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quarta-feira, dezembro 13, 2017

O ovo de Colombo e outras expressões com ovo


Por Deonísio da Silva

Em 1988, Collor ainda não era candidato a presidente da República, mas foi eleito no ano seguinte. Foi o primeiro ovo de Colombo na sucessão presidencial. O que ele fez, qualquer um poderia fazer. Mas somente ele a fez. Atribuiu todos os males do Brasil ao então presidente José Sarney, tomou para bandeiras de sua campanha os temas que estavam na mídia e ofereceu-se como opção aos dois que lideravam a disputa: Brizola e Lula. Dizem que a História só se repete como farsa, todavia a sucessão do próximo ano está bem parecida com a de 1989, se substituirmos Brizola e Lula por Lula e Bolsonaro.

Mas por que ovo de Colombo, ovo da serpente e expressões assemelhadas que já começam a vir para o proscênio? É que o povo prefere ilustrar seus conceitos com verbos de ação. Baba-ovo (bajular), pisar em ovos (agir com cautela), contar com o ovo no fiofó da galinha (apostar em algo incerto) – eis algumas das numerosas expressões do Português que ilustram esta estratégia.

Algumas são muito antigas e remontam às nascentes da agricultura e da pecuária, quando o homem deixou de ser nômade e passou a conviver com os bichos, fossem ovelhas, vacas, porcos, aves, pássaros etc., não mais ao redor das tendas em que morava, mas no ambiente doméstico, palavra do mesmo étimo de domesticar, que é o que ele fez com os bichos, trazendo-os para perto de si e às vezes para dentro de casa, quando não para a própria cama em que dormia.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago lembrou em seu discurso de posse que seus avós levavam pequenos porquinhos para dormir com eles: “Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável”.

Foi de contextos como este que surgiram expressões que recorreram à agricultura e à pecuária, de que é exemplo também “pôr o carro diante dos bois”, acrescentada mais tarde, quando da antiga vida agropastoril restavam apenas lembranças.

Outra expressão muito lembrada é ovo da serpente, título de um filme do célebre cineasta sueco Ingmar Bergman, que viu indícios da ascensão nazista na Europa, comparando-os ao que se pode entrever num ovo de serpente já fertilizado. Passou a designar um mal que já mostra seus primeiros sinais, ainda que tênues.

Temos também ovo cósmico, expressão criada pelo astrônomo belga Georges Lemaître, designando a matéria altamente compacta que teria possibilitado o grande estouro que criou tudo, o átomo primordial.

Mas de todas elas, uma das mais expressões mais lembradas em que o ovo está presente é o que teria ocorrido com Cristóvão Colombo. Num banquete organizado ainda no século XV pelo cardeal espanhol Pedro González de Mendoza para celebrar a descoberta da América, ao exemplificar que o glorioso feito poderia ter sido obra de qualquer outro, mas que apenas ele a fizera, Colombo tomou um ovo cozido e desafiou que um dos convivas pusesse aquele ovo em pé. Ninguém conseguiu. Ele, então, retomou o mesmo ovo, deu-lhe uma pequena batida e o fixou em pé sobre a mesa.

Um dos cortesãos retrucou: “Assim é fácil”. E Colombo concluiu: “O mesmo ocorreu com a descoberta do Novo Mundo. Tudo que é natural parece fácil, após conhecido ou encontrado. A dificuldade está em ser o inventor, o primeiro a conhecer ou a demonstrar”.

Outros historiadores, porém, argumentam que o arquiteto e escultor italiano Filippo Bruneschini já tinha feito isto antes, ao demonstrar o invento da sustentação de um domo, e que o genovês, conhecendo a história, a repetira diante dos espanhóis.

Seja como for, a estratégia da demonstração foi atribuída a Colombo, assim passou à História e ilustra antigas antologias escolares que tinham o objetivo de instruir os alunos com textos de cultura geral.


É provável que no próximo ano surja um ovo de Colombo na sucessão presidencial.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (21)


Por Jefferson Peres

Mas o xodó e o xexo não eram as únicas opções dos que tinham dinheiro curto. Havia uma alternativa ao alcance de todos, que eram as empregadas domésticas. As caboclas, ou cabocas, como são chamadas ainda hoje, com supressão do “L”, como forma designativa de mais de um segmento social do que de uma categoria étnica ou racial. Cabocla era toda moça empregada em casa de família, fosse do tipo regional, de feições indiáticas, ou fosse mulata ou mesmo branca.

Talvez pela sua condição social, marcada por severas restrições e ausência de vínculos familiares, elas adotavam um comportamento peculiar. Embora dessem preferência a homens de farda, não eram exclusivistas nem faziam discriminação. Na ausência do namorado, substituíam-no tranquilamente por outro, ao qual se davam, generosamente, sem nenhum remorso.

Eram encontradas, em grande número, na Praça da Polícia, para onde iam, depois do jantar, e onde ficavam dando voltas, em duplas ou em grupos de três ou quatro. Para lá se encaminhavam também vários grupos de rapazes com intenção de abordagem. Havia os habitués, chamados de “caboqueiros” porque tinham por elas especial predileção, aliás, compreensível, seja pelo aspecto financeiro, seja pelo menor risco de doença venérea ou, ainda, pelo gosto diferente do sexo não-mercenário.

A aproximação não era difícil, nem tampouco a consecução do objetivo, mas exigia uma pequena encenação, com eles fingindo que desejavam apenas um namoro inocente, e elas fingindo que acreditavam. Até porque elas quase sempre juravam que eram virgens. Às vezes o ato já estava sendo consumado, mas elas continuavam jurando.

É curioso constatar que geralmente eram frígidas, no mais das vezes não alcançando o orgasmo. A facilidade com que cediam aos apelos não era determinada, assim, por um apetite sexual exacerbado. Muito menos por interesse material. Nunca pediam nem aceitavam pagamento, e muitas se mostravam ofendidas se lhes ofereciam dinheiro. Isto leva a crer que se entregavam como uma concessão, em troca do puro prazer da companhia masculina.

O problema com elas podia ser o local de encontro, a menos que o interessado fosse locatário de um pequeno apartamento ou tivesse amigo que lhe cedesse a chave de algum. E sempre havia no grupo dois ou três que, em sociedade com outros, mantinham garçoniéres em velhos edifícios do centro. Quando não aparecia esse quebra-galho, e se havia algum dinheiro no bolso, podia-se ir a uma casa especializada.


Ainda não havíamos ingressado na era dos motéis, mas existiam seus precursores, os rendez-vous, dos quais o mais procurado e acessível era a Pensão Ritz. Situava-se na esquina da Rua Dr. Moreira com o Beco do Comércio e pertencia a Flora Lifsitch, uma bela russa – ou seria polonesa? – que atendia os clientes embalando-se numa rede, com as pernas inchadas de erisipela.

Recebia o pagamento, deitada, e invariavelmente perguntava se a garota era virgem, temerosa de complicações com a Vara de Menores. Ante a resposta negativa, talvez por brincadeira, pedia para fazer ela mesma um exame ginecológico, sempre recusado sem que ela insistisse. A seguir, o casal era encaminhado para um dos quartos, verdadeiros cubículos, divididos por tabiques, com a tradicional cama de ferro no centro. Desconfortáveis e pouco asseados, nem por isso a procura diminuía. Às vezes era preciso esperar na fila.

Havia também o rendez-vouz da Barbadiana, na Cachoerinha, pertencente a uma preta velha que mal falava português e usava o traje que identificava facilmente os naturais de Barbados: vestido comprido, chapéu, meias e uma inseparável sombrinha na mão. Mas sua casa era evitada pela distância, que custava uma boa corrida de automóvel.

Se não havia dinheiro algum, o jeito era apelar para a “pensão calango”, expressão que designava os terrenos baldios e as ruas cobertas de mato. O trânsito escasso, a iluminação deficiente e a abundância de terrenos sem muros, facilitavam a vida dos casais sem dinheiro.

Os mais procurados ficavam nas ruas transversais à Getúlio Vargas, como a Huascar de Figueiredo (então Saldanha Marinho), onde havia até um canavial entre o covão e uma velha estância, e a 24 de Maio. Mas não faltava quem utilizasse até mesmo ruas, como a área em torno do Teatro Amazonas e a ladeira do Pimpão, correndo o risco de flagrantes da Polícia. Quem sabe a circunstância não fosse até estimulante?

O certo é que, raparigas ou cabocas, profissionais ou amadoras, pouco importa que sobre elas recaísse a condenação de toda a sociedade. Para os jovens do meu tempo, elas representaram as boas samaritanas, sem as quais muito de nos teriam penado um longo e sofrido jejum até o casamento.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (22)


Por Jefferson Peres

Eram poucas as quadras e piscinas, e precários os estádios, mas seria um erro supor quase inexistente a prática de esportes. Ao contrário, eu diria que, considerando o tamanho da população e a pobreza do meio, as atividades esportivas surpreendiam pela variedade e intensidade. Como hoje, o futebol já era de longe o esporte mais popular.

Os jogos oficiais se realizavam em dois estádios, o Campo do Luso, nos Bilhares, que conheci em seus últimos momentos, e o Parque Amazonense, no Dispensário Maçônico da Rua Belém, hoje em ruínas, um antigo hipódromo, onde se realizavam corridas de cavalos que os mais velhos recordavam com saudade. Havia ainda o General Osório, do 27º BC, utilizado apenas para treinos e amistosos porque, inteiramente aberto, não permitia a cobrança de ingressos.

Os times eram todos amadores, mas já haviam formas disfarçadas de semiprofissionalismo, que consistiam em dar aos atletas empregos sem obrigações, ou em regime de meio expediente, que lhes permitiam dedicação integral ao futebol. Participavam do campeonato estadual apenas clubes de Manaus.

