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quinta-feira, dezembro 21, 2006

Esse elogio da sombra: poesia e cegueira em Glauco Mattoso



Franklin Alves


Na vida cultural contemporânea, dominada pela comunicação visual, o olhar virou comércio. Informações superficiais que não aprofundam os processos cognitivos, imagens pré-fabricadas que não admitem lembranças nem atitudes de contemplação são os fundamentos da comunicação midiática – comunicação que atribui mais valor ao quantitativo do que ao qualitativo. Assim, o olhar que nela é dominante acaba transformando o homem num ser sem memória e sem imaginação.

No entanto, é somente a partir da relação entre a experiência do passado e a experiência do porvir que o homem se torna um indivíduo ativo e crítico. Por isso, é interessante observar como o olhar encenado na poesia hoje, por ser distinto do olhar imediatista, constitui um lugar de resistência.


Nesta cultura, temos a visão como o sentido que goza de privilégios e, simultaneamente, como alvo principal do apelo consumista. É o excesso de imagens, num sentido de registro próprio da identificação especular e não num sentido da imaginação, um dos fatores para que o homem contemporâneo seja desmemoriado.

Essas imagens e informações em excesso saturam a “fome de conhecer, incham sem nutrir, pois não há [uma] lenta mastigação e assimilação”, não há tempo para o trabalho de seleção e interpretação do que mais significa, do que seria memorável (Bosi, 1983, 45). Assim, a memória, e, sobretudo, o tempo para a mesma, são considerados categorias desnecessárias e desviantes.

Entretanto, não devemos pensar somente na dicotomia ter ou não memória, mas também no modo como esta foi absorvida pela lógica da atualidade. Há, hoje, uma entronização da memória enquanto produto, por exemplo, nos antiquários, na moda, na obsessiva tentativa de domesticar o passado através do vídeo, nos banco de dados eletrônicos dos computadores (com hard-disks cada vez mais acessíveis) e, principalmente, com os museus – contraponto da obsolescência na sociedade de consumo.

Estes sofreram visíveis mudanças e, de lugar conservador elitista, passaram também a lugar da cultura de massa, lugar de uma mise-en-scène espetacular, revelando a intimidade entre o olhar, a memória e o capital.

Visitar um museu não é mais se apropriar meticulosamente do conhecimento cultural, e sim participar de um espetáculo de grande sucesso, consumir. Os objetos expostos, devido à rapidez dos espectadores que visitam o museu, tornam-se invisíveis e a recordação daquilo que se foi ver é, agora, souvenir: camisetas, posters, reproduções, catálogos, enfim produtos (Huyssen, 1997, 222-55).

Pensar na poesia como lugar de resistência é pensar num modo de olhar distinto desse olhar imediatista da contemporaneidade. O olhar encenado, repensado e reformulado poeticamente é o olhar contemplativo, imaginativo, que exige esforço, tempo, e ainda, possui uma amplitude de vibrações que a informação e a imagem pré-fabricada não encerram.

Portanto, pensar a poesia como lugar de resistência é pensá-la como anacrônica: algo que estaria fora de harmonia com o tempo acelerado de hoje, que não estimula a leitura ruminante e solitária exigida pela poesia. Uma experiência out of joint: um tanto deslocada, mas que também incomoda, se lembrarmos do sentido coloquial desta expressão inglesa.

Desde a adolescência, o poeta paulista Glauco Mattoso, bloqueado pela visão deficiente, em decorrência do glaucoma, não pôde exercer atividades que exigiam maior desenvoltura física e acabou refugiando-se na leitura. A partir do seu primeiro livro, o Jornal Dobrabil, ele utiliza o pseudônimo Glauco Mattoso: glaucomatoso é o nome dado ao portador de glaucoma, doença que o levou à cegueira completa em 1995.

Em 1997, foi convidado pelo crítico Jorge Schwartz para integrar o corpo de tradutores da obra completa de Jorge Luis Borges, também cego na meia idade. Em parceria com Schwartz, traduz o livro de estréia do escritor argentino, Fervor de Buenos Aires. A publicação valeu aos tradutores o prêmio Jabuti de 1999 e, com o dinheiro da premiação, Mattoso compra um computador adaptado para cegos.

É através deste que ele readquire o hábito de escrever, rompendo nesta mesma data um silêncio poético de quase dez anos, já que seu último livro, Limeiriques e outros debiques glauquianos, datava de 1989. Num espaço de oito meses, daquele mesmo ano, ele lançou três livros com mais de trezentos sonetos, contrariando o esquema de edição de poesia no Brasil e as predições sobre a incompatibilidade entre poesia e sociedade midiática.

A cegueira poderia, por um lado, ser percebida como um fator que levaria ao abandono da escrita e do fazer poético. O próprio Mattoso admite no expressivo soneto Paradoxal, de 1999, que: “Ser cego e sonetar contrários são, / pois a poesia é oráculo e profeta; / cegueira, por seu turno, é maldição” (Mattoso, 1999, 117).

No entanto, se às vezes a cegueira é tida como prisão, como incompatível ao sonetar, é através dela que este fazer se realiza: aqui a cegueira é força basilar para entender toda sua produção poética. Seja na adolescência, com a visão deficiente orientando-o para a leitura, seja na escolha do pseudônimo, brincando com a doença que mais tarde o cegaria, e na tradução do também cego Borges, reorientando-o para a literatura, percebemos sua importância.

Sem enxergar, Mattoso se volta para a memória e para os processos imaginativos. O olhar, metaforicamente um novo olhar desvinculado da visão, vai do agora em direção ao passado, transformando experiências vividas quando enxergava em sonetos – experiências quase sempre configuradas pela leitura.

Sem enxergar, já que a “cegueira é como a cela / perpétua, sem janela, vídeo ou vela, / sem luz no fim do túnel, pena extrema” (Mattoso, 1999, 122) não há para o poeta outra opção, além de contar com o repertório memorizado.

Não sendo possível mais ver o texto escrito e revisá-lo, atitude fundamental para quem escreve, Mattoso guarda as palavras e versos na memória e trabalha-os como “rascunhos mentais e orais”, processo mnemônico emprestado dos métodos borgianos e ainda, aproveita-se dos esquemas fixos de métrica e rima do soneto.

