um jeito de que eles fossem pagos de acordo. E foi também o responsável pela eternidade das capas da New Yorker, ao decidir que elas não teriam personagens reconhecíveis (vetou uma capa com Hitler no apogeu da 2ª Guerra, alegando que ninguém podia garantir que Hitler durasse até a semana seguinte). O fato de que, hoje, livros com as capas da New Yorker (algumas datando de 75 anos!) vivem sendo publicados é a prova de que ele estava certo.

Ross criou até o cartum moderno. Foi o primeiro a fazer com que as falas dos personagens se reduzissem a uma linha (uma única fala, e não mais a pergunta e resposta tradicionais). O cartum ideal era aquele que integrava desenho e palavra e que não podia ser entendido sem um desses elementos. (No Brasil, temos um exemplo clássico, da autoria de Jaguar: Cristo pregado na cruz, dizendo para uma invisível Maria Madalena, “Hoje não dá, Madalena. Estou pregado.” Desenho e fala não querem dizer nada isoladamente, mas juntos desfecham o riso. Viva Ross.)

Outra sacada de Ross: se há mais de um personagem no desenho, o que fala deve estar com a boca aberta, para que não haja dúvida. Daí a piada que corria no Algonquin: Ross brandindo um cartum pela redação e perguntando, desvairado, “Qual dos elefantes está falando???”. E sabe quais eram os cartunistas com quem ele falava grosso na New Yorker? James Thurber, Peter Arno, Charles Addams (criador da Família Addams), Otto Soglow (criador do Reizinho) e um jovem rumeno que Ross chamou, em 1942, de “a maior revelação dos últimos 50 anos”: Saul Steinberg.


Ross se detinha sobre cada cartum para certificar-se de que, no desenho, as roupas estavam abotoadas do lado certo, os degraus de uma escada obedeciam à escala correta ou as portas não se abriam ao contrário. Para ele, erros assim eram prejudiciais ao entendimento do cartum. E treinou seus diretores de arte para decidir qual desenhista era mais adequado a esta ou àquela ideia e vice-versa. Um cartunista podia submeter-lhe uma ideia e ele gostar dela, mas achar que ficaria melhor se desenhada por outro. Ou um desenho ter várias falas possíveis e ele submetê-lo à redação até que alguém surgisse com a fala ideal. Ross morreu em 1951, mas a New Yorker manteve até hoje seus critérios. Daí, nesses 94 anos, raramente ter publicado um mau cartum. Há uma ciência nisso.

Quando a New Yorker se impôs como o máximo da “sofisticação”, seus leitores passaram a reagir como tal, mas Ross era contrário a adulá-los. O único critério sobre se um artigo sairia ou não era a sua qualidade  ele não queria saber se o tal artigo se adequava ou não ao “perfil” do leitor. Da mesma forma, proibiu campanhas publicitárias sobre a New Yorker em outros veículos – o melhor comercial de uma revista era a sua excelência editorial, insistia Ross, e não frases ocas dizendo que ela era ótima. E sugeria que o dinheiro gasto em publicidade fosse dirigido à redação, para que ele pudesse pagar melhor aos colaboradores.

Um desses colaboradores era o repórter John Hersey, que ele mandara cobrir a guerra na costa do Pacífico. Quando os EUA arrasaram Hiroshima, Ross pediu a Hersey um relato (do tamanho de que precisasse) do que significava uma cidade ser atingida por uma bomba atômica. A matéria, intitulada Hiroshima, tomou a edição inteira do dia 31 de agosto de 1946 e marcou a virada decisiva da New Yorker como uma revista “séria”. Mas ela já era assim pelo menos desde Pearl Harbor, em 1941 – nos quatro anos seguintes, Ross despachara 13 repórteres para o front e produzira edições “pônei” semanais da New Yorker (24 páginas em formato menor, sem anúncios), especialmente para as tropas americanas. O próprio Churchill era leitor da revista. E, muito antes disso, Ross já era tão ciente de sua importância que, certa noite de 1934, quando um amigo convidou-o a jantar com Gertrude Stein, ele mandou um bilhete de volta: “Cago para Gertrude Stein. Se quiser jogar gamão esta noite, estou às ordens.”

Ross falava chulices e palavrões o tempo todo, mas, até sua morte, em 1951, não admitiu uma única palavra dúbia na revista, nem mesmo a respeito de funções intestinais. E, à sua maneira quase rústica, ele podia ser também elegantíssimo. Certa vez trancou-se no toalete da revista com o original de um longo artigo submetido por um colaborador. Uma hora depois, descobriu que o rolo de papel higiênico estava vazio. No mesmo dia, escreveu uma carta para o colaborador, explicando que o artigo sumira misteriosamente enquanto estava sendo analisado para publicação.

segunda-feira, novembro 11, 2019

Sobre personalidades e personalidades



Por Mouzar Benedito.

“Se você tiver que adquirir personalidade em algum livro de autoajuda, é porque não tem nenhuma” (Não sei quem disse isso, mas concordo)

Estranhamente, a palavra “personalidade” insiste em ficar na minha mente desde o processo eleitoral acontecido há poucos meses. O Facebook contribuiu para isso. Como já disse várias vezes, eu me negava a entrar no dito-cujo, mas em 2018 cedi à insistência de algumas pessoas e entrei. Durou pouco.

O padre Antônio Vieira dizia que “o melhor retrato de cada um é aquilo que escreve”, e hoje em dia parece que isso se comprova no tal de Facebook. Muita gente revela sua verdadeira personalidade nessa coisa. Despem-se das aparências.

Então, entrei nessa “mídia social” e não gostei do que vi. Peguei ojeriza por certas pessoas e (injustamente?), pela ferramenta que usam para se expor. Tem aquele ditado: “Portador não merece pancada”, e realmente o Facebook é só o “portador” da revelação de personalidades. Se ele leva notícia ruim a culpa não é dele.

Numa época de tantos afastamentos, é ruim “perder” relacionamentos amigáveis ou mais ou menos amigáveis. Mas vale a pena manter esses relacionamentos? Enquanto não sabia o que certas pessoas realmente são, ficava por isso mesmo, mas sabendo, dá pra engolir?

O certo é que existe personalidade e “personalidade. “Personalidade” pode ser justificativa para coisas injustificáveis. Incluo nisso as “justificativas” dos seguidores de Bolsonaro para as imbecilidades que ele diz: “É o jeito dele”. Pronto. Só isso. “Jeito” e personalidade aí podem ser vistos como sinônimos. Ou caráter. Lembro-me de uma frase que disse uma vez a um sujeito: “Caráter não lhe falta, tem até de sobra. Só que péssimo”.

Hitler dizia que você pode cometer o crime que quiser e culpar a oposição, que “as massas acreditam”. Seguidor de Bolsonaro é assim, acredita, e ele segue o mestre, culpando ONGs por queimadas na Amazônia, em grande parte consequência do que ele e seus ministro do sem ambiente vêm falando fazendo.

Enfim, é a “personalidade” dele, como disse um pastor deputado. Pode fazer o que quiser, agredir quem quiser, ofender, ser grosso, culpar os outros pelos efeitos horríveis de seu governo, falar merda direto. Aliás, merda é um assunto recorrente dele. Assim, vale, por exemplo, uma agressão gratuita à mulher do presidente da França, dizendo que a idade dela, comparada com a da primeira-dama brasileira, é a explicação para as críticas do presidente francês ao brasileiro.

Para tentar aliviar minha mente que insiste na palavra “personalidade”, coletei um montão de frases (montão mesmo) e reproduzo aqui.

* * *

Tati Bernardi: “Ela é burra, limitada, quieta e sem personalidade. Ela é a mulher perfeita pra você”.

* * *

Papa Francisco: “Não é necessário consultar um psicólogo para saber que quando você denigre o outro é porque você mesmo não consegue crescer e precisa que o outro seja rebaixado para você se sentir alguém”.

* * *

Martha Medeiros: “A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos e uma malícia que inquieta todos quando sorri… As pessoas se questionam: o que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo. Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas”.

* * *

Alphonse Karr: “Cada homem possui três personalidades: a que exibe, a que tem e a que pensa que tem”.

* * *

Nietzsche: “Torna-te aquilo que és”.

* * *

Cora Coralina: “Procuro suportar todos os dias minha própria personalidade renovada, despencando dentro de mim tudo que é velho e morto”.

* * *

Vergílio Ferreira: “Não é por causa dos outros que somos o que somos: é sempre por causa de nós”.

* * *

Assis Chateaubriand: “Vargas deverá ter sido o ser mais estranho e sobre-humano que teve até hoje a galeria dos homens de governo”.

* * *

Paul Harris: “A personalidade tem o poder de elevar, o poder para oprimir, o poder de amaldiçoar e o poder de abençoar”.

* * *

Martin Luther King: “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”.

* * *

Tristão de Ataíde: “A primeira condição para ser alguma coisa é não querer ser tudo ao mesmo tempo”.

* * *

Malcolm X: “Todas as experiências se fundem em nossa personalidade. Tudo o que nos acontece é um ingrediente”.

* * *

Carl Jung: “Existem bilhões de pessoas no planeta e muitos tipos de personalidades diferentes. Algumas são introvertidas, outras extrovertidas; algumas se guiam pela lógica e outras pelos sentimentos. Em um mundo com tanta diversidade, como aprendemos a lidar com aqueles que são diferentes? E como aprendemos a entender e aceitar quem nós somos?”.

* * *

Jung, de novo: “O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambas sofrem uma transformação”.

* * *

Henry Van Dyke: “No progresso da personalidade, o primeiro é a declaração de independência e, em seguida, o reconhecimento da interdependência”.

* * *

Herta Muller: “Eu embalei-me em silêncio de uma forma tão profunda e por tanto tempo que nunca mais consegui exprimir-me usando palavras. Quando falo, apenas me embalo de forma um pouco diferente”.

* * *

Epicuro: “Imagine-se para si mesmo um caráter, modelo de personalidade cujo exemplo esteja determinado a seguir, tanto em privado e em público”.

* * *

Kurt Cobain: “Eu uso pedaços de personalidade de outros para construir a minha”.

* * *

Alice Cooper: “Eu tenho complexo de Peter Pan com personalidade de Capitão Gancho”.

* * *

Fernando Pessoa: “Sou a cena nua onde passam vários atores representando várias peças”.

* * *

Fernando Pessoa, de novo: “Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio”.

* * *

Alberto Caeiro: “Aceito por personalidade: nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, mas nunca ao erro de querer compreender demais, nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência, nunca ao defeito de exigir do mundo que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo”.