Havia três grandes, os velhos rivais Rio Negro e Nacional, e mais o Olímpico, fundado no final dos anos 30 e transformado logo numa grande potência do futebol. Em segundo plano, como clubes médios, o Fast e a União, com algumas glórias passadas. Finalmente, dois clubes pequenos, eternos perdedores, o Independência, de José Caitete, e o Genral Osório, formado por militares do 27.º BC. Mais tarde apareceram outros, como o Tijuca, o Barés e o Eldorado.

O palco dos grandes acontecimentos futebolísticos era o Parque Amazonense, ao qual tínhamos acesso através dos velhos bondes, que passavam à sua porta. Nos dias de jogos importantes saíamos de casa depois do almoço para pegarmos o transporte, e ao término das partidas, nem sempre sendo possível tomar o bonde em frente ao estádio, às vezes tínhamos de caminhar até o Entroncamento, no Boulevard Amazonas. Voltávamos pra casa depois das sete horas da noite.


Pouco seguro, com muros baixos em suas partes laterais e traseiras, o estádio era um convite aos furões. Muitas vezes ocorriam verdadeiras invasões, com centenas de pessoas saltando o muro ao mesmo tempo e provocando cargas de cavalaria da Polícia Militar. Muitos pagavam caro a ousadia, ao terem as costas espaldeiradas por lâminas de sabre dos cavalarianos.

Certa vez, o velho Parque, em tarde de gala, foi palco de uma proeza praticada pelo meu saudoso amigo Wilson Câmara. Gaiatíssimo, Wilson gozava tudo e todos, inclusive a si próprio. Sempre que era apresentado a alguém fazia um impagável duplo sentido com as iniciais do seu nome: “W.C., às suas ordens”. Pois foi esse gozador que, num domingo de estádio cheio para assistir a uma partida entre o Nacional e um time de fora, conseguiu paralisar o jogo com uma grande molecagem.

No momento em que o atacante do time adversário, após driblar o zagueiro nacionalino, se preparava para finalizar, Wilson meteu dois dedos na boca e simulou com perfeição o trilo do apito do juiz. Jogo paralisado, confusão, o autor da façanha, descoberto, foi detido por policiais e, mais tarde, liberado por influência de amigos.

Em campo, os times adotavam a formação clássica: dois zagueiros, três médios e cinco atacantes, todos com posições fixas. A terminologia era toda inglesa, sem tradução para o vernáculo. Assim, goleiro era goal-keeper, zagueiro, back; médio, half; comandante de ataque, center-forward; escanteio, corner; falta, foul; impedimento, off-side; locutor, speaker; e até o árbitro era chamado de referee.

O nível do futebol local era modestíssimo até o começo dos anos 40. Os jogadores, além de amadores, eram amazonenses, quase não havia intercâmbio, de forma que o desempenho da nossa seleção, no Campeonato Brasileiro, era sempre decepcionante. Nas eliminatórias nunca passávamos pela seleção do Pará, que nos aplicou algumas goleadas históricas.

O panorama começou a mudar com a vinda do Santa Cruz de Recife, uma verdadeira máquina, como dizem os cronistas esportivos. Tinha craques com nível de seleção nacional, além de um conjunto entrosadíssimo. Foi, talvez, o melhor time de futebol que vi atuar em campos locais. 


Nessa excursão o Santa Cruz se desfez. Dois jogadores morreram de tifo, em Belém, e cinco ficaram em Manaus: Omar, Pelado, Sidinho, França e Pinhegas, este, mais tarde, ponta esquerda do Fluminense do Rio. Sorte nossa, porque, enfim, pudemos formar uma seleção altamente competitiva.

Com os cinco ex-jogadores do time pernambucano, o selecionado ficou assim constituído: Téo, Periquito e Marcílio; Omar, Pelado e Emanuel; Oliveira, França, Marcos, Sidinho e Pinhegas. Partimos, então, para Belém, onde disputaríamos dois jogos. No primeiro, derrotamos a seleção paraense, pela primeira vez em muitos anos, por 2×0.

No segundo, perdemos pelo mesmo escore. Foi necessária uma prorrogação de trinta minutos. Próximo ao final, Pelado, paraense de nascimento, inesperadamente atrasou a bola com um violento chute, marcando um gol contra. Assim, foi eliminado o Amazonas, que poderia, talvez, disputar as finais com Rio de Janeiro e São Paulo. Foi a nossa maior frustação esportiva. Pelado ficou em Belém. Se voltasse a Manaus, provavelmente seria linchado.

De qualquer maneira, a qualidade do nosso futebol melhorou consideravelmente a partir daí, inclusive com o surgimento de craques amazonenses, como os irmãos Onety, Benjamim, Luiz e Paulo. Até hoje, não entendo por que Paulo não se transferiu para o sul do país, onde seguramente teria feito uma bela carreira.

Mas o futebol não era apenas apreciado como espetáculo. Também era praticado intensamente por garotos e adultos em inúmeros campos de peladas. Em pleno centro da cidade havia, por exemplo, a Baixa do JG, no terreno hoje ocupado pelo edifício Palácio do Rádio; os dois campos de Manaus, entre a Lauro Cavalcanti e a Ipixuna, que ficavam descobertos quando as águas baixavam; um campinho situado em terreno baldio, no Alto de Nazaré; o Campo Grande, atrás do Colégio Maria Auxiliadora; e mais as ruas sem calçamento, utilizadas pela molecada tranquilamente, sem risco de atropelamento, como a Avenida Floriano Peixoto.


Mais afastados, tínhamos o campo do S. Raimundo, o da Labor, em Educandos, o da Casa Amarela, na Cachoeirinha, onde hoje se ergue o Palácio Rodoviário, e o da Maria Monassa, na Vila Municipal, entre as ruas Natal e Fortaleza. Eram campos abertos, sem muros ou cercas, em terrenos públicos ou particulares, franqueados a qualquer pessoa, mediante simples permissão verbal do proprietário ou do vigia. Às vezes nem isso, como acontecia com os campos da Baixa do JG e do Igarapé de Manaus.

Joguei em quase todos, sempre demostrando uma completa ausência de talento para o futebol. Basta dizer que, atuando como apoiador ou ponta-direita, nunca consegui fazer um mísero gol. Um recorde difícil de ser igualado.

Nesse tempo as partidas eram disputadas com as bolas antigas, que na verdade eram duas, uma de borracha, que se enchia com bomba de bicicleta, dentro de outra, de couro, que era o seu revestimento externo. O bico era empurrado, entre uma bola e outra, e a abertura da bola de couro amarrada com um cordão, à semelhança de cadarço de sapato. O cabeceio era uma temeridade, porque a testa podia acertar exatamente na parte amarrada, e doía muito.

Nas peladas, dava-se preferência às bolas de sernambi, compradas no Mercado, que podiam ficar inutilizadas no primeiro dia se caíssem num caco de garrafa ou numa ponta de prego. Além disso, com o tempo iam murchando, até ficarem do tamanho de um coco.

Quando o dinheiro não dava para comprar uma bola, fazia-se uma de meia, recheada de pano ou de papel, que era chutada até se desfazer. Mas sem a pelada é que não ficávamos. Com chuva ou com sol. Quase todos os dias.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (23)


Por Jefferson Peres

Tanto quanto me lembre, era quatro, apenas, as quadras existentes na cidade, todas descobertas. Havia a do 27°. BC, na Praça General Osório; a do Ginásio; a do Nacional, nos fundos da antiga sede, na Saldanha Marinho; e a do Rio Negro, não atual, mas uma outra, atrás de sede, da qual se assistia aos jogos, sentados nos batentes. Mas essas poucas quadras eram intensamente utilizadas para treinos, jogos amistosos ou torneios. Raro o dia em que a do Ginásio, por exemplo, não era ocupado por equipes de vôlei ou basquete.

Todos os clubes grandes possuíam times dos dois sexos, pois era grande o número de moças que praticavam esses dois esportes, especialmente o vôlei. Frequentemente se disputavam partidas com guarnições de navios ancorados no porto e com equipes de outros Estados e Territórios.

Certa noite, na quadra do Rio Negro, vi um combinado amazonense de basquete, em exibição de gala, derrotar uma forte seleção de Roraima, integrada por jogadores gaúchos de grande experiência. Não sou um expert na matéria, mas acho que naquela noite teríamos enfrentado a seleção brasileira sem fazer feio.

Quando se fala em esporte, é preciso não esquecer o ciclismo, que fazia parte do lazer diário do jovem amazonense de classe média. Rara a casa que não possuía uma ou duas, de marca Raleigh, Opel ou Peugeot. Tantas, que havia meia dúzia de oficinas de consertos espalhadas pelo centro. Mas quando se tratava de pneu furado, nós mesmos consertávamos, vedando o furo com pedaços de borracha e cola Michelin (que aportuguesávamos pronunciando o “in” no final com o som de in mesmo).

A topografia da cidade e o calçamento das ruas não favoreciam o uso da bicicleta como meio de locomoção normal, mas havia um lugar excepcional para a prática do ciclismo, que era a Praça de São Sebastião. Os dois tipos de calçamento ali existentes, o das ruas que a cercam, liso como asfalto, e o da área em torno do Teatro Amazonas, de paralelepípedos bem ajustados, permitiam que as bicicletas deslizassem suavemente. Apenas eram evitadas as laterais que dão seguimento às ruas Costa Azevedo e 10 de Julho, devido às linhas de bonde.

As demais, raramente percorridas por automóveis, eram usadas tranquilamente, inclusive as rampas do teatro, por onde os mais exibicionistas desciam como bólidos, com os braços e as pernas levantados. Todas as tardes, a partir das cinco horas, em particular aos domingos, a praça ficava coalhada de ciclistas de ambos os sexos, misturados a outros que rodavam sobre patins, igualmente muito utilizados.


O ciclismo de competição tinha seu grande palco no velódromo Álvaro Maia, uma grande pista de corrida, erguida na Cachoerinha, ao lado da Igreja do Pobre Diabo. Concebido e construído pelo engenheiro Deodoro Freire, com recursos próprios e de terceiros, lá se exibiam os ases do pedal, entre os quais os próprios filhos de Deodoro, Pedro e Rira, Vinicíus Silva, filho do pintor Branco e Silva e, dentre os competidores mais novos, meu amigo Haroldo de Oliveira Costa.

