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quarta-feira, junho 10, 2009

Onze anos sem Graça


Eu, Paulo Graça, Fausto Wolff, Luiz Bacellar, Claudio Amazonas, Elson Farias e Carlos Araujo, na Livraria Valer

Era uma terça-feira, dia 9 de junho, há exatos onze anos. Eu estava desenvolvendo uma campanha publicitária na Grafite quando o telefone tocou, por volta das 9h da manhã. Era o poeta Tenório Telles, visivelmente aflito. Me falou que o Antonio Paulo Graça estava passando mal desde as primeiras horas do dia, sentindo uma dor lancinante no baixo-ventre.

Liguei para o psiquiatra Manuel Galvão e falei sobre o problema. Ele suspeitou que podia ser um princípio de infarto e recomendou que o Paulinho fosse levado para o Hospital Universitário Getúlio Vargas. Por ser professor da Ufam, Paulinho teria um atendimento mais completo no setor de urgência porque lá sempre tem pelo menos dois cardiologistas de plantão. Transmiti a informação ao Tenório.

Na mesma hora, telefonei pra Dinari, que se mandou pra Livraria Valer e, em companhia do Tenório, saíram em busca do Paulo Graça. Nesse meio tempo, sua esposa, Claudia, já o havia levado para a clínica Santa Júlia, ali na avenida Airão porque – esta a explicação dela – “eles tinham convênio e era uma clínica particular”.

Quando os dois – Dinari e Tenório – finalmente chegaram à clínica, Paulinho continuava se contorcendo de dor (inclusive já havia urinado nas calças). Segundo a Claudia, ela e Paulo estavam ali há quatro horas e ainda não haviam sido atendidos porque não havia nenhum médico no local. A Dinari entrou em pânico e, aos gritos, exigiu a presença de um profissional.

Sabe-se lá como, mas apareceu um psicólogo que deu logo o diagnóstico: “Porra, esse senhor está sofrendo um infarto!”. Começou o corre-corre. Paulinho foi colocado em uma maca, enquanto os enfermeiros providenciavam máscara de oxigênio para iniciar o processo de entubação.

Tenório e Dinari seguiram junto da maca, com Paulinho segurando em um dos pulsos da Dinari. “Não me deixa morrer”, ele falou pra Dinari, assim que entraram na sala de emergência. Foram as suas últimas palavras.

“O principal sinal do infarto é a dor muito forte no peito, que pode se irradiar pelo braço esquerdo e pela região do estômago. Em primeiro lugar, deve-se correr contra o relógio, procurando um atendimento imediato, pois a área do músculo morta cresce como uma bola de neve com o passar do tempo”, explicou o cardiologista João Sabino, um dos grandes amigos do Paulinho.

Quer dizer, se em vez de ter sido levado à clínica Santa Júlia, ele tivesse sido levado ao HUGV, como recomendara o Manuel Galvão, Paulinho talvez estivesse vivo até hoje. A quem culpar pela cagada nessa altura do campeonato? À clínica de merda, que estava sem profissionais? À ingenuidade da Cláudia, ao achar que atendimento particular é necessariamente melhor que o serviço público? Ao Paulinho, que podia ter se mandado da clínica em busca de ajuda em vez de esperar por quatro horas?

Quando o Tenório me deu a notícia de sua morte, por volta das 12h, meu mundo desabou. Em menos de 15 minutos, eu e o compositor Carlos Castro estávamos na sala de emergência. Custei a acreditar que aquele corpo inerte, estendido na maca, fosse do mesmo sujeito que havia tomado um porre comigo na sexta-feira anterior e discutido exaustivamente o trabalho literário de Henry James, que ele estava traduzindo com certa parcimônia.

Tentando segurar o pranto, liguei para o poeta Almir Graça para lhe dar a péssima notícia. No começo, o Almir achou que era um trote filho da puta, mas quando percebeu que eu estava chorando viu que a coisa era séria. Comecei a ligar para os amigos mais próximos, para jornalistas e radialistas. A rádio Difusora, inclusive, leu na íntegra uma notinha que fiz comunicando o falecimento do escritor.

Sei disso porque, por volta das 5h da tarde, quando ia de táxi pra casa, a fim de me preparar para o velório, o rádio do táxi estava sintonizado na Difusora e um locutor interrompeu o programa para dar a notícia. Aquilo me deixou arrepiado. Falei pra Dinari: “Puta que pariu, mas se eu não estivesse sabendo de nada e, de repente, ouvisse uma notícia dessas no rádio ia pensar que era sacanagem!”

O escritor, compositor e professor universitário Antonio Paulo Graça nasceu em Boca do Acre no dia 23 de novembro de 1952. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, tendo depois ingressado por concurso no Departamento de Língua e Literatura Portuguesa.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro realizou Mestrado em Teoria Literária, tendo apresentado, para obtenção do título, uma dissertação sobre a Estética da Recepção, corrente contemporânea de crítica literária. Mais tarde, na mesma Universidade, fez o Doutorado em Literatura Brasileira.

Sua tese, que se intitulou “A Poética do Genocídio”, trata da corrente romântica indianista. Na contramão do que dizem os manuais de literatura, Paulo Graça provou que, sob a aparência da louvação ao índio brasileiro, os autores, nas entrelinhas do texto, propunham a extinção da raça nativa.

Para provar sua hipótese, Paulo Graça trabalhou com ficcionistas como José de Alencar (“O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”) e Bernardo Guimarães (“O Índio Afonso”), contrapondo-os a autores do século 20 que trabalharam o índio sob outra ótica: Mário de Andrade (“Macunaíma”) e Antônio Callado (“A Expedição Montaigne”). Sua tese de doutorado, dada a relevância das idéias, foi publicada pela Editora Topbooks.

Foi graças ao Paulinho que o meu “Manual do Canalha” foi publicado pela Topbooks, em 1996, após sua (dele) gestão diplomática junto ao livreiro Zemario Pereira. Quer dizer, se não fosse pelo Paulinho, eu jamais teria sido homenageado pelo maior humorista do país, o jornalista Millor Fernandes, nas páginas da mais importante revista semanal do país, a Veja. Não é pouca porcaria.

Além de “A Poética do Genocídio” e de estudos paradidáticos (incluindo o “Como funciona a poesia”, em que ele analisou um de meus poemas), Paulo lançou outros livros de ensaios: “A Catedral da Impureza” e “A Razão Selvagem”. Na ficção, publicou o romance “Tango Selvagem”. Fez ainda letras de músicas para compositores conhecidos, como Célio Cruz, Torrinho, Roberto Dibo, Carlinhos Castro e Armando de Paula.

Durante a gestão do professor Marcus Barros como reitor da Universidade Federal do Amazonas (1989-1993), Paulo esteve à frente do Centro de Artes, tendo realizado dezenas de eventos culturais. Um dos eventos, uma Oficina de Poesia Marginal, coordenada por mim, revelou vários poetas locais que estão em atividade até hoje, como a Cândida Alves e o Jander Borboletra. Quando faleceu, Paulinho exercia o cargo de vice-diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFAM.

No ano passado, assim que soube da morte do escritor Fausto Wolff postei um texto no blog, relembrando a passagem meteórica do alemão por Manaus. O gente fina Ismael Benigno, além de fazer uma notinha simpática a meu respeito, replicou o post no portal Avesso. Exatamente no dia de aniversário de morte do Paulinho.

Ontem pela manhã, também conversei longamente por telefone com o Zemario Pereira, da Topbooks, que vai reeditar o Manual do Canalha, e a conversa, como não podia deixar de ser, acabou rolando em torno das mortes prematuras de Antonio Paulo Graça e Wally Salomão – que foi para o segundo andar sem realizar seu sonho de conhecer Manaus.

O próprio Zemario Pereira ficou surpreso com a notinha do Millor. "Ele já havia feito um puta elogio, na época do lançamento do livro", disse ele. "Agora, eu acho que ele viu o livro na estante, resolveu reler e lascou outro elogio. Vou pegar a autorização dele para colocar na quarta capa dessa nova edição".

O Zemario também me intimou a ir o mais rápido possível para a Cidade Maravilhosa, que ele quer fazer uma festa em minha homenagem durante o lançamento da quarta edição. Os poetas Arnaldo Garcez e Euclides Amaral já foram avisados. Quer dizer, apesar dos pesares e das perdas afetivas, os cães ladram e a caravana passa. Eita nós!


Veveco, eu, Rogelio Casado, Dinari, Jô, Davi Almeida e Paulo Graça (no primeiro plano), durante uma noitada etílica no Bar do Armando

terça-feira, junho 09, 2009

Tá bão dimais, suminino: ó nóis na fita travez!


Pessoal do Pessoa: Márcio, Marcel, eu, Marcelo, Ciça, Eudes, Marisa e Marcus. Na primeira fila, André, Maíra e Mathews.

O meu filho caçula, Marcus Pessoa, estudante de Design do Centro de Estudos Superiores da Fucapi (CESF), acabou de abocanhar o 2º lugar no BITEC - 2008, mas eu o considero campeão moral da disputa.

Motivo? A aluna da UEA, Leilane Lamarão, que conquistou o primeiro lugar com o estudo “Desenvolvimento da Castanha do Pará in vitro”, para a Agropecuária Aruanã, teve como orientadora a minha amiga Nádia Mestrinho.

Acontece que a Nádia Mestrinho vem fazendo esses estudos, no seu sítio em Presidente Figueiredo, a mais de cinco anos. Daí, que a Leilane Lamarão apenas “apresentou” um trabalho que já estava praticamente concluído. Simples assim.

O Programa de Iniciação Científica e Tecnológica para Micro e Pequenas Empresas (BITEC) é uma iniciativa de cooperação entre o IEL, o SENAI, o SEBRAE e o CNPq, que tem por objetivo transferir conhecimentos gerados nas instituições de ensino diretamente para o setor produtivo.

Ao Marcus Pessoa, portanto, os parabéns sinceros de um pai troncho de orgulho. Eparrei!

Nordeste independente


Na próxima quinta-feira, dia 11, Salvador terá uma noite diferenciada, unindo duas atrações que vêm crescendo no cenário musical baiano: o grupo Caboco Capiroba e o cantador Sapiranga.

O evento será realizado a partir das 20 horas, no Tarrafa Bar e Galeria, no Rio Vermelho, com o convite promocional sendo vendido a cinco reais. A jornalista Suzana Tavares vai estar no local para ciceronear meus brothers. Aproveite.

O show “Nordeste Independente” destacará ritmos como o xote, o baião, o xaxado, o coco, o maracatu e até samba-de-roda, incluindo clássicos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Zé Ramalho, João do Vale e Lenine, entre outros nomes representantes da música popular nordestina.