* * *

Annie Frank (em seu “diário”): “Eles criticam tudo a meu respeito – e quer dizer tudo mesmo: meu comportamento, minha personalidade, meus modos; cada centímetro meu, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça”.

* * *

James Russell Lowell: “Não importa do que você tenha certeza, tenha certeza de uma coisa: você é igualzinho a um bando de gente”.

* * *

Ana Carolina: “O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”.

* * *

Glauber Rocha: “Não me interesso pelo público, não persigo o elogio e tenho horror a me sentir gratificado”.

* * *

Bob Marley: “Eu não ligo para o que as pessoas pensam sobre mim, porque minha personalidade não é de opiniões e sim de atitudes”.

* * *

Arlindo Colaço: “O ser humano é, por natureza, sujeito a quedas e falibilidades”.

* * *

Doris Lessing: “Para as mulheres como eu, a integridade não é castidade, não é fidelidade, não corresponde a nenhuma das palavras antigas. Integridade é o orgasmo. É algo sobre o qual não tenho controle”.

* * *

Max Nunes: “Personalidade é aquilo que uma pessoa tem quando não está precisando de emprego”.

* * *

Oscar Wilde: “Se há uma coisa que destrua a personalidade, essa coisa é a fidelidade às promessas; talvez também o gosto pela verdade”.

* * *

Oscar Wilde, de novo: “Só os ocos conhecem a si próprios”.

* * *

Oscar Wilde, de mais uma vez: “Quase todas as pessoas são outras pessoas. Seus pensamentos são alheios, suas vidas uma mímica, seus amores uma frase”.

* * *

E mais Oscar Wilde: “A personalidade é coisa assaz misteriosa. Nem sempre podemos analisar o homem pelo que faz: às vezes ele observa a lei e, no entanto, não possui valor; outras, infringe-as e, no entanto, é grande”.

* * *

Margaret Thatcher: “Faça você um cavalo-de-pau, se quiser. Esta mulher não recua”.

* * *

Agustina Bessa-Luis: “A rapidez que as pessoas imprimem às suas vidas faz com que simplifiquem a realidade e fabriquem o que se chama a ‘personalidade do momento’. Sobretudo nos políticos e homens à escala governativa, isso exprime-se por manifestações impulsivas, peculiares a cada hora, vinculadas às situações proteiformes”.

* * *

Madonna: “Eu acho que no final, quando você é famoso, as pessoas gostam de reduzi-lo a alguns traços de personalidade. Eu acho que me tornei ambiciosa. Intimidante. E isso é parte da minha personalidade, mas certamente não é, de longe, o conjunto completo”.

* * *

Catherine Zeta Jones: “Eu tento manter uma atitude positiva. Ser negativo não é bom para a minha personalidade. Me baixa o humor e afeta os que me rodeiam”.

* * *

David F. Wells: “Em nossa cultura pós-moderna, dominada pela televisão, e a imagem sensível e moralmente vazia, a personalidade é tudo e o caráter é cada vez mais irrelevante”.

* * *

Clóvis Bevilacqua: “Personalidade é a aptidão, reconhecida pela ordem jurídica a alguém, para exercer direitos e contrair obrigações”.

* * *

W. C. Fields: “Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo”.

* * *

T. S. Eliot: “A poesia não é um voltar-se para a emoção, mas uma fuga da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade. Mas, é claro, somente aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa querer fugir delas”.

* * *

J. W. Goethe: “Personalidade é tudo na arte e na poesia”.

* * *

Salvador Dalí: “A pintura é uma parte infinitamente diminuta da minha personalidade”.

* * *

George Foreman: “O esporte precisa de personalidade, não de um lutador. Temos um monte de grandes lutadores no esporte, mas não de personalidades. Ninguém está para defender nada. O último caractere que tínhamos era Mike Tyson. Ele defendia alguma coisa. Não era muito, mas manteve-se firme por uma causa”.

* * *

Joseph Addison: “Um temperamento agradável pode compensar-nos a falta de beleza, mas a beleza não basta para nos indenizar de um temperamento desagradável”.

* * *

Anaïs Nin: “A ela falta o núcleo da sua própria segurança; ela deseja admiração insaciavelmente. Vive de reflexos de si mesma aos olhos dos outros. Ela não se atreve a ser ela mesma”.

* * *

Natalie Portman: “É lindo quando a personalidade de uma pessoa brilha através da sua aparência. Como na maneira de caminhar, cada vez que você olha, o que você quer é ir abraçá-la”.

* * *

Charles Caleb Colton: “O orgulho é como um ímã apontado constantemente para um objeto; a personalidade, porém, ao contrário do ímã – ela não possui polo atrativo – repele em todas as direções”.

* * *

Rousseau: “Há momentos em que eu sou tão diferente de mim que poderia ser tomado por outra pessoa, de uma personalidade totalmente oposta”.

* * *

Bruce Lee: “Seja sempre você mesmo, expresse-se, tenha fé em si mesmo, não saia à procura de uma personalidade bem-sucedida para duplicá-la”

* * *

Simone de Beauvoir: “Seja você mesmo, apenas você mesmo, é uma experiência incrível e totalmente original que é difícil de se convencer de que algo tão singular acontece a todos”.

* * *

Ralph Emerson: “Ser você mesmo em um mundo que está constantemente tentando fazer de você outra coisa é a maior realização”.

* * *

Steven Spielberg: “Nunca me senti confortável comigo próprio como fazendo parte de uma maioria. Sempre me senti estranho e tímido, e de fora dos grandes momentos das vidas dos meus amigos”.

* * *

Erich Fromm: “O amor muitas vezes não é senão um câmbio favorável entre duas pessoas que recebem a melhor parte do que elas podem esperar, considerando o seu valor no mercado de personalidade”.

* * *

Miguel Unamuno: A dor é a substância da vida e a raiz da personalidade, pois somente sofrendo se é uma pessoa”.

* * *

Khalil Gibran: “Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes”.

* * *

André Gide: “A personalidade dos grandes homens faz-se das suas incompreensões”.

* * *

André Gide, de novo: “Nós preferimos ir deformando e distorcendo todas as nossas vidas, ao invés de tornar-se como o retrato de nós mesmos que nos têm atraído. É um absurdo. Corremos o risco de deformar o melhor de nós”.

* * *

Rebecca McKinsey: “Eu prefiro ser uma pequena estranha que uma grande chata”.

* * *

Renato Russo: “Se tivesse que fazer tudo de novo, faria tudo de novo, pois é da minha personalidade”.

* * *

Gandhi: “Eu quero a liberdade para a plena expressão da minha personalidade”.

* * *

Clarice Lispector: “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo”.

* * *

Clarice Lispector, de novo: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

* * *

Marquês de Maricá: “Muitas pessoas se prezam de firmes e constantes que não são mais que teimosas e impertinentes”.

* * *

Bernard Shaw: “A vida é uma pedra de amolar; ela vos desgasta ou afia, conforme o metal de que sois feito”.

* * *

Richard Lindgard: “É possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa”.

* * *

Guimarães Rosa: “O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por argueiro nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que ‘agitar-se não é agir’”.

* * *

Guimarães Rosa, de novo: “Se a semente tivesse ‘personalidade’, nem a árvore nasceria”.

* * *

Caio Fernando Abreu: “Você tem alguma receita pra gente mudar de vida? E pra tomar decisões: E para mudar de personalidade? E para flagrar-se? E para pagar o karma em suaves prestações? E pra desorientação aguda, você tem? Se tiver, me passa que eu preciso”.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Uma pequena proposta para um curso de cinema



Por Rafael Galvão

Vi a grade curricular do curso de cinema da UFF. Entre as disciplinas oferecidas, Teoria da Percepção; Realidade Socioeconômica e Política Brasileira; História das Formas de Expressão; Português XVII; Introdução à Filosofia; Introdução à Sociologia; Ética; Legislação e Pol. do Cinema e do Audiovisual (imagino que o Pol. se refira a “política”, mas vai saber, né?). Entre as optativas uma miríade espantosa de assuntos, que vão de Comunicação Interpessoal a Ética e Ciência.

São oito semestres. E depois desses quatro anos o garoto que entrou na faculdade achando que ia sair de lá transformado magicamente em um novo Scorsese — ou, se tem desvios graves de caráter, um novo Godard — sai praticamente como entrou; talvez apenas um pouco mais arrogante, um pouco mais iludido sobre o seu papel no mundo, com uma variedade maior de conhecimento raso sistematizado e a capacidade de discutir cinema no bar usando termos típicos da academia, como parametrizar, paradigma e intersubjetividade.

Não quero subestimar a ignorância dos jovens que chegam à universidade antes mesmo de terminarem a adolescência, com toda a imaturidade e características específicas que isso implica, nem fazer pouco dos professores dessas matérias que parecem só existir para garantir que a economia do país continue funcionando, gerando emprego numa indústria cada vez mais inchada de educação superior.

Talvez seja necessário, mesmo, desasnar os novos alunos em questões que dizem mais respeito ao seu posicionamento na vida do que ao cinema propriamente dito. Mas é estranho que esse tipo de coisa hoje caiba a um curso superior. Eu não sei, porque não entendo muito disso. Não sou professor, não sou pedagogo, não tenho licenciatura em nada — talvez em licenciosidade, vá lá. Gente mais bem qualificada que eu pode falar melhor sobre o assunto.

O que sei é que desses cursos de cinema saem, principalmente, jovens completamente preparados para repetir aulas em universidades, a passar adiante aquilo que aprenderam nos bancos desse tipo de escola, inclusive a não dizerem nada sem a chancela de um bocado de autores que, como eles, passaram suas vidas dentro desse ambiente acadêmico, cada vez mais hermético. A universidade, nos últimos tempos, parece estar se dedicando obsessivamente a perpetuar um círculo vicioso, a se realimentar constantemente enquanto se esgota em si mesma, cada vez mais distante do mundo real.

Os resultados práticos são pífios. A Universidade Federal de Sergipe, por exemplo, tem um curso de Audiovisual, recentemente promovido a Cinema, há muitos anos. E no entanto o mercado de produção audiovisual sergipano, que já não era exatamente notável e hoje sofre mais que os outros os efeitos da crise econômica e, mais grave, estrutural que está destruindo o setor de publicidade e sofre com a falta crônica de profissionais razoavelmente qualificados.

Por tudo isso, se eu fosse criar um curso de cinema mandava esse modelo às cucuias.

