Pesquisar este blog

terça-feira, junho 26, 2012

Jennifer Lopez leva público ao delírio em seu primeiro show no Brasil



Thais Carvalho
Do UOL, em São Paulo

Depois de tantos anos de espera, os fãs de Jennifer Lopez, enfim, tiveram a oportunidade de vê-la ao vivo no Brasil. Na noite deste sábado, 23, a cantora americana fez seu primeiro show no país e levou um público de 14.800 pessoas ao delírio em uma apresentação que durou 1h20 na segunda edição do Pop Music Festival, no Anhembi, em São Paulo.

Com um atraso de pouco menos de meia hora, J.Lo subiu ao palco às 23h26, e inicou a apresentação cantando “Never Gonna Give Up”, sucesso de 2007 do álbum Brave.

A diva do pop fez seis trocas de roupa. Todos os figurinos assinados pelo estilista Zuhair Murad, que já vestiu Katy Perry e Fergie. Em todos eles, os destaques ficaram para os brilhos, decotes e fendas generosas, características do designer. 

Todo esse glamour rendeu gritos de “popozudas”, em referência ao comercial que fez para o Carnaval do Rio de Janeiro, e “maravilhosa” do público, que foi fiel à estrela e cantou todas as músicas.


J.Lo esbanjou a boa forma dos seus quase 43 anos e não poupou esforços para deixar os fãs brasileiros empolgados com coreografias sensuais, acompanhada de oito dançarinos homens e duas mulheres, que renderam cenas de intimidade e até “carinhos” no bumbum. 

Ovacionada enquanto os fãs pediam que ela sambasse, ela atendeu, mostrou o rebolado e disse: “Ainda é só um pouquinho, mas estou aprendendo. Vou aprender.”

Antes de iniciar a terceira música, “Love Don’t Cost a Thing”, de 2001, a musa gritou “São Paulo”, pegou um presente jogado no palco por um fã e agradeceu ao público. 

Logo depois pediu para todos cantarem e dançarem com ela e com a resposta eufórica de gritos da plateia, disse: “Isso é Brasil, certo?”, e começou a cantar. 

Após essa, veio o sucesso “I’m Into You”, com parceria do rapper Lil Wayne, do último álbum lançado por ela em maio de 2001, Love?.

A primeira troca de roupa foi um momento especial do show, quando um ringue foi montado no palco e dois dançarinos simularam uma luta. 

Após um deles levar o outro ao nocaute, J.Lo apareceu vestida com um roupão dourado com capuz, similar aos que lutadores usam em dias de combate , e cantou “Goin’In”, que tem participação do rapper Flo Rida. 


A partir daí, ela tirou o que cobria o corpo escultural e ficou apenas com uma calça mais larga e um top. 

Com um cenário imitando o Bronx, bairro negro de Nova York, a morena cantou “I’m Real”, música do seu segundo álbum J.Lo, de 2011, na qual outro rapper faz participação: Ja Rule.

Em seu terceiro figurino, a cantora apareceu com um vestido azul e levou os fãs à loucura com o sucesso “Do It Well”, de 2007.  

E como fez durante todo o espetáculo, se comunicou e transbordou simpatia conversando com o público e, por várias vezes, ajoelhando-se e tentando encostar em alguém que estendia a mão para poder tocar pelo menos as pontas dos dedos da estrela. 

Ao terminar “Whatever You Wanna Do”, Lopez falou sobre o calor que estava sentindo e pediu para que um dos assistentes de palco secasse as suas costas com uma toalha. 

Tudo isso para que plumas azuis fossem incorporadas à roupa e começasse “Hold It, Don’t Drop It”, mais um hit que esteve no topo das paradas em 2007. E mais uma vez fez o Anhembi explodir.


O momento mais comportado foi quando J.Lo vestiu um terninho preto e um chapéu, e tocou atabaque para iniciar a canção “Lets Get Lound”. Mas, como era de se esperar, a roupa tinha algo especial para mostrar. 

De repente, envolta pelos bailarinos e plumas, ela tirou a calça e o blazer, e surgiu com um colã transparente com detalhes pretos para cantar “Papi”. 

Dessa vez, os oito dançarinos presentes no palco tiraram a camisa e jogaram no público, que mais uma vez delirou com o verdadeiro show apresentado.

Com mais plumas pretas, J.Lo ouviu o Festival cantar junto o sucesso “On The Floor”, depois de iniciar cantando em português “Chorando se foi quem um dia só te fez chorar”. 

O mais novo single “Dance Again” foi a última música, e a americana finalizou com um Obrigada São Paulo.

A passagem pelo Brasil, que também terá parada no Rio de Janeiro para a edição carioca do Pop Music Festival no dia 27 de junho, na HSBC Arena, faz parte de uma turnê que Lopez iniciou no dia 16 deste mês pela América Latina. 


Desde então, ela já esteve em Caracas (Venezuela) e em Buenos Aires (Argentina). 

Além das apresentações no Festival, a cantora estará em Fortaleza, dia 30 e em Recife dia 1º de julho. As apresentações no Nordeste terão a participação de Ivete Sangalo.

Na última vez em que esteve no Brasil, a cantora de ascendência portorriquenha participou das gravações do programa “O Melhor do Brasil”, da Rede Record, ao lado de Rodrigo Faro. 

Jennifer Lopez também foi convidada especial do Carnaval carioca deste ano.

Antes do show mais esperado da noite, Michel Teló, Kelly Clarkson e a banda Cobra Starship fizeram apresentações no centro de eventos paulistano. 

Depois, a socialite Paris Hilton fechou o Music Pop Festival fazendo sua estreia como DJ.

Paris Hilton apareceu toda brilhosa: roupas, fones e inclusive uma bandeira do Brasil que ela levantou algumas vezes. A loira se comportou, fez o papel de uma verdadeira DJ e agitou o público do Anhembi.

sexta-feira, junho 22, 2012

Recordando os famosos Reis do Ringue



O “Telecatch Montilla” era a versão brasileira das lutas-livres e foi um dos programas responsáveis por alavancar a audiência da TV Globo na década de 1960.

No programa, aproveitando a distração do juiz, o vilão batia covardemente no mocinho, e o público, com raiva, gritava e jogava sapatos e guarda-chuvas no ringue.

Na luta encenada, valia tudo: mordida, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça, limões espremidos nos olhos, supercílios cortados com gilete e até bater no juiz.

Quando tudo parecia perdido, o bonzinho recuperava as forças, aplicava uma série de tesouras voadoras no malvado e vencia a luta.