Assim a memória possibilitará ao poeta dialogar com a tradição, contemplar o passado e “sonetar no escuro”. A palavra contemplar além de significar “fixar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração” e “observar atentamente; analisar” significa também “fazer suposições sobre; imaginar”. Seria desta maneira que um possível antagonismo entre o olhar poético e a cegueira é desfeito, e o poeta pode “ser cego e versejar no escuro”.

Pensar na memória como força criadora, memória-trabalho nas palavras de Ecléa Bosi (Bosi, 1983), é relatizivar dois aspectos que, para o senso-comum, são sinônimos desta função: a memória como hábito e a conservação total do passado, aspectos esses relacionados, respectivamente, com os atos de repetição e acumulação.

O primeiro aspecto é o da conservação total do passado, onde a acumulação é a regra, essa transforma a memória de maneira negativa e não-dialética, num conjunto volumoso de coisas, onde o mais importante é não deixar que nada se perca. Entretanto, tal configuração da memória “só seria possível no caso (afinal, impossível) em que” alguém pudesse manter intacto o sistema de representações do seu passado (Bosi, 1983, 17).

Aquele que possuísse e conseguisse isso, não seria capaz de pensar, de contemplar, pois se ocuparia, de maneira extraordinária, em recordar tudo o que ocorreu. Como no conto, de Jorge Luis Borges, Funes, o memorioso, onde o personagem consegue reconstituir na totalidade o que fez no dia, item por item, em descrições minuciosas e precisas (Borges, 2001, 539, v. I).

A memória como hábito, outro aspecto que deveria ser relativizado, é aquela na qual “o corpo guarda esquemas de comportamento de que se vale muitas vezes automaticamente na sua ação sobre as coisas”. Esta seria “um exercício que, retomado até a fixação, transforma-se em um hábito, em um serviço para a vida cotidiana”, deixando assim pouco espaço para a criação (Bosi, 1983, 11), nos fechando o acesso à evocação, inibindo as imagens de outro tempo e, assim, nos privando do ato de contemplar.

É a partir desta perspectiva que podemos entender a oposição entre vida ativa e vida contemplativa e das relações do presente com o tempo gasto, ou não, para recordar. Assim, é possível contrapor a memória dos que têm fortes vínculos com a vida ativa à dos que estão afastados dela.

Absorvidos pelos trabalhos do presente, não nos preocupamos com o decorrido. Quando recordamos, o passado aparece como sonho, lugar isolado do atual. Nesse caso “vida prática é vida prática, e memória é fuga, arte lazer”. Já ao nos afastarmos, de maneira crítica, da vida ativa, quando recordamos nos ocupamos “consciente e atentamente do próprio passado”.

A atenção e a consciência dispensadas são trabalho de refazer e não evasão, sonho (Bosi, 1983, 23). É pela relação de oposição entre vida ativa e memória, que podemos entender esta como um fenômeno criador.

O trabalho criativo com a memória pode ser compreendido também através da imagem do torso criada por Walter Benjamin. Ele acredita que aquilo que alguém viveu é, no melhor dos casos, comparável à bela figura à qual, em transportes, foram quebrados todos os membros, e que agora nada mais oferece a não ser o bloco precioso a partir do qual ele tem de esculpir a imagem de seu futuro (Benjamin, 1987, 41-2).

O que ficou, o memorável, é ensejo do trabalho de (re)construção. Quebrados foram todos os membros na viagem do tempo, pois a memória é “um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento” (Bosi, 1983, 3). O que ficou é o bloco precioso que servirá de sustentáculo para o artesão esculpir, contemplar.

Trabalho que, mesmo repetido à exaustão, nunca é igual, mas a cada dia distinto, pois a reiteração, neste caso, leva à experiência, ao apuro do desempenho. Diferente da repetição do trabalhador de uma fábrica, que levado à exaustão pelo mecanicismo dos seus atos, não guarda experiências e não pensa sobre elas.

Pensando nas metáforas do artesão e do torso é que podemos tentar compreender como a memória manifesta-se como trabalho criativo de repetição na poesia mattosiana. Estar cego, ou preso, numa de suas metáforas mais usadas no que concerne à cegueira, é, paradoxalmente, a condição de sua liberdade: cabe ao poeta passar em revista tudo o que viu, leu e viveu quando ainda tinha o sentido da visão, aventurar-se em (re)construir contemplativamente seu passado. Mattoso lembra porque a situação atual – afastado da vida ativa por ser cego – o faz lembrar.

Tal afastamento e o tempo livre decorrente deste, aproximam seu trabalho ao do artesão, ao da memória criadora. Memória-trabalho que será visível, em seus sonetos, sob a forma de reiteração, momento de reconstrução de cenas, situações, leituras e ainda pela presença de verbos e signos que remetem a esforço, como no respectivo trecho do Latino, soneto do livro Centopéia, primeiro da trilogia : “Pes, pedis” é um vocábulo que gravo / na pedra da memória, pra ser lido, / relido, repetido até lambido” (Mattoso, 1999, 40).


Neste soneto, podemos perceber a relação de Mattoso com a tradição compreendida “enquanto memória e leitura, tradução e transformação” (Miranda, 1997, 22), relação que confirma a importância da cegueira como força condutora à leitura e à literatura. O que foi lido, sua memória intertextual, conjunto de causas e motivos, possibilitou-lhe entrar em contato com um grande elenco de obras que puderam ser reescritas, traduzidas e transformadas em suas.

A leitura do vocábulo latino pes/pedis pode ser interpretada, neste soneto, como exemplo do processo da memória-trabalho e de sua repetição criativa: “lembrar não é reviver, mas refazer, repensar” (Bosi, 1983, 17). O que é lido numa primeira vez, relido, repetido, depois de algum tempo, pode até ser lambido, ou seja, ainda tem, após as várias leituras, gosto. Esse gosto pode ser comparado à releitura que se faz hoje de um certo livro já lido na remota juventude.

Maurice Halbwachs toma esta metáfora da releitura como exemplo da reconstrução do passado e da impossibilidade da ressurreição total do mesmo. O que lembra, antes de abrir tal livro, seria capaz de recordar poucas coisas: o tema, os personagens principais, alguma figura estampada, etc. Ao encetar a (re)leitura, esperamos que a memória nos permita reviver experiências passadas, que voltem com o mesmo vigor de outrora.