Uma das coisas que mais me impressionam é o número de estudantes que, tendo que estudar para a prova de Sociologia ou de Teoria da Comunicação, não viram os mais básicos filmes da história e não compreendem a sua evolução. O ambiente ao menos lhes possibilita falar obviedades sobre o cinema iraniano, ou sobre a militância em prol do cinema brasileiro, que é e pelo visto sempre será um valor que se esgota em si mesmo e não precisa de justificativa existencial. Mas tantos, tantos parecem não conhecer cinema de verdade.

Na Universidade Rafael Galvão (URGH! para os íntimos) o curso oferecido seria bem diferente.

No primeiro ano eu escolheria 200 filmes que, de alguma forma, fizeram o cinema evoluir aos longos desses últimos cento e poucos anos e os exibiria em ordem cronológica. Um filme por dia, com exceções abertas para obras como “Berlin Alexanderplatz”, por motivos óbvios.

Sei exatamente com qual filme começaria: The Wonderful Wizard of Oz, de Otis Turner.

Depois de cada exibição, chamaria profissionais da área e mesmo professores para explicar aos alunos o filme que acabaram de ver. Detalhar e realçar os elementos do filme, inovações narrativas. Explicar as técnicas em cada um, as razões pelas quais foram utilizadas. Contextualizá-lo em seu tempo e em relação ao que veio antes. Contaria a sua história e o seu papel na evolução do cinema. Mostraria, por exemplo, o que há de revolucionário nas mãos de Mae Marsh em “Intolerância”, ou na narrativa de “Cidadão Kane”, ou o que há de inovador em “Acossado”. Exibiria, por exemplo, “Perigo Delicioso”, com Tom Mix, “No Tempo das Diligências” e “Era Uma Vez no Oeste”, para que pudessem entender as diferenças e a evolução de um dos gêneros mais importantes do cinema, e também como e por quê.

No segundo ano eu exibiria tudo de novo, na mesma ordem, mas agora para estabelecer um grande debate com a participação de todos. Seria mais aberto, porque a meninada a essa altura teria, espera-se, uma visão mais abrangente do que é o cinema e de sua trajetória, e certamente enxergaria tudo de outra forma e compreenderia melhor cada filme. E só então os alunos estariam liberados para se especializar no que quisessem.

Em vez de um curso generalista como os de hoje, os dois anos seguintes seriam segmentados: cursos de montagem, de roteiro, de direção, de edição, de sonoplastia, cenografia. Não seriam esse amontado de matérias isoladas sobre temas disparatados que não parecem fazer nenhum sentido, a maior parte dos quais não interessa de verdade aos alunos. Seriam dois anos de prática, de resolução de problemas, de mão na massa. A tecnologia para isso já existe há muito tempo e é cada vez mais barata.

Obviamente, não dá para garantir a formação de novos cineastas, porque talento é coisa que não se ensina, no máximo se alimenta e incentiva. O que eu poderia garantir é esses garotos no mínimo estariam preparados de verdade para discutir e fazer cinema, saber o que estão vendo, ter os critérios necessários para avaliar um filme e o conhecimento para fazer também, se quisessem. E eu acho que querem.

Mas, como já disse, eu não entendo desses negócios de escola.

General Mosquito, o inimigo que sempre venceu o homem




Por Mário Sérgio Lorenzetto

Entre 1980 e 2010 a malária acabou com a vida de 1,2 milhão a 2,7 milhões de pessoas a cada ano. Dois terços eram menores de cinco anos. Não resta dúvida, os mosquitos mataram mais pessoas que qualquer outra enfermidade ou guerra ao longo da história. Fruto do estudo do inglês Timothy Winegard, ficou claro que as fêmeas dos mosquitos Anopheles enviaram para o outro mundo algo como 52 bilhões de pessoas do total de 108 bilhões que existiram ao longo da história de nosso planeta.

No transcurso da história os danos provocados por esse minúsculo inseto determinaram o destino de impérios e nações, paralisou atividades econômicas e decidiu resultados de guerras importantes. A linhagem exterminadora dos mosquitos, composta por umas três mil espécies, desempenhou o papel mais importante – e mais desconhecido – na configuração de nossa história.

Os cartagineses (povo que hoje vive na Tunísia) subiram e desceram os Alpes com dezenas de elefantes. Foram esses imensos animais decisivos nas derrotas iniciais sofridas pelas tropas romanas. O fim dessa guerra se deu em um enfrentamento entre o general cartaginês Aníbal Barca e o jovem Públio Cornelio Escipion. Aníbal foi derrotado na batalha de Zama – em 202 a.C.. Era o fim de um conflito que durara 17 anos. Mas não é bem assim...

O declive do exército cartaginês começara nos pântanos italianos quando os mosquitos da malária infligiram enormes perdas de soldados. O inseto ajudou a proteger Roma de Aníbal e suas imensas tropas.

Os visigodos, dirigidos pelo rei Alarico, foram os primeiros bárbaros a atacar Roma. A história conta que as tropas romanas estavam enfraquecidas pelo descontrole administrativo do império. Em 408 d.C., as tropas de Alarico começaram a sitiar Roma, que tinha um milhão de habitantes, em três ocasiões distintas. Em 410 d.C., ocorreu o último sítio. Uma vez dentro dos muros romanos, as hordas de Alarico empreenderam três dias de pilhagens, estupros, destruição e morte.

Satisfeitos com os estragos e o saque, os visigodos abandonaram Roma e se dirigiram ao sul da Itália, deixando atrás deles um rastro de sangue e ruínas. Ainda que tenham planejado retornar a Roma para arrasá-la para sempre, quando terminou a campanha do sul da Itália, as tropas de Alarico é que estavam arrasadas. A malária os dizimara. O poderoso rei, o primeiro a saquear Roma, morreu de malária no outono de 410 d.C. O general mosquito salvara Roma novamente.

Era 451 d.C. Uma coalizão de visigodos e romanos enfrentava o imbatível exército dos hunos comandados por Átila. A primeira derrota dos hunos ocorreu nas Ardenas (na Bélgica atual). Átila girou seus ferozes hunos e foi atacar o norte da Itália. Deixava um rastro de pânico e morte. Muito melhor do que fizeram os espartanos nas Termópilas, uma diminuta força romana, conseguiu deter os hunos que avançavam nas terras pantanosas próximas ao Rio Po. Uma gigantesca legião de mosquitos entrou rapidamente na batalha. Uma vez mais o General Mosquito salvara Roma.

Os mosquitos têm sido, durante milênios, a força mais poderosa para determinar o destino da humanidade. Desde a antiga Atenas até a Segunda Guerra Mundial, passando pela Guerra de Independência dos EUA ou pelo domínio de espanhóis e portugueses nas Américas, os mosquitos sempre foram decisivos.

Esse inimigo parecia, e segue parecendo, insignificante. Mas nunca foi derrotado. Afinal, quem deseja gastar com armas contra mosquitos se podem jogar fortunas gigantescas em imensas bombas?


NOTA DO EDITOR DO MOCÓ:

Quando o poeta e cantor roraimense Eliakin Araújo se uniu ao cantor e compositor amazonense Armandinho de Paula para escreverem o megassucesso “Mosquito da Malária”, sequer sabiam que estavam ironizando uma parte crucial da história humana. Antenas da raça!


quinta-feira, novembro 07, 2019

Como fazer comentários nas redes sociais



Por Edson Aran

Fazer comentários é uma nova forma de arte nesses tempos de redes sociais. Mas convém seguir algumas regras simples para melhor praticar essa atividade tão importante.

Primeiro: você não precisa ter opinião sobre tudo. Sei que é difícil conter o desejo de pitacar, mas autocontrole é bom. Se alguém compartilhar essa notícia — “Nasa descobre exo-planeta com a mesma massa da Terra” —, você não precisa ir lá e escrever: “Planeta comunista fã de bandido!”

Se fosse Marte, tudo bem. Marte, o Planeta Vermelho, como o próprio nome diz, é a terra de alienígenas gramcistas que só querem destruir a civilização ocidental. Já o exo-planeta da Nasa pode ser um mundo terrivelmente evangélico, vai saber. E é por isso que é sempre bom ler o texto ANTES de comentar ou você vai pagar o maior mico.

Escrever “não vou nem ler”, “parei no título” e “não li e não gostei” não é exatamente um comentário. Imagine que Charles Darwin o encontre num coquetel e pergunte: “O que achou do meu livro, ‘A Origem das Espécies’?” e você responda: “Parei no título!”. Darwin ficaria tão desanimado que nunca mais escreveria nada, condenando todos nós a sermos macacos até hoje.

Também não use gifs. A escrita surgiu há cinco mil anos para possibilitar que o cerumano expressasse emoções e pensamentos. Quando você prefere “falar” com o Tony Stark revirando os olhos, um gordo branquelo aplaudindo de boca aberta ou a Gretchen tentando mexer todo aquele botox, o pobre do Machado de Assis dá duas cambalhotas na tumba e isso acaba com a paz do cemitério.

Xingar o autor também não contribui para o debate. O grego Sócrates é considerado o inventor da dialética, um método filosófico composto de três etapas simples: tese, antítese e síntese. Funciona assim. Alguém lança a tese: “O grego Sócrates é considerado o inventor da dialética”. O outro vem com a antítese: “Uai, o Aristóteles achava que era outro cara…”. Finalmente, chega-se a uma síntese: “O método dialético talvez não tenha um único inventor…”

Mas note que o resultado é completamente diferente quando alguém diz “o grego Sócrates é considerado o inventor da dialética” e o outro comenta “VSF comuna fã de bandido!”

E, finalmente, mais uma consideração: jamais use a expressão “toma o seu biscoito!”. Alguém pode chegar embaixo do seu comentário e escrever: “Mas é biscoito ou é bolacha?” Pronto! Todo mundo começa a se xingar de novo.

Mosquito: a história do pior inimigo do homem



A malária é a principal causa de mortes em Angola

Por Sara Sá, de Lisboa

Ligar o Atlântico ao Pacífico era um sonho antigo. A obra de engenharia mudou o curso do transporte de mercadorias e é, atualmente, considerada uma maravilha do mundo moderno. Mas a história da construção do canal do Panamá é feita de avanços e de recuos e de uma transmissão de poder, da França para os Estados Unidos da América, que até hoje ainda não foi bem digerida pelos franceses.

Quando começaram a obra, na segunda metade do século XIX, os franceses estavam preparados para uma série de adversidades naturais, como as montanhas, além da densa floresta tropical que teria de ser derrubada, e obviamente para os desafios da engenharia da construção de uma passagem marítima com quase 80 quilómetros de extensão. Mas o adversário com que não contaram era imprevisível. Cerca de 85% dos trabalhadores do canal foram hospitalizados e 22 mil perderam a vida, à conta de intensos vómitos, icterícia e febre alta.

