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quinta-feira, maio 22, 2014

Me exponho logo existo


Marcelo Rubem Paiva

Invejo quem não tem celular. Existem e são admiráveis. São poucos. Estão em extinção. Quando precisam falar com alguém, ligam de um fixo.

Admiro pessoas que ligam do fixo. São econômicas. Sem contar que a ligação é clara e não cai.

Invejo quem não tem carro, nem carta ou carteira de motorista. Vai a lugares a pé, usa “condução” ou bicicleta, e volta de carona ou racha um táxi. Nunca soprou num bafômetro. Não estão em extinção.

Negam a revolução industrial. São pessoas mais econômicas e descomplicadas. Talvez por isso mais felizes.

E invejo quem não está no Face, Twitter, Insta, Linkedin, G+, WhatsApp, em lugar nenhum: o que não existe virtualmente, nunca “teve” Orkut e nem sabe o que é o extinto MSN.

São seres analógicos, mais evoluídos do que a maioria. Caminham, olham o nada ou algo sem a urgência de um registro fotográfico ou um comentário, uma curtida, uma postagem.

Mandam cartas e cartões postais escritos a mão. Negam a revolução tecnológica. Estão no topo da linha evolutiva.

Sim, existe gente que não se comunica, nem curte, nem posta. Não critica, nem milita, nem lamenta a morte de um ídolo para amigos, conhecidos, seguidores desconhecidos e amigos de amigos. Não se indigna, não se revolta, não se mostra. Não mostra seus gatos, seus pratos, sua mãe no dia delas. Nem relata suas viagens. Não pensa, não expõe, não se exibe para centenas ou milhares de pessoas. Logo, não existe? Nem o pôr-do-sol retrata. Nem a lua tem o seu momento. O que dirá de um nascer do sol? Existe?

Sobre os Guarani-Kaiowá, o alienado analógico não emitiu opinião em público, nem militou contra a sua extinção. Raquel Sherazade? Nem sabe quem é. Não entende por que algumas celebridades aparecem com cartaz escrito “bring back our girls”. Não lamenta para muitos a onda de linchamentos, o descaso com o dinheiro público, não cita Mahatma Ghandi, Caio Fernando Abreu, Nelson Rodrigues, Cazuza, Veríssimo, Renato Russo, Millôr.

Ainda não anunciou sua nova posição ideológica, nem em quem não vai votar, não elogiou a simplicidade de José Mujica, o presidente uruguaio, não se revoltou contra a perseguição a gays e garotas da banda Pussy Riot na Rússia, não riu das barbeiragens que eles, os russos, bêbados, praticam nas estradas, nem comentou que no Rio de Janeiro se diz “bandalha”, não barbeiragem, ou transgressão.

Não postou fotos do carro sem permissão na vaga de deficiente, do prefeito de Londres indo de bike pro trabalho, do primeiro-ministro do Reino Unido indo de metrô pro trabalho, do príncipe William flagrado na classe econômica como um plebeu. Não viu o comercial que todos devem ver, o vídeo a que todos devem assistir, a foto que vai fazer as pessoas pensarem de outra maneira, fotos que vão mudar a vida, a rotina, a forma como trabalhamos, do animalzinho que quer apenas ser amado, do outro que ao invés de devorar a presa cuida dela.

Não soube da cidade que DEVE visitar, do livro que DEVE ler, do filme que DEVE ver, do clipe que TEM que assistir, do hotel em que um conhecido ficou para ser invejado, da nova banda de que TODOS estão falando, da criança que surpreende e faz algo incrível e inesperado, que prova como existe inteligência em quem menos se espera. Não leu sobre o alerta contra golpes praticados, a torcida para que não haja Copa, que algum repórter internacional falou (mal) de nós, sobre o complexo de vira-lata que temos, e que a unanimidade é burra.

Não viu a foto de uma flor que desabrochou numa selva de pedras, a piada, a gostosa, a amiga fazendo biquinho, a amiga fazendo cara de sexy, a lista do que difere os homens das mulheres, as últimas sobre maconha, as fotos da repressão policial brutal, de como era antigamente, o filme raro encontrado, bons exemplos feitos por pessoas altruístas, enquanto o acomodado só reclama, a denúncia contra maus tratos contra animais, o poema, a charada, o superatleta que faz coisas com uma incrível habilidade, voa sobre abismos, pedala sobre montanhas, a ilusão de ótica que faz bolinhas se moverem e que parece mágica, o pedido de que “alguém tem que fazer alguma coisa”, as provas de que houve a realização de um sonho, o astro com uma banana na mão. Nem descobriu que alguns amigos têm opiniões aterradoras.