O grupo Caboco Capiroba fará um show baseado em músicas próprias, em cujas letras ressurgem a temática tradicional do sertão e da condição humana. Os temas são enriquecidos com a força da cultura do recôncavo. Com menos de um ano de carreira, o grupo tem se firmado como uma nova opção para os apreciadores da boa “música brasileira de raiz”.

Em 2008, o Caboco Capiroba foi vice-campeão do Festival Bond Canto e do Festival Lado B de Música e, no final de janeiro, a atração especial da festa de aniversário do escritor João Ubaldo Ribeiro.

O grupo é formado por Clara Elisa (vocalista e percussionista), os primos João e Mario Espinheira (ambos vocalistas, violonistas e compositores), Moisés Capiroba (que já incorporou o nome do caboclo, percussionista, efeitos especiais e compositor). Conta ainda com a participação especial do flautista Antônio Geraldo.


O cantador Sapiranga é natural de Gandu, sudeste da Bahia, de onde traz o universo cultural da Zona da Mata que enriquece suas músicas e interpretações. Violonista autodidata, fez carreira em São Paulo, para onde partiu em 1997.

De volta ao estado natal, em 2008, já se apresentou com Riachão, Xangai, Lui Muritiba, Gereba, Bule Bule, Franklin Machado e Laura Dantas. Em 2005, lançou seu primeiro CD, intitulado “Pássaro noturno”.

Pelas mãos de Sapiranga, o cancioneirismo rústico da Zona da Mata se encontra com a leveza do samba urbano. “É uma fusão muito importante. Tratamos esse dois gêneros de raiz com muita modernidade e contemporaneidade”, ressalta o cantador.

Sapiranga se apresenta com seu inseparável companheiro, o violão, além do acompanhamento de percussão.

A originalidade e respeito à tradição são destaques destas duas atrações que fogem do modelo comum imposto pela indústria da cultura. Maiores informações: 8797-2434 ou 9979-6560.

segunda-feira, junho 08, 2009

Ó nóis na fita travez - e na tar de Óia, suminino!


No finalzinho da tarde de ontem, quando eu ainda estava curtindo o chocolate que o Sport Club Recife aplicou na urubuzada, o telefone tocou novamente. Fui atender e não era o meu amor. Era o poeta Zemaria Pinto:

- Já leu a Veja dessa semana?

- Não. Sou assinante da Época.

- Então deixa eu ler um texto pra ti. "Manual do Canalha. Simão Pessoa. Topbooks. 220 páginas. Livro sincero, a começar pelo título. Perfeito manual de canhalice. Um prêmio a quem achar uma linha politicamente correta. Obra-prima no gênero. Dei uma gargalhada por página. Pela maneira como o autor trata o antigo sexo oposto, não recomendo sua leitura às fêmeas da espécie. Recomendação irresistível." Sabe quem escreveu isso?

- Não.

- Millor Fernandes.

- Caralho!

- O último cara que ele elogiou na Veja foi o poeta Manuel de Barros, que depois disso se transformou em sucesso nacional. Te prepara que chegou a tua vez...

- Caralho!

Como eu estava acreditando tratar-se de uma "pegadinha" do Zemaria Pinto, fui no santo Google e não encontrei nada. Hoje de manhã, o Álvaro Bandeira, do Galvez Botequim, telefonou para me parabenizar. Na sequência, o poeta Jorge Bandeira também mandou um e-mail comentando a presepada. Resolvi comprar a revista. A prova do crime está aí embaixo. Sorry, periferia!

domingo, junho 07, 2009

Amigos são para sempre. Se não são é porque não eram.


Na semana passada, via e-mail, recebi o seguinte recado do jornalista Raul Christiano Sanchez, de Santos (SP), esse simpático cidadão aí de cima:

Caro Simão,

Uma viagem pelo google e encontrei o seu comentário. Como vc ignorava o meu paradeiro, receba este sinal de vida! abs. Raul.

Após eu ter respondido o e-mail, ele mandou outro recado:

Simão,

Foi uma alegria enorme “reencontrá-lo”, mesmo que virtualmente. Rafael continua em Santos. Picaré não existe mais, ficou na nossa lembrança. O único resistente daquela época é o poeta Valdir Alvarenga, que edita uma revista chamada “Mirante”, que em tese sucedeu o Grupo Picaré. Mande também o seu endereço que vou enviar meus últimos livros. abs. Raul.

Pausa para os comerciais.

Descobri o endereço do grupo Picaré, de Santos, que tinha como pontas de lança os poetas Raul Christiano Sanchez e Rafael Marques Ferreira, por intermédio da coluna “Notícias do Poetariado”, publicada pelo poeta Ulisses Tavares no saudoso jornal LeiaLivros, e começamos a trocar correspondência.

Em 1981, os grupos Picaré e Sanguinovo (de São Paulo), em companhia de mais uma porrada de poetas (Touchê, Nano, Ulisses Tavares, Aristides Klafke, Álvaro Cardoso, Réca Poletti, etc) fizeram uma passeata literária pelas ruas de Santos, que culminou com um recital coletivo na porta do Parque Balneário Center, na Praia do Gonzaga.


No ano seguinte, Raul Christiano publicou o livro “A produção independente na literatura (catálogo para o movimento)”, que se tornou a minha bíblia. Além de alguns textos teóricos, Raul listava uma centena de endereços de poetas, grupos poéticos e editoras alternativas. Comecei a trocar livros com a maioria deles.

Quando descobria um novo poeta que não estava listado, eu acrescentava nome e endereço no livro do Raul, escrito de próprio punho. E também marcava com um círculo os poetas que mais me agradavam, que seriam transformados em interlocutores preferenciais.


Em poucos anos, a minha coleção de livros da “geração marginal” já passava de 3 mil exemplares. E quase a custo zero: bastava ter paciência para postar livretos pelo correio, coisa que eu fazia todo santo sábado com uma disciplina de monge trapista.

O diabo é que a cada mudança de casa – por conta de separações conjugais ou novos envolvimentos amorosos –, uma parte dos livros ficava pelo meio do caminho. E as mudanças foram muitas...

Dos poetas de São Paulo, eu só conheci pessoalmente a Marise Pacheco, do grupo Sanguinovo, durante uma bebedeira homérica no Arte Espaço Pombal, dos brothers Alberto Penkauska e Luiz Vitali, com direito a recitais poéticos e cigarros do índio (que fumei, mas não traguei). Ela tinha vindo a Manaus para lançar seu clássico livro “Cutuca, meu bem, cutuca”. O ano? Acho que 1984.

De qualquer forma, foi um imenso prazer voltar a ter contato com o Raul Christiano, mesmo que virtualmente. Como no final de julho eu devo estar no congresso da Força Sindical, em Praia Grande, ali pertinho de Santos, é bem possível que eu dê uma esticada até lá, para lhe dar um abraço.

Curtam um dos textos dele publicado na bíblia já citada antes. E aproveitem também para conhecer seu excelente blog.


A teoria na práxis é outra

Raul Christiano Sanchez

Estamos nos aproximando da metade do segundo ano da década de oitenta, e a produção independente nas artes mostra novos sentidos.

Passados os momentos de desespero, numa outra fase da consciência cultural brasileira, outros instantes de penúria nos impelem à busca de caminhos alternativos.

Torna-se, então, imprescindível ressaltar a influência do regime político, de 1964 em diante, nos destinos da criação artística de nosso país, cujos reflexos transbordaram após o Tropicalismo.

Dando um salto na própria história, notamos que os anos setenta, por exemplo, foram os pontos básicos do desvio artístico para outras paragens.

Começamos a observar o rechaçamento do convencionalismo, do institucionalizado, e daquilo “que pode e que não pode”.

Uma das conseqüências dessa reação foi o aumento desmedido da produção, sem que os artistas se voltassem para uma análise qualitativa dessa obra.

Todos esses fatores deixaram claro que alguma coisa estava acontecendo neste país. Por outro lado, a proliferação dos espaços alternativos, pelos artistas vulneráveis aos rótulos de “geração disso, geração daquilo”, foi uma realidade.

Para alguns, modismo. Diríamos, “boom”. Enfim, a arte não estagnara. Um outro pique tomava conta dos passos dessas artistas, estimulando-os a um compromisso com a arte, libertos de qualquer outra função.

Editores e gravadores deixaram de ser os sustentáculos para a veiculação da criatividade brasileira.

Adiantamo-nos um pouco nestes anos oitenta. Estamos vivendo uma outra fase: a filtração da quantidade excessiva do produto. O afunilamento desse boom. Desses partos imediatos.

Com isso, o marginal, independente, underground, alternativo, ou coisa que o valha, denota que, na práxis, a criação quebrou os rigores e escancarou-se.

Nessa prática de fugir aos esquemas considerados comuns de se aumentar o circuito de difusão da criatividade tupiniquim, poetas, contistas e músicos deixaram e estão deixando suas impressões – em suporte de papel ou de acetato – rodopiando livros e discos nessa feira de mil ofertas.


A badalada passeata literária pelas ruas de Santos

Da série "Vale a pena ler de novo": Contra Lamúria - O Livro


Na foto, o comitê do poetariado da Pindaíba, Aristides Klafke, Ulisses Tavares e Paulo Nassar (falta Arnaldo Xavier), arma sua barraquinha em feira-livre, vendendo seus peixes poéticos.

Nos anos 70, poetas e contistas se uniram em torno da Pindaíba (1974-1994), um dos grupos que convencionaram a identificar como de “literatura ou poesia marginal”.

No período mais inquietante, de 1974 a 1982, a cooperativa publicou mais de 80 mil exemplares, entre livros individuais e antologias. Sem contar jornais, cartazes, posters, e a participação de seus integrantes em recitais, palestras e performances, que, inclusive, geraram do então Regime Militar intimações para averiguações ameaçadoras.

Se a “geração marginal” do Brasil não revelou grandes poetas e escritores - qualidade que os cânones acadêmicos sempre acabam reforçando, até hoje, a visão empresarial míope vigente no país -, com certeza ampliou o número de leitores e fez crescer a leitura da obra de muitas “celebridades literárias”, que saíram das tiragens de mil livros, dos feudos dos suplementos lítero-compadristas (“do tu me citas, que eu te cito”) e “algumas” até do anonimato vitalício e hereditário.

Segundo levantamento do instituto carioca Rioarte, nessa época chegou-se a cadastrar mais dez mil candidatos a escritores e centenas de edições. O uso de recursos gráficos como mimeografía, caligrafia, xerox, tipografia e os mais inimagináveis suportes dava à movimentação um indiscutível traço de “guerrilha cultural”, contrapondo pelo avesso a idéia de “contracultura” - em voga nos 60 - porque no Brasil há muito que não se tem serviços para iconoclastas.