Às vezes era usado, também, para corridas de motocicletas, e outras, para apresentações de luta-livre. Armava-se um ringue no centro, onde se engalfinhavam os lutadores famosos da época, como João Isaac, Pantera Negra e Surimã. Com a morte de Deodoro Freire, o velódromo ficou abandonado. Hoje, não sei se restam sequer as ruínas.

Havia também, é claro, o papagaio, empinado por quase todos os garotos e por muitos adultos, sem distinção de classes. Curiosa brincadeira essa que, inclusive, criou todo um jargão, de origem genuinamente popular. Cerol, rabiola, peitoral, banda de asa, maçaroca, famão são termos saborosos, próprios de um esporte que é peculiar não apenas em sua terminologia, mas também em seu caráter a um tempo artístico e lúdico, que se inicia com o prazer de confeccionar o brinquedo, e pode completar-se com a luta e a vitória, no corte elegante e fatal do competidor.

Podia-se comprar, é claro, o papagaio feito, mas a grande maioria fazia os seus. Conseguíamos as talas, que cortávamos nos tamanhos adequados e íamos amarrando com linha zero, formando o esqueleto, que a seguir cobríamos com papel de seda, no modelo desejado. Além do banda-de-asa, muito comum, havia também o de espinho, o de listras, o Rio Negro e o Nacional, estes com as cores dos clubes. Empinavam-se em toda a cidade e de todos os lugares, das ruas, dos quintais, dos pátios e dos telhados. O céu ficava cheio, com milhares de papagaios a nos divertir com a sua graciosa coreografia.

Havia ainda a torcida quando ocorriam as tranças (com cedilha mesmo), especialmente se envolvessem dois famões, isto é, campeões famosos que dificilmente eram batidos. Alguns se distinguiam pela habilidade em colher, quando se formavam os “bolos”. Às vezes, colhiam com tanta rapidez, que conseguiam trazer às suas mãos o papagaio do adversário. Outros ganhavam fama pela eficiência do cerol que usavam.

Embora todos os preparassem com os mesmos ingredientes e da mesma maneira, ou seja, moendo garrafas e vidraças em trilhos de bonde e misturando o vidro moído à cola líquida, o cerol de alguns parecia melhor que o de outros. Isso dava lugar a boatos sobre misteriosas fórmulas usadas pelos campeões.

Lembro-me de Paulo Maranhão, o famão do meu bairro, residente no Igarapé de Manaus, que chegava a cortar de cinco a seis papagaios numa tarde, aos gritos de: “Bota outro, medroso!” Dizia-se, e alguns acreditavam piamente, que ele adicionava urina ao cerol para torná-lo mais cortante. Infelizmente, nunca se saberá a verdade, porque Paulo morreu sem revelar o segredo.


Entre os jogos de salão, nenhum superava o de botões, talvez devido à nossa paixão pelo futebol. Tal como acontecia com os papagaios, esse jogo também nos proporcionava o prazer de fazer o brinquedo com as nossas próprias mãos. Adquiridos feitos, apenas alguns poucos botões de roupa (daí o nome do jogo) e o pente usado para impulsioná-los. Tudo o mais nós fazíamos. A começar pela trave, que montávamos em armações de madeira, com a rede obtida de toucas ou pedaços de véus usados por nossas mães e tias em suas idas a igreja.

O goleiro era feito de chumbo, conseguido de sucata, que derretíamos e moldávamos em caixas de fósforos enterradas na areia. Quando o chumbo solidificava e esfriava, era colocado numa outra caixa de fósforos, que envolvíamos num papel branco, com o escudo do clube escolhido.

Os jogadores, ou botões, eram de vários tipos. Havia os de madeira, que mandávamos tornear em marcenarias e, a seguir, lixávamos e envernizávamos; os de tucumã, que cortávamos ao meio, lixávamos e aos quais dávamos polimento com estearina; os de casco de tartaruga, não muito apreciados; e, finalmente, os de jarina, os mais bonitos e trabalhosos, que nos exigiam uma viagem até as embarcações ancoradas no porto, onde a colhíamos em estado bruto.

Esta exigia um trabalho paciente, que começava com a relação numa superfície áspera – o nosso grupo usava o muro da Beneficente Portuguesa – seguido da raspagem com uma faca de lâmina afiada. Depois, completávamos o serviço, com lixa e polimento. Ficavam lindas, em cores de fundo branco ou creme, rajas de castanho ou marrom, fazendo perfeitamente jus ao nome de marfim vegetal. Nunca mais vi um botão de jarina. Será que ainda é usado?

Finalmente, tínhamos a bola, de cortiça, tirada de rolhas de garrafas, que cortávamos com tesoura e depois íamos lixando, até assumir uma forma perfeitamente esférica. Não utilizávamos mesas como campos, devido ao cansativo trabalho de apanhar as bolas caídas. O jogo era no chão mesmo, em salas, pátios e porões.

Organizávamos campeonatos com turno e returno, cada um adotando o nome de um clube de sua preferência, dentre os grandes do Rio e de S. Paulo. Eu ficava sempre com o do meu amado Botafogo, pelo qual sofro até hoje. Ao contrário do que acontecia no futebol, o jogo de botões me alegrou com muitas vitórias e até alguns campeonatos.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (24)


Por Jefferson Peres

No Reino das Náiades não podiam faltar os esportes aquáticos. O remo era praticado intensamente por três clubes, bem equipados e que mantinham acirrada rivalidade. O Clube do Remo, antigo Ruder, fundando por alemães, tinha sua garagem num flutuante no Igarapé de Manaus, ao qual se tinha acesso através da Passagem Cabral. O Amazonense ficava à margem do rio Negro, no começo da Joaquim Nabuco. E o Náutico tinha sua sede também na orla do rio Negro, mas no início da 7 de Setembro.

Praticavam- se várias modalidades, como skiff, canoa e out-rigger. Na Semana da Pátria realizavam-se as provas do Campeonato Estadual, que tinham lugar na baía do Rio Negro, tendo como ponto de partida uma bóia em frente aos coqueiros de São Raimundo, e, como linha de chegada, flutuadores colocados em frente ao roadway. O cais ficava tomado por um grande público, que vibrava muito com a disputa.

Entre os praticantes, consigo lembrar de Walmir Robert, mais tarde desembargador, e Simão Abnader, que remavam pelo Amazonense, e Francisco Reis Filho, o Chiquito, depois advogado, que defendia as cores do Náutico. Havia também equipes femininas, mas não me ocorre o nome de nenhuma das moças que, surpreendentemente, praticavam esse esporte em época tão distante.

Além do remo, esses clubes cultivavam o water-pólo, em raias armadas ao lado das garagens, e chegaram a formar boas equipes, que disputavam em pé de igualdade com times de navios-escola como o Almirante Saldanha, brasileiro, e o Apollo, de bandeira inglesa. Lamentavelmente, esses clubes não sobreviveram. O Amazonense se acabou quando uma ventania derrubou a sua garagem. Os outros foram derrubados pelo vendaval do tempo.


Naquele tempo existiam apenas duas piscinas de águas paradas, em Manaus, a do estádio General Osório e a do stand de tiro, ambas do 27° BC e nenhuma olímpica. Isso não prejudicava a natação, que era muito praticada nos balneários e no rio Negro. Este era utilizado para provas de resistência por grandes nadadores, como Adalberto, mais conhecido como Morcego, e Miguel Barrela, mais tarde médico e advogado, que em várias oportunidades fez a travessia do rio, para espanto de muitos, que jamais poderiam supor se fosse o Barrela, com o seu físico de triatleta, capaz de semelhante feito.

As provas de velocidade, não muito frequentes, eram disputadas na piscina do General Osório, inadequada pelas suas dimensões. A natação era praticada mesmo, em grande escala, como lazer, nos balneários, ou banhos, dos arredores da cidade, e até nos igarapés do centro, como o da primeira e segunda ponte, bem como o de São Vicente.

Os balneários eram muitos, como a Pomerânia, a Chapada Síria, o V-8, o Igarapé do 40, o então distante Tarumã, e principalmente, acima de todos, o Parque 10 de Novembro, a grande piscina de água corrente, construída com o represamento do Igarapé do Mindú, que Antônio Maia legou à cidade quando prefeito.

Era o ponto de encontro da população, nas manhãs de domingo, quando ficava cheio de casais, mulheres bonitas e crianças num ambiente puramente familiar. Era também procurado por grandes nadadores, como o Húngaro – nunca conseguir saber o seu nome – um gringo louro, de peito protuberante, que ficava a nadar da ponte à represa, e desta até aquela, quase a manhã inteira, numa incrível demonstração de resistência.


Mas, além da piscina, o Parque 10 oferecia, ainda, como segunda opção, cerca de duzentos metros da represa, o Sanatório, um recanto em estado natural, onde as águas se aprofundavam e o sol não penetrava, barrado pela copa das árvores, que se fechavam no alto e nas quais subíamos para saltarmos no igarapé.

O Parque 10 era também o local preferido das nossas “gazetas”. Inexistindo ônibus e sem dinheiro para o carro, íamos até lá de bonde e a pé, por duas vias de acesso. Por Adrianópolis, onde saltávamos na praça N. S. de Nazaré, caminhando cerca de dois quilômetros pela Recife, então estrada de terra batida. Ou então, pegávamos o bonde das Flores e saltávamos em frente à Chapada, seguindo pela estrada do Mindu, hoje avenida Darcy Vargas.

A caminhada era longa, se bem que divertida, porque íamos entrando nos terrenos e colhendo magas, jambos, tamarindos, ingás e, quando não tinha outra coisa, até tucumã-babão. Mas o bom mesmo era tomar banho no Parque 10, com suas águas cor de chá, transparentes, que deixavam ver a areia do fundo. E tão ricas de oxigênio que as piabas, ariscas, chegavam até nós, em cardumes, atraídas pelo miolo do pão que lhe atirávamos.