Pensar que há dez anos não existiam redes sociais.

Há 20, a internet não era regulamentada, nem existia o consórcio W3C (World Wide Web Consortium).

Há 30, não tinha celular nem computador pessoal no Brasil.

A maioria não tinha telefone nem máquina fotográfica.

E éramos bem informados e educados.

Militávamos contra a possível extinção de uma nação indígena, protestávamos contra linchamentos e o descaso com o dinheiro público, líamos Mahatma Ghandi, livros de Caio Fernando Abreu, Veríssimo e Millôr, comprávamos discos do Cazuza e Renato Russo, anunciávamos nossa posição ideológica em bótons, broches e pins na jaqueta, víamos o comercial que todos deviam, sabíamos do livro que DEVÍAMOS ler, do filme que DEVÍAMOS ver, da nova banda de que TODOS estavam falando, do “complexo de vira-lata”, cria do Nelson Rodrigues (cujas peças assistíamos) em maio de 1958, meses antes do Brasil ganhar a primeira Copa do Mundo, numa crônica publicada na Manchete Esportiva, relembrada por Ruy Castro no livro Os Garotos do Brasil (Foz).

Víamos fotos da repressão policial brutal, desvendávamos a charada, o poema, a ilusão de ótica que faz bolinhas se moverem, no livro de ilusões de óticas que todos tinham.

Éramos mais discretos.

Menos ansiosos.

Não precisávamos da aprovação alheia.

Não precisávamos chamar tanta atenção, nem criar a ilusão de que somos melhores do que somos.

Somente éramos.



Juliana Sayuri entrevistou para o caderno ALIÁS o grande filósofo Michel Maffesoli, ou melhor, antropólogo urbano, nosso teórico favorito dos anos 1980, da pós-modernidade.

Que agora tem 69 anos e anda mais lúcido do que nunca – diretor do Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Université Paris Descartes – Sorbonne.

Vale a pena.

Aqui, o pingue pongue entre os 2:

Qual é o papel das mídias sociais na pós-modernidade?

Podemos dizer que, na pós-modernidade, as mídias estão se tornando mais e mais importantes, especialmente as chamadas “mídias sociais”. Lembremos Hegel, que dizia no século 19: a leitura do jornal é a oração do homem moderno. Podemos pensar que as mídias interativas serão a oração do homem pós-moderno. Contrariamente às críticas tradicionais, porém, acredito que essas mídias favorecem a mediação, isto é, a relação e a inter-relação entre as pessoas. Se a modernidade, particularmente no seu momento final, viu o triunfo da “multidão solitária”, a pós-modernidade nascente verá se desenvolver uma multiplicidade de novas tribos urbanas, cuja essência é o relacionismo.

Com os avanços tecnológicos, nós estamos observando a emergência de uma geração ‘selfie’?

Certamente o selfie está no ar. Entretanto, na minha opinião, essa mise en scène de si mesmo não é, como se costuma dizer, o símbolo de um aprisionamento de si. Nessa perspectiva, discordo dos teóricos que abordam abusivamente o narcisismo. Prefiro dizer que os selfies compõem a forma contemporânea da iconofilia. Assim, podemos indicar um narcisismo tribal. Isso quer dizer que, ao difundir essas fotografias, nós pretendemos nos posicionar em relação aos outros da tribo. Se traçarmos um paralelo com uma imagem religiosa, o selfie tem uma finalidade sacramental, que torna visível a força invisível do grupo. O que me liga aos outros da minha tribo? Nós nos definimos sempre em relação ao outro. Assim, o fenômeno tribal repousa essencialmente no compartilhamento de um gosto (sexual, musical, religioso, esportivo, etc.). É preciso dizer que essa “partilha” cresce exponencialmente com o desenvolvimento tecnológico.

Nas mídias sociais, publicamos ‘selfies’ sempre felizes. Somos tão felizes? Ou filtramos nossos retratos justamente para esconder nossas angústias atuais?