Ninguém sabia de onde vinha este mal, mas a má fama espalhou-se rapidamente. E nem com a promessa de ordenados chorudos foi possível convencer alguém a aceitar trabalhar ali, naquele local “amaldiçoado”, onde o ar “impuro” tinha cheiro a morte. As dívidas foram-se amontoando e, a dada altura, os franceses entraram em bancarrota e acabaram por vender, por uma pechincha, os direitos de exploração aos Estados Unidos da América.

Antes de iniciarem a obra, os norte-americanos trataram de tentar perceber de onde vinha a doença. Uma experiência arriscada, em que um mosquito foi levado a picar uma pessoa doente, picando de seguida um voluntário (provavelmente à força) saudável, comprovou a tese de que a “culpa” era do Aedes aegypti, que transmitia o vírus da febre-amarela (assim chamada por causa da cor que os pacientes ganhavam quando a doença atacava o fígado).

O caso do canal do Panamá é talvez o mais paradigmático exemplo da relação tumultuosa entre o Homem e o mosquito. Mas o poder que este inseto tem de mudar o curso dos acontecimentos percorreu toda a História da Humanidade. Como mostra um livro publicado recentemente pelo historiador norte-americano Timothy C. Winegard, The Mosquito: A Human History of Our Deadliest Predator (O Mosquito: Uma História Humana do Nosso Predador Mais Mortal, numa tradução livre).

Da criação da Grã-Bretanha ao extermínio dos dinossauros, os mosquitos estiveram lá sempre. Até o início do cristianismo, como uma religião que cura e cuida, terá tido origem na necessidade de tratar as vítimas da malária, outra doença transmitida pelo inseto e que é a grande responsável pelo título de principal assassino entre o reino animal.

Segundo a estimativa do autor norte-americano, dos 108 mil milhões de pessoas que já viveram na Terra, 52 mil milhões terão sido vítimas do inseto, ou melhor: de doenças transmitidas pelo animal. Roma foi salva, várias vezes, pelo ataque do mosquito Anopheles. Só a malária travou a invasão comandada por Átila, o chefe dos hunos. Nas terras pantanosas em redor do rio Pó, legiões de mosquitos derrotaram os soldados invasores, virgens à infeção por malária. Também Alexandre Magno e o chefe dos visigodos, Alarico, sucumbiram à doença. Hitler mandou inundar os pântanos que circundam Roma e Nápoles para reintroduzir a doença e obrigar os italianos a ceder. E assim continua o livro.

“É preciso sublinhar que os insetos não são um predador”, começa por corrigir Carla Sousa, investigadora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Como sabemos, o inseto não nos elimina diretamente. São as doenças por ele transmitidas a causa da mortandade. À cabeça na estatística vem a malária, que ainda hoje mata quase meio milhão de pessoas por ano, sobretudo crianças com menos de 5 anos, mais de 90% das quais em África. Mas este também é um vetor – organismo capaz de transmitir uma doença, sofrendo o mínimo de impacto possível – de outras doenças como zica, dengue, chikungunya ou elefantíase. É por isso que a professora de Parasitologia faz o segundo reparo: “Quando falamos do impacto dos mosquitos, estamos a referir-nos a várias espécies.” Só no caso da malária, há 70 espécies diferentes capazes de transmitir o Plasmodium.

Das 3 500 espécies conhecidas de mosquitos, só 6% destas são capazes de transmitir alguma doença aos humanos. As restantes vivem de plantas e do néctar de fruta. Há duas características que tornam o mosquito um vetor tão eficaz. A primeira delas é a necessidade de efetuar uma refeição sanguínea, a chamada hematofagia. “A transmissão está intimamente relacionada com a necessidade de as fêmeas se alimentarem de sangue”, nota Carla Sousa. Sem sangue, os ovos não se desenvolvem e a fêmea não faz a postura. Os mosquitos estão também muito bem adaptados aos humanos e ao ambiente em que vivemos, quer seja rural quer seja urbano. Esta adaptação acontece entre os três elementos: o mosquito, o Homem e o agente patogénico, que vive dentro do inseto e escapa incólume ao seu sistema de defesa.

Esta grande adaptação significa que é muito difícil combatê-los. Além disso, são animais com um ciclo de vida muito curto, à volta de um mês. Isto possibilita que qualquer característica vantajosa que surja num indivíduo – uma mutação genética que lhe confira resistência a um inseticida, por exemplo – rapidamente seja passada à descendência. Além disso, as grandes concentrações populacionais e a modificação intensa do ambiente, com cortes de árvores, desvio do curso dos rios e domesticação de animais, favorecem a convivência entre o Homem e o inseto. E as alterações climáticas têm vindo a aumentar a duração da época de reprodução.

O aparecimento do DDT representou um marco no controlo destas populações. Hoje em dia, por causa dos seus efeitos tóxicos no ambiente, a utilização do pesticida está restringida a algumas regiões do globo, que gozam de um regime de exceção por causa da elevada incidência de doenças transmitidas pelo mosquito.

Em Portugal, o sítio do País com maior concentração destes insetos é a Comporta. Foi lá registado o recorde nacional: uma só pessoa capturou 400 mosquitos numa hora.

O método de medição parece bastante arcaico, mas é o mais eficaz e o preferido dos estudiosos. A técnica consiste em expor uma parte do corpo, normalmente as pernas, durante a chamada “hora da melga”. Ou seja, entre o pôr e o nascer do Sol. A pessoa está toda coberta, com máscara de rede na cara, e segura um aspirador na mão. Quando o mosquito se aproxima, é capturado. Mas todos nós podemos participar na caracterização da distribuição de mosquitos pelo País, sobretudo porque as alterações ambientais têm levado à mudança na distribuição e até das espécies que vivem por cá. “A primeira fase é a da introdução ou chegada. A segunda é a da instalação, que é quando normalmente os detetamos”, nota Carla Sousa. Só que uma população já instalada é “muito mais difícil de eliminar”.

Espanha, em particular a zona da Catalunha, passa neste momento pela invasão do mosquito-tigre, capaz de transmitir o vírus da dengue, da chikungunya e da zica, sendo que, em 2018, chegaram mesmo a registar-se dois casos de transmissão de dengue. Também em Portugal se detetou a presença desta espécie, em 2017 e em 2018, nas zonas de Penafiel e do Algarve.

Apesar de terem um papel importante no ecossistema – polinizando algumas plantas e servindo de alimento a outros animais –, têm sido feitas algumas experiências de controlo dos vetores pela manipulação genética. Cientistas da Universidade de Oxford, em conjunto com a empresa de biotecnologia Oxitec, introduziram mutantes de machos de Aedes aegypti de forma que os descendentes não se desenvolvam corretamente. Cerca de três milhões desses mosquitos geneticamente modificados foram lançados nas ilhas Caimão, entre 2009 e 2010, o que trouxe uma redução de 96% no número de vetores da febre-amarela. No estado brasileiro da Bahia foi feita uma experiência semelhante, com resultados aproximados: 92% de redução.

No Burkina Faso foram lançados, no início de julho, 10 mil machos estéreis de Anopheles gambiae, responsável pela transmissão da malária. Além de serem inférteis, os mosquitos são também fluorescentes, o que permitirá aos investigadores estudar com exatidão o seu ciclo de vida e os seus hábitos. O facto de se tratar da libertação no ambiente de uma espécie modificada em laboratório levantou alguns receios e críticas de organizações ambientalistas. Abdoulaye Diabaté, da organização Target Malaria e responsável pela experiência, afirmou, na altura do lançamento, que dez mil mosquitos não representam nada comparando com a população total. E, tal como já nos ensinou a história do canal do Panamá, o conhecimento será sempre a melhor arma.

O projeto da Universidade Nova de Lisboa, Mosquitoweb, convida todos os cidadãos a participar na identificação, pela fotografia, e também na captura de mosquitos. O processo é simples e está explicado no site do projeto – basta fotografar o mosquito e enviar a foto, com indicação do local. Quem quiser, também pode apanhar o inseto vivo e enviá-lo num frasco. Em Portugal, não tem havido grande participação, lamenta a professora Carla Sousa. Este envolvimento por parte da população pode ser determinante para a deteção de espécies novas no território nacional. São 40 as espécies autóctones, mas a sua distribuição tem variado bastante nos últimos anos, graças às alterações ambientais, pelo que a participação da população ainda se torna mais relevante.

quarta-feira, novembro 06, 2019

Ele ensinou o Brasil a transar de luz acesa



Alcides Caminha, em 1991, logo após a revista "Playboy" ter descoberto que ele era Carlos Zéfiro

Por Joaquim Ferreira dos Santos

A editora telefonou pedindo que eu escrevesse um texto para apresentar a nova edição das revistinhas pornográficas de Carlos Zéfiro. Eu poderia fingir espanto de rapaz fino. Como assim??!! Eu??!! Eu sou biógrafo de Antonio Maria, minha filha! Poderia olhar para trás e perguntar ofendido se a moça não tinha cometido erro de pessoa. Estais me estranhando?!! Eu sou prefaciador de Tom Wolfe, minha senhora! Pensei em alegar zelo pela imagem. Qualé??!!

O problema é que o passado me condena.

Levantei os dois braços, rendido. Ok, chegaram no cara certo. Era comigo mesmo, e escreveria a apresentação com o mesmo prazer que em “A vizinha”, uma das revistinhas, um certo Lúcio empresta sal e todo o doce consolo de que dispõe para a Elza do 302. Li os quadrinhos de Zéfiro nos anos 60, como era a sina dos moleques no tempo. Descabelava-se o palhaço. Ia-se ao cinco contra um. Descascava-se toda a bananeira. Casava-se com a canhota. De nada me arrependo, muito menos de todo esse cabelo na palma da mão. Ainda bem que Carlos Zéfiro estava por perto com suas freiras taradas dispostas a ajoelhar e, ave Maria, rezar um padre-nosso. As suas secretárias da pá virada queriam mais e mais, as priminhas assanhadas ansiavam por espremer minhas espinhas e me ajudavam a varrer para a sacristia a culpa católica que melava o assunto.

Fazia escuro no corpo e não havia uma Playboy, não havia uma loja de conveniências eróticas para iluminá-lo. Bastava um mau pensamento para se pagar com um chorrilho de salve-rainhas. Zéfiro, antes do Sexy Hot no meio da sala de jantar, antes das aulas de vibradores da Sue Johanson, foi ele quem ensinou o Brasil a transar de luz acesa e sem o lençol por cima. Eu escrevi na tal apresentação das revistinhas que Zéfiro libertou a libido nacional. Acho que não viagrei demais nos sentidos.