Hoje, é com prazer que me banho em assépticas piscinas de cloradas águas azuis. Mas, não posso deixar de sentir saudade dos mergulhos em águas douradas e correntes, com os peixinhos nadando ao meu lado.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (25)


Por Jefferson Peres

A cidade possuía, naturalmente, seus monstros sagrados. Aliás, chamados pelo povo simplesmente de “monstros”, termo que, na gíria de então, representava o máximo de elogio. Era aplicado a todos aqueles que tinham uma atuação considerada genial em qualquer atividade, fosse um jogador de futebol ou um cantor. Mas a admiração maior, embevecida e respeitosa, ia para os homens de letras. Cultuados como monumentos vivos, eram saudados nas ruas, com reverência, e apontados como celebridades.

O anúncio de uma conferência, a ser proferida por um deles, era garantia de sala cheia, e no dia seguinte o pronunciamento era o assunto da cidade. O mesmo acontecia com seus artigos e poemas, publicados na imprensa, que rendiam aos seus autores momentos de glória, ao receberem uma chuva de cumprimentos, partidos até de desconhecidos.

Todos eles pertenciam à Academia Amazonense de Letras, o grande templo do saber, no qual entrávamos como se estivéssemos indo participar de um culto religioso. Desde criança me habituei ao contato direto ou indireto com aqueles monstros sagrados. De perto ou de longe, conheci-os todos e deles guardo as mais diferentes impressões.

Como a Grécia, o Amazonas também teve a sua Era de Péricles. Durante cerca de três décadas, até a sua morte, em meados dos anos 50, o grand-seigner da literatura amazonense foi Péricles Moraes. Sua casa modesta, na Rua Henrique Martins, era um local de romaria dos acadêmicos e dos que aspiravam às galas da imortalidade. Uma recomendação sua era um passaporte seguro para os ingressos no Silogeu. Seu veto, ao contrário, erguia uma barreira intransponível às pretensões de qualquer candidato. E um simples elogio seu já constituía uma consagração para qualquer jovem intelectual.

Dono de vasta erudição literária, era fascinado pela França, cujo idioma dominava perfeitamente, como, aliás, todo intelectual de sua geração. Dizem que quase metade da sua opulenta biblioteca era constituída de livros escritos em francês. Encontrei-o algumas vezes em casa do meu tio Leopoldo Péres, de quem era amigo íntimo e que seria por ele biografado numa obra repassada de emoção. Alto, gordo, óculos de aros finos, nariz rubicundo, lembrava a figura de um bispo ou de um avô bonachão. Um perfeccionista, tinha o que ele chamou, certa vez, de martírio flaubertiano da construção do período.


Quando presidia as sessões de recepção de novos acadêmicos, muitas vezes seus discursos de abertura eram mais trabalhados do que as peças oratórias dos principais personagens da noite. Muito apegado aos amigos, comenta-se que sabia ser, igualmente, implacável como inimigo. Ficou famosa a sua inimizade com Raimundo Morais, de quem não era parente, e a quem nunca perdoou, não permitindo que entrasse na Academia e excluindo seu nome no livro que escreveu intitulado Os Intérpretes da Amazônia. Era também muito cioso do próprio valor e infenso a intimidade.

Certa vez, um cidadão bem mais novo do que ele e que frequentava sua casa fazia algum tempo, de repente resolveu tratá-lo por “você”. A reação de Péricles foi imediata: “Dobre a língua! O único jovem a quem eu permito que me trate por você é Leopoldo Péres, e mais ninguém!” O visitante saiu arrasado, com o pito e com a morte das pretensões acadêmicas que certamente alimentava. Como aconteceu, aliás, com muitos outros.

Morreu sem concluir o livro de memórias, do qual, curiosamente, só escreveu o último capítulo. É dedicado à esposa, mas de passagem menciona os momentos angustiosos que viveu durante o assédio a Paris, onde se encontrava em 1914. Ao final, dirige um comovente apelo a Deus para que não o deixasse morrer depois da esposa, pois não gostaria de sobreviver a ela. Deus foi ao encontro de sua vontade e levou-o, em 1956, deixando viúva D. Andrômaca, que sobreviveu a ele por muitos anos, morrendo em idade avançada. Não há dúvida de que, com o desaparecimento de Péricles, se encerrou uma era da história literária do Amazonas.

A liderança de Péricles só era disputada, talvez por Adriano Augusto de Araújo Jorge, fundador e segundo presidente da Academia, posto que manteve até morrer. Mas, ao contrário do seu colega, Adriano era, reconhecidamente, um dispersivo, que deixou pouca coisa escrita e não chegou a publicar um livro sequer. Brilhou, sobretudo, como orador.

O anúncio de que falaria, em qualquer evento, era garantia de público certo, para lhe ouvir a palavra cintilante. Nisso era ajudado por seu físico apolíneo. De estatura mediana, cabelo penteado em topete, olhos mortiços, olhar de cabra morta, como se dizia, impressionava principalmente as mulheres. Mantendo-se solteiro até muito perto de morrer, teve uma vida amorosa marcada por aventuras picantes, que prefiro omitir. Doublé de médico e humanista, sua atividade intelectual não o impedia de exercer a profissão com rara competência.


Clínico geral, com numerosa clientela, seu consultório, na Eduardo Ribeiro, vivia cheio, sendo muito solicitado, ainda, para atender pacientes em casa. Famoso, também, pela generosidade, não costumava cobrar de seus clientes, que pagavam como e quando queriam. Conta minha mãe que durante a epidemia de gripe espanhola, em 1918, que tirou a vida de centenas de pessoas, Adriano era um dos pouquíssimos médicos que não se recusavam a atender chamados. Apesar disso, às vezes não resistia à tentação de fazer humor mesmo que fosse humor negro.

Um dia, chamado por um vizinho nosso para atender seu velho pai, Adriano, ao deparar com um ancião arfante sobre a cama, parou na porta da alcova e disse em voz baixa: “Eu trato de doentes, não de moribundos...” Mas era apenas um blague, pois logo a seguir medicou o paciente, embora sem resultado, porque o caso era mesmo sem jeito.

Como político não foi muito feliz. Candidato ao Senado, em 1945, foi derrotado. Tentou em seguida a deputação estadual, também sem êxito. Conseguiu finalmente, numa terceira tentativa, eleger-se vereador à Câmara Municipal de Manaus. Em seu primeiro discurso como vereador não ocultou uma ponta de mágoa, ao salientar que, dos três cargos eletivos que disputara, havia conquistado exatamente o mais modesto.

Em seus últimos meses de vida, alquebrado, andava claudicante, talvez devido a alguma artrose ou reumatismo. Sem perder o bom humor, aos que perguntavam o que tinha na perna, respondia que era o peso de muitos pecados. Avesso a cemitérios, recusava-se a visitá-los desde que pronunciara a oração fúnebre em homenagem a Heliodoro Balbi, cujos restos foram transladados do Acre para Manaus. Sempre que era convidado, respondia que para lá só iria morto.

Surpreendentemente, no dia de finados de 1948, mudou de idéia e acompanhou a esposa ao São João Batista. À noite, sentiu-se mal e morreu, de madrugada, em sua velha casa da Rua Fortaleza, pobre como sempre vivera. Em sua homenagem, deram ao bairro o nome de Adrianópolis, que o povo, ao peso da tradição, teima em chamar de Vila Municipal.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Reflexões sobre o provolone


Por Fernando Gabeira

Parei algum tempo para pensar na história do deputado que levava queijo provolone e biscoitos na cueca. Ele foi condenado a sete dias no isolamento. O queijo provolone custa R$ 35, o quilo. Na cela de Cabral foram encontrados queijos tipo Saint Paulin e Chavroux, ambos rondando os R$ 300, o quilo. Nada aconteceu, exceto a retirada dos alimentos importados.

Na verdade, acho que ambos os casos são simples infrações das regras do presídio. O do deputado Celso Jacob acabou resultando numa pena quase que perpétua. Durante muitos anos, ele será conhecido como o deputado do queijo na cueca. De um ponto vista social, é um ato inofensivo. Descoberto, revela um ser humano numa situação patética, dessas que podem acontecer com muitas pessoas ao longo da vida. São, ao mesmo tempo inofensivas mas destruidoras, se divulgadas.

Minha conclusão sobre esse caso não é nada popular, a julgar pelas reações das pessoas com quem comentei meu desconforto. Sinceramente, acho que ele deveria sofrer algum tipo de punição por infringir a regra e que não deveria exercer o mandato desde quando foi condenado. No entanto, o sistema penitenciário poderia tratar o caso como a centenas de outros no presídio, sem exposição pública.

Sei que a luta contra a corrupção é uma grande causa. Exatamente por abraçar algumas grandes causas, tenho também um pouco de medo delas. Às vezes, fazem com que gente ignore o outro e sua precária condição humana, no embalo da defesa de nossas ideias.

A revolução cultural chinesa foi um impacto para mim. Estava em Lisboa, rumo ao País de Gales, onde faria um curso de jornalismo. Aquelas imagens de homens seminus com cartazes pendurados no peito me traziam desconforto. Com o tempo, conheci melhor o que se passou na China, e cada vez mais a ação daqueles jovens com o livro vermelho de Mao Tsé-Tung na mão, prendendo e humilhando, pareceu-me uma maneira doentia de como uma sociedade autoritária pune as pessoas.

Até num filme sobre julgamento de líderes nazistas, lembro-me de uma cena, de um dos acusados mais velhos segurando a calça porque estava sem cintos, em que senti também um desconforto.

Os tempos passam, e a sociedade renova sua maneira de punir. Além da luta contra a corrupção, grandes temas como racismo, machismo, homofobia são causas que mobilizam. Nos Estados Unidos, há um grande movimento de denúncia de assédio sexual, derrubando um a um os acusados. No Brasil, o eixo do confronto esquerda-direita acabou se deslocando para essa área de costumes.