De fato, as mídias sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.) tendem a dar uma figuração feliz de nós mesmos. Certamente não estamos sempre felizes. Mas há aí um movimento de pudor: nós tendemos a dar à tribo, ou às diversas tribos às quais pertencemos, imagens reconfortantes de nós mesmos. No entanto, historicamente, é preciso lembrar que os quadros e as esculturas, as imagens próprias a todas as civilizações destacaram essencialmente essa figuração de felicidade. Os últimos livros de Michel Foucault (História da Sexualidade: O Cuidado de Si e História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres) mostram que isso marcou a Grécia e a Roma antiga. Foi o caso também na Idade Média. Para resumir em uma expressão: isso traduz um “pudor antropológico”, que é um elemento essencial do viver em sociedade.

Há quem argumente que a tecnologia está nos tornando antissociais. Temos muitos amigos no Facebook, mas estamos mais solitários?

Contrariamente aos críticos que sublinham o isolamento crescente, que seria característico das megalópoles pós-modernas, considero que a multidão solitária – na minha expressão, a solidão gregária – é uma das especificidades da modernidade decadente. Paradoxalmente, o desenvolvimento tecnológico não nos direciona ao antissocial. Tende, ao contrário, a consolidar essa mise en relation – no seu sentido forte e etimológico, o comércio das ideias, dos bens, dos afetos. É evidente que o termo “amigo” particularmente no Facebook não pode ser reduzido à concepção de amizade clássica, feita de relações intensas e recíprocas. Entretanto, a multiplicidade de amigos nos permite saber, se necessário for, onde e com quem manter relações sociais. E uma das pistas que será preciso estudar sobre o desenvolvimento tecnológico próprio às mídias sociais é a emergência de novas formas de generosidade e de solidariedade, nas quais os uns e os outros são causa e efeito de uma “horizontalização societal”.

Divulgado nos últimos dias, um estudo da OMS mostrou que a depressão é a principal enfermidade entre os jovens. A vida virtual e a fragilidade das relações ‘tête-à-tête’ teriam impacto nessa geração?

É preciso ter bastante cuidado com os diversos estudos institucionais focados principalmente no campo da saúde, que tendem a dizer que a depressão é a doença específica das jovens gerações. Valeria questionar se essa depressão não é característica das gerações no poder, quer dizer, das próprias gerações que comandam esses estudos e que talvez, num processo de compensação como destacou o psicanalista Carl Gustav Jung, tendem a projetar ao exterior o mal-estar que nós mesmos sofremos.

Há tempo para contemplação do mundo atualmente?

No livro A Contemplação do Mundo, tento demonstrar que a tendência geral da pós-modernidade, perceptível particularmente nas jovens gerações, consiste menos em querer mudar o mundo – e mais em se acomodar ao mundo. Adaptar-se, ajustar-se a ele. Isso pode nos conduzir a evitar a devastação, cujos “saques” ecológicos são exemplos cotidianos. Com o sociólogo italiano Massimo De Felice, no Centro de Pesquisa Atopos da Universidade de São Paulo (USP), tentamos justamente desenvolver pesquisas sobre essa “ecosofia”. Acredito que é assim que precisamos compreender o “ritmo da vida”, isto é, pensar a existência a partir de um ponto fixo – a natureza, o território –, todos os elementos que fazem com que o ambiente social dependa do ambiente natural. Se a modernidade foi um pouco paranoica, levando à dominação e à devastação do mundo, na pós-modernidade uma nova sabedoria está em gestação.

Por fim, a tecnologia é um meio? Ou uma mensagem?

É habitual considerar que, com a prevalência de um racionalismo exacerbado, a tecnologia moderna contribuiu para um desencantamento do mundo. No entanto, na minha opinião, é paradoxal observar que, atualmente, esse desenvolvimento tecnológico, especialmente nos seus usos sociais, nos direcionam a um reencantamento do mundo. Nessa perspectiva, as mídias sociais são ao mesmo tempo um meio e uma mensagem, que confortam a vida em sociedade. Se a modernidade se firmou a partir de um princípio individualista, a tecnologia pós-moderna abriga um relacionismo galopante – uma relação, como frisei, entre nós e os outros.

quarta-feira, maio 21, 2014

Aniversário da Patrícia e baby chá da Mel


Dois forrobodós agitaram, respectivamente, o Solarium e o restaurante Paxicá Gastronomia, nessa última sexta-feira, dia 16.

No primeiro, rolou o baby chá da minha futura neta Mel, filha da Juliana e do Marcus Vinicius, meu filho caçula.