O programa foi originalmente criado na TV Excelsior e passou a ser exibido pela Globo em 1967. Era transmitido ao vivo do auditório da emissora, aos sábados, inicialmente às 20h. Dois anos depois, o programa passou a ser exibido na TV Tupi. Saiu do ar em 1972.

O principal personagem do programa era Mario Marino, um italiano que desembarcou em Buenos Aires aos 12 anos e veio para o Brasil com 24. De cabelos loiros e porte atlético, consagrou-se como Ted Boy Marino.

O galã loiro tinha muita popularidade entre as crianças e o público feminino. Ele conta que, na época, chegou a receber mais de duas mil cartas por semana e que precisava entrar com seguranças na TV Globo devido ao assédio dos fãs.

Mas os bons tempos foram interrompidos pela censura, que tirou a luta-livre do horário nobre e, depois, da programação. O espetáculo-marmelada fazia muito sucesso e ainda voltou em várias versões nas décadas de 1970 e 1980 em outras emissoras.



Ted Boy conta que para lutar era preciso habilidade e muito treino, para saber cair. Mas, apesar do seu know-how, ele se acidentou diversas vezes: quebrou joelho, tornozelo, braço, ombro e costelas.

Depois que o gênero saiu de moda, o lutador passou a se apresentar em clubes e teatros do interior. Participou também de programas humorísticos, como “Os Trapalhões” e a “Escolinha do Professor Raimundo”.

Os outros personagens conhecidos como os reis do ringue eram o traiçoeiro Mongol, o exótico Leopardo, o extraordinário Tigre Paraguaio, o misterioso Verdugo, o impagável Tony Videla, o irritante Rudy Pamias, o violento Rasputin Barba Vermelha, o campeão Caruso e os irmãos estilistas Beto e Sergio.


Na verdade, os lutadores eram divididos em três grupos. O primeiro era formado pelos galãs Tigre Paraguaio (foto) e Ted Boy Marino.

O segundo grupo era composto pelos lutadores Fantomas, Hércules, Aquiles e Bala de Prata, os mocinhos.

O terceiro grupo era formado pelos vilões Rasputin, Verdugo, Mongol, Barba Negra e Diabo Branco, todos muito gordos e bem feios.

As lutas colocavam frente a frente um “bonzinho” contra um “malvado”. Havia o “cruzamento de espadas”, golpe em que o lutador forçava o oponente no tablado encostando peito a peito. Se o lutador de baixo não se livrasse em três segundos, perdia o combate.


Havia também a “tesoura voadora”, o golpe em que se “voava” com os dois pés no peito do adversário, mandando-o para a lona.

E havia também o “soco-inglês” – uma peça metálica que se encaixa nos quatro dedos da mão, com exceção do polegar, para desferir golpes violentos no adversário.

Só os malvados usavam soco-inglês. Os bonzinhos apenas se defendiam. Os malvados batiam até “tirar sangue” dos bonzinhos.

Mas Ted Boy Marino, o galã, não colocaria a cara para bater até sangrar. É que a telinha não mostrava, mas o vilão pegava no corner saquinhos de plástico com groselha. Ele fechava a mão com o soco-inglês e quando desferia o golpe na cara do bonzinho, espremia a groselha que explodia “em sangue”.

No dia seguinte, o bom rapaz aparecia sem nenhuma cicatriz no rosto.


No ringue, os personagens se digladiavam sob as marcações de uma luta ensaiada. A encenação era marcada pelo tom caricatural e cômico dos golpes e dos estilos de seus protagonistas.

O programa chegou a despertar protestos de lutadores, empresários de boxe, jornalistas esportivos e pugilistas, que acreditavam que as lutas-livres ensaiadas da TV, com golpes combinados e o final previamente decidido, desmoralizavam o boxe brasileiro.

Em Manaus, os radialistas Arnaldo Santos e Luiz Saraiva criaram um programa semelhante, que era exibido na TV Ajuricaba.


O grupo dos mocinhos incluía Silva (foto), Argos, Demolidor, Ulisses, Gato, Aquiles, Viking, Targus, Falcão Dourado, Oder, Spartacus e Bala Ligeira.


Os malvados, capitaneados por Lobo Selvagem (foto), incluíam Cabeleira, Lotar, Tigre, Dom Kimura, El Tcholo, El Touro, Atlas, Múmia, Rasputin, Carrasco Cearense, Ramires Toledo, Killing, Linhares da Amazônia, Corisco e Mini-Maciste.

Na luta australina, uma das mais animadas, dois bonzinhos enfrentavam dois malvados, mas era comum outros malvados se juntarem à dupla inicial para detonar os bonzinhos.


Voadora de Argos no Carrasco Cearense enquanto Silva imobiliza Atlas

A briga entre Silva e Lobo Selvagem era considerada o grande clássico do gênero, o “Rio-Nal” do tele-ringue.

Silva fazia o galã boa praça que lutava limpo porque possuía uma excelente técnica. Era o favorito da mulherada.

Lobo Selvagem, que gostava de fazer caretas para intimidar os adversários, apelava para tudo quanto é golpe baixo. Era o favorito dos homens.

Em média, Silva vencia três de cada cinco lutas, enquanto Lobo Selvagem vencia as outras duas. Nenhuma luta entre eles dois terminava em empate.


Mestre em aikidô e proprietário de uma academia no centro da cidade, Alberto Silva conta que sempre foi amigo do hoje advogado José Carlos Sena Dantas, o famoso Lobo Selvagem, e que as lutas entre os dois eram previamente ensaiadas.

“Eu estava em alguma festa e o Lobo Selvagem aparecia na porta de uma hora pra outra. Tudo previamente combinado. A gente começava a discutir, era aquela confusão. Um jurava o outro de morte e lá mesmo já marcávamos um combate. Quando chegava na hora da luta não tinha mais onde colocar gente”, revelou Silva em entrevista ao jornalista Adan Garantizado, de A Crítica.

A idolatria dos torcedores também rendeu boas histórias.

“Nós estávamos lutando no Lago do Janauacá e eu parti o supercílio do Silva com uma cabeçada involuntária. Na mesma hora, um rapaz apareceu com um facão dizendo que ia me matar. Eu saí correndo, pulei em uma canoa e me mandei. A turma dos lutadores só foi me achar no outro dia”, relembrou Lobo Selvagem, com bom humor.


Segundo Arnaldo Santos, as lutas eram previamente ensaiadas por causa da censura que existia no país.