Nesse contexto, sem verba e com verbo, a Pindaíba não se limitou apenas às veleidades das formas de representação artística, traduzidas em poemas e contos, mas à participação política, ativa, em todo processo de redemocratização do país.

A atuação do escritor autor-produtor-vendedor nas portas de teatros, cinemas, universidades, fábricas, passeatas, comícios e necrológios como dimensão política e ideológica do seu próprio trabalho, não era algo inusitado, mas se constituíra numa das raras posturas de enfrentamento ao silêncio e ao pavor que a ditadura militar alastrava.

Poesia ou conto de época? Catarse? Confessionalismo esquerdococus de classe média? Em verso e prosa, o caos de tristes anos tristes: sagração da pornografia, o inconformismo, a humorização da tragédia, a dor da comédia política, a sujeira da linguagem, a lata de lixo dos esteticismos estruturalistas, escatologia, desregramentos morais e estéticos e a denúncia de torturas.

E, além disso, uma irônica e profunda crítica social, que mostrava não um repertório descontínuo e epifenômico - como insinuam os faxineiros ou zeladores das letras nacionais -, mas uma nítida radiografia, uma exposição das fraturas de um tempo.

A Pindaíba, hoje Casa Pyndahyba (com dois cálices), naquele momento de covardia generalizada, cooptação cínica e outros processos de fugas fugazes e recicláveis monetariamente, não queria entrar no sistema editorial tal como ele era e é.

Tecia-se uma consciência do limite da literatura como agente de transformação social assumindo o rótulo imposto de marginalidade sem autoflagelo, mas com distanciamento crítico. Era o contra-espelho debochado de uma indústria cultural culturalmente dependente dos “ismos” de plantão ou dos “cabrestos” & apeios” que a torna servil a qualquer derivação do termo “modernidade”.

Vale tudo. Nada vale. Tudo vale. Vale nada. Nem prenúria nem posfóssil. Porém no contrafluxo do subluxo discricionário: o pus da velha modernidade, como liame da relação indissolúvel entre a arte e a vida.

Esta ousadia custou aos membros da Casa alguns convites compulsórios aos órgãos repressivos que queriam saber quem financiava as edições: Albânia? Cuba? Moscou? Óbvio, vinha do inconformismo ante o arbítrio. In-fe-liz-men-te aqueles métodos e práticas da ditadura encontravam ressonantes correspondências nas esferas de celebração da norma culta literária.

Integrantes do grupo foram expulsos, por desacato a autoridade, do I Encontro de Literatura Brasileira (Sampa -1980 - Hotel San Rafael) sob a alegação atrabiliária: “Aqui é um encontro de escritores de verdade”, disse a escritora com os lábios retorcidos de nojo, envolta num cintilante vison e debaixo de uma vaia ensurdecedora. A Pindaíba não saiu.

“Contra Lamúria - O Livro” não é uma revisitação à antiga prática, neste momento em que se vende saudade até das dores doutras épocas igualmente nefastas. Apesar de continuarmos ainda numa ditadura de empresários insensíveis e de autores chorosamente ululantes, é a demonstração escancarada da lição que se teve. Sobretudo da alegria.

Chega de lamentos e reclamações do tipo: “As editoras não investem no autor nacional”; “Meus livros são obras-primas, mas foram recusados por oito editores burros”; “Falta patrocínio”; ” Cadê a política cultural dos governos municipal, estadual e federal?”; “Meus livros deveriam estar na lista da Veja, da Isto É, do Mais ou Menos”. Ou seja, ninguém me compra, ninguém me quer.

Conclusão: acabou o sonho geriátrico da imortalidade infantil, o sonho da consagração morrendo entre os copos de vinho dos lançamentos. Chega de “elucrobaçõe$” e eunucucaçõe$” porque há espaço para operar este adverso e podre pedaço do real sem contaminação, sem submissão.

Mesmo sem usar o esquema dos anos 70, a Casa continua na contramão, ou seja, no contrapé do estado de apatia que se abate sobre as letrinhas, letras & letronas, em um país de 160 milhões de habitantes. De uma minoria alfabetizada de intolerância, preconceitos e desonestidade e uma maioria analfabetizada de saúde, educação, comida e cultura.

Num país em que seus maiores veículos de imprensa escrita não chegam a uma tiragem de 700 mil exemplares e se arvoram em formadores de opinião (de quem?). O grotesco é a constatação de que ainda há escritores que têm ilusão no “poder” desta imprensa que faz de tudo para apagar, invisibilizar o artista brasileiro, e mal consegue registrar com a profundidade necessária os arrebentados do dia-a-dia que se alimentam em lixo hospitalar.

“Contra Lamúria - O Livro”, com duas edições de 75 exemplares, já nasce best seller. Edições esgotadas e pronto! Possivelmente atinge alguns dos poucos que lêem neste país. Uma pena: mas é o reflexo da vida brasileira.

Na verdade, seus editores, ao fazerem contrabando literário dos textos da maioria dos autores participantes, pagando cada com um livro, questionam os processos de intermediação entre o autor e o leitor, revelam os procedimentos seculares que pautam as discussões em torno de direitos autorais de livro no Brasil, onde o criador e a criatura são mais devorados pelas máquinas registradoras do que pelo silêncio melancólico do analfabetismo aviltante.

“Contralamúria - O Livro” é, apesar de tudo, uma sincera homenagem ao afeto. É o respeito às múltiplas adversidades - que o habita -, vale tudo, nada vale. À festa. À alegria. Uma salada mista e ecumênica para comemorar os vinte anos em que os artífices da Casa se encontraram na mesma encruzilhada do Brasil, ainda hoje, por teimosia ou “susto de bala ou vício”, com sonhos e esperanças renovados.

Arnaldo Xavier, Roniwalter Jatobá
Prefácio do Livro Contra Lamúria
São Paulo, junho de 1994.

Ó nóis na fita travez!


Via e-mail, o espada matador, escritor e cordelista Paulo Edson, lá de Campina Grande, me manda esse bilhete: "Olhaí o que o Claudio Humberto publicou na coluna dele, do dia 06/03/2009, que é replicada em mais de 200 jornais. Você está ficando famoso, bicho! Quando é que tu vai me enviar o Alô, Doçura? Que fim levou o Paulo Mamulengo? Cachorro que late n'água, late em terra? Em caminho de paca, tatu caminha dentro? Ou tatu caminha atrás? Um grande amplexo, bandido!"

Cachorro não vota

Cena contada por Simão Pessoa, no seu "Folclore Político do Amazonas": um homem chega para votar em Iranduba, na eleição de 2000, seguido por um cão. "Vai embora, Faísca!", ordena. Mas o cachorro o ignora.

- Deixa de ser intrometido, Faísca! - insiste.

Como o animal não arredava patas, tomou um chute nas costelas. O pobrezinho saiu em disparada, ganindo. O homem explicou suas razões aos demais eleitores, indignados com a agressão:

- Bicho besta, esse Faísca. Eu já disse que aqui a gente pode votar em cachorro, mas cachorro ainda não pode votar...

sábado, junho 06, 2009

Lembranças do inesquecível Colégio Batista Ida Nelson


Eu e Simas, durante minha formatura no colégio, em dezembro de 1970

Quando conclui o quarto ano primário no grupo escolar Getúlio Vargas, tinha duas opções: fazia o quinto ano primário no grupo e continuava os estudos no colégio estadual Márcio Nery, que funcionava ao lado, ou fazia o exame de admissão para o colégio batista Ida Nelson, onde já estudavam minhas duas irmãs mais velhas, Silene e Simone.

Fiz o exame de admissão e passei, encurtando em um ano a diferença escolar que me separava delas – que eram dois e três anos, respectivamente, mais velhas do que eu. Assim, aos 10 anos de idade, eu já estava começando o ginásio. Como nunca fui reprovado, aos 17 anos já cursava Licenciatura em Física na UEA, que depois tranquei para estudar Engenharia Operacional em Eletrônica, na UTAM.

Por ter sido sempre o menor da turma – exceto a partir do terceiro ano de Eletrotécnica na ETFA –, eu era sempre alvo de gozações. Tirava as “baixarias” de letra me esforçando para ser o melhor aluno da classe. Mas nunca fui um “cdf”. Pelo contrário: onde houvesse putaria, eu estava presente. Mais tarde, já adulto, transformei todas aquelas infâmias recebidas em matéria prima do meu espírito libertário.

Minha grande amiga, nos primeiros dois anos, era a Margarida Doyle, uma gringa desengonçada, mas muito bonita e culta, filha de missionários batistas, que hoje mora no Texas. Bom, pela diferença de altura (eu era um tampinha, de 1,40 cm, ela, uma gigante, de 1,75 cm) não dava mesmo pra gente namorar, mas eu bem que poderia ter aproveitado a oportunidade para aprender inglês, já que ela dominava o português como poucos e me dedicava uma atenção quase maternal.

No futebol society, disputado no campo gramado do colégio, apesar de ser pequeno – ou por isso mesmo – eu também me destacava. Cheguei a ser campeão e vice-artilheiro de um campeonato interno extra-classe, quando estava na terceira série, jogando ao lado de Waldemir (quarta série), Jalves (segunda série), Betão (primeira série) e outros que a memória não alcança. (malte escocês é uma desgraça para embaralhar as lembranças e dar “brancos” na memória)

Mas já que falei em memória, relembro de uma foto histórica tirada em junho de 1970, que deve estar perdida em algum mocó daqui de casa. Estamos lá, eu, Luiz Augusto, Luiz Carlos e Alfredo Vieira, devidamente fantasiados a caráter, na festa “caipira” do Ida Nelson. Eu continuo sendo o menor de todos (1,48 cm, 42 kg, o que hoje é desmoralizante para qualquer sujeito com 14 anos), mas ainda assim meio marrento por estar cursando o quarto ano ginasial.

Nesse dia, pegando “corda” de Luiz Augusto e Alfredo, coloquei o Simas (que ainda ia fazer nove anos) para brigar com o Zé Carlos (de onze anos), irmão do Luiz Carlos. Apesar de ser bem menor que seu adversário, o meu pitbull de estimação – apelidado de “Alemão”, porque ainda era louro – não decepcionou. Os pescoções, safanões e rasteiras que ele levava de mim quando eu estava de mau humor serviram para alguma coisa.

Os dois pivetes passaram uns três minutos se estudando. Aí, com uma esquiva digna de Cassius Clay, Simas se livrou de um murro que passou a milímetros do seu queixo, deu uma “baiana” no Zé Carlos, montou no sujeito, imobilizou seus braços com os joelhos e passou a esmurrá-lo na cara com uma fúria quase homicida.