Muita comida, muito doce, muito refrigerante, muitas coisinhas a base de mel, mas a ordem unida, aí, era bico seco.

Nada de destilados, fermentados ou assemelhados.

Só consegui permanecer absolutamente abstêmio ao longo de duas horas – e ainda assim porque estava discutindo política com alguns amigos queridos.


No Paxicá Gastronomia, onde rolava o aniversário da Patrícia, esposa do Juarezinho Tavares, a história era outra: muito bolinho de pirarucu, muita kafta, muita batatinha frita, muito salame italiano, muito espetinho de linguiça e cerveja estupidamente gelada pra dar no meio da canela.

Não preciso dizer que me mudei pra lá enfiei o pé na jaca. As fotos falam por isso. Êita nós!





















Liêdo Maranhão deixa sentimento de perda para a cultura popular


O escritor recifense sofreu uma parada cardíaca às 5h30 da última quarta-feira, dia 14

“Sou Liêdo Maranhão de Souza, nascido em 3 de julho de 1925, no Recife, bairro de São José. Sou dentista e esquizofrênico cíclico, como um amigo psiquiatra já me disse. Sou poliglota: falo espanhol, francês, e falo gago também”. O depoimento concedido há dois meses dá pistas sobre o bom humor insistente do escritor e pesquisador de cultura popular.

A alegria das anedotas, no entanto, deu lugar à tristeza diante da notícia: Liêdo Maranhão, 88 anos, morreu na última quarta-feira, às 5h30, após parada cardíaca. Familiares e amigos acompanharam o velório no Memorial Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes, que prosseguiu até 11h da quinta-feira. A cremação do corpo ocorreu em seguida, no mesmo local.

Liêdo estava internado no Hospital Santa Terezinha há três meses, em decorrência de sequelas provocadas por um acidente vascular cerebral (AVC), que o deixou sem andar e falar. O escritor passou décadas coletando e pesquisando a cultura popular do estado, trazendo a linguagem das ruas ao ambiente acadêmico. Também foi escultor, cineasta, fotógrafo, dentista. Para ele, a cultura popular se baseava em futebol, religião e sexo.

Nos fundos de casa, em Olinda, ele mantinha a Casa da Memória Popular, onde está guardado o seu acervo. A paixão pela escultura repousava nas obras de ferro e madeira, espalhadas pelo quintal, e nos presentes recebidos de ícones da cultura nordestina, como Bajado, Samico, José Cláudio, João Câmara, todos amigos. Ele morava com a esposa, espanhola conhecida no período vivido na Europa, entre 11 países.

Em junho de 2013, o Viver visitou o espaço, uma sala com dois ambientes, refrigerada. Revistas, santinhos, objetos antigos, livros, fotografias, dedicatórias e a capa emoldurada de uma revista com a foto de Bill Gates com a frase “vou doar 90% da minha fortuna”. A coleção de livros sagrados convive com série de revistas pornográficas, publicadas na ditadura militar. No quarto, dezenas de diários encadernados, escritos desde 1971, de onde saíram todos os 14 livros.

Certa vez, o escritor Ariano Suassuna declarou: “Liêdo é um dos maiores conhecedores da literatura de cordel do Nordeste.”

Liêdo deixa uma esposa, a espanhola Bernarda Ruiz, com quem era casado havia 60 anos, além de dois fihos, Roman e Ruth.


A Cepe relançou três livros do escritor: “Classificação popular da literatura de cordel”, com apresentação de Ariano Suassuna, “Que só”, sobre a expressão usada para comparações, e “Marketing dos camelôs do Recife ou O mundo da camelotagem”. A edição com as obras custa R$ 15.

Há um inédito: “O porto e a zona do Recife - Opening city dos mariners”, sobre as zonas de prostituição nas décadas de 1950 e 1960.

Obras completas:

Classificação popular da literatura de cordel (1976)
O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste (1977)
O povo, o sexo e a miséria ou o homem é sacana (1980)
O folheto popular: sua capa e seus ilustradores (1981)
Conselhos, comidas e remédios para levantar as forças do homem (1982)
Cozinha de pobre (1992)
Que só (1993)
O marketing dos camelôs do Recife (1996)
Classificação popular da literatura de cordel (1976)
A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido (2004)
Rolando papo de sexo: memórias de um sacanólogo (2005)


No ano passado, Liêdo Maranhão concedeu essa entrevista à jornalista Luiza Maia:

Nas décadas de 1950 e 1960, o senhor ia quase diariamente ao Mercado de São José e levava dinheiro para o pessoal de lá. Sua mulher reclamava?