Porém, agora, acontece que vemos sob um novo ângulo as coisas (tanto personagens, paisagens, idéias e valores) anteriormente vistas, iluminados de maneira distinta da primeira vez que lemos: “a distribuição nova das sombras e da luz muda a tal ponto os valores das partes que, embora reconhecendo-as, não podemos dizer que elas tenham permanecido o que eram antes” (Halbwachs apud Bosi, 1983, 20). Sob tais aspectos, a experiência da segunda leitura é alterada criticamente, e tem, agora, um outro gosto. A releitura do livro é agora outra, pois somos também outro.

A consciência da mudança, no trabalho de repetição criativa, pode ser observada no soneto Ao fim e ao cabo, que encerra o segundo livro da trilogia, Paulisséia Ilhada – livro que já pelo título, confirma a sensação de isolamento provocada pela cegueira em contraste ao desvario da paulicéia de Mário de Andrade. Aí, Mattoso faz uma analogia da forma do soneto à forma do quarteirão:

Ao cabo de alguns anos bengalando
decoro cada pedra do caminho,
o ponto onde alguns galhos com espinho
esbarram-me na cara quando ando.

Ao cabo de alguns meses sonetando,
compor passa a processo comezinho,
tal como encher o copo com mais vinho
sabendo, em plenas trevas, quanto e quando.

[...]

Sendo o sonetar um processo comum, usual, devido aos seus quatorze versos e esquemas fixos de métrica e rima, que se repete, comezinho no adjetivo usado, contudo não é nunca igual. Podemos aqui lembrar dos mais de trezentos sonetos, escritos de maneira quase serial, que formaram a sua trilogia. A mudança, o processo criativo, é explicito no último terceto deste: “Caminhos nunca mudam para mim. / Só muda a caminhada, como vão / mudando meus sonetos. Chego ao fim” (Mattoso, 1999, 222).


Ainda que percorra o mesmo caminho, a caminhada (o que ele percebe, pensa, sente) é distinta, pois da mesma maneira que a releitura de um livro é sempre diferente, não se percorre duas vezes e, de maneira idêntica, o mesmo caminho.

Ao poeta-artesão, retornando à metáfora benjaminiana, a memória servirá como liga para a reconstrução (esculpir a imagem do futuro) dos cacos do passado; para demonstrar-se e sentir-se vivo; ou, para criar a natureza humana, por um processo permanente de reavivamento e rejuvenescimento (Bosi, 1983, 32). Concentrar o passado no presente é conhecer a mudança, a razão do agora; é possível, ainda, inventar-se, descobrir-se (em latim inventar, inventio, - onis, equivale a descobrir).

O paradigma da visão na filosofia ocidental está intrinsecamente ligado ao conhecimento, à verdade, à iluminação. Inúmeras são as atribuições do ver como sinônimo de conhecimento e da verdade na tradição judaico-cristã e na história da filosofia (Chauí, 1991, 31-63). Esta, desde Aristóteles, confere à visão um lugar privilegiado no saber: ela é “de todos nossos sentidos” aquela “que nos faz adquirir mais conhecimento” e a que “nos faz descobrir mais diferenças”, escreveu o autor de Metafísica.

Também consciente da importância da visão, Santo Agostinho condenará tal sentido nas suas Confissões: “Resisto às seduções dos olhos para que os pés, com que começo a andar no vosso caminho, não me fiquem presos” (Agostinho, 1999, 295). Condenação que, por vias inversas, entronizará a visão. Os olhos, neste santo, devem ser domesticados, sem curiosidade alguma, para que o caminho até Deus seja feito sem desvios de percurso, sem a percepção do pecado.

Poderíamos perguntar por que há uma entronização do olhar e de suas relações com o conhecer? Por que nossa convicção seria obtida vantajosamente pelo ver? Por que nossa exagerada fé perceptiva? Marilena Chauí, no artigo Janelas da alma, espelho do mundo, acredita que se “o olhar usurpa os demais sentidos fazendo-se cânone de todas as percepções é porque, como escreveu Merleau-Pounty, ver é ter à distância”, é ultrapassar a finitude do corpo sem a necessidade de mediadores, é ter sem se sujar.

Através da memória, a imaginação toma posse das coisas sem o olhar. Para imaginar não é necessário, no caso mattosiano, a mediação da visão. A reminiscência sugerida pela memória é transformada em trabalho poético, este demanda esforço e, por conseguinte tempo: a cegueira, senso-comum da perda, orientou-o para ganhar. Ganhar: entrar na posse (de algo) por oferecimento de outrem.

Borges, no ensaio A cegueira, nos lembra que “(...) quando algo termina, devemos pensar que algo começa”. Porém o próprio escritor sabe de sua difícil realização, pois “sabemos o que perdemos, não o que ganhamos. Temos uma imagem muito precisa (...) daquilo que perdemos, uma imagem às vezes dilacerante (...), mas ignoramos o que pode substituí-lo, ou sucedê-lo” (Borges, 2001, 315, v. III).

Perdendo o visível, Glauco Mattoso cria/ganha, com ajuda da memória e da imaginação, o que vai suceder o mundo das aparências: a poesia, e nos ensina que existem outros modos de ver. Fez-se o elogio.

(Fonte: revista Zunai, 2002)

A poesia iluminada de um cego às avessas




SONETO ALTISSONANTE


Barulho é o que se faz na poesia,
de dentro para fora do poema.
Se não for ruidoso o próprio tema,
a forma desafina a melodia.


Se o atonal virou monotonia,
resolve-se na crítica o problema.
É só polemizar, com tinta extrema,
se a pança deve estar ou não vazia.


A fome, última instância do organismo,
define o decibel do belo artístico,
que vai de zero a dez em ativismo.


A coisa se resume neste dístico:
Mais pintam de fatídico um abismo,
maior seu interesse e grau turístico.




SONETO DESARVORADO


Parece que as moléstias pulmonares
voltaram numa escala assustadora.
Pandêmicas já são, como se fora
romântica a aridez dos nossos ares.