“Em 1972, o AI-5 ainda estava vigente e tudo tinha que ser examinado previamente pela Polícia Federal. Nós fazíamos um roteiro detalhado e entregávamos a eles, inclusive dizendo quem ia ganhar. Se acontecesse algo que não estivesse no script, o programa seria censurado e sairia do ar”, diz ele.

A primeira luta organizada por Arnaldo Santos e Luiz Saraiva aconteceu em um terreno baldio que ficava ao lado da televisão e foi um desastre.

“O povo se revoltou com o resultado da luta e jogou pedras, garrafas e pedaços de pau no ringue. O jeito foi levar para dentro do estúdio da TV, onde era mais seguro. Mesmo assim, lotava. Vez ou outra as lutas aconteciam em clubes como o Olímpico e até no Parque Amazonense”, recorda o radialista.

A audiência do programa era grande e se transformou em uma verdadeira febre.

Dezenas de academias de luta livre foram abertas na cidade.


Depois da TV Ajuricaba, onde permaneceu por dois anos, o programa “Tele-ringue” foi exibido nas tevês Baré, Educativa e Amazonas e os lutadores chegaram a fazer combate em cidades do interior e nos estados e países vizinhos.

Nessas lutas, eles enfrentavam os lutadores locais (se houvessem academias na cidade em que estavam se apresentando) ou lutavam entre si.


Atualmente proprietário de um restaurante na Feira Coberta do Japiim, o ex-lutador Ulisses recorda de um episódio ocorrido durante uma luta realizada em Porto Velho (RO), quando enfrentou seu compadre Lobo Selvagem.

Faltando cinco minutos para começar o combate, Lobo Selvagem foi subitamente acometido de um tremendo desarranjo intestinal. Ele correu para o sanitário e deixou a natureza seguir seu curso.

Ocorre que no referido sanitário não havia papel higiênico. Lobo Selvagem não deu a mínima e vestiu a sunga assim mesmo, sem ter limpado o brioco.

Assim que começou o combate, Lobo Selvagem derrubou Ulisses no chão e se sentou na cara do lutador.

– O cheiro de merda foi bater no meu pulmão! – diz Ulisses. “Eu tratei de bater rapidinho, antes que desmaiasse com aquela fedentina. O público desconfiou que era marmelada, tentou invadir o ringue e deu uma confusão dos diabos!”

Um dos lutadores mais marcantes do tele-ringue se chamava Demolidor.


O personagem vivido por Edgar Monteiro de Paula (o quarto da esquerda pra direita, em pé) surgiu a partir de uma ideia dos organizadores para ser a grande estrela do programa de tevê.

Faixa-preta em karatê e um dos melhores jogadores de vôlei da época, Edgar não era praticante de luta livre, mas acabou se transformando no lutador mais admirado pelos telespectadores. 

Lutando sempre mascarado, com uma roupa negra que cobria o corpo da cabeça aos pés, ele tinha o desafio de se manter “anônimo”.

As entrevistas na tevê eram limitadas a gestos e nenhuma palavra. Nem mesmo os outros lutadores sabiam quem era o misterioso lutador, já que Edgar também treinava fantasiado de Demolidor.

Algumas características como a luta em pé e a finalização com um golpe de karatê na cabeça do adversário contribuíram, ainda mais para a criação do mito.

Mas a fama também obrigou Edgar a fazer verdadeiros malabarismos para manter o disfarce.


“Eu tinha que me trocar dentro do carro. Uma vez o comandante geral da PM entrou no vestiário e queria que mostrassem quem era o Demolidor. Ele dizia que o personagem podia ser um foragido da Justiça, mas na verdade ele queria mesmo era descobrir o mistério. Outra vez a torcida do Rio Negro seguiu o carro onde eu ia pra tentar me desmascarar”, revelou. 

Em casa, só os irmãos sabiam que Edgar era o Demolidor (conta-se que Eduardo Monteiro de Paula, atualmente um festejado radialista esportivo da TV Amazonas, que também era faixa-preta de karatê, chegou a substituir o irmão em algumas lutas, mas Dudu nega veementemente).

“Meus pais desconfiavam. Os amigos dele começaram a suspeitar de que eu era o lutador mascarado. Uma vez, eles tentaram tirar a prova: tive que assistir a uma luta do Demolidor em casa, ao lado deles. Só que armei com o Silva, que tinha um porte físico parecido com o meu e ele foi o Demolidor naquela noite. Consegui me livrar”, diz Edgar, que, atualmente, vive com a esposa e filhos em Ciudad Bolivar, na Venezuela.

Por que a música dos Beatles ainda é tão boa?



Foto da primeira sessão de gravação dos Beatles com Ringo na bateria

Adam Gopnik
Escritor e ensaísta americano

A Grã-Bretanha celebrará neste verão (inverno, no Brasil) o jubileu de uma instituição que está durando mais tempo do que qualquer um imaginava, que transcendeu as fronteiras do país, e que se mantém ainda hoje como uma fonte constante de alegria no mundo.

Estou me referindo não à monarquia britânica – cuja rainha Elizabeth 2ª também celebra seu jubileu – mas ao 50º aniversário do primeiro show com a formação clássica dos Beatles.

Também há cinquenta anos foi feito o primeiro registro fotográfico de John, Paul, George e Ringo. A imagem foi feita em um ensaio à tarde, poucos dias antes de 22 de agosto de 1962 – a data do primeiro show dos Beatles.


Coloco esta foto ao lado de outra imagem importante, feita no dia 22 de agosto de 1969 – exatamente sete anos depois. Este é o último registro dos quatro Beatles juntos.

Existe algo sombrio, trágico ou até meio cósmico sobre os Beatles – foram sete anos de fama imediata, e longas décadas de tremores secundários.

Esses dias, vi um vídeo na internet sobre “coisas que as pessoas nunca falam”. Um dos itens da lista é: “eu não gosto dos Beatles”.

 Todos gostavam dos Beatles antes, e todos gostam deles ainda hoje. Meus filhos discordam de mim quando falamos sobre os Rolling Stones, e eles não entendem o jeito “metal farofa” do Led Zeppelin (por que eles cantam gritando com sotaque americano?).

Mas para meus filhos, os Beatles são tão incontestáveis quanto a lua. Simplesmente algo que não para de brilhar.

É um fenômeno. Se a geração da época dos Beatles ainda estivesse escutando músicas de 50 anos atrás – como nós hoje – eles estariam ouvindo canções da época da Primeira Guerra Mundial, o que é impensável.

Então, por que os Beatles continuam atuais?

A explicação que se ouve geralmente é que eles refletiam bem o seu tempo e eram um espelho para uma década que todos ainda reverenciam – os anos 60.