Minha mulher é espanhola, europeia, não gostava. Eu não tenho ambição, não gosto de automóvel, ando de ônibus. Dirigi um tempo, mas é um negócio horrível. O automóvel individualiza a pessoa. No ônibus, você vai junto. E hoje, com essas minissaias...

As mulheres mudaram muito?

Mudaram, claro. As mulheres são muito livres hoje, não tem mais aquele preconceito, aquela vergonha que tinha no meu tempo. As pessoas moralistas, puritanas, acho que isso é uma hipocrisia. Gosto do povo porque é solto, é leve. As pessoas que têm posse têm até medo de se aproximar das pessoas pobres.

O senhor ainda frequenta o mercado? Qual a última vez que foi?

Há uns 15 dias. Agora, eu estou sem condições. A idade, o medo de esquecer na rua. Eu ando com isso, olha (mostra o cartão que o filho fez), porque posso perder a memória.

O senhor tem algum livro inédito?

Eu tenho um sobre a zona do Recife. Eu era habitué da zona. Era um negócio bonito, as radiolas de ficha, as pensões, as prostitutas. Eu tinha uma ‘amigação’ lá no centro, Alice. Era o que a gente chamava ‘tabaco de caridade’. Eu, liso, estudante, não pagava. Ela até comprou um pijama para mim. Conheço muita zona. Em Hamburgo, eram as mulheres nuas, na vitrine, sentadas em uma poltrona, com registradora e tudo. Na França, você estava na rua e a mulher abria a capa de pelo, nua. Mostrava retratos, dizia que tinha filhos para cuidar.

Qual o nome do livro?

O porto e a zona do Recife - Opening city dos mariners, porque os americanos chamavam de cidade aberta. Aqui, quando veio Rossellini, Gilberto Freyre mandou levar para a zona. Ele era casado com Ingrid Bergman e se engraçou com uma prostituta. E ela ‘vou nada, um homem chato’. A zona era um cartão de visitas do Recife.

Por que o senhor gosta de pesquisar sobre a safadeza?

Porque é a sinceridade do povo. Lolita, o primeiro homossexual a enfrentar a burguesia pernambucana, dizia “a delicadeza é um dom, mas a safadeza é que é bom”. Antigamente, quando os frangos - que viado é coisa do Pasquim - passavam, o povo gritava “bota água no fogo para pelar o frango”. Havia uma discriminação muito grande.

O senhor tinha preconceito?

Não. Eu comi muito frango. A gente comia ali nos pés de escada. Tinha um, o frango Zé, naquele tempo ele tinha muito medo para não cair na boca dos meninos. Aí ele me chamou para comer uma macarronada na Leiteria Vitória e disse “Liêdo, vamos falar em inglês”.

E isso era comum?

Antigamente, mulher era um negócio meio difícil. A gente ia para a zona e sobrava. Os frangos eram a saída, Pé de Papo, Gaguinho, Carinhoso. A gente comia nos pés de escada. Antigamente, não se fechavam os pés de escada. Imperatriz, Rua Nova, a gente levava para lá. Eu digo isso em um livro meu.

Seu filho mora perto?

Mora, aqui na cidade. Roman tem umas coisas engraçadas. Minha mulher queria que ele fosse engenheiro. E aqui meu filho era incapaz de estudar. Então ela matriculou Roman na Espanha e voltou toda satisfeita. Aí um dia ele escreveu “Mamãe, deixei de fazer suas merdas e quero fazer as minhas”.

O que o senhor faz no dia a dia? Acorda cedo?

O sono de velho é acordar para mijar a cada hora. Levanto às 5h, 4h, 3h, faço um café, fico deitado, feito cobra de jardim, leio, vou à padaria às vezes, brinco com um, com outro, conto piada.

O senhor ganha dinheiro com os livros?

Sempre me custeei com o trabalho de dentista. Entrei por concurso federal. A banca eram uns caras chatos, com nome estrangeirado, metidos. Na véspera do concurso, fui a uma conferência com Josué de Castro, no Teatro de Santa Isabel. Aí minha mulher: “você é um irresponsável. Amanhã, você vai fazer concurso”. Eu disse: “mas o cavalo quando é bom descansa na véspera da corrida.” Lá em Beberibe, o pessoal gostava muito de mim. Os médicos diziam que eu dava muita liberdade. Porra, uma gente lascada, que chega de madrugada, entra na fila e muitas vezes não encontra vaga.