Pulmões são, um por vez, nem sempre aos pares,
os alvos das bronquites, da traidora,
fatal tuberculose, e assobiadora
se torna a inspiração nos lupanares.


A pleura dói nas costas, e no peito
reflete a grossa tosse da traquéia,
que, plena de catarro, é um cano estreito.


Asmática e pneumônica, a plebéia
manada arfa no denso (ou rarefeito)
bulício da poluta Paulicéia.



SONETO DOS BAIXOS TEORES

Mulher fumando é foda! Aquilo fede
que nem pólvora podre e nada poupa:
o cheiro pega em tudo, até na roupa
dos outros, e o perfume pouco impede.

Se o papo rola em bar, quando ela arrede
seu pé dali, a toalha cheira a estopa
mofada e foi cinzeiro até da sopa
o prato esvaziado, e o copo excede.

Fumaça ardida sopra ela na cara
de todos com quem fala, e do nariz
sai bafo de dragão que ódio dispara.

Coitada, bem que tenta, como eu fiz,
livrar-se desse vício, mas a tara
podólatra e o cigarro pedem bis...


DEFECTIVO

eu mordo
tu mastigas
ele engole
nós digerimos
vós cagais
eles policiam




SONETO RASGADO


Fenômeno curioso, força oculta
suspende de repente o meu sintoma
de febre, dor de dentes ou glaucoma
na véspera do exame ou da consulta.


Vem desde nossa infância à idade adulta,
e nada tem a ver com o diploma
exposto em consultórios ou a soma
cobrada, que nos dói mais que uma multa.


O fato é que saramos num instante,
com medo, porventura, do motor,
da pinça, faca ou coisa semelhante.


Porém o que nos causa mais pavor,
acima até do inferno que viu Dante,
é o mórbido sorriso do doutor...




CONFORME O NEXO

para Leila Míccolis

prenda do lar renda bruta
puta tributo ou escrava
tanto lhe faz dá na mesma
coma 1 merda ranho escreva
leia não leia pau come
se roda bolsa na esquina 2
tem cacete cassetete
cabaço capacho escova
se se casa caso não
se prostitua ele estupra
não paga em dólar e supra

_____
1. variante: "cama"
2. variante: "esquiva"



SONETO A RENATO RUSSO

Embora original, gênio, perito,
do nosso rock um raro uirapuru,
vivia ensimesmado e jururu,
talvez por não ser grego nem bonito.


Entendo a sua angústia e o seu conflito,
meu ídolo, meu mártir, meu guru!
Causou você, primeiro, um sururu;
depois, tristeza, e então calou seu grito.

Respeito quem é triste, ou aparenta.
Os outros grandes brincam: Raul, Rita
ou cospem mera raiva barulhenta.


Cazuza também brinca, mas medita.
Arnaldo Antunes testa, experimenta.
Renato faz da dor a dor: maldita!




SONETO POETICONOGRÁFICO

A "poeticidade" decomposta
"depoe da citi", ou seja, da cidade,
coisa que Augusto fez com propriedade,
pois é do cru concreto o que mais gosto.


Meu bloco aqui coloco só em resposta
ao Jomard, de Recife, esse confrade
que vê na sua Veneza o bruto jade
rajado, que craveja a nossa costa.


Bevi do concretismo a poesia
que é líquida e se esconde atrás da pedra
qual água no sertão: Cabral sabia!


A poeticidade jamais medra
se não citar também cidadania,
concreta qualidade: a mais paredra!




SONETO TRAMBIQUEIRO

Bandido, celerado, meliante,
pirata, bucaneiro, bandoleiro,
corsário, flibusteiro, pistoleiro,
falsário, plagiário, ator, farsante.


Mentor, capanga, cúmplice, mandante,
ladrão, sequaz, comparsa, quadrilheiro,
facínora, assaltante, tesoureiro,
banqueiro, figarista e tutti quanti.


Prefeito, magistrado, malfeitor.
Jagunço, deputado, edil, suplente.
Um estilionatário, um senador.


O vice, o candidato, o pretendente.
O correligionário, o estuprador.
O Papa, o ditador, o presidente.




MOTE MARTELADO

Bem melhor que foder diariamente
É parir um poema a cada dia.

GLOSA AGALOPADA

O romano, que é prático e prudente,
Já falou: Nulla dies sine linea
E a missão do escritor assim define-a:
Bem melhor que foder diariamente.
Tem razão o latino, porque a gente
Nove meses demora pra dar cria.
Mais vantagem, portanto, percebia
No martelo e na glosa que na foda,
Pois o gozo, a quem nunca se acomoda,
É parir um poema a cada dia!


SONETO PREJUDICIAL

Na bolsa de valores se baseia
um ânimo excessivo e uma "euforia",
chamada de "otimismo", que irradia
tentáculos na mais global aldeia.


Mas quando alguém descobre que bambeia
o frágil castelão de nota fria,
o pânico se instala e, mal o dia
desponta, está vazia a que era cheia.


Fortunas se evaporam que nem fumo
e sólidas empresas pro buraco
lá vão, pra dar da crise só o resumo.


Foi ontem, mas parece ser tão fraco
na mente esse episódio, que eu espumo
de raiva, tanto o assunto me enche o saco!


MOTE MOMENTOSO

Quem mandou pisar na bosta?
Agora limpa a sujeira!


GLOSA

Quando alguém diz que não gosta
De política, mas vota
No ladrão, só borra a bota:
Quem mandou pisar na bosta?
Mal seu pé naquilo encosta,
Sente o que o governo cheira!
O eleitor erra a primeira,
Na segunda o voto nega:
Confiou na escolha cega,
Agora limpa a sujeira!



SONETO DOS PESOS E MEDIDAS

Disseram-me que, à tarde, na TV
exibem-se programas de mau gosto:
nojento rango o povo está disposto
a ver sendo comido por cachê.

Minhocas vivas? Lesmas? Qual o quê!
O nojo é mais embaixo: sobre o rosto
do bravo voluntário vê-se exposto
um vômito de carne "fesandê".

Só isso? Não! Num prato de espaguete
misturam vermes moles e moventes
e uns ovos de esturjão, pra que complete.