Sei que não posso evitar que toda essa energia emotiva se extravase. Mas sei também que os tribunais se deslocaram para as redes e que aí são feitos grandes julgamentos, de um modo geral aceitos de imediato pelas empresas. As opiniões individuais ganham peso, no entanto trazem também a responsabilidade de se informar melhor. O que nem sempre acontece.

Na rede, não existe um código pré-estabelecido, como na lei, ponderando crime e castigo. Ela não sentencia ninguém à perda da liberdade, ou qualquer tipo de multa. Ela trata da imagem e, às vezes, decreta o fim de uma carreira pública.

E, nesses casos, a distinção entre esquerda e direita é inócua. Recentemente, surgiu uma campanha afirmando que Caetano Veloso era pedófilo, porque fez amor com uma garota de 14 anos que se tornou sua mulher e mãe dos seus filhos.

O caso mais doloroso foi a saída de William Waack de seu posto de trabalho. Ele disse uma frase condenável. Mas existe ponderação entre a pena e a frase? Eu o conheci na Alemanha, éramos correspondentes, ele para o “Estadão”, eu para a “Folha”. Convivemos na época, estivemos juntos quando os sérvios invadiam a Croácia, no início dos grandes conflitos na região. Sempre o achei um excepcional jornalista. E nós precisamos dele no Brasil, com sua experiência e conhecimento do mundo.

Sou um dos responsáveis pela valorização desses temas no Brasil. Influência dos anos de Europa. Também de lá, creio, muitas ideias se transportaram para as universidades americanas. Respeitadas as diferenças nacionais, é um mesmo movimento por direitos civis aqui e nos Estados Unidos. A experiência americana é um dos temas que me preocupam. Trump ganhou as eleições. É um equívoco pensar que não existem retrocessos. Como evitá-los nesse contexto tão apaixonado?

Nesse domingo de manhã, a única pista que me ocorre é esta: o conhecimento do outro, do que não concorda com suas ideias liberais. Entender o apelo nostálgico a um passado mais ordeiro, a ansiedade com as transformações muita rápidas, o medo de aniquilamento de seu universo cultural, da dissolução da família.

Nada evitará que o debate seja intenso. Mas talvez possa ter um nível de respeito e senso de justiça que permitam em certos momentos, a todos, ultrapassarem sua luta identitária para a condição de brasileiro num país arruinado.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (16)


Por Jefferson Peres

Mas houve outras, também, que não consigo esquecer. Dentre elas, Flacy Mesquita, a suave Flacy, que nos enternecia com seu ar triste e os traços delicados a lembrar aquelas madonas de Boticelli. Morava com sua mãe, viúva, D. Flamícia, ainda bonitona, sua irmã Flacínia e um irmão caçula, na casa da 7 de Setembro, perto do Polytheama, onde residira Waldemar Pedrosa.

Não sei se a sua tristeza resultara da morte do pai, ocorrida num acidente automobilístico em Roraima (então Território Federal do Rio Branco). Nunca tive oportunidade de lhe perguntar. Nesse tempo eu fazia parte de uma turma numerosa de rapazes que circulavam na Avenida Getúlio Vargas, entre os bares Moderno e Normal, nos quais fazíamos ponto, em torno de mesinhas nas calçadas, ou espalhados pelos bancos e no bebedouro de ferro (que fim terá levado?) que ficavam nos canteiros centrais, ou ainda, encostados nas grades da calçada do ginásio. Entre as garotas que frequentavam o local diariamente, lembro-me de Luiza e Lourdes Antony, filhas de Aristóphano, que moravam nos altos do Moderno, onde hoje funciona um cinema; de Maria Luiza Seixas, irmã do Mário, nosso colega; e de Flacínia, também assídua frequentadora.

Flacy, porém, mais velha, nunca se aproximou de nós, e apenas a contemplávamos, de longe, postadas à janela, ou de passagem, em suas idas e vindas. Eram muitos os que a amavam, com ternura, mesmo sabendo-a inacessível. Mas havia um, mais do que todos, obcecado por ela. Era Munir Mamede, irmão do nosso amigo fraterno Adel. Recém-chegado do Líbano, ainda brabo, mal falando o português, Munir era o alvo predileto das gozações da turma, que um dia resolveu fazer com ele uma brincadeira semelhante à que vitimara Adaucto Sampaio.

À revelia de Adel, forjaram um bilhete em nome de Flacy, dirigido ao turco, marcando um encontro para a sessão do Polytheama de domingo à noite. Era uma sessão habitualmente frequentada pela chamada alta sociedade, uma plateia bem vestida e educada. Nesse ambiente a abordagem de Munir era um espetáculo imperdível. E não perdi.

Junto com os outros, debruçado na balaustrada de uma frisa, vimos o árabe se aproximar de Flacy, sentar-se num poltrona vaga ao lado e puxar conversa. Nunca mais vou esquecer os olhos espantados da moça e a curiosidade dos circunstantes, até que Munir exibisse o malfado bilhete, permitindo que tudo de esclarecesse. Mas não aguardamos o final, pois Munir, ao contrário de Adaucto, era um miúra, de força e de gênio. Se pagasse os autores, naquela hora, seria capaz de uma violência. E como todos éramos suspeitos, a debandada foi geral.


Não sei se Flacy veio a conhecer a identidade dos autores da molecagem. Ela continuou distante de nós e um dia casou-se e se retirou de Manaus. Nunca mais a vi e, anos mais tarde, recebi a notícia da sua morte prematura. Doeu-me fundo, talvez por ver perdida para sempre a chance de conhecer de perto alguém que, mesmo à distância, representara tanto para mim.

Gláucia Albuquerque era outra, cuja contemplação nos embevecia. Também quase minha vizinha na Rua Dr. Moreira, onde morava com os pais, bem perto de Maria Amália, é cunhada de Belmiro Vianez, que se casou com uma de suas irmãs. Estatura mediana, corpo escultural, rosto bonito, no qual se sobressaíam os lábios rubros e carnoso, impossível esquecê-la.

Dela guardo, em particular, a lembrança de um domingo de sol, no Parque 10 de Novembro, que frequentava habitualmente. Parecia uma chama viva, com seu maiô vermelho inteiriço. De repente, ao fazer um movimento mais brusco, rasgou-se a parte superior do maiô e ela institivamente se protegeu com os braços cruzados sobre o busto, até que alguém a cobrisse com uma toalha de banho. Foi uma cena banal, sem consequências, pois nem sequer consegui vislumbrar-lhe os seios nus. Mas me ficou, marcada para sempre. Um dia Gláucia também se foi para o Rio de Janeiro e não mais voltei a vê-la.

Era de longe também que acompanhávamos, enlevados, o deslizar tranquilo de Izete Souza Lima, irmã de Douglas, em direção à sua casa, na esquina da 7 se Setembro com Jonathas Pedrosa. Era igualmente uma das nossas unanimidades. Todos a amavam sem que ela jamais suspeitasse. Recordo como hoje o dia, ao entardecer, em que o céu se pintou de várias gradações de vermelho, como um incêndio cósmico, enquanto Izete atravessa o largo entre a Praça da Polícia e a calçada do Guarany.

Solitária como sempre, vestindo tomara-que-caia branco, que as luzes banhavam de róseo, parecia etérea, indiferente ao grupo de garotos e rapazes que, em torno das mesas do Normal, hauriam aquele instante de beleza. Muito lamentei não ser pintor ou fotógrafo para captar a cena inesquecível. Não sei aonde os caminhos do mundo conduziram Izete, de quem não mais ouvi falar.

Três Ruths não podem deixar de ser lembradas. Uma Ruth Castro, sobrinha do médico Flávio de Castro. Morena clara, alta, cabelos escuros penteados para cima, parecia uma andaluza. Morava com seu tio, no casarão que ainda existe, na Rua José Clemente, onde morou Eduardo Ribeiro. A casa solarenga se compunha perfeitamente com sua figura de porte aristocrático. Vi-a poucas vezes, mas o suficiente para me deixar uma forte impressão. Cedo ela saiu de Manaus e nunca mais o encontrei.


Outra Ruth, a Jobim, conheci mais de perto. Era filha do Desembargador Manuel Anísio Jobim, com quem morava, numa casa hoje reformada, na Praça da Saudade. Amiga de infância de uma das minhas tias, às vezes passava aos domingos em casa de minha avó materna, na Huascar de Figueiredo, onde vivi boa parte da minha infância. Ainda garoto, olhava com admiração aquela moça cheia de charme e graça, a exibir duas fileiras de dentes perfeitos. Embora tenha fixado residência no Rio de Janeiro, veio algumas vezes a Manaus. E, com satisfação pude constatar, pouco antes de sua morte, que a mulher de meia-idade ainda conservava o bonito sorriso de outrora.

Uma terceira Ruth, de sobrenome Monassa, era a rainha da Vila Municipal, um bairro cheio de sortilégio, com sua profusão de verde e suas ruas pejadas de sombra e silêncio. Residia na velha casa da Rua Fortaleza, ainda de pé, rodeada de frondosas mangueiras e de jaqueiras centenárias. Morena jambo exuberante e coquete, mal suspeitava ela que muitos dos rapazes que iam disputar peladas no campo batizado com o nome de sua mãe, usavam o jogo como pretexto para se deliciarem com a visão do seu vulto gracioso na varanda do casarão. Hoje, passados tantos anos, apesar da amizade que me ligava a D. Maria, sua mãe que chegou lúcida aos seus gloriosos noventa anos, e morreu centenária, só uma vez pude encontra-la nas suas rápidas passagens por Manaus, vinda do Rio de Janeiro, onde fixou residência.

Não demorou muito tempo e aquela menina, que eu vira, criança ainda, com a farda do Grupo, surgia agora como esplêndida adolescente uniformizada de normalista. De baixa estatura, mais gorda do que magra, seu forte era o rosto, expressivo, harmonioso, uma cútis de porcelana rósea, onde se engastavam os olhos escuros e brilhantes, e iluminados por um belo sorriso de Ingrid Bergman. Aos encantos físicos se juntava a magia do nome de princesa nórdica: Astrid. Embora o sobrenome fosse bem lusitano: Garcia Cabral.