Como o senhor começou a gostar do mercado?

Quando a gente fica fora do país por muito tempo, fica mais brasileiro. Quando eu estava na Espanha, visitei o Palácio da Alhambra. Ele estava abandonado e foi redescoberto por um norte-americano, Washington Ivg, que escreveu Cuentos de la Alhambra (Contos de Alhambra). Quando cheguei à praça, começaram a me contar histórias. “Pronto, isso é minha Alhambra”. Aí comecei a escrever e anotar. Naquela época da ditadura, eles tinham medo. Eu era do partido comunista, do PCB, e arrecadava dinheiro da classe médica. Mas sou muito covarde. No golpe, fiquei com um medo danado. Não aguento dor física.

Morre o maior sacanólogo do Brasil


Xico Sá

E lá se foi o escritor e, de longe, o maior pesquisador da sacanagem popular brasileira, o velho safado Liêdo Maranhão, 88, que morreu nesta manhã no Recife, vítima de parada cardíaca – hospitalizado havia três meses, resistira a um AVC e a uma queda que lascou seu fêmur.

Quando soube da notícia, a primeira imagem que me veio foi a de Liêdo recitando Baudelaire, em francês, para a rafameia do Recife. Dizia na língua do poeta e traduzia na sequência, verso a verso, para os feios, sujos e malvados.

Dentista sem dente, como tratava da sua formação profissional, Liêdo, nosso guru da Praça do Sebo e da cachaça nos derredores do Mercado de São José, deixou livros, diários, pesquisas e um grande museu de objetos e folhetos sobre tudo que é safadeza e fuleragem do Brasil.

De comida de pobre, receitas para tempos de guerra – vide o mingau de cachorro – às aventuras na zona portuária do Recife, a opening city dos mariners, como era chamada pelos gringos.

Folclorista, antropólogo autodidata da poeira (povão no Recife), apanhador de costumes… De um tudo Liêdo era chamado nas ruas e na imprensa. Talvez o que mais gostasse, porém, fosse o tratamento recebido nos bares do Mercado de São José: bucetólogo. De tanto estudar os órgãos sexuais na visão da massa, mereceu a galhardia.

Futebol, sexo e religião – com mais sexo que os outros dois itens – formavam a santíssima trindade das investigações nada teóricas do mestre.

Liêdo estava para o Recife/Olinda como Joe Gould para Nova York. Lembro dessa comparação da jornalista Silvia Bessa em texto exemplar na revista Continuum (Itaú Cultural).

A diferença é que, com sua coleção de pesquisas e diários, Liêdo concretizou o sonho que o americano não conseguiu realizar, lembrou Silvia.

Conhecido boêmio da NY dos anos 1930 e 1940, Joe foi personagem do livro “O Segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell (Companhia das Letras).

A utopia do boêmio e sem-teto Joe, no seu mergulho no submundo das ruas, era chegar ao que chamava de “a maior e mais importante história oral da humanidade”.

Liêdo deixa essa saga que o velho Joe tentou lindamente construir.

Para findar a louvação, um caso real de Liêdo Maranhão narrado a este cronista por Moema Cavalcanti – sim, a autora das capas de livros mais bonitas do país.

Liêdo, tarado por carnaval, aceitou um trato com a mulher, uma valente espanhola: não iria, pela primeira vez na vida, se esbaldar na sacanagem momesca. Tudo certo. Por um milagre, ele conseguiu cumprir a promessa.

Na Quarta de Cinzas, foi cobrar a recompensa. No que a mulher, braba que nem siri na lata, se esquivara. Revoltado, Liêdo bradou:

“Olhe, só existem duas coisas na vida com as quais não se brinca de jeito nenhum: cu e arma de fogo!”

A esposa havia prometido, obviamente, um prêmio em sexo anal pelo bom comportamento do marido no período carnavalesco. Desde então a frase “com cu e arma de fogo não se brinca” é um clássico popular no Nordeste.

Que a terra lhe seja leve, meu queridíssimo Liêdo.

Assim caminha a humanidade...


Na última sexta-feira, 16, Marie Jolie embarcou com um grupo de amigos para Cancun, sem me avisar, apesar de a gente ter ficado juntos na tarde de terça-feira, três dias antes de sua viagem.