Se o Luiz Augusto não o tivesse tirado de cima do Zé Carlos, ele teria morto o moleque. O instinto assassino que, depois de adulto, transformaria o Simas em um sujeito destemido, capaz de fazer o Chuck Norris lavar as mãos antes de comer, deve ter aflorado nesse dia. Sim, tenho um pouco de culpa no cartório.

Eu, Alfredo, Luiz Augusto e Luiz Carlos éramos os sobreviventes de uma saga que havia começado quatro anos atrás. Muitos dos colegas do 1º ano ginasial haviam ficado pelo caminho: os irmãos Frederico e Álvaro Pontes, José Matozinho, Regilson, Dario Pereira, Augusto Barbosa, Paulo César, Gustavo, Marco Antônio, Bebeto. Dos 50 estudantes iniciais, nossa turma fora reduzida a cerca de 20 porque o sistema era rigoroso. Bastava ser reprovado em uma única matéria na 2ª época para o sujeito repetir de ano. Sobrevivemos.

Só não estava na foto o Roberto Grimberg, um chileno de pavio curto, vindo transferido de Arica no ano anterior, cujos pais eram donos da Fantex, uma loja especializada em vender roupas usadas importadas dos EUA, que, desconfio, eram doadas pelo Exército da Salvação para serem entregues às famílias carentes do Terceiro Mundo. Por conta disso, a loja era ostensivamente desprezada pelos demais comerciantes da cidade. Hoje, seria um brechó de respeito (quando esteve em Manaus, no início dos anos 70, Caetano Veloso gastou os tubos na loja).

Luiz Augusto, o “Careca”, era filho adotivo dos médicos Theomário e Dulce Costa. Só vim saber que ele não era irmão de sangue da Telma (hoje, casada com o empresário Djalma Castelo Branco) uns 200 anos depois. Na época, eu jurava que eles eram irmãos (na verdade, são primos).

Seu outro primo, também apelidado de “Careca”, era um dos melhores dançarinos de Manaus e um dos tops DJs da Boate dos Ingleses. Encontro ele nas baladas de vez em quando. Continua um puta dançarino. Também deve continuar sendo bom nas carrapetas. Luiz Augusto é gerente de um banco.

Luiz Carlos, o “Lacrau”, era filho de um amigo de meu pai na Copam (hoje Reman). Ele namorou com a jornalista Monica Maia, ex-mulher do meu saudoso mano Sebastião Reis, que na época era uma pivete de 13 anos e sonhava em ser jogadora profissional de vôlei.

Luiz Carlos não chegou a ver a pequena Mônica se transformar em um mulherão (hoje, ela está casada com o jornalista Carlos Honorato e mora em Brasília). Ele morreu precocemente, alguns anos depois de a gente se formar no ginasial, quando levava seu irmão, o já citado Zé Carlos, para se alistar no Exército e um ônibus em alta velocidade atropelou sua motocicleta. Tenho muitas saudades dele.

Alfredo Vieira era filho do “seo” Arthunilson, o primeiro comerciante a ter uma rede de supermercados na cidade (“A Colossensse”), e também era o sujeito mais paquerado do colégio por conta de seus românticos olhos azuis. A gatinha Débora Benchimol, então no auge de sua beleza física e espiritual, só faltou cortar os pulsos para namorar com ele. O vagabundo resistiu.

Uma de suas irmãs, Arthunilza, que estudava com a Silene, é casada com o pastor João Chrysostomo de Oliveira Junior, da Igreja Presbiteriana. Seu irmão mais velho, Arthunilson, que estudava com a Simone, foi casado com a Sulamita Farias, que além de estudar comigo também era uma das mais belas fêmeas da Cachoeirinha. Alfredo, que não vejo há mais de 30 anos, se transformou em um próspero empresário do ramo atacadista em Porto Velho (RO).


Pastor Junior e Arthunilza, com os filhos Samuel (casado com Andréa), Josué (casado com Adrianne), Cristiane e as netas Laísa e Bruna

Foi um tempo divertido. Luiz Augusto era o líder da turma. Quando ele entrava na sala dançando meio invocado (era freqüentador assíduo da Boate dos Ingleses) e cantando a pleno pulmões “I woke up this morning baby / I had you on my mind / I woke up this morning baby / You know that I felt so fine / You know I need you / You know that I love you / This is my pledge of love to / My pledge of love / My pledge of love / Darling, darling, darling to you / Yeah, to you, yeah”, não havia quem não se acabasse de rir.

Ele também tinha uma habilidade fora do comum para rabiscar, em questões de segundos, caralhos gigantescos em qualquer caderno que estivesse dando sopa em cima das carteiras. Por conta de uma dessas presepadas (ele desenhou uma série infinita de caralhos de todos os tipos em cada uma das páginas em branco de um caderno de seis matérias da Margareth, que passou o resto da aula chorando), nós, os machos, fomos obrigados a passar o segundo semestre inteiro escrevendo em um caderno 1.500 vezes a frase “Devo ser educado”, durante o horário do recreio, confinados no salão nobre do colégio.

Para evitar fraudes, a diretora, Dona Yvone Carvalho, assinava as dez páginas em branco do caderno, onde devíamos escrever o “castigo”. Com uma semana, Luiz Augusto aprendeu a falsificar a assinatura da diretora. Aí, virou graça. A gente pegava o autógrafo dela nas páginas em branco e, depois, entregava um caderno já escrito de casa com os autógrafos do “Careca”. Ela nunca percebeu o truque.

Se dei uma guinada definitiva pra esquerda ao longo da vida, dêem graças ao Alfredo e ao Luiz Augusto. Oriundos de famílias ricas, eles nunca precisaram pegar ônibus. Os motoristas das famílias vinham os apanhar na frente do colégio em automóveis confortáveis. Como o Luiz Carlos morava em São Francisco, a cinco quadras do colégio, ele ia pra casa a pé.

A exemplo do Luiz Carlos (nossos pais eram operários da Copam), eu também era pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré, e tinha de ir a pé do Ida Nelson até minha casa, no canto da Parintins com a Borba, na Cachoeirinha, a dez quarteirões de distância (uns 2 km, acho). Hoje, acho uma moleza, mas na época, era uma pedreira. Fora agüentar os ônibus passarem cheio de estudantes do colégio e, raivosamente, eles se aproximarem das janelas para me xingar de “liso”, “otário”, “goiabão”, porque eu ia a pé.

Um determinado dia, Luiz Augusto e Alfredo dispensaram os carros da família e me levaram para um bar na frente de onde hoje é o Posto Saci. Pediram guaraná e biscoitos. Confesso que eu me fartei como nunca havia feito. Na seqüência, fizeram parada para um ônibus, dizendo que iam pagar minha passagem. Fui o primeiro a entrar. De repente, eles bateram na traseira do ônibus (sinal típico pro coletivo ir embora), o motorista trancou a porta e arrancou.

Fiquei preso numa câmara de terror. Havia umas cinco meninas da minha classe na parte traseira do ônibus, antes do cobrador. Eu praticamente implorei de joelhos, para que uma delas me emprestasse o dinheiro da passagem. Todas, inevitavelmente, falaram que o dinheiro estava contado. Entrei em desespero. Quase chorando de vergonha, expliquei a situação para o cobrador. Ele foi generoso.

Na parada seguinte, em frente ao Getúlio Vargas, no canto com a Av. Castelo Branco, o cobrador deu um toque para o motorista, ele parou o ônibus e abriu a porta traseira. Desci sob uma chuva de impropérios. Quem mais me xingava eram as minhas colegas de classe. Por muito pouco elas não chegaram ao orgasmo.

O que ainda bem me lembro desse dia fatídico é que tirei a camisa do colégio e amarrei na cabeça, como se fosse uma bandana de tuaregue, e fui chorando de humilhação até a minha casa. Minha mãe não entendeu nada. Hoje eu sei que aquilo foi uma prévia para o bom combate. E que, a partir dali, eu seria um gauche na vida.


Da esquerda pra direita: Alfredo, Rosilene, Luiz Carlos, Margareth, Roberto, Wanda (prima do Alfredo), nosso paraninfo, professor Weider Leão (?), eu, Dulce Daou, Luiz Augusto e Rosana (prima do Luiz Carlos). O resto do mulherio (Janete - que tinha as pernas mais bonitas do colégio -, Sulamita, Rosemeire, Clarice, Ednéia, Denise, etc) havia tomado chá de sumiço.

O triste fim do gafanhoto punheteiro


BANGCOC - O cadáver do ator norte-americano David Carradine, astro da série de televisão Kung Fu, foi encontrado dentro do guarda-roupa do quarto de seu hotel com cordas amarradas em seu pescoço e genitais. Primeiramente a polícia tailandesa suspeitou de suicídio, mas as pessoas próximas de Carradine duvidaram desta hipótese. Agora, acredita que ele tenha morrido por uma asfixia acidental.

O corpo do ator de 72 anos foi encontrado na quinta-feira, 4, em uma suíte de luxo do hotel Swissotel Nai Lert Park de Bangcoc. O tenente da polícia Worapong Chewprecha disse aos jornalistas que o corpo de Carradine tinha uma corda "atada ao redor de seu pênis e outra corda ao redor de seu pescoço". Ainda segundo Chewprecha, "as duas cordas estavam atadas uma à outra".

"Não está claro se ele se suicidou ou se morreu asfixiado por um problema cardíaco devido a um orgasmo". A polícia concluiu uma autópsia nesta sexta-feira, mas ainda não divulgou nenhum resultado oficial.

Nanthana Sirisap, diretor do Centro de Autópsias do Hospital Chulalongkorn, disse que a análise do cadáver foi feita devido às "circunstâncias inusitadas da morte de Carradine", mas não deu mais detalhes.

O tenente da polícia Teerapop Luanseng disse na quinta, que o corpo de Carradine estava "nu, dependurado no guarda-roupa" e que a polícia trabalhava com a hipótese de suicídio. Uma das agentes de Carradine, Tiffany Smith da companhia Binder & Associates, descartou essa possibilidade.

"Tudo o que podemos dizer é que sabemos que David não se suicidaria", disse Tiffany. "Estamos esperando que terminam a investigação e averiguem o que ocorreu realmente. Ele apreciava muito tudo o que a vida tem a oferecer... E isso não é algo que David faria consigo mesmo".

Carradine chegou à Tailândia na semana passada e começou a gravar um filme chamado Stretch dois dias antes de morrer, disse Tiffany. Tinha vários projetos preparados para depois desse filme de ação dirigido por Charles De Meaux.