Sexo ainda não era crônica, nem cinema, nem poesia. Sexo era drama, uma ciência oculta que poderia deixar cego quem se excedesse na masturbação. Os meninos queriam tanto sexo quanto querem os de hoje, mas esbarravam num grande e complacente problema. As meninas, infelizmente, ainda não eram as de hoje. Não davam. A música “Não existe pecado do lado de baixo do equador” foi feita muito depois. Foi Zéfiro, quando Chico Buarque ainda estava roubando carro em São Paulo, talvez por estar vivendo aqueles tempos de repressão sexual, talvez sem ter com quem fazer um pecado safado suado e a todo vapor, foi Zéfiro quem começou o esculacho, olha aí sai de baixo. Ele foi professor.



Carlos Zéfiro deu a toda uma geração lá atrás – e essa expressão vai como metalinguagem dúbia para saudar o estilo do cara – as primeiras lições de um assunto que hoje está em qualquer malhação das seis. Sexo, essas quatro letrinhas que molham, que suam, que arfam, que fazem o maior barulho na madrugada do condomínio, elas não eram impressas assim sem mais nem menos em papel de família.

A primeira vez que eu vi a palavra pulsando escrita, cheia de veias, foi na capa do livro de Fritz Kahn sobre vida sexual, um tesouro triste que este pequeno pirata descobriu escondido na gaveta lá de cima do armário de papai. Levei um susto quando comecei a ler. Tinha gosto de óleo de fígado de bacalhau. Falava de sexo como se fosse uma aula de medicina legal.

Zéfiro era alegre. Corria uma cachoeira de dentro de suas musas carnudas de nome Suzete, Alzira, Margô, todas em eterno dilúvio de lubrificação espontânea. Kahn, como o goleiro alemão, era assustador. Suas virgens vinham banhadas num rio de sangue, prontas para sofrerem as feridas de algum tipo de empalação medieval. Prazer era privilégio macho. Não entendo como no meio de tanto palpitório sobre sexualidade ainda não se traçou uma linha entre a frigidez das mulheres hoje na faixa dos 40, 50 anos e as primeiras notícias que elas tiveram sobre o assunto, certamente lendo o capítulo sobre defloramento no livro de Kahn. Sexo era terror obscuro, segredo liberado apenas para quem se deixasse benzer pelos óleos nupciais. De sacanagem mesmo, apenas o fato de que ninguém comia ninguém.

Com seus desenhos toscos, Carlos Zéfiro preparava o prepúcio nacional para um dia que parecia não chegar nunca. Seus mancebos bem aquinhoados, espadas monumentais cravando a marselhesa libertária em solo pátrio, ensinavam o leitor a seduzir uma mulher. Como fazer em meia dúzia de quadrinhos que ela mudasse de opinião e, principalmente, em que posições atuar depois. Não havia filme pornô. Na televisão, em “O direito de nascer”, Albertinho Limonta beijava de boca fechada. Zéfiro foi um Nureyev tropicalista. Ensinou ao país o pas-de-deux horizontal e levou os olhos de um garoto pelo primeiro zapping por todos os muitos canais do corpo de uma mulher em movimento.

Antes de Zéfiro, elas vinham imóveis, todas dentro de revistas suecas de naturismo. Eram glabras, não por uma depilação erótica ao estilo brazilian wax, mas por censura. Pentelho, nem pensar. As suecas estáticas, no meio de algum campo de arroz, inspiravam na molecada o mesmo desejo que os novos modelos da Frigidaire. Tempos de tesão glacial. Genitálias congeladas.



Já as mulheres de Zéfiro saltavam fogo pelos olhos, bundas franqueadas em corcoveios sem qualquer cerimônia, pecadoras jamais arrependidas que gemiam em ai, em ui, em ipsilone. Inventavam vogais incandescentes que ajudavam a passar, junto com os esgares fabulosos de seus rostos, a esperança e urgência de que um dia você, meu garoto, seria o herói num daqueles quadrinhos.

Algumas intelectuais, mal-amadas não introduzidas na festa, acusavam Zéfiro de machista. Mentira da cabeça grossa. As mulheres das revistinhas tinham todas o que bem mereciam e hoje professa o bom feminismo de raiz. Orgasmos aos montes. Se isso não for o néctar da coisa, eu não entendi nada da leitura de Shere Hite. Pré-Marta Suplicy, nosso pornógrafo avisava, sem retórica, apenas com sua caneta dura, direto ao ponto G, que entre quatro paredes valia tudo, pois é tudo da lei. Cada um dava o que lhe aprouvesse e sem preconceito. Anal, oral, homossexual, decúbito dorsal, duplo mortal.

Tudo sem necessidade de paixão, amor, qualquer desses drops dulcora que na literatura são enrolados um a um e servem de passe para justificar a entrega das carnes. Era a imaginação no poder, o tesão nacional educado para a alegria. Só os vilões brochavam. Zéfiro não. Agora de volta às bancas, você vai ver que ele continua impávido e colosso. A saga de seus heróis pode soar ingênua, mas – pergunte à vizinha dona Elza se ele não quer mais sal – continua de pé.

“As pessoas da região têm mágoa do Brasil”, diz Márcio Souza



Ao descrever, no início do século 20, a exploração dos seringueiros nordestinos nos limites de um país sem fé e sem lei, Euclides da Cunha a classificou como “terra sem história” ou “à margem da história”. O autor de “Os sertões”, uma das mais brilhantes obras da literatura brasileira, que denuncia ao Brasil urbano a barbárie e extermínio dos sertanejos famélicos como ato de fundação da República, se referia à Amazônia.

Euclides não foi o primeiro nem o último a desconhecer a história desse subcontinente, onde há 120 milhões de anos, durante o período Cretáceo, as primeiras flores se abriram, por onde caminhar em certas áreas hoje equivale a percorrer o planeta tal qual era naquela época.

Tal injustiça cometida por Euclides talvez se explique pela desinformação e ignorância que encobrem a história dessa região, berço do mais rico meio ambiente do planeta, compreendida por toda a bacia amazônica formada pelo Brasil – 55% de seu território abriga esse rico ecossistema – Bolívia, Colômbia, Peru, Guiana, Venezuela, Suriname, Equador e Guiana Francesa.

Não apenas Euclides, mas, mais de um século depois, o Brasil desconhece a Amazônia. Para suprir esta lacuna, o romancista e historiador Márcio Souza escreveu “História da Amazônia: do período pré-colombiano aos desafios do século XXI”.

Lançado pela Editora Record depois de duas décadas de pesquisa, a obra de fôlego – do mesmo autor de “Galvez, imperador do Acre” e “Mad Maria” –, tem 391 páginas e vai da chegada do Homo sapiens, há 40 mil anos, aos dias de hoje, em que a maior floresta tropical do mundo e os seus povos originais enfrentam toda sorte de desafios.

A região está no topo das discussões mundiais, seja pelas queimadas frequentes, seja pelo embate entre o governo brasileiro e líderes europeus sobre sua importância socioeconômica e ambiental.

Márcio Souza conta que o embrião da obra começou quando, há 20 anos, chegou à Universidade de Berkeley (EUA) para ministrar os cursos “O moderno romance brasileiro”, em português, e “Images of the Amazon”, em inglês, e descobriu que não havia nem um livro sequer que consolidasse a história da Amazônia.

Ainda que algumas excelentes obras do Amazonas, do Pará, do Acre e das regiões de floresta dos países hispânicos estivessem disponíveis, a dispersão dificultava a disposição daqueles que desejavam conhecer os grandes traços do processo histórico amazônico sem que, para isso, tivessem de se tornar especialistas.


À época, organizou “Uma breve história da Amazônia” como bibliografia do curso, que nunca pretendeu preencher a lacuna provocada pela ausência de uma verdadeira história que abrangesse não apenas a Amazônia brasileira, mas também a que fala espanhol, inglês e holandês. Este desafio ele cumpre agora com a nova obra, como ele chama, uma “ampliação” da primeira abordagem, “que de tanto crescer” nada mais tem de breve.

Ainda que reconhecendo serem tempos em que a história esteja sofrendo “um assalto letal”, Márcio Souza estabelece os parâmetros dos quais parte: valores democráticos e a prática dos direitos humanos, alcançados com a Revolução Francesa, no século 18. “Uma vez que tenhamos tais valores em mente, e tenhamos entendido que o método histórico está disponível para todo mundo, é preciso insistir na nossa própria história, olhar de frente as nossas verdades, as nossas opções ou a falta delas”, escreve ele.

O autor registra que, a partir do século 16, esse subcontinente inicia um movimento, assim como ocorrera na Europa, ininterrupto em direção à consolidação de Estados-nação. “O drama da Amazônia é que ela se pulverizou nesses estados emergentes, cada um deles organizado em muitas formas constitucionais, onde a região se inseriu como periferia ou fronteira econômica”, afirma.

Apesar de esse subcontinente ser o “resultado de um inverossímil amálgama de diferenças microrregionais”, cada uma com a sua cultura e com a sua própria história. Não se trata, portanto, de acordo com o autor, de escrever a história da Amazônia, mas das diversas Amazônias. “É como escrever a história do Oceano Atlântico”, sintetiza Márcio Souza.

A história da Região Amazônica é violenta, trágica, com o extermínio de povos originais. “Na origem, a Amazônia não pertencia ao Brasil. Os portugueses tinham duas colônias na América do Sul: uma descoberta por Cabral, em 1500, governada pelo vice-rei do Brasil; a outra, Grão-Pará e Rio Negro, foi descoberta por Vicente Iañes Pinzon, em 1498, após a terceira viagem de Colombo à América, quando batizou o Rio Amazonas de mar Dulce”, lembra o autor.

A colônia do Grão-Pará e Rio Negro foi efetivamente ocupada pelos portugueses a partir de 1630. Os dois estados se desenvolveram distintamente até 1823, data em que o Império do Brasil iniciou um violento processo de anexação de tão diferentes culturas e economias das duas colônias.

“A Amazônia então não era uma fronteira: este é um conceito que foi inventado pelo Império e retomado pela República. Entre o Império e as oligarquias locais, nenhum diálogo era então possível. O Grão-Pará foi destruído quando o vice-reino do Brasil invadiu a região, em 1835, e transformado em Amazonas”, assinala. “O Exército português havia ido embora, então houve muita resistência do povo. Foi tão violenta essa anexação que a Amazônia perdeu 40% dos seus habitantes. E essa anexação destruiu todos os focos de modernidade daquela colônia.”