Mas o quanto mais eu os escuto e mais o tempo deles vai ficando no passado, mais fundamental o som deles se torna.

Fico pensando se grandes personalidades do mundo pop não têm uma relação inversa com a sua própria época.

Charlie Chaplin, que é um dos poucos artistas com este tipo de estatura, criou sua obra depois da Primeira Guerra Mundial – a era dos automóveis e da metralhadora, um dos períodos mais conturbados da história da humanidade.

Mas seu trabalho era baseado no teatro vitoriano e na prosa de Charles Dickens, evocando uma época anterior ao seu tempo. Luzes da Cidade e O Garoto mostram a Londres dos anos 1890, não a Nova York dos anos 1920.


Eu acho que o mesmo acontece com os Beatles. Eles não eram provocadores. Seu grande tema é a infância perdida, e o que fazer diante de um mundo sério e austero, mas organizado e seguro da Inglaterra onde eles cresceram.

Seus trabalhos mais duradouros – como Strawberry Fields e Penny Lane – contam histórias como a de um menino solitário em um jardim que lhe traz conforto, ou de uma rua animada de Liverpool, onde um garoto esperto e sociável vê o mundo ao seu redor.

Sons estranhos do passado – como bandas de metais – adornam as músicas dos Beatles, como ilustrações em um livro infantil. Sexo é um tema presente no primeiro disco, mas é raramente tratado nos demais álbuns.

A música dos Beatles é duradoura sobretudo por causa do poder da colaboração entre opostos. John tinha profundidade. Ele entendia instintivamente o que separa um grande artista de um grande agente de entretenimento. O artista procura surpreender e até chocar seu público.

Paul tinha compreensão, sobretudo do aspecto material da música, e sabia instintivamente que a arte que surpreende mas não consegue entreter é mera vanguarda.

Nós percebemos a diferença quando os ouvimos após a separação: Paul tinha milhares de melodias maravilhosas, mas ambições artísticas esporádicas; John tinha muita ambição artística, mas só um punhado de melodias.

Mas naqueles sete anos que a profundidade de John encontrou a compreensão de Paul, nós todos subimos o Everest (que por sinal era para ser o nome do último disco dos Beatles).

O dom dos Beatles era o dom da harmonia, e sua visão sempre foi essa. Harmonia – as vozes se entrelaçando em uma canção – ainda são o nosso símbolo mais poderoso de um mundo melhor, onde os opostos cantam juntos como se fossem um só.

É por isso que até mesmo Bach e Handel terminavam suas melhores obras com corais – para nos alegrar e encorajar com sons de um mundo harmônico onde nós ainda não chegamos, mas o coral já atingiu e agora está nos chamando.

A arte nos faz sentir vivos e conscientes, mas raramente ela nos faz sentir feliz. Cinquenta anos depois, a música dos Beatles ainda sobrevive porque eles nos dão um dos sentimentos mais incríveis: o de que a felicidade é algo que cabe na nossa mão.

De perto ninguém é normal



O escritor Wolfgang Von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.

O escritor Pedro Nava parafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém o tirasse do lugar.

Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Euclides da Cunha, Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e, alguns meses depois de inaugurada, a ponte simplesmente ruiu. Ele não se deu por vencido e a reconstruiu. Mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.

Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais bem como físicas. Machado teve uma infância sofrida pela pobreza e ainda era míope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.


Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.

Aluísio de Azevedo tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.

José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo, do Rio, e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953.

Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. “Se não fizer isso, saio matando gente pela rua”. Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. “Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha.”


Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o “furo”: Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.

Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.

Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. “Para ele, era licor”, diverte-se Joyce, a neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo. “Mas para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra.”

Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: “O senhor gosta de Camões?” Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos. Foi escoteiro dos nove aos treze anos. Nadador do Minas Tênis Clube, ganhou o título de campeão mineiro em 1939, no estilo nado de costa.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão. “Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue”, conta Agnes, a filha mais nova.

Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.


Vinicius de Moraes, casado com Lila Bôscoli, no início dos anos 50, morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.

José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação.

Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. “Por quê?”, perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: “O motivo é simples: nós somos amantes.” Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: “Muito prazer, encantado.” Era piada. Os dois nem se conheciam até então.

O poeta Pablo Neruda colecionava de quase tudo: conchas, navios em miniatura, garrafas e bebidas, máscaras, cachimbos, insetos, quase tudo que lhe dava na cabeça.

Vladimir Maiakóvski tinha o que atualmente chamamos de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia, numa espécie de ritual repetitivo e obsessivo.


A preocupação excessiva com doenças fazia com que o escritor de origem tcheca Franz Kafka usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas – para que o ar circulasse –, mesmo no rigoroso inverno de Praga.

O escritor norte-americano Ernest Hemingway passou boa parte de sua vida tratando de problemas de depressão. Apesar da ajuda especializada, o escritor foi vencido pela tristeza e amargura crônicas. Hemingway deu fim à própria vida com um tiro na cabeça.

O poeta português Fernando Pessoa tinha o hábito de escreve sob diversos pseudonimos, cada um com um estilo e uma biografia próprios. Ente os pseudônimos adotado estão Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Álvaro de Campos.

quarta-feira, junho 20, 2012

Chico Buarque, aos 68 anos, vive momento novo e inspirado



Cantor, compositor e escritor, Francisco Buarque de Hollanda completou, nesta terça-feira, 68 anos. Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico, tímido, de sorriso leve, comemora a data com a discrição que lhe é típica. Mas agiganta-se na carreira com um momento novo, sem abrir mão da qualidade de vida.

Na política, o intelectual participou ativamente da luta contra a ditadura no Brasil e segue de perto os rumos do país. Seu interesse pela música começou aos cinco anos de idade, quando recortava dos jornais e colava em um álbum os retratos dos principais artistas do rádio.

Ainda na infância, mudou para a Itália devido ao trabalho do pai. Lá, além de aprender outras línguas, teve contato com diversos artistas que frequentavam a casa da família, como Vinícius de Moraes. Compôs pequenas operetas em 1956, quando a família já estava de volta ao Brasil.

Ainda na pré-adolescência, envolveu-se brevemente com uma seita ultraconservadora católica, mas os pais, preocupados com as influências que o jovem estava recebendo, preferiram encaminhá-lo para um internato.

A rebeldia, no entanto, acentuava-se quando voltou do período castrense e acabou preso por furtar um carro, na companhia de um colega. O mal feito lhe impediu de circular sozinho até os 18 anos de idade.