O ator estava de "bom humor" quando deixou os Estados Unidos em 29 de maio, disse a agente. O gerente geral do hotel, Aurelio Giraudo, disse que Carradine ingressou em 31 de maio e foi visto pela última vez em 3 de junho. Carradine conversava com os empregados e até tocou piano e flauta no lobby do hotel algumas noites, disse.

"Eu era seu fã. Tivemos uma conversa muito linda quando ele se registrou no hotel", disse Giraudo à Associated Press. "Era uma pessoa muito cheia de vida. Contei a ele que havia visto o filme Crank com minha família e ele sorriu para mim". Giraudo disse que uma arrumadeira encontrou o corpo de Carradine após bater na porta sem ouvir resposta. A polícia chegou em seguida.

Carradine, praticante de artes marciais, ficou conhecido pela série de TV Kung Fu, transmitida entre 1972 e 1975. Interpretava a Kwai Chang Caine, um monge Shaolin que viajava pelo oeste dos EUA a fim de matar o sobrinho de um imperador que teria assassinado seu mestre de Kung Fu.

No total, trabalhou em mais de 100 longas com diretores como Martin Scorsese, Ingmar Bergman e Hal Ashby. Recentemente voltou às telas como Bill, na série Kill Bill, de Quentin Tarantino.



Na Antiga e Mística Ordem dos Abatedores de Lebres (AMOAL), há um protocolo inteiramente dedicado à prática milenar da punheta, mas a "pequena morte do ganso afogado com requintes de perversidade" é expressamente vedada para amadores.

Ela consiste em amarrar os colhões (e não o pênis, como fez o gafanhoto) com uma tira de elástico, sendo que a outra ponta da tira deve ser amarrada no dedão do pé (e não no pescoço, como fez o imbecil).

Na medida em que você massageia o pênis, vai balançando o pé acompanhando uma música (não pode ser hip hop ou techno, que são muito agitadas. Um reggae é mais conveniente), de preferência sentado em uma cadeira ou na beira da cama (a perna obrigatoriamente deve estar dobrada).

Quando o orgasmo estiver se aproximando, você deve ter habilidade suficiente para fazer a liga se soltar do dedão do pé - ou corre o risco de ter os colhões amputados, já que pode desmaiar de dor antes de gozar, cair no chão e esticar involuntariamente a perna.

Quer dizer, o gafanhoto fez tudo errado. Tinha mais é que se fuder!

Dica quente pro Edilúcio, nosso homem em Sampa!


Na próxima terça-feira, 09/06, tem mais uma edição especial do H4 - Hip-Hop Happy Hour em parceria com Estúdio Padang Tattoo, a partir das 19h. O mapa da encrenca é esse aí. Não carece nem usar GPS ou Google Maps.

A boca livre é aberta a todo mundo. Quem se fizer presente no fuzuê ainda poderá ganhar uma tatuagem, que será sorteada no local. A tatuagem equivale a uma sessão de R$ 250,00, ou seja, uma tatuagem simples feita por profissionais.

Haverá também apresentação dos B.boys da Style Crew, mesa de sinuca, música e exibição de vídeos no telão.

Veja o vídeo do H4 com os B.boys - http://www.youtube.com/watch?v=Pt3fwOUeaL8

Local: Espaço Metrópole - Avenida São Luis, 187 - 2º Piso (Galeria Metrópole)
a 200 metros da estação República do metrô
Dia e horário - 09 de junho de 2009, das 19h às 23h
Informações - 0xx(11) 3081-2093 / 7891-6498 / ID: 9*61307
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Estacionamentos: na Rua da Consolação e Rua Araújo

Apoio: www.centralhh.com.br

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Novas verdades sobre Chuck Norris


501 - Existem três certezas na vida: 1) Chuck Norris nunca perde 2) Chuck Norris nunca morre 3) Chuck Norris nunca levará um roundhouse kick na cara.

502 - Chuck Norris sente o cheiro do perigo, então o perigo troca seu perfume constantemente para tentar fugir de Chuck Norris.

503 – O jornal “China Daily” afirmou que 1.347.623.273 chineses estão furiosos com Chuck Norris. Falando assim, soa como uma briguinha de bar.

504 - Chuck Norris foi convidado para jogar na Copa do Mundo. Sua única condição foi: “Somente se eu pegar a Argentina nas eliminatórias”.

505 - Chuck Norris não é só mais um mito para assustar criancinhas, ele assusta adultos também.

506 - Os remédios com faixa preta foram treinados por Chuck Norris.

507 - Todo gato terá sete vidas até cruzar o caminho de Chuck Norris.

508 - Uma vez o amor encarou Chuck Norris. Desde então o amor é cego.

509 - Nem as aparências enganam Chuck Norris.

510 - Só existe uma coisa que Chuck Norris gosta mais do que bater. Matar.

511 - Chuck Norris pode pular do alto de um prédio de 20 andares sem se machucar. O chão não bate de frente com Chuck Norris.

512 - Para nós, a vingança é um prato que se come frio. Para Chuck Norris, quanto mais quente melhor.

513 - Em um só mergulho, Chuck Norris é capaz de atravessar o Oceano Pacífico.

514 - TNT originalmente foi desenvolvido por Chuck Norris para curar indigestão.

515 - Chuck Norris nunca teve inimigos. Nunca ninguém teve tempo de ser inimigo de Chuck Norris.

516 - Se Chuck Norris olhar para você e você cair no chão, não se preocupe. Foi só um golpe de vista.

517 - Acredita-se que os dinossauros foram destruídos por um meteoro gigante. Se você chama “um soco de Chuck Norris no chão” de meteoro gigante, então está certo.

518 - Chuck Norris não causa dor às pessoas. Não dá tempo.

519 - Chuck Norris usa cascavéis como camisinha.

520 - O que passa pela cabeça das vítimas de Chuck Norris antes que elas morram? A bota de Chuck Norris, claro.

521 - O explosivo Chuck Norris 4, ou C4, foi inicialmente desenvolvido após um membro do comitê de defesa americano ver o estrago que Chuck Norris é capaz de fazer com suas duas pernas e seus dois braços.

522 - O chapéu de Chuck Norris nunca cai. A gravidade ainda tem medo das conseqüências disso.

523 - Quem disse que surra de amor não dói ainda não tinha dormido com Chuck Norris.

524 - Perguntaram a Chuck Norris se ele tinha medo. Ele respondeu que sim. Medo é o nome do canário de estimação de Chuck Norris.

525 - Se o relógio de Chuck Norris não estiver batendo com o da Torre de Londres, está na hora de ajustar o relógio da Torre de novo.

526 - Se você receber um e-mail de Chuck Norris com o assunto “roundhouse kick”, não abra.

527 - Para Chuck Norris, a vida de qualquer um começa aos 50... centímetros de seu braço.

528 - Quando o carro de Chuck Norris atinge a velocidade da luz, é hora de engatar a segunda marcha.

529 - Ninjas crescem querendo ser como Chuck Norris, mas invariavelmente eles crescem apenas para serem mortos por Chuck Norris.

530 - Deus anunciou o Dilúvio a Noé, esperou a construção da arca e a escolha de um casal de cada espécie animal. Então disse: “Chuck, agora é com você.”

531 - Chuck Norris finalmente se decidiu quanto à sua participação na Copa do Mundo de 2010. Ele não competirá. Chuck Norris não pratica esportes em que o perdedor sai vivo.

532 - Chuck Norris é o único que mata a cobra mostrando o pau.

533 - Chuck Norris fez o melhor solo de guitarra de todos os tempos... em uma bateria.

534 - Chuck Norris faz nó cego enxergar.

535 - Quando começou a fazer musculação, Chuck Norris decidiu tomar um suplemento alimentar. Foram 20 sacos de cimento em duas semanas.

536 - Chuck Norris não usa a impressora para imprimir. Ele apenas arranca da natureza a imagem que precisa e dá um roundhouse kick para esmagá-la.

537 - Chuck Norris corta sua pizza em fatias. 13, 17 ou qualquer outro número primo.

538 - O coração de Chuck Norris bate, e MUITO! Outros corações só apanham.

539 - Chuck Norris não faz filmes, apenas deixa gravarem alguns dias de sua vida.

540 - Quando perguntaram para Chuck Norris se ele achava ser Deus, Chuck Norris respondeu: “Não, Deus perdoa.”

541 - Chuck Norris parou de jogar pipocas para cima antes de comê-las. A lua estava ficando cheia de crateras.

542 - A Teoria da Relatividade de Einstein diz que Chuck Norris pode te dar um roundhouse kick ontem.

543 - Uma vez Chuck Norris jogou poker com baralho de tarô. Cinco pessoas morreram.

544 – No seriado “Profissão: Perigo”, MacGyver, com um chiclete mastigado, um palito de dente e um pouco de terra, construía uma bomba. Chuck Norris só precisa do chiclete.

545 - Chuck Norris só perde algo de vista quando o alvo deixa de existir.

546 - Chuck Norris só fuma quando ateia fogo na copa de pinheiros e os traga de uma vez só.

547 - Chuck Norris tem oito sentidos: visão, audição, tato, olfato, paladar, fúria, vingança e roundhouse kick.

548 - Para Chuck Norris não existe contra-mão, apenas contra-ataque.

549 - O ato de Chuck Norris receber os fãs é conhecido ao redor do mundo como Desequilíbrio Magnético Temporário. É tão grande a quantidade de pessoas que se deslocam no globo que a Terra pende para um lado e seus pólos desmagnetizam-se temporariamente.

550 - Até hoje conhecemos apenas nove planetas. Chuck Norris conheceu 36 e teve o prazer de destruí-los pessoalmente.

551 - Chuck Norris não precisa de clones: ele olha para o espelho e permite que seu reflexo ande.

552 - Chuck Norris transforma raízes quadradas em tempero.

553 - No começo dos tempos eram oito pecados capitais, até que Chuck Norris mandou tirar seu nome.

554 - Quando estiver jogando xadrez, experimente dizer Chuck Norris ao invés de xeque-mate.

555 - Chuck Norris nunca teve uma festa surpresa de aniversário. Ninguém surpreende Chuck Norris.

556 - Como forma de garantir que a pressão do seu pé não achatasse a Terra, o piso embaixo da marca da bota de Chuck Norris, na Calçada da Fama, foi reforçado com uma base de vinte toneladas de rocha do Período Paleozóico, extraída a 3 mil quilômetros de profundidade, e revestida com uma poção de proteção druida envelhecida em carvalhos vivos por 1.300 anos. Falhou parcialmente. Setenta e três novas ilhas foram localizadas no Pacífico desde então.

557 - Se Chuck Norris fosse brasileiro, a Argentina não existiria.