Na obra, Márcio Souza detalha como a Amazônia se constituiu a fronteira entre uma zona de cultura brasileira predominante e um subcontinente onde se fala francês, holandês, espanhol e português. Além disso, 32 idiomas são praticados no Rio Negro, verdadeiras línguas e não dialetos. “Temos de um lado dessa fronteira uma cultura brasileira em plena expansão e, do outro, culturas originais, pré-colombianas, vivas até hoje, culturas essas que, vale lembrar, estiveram muito tempo na frente das outras, em particular do ponto de vista da técnica, antes de serem submersas pelo processo de integração”, afirma.

O escritor recorre ao episódio do incêndio da mais famosa catedral francesa para destacar a resiliência de sua região. “A Amazônia se parece com a Notre-Dame: queima, mas não cai. Contra as tentativas de desmatar e a visão de Brasília de continuar tratando a floresta como um espaço colonial, temos experiência de resistir e vamos continuar resistindo”, afirma Márcio Souza, sociólogo, historiador e escritor, que sempre se baseou na história e na cultura da região para escrever peças e romances, como Mad Maria, de 1980. Ele encerra com um alerta: “A cada metro quadrado de floresta destruído, perdem-se riquezas que nem conhecemos por ignorância.”



A Amazônia está nas manchetes do Brasil e do mundo. Como acha que, no futuro, este momento será encarado por quem continuar contando a história da floresta?

Você conhece a origem da expressão “atirar aos cães”? Vem dos espanhóis. Quando os índios eram rebeldes, eram literalmente atirados aos cães. E a expressão ficou. Do Rio Negro, cerca de dois milhões de índios foram baixados para a escravidão. Duravam pouco, pois não aceitavam, morriam de inanição e de doenças. É uma história dantesca. Eu escrevendo e pesquisando em vários lugares do mundo, às vezes passava a noite tendo pesadelos. Mas sou muito otimista a longo prazo e pessimista no curto prazo. A Amazônia é muito maior do que a mediocridade das políticas sociais e econômicas do Brasil. E por aqui, não há perigo de a população querer se separar do Brasil. Isso é coisa de alguns gaúchos. Nunca quisemos ser Brasil. Mas já que fomos anexados à força, e perdemos, queremos ser bons brasileiros. Mas que tenham respeito.

O governo Bolsonaro contesta os dados do Inpe e apresenta outra versão para as queimadas. Que avaliação o senhor tem do desmatamento na região?

O desmatamento, que tem crescido, afeta o futuro do mundo e da região, não simplesmente porque vai se criar um deserto aqui. Hoje convivemos com o deserto do Saara, que já foi coberto de savana. Se a Amazônia virar deserto, a distribuição da umidade e da água no mundo muda. Vai prejudicar os agroindustriais do Mato Grosso e outras commodities. Não tendo chuva não tem safra. Agora, a coisa mais lamentável é destruirmos uma riqueza para fazer e exportar commodities sem saber sobre os tesouros e recursos naturais que têm aqui. A cada metro quadrado de floresta destruído, perdem-se riquezas que nem conhecemos. Hoje há etnobotânicos que trabalham aqui com pajés em busca de medicamentos. Por exemplo, o betabloqueador que salva contra-ataques cardíacos foi descoberto em uma planta da floresta tropical. Além disso, as etnias têm uma cultura social a nos ensinar, de organização social, de liberdade individual e em sua relação com a natureza.

Em sua avaliação, quais são as principais ameaças que pairam hoje sobre a Amazônia?

Há invasores que chegam aqui do Sul para desmatar, criar gado, fazer plantações, cortar madeira, que vão ao cartório, registram a propriedade e passam a ameaçar e massacrar os homens da floresta, que estão lá há séculos, mas não têm título da terra. Não há lei nem ordem para protegê-los. Do Rio Grande do Sul, principalmente, esses invasores já destruíram extensas coberturas vegetais de Roraima e agora estão aqui, no Amazonas, invasores originários do Paraná. Então, temos dois tipos de horror, que podem se transformar numa espécie de espelho para o Brasil do futuro: o primeiro, esses desmatadores de terra, que pregam o capitalismo selvagem. E em segundo, alguns evangélicos. Em Rondônia, a capital é da Igreja Universal do Reino de Deus. E o interior da Assembleia de Deus. Na capital, já espancaram e mataram donos de terreiros e mães de santo. Também agridem os católicos. Hoje estão invadindo o Alto Rio Negro. Já apareceu aqui até pajé evangélico enganando. Encontraram terreno para a doutrinação e a cooptação. Atacam para converter.

Como foi a experiência da modernidade do Grão-Pará e Rio Negro que se perdeu com o processo de integração?

O Grão-Pará e Rio Negro era uma colônia baseada na exploração de café, cacau, látex, algodão, sempre com uma experiência de modernidade. A economia era fundada na produção manufaturada, a partir das transformações do látex. Era uma indústria florescente, produzindo objetos de fama mundial, como sapatos e galochas, capas impermeáveis, molas e instrumentos cirúrgicos, destinados à exportação ou ao consumo interno. Baseava-se também na indústria naval e numa agricultura de pequenos proprietários. O marquês de Pombal nomeara seu próprio irmão para dirigir o país, com o intento de reter o processo de decadência do Império português, que dava mostras de ser incapaz de acompanhar o desenvolvimento capitalista. Nesse contexto, os escravos tinham uma importância menor do que em outros lugares. O país desfrutava, além disso, de uma cultura urbana bastante desenvolvida, com Belém, construída para ser a capital administrativa, ou a sede da capitania do Rio Negro. Em compensação, a colônia chamada Brasil dependia amplamente da agricultura e da agroindústria, tendo, portanto, uma forte proporção de mão de obra escrava. Em meados do século 18, tanto o Grão-Pará quanto o Brasil conseguem criar uma forte classe de comerciantes, bastante ligados à importação e exportação, senhores de grandes fortunas e bastante autônomos em relação à metrópole. Mas, enquanto os comerciantes do Rio de Janeiro deliberadamente optaram pela agricultura de trabalho intensivo, como o café, baseando-se no regime da escravidão, os empresários do Grão-Pará intensificaram seus investimentos na indústria naval e nas primeiras fábricas de beneficiamento de produtos extrativos, especialmente o tabaco e a castanha-do-pará.  Os tecnocratas e o governo central foram incapazes de favorecer a aceitação dessas experiências locais no processo de integração econômica. Isso aparece claramente com o exemplo da criação de gado: a chegada do boi foi uma tal catástrofe para a Amazônia, porque o modelo agropecuário foi imposto a um estado, o Acre, onde não havia tradição de criação de gado, e que por causa disso perdeu sua cobertura florestal tradicional. Por que não usaram em vez disso as zonas tradicionais de pasto, como as existentes no Baixo Amazonas, na região de Óbidos, Alemquer e Oriximiná, ou em Roraima, cuja superfície é superior à de todos os pastos europeus reunidos? É exatamente um caso em que a integração econômica foi feita em detrimento da história e da tradição locais.

Em sua avaliação, qual tem sido, até hoje, a proposta do Brasil para a Amazônia?

A Amazônia foi reinventada pelo Brasil, que propôs para ela a sua própria imagem. Os moradores da Amazônia sempre se espantam ao ver que, talvez para melhor vendê-la e explorá-la, ainda apresentam sua região como habitada essencialmente por tribos indígenas, enquanto existem há muito tempo cidades, uma verdadeira vida urbana e uma população erudita que teceu laços estreitos com a Europa desde o século 19. Aliás, nisso residem as maiores possibilidades de resistência e de sobrevivência dessa região. Com efeito, os povos indígenas da Amazônia nada conseguirão se não se apoiarem nessa população urbana, que é a única que se expressa nas eleições e exerce pressão sobre a cena política. É pelo jogo das forças democráticas que o problema da exploração econômica da Amazônia poderá encontrar uma solução.

Como o conceito de sustentabilidade se aplica à Amazônia?

A sustentabilidade é uma grande conquista da ciência, e deve valer para todos os projetos econômicos, sejam na selva, na Amazônia ou no Japão. A Amazônia deve deixar o gueto das comunidades primitivas e ganhar outros segmentos avançados, que desenvolvam tecnologias e pactuem os requisitos de proteção ao planeta.

Como a Amazônia foi tratada durante a ditadura militar?

Os megaprojetos da ditadura provocaram tragédias para as populações tradicionais e entre os índios. A motosserra cortava as árvores em projetos que não deram certo, como a Transamazônica e a Perimetral Norte, estradas que saíam do nada e iam até lugar nenhum. A Zona Franca de Manaus foi inspirada no modelo do general Augusto Pinochet em Valparaíso (Chile), que só funcionava onde tinha ditadura. Criaram uma zona franca onde um operário ganha até 14 vezes menos do que um funcionário da matriz. Mas a arrogância não ficou apenas com os tecnocratas do governo militar: um contingente imenso de salvadores da Amazônia estabeleceu suas agendas baseadas em conclusões apressadas. Por exemplo, as soluções de neoextrativismo propostas por Chico Mendes destinavam-se apenas para dois ou três municípios. Eram específicas para aqueles municípios. Alguns quilômetros além, não serviam mais. Era, portanto, absurdo focalizar-se nelas e apresentá-las como soluções de uso geral na região, como fizeram certos movimentos de defesa da região. Nos parâmetros políticos de 1985, quando a ideia foi gerada, a luta por tais reservas extrativistas estava perfeitamente explicada. No entanto, esse foi um conceito muito alargado desde então, a ponto de se tornar uma das mais usadas medidas “de preservação” do governo Sarney e, em termos políticos amplos, uma espécie de proposta geral para a região, pois o “futuro” da Amazônia estaria em sua total regressão à economia extrativista.

O presidente Bolsonaro tem afirmado, inclusive na ONU, que outros países desejam internacionalizar a Amazônia. Em sua avaliação, a soberania na região está ameaçada?