No mesmo período publicou suas primeiras crônicas em um jornal do colégio. Sua primeira composição é de 1961, a Canção dos Olhos.

Para atender ao desejo da família, Chico ingressou para o curso de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), mas por pouco tempo. Já havia descoberto que seu caminho estava na arte.

Em 1965 participou do I Festival de Música Popular Brasileira com a canção Sonho de Carnaval. Nesta competição ele conheceu Elis Regina, a grande vencedora da noite.

No mesmo ano lançaria seu primeiro compacto Pedro Pedreiro e Sonho de Carnaval. Conheceu também Caetano Veloso, frequentador do bar João Sebastião, reduto da bossa nova paulista.
No ano seguinte, ganhou o Festival com a música A Banda (dividindo o primeiro lugar com Disparada de Théo Barros). Com o sucesso da composição, mudou-se para o Rio de Janeiro onde gravou seu primeiro LP: Chico Buarque de Hollanda.

Ainda em 1966 conheceu a atriz Marieta Severo Lins, com quem acabaria se casando. Passou a trabalhar em diversas frentes que incluíam a composição de um segundo disco, canções para teatro (como o infantil O Patinho Feio) e a gravação de programas na Rádio Jovem Pan e na TV Record.

Em 1967 estreou como ator interpretando a si próprio no filme Garota de Ipanema. Com a ditadura militar em vigor no Brasil, participou dos protestos contra o regime. Após o início do AI-5, teve a peça Roda Viva censurada e foi investigado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

Em discordância com o momento político vivido pelo país, se auto-exilou na Itália em 1969, onde chegou a lançar dois LP. Foi neste período que nasceu a primeira filha do casal: Sílvia Severo Buarque de Holanda. Retornou ao Brasil em 1970 e lançou seu quarto disco. Nesse ano também compôs Apesar de Você que vendeu mais de 100 mil cópias e se tornou um hino contra a ditadura.

Quatro anos depois, ele entraria em um novo ramo das letras quando escreveu sua primeira novela: Fazenda Modelo. Iniciaria então um longo período fora dos palcos, onde continuou trabalhando em novas músicas, trilhas sonoras, peças de teatro e romances.

Nesse período, participou apenas de espetáculos com causas sociais como o show no dia 1º de maio, no Riocentro, quando explodiu uma bomba, destinada ao público, no colo do oficial do Exército que pretendia detoná-la. Cantou também em outros países, sempre trabalhando por causas políticas.

Na década de 80 manteve sua luta contra o regime militar no Brasil compondo e militando pelo o fim da ditadura. Em 1991 lançou seu primeiro romance Estorvo. O segundo viria em 1995, Benjamin. Estorvo viraria filme no final dos anos 90 e Benjamin iria para as telas em 2003. Publicou ainda Budapeste que também chegou aos cinemas.

Ao longo de sua carreira, até agora, Chico Buarque lançou 53 discos, escreveu peças como Opera do Malandro e Calabar, além de obras infantis, como Chapeuzinho Amarelo.

Cordel: a maior mentira de Chicó



Protagonista do Auto da Compadecida, a imortal criação de Ariano Suassuna, Chicó é bem mais que um mentiroso, um contador de lorotas, um hábil criador de patranhas.

Por Marco Haurélio

É um personagem arquetípico e, sem exagero, podemos rastrear vestígios seus no guerreiro Ulisses, outro grande mentiroso, no marinheiro Simbad, no Barão de Munchausen e em personagens da fábula e também da vida cotidiana, que enfeitam a existência com uma realidade alternativa às vezes engraçada, outras tantas encantada. O herói burlesco deriva do herói mítico.

No cinema, o personagem foi vivido pelos atores Antônio Fagundes, Dedé Santana e Selton Mello. Este último dividiu a cena com Matheus Nachtergaele, que interpretou João Grilo, na mais bem elaborada versão do clássico de Suassuna, dirigida por Guel Arraes em 2000.

Em 2005, levei o personagem ao cordel, no folheto Os apuros de Chicó e a astúcia de João Grilo.

Em 2008, a obra, consideravelmente ampliada, rebatizada como Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo foi relançada pela editora Luzeiro.

A grande novidade foi a ampliação da presença de Chicó, que conta uma mentira do tamanho do Padre-nosso, como a sabedoria popular classifica as grandes patranhas.

No trecho abaixo reproduzido, costurei situações de contos catalogados em vários países, alinhavados de forma a parecer uma coisa só.