Baratas alguém trinca entre dois dentes
e chupa a "maionese"! E inda há quem vete
as taras por chulé como "doentes"!


SONETO DA VIGARICE

Remédios falsificam com farinha!
Dinheiro, em xerocópia! Tem pirata
no rádio e no CD, sem quem combata
a fraude no tamanho da sardinha!

Entope com hormônios a galinha
e os ovos lhe rotula quem a mata
de "light" e "dietéticos"! De errata
carecem os jornais em cada linha!

Expande o contrabando seu mercado,
e as urnas fajutadas no varejo
engrossam os partidos no atacado!

Nem tudo está perdido, alegre, vejo:
não há chulé sintético inventado
capaz de tornar frio o meu desejo!


SONETO REAL

As coisas, como são, ninguém aceita,
e todos tentam dar-lhes aparência
mais doce e palatável, providência
inócua, já que a sorte rola e deita.

Políticos transformam a desfeita
cruel dum desafeto em ocorrência
banal e superada, inda que pense-a
a sério quem a sofre e não confeita.

Num dia um trata ao outro de "ladrão",
"safado", "corno" e "bicha"; no seguinte
houve "mal-entendido" e "distorção".

O fato é que quem ouve é mau ouvinte:
se xingam-se é porque, na certa, são
piores, muito além do que se pinte!


SONETO DO DECORO PARLAMENTAR


– O ilustre senador é um sem-vergonha!
– O quê?! Vossa Excelência é que é safado!
E os dois parlamentares, no Senado,
disputam palavrão que descomponha.

Um grita que o colega usa maconha.
Responde este que aquele outro é viado.
Até que alguém aparte, em alto brado
anima-se a sessão que era enfadonha.

Inútil tentativa, a da bancada,
de a tempo separar o par briguento:
aos tapas, se engalfinham por um nada...

Imagem sem pudor do Parlamento,
são ambos mais sinceros que quem brada:
– Da pecha de larápio me inocento!




SONETO NÃO GOVERNAMENTAL


O que é, o que é? Responda antes que eu gongue!
Tem cara, ora de creche, ou de hospital,
às vezes até banco, e o capital
tem crédito que encurte, ora que alongue.


Nem clube de gamão, nem pingue-pongue,
nem mutirão, nem multinacional,
nem fundo de quintal, nem estatal!
Não adivinha? É simplesmente a ONG!


Mais extra-oficial é o combativo
estilo do Greenpeace ou dos anarcos,
que enfrentam as potências com motivo!


Meu caso é bem atípico: com parcos
recursos conto, e da visão me privo,
mas contra os baleeiros vão meus barcos!




SONETO BARRACO


Maldito! Fidaputa! Desgraçado!
Safado! Sem-vergonha! Salafrário!
Tratante! Sacripanta! Mercenário!
Xibungo! Bicha! Aidético! Viado!


Galinha! Vaca! Sífilis do gado!
Esposa de bundão! Filha de otário!
Sinônimo de "à toa" em dicionário!
Cadela! Égua! Vadia! Frango-assado!


Cadela é sua mãe! Bicha é você!
É a vó! Vá chupar pau! Vá dar xibiu!
Você que vá tomar! Você que dê!


Estou de saco cheio e cu vazio,
cagando em tudo! E sabem mais o quê?
Mandando tudo à puta que pariu!


SONETO COCHILADO (ou COXILADO)

Depois que fiquei cego, na lembrança
às vezes a grafia um branco dá:
não sei se escrevo "chícara de chá"
ou "xícara de xá" tem mais usança.

Um S ou C cedilha sempre dança
(ou "dansa"?)... É "farsa" ou "farça"? É "ca" ou "qua"
a sílaba em "catorze"? Não me vá
dizer que "transa" soa como "trança"!

Estou perdido! Sei que, por princípio,
cognatos são homógrafos, mas vejo
que "extenso" de "estender" é particípio!

Se X tem "extra", é justo que o traquejo
a "destra" como "dextra" estereotipe-o
e ao falo a "juxtaponha" por gracejo!


SONETO BATISMAL

No manual de estilo está disposto
que Pequim é "Beijim" e estouro é "boom".
Bandido é "cidadão", bunda é "bumbum".
Prostituta é "modelo", cara é "rosto".

Mas que mania estúpida! Que gosto
de achar que flatulência ou peido é "pum",
que "alcoólico" é o alcoólatra ou bebum,
como se trocar nome é trocar posto!

Pra mim, "beijim" é o beijo do mineiro,
"bumbum" é só bundinha de neném
e puta é puta mesmo, bem rasteiro!

A mídia quer ditar o que convém,
porém, no linguajar do brasileiro,
não vem com viadagem, que não tem!


SONETO TERMINAL

Se o velho e retardado agora for
"idoso" e "excepcional", é mais precisa
a forma que, hoje em dia, se eufemiza:
"terceira idade", "terceiro setor".

Se um cego é um "invidente", é de supor
que, já "deficiente", exige, à guisa
de adendo, um "visual", e que precisa
ainda do bordão de "portador".

De quê? "Necessidades", obviamente!
Não basta? Inda tem mais: "especiais"!
Que idéia esses babacas têm na mente?

Não é com eufemismos que se faz
justiça ao "aleijado"! O que ele sente
é a dor de ser da raça dos "mortais"!

GLAUCO MATTOSO, NOSSO PÉDOLATRA AMADOR



Poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias, Glauco Mattoso é o pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (nascido em São Paulo, em 1951).

O nome artístico não passa de um trocadilho infame com a palavra "glaucomatoso", que designa o portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995, além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Após cursar biblioteconomia (na Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e letras vernáculas (na USP), ainda nos anos 70 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário JORNAL DOBRABIL (trocadilho com o JORNAL DO BRASIL e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como LAMPIÃO (de temática gay) e PASQUIM (semanário político-humorístico), além de periódicos literários como o SUPLEMENTO DA TRIBUNA e as revistas ESCRITA, INÉDITOS e FICÇÃO.

Durante a década de 80 e o início dos 90 continuou militando no jornalismo contracultural, desde a HQ (gibis CHICLETE COM BANANA, TRALHA, MIL PERIGOS) até a música (revistas SOMTRÊS, TOP ROCK), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no JORNAL DA TARDE, ensaios na STATUS e na AROUND) e publicar vários volumes de poesia e prosa.