Em verdade, pertencia à boa estirpe cabocla, pois era neta de Antônio Teles de Souza, professor e diretor, por muitos anos, do Ginásio Pedro II. Orfã de pai, morava em companhia da mãe e do avô, casado em segundas núpcias com D. Eunice Serrano, num velho casarão no centro de um amplo terreno da Av. 7 de Setembro em frente ao Palácio Rio Negro. Como confessaria mais tarde, costumava sentar-se no banco do jardim bem cuidado para ouvir o avô falar das estrelas distantes, enquanto ela se interessava pelas flores bem mais próximas.

Muitas noites deixei o Café do Pina mais cedo, para me postar na segunda ponte, com alguns amigos, a pretexto de ouvir as músicas que saíam dos alto-falantes do Cine Éden. O motivo real, no entanto, era assistir ao “footing” da bela Astrid, que, de braços dados com amigas, ficava passeando de sua casa até a esquina da Jonathas Pedrosa. Encostados ao balaústre, jogávamos gracejos que eram respondidos com olhares cúmplices e risos de aceitação. Mas, sempre fiquei inibido com a presença de tantas testemunhas. Fora dali, numa certa manhã em que ela regressava sozinha do Instituto de Educação, enchi-me de coragem e abordei-a.

Marcamos encontro para o mesmo dia, à tarde, quando mantivemos uma longa conversa, durante a qual Astrid me confessou que rompera pouco antes com o seu primeiro namorado e não estava em condições de iniciar novo “affair” enquanto não curasse aquela “chagrin d’amour”. No decorrer da conversa perguntei: “Mas você não pretende ficar celibatária, não é?” Visivelmente embaraçada, ela respondeu que não. E só muito depois vim a saber que ao regressar a casa, naquele dia, Astrid correu ao dicionário para saber o significado de celibatária, que ignorava, daí a razão do embaraço. Ficamos amigos, mas antes que a ferida cicatrizasse, Astrid se foi. Como ela mesma disse, seu “lado pássaro” prevaleceu sobre o “lado árvore”, levando-a a bater asas para o Rio de Janeiro.


Voltei a vê-la trinta e dois anos depois, aqui em Manaus, por ocasião do lançamento do seu livro de poemas Visgo da Terra. Fui a esse reencontro emocionado e apreensivo, com receio de que os anos lhe tivesse deixado sua marca devastadora. Mas verifiquei, surpreso e feliz, que o tempo, generoso, a preservara. Conservava a mesma silhueta de adolescente, até mais delgada. E o belo rosto quase não mudara, como se um milagre me fizesse ressurgir a menina de três décadas atrás. E para maior alegria minha, pude constatar, com a leitura do seu livro, que se realizava plenamente sua vocação literária manifestada desde muito cedo. Seus poemas maduros demonstram que Astrid já adquiriu o completo domínio de sua arte. Neles, entre irônica e nostálgica, numa linguagem de grande densidade poética, ela fala da Manaus de sua infância. E com tamanha força telúrica que nos faz sentir quão vivo permanece o seu “lado árvore”, de raízes fincadas profundas na terra-mãe.

Um dia, ela surgiu em Manaus, vinda do Rio de Janeiro, onde estudava. Pertencente à família tradicional da terra, filha de Análio de Rezende, advogado de renome e emérito professor de Direito, Elza fez sucesso imediato. Exuberante de formas, cintura fina, quadris largos e pernas grossas, seu corpo se enquadrava nos padrões estéticos da época. Rosto bonito, de traços finos e um ar esnobe, acentuado ainda mais pelo uso de “lorgnon”, que assestava nos olhos míopes com um charme irresistível.

Muitas tardes a vi desfilar nos canteiros centrais na Av. Getúlio Vargas, em companhia do namorado, que eram seguidos pelos olhares invejosos da rapaziada do bar Moderno. Mas Elza parecia não tomar conhecimento do que se passava em torno, com uma expressão orgulhosa que apenas disfarçava sua invencível timidez. Muito mais tarde, quando passei a desfrutar de sua amizade, nela descobri uma mulher sensível, inteligente e espirituosa, dotada de um rico senso de humor.

Elza despertava também paixões vulcânicas de admiradores que passavam muitas vezes na Rua José Paranaguá, esperançosos de vê-la assomar à janela do belo palacete da família no qual residia. Um desses empedernidos era o poeta Áureo Mello, que conseguiu uma apresentação e, certa noite, decidiu fazer-lhe uma visita que terminou de forma desastrada. Sentado numa cadeira de balanço, Áureo procurava impressioná-la com a declamação de um de seus poemas. Mas, empolgado, foi deslizando para a ponta do assento, até que finalmente se estatelou no assoalho de madeira, num estrondo seguido da gargalhada que Elza não pode controlar. Depois dessa, não prosperou a corte do poeta, até porque, meses depois, ela se casaria com seu primeiro marido, deixando “viúvos” dezenas de consternados pretendentes.

Várias outras mereceriam referência, como Teresa Santoro Andrade, Maria Helena Cunha e Enila Montezuma. Mas este capítulo já se alonga demais e devo encerrá-lo. Não sem antes manifestar meu pesar por haverem todas essas belas mulheres, sem exceção, por estranha coincidência, deixado Manaus, algumas para uma viagem sem retorno. Muitas, provavelmente, não voltarei a ver jamais. 
Só me resta, como consolo, dizer como Marcel Proust que sua beleza mais real esteve porventura em meu desejo. Elas viveram suas vidas, mas talvez só eu as sonhe.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (17)


Por Jefferson Peres

Naquele tempo era baixo o índice de violência, pelo menos em suas manifestações mais brutais, como, por exemplo, os crimes de sangue. Isto não significa que o relacionamento humano fosse sempre ameno, isento de agressividade. Ao contrário, a mentalidade machista dos homens, inculcada desde o berço, criava em muitos a necessidade de se afirmarem, um tipo de comportamento que a sociedade aceitava como próprios dos varões.

Um macho não podia demonstrar fraqueza. Chorar, nunca, em nenhuma circunstância, que isso era coisa de mulher. A dor tinha de ser disfarçada, contida a qualquer custo, já que o pranto masculino era ridicularizado sem piedade. Por igual, era inadmissível que um homem levasse desaforo para casa. Uma provocação devia ser respondida com uma reação igual ou superior.

Desde criança, nas rodas de molecagem, éramos acostumados assim. O início da briga obedecia até mesmo a um ritual. Quando dois companheiros se estranhavam, um terceiro, geralmente de maior tamanho, fazia dois riscos no chão representando as respectivas genitoras dos contendores.

Se cada um pisasse simbolicamente na mãe do outro, a disputa evoluía para a luta corporal, que só terminava com a derrota de um ou com a intervenção de adultos. Esse ânimo belicoso era estimulado por muitos pais, que ameaçavam castigar os filhos não por haverem brigado, mas por terem perdido a briga ou fugido à luta.

Era comum a expressão “filho meu que apanhar na rua, apanha também em casa”. Como não havia academias de karatê, onde os jovens pudessem descarregar sua agressividade e adestrar-se em artes marciais, aprendia-se a brigar na rua e na escola, em lutas nas quais valia tudo, menos dentada e puxão de cabelos. Quem apelasse para esses recursos era xingado de desleal e maricas. Homem usava os punhos e os pés. Estes não apenas podiam, mas deviam ser usados como prova de macheza.

Era natural, portanto, que os jovens fossem portadores de uma boa carga de agressividade, à qual procuravam dar vazão em manifestações grupais de bandos aguerridos. Era grande o número de turmas famosas pela sua belicosidade. Ganhavam o nome do espaço físico em que se reuniam diariamente. Havia a turma do Ginásio, a da Bandeira Branca, a da Major Gabriel, a do Pedro II e a do Alto de Nazaré, dentre outras.


A do Ginásio era constituída por um grupo de rapazes, alguns homens feitos, alunos das últimas séries, como José Caitete Filho, Volmar Simões, Zilmar Bonates, Paulo Jacob, mais tarde desembargador, Jonas Limaverde e Benayon, cujo primeiro nome esqueci.

Brigavam por prazer, a troco de nada, por motivos reais ou inventados. Tiveram atritos frequentes com os alunos do Colégio D. Bosco, velhos rivais, travaram uma pancadaria com a rapaziada do Tijuca, e até deflagraram uma guerrinha com a Manaos Tramways. Com esta o pretexto foi dos mais banais.

A antiga farda cáqui do Ginásio um dia foi trocada por um novo modelo de cor cinza. Por coincidência, pouco depois a concessionária inglesa adotou um uniforme também cinzento para os motorneiros e cobradores dos bondes. Foi o suficiente para que o grupo desencadeasse uma campanha contra a Tramways, que ia da hostilidade aos funcionários até a prática de atos de sabotagem, como o descarrilamento dos elétricos, provocado por sabão passado nos trilhos. A campanha durou semanas e já não me lembro se veio a cessar com a mudança de fardamento dos empregados da Tramways ou por cansaço dos beligerantes.

O recinto do Ginásio era sagrado e ai do estranho que ali entrasse sem permissão do grupo. Certo dia vi um dos nossos colegas da turma do Moderno, chamado Celestino – por sinal, também um famoso brigão – ser expulso a pontapés por Volmar e Zilmar. Não pontapés simbólicos, mas reais, pesadamente aplicados no traseiro. Inúmeras outras passagens poderiam ser contadas desse grupo, que perdeu o elã a partir da morte de Aníbal Santos, atingido por uma bala disparada, acidentalmente, dentro do Ginásio, por um dos integrantes da turma.

Esses grupos tinham um forte espírito gregário. As ações eram empreendidas coletivamente, com a participação obrigatória de todos. Em contrapartida, como no lema dos Três Mosqueteiros, os agravos feitos a um eram vingados por toda a grei. E o sentimento de posse dos seus territórios se estendia, muitas vezes, às moças neles residentes, que se viam impedidas de receber namorados.