A internacionalização da Amazônia não é um tema realmente colocado. Mas olha, o Brasil aqui é tão malvisto pelo povo, aquelas populações vivem tão abandonadas no interior, que se a ONU fizesse plebiscito aqui para se criar uma área internacional, o Brasil perderia feio. Ninguém acredita mais em político brasileiro. Agora mesmo houve em Manaus reunião dos governadores da Amazônia com os representantes europeus. E todos sabem o que interessa para eles. O único problema é que qualquer verba tem de passar pelo governo federal, que ele ou veta ou desvia. As pessoas têm muita mágoa do Brasil. Se você vai à tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia, eles falam quando se referem a Manaus: “Eu vou para o Brasil”. São quatro horas e meia de voo e eles não se sentem como parte do Brasil. Mas, ao mesmo tempo, lá tem grupos e etnias que vivem dentro da mata com rádios ligados ao Exército e à Polícia Federal, que dão o alarme quando percebem qualquer anormalidade. São guardiões da fronteira.  

terça-feira, novembro 05, 2019

60 anos de Asterix: o império dos trocadilhos contra o imperialismo



Por Érico Assis

Tanto quanto são irredutíveis, eles são divertidos. E divertem irredutivelmente há 60 anos. No dia 29 de outubro comemora-se seis décadas desde que Asterix e sua aldeia de gauleses irredutíveis apareceram nas bancas de jornal da França, na primeira edição da revista Pilote.

Hoje, a criação de René Goscinny e Albert Uderzo é um império: 380 milhões de exemplares vendidos em 111 idiomas, 14 filmes, um parque temático e lançamentos com números milionários a cada álbum. Para comparação, o Império Romano que eles tanto combateram chegou no máximo a 100 milhões de habitantes. Os gauleses venceram com sobra.

Goscinny contava que ele e Uderzo criaram Asterix e toda sua aldeia em duas horas. A dupla tinha que criar uma atração para o novo semanário Pilote, que ia ser lançado em sessenta dias. Goscinny, o roteirista e editor, queria alguma coisa do folclore ou da história francesa. Uderzo, o desenhista, começou a dar ideias desde o paleolítico. Eles pararam no período da Gália, região que hoje seria França, Bélgica e Itália, habitada por um povo celta que ficou ali quase um milênio até ser subjugado pelo império romano. Quem teriam sido os últimos gauleses? A dupla de criadores tinha chegado na sua história.

Uderzo queria um personagem grande e forte, como a imagem que se tinha dos gauleses. Goscinny queria um nanico, para causar graça à primeira vista. Chegaram num acordo: Asterix seria nanico, mas teria um parceiro grandão chamado Obelix. Os dois seriam a linha de frente da última aldeia gaulesa que resiste ao império romano. A arma secreta gaulesa é a poção mágica do druida Panoramix, que dá força sobre-humana a quem bebe. Obelix é o único que não precisa beber, porque caiu dentro de um caldeirão de poção quando era criança; nele, os efeitos ficaram permanentes. Os romanos, sob comando de Júlio César, sempre voltam estropiados ao se deparar com os gauleses superfortes.


Abracourcix é o chefe da aldeia. Chatotorix é o bardo que quer cantar as glórias dos heróis gauleses, mas ninguém aguenta sua harpa nem sua voz. Ordenalfabetix é o peixeiro que sempre compra briga com o ferreiro Cetautotomatix. Os nomes são tanto brincadeiras com figuras históricas da Gália – como Vercingetórix (80-46 a.C.), o chefe gaulês que resistiu aos romanos – quanto jogos de palavras. Os leitores entraram na brincadeira quando a Pilote fez um concurso para batizar o cachorro de Asterix, o hoje famoso Ideiafix.

A aldeia gaulesa é a França e os romanos são o resto do mundo tentando se meter na vidinha francesa. O país europeu é famoso por torcer o nariz ao imperialismo estrangeiro – não só aos romanos de dois mil anos atrás, mas ainda hoje. Goscinny e Uderzo enchiam as histórias de referências à França contemporânea, personalidades da política e da cultura. Quando Asterix e Obelix viajavam, sacaneavam a visão que os franceses têm dos britânicos (bretões), dos alemães (godos), dos suíços (helvéticos) e assim por diante. Um dos trunfos da série foi criar um herói nacional que orgulha e sabe rir da própria nacionalidade.

A primeira adaptação de Asterix foi para o rádio, um programa da Radio Luxembourg em 1960. Em 1967, Asterix, o Gaulês virou o primeiro longa-metragem animado – ao qual se seguiram mais nove, incluindo Asterix e o Segredo da Poção Mágica no ano passado. Os quatro filmes live-action começaram com Asterix e Obelix contra César, de 1999, e estrelaram atores de peso no cinema europeu: Roberto Benigni, Alain Delon, Laetitia Casta, Monica Bellucci, Catherine Deneuve e Gérard Depardieu como Obelix. Os filmes, tal como os álbuns, fazem sucesso principalmente na Europa.

Asterix fez sucesso entre os leitores desde o primeiro número do jornalzinho Pilote, onde saíam uma ou duas páginas de cada aventura por semana. A primeira história completa virou o álbum Asterix, o Gaulês, com tiragem de 6000 exemplares. Cinco anos depois, Asterix e os Normandos saiu com tiragem de 1,2 milhões, que se esgotaram em dois dias. O álbum que sai este ano, A Filha de Vercingétorix, sairá com tiragem de 5 milhões, simultaneamente em vinte idiomas. É o maior lançamento do mercado editorial europeu no ano.


René Goscinny, infelizmente, viu menos de um terço destas seis décadas. Num sábado de manhã, 5 de novembro de 1977, ele foi ao cardiologista fazer um teste de esforço físico. Subiu numa bicicleta ergométrica, começou a pedalar, reclamou de dores no peito e desabou. Morreu aos 51 anos. Judeu que perdeu três tios em campos de concentração, criado na Argentina, formado profissionalmente pelos quadrinistas da Nova York dos anos 1940, Goscinny criou não só Asterix, mas também Umpa-Pá, Iznogud, O Pequeno Nicolau, colaborou por anos nos roteiros de Lucky Luke e teve atuação importantíssima como editor e produtor.


Filho de imigrantes italianos na França, Albert(o) Uderzo teve o primeiro trabalho publicado em jornal aos 14 anos. Passou pela animação e diversos jornais antes de conhecer Goscinny, com quem criou o pele-vermelha Umpa-Pá e, depois, os gauleses irredutíveis. Quando Goscinny faleceu, ele diz que passou um ou dois dias em choque, travado. Levou três anos para produzir sozinho um novo álbum de Asterix, O Grande Fosso, mas a partir deste fez mais oito trabalhando sozinho no roteiro e no desenho. Aposentou-se aos 86 anos e supervisiona os álbuns de Asterix criados por outros. Diz que a série vai se encerrar após sua morte.


Depois de longa procura por alguém que topasse assumir essa milionária responsabilidade, os franceses Jean-Yves Ferri (roteiro) e Didier Conrad (desenho) tornaram-se os novos autores de Asterix em 2013. Começando por Asterix entre os Pictos, eles já produziram quatro álbuns e respeitam fidelissmamente a fórmula dos gauleses contra o império romano, as piadas recorrentes, as tiradas com a sociedade francesa e praticamente o mesmo traço de Uderzo.

O primeiro satélite que a França colocou em órbita chamou-se Asterix. Está perdido no espaço e pode ser que algum acaso mágico faça ele trombar com os asteroides 29401 Asterix ou 29402 Obelix, assim batizados por astrônomos tchecos. Duas milhões de pessoas visitam anualmente o Parque Asterix, em Plailly, norte da França. O perfil de Asterix estampa uma moeda comemorativa de 2 euros lançada este ano na União Europeia. Générations Asterix, álbum que saiu há pouco na França, reuniu mais de 60 autores do mundo prestando homenagem à série. E o 38º álbum oficial, A Filha de Vercingétorix, sai exatamente no dia dos 60 anos, 29 de outubro.

Asterix já vendeu mais de três milhões de álbuns no Brasil. Os gauleses aportaram aqui em 1967 através da editora espanhola Bruguera (depois Cedibra). A editora Record relançou e lançou todos os álbuns oficiais e vários derivados (como as quadrinizações dos filmes), inclusive em versões remasterizadas, até O Papiro de César. A editora Panini anunciou recentemente que vai retomar os gauleses por aqui, provavelmente com o inédito Asterix e a Transitálica, de 2017, e a aventura mais recente. Asterix com certeza merece uma coleção completa e sempre à disposição de quem quiser conhecer a turma irredutível.

Dois papos ligeiros sobre censura (1)



Por João Máximo

Toda censura é burra. Autoritária, preconceituosa, violenta, castradora, repulsiva, ditatorial, indefensável e, além de tudo, burra. Começa por produzir efeitos contrários aos das intenções do censor, fazendo crescer o interesse das pessoas pela exposição, peça de teatro, programa de TV, filme, livro ou música que, em nome da moral ou dos bons costumes, decide-se proibir.

A propósito de seu recém-lançado livro “O herói mutilado – Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura”, a jornalista Laura Mattos observa que toda a censura é política. A moral e os bons costumes que pretende preservar são, na verdade, falsos valores defendidos por quem está no poder. Ela cita como exemplos a tentativa de apreender quadrinhos com beijo gay na Bienal do Livro, peça que o CCBB não quer encenar pelo caráter ideológico e cartilhas escolares que o governador de São Paulo manda recolher. Sem falar na guerra ao “teatro de esquerda” que novo diretor da Funarte declarou, começando por demitir todo mundo que se atrevia a pensar diferente dele.

Laura Mattos está certa: toda censura é política. Ou será que alguém vê uma defesa da família brasileira na condenação de obras de arte sobre negros, índios, favelados, pensadores de oposição, LGBT e outros alvos habituais?

A autora do livro, centrado no talento contestador e frequentemente proibido do dramaturgo Dias Gomes, faz uma pesquisa sobre o papel da censura na História do Brasil, voltando até 1843, quando o Conservatório Dramático Brasileiro, instituído ao tempo de Pedro II, só aprovava obras teatrais que não atentassem contra, já então, “a moral e os bons costumes”. Segundo a pesquisa, nos 176 anos que se seguiram, não houve um só governo brasileiro – democrático ou não – que de alguma forma não recorresse à censura.

Esta, contudo, é constatação que requer certos cuidados na interpretação. Censuras que antigamente estabeleciam com qual idade se podia assistir a este ou àquele espetáculo tem um significado. Burra também, pois até hoje não sei que mal teria feito a mim e à minha família assistir, em 1946, à estreia de “Gilda” na tela do Carioca, quando a cena mais ousada do filme mostra Rita Hayworth tirando a luva preta para desnudar o braço enquanto cantava “Put the blame on Mame”.

Estávamos no primeiro ano pós-ditadura Vargas e ainda era possível achar-se feio o que era bonito. Com o tempo, as coisas foram mudando, e a censura etária perdeu o caráter de proibição. Como também foram mudando as cabeças de outros governos, sempre no sentido de tornar mais livre o homem, a arte, a cultura. Outros governos, é claro, não ditatoriais. Ou não, como o atual, tão sintonizados com o passado.