Ela tinha passado no mocó para me mostrar o bronzeamento artificial a que havia se submetido naquela manhã.


Até aí, tudo bem. Nesse um ano e meio de namoro, nunca a impedi de fazer qualquer bobagem.

Dessa vez foi diferente: assim que desembarcou no México, ela bloqueou meu perfil no seu FB.

Soube da presepada porque alguns amigos comuns viram as fotos no FB, me avisaram, fui lá conferir e dei com o burro (eu próprio!) n'água.


Pode isso, Arnaldo?...

Arnaldo: “Claro que não, meu amigo. A regra é clara: ninguém bloqueia ninguém impunemente no parque de diversões do Mark Zuckerberg. Se a tua amada te bloqueou no FB, alguma coisa ela deve estar aprontando. Isso é falta grave. Cartão vermelho nela!”

Então, bye, bye, Marie Jolie. Foi bom enquanto durou.


E, na falta de algo mais metafísico pra fazer, estou escutando Lulu Santos e detonando aquela garrafa de Chivas Royal Salute 21 anos Azul (em homenagem ao nosso Boi Caprichoso...), que havia comprado pra beber contigo no Dia dos Namorados.

Até lá eu encontro alguém pra dividir uma nova garrafa comigo.

Assim caminha a humanidade...

quinta-feira, maio 15, 2014

A vida como ela é, segundo os cosplayers. Ou quase isso...


Fotógrafo com estúdio em Viena, o austríaco Klaus Pichler ganhou reputação nos últimos anos por fazer fotos de objetos ou cenas incomuns – como cosplayers em seus lares verdadeiros ou um monte de quinquilharias em algum almoxarifado perdido – e a partir daí revelar aspectos curiosos ou histórias por detrás dessas situações. Entrevistamos ele sobre seu processo criativo, seu momento de “eureka!” para sua famosa série “Just the Two of Us” (“Somente Dois de Nós”), e como ele conseguiu encontrar todos os cosplayers utilizados na série.

Você consegue se lembrar do seu “momento eureca!”, quando você percebeu que queria fazer fotos de cosplayers nas próprias residências para a sua série “Just the Two of Us”?

Houve muitos pequenos “momentos eureca!”, se você quiser chamá-los assim, o que contribuiu para o resultado final da série. Basicamente, estou sempre interessado naqueles aspectos de alguma forma incomuns da sociedade e da vida cotidiana, nas coisas que nem sempre necessariamente têm algo a ver com a “lógica da vida” e, portanto, são muito mais complexas.

Fantasias ou trajes típicos de determinados grupos sociais são exatamente isso, eles não são “necessários” para sobreviver, e essa é a razão pelas quais muitas pessoas sentem prazer em usá-los, porque eles são apenas uma espécie de caminho paralelo às necessidades concretas da vida.

Mas voltando à sua pergunta: o carnaval é uma coisa muito grandiosa na Áustria, e, inicialmente, eu estava planejando trabalhar apenas com os membros das inúmeras comunidades locais de carnaval. Mas eu logo descobri que há muito mais grupos ligados a tradições específicas do que eu poderia imaginar e que as fantasias de carnaval, em comparação com as fantasias dessas tradições, não são tão elaboradas assim.

Portanto, ampliou-se a abordagem e tentei cobrir tantos grupos quanto fosse possível. O princípio básico permaneceu o mesmo: uma fantasia é sempre um passo para o lado de fora da vida cotidiana, uma espécie de alter ego que permite outras formas de comportamento e autoconhecimento.

O mais importante “momento eureca!” foi quando eu percebi que fotografando as pessoas fantasiadas tendo como cenário suas próprias residências, seria possível combinar os dois aspectos da série: o alter ego fantasiado e, por meio do estilo e design do apartamento, a pessoa “civil” que está oculta no traje. Daquele momento em diante, o conceito básico foi concluído e comecei a procurar pessoas que provavelmente gostariam de participar da série.


Estamos apenas curiosos, mas como é que você conseguiu se aproximar dos cosplayers e pedir-lhes para participar de sua série? Você foi a uma convenção deles e pediu de forma aleatória, ou você, pra começar, já tinha amigos cosplayers?