Chicó contava vantagem,
Mas o povo não ligava,
Toda noite para ouvi-lo
A multidão se ajuntava,
Porém não tinha sequer
Um que nele acreditava.
João Grilo dizia sempre:
– Chicó, tenha mais cuidado,
Pois a sua língua grande
Pode deixá-lo enrascado
Se um dia se deparar
Com algum cabra malvado.
Chicó dizia: – Qual nada!
Nunca me meto em engano:
Já irriguei o deserto
Com as águas do oceano,
Mandei fazer uma ponte
Ligando Marte a Urano!
Já matei onça de tapa
E leão com pontapés,
Já tirei água de pedra,
Como um dia fez Moisés,
Em casa tenho uma árvore
Que produz contos de réis!
João Grilo disse: – Chicó,
Nem mesmo lá em Pequim
Um pé-de-pau dá dinheiro
Ou a água do mar tem fim.
Chicó respondeu: – Não sei;
Eu só sei que foi assim…
Porém, meu amigo João,
Agora vou lhe contar
Uma história verdadeira,
Dessas de se admirar,
Que mesmo o cabra incrédulo
É forçado a acreditar:
No sertão do Ceará
Vi três matutos correndo
Atrás de uma tartaruga –
Parece que inda estou vendo –
Mas vou descrever os três
Pra você ficar sabendo.
Cada um deles levava
Consigo uma carrapeta.
Mas o primeiro era mudo
O segundo era perneta;
Já o terceiro era cego,
O quarto surdo e maneta.
E foi o cego quem viu
A tartaruga matreira.
O mudo falou pra ele:
– Acabou-se a brincadeira!
Depois gritou o perneta,
Que se danou na carreira.
Mas quem pegou a bichinha
Foi o sujeito cotó,
Vendeu-a para um mendigo,
Ficou mais rico que Jó.
É a mais pura verdade,
Quem lhe garante é Chicó.
Mas isso, João, não é nada,
Já fiz coisa mais incrível
Que, se lhe contar, você
Pensará ser impossível.
Pra você pode até ser,
Mas não pra alguém do meu nível.
Eu tenho um grande criame
De abelhas no meu quintal.
Tentei contar as colmeias –
Confesso que passei mal –
Pois nem em quinhentos anos
Descobriria o total.
Porém contei as abelhas,
Que passavam de um trilhão!
Vendo que faltava uma,
Quase perdi a razão
Mas para minha alegria,
Vi o seu rastro… no chão.
Entrei mata adentro e vi
Minha abelhinha caída,
Com duas raposas velhas
Numa batalha renhida.
Saquei de grande peixeira,
Pra defender minha vida.
Rumei a peixeira nelas,
Que saíram em disparada;
A peixeira se perdeu
Dentro da mata fechada.
Então, matutei um jeito
De sair desta embrulhada.
Logo peguei o meu binga,
Fogo na mata botei,
E desta forma, as raposas
Pra bem longe afugentei.
Quando o fogo se apagou,
Minha peixeira encontrei.
Porém sobrou só o cabo,
O ferro foi derretido.
Corri até o ferreiro,
Contei o acontecido:
E pedi que refizesse
O ferro, que foi perdido.
Mas ele se confundiu
Por ter cabeça de vento
E me fez um anzol reto
Pra eu pescar ao relento.
Joguei o danado n’água,
Puxei e veio… um jumento!
Veio com bruaca e tudo,
Então nele me montei.
Os quartos da abelhinha
Fujona, avante encontrei.
Quando espremi, dez mil litros
De mel bem puro tirei!
Porém não tinha os barris.
E estando no mato só,
Resolvi armazenar
Todo o mel no fiofó
Do meu jeguinho, contudo,
Confesso: fiquei com dó.
Passado algum tempo houve
No sertão grande secura;
Nas costas do meu jumento
Cresceu grande matadura,
De tanto carregar peso
Em sua jornada dura.
O jumento carregava
Bastante mercadoria
E, para minha surpresa,
Presenciei, certo dia,
Germinando em suas costas
Feijão, milho e melancia.
Então, peguei o machado
E dei um golpe no centro
Da melancia, porém
O machado caiu dentro.
Olhei o buraco e disse:
– É aqui mesmo que eu entro!
Lá dentro da melancia
Avistei em disparada
Um vaqueiro procurando
A sua enorme boiada.
Pedi seu adjutório:
Ele me deu uma escada.
Para subir os degraus
Foi terrível o escarcéu,
Pois saí da melancia
E fui bater lá no céu.
Lá Maria Madalena
Me ocultou em seu véu.
Acabei voltando à Terra
Cavalgando num corisco,
Que caiu em Xique-xique,
Nas bandas do São Francisco,
Mas aprendi a lição –
Hoje sou um cabra arisco.

 Pedro Monteiro, caboclo arguto do Piauí, costurou também algumas situações inusitadas em seu folheto de estreia: Chicó, o menino das cem mentiras (Luzeiro).

Na mesma linha, ainda encontramos, publicado pela editora Luzeiro, o candidato a clássico O contador de mentira, escrito pelo paulistano Hélio Cavenaghi (1924-1984).

Eventos celebram 75 anos de nascimento de Vladimir Herzog



A partir desta quinta até o início de julho, a cena cultural paulistana recebe eventos gratuitos de cinema, artes gráficas e música erudita que retratam, de forma artística, o impacto de movimentos políticos – como a ditadura e o holocausto – na vida da sociedade contemporânea.

A iniciativa é do Instituto Vladimir Herzog, com apoio do Ministério da Cultura, para celebrar os 75 anos de nascimento de Vlado, jornalista que dá nome ao Instituto e foi torturado e assassinado em 1975 pela ditadura em São Paulo.

 Além de ter nesses eventos uma forma de celebrar o que representa a vida de Vladimir Herzog no cenário político brasileiro, procuramos reunir atividades gratuitas e culturais que possam contribuir para a discussão sobre a importância da memória para um povo; assunto este muito atual e necessário neste momento em que defendemos a instauração de uma Comissão da Verdade no Brasil – afirma Ivo Herzog, diretor executivo do Instituto e filho do jornalista.

As diferentes linguagens, de filmes a concerto, passando por imagens históricas e mesa-redonda sobre os Direitos Humanos no Brasil, conterão mensagens em favor da democracia, liberdade, direito dos cidadãos à vida e à justiça e fim da violência.

As atrações têm início com a Mostra de Cinema “Memória e Transformação” e Exposição de Cartazes sobre a Anistia, exibidos na Cinemateca Brasileira e, no caso dos filmes, também no CineSESC.

Na abertura desses eventos, nesta quinta,  será exibido o único documentário dirigido pelo jornalista Vladimir Herzog, o curta Marimbás (1963) e o filme Tire diré (1960), de Fernando Birri, mestre do documentarismo argentino, professor e parceiro de Vlado.

A Mostra Memória e Transformação apresentará 49 documentários produzidos a partir de 1950 até os dias atuais sobre o cenário sócio-político latino, com foco em obras que tratam das lutas de resistência às ditaduras militares, governos totalitários e outras formas de opressão do poder contra o povo, grupos étnicos ou minorias.

Entre os destaques: O Edifício dos Chilenos (Macarena Aguiró, 2010); Vlado, 30 anos depois (João Batista de Andrade, 2005); Nostalgia da Luz (Patricio Guzmán, 2010), entre muitos outros. A exibição desse último será em formato de aula magna seguida de debate com o diretor chileno Patricio Guzmán, em 8 de julho.

A exibição dos filmes na Cinemateca ocorrerá de 19 de junho a 8 de julho e no CineSESC, de 29 de junho a 5 de julho. O público também terá a oportunidade de conhecer, na Cinemateca, a Exposição de Cartazes sobre a Anistia, que conta com 60 expressões artísticas sobre o tema até 8 de julho.

Outra grande atração gratuita que o Instituto Vladimir Herzog traz a São Paulo é a cantata O Diário de Anne Frank, uma produção musical erudita que será apresentada pela primeira vez nas Américas na semana do aniversário de nascimento do jornalista Vladimir Herzog – dias 29 e 30 de junho e 1º de julho no Auditório do Ibirapuera. 

Será, ainda, a primeira vez em todo o mundo, que a obra, de autoria de Leopoldo Gamberini (1922 – Abril de 2012) e de Otto Frank, pai de Anne, será apresentada em sua versão integral, com orquestra sinfônica, coral com 110 cantores, bailarina, solista e muitos recursos audiovisuais para retratar a história da menina que foi vítima do holocausto da Segunda Guerra Mundial. 

Toda a peça será regida pelo maestro brasileiro Martinho Lutero, que recebeu todo o direcionamento para a execução da cantata diretamente de seu autor.