558 - Cumprindo um pedido antigo de Chuck Norris, a Rússia desmontou metade de seu arsenal nuclear e lhe entregou as bombas das ogivas para que ele pudesse detoná-las com um abraço apertado. Para Chuck Norris, isso equivale a uma massagem no ego.

559 - As esponjas marinhas têm uma imensa capacidade de regeneração. Se apenas um pedaço delas sobreviver elas podem começar uma nova esponja. Chuck Norris também pode fazer isso, só que ele nunca precisou.

560 - O olhar 43 de Chuck Norris é calibre 45.

561 - Chuck Norris nunca toma ônibus. São indigestos demais.

562 - A primeira regra de Chuck Norris é: nunca fale sobre Chuck Norris.

563 - Se um dia você sonhar com Chuck Norris, vai levar um roundhouse kick mortal na cara.

564 - Chuck Norris pode ver o Homem-Invisível.

565 - Saudosa Yakuza... que um dia tentou cortar o dedo mindinho de Chuck Norris.

566 - Chuck Norris raramente treme de frio. Terremotos raramente acontecem.

567 - São Jorge matou o Dragão. Chuck Norris os mandou à Lua para que treinassem mais.

568 - Caminhando, Chuck Norris pode facilmente bater o recorde dos 100 metros rasos.

569 - Chuck Norris dorme no gelo polar e acorda suando.

570 - Você perde um ano de sua expectativa de vida cada vez que olha uma imagem de Chuck Norris.

571 - A menina dos olhos de Chuck Norris é sapatão.

572 - Chuck Norris é capaz de construir réplicas em tamanho real das pirâmides do Egito com peças de Lego.

573 - A menor distância entre dois pontos é entre um roundhouse kick de Chuck Norris e a sua cara.

574 - Suspeita-se que kriptonita sejam pedras dos rins de Chuck Norris.

575 - Nós nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos. Chuck Norris reproduz, mata, reproduz, mata, reproduz, mata...

576 - Toda vez que alguém usa a palavra “intenso”, Chuck Norris responde: “Você sabe o que raios é intenso?” e então executa um roundhouse kick na cara do sujeito.

577 - Quando você diz “Ninguém é perfeito”, Chuck Norris encara isso como um insulto pessoal.

578 - Sabe qual é a pessoa com mais amigos no mundo? Chuck Norris, claro! Afinal, quem ousaria ser seu inimigo?

579 - Chuck Norris não pode prever o futuro. Para o seu próprio bem, o futuro acha melhor fazer o que Chuck Norris manda.

580 - Chuck Norris possui um estômago na barriga da perna.

581 - Através dos seis graus de separação, Chuck Norris pode dar um roundhouse kick na cara de qualquer pessoa, em qualquer lugar, a qualquer hora.

582 - Brokeback Mountain não é apenas um filme sobre homossexuais. Também é como Chuck Norris chama a pilha de ninjas mortos em seu jardim.

583 - Chuck Norris é o único homem que, literalmente, bateu vários recordes. Com seus punhos.

584 - Se Chuck Norris comer dois galões de pimenta vermelha, produz facilmente energia suficiente para vaporizar metade dos Estados Unidos.

585 - Chuck Norris adora comer hamburger. Na maioria das vezes, porém, ele se esquece de matar o boi.

586 - Na China antiga existia uma lenda de que uma criança iria nascer de um dragão, crescer e se tornar um homem que eliminaria todo o mal do mundo. O homem não é Chuck Norris. Ele matou o homem.

587 - Chuck Norris gosta do gelo no seu drink da mesma forma que qualquer crânio: bem amassado.

588 - Uma vez falaram para Chuck Norris que pernas de lagartos eram gostosas. Então, surgiram as cobras.

589 - Chuck Norris acabou com todos os livros de Harry Potter em uma livraria. Quando as crianças começaram a chorar, Chuck Norris calmamente disse: "Eu vou dar a vocês algo para chorar" e executou um roundhouse kick na cara de cada uma.

590 - Nas experiências de quase-morte, as pessoas não vão para a luz porque sabem que do outro lado Chuck Norris está esperando para matá-las de verdade.

591 - Chuck Norris fez uma contagem regressiva começando de infinito negativo.

592 - Chuck Norris faz embaixadinhas com bola de sabão.

593 - Chuck Norris possui o recorde de 11.327 embaixadinhas, com bola de sabão.

594 - Chuck Norris já foi homem bomba. 13 vezes.

595 - Antes de Chuck Norris pisar na Terra os continentes eram um só.

596 - Chuck Norris não tem flatulência, tem acúmulo de gases nobres.

597 - Pedir truco na orelha de Chuck Norris é o mesmo que carimbar seu passaporte para o inferno.

598 - Uma vez Chuck Norris distribuiu as cartas em uma mesa de poker dando roundhouse kicks no baralho. Todos os participantes morreram fatiados.

599 - Chuck Norris disputava toda semana queda de braço com Sansão. O perdedor não podia cortar o cabelo.

600 - Para toda regra há uma exceção para toda exceção há Chuck Norris.

sexta-feira, junho 05, 2009

Quarup para um guerreiro querido


De acordo com a tradição dos índios do Xingu, o Quarup – imortalizado por Antonio Callado num dos principais romances da literatura brasileira na década de 60 - é realizado quando morre algum índio respeitado. As aldeias vizinhas são convidadas para a festa e convidados não-índios também são recebidos.

Na festa, que na verdade é um ritual, os mortos são representados por toras de madeira, chamadas quarup, fincadas no centro da aldeia. Na madrugada, contadores de histórias entoam cânticos chorosos, agitando o maracá (espécie de chocalho, herdado por religiões amazônicas como o Santo Daime), e evocam o passado de cada guerreiro morto. A lenda diz que durante o ritual os mortos podem voltar à vida por breves momentos.

Ao pé de cada tora um pequeno fogo é aceso e mantido assim noite adentro. A celebração é o último ritual de passagem, para que os espíritos encontrem um lugar confortável e seguro ao nascer do novo dia, quando o fogo é então apagado, de acordo com a tradição indígena.

Depois de devidamente abastecido com malte escocês, gelo, água Perrier, cigarros, iscas variadas e uma nova coletânea de house music (Deep Heat Collection – só remixes invocados de Adeva, Todd Terry, Milli Vanilli, Kevin Saunderson, Smith & Mighty, Raze, Farley “Jackmaster” Funk, De La Soul, Royal House, Humanoid, Baby Ford, Donnell Rush, Inner City e Bootleggers, entre outros), acho que já posso começar o ritual.

Conheci o Ernesto Coelho em 1972, eu com 16 anos, ele com 17, quando começamos a estudar juntos na mesma classe, no 2º ano de Eletrotécnica, na ETFA. Nas tardes de sábado, ele costumava ir à minha casa para escutar clássicos do rock, que ambos colecionávamos – eu mais ligado em heavy metal, ele mais ligado a hard rock –, conversar fiado e encher a cara de caipirinha. Quando, em 1973, a maioria dos alunos começou a trabalhar no Distrito Industrial, ele foi um dos poucos que não embarcou no modismo.

Lembro de uma tarde em que a gente ouvia “Get Ready”, do Eric Clapton, e ele foi à loucura porque “Get Ready” era um clássico do Temptations, que havia ganho sua versão definitiva com o Rare Earth. Explicar que as músicas tinham o mesmo nome, mas as pegadas eram diferentes (a música de Clapton era um blues quase rock, a do Rare Earth, um rock com cara de blues, e as duas letras completamente diferentes), quase nos levou a um afogamento etílico. O sacana gostava de polemizar e, em termos de música, era um roqueiro fundamentalista.

Outra vez, ele foi lá pra casa e coloquei pra tocar “Jumpin’ Jack Flash”, com o Leon Russel, do concerto para Bangladesh (aquela iniciativa pioneira do George Harrison, em 1971, para ajudar as vítimas da fome e da guerra na região sul da Ásia) e quase que sai porrada. Ernesto não gostou de ouvir a seqüência – “Youngblood” – e se arretou todo, achando que o Leon Russel havia “destruído” a versão original do The Coasters. Imagino o que ele não deve ter achado da versão do Bad Company, em 1976...

O certo é que eu, Ernesto e Alcion Castelo Branco (primo do jornalista Castelo, editor do semanário Repórter, e do coronel James, ex-comandante da PM, e filho do ex-prefeito de Benjamin Constant, Alcindo Castelo Branco) formávamos uma trinca da pesada nos tempos da ETFA. O Alcion era meu amigo de infância desde os quatro anos de idade (ele também é um ano mais velho do que eu), já que era meu vizinho na Rua Waupés, atual Castelo Branco.

Mesmo quando depois, aos 10 anos, me mudei para a Rua Parintins, ainda assim continuamos a nos ver semanalmente, nas matinês do Cine Ipiranga, ou em visitas de cortesia de um na casa do outro. Sua mãe, Dona Zuzu, era uma artista plástica de mão cheia. Além do paisagismo ribeirinho, ela pintava as mais belas índias da face da terra. Seu único irmão, Alcenir, é um dos maiores guitarristas da cidade, conhecido no meio musical como “Magri”. Foi o Alcenir que me mostrou pela primeira vez o trabalho dos albinos Johnny e Edgar Winter, que curto até hoje.


(Da esquerda pra direita: Alcion, Chico Fera, eu, Zé Klein e o coronel James, durante o lançamento do meu livro “Folclore Político do Amazonas”, no Bar do Armando)

Que eu lembre, Alcion foi o primeiro sujeito que conheço a se interessar por futebol americano (que ele, apropriadamente, chamava de “brutebol”). Em 1970, ele arrumou uma bola oficial do esporte e todo sábado ia lá pra nossa casa, na rua Parintins, tentar nos convencer (eu, Simas, Mário Adolfo, Aloisinho, Zé Alfredo, Clóvis, Zé Carlos, Hércules, Luiz Lobão, Chico Porrada, Sidão) a participar daquela estupidez.

Como o sacana tinha uma força descomunal, ele era capaz de abraçar a bola de encontro ao peito e levar a mesma de sua área até ao gol adversário, mesmo sendo agarrado pela cintura por uns cinco moleques meio taludos. Era um trombador de respeito, tanto no ataque quanto na defesa. Na primeira vez que o tentei derrubar – me atirando em suas pernas – e quase fico sem um dos braços, voltei a me dedicar ao velho e inocente joguinho de futebol de botão.

Adolescentes, eu e Alcion fizemos algumas molecagens juntas – inclusive ouvir 35 vezes seguidas a música “Happy Man”, do Chicago, a bordo de sua Brasília amarela, enquanto procurávamos duas garotas pelas quebradas de Educandos. Não localizamos as vagabundas, claro, mas em compensação nunca mais esqueci da letra da música: “Merely by chance / Very unsuspected / You caught my heart / Unprotectin’ me / Now I’m fallin in love with you” (“Por mero acaso / Bem insuspeitado / Você prendeu meu coração / Me deixou desprotegido / Agora, me apaixonei por você”).