Encontrar pessoas com fantasias bem transadas foi definitivamente a parte mais difícil da série. Como eu queria cobrir uma ampla gama de diferentes grupos (LARP, Medievais, Furries, Carnavalescos, Krampus, etc), eu tive que começar do zero, com todos eles. Cada grupo tem diferentes maneiras de se conectar com a sociedade envolvente, por isso eu tinha que encontrar uma maneira que fosse adequada para cada caso particular.

Os Furries/ Fursuiters, por exemplo, imitadores de animais antropomórficos, são um fenômeno intimamente ligado à cultura da internet. Eles são muito ativos em fóruns na web e salas de chat e é quase impossível fazer contato quando eles estão vestindo suas roupas em público, porque eles rigorosamente conseguem separar suas pessoas civis de seus alter egos. Por causa isso, eu tive que fazer login nos seus fóruns e entrar em contato com eles através de mensagens privadas.

Já os membros das comunidades carnavalescas austríacas são de idade mais avançada e, portanto, não são tão plugados na internet, mas eu tive que ir para os seus desfiles e participar de suas reuniões para manter contato pessoal. A proporção de pessoas que se dispuseram a participar do projeto foi uma merda... Convidei cerca de cinco vezes mais pessoas do que as que finalmente concordaram em participar, quer dizer, acumulei uma porrada de “nem pelo caralho, brother!”

Alguns deles não queriam ser fotografados, alguns não gostaram ou não entenderam o conceito e alguns gostaram da ideia, mas não queriam me deixar entrar em seus apartamentos. Mas, para minha sorte, eu consegui encontrar um bom número de pessoas fantasiadas que quiseram participar e nos divertimos muito fazendo as fotos.


Você tem uma vasta gama de assuntos em suas diferentes séries, que vão desde trajes cosplay aos jardins do século 19, passando pela deterioração de alimentos ao longo do tempo. Qual é o seu processo criativo quando se trata de escolher um assunto ou um tema específico para um projeto?

Embora os temas das minhas séries talvez possam parecer bastante diversificados e o resultado visual muito diferente, eu acho que há uma linha vermelha entre todos eles: é tudo sobre os aspectos ocultos da vida cotidiana, manifestando-se tanto em pequenos elementos que são facilmente observados quanto em grupos sociais fechados que vivem suas vidas com suas próprias regras, códigos e clichês.

Trata-se de uma espécie de “universo Pichler”, em que meus temas ou tópicos estão sempre chegando. Portanto, não é realmente um processo por trás da escolha de um tema específico, é mais como trabalhar sobre temas que eu estava planejando trabalhar por um longo tempo, só que um após o outro.

É comparável às bolhas subindo de águas barrentas – uma após a outra estão sempre subindo e de repente uma delas vem à superfície –, que é como a minha mente criativa trabalha. Às vezes é como um pequeno choque quando um novo tópico ou um novo conceito me pega de surpresa, porque me parece tão óbvio que fico querendo saber por que não tinha pensado nisso antes...


Você disse que tem uma nova série em que está trabalhando e que ela vai ficar pronta agora no final de 2014. Você poderia adiantar pros leitores o que podemos esperar?

Pode parecer sacanagem, mas, como se diz na Áustria, “uma galinha não conversa sobre os ovos que ainda não botou”. Eu realmente não gosto de falar sobre projetos inacabados, não para fazer “segredinho”, mas simplesmente por superstição.

Em algum canto da minha mente (o que definitivamente não é na área da lógica), acredito que meus planos irão naufragar se eu falar sobre eles antes de estarem 100% concluídos. Portanto, eu sinto muito, mas não vou dizer muita coisa. Só que o novo escopo do trabalho versará definitivamente sobre polarização, que será um trabalho documental bem moderno, mas bastante simples, e que eu estou trabalhando no projeto junto com um jornalista.

Ah, e que ele será lançado como um livro.













Obras clássicas no moderno Google Street View


Halley Docherty nos deu um pequeno vislumbre do mundo de ontem com esta nova série de obras de arte clássicas misturadas com imagens atuais do Google Street View.

Se você é um aficionado por história das artes, estas imagens vão lhe provocar arrepios na espinha porque é exatamente como se você estivesse mergulhando nas ruas do passado.

Do rio Tâmisa (em 1746) e Covent Garden (em 1737) à Abadia de Westminster (em 1749), estas imagens nos mostram como a Europa era vista nos séculos 18 e 19, e como os tempos mudaram.

Cadê os criativos de Manaus para fazerem o mesmo com a “Paris das Selvas”?