Lembro-me de um amigo que namorava uma garota no Alto de Nazaré, como era conhecido o trecho da Joaquim Nabuco entre a Rua Japurá e a Praça Santos Dumont. Depois de resistir a um sem-número de provocações, afinal desistiu na noite em que teve o paletó de linho branco passado nos postes em que habitualmente se encostava. E ainda se deu por feliz de não haver apanhado na frente da namorada, como acontecera a tantos outros.


Quando a pessoa molestada pertencia a outra turma, o episódio podia provocar uma verdadeira guerra, como a que foi declarada entre as turmas da Major Gabriel e do Pedro II. A primeira era liderada por Ugo Zuany, um dos mais notórios valentões da cidade. Morava em frente ao Palácio Rio Negro e tinha um físico de meter medo. Com um protuberante peito de pombo, andava com os braços abertos, à semelhança de um gorila. Fui testemunha de duas ocorrências em que o Ugo se envolveu.

Certa noite dois amigos meus, os irmãos Alberto e Augusto Lacerda, baixos, mas fortes e acostumados a brigar, por um motivo qualquer desafiaram a fera, que não se fez de rogada. E durante quase meia hora, no cruzamento da Getúlio Vargas com a Saldanha Marinho, Zuany travou com os dois um luta que só terminou quando os preliadores, exaustos, resolveram dá-la por empatada.

Ainda pude assistir a outra demonstração de ferocidade de Ugo, quando uma de suas irmãs, que estudava à noite no Ginásio, chegou em casa chorando porque um professor a tratara grosseiramente. Eu estava no Café do Pina e vi quando, à aproximação do Ugo, o mestre, avisado, desembestou numa carreira digna de campeão olímpico, atravessou toda a Praça da Polícia e embarafustou pela Marcílio Dias, perdendo-se de vista. Ugo logo desistiu da perseguição, menos por cansaço, talvez, do que por sentir vingado em submeter o homenzinho àquele vexame perante toda a comunidade ginasiana.

A turma do Pedro II se reunia na Praça da Prefeitura e era comandada pelos irmãos Abdalla e Mamede Jezini, filhos do dono da Casa Jezini, que funcionava na esquina da 7 de Setembro com Joaquim Sarmento. Eram ambos muito fortes e bons de briga. Mais tarde Abdalla se integrou à turma do Moderno, que era de paz e amor. A princípio, desambientado e privado de sua diversão predileta, introduziu como sucedâneo uma brincadeira chamada de revista. Consistia em reunir um grupo de oito a nove participantes, aos quais se atribuíam postos militares, de soldado raso a coronel.

Essa tropa era passada em revista por um general, quase sempre o Abdalla, que proclamava ter dado pela falta, digamos, do tenente. Este teria que replicar de pronto que não fora ele e sim outro qualquer. Este, por sua vez, teria de atribuir a falta de outro, e assim sucessivamente. Se o detentor de qualquer dos postos demorasse a responder ou se atrapalhasse na resposta, era submetido ao sabacu, o castigo físico aplicado ao infeliz, na forma de pancadas de mão aberta, dadas por todo o grupo, nas costas e na cabeça. Muitos ficavam com os olhos cheios de lágrimas.

Mas antes de se juntar a nós, quando ainda pertencia à turma do Pedro II, Abdalla e outros tiveram um atrito com alguns integrantes da turma da Major Gabriel, e resolveram tirar a coisa a limpo. Seria o confronto definitivo a ser travado num local ermo, livre da interferência da polícia ou de testemunhas. E acertaram a luta para uma hora determinada, à noite, nas proximidades do Clube Amazonense de Resgates. E lá realmente teve lugar a grande batalha campal, que terminou com a derrota das hostes de Ugo. Este, excelente nadador, escapou atirando-se ao rio Negro e voltou para casa pelo Igarapé de Manaus.

Foi a última guerra de turmas de que tive notícia.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (18)


Por Jefferson Peres

Mas nem todos os grandes pelejadores do passado faziam parte dos bandos. Havia também os combatentes solitários, que jamais participavam de ações coletivas. Não que fossem necessariamente anti-sociais. Podiam ser até pessoas perfeitamente integradas ao meio, com um amplo círculo de amigos, mas orgulhosas demais para pedir ou aceitar ajuda de terceiros em suas questões pessoais. Agiam sempre sozinhos, enfrentando e vencendo desafios, por mais difíceis que se apresentassem, E assim, iam criando fama de valentes, com a notícia de suas façanhas ajudando a construir o mito em que se transformavam alguns deles, principalmente aos olhos dos mais novos, que os viam como heróis de carne e osso.

Danilo Silva, que mais tarde adotaria o sobrenome Du Silvan e morreria como promotor público da capital, era um cultor da forma física. Narcisista, praticava barra e halteres e gostava de exibir, vaidoso, o tórax protuberante e os bíceps salientes. Seu campo de treinamento e de exibição era o vasto pátio externo do Ginásio Pedro II, onde estudava.

Ao lado da quadra de basquete havia uma estrutura metálica, de uns quatro metros de altura, dotada de escadas e barras horizontais e verticais, para a prática de exercícios. Todas as manhãs ele comparecia ao local, vestido com um pequeno calção de banho, para dar o seu mini “show”, ante um pequeno público formado por colegas de ambos os sexos, com predominância do feminino.

Certa vez, instado pelas fãs, galgou a escada e, de lá do alto, resolveu bancar o super-herói, saltando para o solo de areia não muito fofa. A proeza custou-lhe fraturas nos pés e uma boa temporada no hospital. Desde, então, operou-se uma notável mudança em Danilo, que substituiu o culto do corpo pelo do espírito, dedicando-se com paixão às atividades literárias.

Mas um pouco antes desse incidente, ele ainda se envolveria num outro episódio do qual se sairia igualmente de maneira pouco airosa. Um tanto agressivo, já se metera em meia dúzia de brigas, que lhe granjearam a fama de valentão, porque levara a melhor em todas, graças aos seus poderosos músculos. Orgulhoso da fama, encimou-se quando um sol maior se levantou, na pessoa de Abdalla Jezini, um dos “cancões de fogo” da cidade.


Um dia, inconformado com a popularidade do rival, Danilo lhe mandou um recado, desafiando-o para uma luta na “Baixa do JG”, um campo de peladas no local onde hoje se ergue o “Palácio do Rádio”. Abdalla prontamente aceitou o desafio e a notícia logo se espalhou.

No dia marcado, uma pequena multidão se aglomerou na Baixa para assistir o combate. E esse público não saiu frustrado. Foi uma luta prolongada e violenta, mas leal. Infelizmente para Danilo, a sorte não o favoreceu. Após uma demorada troca de socos, “gravatas” e pontapés, Abdalla conseguiu afinal dominá-lo, no chão, e castigou-o sem piedade. Danilo retirou-se abatido, com o nariz sangrando e o rosto cheio de hematomas, enquanto Abdalla vivia mais um instante de triunfo.

Dentre todos que adquiram notoriedade naqueles anos, por sua coragem, um sobreleva em minha memória, acima dos demais, talvez por tê-lo conhecido mais de perto. É Alfredo Aguiar, cujo nome completo, como o de Bilac, é também um alexandrino, embora imperfeito: Alfredo Augusto Braga Vieira de Aguiar.

Seu pai era Francisco das Chagas Aguiar, mais conhecido como Chiquito, que, aos trinta anos de idade, assumia a Prefeitura de Manaus, no governo revolucionário de Ribeiro Júnior. Nas poucas semanas que passou a frente da Comuna, não pôde, obviamente, realizar nenhuma obra importante. Mas deixou registrado um episódio denunciador da sua personalidade, dotada de altivez e senso de humor.

Chiquito tinha baixa estatura, ao passo que Ribeiro Jr. era um homenzarrão. Um dia os dois conversaram, de pé, sobre um assunto em torno do qual divergiam. A discussão se acalorou e Ribeiro Jr., exaltado, levantou a voz. Chiquito, igualmente exaltado, replicou: Se você está gritando comigo porque é mais alto do que eu, não seja por isso. A seguir, mais do que depressa, trepou na cadeira mais próxima e concluiu: Agora eu sou mais alto do que você. Tomado de surpresa, o governador não pode deixar de sorrir da audácia e presença de espírito do auxiliar, e a conversa terminou em paz.

Continuaram amigos, como prova o nome de Alfredo, que lhe foi dado em homenagem a Ribeiro Jr. Além do pai, a quem não conheci, outro membro de sua família foi um exemplo dignificante. Seu irmão, Gualter, cujo nome pronuncio com respeito. Sério em tudo que fazia, era dotado de coragem física, que demonstrou com serenidade e firmeza, sempre que necessário, mas sobretudo de coragem moral, comprovada ao longo de sua vida, durante a qual se manteve fiel às suas idéias ante as circunstâncias  mais adversas. E não mudou em seus últimos anos, quando, alquebrado pela doença, soube enfrentar a morte com galhardia.


Não é de surpreender, assim, que Alfredo tenha sido, em sua mocidade, uma figura singular, que despertava ódio, amor, inveja, admiração, mas ao qual não de podia ser indiferente. Ao contrário dos valentões da época, ele não era um arruaceiro vulgar. Não usava armas, não agredia cidadãos pacatos, não provocava os mais fracos e, como já disse, não se acobertava em turmas. Adorava brigar, mas sempre por um bom motivo e arrostando sozinho as consequências. Nem sempre eram questões pessoais. Podia entrar em briga alheia, desde que a causa lhe parecesse justa.

Por outro lado, estava longe de seu um bronco intratável, que julgasse resolver tudo pela força. Era na verdade um intelectual, autodidata com excelente cultura humanística. Produzia pouco, mas quando o fazia se revelara bom articulista e razoável poeta. Pelo menos um de seus sonetos poderia figurar em qualquer antologia. Politizado, comunista militante, defendia suas idéias com paixão e conhecimento de causa. Era um prazer ouvi-lo, em especial quando tratava discussões, que dificilmente perdia, por ser espirituoso, mordaz e dotado de grande agilidade mental.