Mais tarde, na ETFA, quando ambos estudávamos na mesma sala de aula, Alcion ficou muito mais próximo do Ernesto, talvez assustado com a minha súbita conversão etílica e minha adesão integral à prática de “caboquear”, capitaneada pelo Ivaldo Gamas Barros (falo disso outro dia).

Ele acabou entrando na UTAM depois que eu saí, fez pós-graduação em engenharia elétrica em Itajubá (MG), com especialização em sistemas de segurança e proteção de pára-raios em redes de alta voltagem, e se aposentou como funcionário da Eletronorte no final dos anos 90 (o safado ainda pegou aquela mamata de se aposentar com 25 anos de serviço público por trabalhar em ambiente de alto risco...)

O certo é que de 2005 pra cá, eu só conseguia lhe localizar via Ernesto (que o próprio Alcion havia batizado de “grande cacique Ernesto Papavaca”). Mas agora, com a partida do Ernesto, essa tarefa ficou bem mais difícil. E o Alcion é um irmão querido, cuja estima pretendo manter pelo resto da vida.

Separados a partir da universidade, eu e Ernesto continuamos nos vendo com certa freqüência e trocando informações sobre rock, humorismo e música pop, tanto que, em 1982, ele me levou para escrever uma coluna de humor no jornal A Notícia, onde permaneci por quase um ano. Quer dizer, foi o Ernesto que me iniciou na chamada “grande imprensa” – fato devidamente creditado no livro “Amor de BICA”, lançado há quatro anos.

Voltamos a trabalhar juntos no Amazonas em Tempo, nos anos 90, quando eu era editor do caderno de cultura e ele repórter do caderno de esportes (o editor era o Flávio Seabra). Nesse meio tempo, Ernesto havia se transformado em um respeitado DJ, graças aos ensinamentos do mestre Raidi Rebelo, de quem ele havia se transformado em uma espécie de assistente informal.

Ernesto não chegou a renunciar inteiramente ao rock, mas se transformou em um “cristão-novo” da música disco/ house/ techno. Uma de suas últimas façanhas foi me presentear com 30 CDs de MP3 com mais de 1.500 hits de disco & house music – a maioria dos quais eu nunca havia escutado antes.


(Minha irmã Silane e meu primo Lincoln durante um réveillon no Solarium. No segundo plano, Ernesto e seus dois DJs auxiliares, Fernando e Lucivaldo)

Nos últimos três anos, Ernesto era presença constante como DJ nas festas que eu promovia, fosse em lançamentos de livros, fosse em comemorações de aniversários de algum familiar. No mínimo, a cada três meses, ele era requisitado para agitar algum fuzuê no Solarium.

Era uma maneira de ele obter uma grana a mais e eu, de curtir algumas músicas que só ele possuía. Eu era louco para colocar nas mãos o seu acervo de rockabilly. Ele sempre insistiu que se eu pegasse aquela “mina”, iria lhe desprezar. Bobagem.

Independente de qualquer coisa, Ernesto seria meu personal DJ pra sempre (e ele sempre soube disso). Além disso, se ele estivesse mesmo fodido e mal pago, como reportou o Holanda, ainda assim teria pelo menos uma dúzia de amigos para lhe pagarem as despesas. Só para citar alguns: Raidi Rebelo, Bosco Saraiva, Jairo Beira-mar, Alcion Castelo Branco, Gil Barbosa, Mario Dantas, Engels Medeiros, Carlos Almeida, Paulo Saraiva, Sebastião Peixoto, Reinildo Cunha, Mário Adolfo, Flávio Seabra, Aldisio Filgueira e esse vosso escriba.

A gente se falou pela última vez no dia 19 de dezembro do ano passado, durante o lançamento do meu livro “Alô, Doçura!”, no Solarium Eventos, onde ele foi o DJ residente. A festa terminou com o dia amanhecendo e todo mundo encharcado de álcool. Nunca imaginei que seria a última vez que o abraçaria. Ernesto ainda discotecou no reveillon da nossa família, no dia 31 de dezembro, mas não participei da fuzarca porque havia saído de barco com alguns amigos para ver a queima de fogos na Ponta Negra.

Nesses 38 anos de amizade, nunca vi o bom Ernesto Coelho se queixar de nada – só vim saber que ele era hipertenso e diabético pela matéria do Nelson Brilhante, no jornal A Crítica. Também não sabia que ele estava desempregado – pra mim, no lançamento do livro “Alô Doçura!”, ele disse que havia tirado férias de A Crítica para tocar um novo projeto e que gostaria muito que eu também participasse. Ficamos de conversar depois do carnaval.

Sua tragédia particular começou na segunda semana de fevereiro. Depois de sentir um certo desconforto e procurar um médico, Ernesto Coelho foi internado em uma clínica em virtude de sua taxa de glicose ter ido pras cucuias.

Enquanto ele estava internado, os ladrões invadiram sua casa (ele morava sozinho, quase em frente da sede do Libermorro) e saquearam tudo que puderam: discos, aparelhagem de som, equipamentos de sonorização e iluminação, computadores, diários escritos a mão, roupas, mobílias, o caralho a quatro.

Quando ele saiu da clínica, chegou em casa e constatou a presepada, o coração não resistiu. Infarto agudo do miocárdio. Assim que soube do acontecido, o presidente do GRES Reino Unido, Jairo Beira-mar, cancelou a festa na quadra da escola, que ocorreria naquele sábado. Ernesto era responsável pela mídia impressa da escola e foi velado na quadra da Reino Unido. Foi enterrado no domingo.

Eu só soube do ocorrido na segunda-feira seguinte, por meio de um comentário do Dudu Monteiro de Paula, no programa local do Globo Esporte. Juro que não acreditei. Aliás, não acredito até hoje. Pra mim, ele apenas viajou e qualquer dia vai chegar aqui em casa perguntando se tenho “a música Teenage Rampage, do Sweet, na versão original” (Sim, Ernesto, claro que tenho. Aliás, estou acabando de ouvir.).

De qualquer forma, a hora ainda é de chorar a partida prematura desse amigo querido. E repetir aquele velho chavão celebrizado pelo cartunista Jaguar: “Com tanto filho da puta pra morrer, por que logo o Ernesto?...”. Que tristeza! Que raiva! Que ódio! Que merda!


(A hora do “Parabéns Pra Você” nos 85 anos do velho, no ano passado, com a Dulce batendo palmas e o Ernesto apenas observando)

Editora Desiderata lança mais dois biscoitos finos


O Pasquim abriu espaço para uma geração brilhante de artistas que estamparam em suas páginas um humor inteligente e irreverente durante mais de duas décadas. Este terceiro volume da série O Pasquim – Antologia, organizado por Jaguar e Sérgio Augusto, reúne textos, entrevistas e ilustrações de grandes nomes do jornalismo, da música e do cinema nacional, publicados de 1973 a 1974.


Livro comemorativo dos 40 anos de fundação do Pasquim, com uma seleção de capas publicadas e conteúdo inédito, preparado por integrantes da época áurea do jornal. Apresentação de Chico Caruso e textos de Millôr Fernandes, Jaguar e Sérgio Augusto.

quarta-feira, junho 03, 2009

Metendo o dedo na ferida



(clique na foto para ampliar)

Lançamento do novo livro do poeta Anibal Beça

O furor uterino da mulher invisível

Pô, Simão, essa aí tem que escrever o Manual da Trepadeira. MILHARES!!! Vai gostar de pica assim no inferno!

Everaldo Fernandez


Luana Piovani, mais uma vez, entra numa polêmica. A loura é a estrela da seção “20 perguntas” da “Playboy” deste mês e, ao ser questionada se algum homem já havia broxado com ela, disparou sem papas na língua: “Milhares, milhares. Todo homem já broxou um dia e toda mulher já fingiu um orgasmo”. A atriz, que estreia nos cinemas com “A mulher invisível” na sexta-feira, fala ainda que já superou a recente confusão com o ex-noivo, o ator Dado Dolabella: “Não tenho vocação para sofrer”. Poderosa a moça, não?

terça-feira, junho 02, 2009

Recordando os Anos Dourados


No bairro da Cachoeirinha, as festinhas domésticas chamadas de “brincadeiras” surgiram com o advento da Beatlemania, na segunda metade dos anos 60, fizeram muito sucesso no período de 1970 a 1975, experimentaram um revival em 1977 (por conta do filme “Embalos de Sábado à Noite”, do John Travolta) e, depois, como num passe de mágica, sumiram sem deixar vestígios. Nunca entendi direito o que aconteceu.

Naquela época, eu sabia que ia haver “brincadeira” em casa quando entrava na cozinha, em uma manhã de sábado, e me deparava com um monte de garotas (minhas duas irmãs mais velhas, Simone e Silene, e as amigas delas, Fátima Loura, Graça Câmara, Vaneida Forasteiro, Lílian Reis, as irmãs Thelma, Wanda e Nair Chase, Sulamita Farias, etc ) debruçadas sobre a nossa imensa mesa de refeições, em uma atividade frenética.

Uma delas cortava queijo coalho em quadradinhos perfeitos, outra cortava rodelas de salsicha em lata, outra descaroçava e cortava azeitonas em tirinhas, uma outra enfiava em um palito um pedaço de queijo, um pedaço de salsicha, um pedaço de azeitona e colocava os canapés em um gigantesco prato de papel metalizado.

Simultaneamente, uma garota transformava vários pacotes de pão de forma em pequenos triângulos isósceles, tendo o cuidado de retirar a casca, outra batia no liquidificador maionese, patê de fígado em lata, tiras de bacon e ervas (manjericão, hortelã, salsinha, cebolinha) e uma terceira ia passando o creme resultante nos pedaços de triângulos, formando pequenos “sandubas” triangulares, que eram amontoados em outro gigantesco prato de papel metalizado.

Por último, várias delas se revezavam no preparo de “calcinha de seda” (cachaça, leite condensado e refresco k-suco de cereja, morango ou uva) e de “leite de tigre” (cachaça, leite condensado e chocolate em pó). As bebidas eram armazenadas em garrafas plásticas e colocadas na geladeira.

Os limões pra “caipirinha” também eram cortados e guardados na geladeira porque a bebida tinha que ser feita na hora, senão ficava amarga. O certo é que de tanto provarem essas poções mágicas pra encontrar o “ponto certo”, era comum encontrar no fim da tarde uma ou duas amigas das meninas completamente bêbadas. Uma zorra!