A pesquisa pede interpretação cuidadosa para que, com ela, não se justifique ou simplesmente se explique a proibição de livros, filmes, peças de teatro, ou a guerra ao teatro de esquerda, como partes de nossa História. São burras como todas as outras censuras, mas indesculpáveis. Ou muito menos desculpáveis do que a que só me deixou ver “Gilda” quando braços nus, mesmo lindos como os de Rita Hayworth, já não levavam tanta gente ao cinema.

De volta aos dias de hoje, parece que a censura vem se fazendo mais burra à medida que o tempo avança. Não só por levar mais gente a ver o que querem proibir, mas também por ser ela – como sempre foi – exercida por gente despreparada, burocratas desinformados, cumpridores de ordens, censores que se propõem a pensar da mesma maneira que o chefe, o qual, por ser “o chefe”, passa a impressão de que pensa certo.

Um exemplo é o que levou aquele mesmo diretor da Funarte a fazer do Teatro Glauce Rocha uma casa de espetáculos dedicada ao público cristão. Quer dizer, como o chefe descobriu-se cristão, evangélico, o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, o chefiado decidiu transformar o palco do velho teatro, no Centro do Rio, num local onde não há lugar para peças escritas ou montadas por judeus, muçulmanos, umbandistas, ateus ou mesmo cristãos, se de esquerda.

Dois papos ligeiros sobre censura (2)



Por João Máximo

Toda censura é burra, não é demais repetir. A censura que veta, proíbe, condena, oculta o que o artista cria para ser visto, lido ou ouvido por todo o mundo. Censura diferente daquela a que me referi, de sugerir idade, hora e lugar mais adequados para que a obra de arte seja mais bem apreciada. Sugerir, sim, nunca proibir. Quando nos lembramos que, na flor de seus vinte anos, Vinicius de Moraes foi censor de filmes, podemos apostar que sua tarefa era somente a de dizer com que idade podia-se ver, por exemplo, sua favorita Marlene Dietrich em “O anjo azul”, filme bastante ousado para... 1930. Hoje, Vinicius estaria rindo de tudo aquilo.

São muitos os exemplos de burrice cometida por nossos censores. Bastaria um dia consultando os guardados do Arquivo Nacional, na Praça de República, Rio de Janeiro (como já fiz, na companhia da repórter e pesquisadora Mariana Filgueiras), para se reunir material tão farto que não caberia num só volume. Principalmente, de 1964 a 1984, os tais anos dos quais ainda há quem tenha saudade.

Escolho uma arte em que os danos não têm sido tão graves: a música. De fato, raros são os casos como o de Geraldo Vandré, cuja carreira foi interrompida por causa de uma canção, “Para não dizer que não falei das flores”, cujo sentido só foi percebido pelos censores quando, cantada em coro por todo o Maracanãzinho, virou uma espécie de hino contra a ditadura. Naqueles tempos, a música era um dos alvos mais frequentes da burra sanha dos censores.

Em defesa da moral da mulher brasileira, pela preservação do idioma pátrio, para manter longe o comunismo ou para não se falar de assunto tão incômodo como a homossexualidade, tudo era motivo para o censor sacar sua arma: caneta.

Em 1971, inspirado no interesse do cantor Mário Rei pelos pregões da Bolsa, Chico Buarque dedicou-lhe um samba repleto de termos usados no mercado de ações: “Comprei na bolsa de amores/As ações melhores que encontrei por lá/Ações de uma morena dessas/Que dão lucro à beça/Pra quem sabe jogar/ Mas o mercado entrou em baixa/Estou sem nada em caixa/Já perdi meu lote/Minha morena me esquecendo/Não deu dividendo, nem deixou filhote”.

O censor não só vetou o samba, que só chegaria ao público 22 anos depois, como se permitiu um aparatoso comentário:

“O autor parece estar de uns tempos para cá muito preocupado em denegrir a reputação de todas as mulheres, vide uma de suas últimas composições, ‘Minha história’, que relata a vida de um homem filho de uma prostituta”.

O censor não entendeu a versão de Chico para “Gesùbambino”, canção do italiano Lucio Dalla. E “todas as mulheres”, no caso da letra em português, era apenas uma pobre mãe transformada em prostituta pelo censor.

A língua portuguesa, sua preservação, seu compromisso com o bom gosto e, principalmente, o que certas palavras podem querer dizer (sem dizer), estavam entre as preocupações dos censores, entre estes o beque direito da seleção brasileira de 1950. Se até poemas de Mário de Andrade (1893-1945) foram cassados pela ditadura, imaginem os sambas de Adoniran Barbosa, quase todos no idioma coloquial, com erros e gírias próprios da população paulistana mais pobre. Cinco de seus sambas foram censurados em 1973, um deles inédito.

Uma censora culta achou de mau gosto versos que falavam em “tauba de tiro ao álvaro” e rimavam “artomorve” com “revorve”. Pelo menos, deu conselhos ao compositor: regravar coisas como “O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no Brás/Nóis fumo e não encontremo ninguém?/Nóis vortemo cuma baita duma réiva/Qui dôtra vez nóis num vai mais...” assim: “O Ernesto nos convidou para um samba, ele mora no Brasil/Nós fomos e não encontramos ninguém/ Voltamos com baita de uma raiva/Em outra vez não vamos mais”. Conselho que Adoniram achou por bem não seguir.

Censuras musicais contra a esquerda podem vir mais de cima, de gente “mais preparada” para evitar qualquer ameaça que surja, inclusive na música. Pois foi justamente um ministro, o da Justiça, Armando Falcão, quem proibiu que o balé “Romeu e Julieta”, produzido e transmitido pela BBC de Londres para mais de cem países, comprado e anunciado pela TV Globo, fosse exibido em 1976. Motivo: sendo russo, o Balé Bolshoi “poderia apresentar uma leitura comunista da tragédia de Shakespeare”. Aproveitou-se a ocasião para se negar os vistos para que o Bolshoi se exibisse no Brasil, como vinha sendo tentado por quase um ano.

Foi também política a censura a “Calabar, o elogio da traição”, peça musical de Ruy Guerra e Chico Buarque, escrita em 1973 para ser encenada no ano seguinte. Não foi. Partiu do Ministério do Exército a proibição –– da peça, do título e até da proibição, que não podia ser divulgada. Na história, Domingos Fernandes Calabar passa de traidor a herói ao se unir aos holandeses contra os portugueses, em 1632, durante a Insurreição Pernambucana. O texto de Chico e Ruy fala de ações contra o povo, abuso de poder, tortura, a má herança lusitana, detalhes incômodos ao governo militar.

Mas foi permitido a Chico gravar um disco com as canções, desde que certos reparos fossem observados. Nada de título, nada de capa chamativa, nada de canções como “Vence na vida quem diz sim”, debochada apologia da subserviência, e “Ana de Amsterdam”, a da cama, da cana, fulana, sacana. “Bárbara”, canção que fala do amor de Ana por ela, só não foi censurada porque um dos censores, numa de inteligente, garantiu que uma simples mudança na letra já gravada jogaria para debaixo do tapete a clara menção ao amor de uma mulher por outra. Tudo bem. Nos versos “Vamos ceder enfim à tentação de nossas bocas cruas/E mergulhar no poço escuro de nós duas”, a voz de Chico é apagada sobre a palavra duas. Já em outros versos, o censor deixou passar “O meu destino é caminhar assim desesperada e nua/ Sabendo que no fim da noite serei tua”.

São casos antigos para reconhecer que a censura já foi mais dura do que a que pode se institucionalizar no Brasil de hoje. Mais dura, mas não necessariamente menos burra.

terça-feira, outubro 08, 2019

A guru mimada



Por Luiz Felipe Pondé, via FSP

O mundo contemporâneo é ridículo. Já sabemos disso. Cheio de ruídos, histeria e fetiches. Se a ciência é o fetiche da burguesia (Adorno), Greta Thunberg é o novo fetiche dos inteligentinhos.

Não se trata de entrar nos esquemas paranoicos de quem acha que ela seja financiada pelo big business verde. Quem duvida que não se deve torrar a Amazônia é mal informado.

Muito menos se trata de achar que Emmanuel Macron queira tomar a Amazônia para construir uma fábrica de croissant.

Trata-se de perceber que a pequena menina sueca que não vai à escola (afinal, escola para quê, né?) presta um desserviço a quem se preocupa com as condições ambientais de fato. Sua histeria raivosa clara é coisa de criança mimada.

Há aqueles que dizem que a pequena Joana D’Arc numa versão gourmet (com a diferença, entre outras, que a verdadeira Joana D’Arc foi queimada em nome do que acreditava, e Greta quer queimar o mundo todo em nome de ter uma desculpa para não ir à escola) pensa assim (refiro-me a seu desprezo pelo crescimento econômico global) porque vive e foi educada num ambiente em que o dinheiro não era o mais importante. Risadas?

Só há um tipo de ambiente onde o dinheiro não é o mais importante. Um ambiente onde sobra dinheiro.

A pequena sueca cresceu num ambiente onde sobra dinheiro. A Escandinávia é um parque temático que produziu a Greta como sua Branca de Neve raivosa.

Proponho que ela e seus seguidores enfrentem a China no seu mimimi raivoso chique. A China vai comer com farinha essa discussão gourmet criada a pão de ló.

Um jovem, por definição, entende pouco do mundo. O que prova essa tese, entre outras coisas, é que é muito mais fácil sair em ambientes seguros xingando todo mundo do que enfrentar o dia a dia de uma adolescente comum.

Como sempre digo, os jovens que querem salvar o mundo (muitas vezes aplaudidos por pais tão infantis quanto eles) preferem salvar o mundo do que arrumar seu próprio quarto. Metaforicamente, diria que a mimada Greta é um caso paradigmático de uma civilização que elegeu o modo Nutella de ser como seu horizonte.

Infelizmente, essa criança está sendo cultuada como símbolo do que há de mais ridículo no mundo contemporâneo: uma revolta feita para o Instagram.

Outra prova é o número de Gretas que estão aparecendo por toda parte. As redes sociais, na sua ambivalência característica, serve de cultura (como no caso de cultura de bactérias) para esse crescimento genérico.

Não tenho dúvida que o crescimento econômico é uma questão séria e que seus efeitos colaterais podem nos ser perversos. O problema é que a única solução seria que a população fosse reduzida a um terço do que ela é hoje. Quem vai matar os dois terços restantes para sermos sustentáveis e fofos? Será que os seguidores da Greta topariam a empreitada?