Para finalizar a Semana Vladimir Herzog, em 28 de junho, o Itaú Cultural recebe a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; Amérigo Incalcaterra, representante regional do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos para a América do Sul; e Tito Milgram, curador do Museu Yad Vashem, em Jerusalém (Israel), no Seminário Direito à Verdade e à Memória, mediado por Sérgio Adorno, diretor do Núcleo de Estudos da Violência da USP.

Nesse encontro, serão compartilhadas as experiências de países latino-americanos no resgate da memória e justiça aos autores de violências cometidas durante os governos militares (Amérigo), a percepção judaica sobre o holocausto, pela visão de Milgram e os movimentos para maior transparência na História recente do Brasil, pela ministra Maria do Rosário.

A programação completa, com horários e locais, pode ser conferida no site do Instituto (http://vladimirherzog.org/mostra-site/index.php)

quinta-feira, junho 14, 2012

Alec Empire diz que a internet é um experimento de anarquia e liberdade



Por Douglas Vieira

Fundador e líder do grupo alemão de digital hardcore Atari Teenage Riot, que se apresenta nesta sexta-feira, 15, em São Paulo, o alemão Alec Empire, 40 anos, é fanático por música – do menos óbvio jazz ao evidente punk. Mas, ao longo de mais de uma hora ao telefone, falou pouco sobre isso. Sua atenção – e não é de hoje – está muito voltada para política e, principalmente, para o uso político da internet. Disso, ele fala muito. E sem parar.

Alec é um catalisador de ideias libertárias que encontram na internet um ambiente perfeito para se propagarem e se alimentarem de outros pensamentos. Mas ele não se limita a pensar. Está sempre ligado à ação.

Sua atuação aparece claramente no que diz em suas letras, no que exibe em seus vídeos, mas, principalmente, nas posturas que assume.

E, após 10 anos de intervalo nos trabalhos com sua banda, ele retomou as atividades justamente enquanto o mundo descobria as ideias defendidas pelo movimento Occupy Wall Street, que rapidamente chegou a diversos outros lugares além de Nova York.

A internet foi de grande importância para espalhar as ideias e, entre os vídeos virais que circulavam, estava o da música “Black Flags”, em que aparecem tanto os manifestantes do OWS como integrantes do Free Anons, instituição que recebe doações para apoio financeiro a pessoas ligadas ao grupo hacktivista Anonymous que estão sendo processadas, e que Alec apoia ativamente.

“Em ‘Black Flags’ eu parto do princípio de que o governo também é parte do problema. E falo de coisas como WikiLeaks e o caso de Bradley Manning (ex-soldado americano preso e processado por supostamente ter acessado e divulgado informações sigilosas dos EUA para o WikiLeaks). Crimes verdadeiros foram expostos por eles e, por isso, tiveram muitos problemas. Não existem justificativas para esse tipo de coisa”, sentencia.

Para Alec, diferente do uso que muitos artistas costumam fazer, a internet é mais do que apenas um acumulado de redes sociais para manter contato e aumentar o número de fãs e seguidores.

Para ele, é uma experiência que viabiliza a liberdade e a anarquia, em sentidos mais filosóficos – um espaço para se debater e fazer política, além de ajudar na organização de ações que contestem e investiguem governos e a própria sociedade.

“Acredito que cada indivíduo tem mais poder do que realmente sabe. Falta entendermos realmente as possibilidades do que fazemos online”, explica. “Uma das melhores coisas que vieram com a internet é o fato de as pessoas aos poucos perceberem que elas podem fazer algo acontecer de verdade”, explica.


Alec se refere, entre outras ações, às organizações como o WikiLeaks de Julian Assange e também menciona sites de compartilhamentos de arquivos – em comum aos dois, existe a atenção especial de instituições como o FBI.

Desde os primeiros downloads, lá nos tempos de Napster, o escritório federal de investigação dos EUA tem passado cada vez mais tempo pensando em maneiras de limitar as ações de troca de conteúdo na rede – o que pode significar, de certa maneira, limitar drasticamente o fluxo livre de informações que nasceu com a própria internet.

E isso o músico e ativista alemão considera inaceitável. “Quanto mais você tenta regular mais você a destrói”, sentencia. “As pessoas pensam, então precisam assumir a responsabilidade e estimular as mentes passivas.”

A postura de hoje exemplifica o ativismo que deu projeção ao Atari Teenage Riot, e consequentemente ao próprio Alec, no início da década de 90, quando usaram recursos tecnológicos para criar melodias extremamente agressivas.

Era o peso necessário para ilustrar as mensagens antifascistas e antinazistas que eles cantavam, justamente em uma época em que pensamentos neonazistas voltavam a ganhar força, principalmente na Europa.

E, hoje, com o que se vê – seja em comentários em sites e blogs ou em grupos declaradamente de intolerância, entre inúmeros outros exemplos – é que esse tipo de pensamento infelizmente ainda tem vocação para crescer.

“Você pode ser quem você quiser na internet. Pode até ser um imbecil, que escreve coisas estúpidas. Mas sempre defenderei uma sociedade em que a internet seja livre e de graça”, conclui.

Para chegar a essa conclusão, Alec parte do que considera um importante papel da rede: “O primeiro argumento dos conservadores que acreditam que a internet deve ser regulada é o suposto crescimento de coisas como a pornografia infantil”, diz, para em seguida contestar.

“Vejo de maneira muito diferente. Há 20 anos, eu não tinha ideia de que havia tantos pedófilos investindo tempo e dinheiro nesse crime horrível. Então acredito que a internet não é um caminho para incentivar esse tipo de coisa. É um meio para as pessoas perceberem mais profundamente o problema, terem a dimensão de que é maior do que parece. A luz no fim do túnel é uma tela de computador”.

Serviço

Atari Teenage Riot, no Cine Joia. Pça. Carlos Gomes, 82, metrô Liberdade,            
(11) 3231-3705
Sexta-feira (15), 23h (abertura da casa: 21h). R$ 60/R$ 120.
Informações: www.cinejoia.tv

segunda-feira, junho 11, 2012

O carioca londrino



Ricardo Acampora
BBC Brasil

Sempre temi o dia em que como jornalista teria que escrever sobre um amigo que acabara de morrer. Sabia que esse dia, trazido pela inevitabilidade da própria morte, acabaria por vir.

Quero acreditar que a faina de revirar o passado da minha convivência com Ivan Lessa vai amenizar a dor pela perda do companheiro de redação e, principalmente, de cantina da BBC, onde, em grupo que variava de tamanho, diariamente almoçávamos, trocávamos ideias, ríamos, discutíamos e por vezes nos desentendíamos, quase sempre nesta ordem.