Na década de 90, com a perda da visão, abandonou a criação de cunho gráfico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à letra de música e à produção fonográfica, associado ao selo independente Rotten Records.

Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas (A ARTE DA PALAVRA, BLOCOS ON LINE, FRAUDE, VELOTROL) e impressas (CAROS AMIGOS, OUTRACOISA).

Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldito" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire ou Genet.

Em colaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um prêmio Jabuti em 1999. Nesse terreno bilíngüe GM tem-se dedicado a outros autores latino-americanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por colegas argentinos, mexicanos e chilenos.

Segundo Pedro Ulysses Campos, "A poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, cronologica e formalmente, em duas fases distintas: a primeira seria chamada de FASE VISUAL, enquanto o poeta praticava um experimentalismo paródico de diversas tendências contemporâneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto gráfico do poema; a segunda fase seria chamada de FASE CEGA, quando o autor, já privado da visão, abandona os processos artesanais, tais como o concretismo dactilográfico, e passa a compor sonetos e glosas, onde o rigor da métrica, da rima e do ritmo funciona como alicerce mnemônico para uma releitura dos velhos temas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vício, o trauma, o estigma), reaproveitando técnicas barrocas e concretistas (paronomásia, aliteração, eufonia e cacofonia dos ecos verbais) de mistura com o calão e o coloquialismo que sempre caracterizaram o estilo híbrido do autor. A fase visual vai da década de 70 até o final dos anos 80; a fase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonetos."

"Para aqueles que só conseguem aceitar o novo depois de terem conseguido grudar-lhe algum rótulo de identificação, Glauco Mattoso passa por ser um típico representante da poesia marginal na sua vertente mais agressiva – a pornográfica. A culpa dessa rotulagem cabe em grande parte ao próprio Glauco, que escreveu em 1981, para a coleção Primeiros passos, da Brasiliense, um pequeno volume sobre O Que É Poesia Marginal. Ali, ao mesmo tempo em que fornecia pistas para a compreensão dos laços de afinidade que mantinha com a marginália dos anos 70, apontava nesta certas características com as quais ele nada tem a ver. As afinidades são óbvias: o mesmo gosto pelo sexo livre, pela gíria e pela chulice; o mesmo empenho de contestar os valores estabelecidos menos a partir de uma posição política que de uma opção existencial; o mesmo alinhamento em favor do mau gosto desbragado contra o cauteloso bom gosto das elites lítero-sociais; a mesma veiculação da própria produção em edições autofinanciadas ou através de publicações alternativas. Entretanto, reverso da medalha, Glauco Mattoso absolutamente não compartilha a desorientação e a desinformação que reconhece nos poetas marginais da década de 70, nem tampouco aquele ‘descompromisso com qualquer diretriz estética’ que acabou por fragilizar a produção literária deles, tornando-a tão circunstancial e efêmera, as mais das vezes."

JOSÉ PAULO PAES, JORNAL DA TARDE

Se bem guardem da produção de antes de 1990 os conteúdos paródicos que fizeram de Glauco Mattoso o melhor herdeiro de Bocage ou de Gregório de Matos, entre nós, os sonetos de CENTOPÉIA debocham de tudo, da seriedade e da falta dela, e implacáveis com a própria cegueira, num vezo satírico muitas vezes autodemolidor, se outros méritos não possuíssem, o teriam este – o de constituir-se em autêntico "óvni" no panorama mais ou menos chapado da atual poesia brasileira.
WILSON BUENO, O ESTADO DE S. PAULO.

Despudor, sarcasmo e, o mais importante, culhões de observar e sublinhar o país que nos tornamos, com suas xoxotas embaladas a vácuo, fuzis de repetição e políticas de interesses escusos. O Brasil que Glauco passa a limpo é escatológico, injusto, perverso e autodestrutivo. Nada mais verdadeiro, para quem mantém um índice mínimo de abertura de olhos.
FERNANDO BONASSI, FOLHA DE S. PAULO.

Em três volumes, mais de 300 sonetos camonianos, perfeitos como técnica, transbordantes de idéias, nojentos como temática e assustadores pelas confissões, pura literatura, eu sei, ninguém é tão tarado, mas minuciosa, exagerada, buscando o fígado do leitor. Cada palavra de Glauco Mattoso é uma reverberação. Não há como ultrapassá-lo.
MILLÔR FERNANDES, JORNAL DO BRASIL.

Sansão fescenino, cego, de cabeça raspada, Glauco Mattoso não deixa pedra sobre pedra: demole o templo da poesia a fim de tecer-lhe o elogio. Esses sonetos, de versos heróicos (decassilábicos, camonianos), expressam grande desconforto, em relação à tradição. Tal desconforto, por sua vez, coloca a poesia em constante duelo consigo mesma. Ao parodiar a tradição, o autor não a exclui; ao invés, reelabora-lhe o legado, usa-a como matéria-prima, glorifica-a.
NELSON DE OLIVEIRA, O GLOBO.

Para um homem que se classifica de bruxo – nos anos 70, leu Aleister Crowley, Helena Blavatsky e Krishnamurti –, o misticismo é cada vez mais uma experiência solitária. O isolamento fermenta a crença. Glauco debocha de profetas e religiões. Mas diz que a cegueira aumentou sua religiosidade. Deu-se conta de que muita coisa, aparentemente obrigatória no cotidiano de qualquer mortal, não o é. Foi uma descoberta solitária.
EDUARDO NASI, ZERO HORA.

Para ler as obras completas do Glauco Mattoso, acesse http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/,

sábado, dezembro 16, 2006

Nicolas Behr e as Pompas do Poder













Leonardo Froés (*)


Quanto maior a pompa, maior será o vazio, ou a imunda fealdade, que a pompa tenta encobrir. No desempenho pessoal, a voz do povo o percebeu de há muito, quando cunhou esta saborosa expressão hoje em desuso: "Por fora bela viola, por dentro pão bolorento". Mas é na esfera do poder que o conflito, decorrente da ausência de harmonia entre a parte de dentro e a casca, se torna mais escandaloso e nocivo, porque os brilhos ostentosos de que o poder se reveste têm uma função programada: distrair para iludir ou, o que é ainda mais criminoso, impor mentiras, perversidades, meias-tintas — fazer passar a falta de sentido, sob uma aparência de luxo, por uma isca prazenteira para o sono das massas.