Sua aparência física era enganadora. Baixo, magro, dava a impressão de frágil. No entanto, era um feixe de músculos, que lhe dava uma força insuspeitada, capaz de derrubar adversários com quase o dobro do seu peso. Além disso, deslocava-se com incrível rapidez durante a briga, sendo muito difícil atingi-lo. E, quando atacava, os punhos eram acionados com grande velocidade e precisão, numa série sucessiva de golpes que podiam decidir a luta em poucos minutos.

Mais do que a destreza e a força física, porém, intimidava seus antagonistas o gênio de Alfredo, que não esquecia agravos nem aceitava derrotas. Levar vantagem sobre ele só podia causar intranquilidade ao vencedor, que tinha de se preparar-se para um segundo round, porque ele iria fatalmente à forra. Conheço inúmeras passagens da vida de Alfredo, das quais me permito contar algumas.

Seu espaço preferido, como o de muitos intelectuais e boêmios, era o triângulo que tinha como vértices o bar da Avenida, na esquina de Eduardo Ribeiro com Saldanha Marinho, o café Leão de Ouro, na esquina de Eduardo Ribeiro com Henrique Martins, e o café A Baratinha, na esquina de Henrique Martins com Joaquim Sarmento.

Dentro desse espaço se continham, ainda, o Café da Paz, com seu grande salão de sinuca, o cine Avenida, três livrarias e, bem próximos, o cine Odeon e as redações de todos os jornais da cidade. Pode-se dizer, portanto, que ali pulsava o coração de Manaus. E Alfredo era seu frequentador diário.


Um dia, ele se encontrava no bar Avenida, quando reclamou do mau atendimento, irritou-se e saiu dizendo que voltaria para promover uma quebradeira. Horas depois, foi informado de que o dono do bar levara a sério a ameaça e pedira a proteção de cinco ou seis guardas-civis armados de cassetetes. Alfredo já tinha esfriado a cabeça e não pretendia cumprir a promessa. Mas não era homem de recusar desafios como aquele.

Sem pensar duas vezes, dirigiu-se ao bar e passou a provocar os guardas, que reagiram com violência. Ele se defendia com cadeiras, socos e pontapés. Mas, em desvantagem, foi recuando até à calçada, onde arrebatou de um dos guardas o cassetete, que passou a usar. E assim, foi batendo e apanhando, até o lado oposto da Eduardo Ribeiro, onde afinal, foi dominado.

A custo, conseguiram levá-lo a Central de Polícia, sendo liberado mais tarde por interferência de Herculano Castro e Costa, jornalista influente e seu amigo. Passados alguns anos, ao comentar comigo o incidente, Alfredo confessava: “Foi a primeira e última vez que enfrentei guardas armados de cassetetes. Pancada de cassetete arde como fogo. Uma semana depois minhas costas ainda doíam.”

Outra vez, estava na Baratinha, tomando uma média, quando acidentalmente derramou café sobre a calça. Aborrecido, arremessou a xícara à rua. Encontrava-se no café um português, recém-chegado de Portugal, que estava em negociações para arrendar o estabelecimento. Alto e corpulento, o homem de dirigiu a Alfredo, rispidamente, para censurar o seu gesto. Houve o revide, em seguida os dois se engalfinharam e o português conseguiu prender a cabeça do antagonista sob uma forte gravata.

Com muito esforço, os circunstantes conseguiram apartar os contendores e Alfredo foi levado para fora do café por um de seus amigos. Mas, para ele a briga não tinha terminado. Antes de andar meio quarteirão, parou, deu meia-volta e retornou ao café, indo direto ao português, que atingiu com poderoso murro. O homem desabou. Foi tão grande o susto, que desistiu da Baratinha e do Brasil. Semanas depois, voltou para Portugal.

Havia em Manaus, um jornalista, também do gênio explosivo e que habitualmente usava um revólver à cintura. Ao saber que Alfredo havia dado uns tapas em alguém, comentou que com ele seria diferente. Alfredo soube do comentário e passou a caçar o homem.

Uma tarde, ao entrar no bar Americano, tranquilo e decadente, deparou com o próprio, que bebia cerveja em companhia de um amigo. Alfredo nem se deu ao trabalho de interpelar o homem. De dedo em riste, atacou: “Você disse que com você ia ser diferente. E vai ser. Moleque da sua espécie não merece apanhar de tapa.”

A seguir, pegou uma das mãos do outro, espalmou-a e, com os dedos de sua mão direita, aplicou-lhe meia dúzia de sonoros bolos. E retirou-se sem olhar para trás, sem verificar sequer se o homem estava armado.


Por mais de uma vez saiu em defesa de outros, mais fracos, sem ter nada com a briga. Assim aconteceu uma noite, quando lia tranquilamente, numa garçonière na Rua Miranda Leão. De repente, o silêncio foi quebrado pelo som de vozes alteradas que vinham do quarto fronteiro. Seguiu-se um ruído de luta, acompanhado de choro e de grito de uma mulher a pedir socorro.

Alfredo, cavalheiresco, não era homem para deixar sem resposta os apelos de uma dama. E foi bater na porta do quarto, que se abriu, mostrando uma mulher em prantos e um homem forte e mal-encarado, que recebeu o indesejado visitante com quatro pedras na mão. Discutiram e o desconhecido, furioso, partiu para a agressão, que lhe custou muito caro. Levou tremenda surra e teve de ser medicado no Pronto-Socorro. Provavelmente nunca mais bateu em mulher nenhuma.

Somente uma vez Alfredo fugiu a um desafio. O autor da proeza foi Pedro Santiago de Amorim, ou Augusto Sandino, pseudônimo que utilizava em sua mocidade, quando se apresentava em show cantando árias de óperas famosas e canções napolitanas, com sérias pretensões de se tornar um novo Caruso. Meu amigo de infância, sempre foi um excelente caráter, por isso dado a certas quixotadas.

Pedro era colega de Alfredo na antiga Delegacia Fiscal, onde tinha seu cargo a elaboração das folhas de pagamento. Um dia apareceu uma diferença a menor nos vencimentos de Alfredo, que reclamou, exigindo que fizessem a retificação, do contrário ele próprio a faria. Pedro, franzino e baixinho, devia pesar uns quarenta quilos, podendo ser derrubado com um sopro. Mas nem assim se intimidou. Pondo-se de pé, encarou o formidável competidor e, teatral, desafiou: “Nunca! Só se passar por cima do meu cadáver!” Alfredo ainda cerrou o punho, mas logo percebeu que se aplicasse o murro estaria cometendo homicídio. Preferiu engolir a raiva e retira-se, deixando o Pedro gozar, deliciado, o seu dia de herói.

Mas nem todas as passagens curiosas da vida de Alfredo estão relacionadas com brigas. Como já observei, tinha um apurado senso de humor e vivia a maquinar brincadeiras, inclusive a pregada em Adaucto Rocha não foi a única nem a maior. Uma noite, ele e Pedro Lemos (tinha que ser!), em frente à redação de O Jornal, na Eduardo Ribeiro, tiveram a idéia de aprontar uma com Álvaro Bandeira de Melo, pacato e ilustre cidadão que morava do outro lado da avenida, nos altos de um prédio hoje reformado.


Começaram com um telefonema para a Garagem Esportiva, pedindo um carro de praça. Em seguida chamaram a Polícia, para prender um ladrão que estaria tentando arrombar uma casa. Ligaram, a seguir, para o Pronto-Socorro, pedindo a ambulância para atender a um caso de urgência. E, finalmente, deram um quarto telefonema para o Corpo de Bombeiros, comunicando um incêndio. Em todas essas chamadas forneceram o endereço de Álvaro. Em poucos instantes a confusão estava formada. O motorista de praça ficou algum tempo batendo na porta, sem ser atendido, porque o dono da casa havia saído com a mulher.

Nesse momento chega a polícia no carro celular, a velha Manduquinha, e dá voz de prisão ao motorista, que se rebela. Logo chega a ambulância, com a sirene uivando, seguida do carro de bombeiros com o sino tocando. Ao retornar a casa, em companhia da excelentíssima, Álvaro encontrou o pandemônio formado, e por pouco não precisou dos serviços da ambulância. Creio que morreu sem descobrir os autores da façanha, que naquela noite, da porta do jornal, se divertiam a valer.

Outra das suas brincadeiras teve, contudo, inspiração mais generosa. Aconteceu no bar Avenida, onde também funcionava um restaurante. Os garçons, cumprindo ordem superior, passaram a mover campanha sistemática contra os pequenos engraxates que ofereciam seus serviços aos frequentadores. Alguns dos garotos, mais insistentes, eram escorraçados aos empurrões e com xingamentos humilhantes. Alfredo foi inchando e um dia resolveu dar uma lição ao proprietário e a seus fiéis serviçais.

A pretexto de homenagear autoridades e políticos, inclusive o senador Cunha Melo, encomendou um jantar de trinta ou quarenta talheres, com um cardápio dos melhores. Na noite marcada, para surpresa e desgosto do dono e de seus empregados, o restaurante era invadido não por convidados ilustres, mas por um enxame de engraxates, que tomaram assento à mesa caprichosamente arrumada, com o anfitrião, rejubilado, à cabeceira. O jantar decorreu sem incidentes, mas o proprietário vingou-se cobrando o dobro do prelo usual, que Alfredo pagou sem discutir, feliz como uma criança.

Nunca mais vi Alfredo Aguiar, o bravo guerreiro, agora em repouso. Não sei que marcas a vida lhe terá imprimido. Sejam quais forem, serão amenizadas, certamente, pelas recordações de que soube fazer de sua juventude não uma caminhada de cinzenta monotonia, mas antes uma alegre cavalgada com sabor de aventura.