A “brincadeira” começava invariavelmente às 20h30. Boca livre total. Qualquer um podia chegar junto, entrar sem pedir licença, biritar à vontade, comer os canapés e sandubas, tirar uma menina pra dançar e até dar uma de DJ, colocando suas músicas favoritas. Discos, em casa, era o que não faltava. Por baixo, eu cheguei a ter mais de mil LPs. A Simone tinha uns 500 compactos.

Músicas que mais rolavam na encrenca? De nacionais, quase tudo da Jovem Guarda, com destaque para Renato e seus Blue Caps, além de Ronnie Von, Clara Nunes, Elis Regina, Jorge Ben, Quinteto Violado, Benito de Paula, Tim Maia, Martinho da Vila, Novos Baianos, Pessoal do Ceará e Wilson Simonal.

De internacionais, dos Beatles ao Procol Harum (“A Whiter Shade Of Pale” era obrigatória), de Simon & Garfunkel a Elton John, de Rolling Stones a Deep Purple, de Monkees a Nilson, de Chuck Berry a Led Zeppelin, de James Brown a Marvin Gaye. E, a partir de 1974, qualquer música que tivesse um prato vibrando (marca registrada da disco music). É, a galera não era tão exigente assim.

Pra encher a pista? “Celebration”, do Kool & The Gang. Quem era esperto, ainda fazia aqueles toques black de bater rapidamente com as palmas pra baixo nas mãos do parceiro de palmas pra cima e dar uma encostadinha de ombro, enquanto se requebrava em direção a gatinha. Nunca vi nenhuma mulher rejeitar uma dessas paradas.

Pra manter a agitação do pedaço? “Venus”, do Shocking Blue. “My Pledge Of Love”, do The Joe Jeffrey Group. “Disco Inferno”, dos Trammps. “Hot Stuff”, da Donna Summer. “Le Freak”, do Chic. “Ring My Bell”, de Anita Ward. “Rock Your Baby”, de George McCrae. “Don’t Leave Me This Way”, da Thelma Houston. “Don’t Let Me Be Misunderstood”, do Santa Esmeralda. “Reach Out (I’ll Be There)”, da Gloria Gaynor.

Pra desacelerar? “Let The Music Play”, do Barry White. “If You Could Read My Mind”, da Chaka Khan. “Get Down On It”, do Kool & The Gang. “You Make Me Feel (Mighty Real)”, do Sylvester. “Upside Down”, da Diana Ross. “Papa Was A Rolling Stone”, dos Temptations. “Brick House”, dos Commodores. “Kung Fu Fighting”, do Carl Douglas. “You Sexy Thing”, do Hot Chocolate.


A festa acabava impreterivelmente às 2 da madrugada. No dia seguinte, o ambiente era de terra arrasada. Restos de canapés, bitucas de cigarros, capas de disco e copos descartáveis por todo canto. Vômitos nos locais mais insuspeitos. Catinga de urina pra todo lado. E o vaso sanitário, invariavelmente, entupido por algum filho da puta.

Minha única preocupação era com os discos. Confesso que não era o melhor colecionador do mundo. Tratava direitinho deles, mas foi muita festa em casa, muita gente tacando o dedão gorduroso no sensível vinil, um ou outro usando até mesmo para botar o copo de “caipirinha” em cima. Mas os danados resistiram.

Havia “brincadeiras” memoráveis. Na casa da Dodora, filha mais velha do seu Aristides, dono do lendário Top Bar, além das músicas de primeira linha, ainda rolavam atrações especiais, como as sessões de “dublagem” (e nesse quesito, Ratinho era um gênio!).

Um dos hits mais tocados era “Papa Oom Mow Mow”, do The Rivingtons, que eu me esforçava inutilmente para “dublar”, mas ficava parecendo, no máximo, um sujeito tendo um ataque de epilepsia.

Na casa da Solange, irmã do Sidão e da Sôngila, eu ouvi pela primeira vez uma música do The Clevers (acho que era uma versão de “No Reply”, dos Beatles, não tenho certeza) que me deixou completamente pirado. Só muitos anos depois é que fiquei sabendo que aquele era o nome da primeira formação de Os Incríveis.

Na casa da Dorothéia, ali na rua Manicoré, onde fica hoje o Terminal de Integração da Cachoeirinha, aconteciam festinhas praticamente todo sábado (lá em casa era de seis em seis meses e olhe lá!) e rolavam exclusivamente músicas “lentas” (B.J. Thomas, Pholhas, Johnny Mathis, James Taylor, Roberto Carlos). Era o cenário ideal para sessões de “acocho” – o namorico casual da época que hoje virou sinônimo de “ficar”.

Havia uma explicação para a presepada. É que a casa da Dorothéia era de madeira e tinha o piso no estilo palafita, suspenso a um metro do chão. Quer dizer, qualquer agitação mais forte no assoalho fazia o braço da eletrola Nivico “pular” – uma das coisas mais “fuleiras” que podia acontecer em uma “bincadeira” de respeito. O máximo da “fuleiragem” eram discos “furados”, que ficavam repetindo o mesmo trecho de uma música ad infinitum.

Nossa diversão favorita era levar algum compacto dançante (“There It Is”, do James Brown, era o favorito) escondido embaixo da camisa, e, discretamente, quando a sala estivesse completamente lotada de casais dançando de rostos colados, colocar a música pra tocar. Ninguém ficava parado, claro. E a agulha da eletrola só faltava quebrar, de tanto pula-pula no assoalho de madeira, deixando a Dorothéia à beira de um ataque de nervos.

Às vezes tinha tanta gente dançando (“pulando”, seria o termo correto), que a Dorothéia levava uma eternidade para chegar até a eletrola e interromper a esbórnia. O compacto era confiscado e quebrado por ela na frente dos presentes, mas a zoeira compensava a perda. Um dia, um filho da puta qualquer nos dedurou e passamos a ser “personas non grata” da anfitriã. Nunca mais pudemos entrar na “brincadeira”.


Em busca de emoções cada vez mais fortes, a nossa turma (Luiz Lobão, Chico Porrada, Antonio Gordo, Nonato Índio, Gilson Cabocão, Airton Caju, Marcos Pombão, Gilmar Velhota, Áureo Petita, Paulo César Dó, Betinho, Cumbuca, Heraldo Cacau, Renato Doido, Carlinhos, Newton, Nelson, Bolão, Pelado, Clóvis, Fuinha, Bordado, Careca, Alemão e Zé Carlos) começou a freqüentar as “brincadeiras” na Cohab-Am da Raiz – e iniciamos a expansão de nossa network de namoradinhas casuais para além das fronteiras da Cachoeirinha.

O problema é que nessas festinhas mais periféricas, apesar de serem em casas de alvenaria com bons aparelhos de som, a música era “meio boca”, talvez porque a baixa informação dos moradores não ia além de replicar em casa os hits tocados diariamente naqueles programas de rádio vagabundos com suas “paradas musicais” de meia tigela.

A solução foi a gente começar a levar alguns discos para agitar a fuzarca (Gary Glitter, Barry White, Funkadelic, Barrabas, Slade, Led Zeppelin, Deep Purple, Creedence, James Brown, Sweet, Donna Summer, Chic, etc), que as gatinhas jamais tinham escutado antes e, quando ouviam pela primeira vez, ficavam baratinadas.

Isso, mais a habilidade para dançar qualquer tipo de música, de rock pesado a funk melódico, de disco music a mela-cueca (com direito a rostinho colado e mãos espalmadas no buzanfã das meninas), logo fizeram da gente os caras mais assediados do pedaço.

Foi quando surgiu um fenômeno curioso: começamos a ser convidados para participar de “brincadeiras”, com presença exclusivamente feminina, nos mais distantes rincões da cidade, tipo Cafundó do São Francisco e Cohab-Am do Parque Dez. A única exigência era que a gente levasse os discos.

No início era meio constrangedor a nossa galera chegar pela primeira vez naqueles subúrbios distantes e perceber um monte de caras mal encarados, reunidos do outro lado da rua, em frente da casa em que estava rolando a “brincadeira”, onde dezenas de mulheres dançavam alegremente.

É que a gente tinha prioridade na escolha das fêmeas que ia “acochar” – a choldra masculina do lugar só ia entrar pra pegar o resto da xepa depois que a gente tivesse acabado de fazer a feira. Eu, Dó e Renato Doido, que fornecíamos os discos, tínhamos precedência na escolha das gatas em relação ao resto de nossa turma.

Era também um de nós três que escolhia a trilha sonora já que sabia de cor e salteado quais as faixas quentes de cada LP. Se o mulherio valesse a pena, a ênfase seria em músicas lentas, pra todo mundo dançar agarradinho. Se não, música frenética do começo ao fim e fosse o que Deus quisesse.

Na Cohab-Am do Parque Dez, porém, havia um grave problema de logística porque a gente chegava ao local de ônibus e eles paravam de circular à meia noite. A gente descia no ponto final, ali onde hoje é a Rua do Comércio e saía em busca do endereço (e uns 20, 25 machos de macacão Lee pedindo informação não devia ser uma visão muito agradável para os humildes moradores).


Quando a festinha acabava, por volta das 2h da manhã, o nosso retorno para a Cachoeirinha tinha que ser feito a pé, muitas vezes praticamente atravessando o conjunto de cabo a rabo para depois descer a rua Recife até a rua Belém, em frente ao Cemitério São João Batista, e de lá embicar até a rua Parintins, numa maratona de uns 6 km. Parecíamos uma versão ampliada daquela gangue do filme “Selvagens da Noite” (“The Warriors”).

O risco de sermos surpreendidos por marmanjos ultrajados querendo tomar satisfação era uma constante. Não era pra menos. Pô, a gente chegava ao bairro dos caras cheios de marra, acochava as meninas mais bonitas da festa, enchia a cara de birita, dançava de um jeito esquisito e quando ia embora a festa era encerrada! Que palhaçada era aquela?...

Para desestimular os nativos, a gente tinha alguns truques: alguém ia tirar o isqueiro do bolso e deixava cair no chão, de propósito, um cabo de embreagem bem enroladinho. Ou uma luva inglesa. Ou ainda, quando a tensão estava quase insuportável, uma navalha. Aquilo era um indicativo de que a gente podia levar muita porrada, mas também ia tirar o sangue de muita gente.

Felizmente, em dois anos de incursões semanais por essas quebradas, nunca ninguém quis tirar a prova dos nove. Nosso pacifismo só costumava ser posto à prova em bailes de carnavais. Aí, não tinha jeito. Bastava um “alemão” olhar atravessado para um de nós e a alcatéia não pensava duas vezes antes de atacar. Saíam pancadarias infernais de acabar com as festas. Mas isso é uma outra história.