Ivan Junqueira, num de seus mais fortes poemas, incluído no livro A sagração dos ossos e intitulado justamente "O poder", fez uma radiografia completa desse monstro tentacular e soberbo, que assim começa:

Eis o poder: seus palácios

hospedam reis e vassalos,

messalinas, pajens glabros,

eunucos, aias, lacaios,

e até artistas e ratos.

Uma só migalha basta

à sordícia que se alastra,

e pronto surge uma talha

onde o cenário é lavado

para o próximo espetáculo.

O poder é assim: devasta,

corrompe, avilta, enxovalha,

do reles pároco ao papa,

e não há um só que escape

ao seu melífluo contágio.

Em Poesília (Brasília: LGE Editora, 2005), livro no qual reúne todos os seus poemas motivados pela capital federal, e escritos, como que numa só pregação, entre 1977 e 2001, Nicolas Behr recorre ao puro sarcasmo, ou à avacalhação pura e simples, para desmascarar o poder entronizado na corte, expondo com concisão, eficiência e coragem, o ridículo atroz que o acompanha por hipertrofia das pompas. Radicado em Brasília desde 1974, quando ainda criança, o poeta nascido em Cuiabá, em 1958, tem vivido numa singular intimidade com a geometria das superquadras e eixos, e é essa vivência tão antiga e sentida que o autoriza a zombar das operetas grotescas que a burocracia oficial monta e remonta sem trégua, como se nada de importante estivesse acontecendo no mundo:

o ministro

e seus

baba-ovos

apreciam a

paisagem

poderosa

que macula

o horizonte

"Eu engoli Brasília", diz Nicolas, cujos poemas vêm sempre impressos em tipos de corpo avantajado. Assim, é como se, com poucas letras, com uma rapidez gestual no que enunciam, esses poemas assumissem uma entonação de cartazes, para surpreender o olhar desprevenido, ou fossem tão contundentes quanto uma pichação feita às pressas para escapar da polícia. É sempre breve e necessário, o que as inscrições em corpo grande proclamam, quando afirmam, por exemplo, que

os três

poderes

são

um só:

o deles

Engolida Brasília, a cidade cujo "símbolo é um carimbo", ou melhor, "um rato segurando um carimbo", o poeta é capaz de descobrir poesia por baixo dos cenários de vacuidade da corte — uma poesia que "se esconde na entrecasca" — para então nos comunicar com alegria e indisfarçada malícia:

em paz com a cidade,

meu fusca vai

por esses eixos,

balões e quadras,

burocraticamente

carimbando o asfalto

e enviando ofícios de

estima e consideração

ao sr. diretor.

Os pequenos prazeres das pessoas normais — como "comer pastel na rodoviária" ou "catar gabirobas perto da catedral" — são cultivados como uma espécie de vacina para imunizar o poeta contra a doença do poder que ao seu redor contagia. Cansado de tanta embromação, da Brasília que "é uma aula de geometria" e dele já teve "o pedaço que queria", Nicolas Behr "planta bananeiras na praça do buriti" e acaba por inventar outra cidade que "foi construída com a língua",


2.354 línguas

polindo

as escadarias

do palácio


Essa é a cidade do sonho, na qual sua voz se refugia, minoritária, e que amorosamente ele chama de Braxília. Aqui não há monumentos, não há palácios nem cascatas, não há subserviências safadas nem interesses escusos. Há a poesia que vagueia nos olhos dos guardadores de carros e meninos de rua, como em qualquer lugar do mundo, e há as árvores tortas do cerrado, tão incertas e tortas como a vida, que são beleza e marca registrada dessa "não-capital" do "não-poder".


Inevitavelmente se chega a uma conclusão muito simples, diante da poesia grafitada desse autor que antes de tudo é um demolidor de bobagens. Quase nada se resolve trocando a guarda ou as forças que se revezam no mando, se a estrutura do poder anacrônico continuar sendo a mesma. Por outro lado, percebe-se que o verdadeiro poder, se é que isso também se chama assim, é o exercido para dentro, onde nenhuma mentira prevalece, e não para fora, onde a platéia freqüentemente se engana.



(*) Leonardo Fróes, poeta conhecido por suas atividades na imprensa e como ensaísta e tradutor dos mais respeitados, já transpôs, para o português, livros de William Faulkner, George Eliot, Malcolm Lowry e Lawrence Ferlinghetti, entre outros. Montanhista e naturalista amador, traduziu também livros de especialistas em ciências da natureza, como o ornitólogo Helmut Sick e o mirmecólogo Edward O. Wilson. Algumas Publicações: 1) Poesia: Chinês com Sono e Clones do Inglês (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005); Vertigens (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998) e Argumentos invisíveis (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1995) — este, ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1996. 2) Tradução: Contos Completos, de Virginia Woolf (São Paulo, Editora Cosac Naify, 2005); Esquetes de Nova Orleans, de William Faulkner (Rio de Janeiro: José Olympio, 2002); O triunfo da vida, de Shelley (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2001) — tradução e ensaio; Trilogia da paixão, de Goethe (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999) — tradução e ensaio; Panfletos Satíricos, de Jonathan Swift (Editora Topbooks 1999); Middlemarch, de George Eliot (Rio de Janeiro: Editora Record, 1998) — trabalho que lhe rendeu o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, em 1998. Também é dele a compilação de histórias e lendas advindas da tradição oral do Oriente, Contos orientais (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2003) e a biografia do poeta Luiz Nicol Fagundes Varella, Um outro. Varella (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1990).


(Fonte: www.germinaliteratura.com.br, março de 2006)

NICOLAS BEHR: O ARAUTO DE BRAXÍLIA








Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958. Estudou o primário com padres salesianos, em Diamantino, onde os pais eram fazendeiros. Mudou-se para a capital aos 10 anos e sonhava ser geólogo. Mora em Brasília desde 74.