Ivan era papo para qualquer obra. Desde que houvesse um ouvido diligente, cujo dono não tivesse grande vocação ou disposição para a locução.

Sempre atualizadíssimo pela internet, que adorava (a quem chamava carinhosamente de “Dona Nette”), disparava sua crítica contra tudo e todos com o mesmo furor, sarcasmo e eloquência que usava nas páginas do Pasquim nos anos 70.

Pulava de um assunto para outro sempre muito ligado em tudo que rolava, e descia o pau nas tolices que detestava (quase tudo).

Ia da música ao cinema, passando por política, esportes, show business, jornalismo, não escapava nada ou ninguém.

Dos atuais, gostava de muito poucos. Sua admiração tinha congelado num passado distante. Quer dizer, distante para nós, os ouvintes. Para ele tudo tinha acontecido ontem, ou, na pior das hipóteses, na semana passada.

A memória privilegiada garantia precisão à narração e tornava tão vívidos fatos ocorridos 30, 40 anos atrás. Capaz de contar em detalhes um Botafogo x Flamengo estrelado por Leônidas da Silva ou Heleno de Freitas.

Na última vez em que estivemos juntos, há cerca de um mês, em sua casa, no bairro londrino de South Kensington, me contou graças ocorridas na Ipanema de sua juventude, em mesas de pôquer que dividiu com Millôr Fernandes, Samuel Weiner e Antônio Maria, em peladas do Dínamo, time que defendeu no futebol de praia do Posto 6 em Copacabana.

Esse era o mundo que amava, esse era o mundo em que teimosa e anacronicamente ainda vivia. O exílio voluntário em Londres de mais de 30 anos ajudou a cristalizar sua lembrança do amado Rio de Janeiro dos anos 50 e 60.

Só voltou à cidade que adotou uma única vez, em 2006, convidado pelo amigo Mario Sergio Conti a escrever um texto para o primeiro número da revista Piauí.

Me disse que doeu ter voltado. Detestou o que viu. Pelas mesmas ruas do centro e zona Sul onde viveu intensamente a liberdade e a tranquilidade do balneário-metrópole-capital nacional, disse que viu um Rio desfigurado, pobre, sujo, feio, sem charme, deselegante, retrógrado, tenso, de trás de grades, preso em seu próprio medo. Não encontrou vestígios do que deixou. Acabaram com o Jangadeiros, não existia mais o Zeppelin, nem a Sucata, só tolices, me disse ele.

Nos contou emocionado a tristeza que sentiu pela destruição de parte de sua memória. Tentativa de destruição, eu corrijo.

Ivan ainda era capaz de ver e viver a mesma praia de Copacabana onde pegou seus primeiros jacarés. Ainda podia saborear um salgadinho da Colombo ou um refresco de coco que era servido em um pequeno bar da Avenida Rio Branco. Descrevia com precisão a vitrine da Casa Sloper, sabia de cor letras de músicas de carnaval dos anos 40, lembrava do nome do lanterninha do Cine Rex. Ainda mantinha o mesmo desprezo pelos militares que tomaram o poder no Brasil e governaram o país por quase 30 anos. Ainda curtia intensamente a Ipanema capital cultural do Brasil, assim como curtia a bossa-nova, as modinhas de carnaval e o chamado samba autêntico.

Talvez por amar o Rio como ele, por ter partilhado inúmeras memórias cariocas com ele, decidi que é esse lado do Ivan Lessa que vou manter na memória para o resto da minha vida, já que acho que a gente, consciente ou inconscientemente, escolhe como consolidar nossa lembrança dos que nos deixam.

É assim que vou lembrar sempre dele, como o Ivan Lessa arquivo-ambulante, Ivan Lessa o londrino-carioca, amante de um Rio, que assim como ele, tristemente, não existe mais.

Cronista apaixonado pelo cinema



Thomas Pappon
Da BBC Brasil

Ivan Lessa certamente será lembrado como a principal cabeça pensante dos tempos áureos do Pasquim e pelo seu texto refinado e ácido – muitas vezes aberto a interpretações distintas, mas que rendeu-lhe a fama de um dos grandes escritores brasileiros.

Ele reverenciava as regras da arte de escrever, que dominava. Entregava sua coluna religiosamente um dia antes da publicação prevista. Erros de gramática e regência ou colocações sem sentido, não os havia.

Se via como cronista, um comentador de fatos pescados de jornais e noticiários, na tradição de Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Rubem Braga e Fernando Sabino.

“Não sou jornalista”, dizia, enfático, na cantina da BBC – onde confraternizava com os colegas de trabalho, nos três dias da semana em que vinha para Bush House, antiga sede do Serviço Mundial.

Mas falava com muito orgulho de seu – talvez – único trabalho com o “repórter” da BBC Brasil: de quando entrevistou, em Londres, o ícone do jazz Billy Eckstine.

Ivan Lessa amava Eckstine. E amava Frank Sinatra, Dick Haymes, Frankie Laine, Sammy Davis Jr., Joe Mooney e um monte de crooners obscuros que conheceu nos anos 40 e 50, junto com a rapaziada que co-frequentava as Lojas Murray, no Rio, e que tramou a Bossa Nova – entre eles João Gilberto, que, em 2000, quando veio a Londres para um show no Barbican, ficou mais de uma hora no telefone com Ivan, trocado conversa fiada e cantando sambas antigos.

Maior que o amor pela música, só o amor pelo cinema. Ivan sabia tudo da Hollywood dos anos 40 e 50, e nutria um orgulho especial por ter conhecido atores e roteiristas americanos no Rio de Janeiro ou mesmo nos EUA, apresentados pelo seu pai, o escritor Orígenes Lessa, que trabalhou anos como uma espécie de lobista cultural fazendo um meio campo entre EUA e Brasil.

Ivan detestava o cinema brasileiro, que considerava amador, mas gostava de falar do ator José Lewgoy, seu grande amigo, e não escondia o orgulho de estar listado no IMBD como “actor“ ligado a filmes brasileiros.

Nos anos 50, Ivan foi ator mirim em dois ou três filmes, entre eles “Maior Que o Ódio” – em que contracena com Agnaldo Rayol –, dirigido por Jose Carlos Burle, estrelado por Anselmo Duarte.

Nos quase 15 anos em que convivi com o Ivan, raramente vi ele tão feliz como quando ele soube que suas cenas em “Maior Que o Ódio” tinham sido colocadas no YouTube.