Em 77 lançou seu primeiro livrinho, Iogurte com Farinha, impresso gloriosamente e mimeografado nas dependências do Colégio Setor Leste, quando da morte de Elvis Presley, exatamente um ano após a morte de Juscelino Kubitschek.

O livrinho se transformou no maior “best seller” da poesia marginal. Tirou mais de 8 mil exemplares, sempre de mão em mão, vendido apenas pelo autor em suas perambulações pelo campus, a rodoviária, bares e entrequadras.


Em 1978, após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba, Bagaço e Chá com Porrada, foi preso pelo DOPS por “ posse de material pornográfico” (na verdade, por suas atividades políticas no movimento estudantil) sendo julgado e absolvido no ano seguinte. O Dr. D’Alambert Jaccoud foi seu advogado. Foi um processo tão absurdo e surrealista, que Nicolas Behr acabou nas Páginas Amarelas da revista Veja para contar sua versão dos fatos.


De 1980 a 1986 foi redator em várias agências de propaganda da cidade. Em 1982 criou, juntamente com Zunga e Lacerda, o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília – primeira ONG ambientalista da capital federal. Em 1987 morou em Washington DC, EUA, vindo a trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza de 1988 a 1990.


De lá pra cá dedica-se à produção e comercialização de mudas, seu antigo “hobby”, sendo pioneiro na produção de mudas de espécies nativas dos cerrados, especializando-se em palmeiras e em frutas e árvores raras. Voltou a publicar seus livros de poesia a partir de 1993, com Porque Construí Braxília.


Sócio-Gerente da Pau-Brasília viveiro.eco.loja. Casado com Alcina Ramalho desde 1986, tem três filhos: Erik (1990) Klaus e Max (gêmeos – 1992). Mora na Península Norte.


No ano passado, ele lançou a coletânea Restos vitais, que contém não apenas os poemas dos cinco primeiros volumes como documentos históricos da maior importância: fac-símiles das capas e folhas de rosto dos livrinhos e, o que é melhor, cópias dos processos movidos contra o poeta, pelo Ministério Público, por porte de material pornográfico, e a sentença do juiz absolvendo-o das acusações.


A arte de Nicolas Behr possui vários aspectos a mobilizarem o leitor e merecerem comentários: um é seu valor intrínseco, os poemas curtos, diretos, secos (às vezes derramados, mas pieguice jamais). O humor (às vezes negro, por que não?) sempre presente, a crítica ácida ou suave, como quem, em vez de perfurar o oponente, prefere rir dele.


É o caso dos desenhos presentes em Grande circular, que trocam as críticas ao Congresso por “brincadeiras” que fazem dos prédios do Senado e da Câmara lápis, carrinho, gilete, Palácio do Planalto. Não é à toa que uma das acusações da Justiça aponte os desenhos como provas contra o denunciado. E também não é à toa que tais críticas perdurem e sejam tão atuais quase 30 anos depois…


A par de seu valor como poesia e crítica, no entanto, Restos vitais oferece outros sabores a serem curtidos. “O nome dá a pista: o que sobrou do que fui, mas que ainda me mantém vivo”, explica Nicolas Behr. “Não são restos mortais, portanto. São vitais. São indícios de presente vindos direto do passado, são histórias, testemunho de um tempo que muitos não viveram, mas que podem vivenciar por intermédio do poeta.”


Afinal, não tem sido, nos últimos milênios, esta a função dos poetas, pelo menos dos grandes e bons? Poesia que remete e traz de volta, que ensina sem que se perceba.

*

se é para bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que direitos, direitos
humanos à parte

*

se é para o bem de todos

e felicidade geral da nação

diga ao povo

que fique

*

se é para o bem de todos

e felicidade geral da nação

diga ao rei

que o povo fica

*

se é para o bem de todos

e felicidade geral da nação

diga ao povo

que a entrada é pelos fundos

*

quem teve a mão decepada
levante o dedo

*

Deus está morto

Marx está morto

eu estou morto

vou enterrar os três

depois de amanhã

*

ninguém me ama

ninguém me quer

ninguém me chama Nicolas Behr

*

o telefone toca

a vida

por um fio

*

não vou com tua cara

nem a pau

...

não sou oito

nem oitenta

sou oitenta e oito

...

hoje andei

feito um pedestre

...

meu nome de guerra?

gregório de mattos

...

meus caninos

tão doendo

pra cachorro

*

sou um poeta

sem eira nem beira

ninguém me chama

Manuel Bandeira

*

a poesia não morreu

ela tá apenas

enterrando a gente

*

você tem uma hora de prazo

pra escovar os dentes

pagar suas dívidas

comprar um carro zerinho

e dar um tiro na cabeça

*

matei a aula no recreio

estrangulei o professor na sala de espera

esquartejei meu colega de banheiro

esfolei o professor no intervalo

torturei o porteiro na saída

passei em todos os vestibulares da vida

*

na quinta-feira

da semana passada

esqueci minha boca

dentro do armário

naquele dia

não mordi ninguém

*

xingar um cara desse

de filho da puta dá cadeia?

*

entro na sala

sem pedir licença

sem por favor

sem muito obrigado

vou direto ao assunto

como vai?

tudo bem?

saio sem fechar a porta

*

enfim, era preciso sabe

quanto cimento será gasto

numa ponte por onde ninguém

passará de mãos dadas


MANCHETE DE 2001

OBJETOS VOADORES

NÃO IDENTIFICADOS

SOBREVOAM A CIDADE

(eram duas borboletas)


A VOLTA DO POETA

Depois de depor no DOPS

voltou pra casa angustiado

abraçou-se à máquina de escrever

e datilografou:

- Poesia,

aqui me tens de regresso...


AMORZINHO

amorzinho
me deixou

amorzinho
tem um defeito

não pode ver homem


BRAXÍLIA (RECOMPOSIÇÃO)

*

começa a demolição

quero pra mim

os anjos da catedral

*

a última coisa

que quero fazer

em brasília é morrer

*

estou salvo:

a poesia não é tudo

*

centro cultural

nicolas behr?

nem morto


PALAVRA FINAL

amai-vos uns aos outros
e o resto que se foda



Para ler outros poemas de Nicolas Behr acesse http://www.nicolasbehr.com.br/