Pesquisar este blog

sexta-feira, agosto 07, 2026

Telecoteco do Balacabaco - Canto 5

 


5. Os ranchos carnavalescos começaram a surgir no Rio de Janeiro no final do século 19, embora ninguém pareça ter conseguido chegar a um acordo sobre a data exata. Há quem diga 1872, outros juram que foi em 1895 ou 1896. Como acontece com quase tudo relacionado ao carnaval, a confusão já fazia parte da festa desde o nascimento. 

No começo, os ranchos lembravam muito as manifestações populares do Nordeste. Formavam cortejos carregados de símbolos, estandartes e uma respeitável coleção de instrumentos que desafiavam qualquer definição acadêmica de orquestra. Violões, violas, ganzás, pratos, castanholas e algumas flautas se juntavam para acompanhar chulas de origem africana, cantadas com uma inocência que o carnaval perderia para sempre nas décadas seguintes.

Os ranchos eram os verdadeiros aristocratas da folia popular. Diferentemente das futuras escolas de samba, que fariam do batuque uma ciência exata, os ranchos apostavam na organização, na disciplina e em músicas cuidadosamente preparadas. Cada desfile trazia composições inéditas, como se os compositores passassem o ano inteiro trabalhando para que milhões de brasileiros esquecessem tudo três dias depois.

Entre 1919 e 1939, os ranchos viveram sua era de ouro. E que ouro. Fantasias luxuosas, esplendores gigantescos presos às costas dos participantes, pórticos, painéis pintados e personagens que pareciam ter escapado de uma ópera europeia perdida nos trópicos. Havia damas, cavalheiros, mestres de manobra, mestres-sala, porta-estandartes, alegorias e comissões de frente. Era praticamente um desfile militar organizado por cenógrafos, figurinistas e poetas.

Mas quem realmente gostava de exagerar eram as chamadas grandes sociedades carnavalescas. Seus carros alegóricos circulavam abarrotados de moças bonitas, deuses gregos, heróis nacionais, figuras históricas e alegorias tão grandiosas que provavelmente nem os próprios organizadores sabiam exatamente o que representavam. No encerramento, surgiam os famosos carros de crítica política, demonstrando que o brasileiro já fazia memes gigantes sobre rodas muito antes da invenção da internet.

As agremiações tinham nomes discretos e modestos, como Tenentes do Diabo, Fenianos, Pierrôs da Caverna, Kananga do Japão, Democráticos e Embaixadores. Ninguém queria parecer uma associação recreativa. O objetivo era soar como uma mistura de sociedade secreta, confraria boêmia e organização revolucionária.

O coração da festa pulsava na Avenida Rio Branco. Ali se reunia uma multidão que transformava o centro da cidade numa espécie de teatro a céu aberto. Já a classe média alta preferia se acomodar em áreas mais elegantes, próximo ao Jóquei Clube, observando a folia a uma distância segura. Afinal, carnaval era muito bonito, desde que não amassasse a roupa nem obrigasse alguém a dividir espaço com o povão.

Muitos levavam cadeiras e banquinhos para assistir aos desfiles. Era o ancestral remoto das cadeiras de praia, com a diferença de que, naquela época, o espetáculo não era o pôr do sol, mas milhares de foliões tentando superar uns aos outros em fantasia, animação e capacidade de permanecer acordados.

A segunda-feira de carnaval possuía um atrativo especial. Além dos ranchos iluminados por fogos coloridos, havia o tradicional desfile involuntário dos frequentadores do baile do Teatro Municipal. A elite saía fantasiada acreditando ser a atração principal da noite, enquanto o povo se aglomerava para observá-los como quem visita uma exposição de espécies raras.

Enquanto isso, na famosa Galeria Cruzeiro, o carnaval fervia ao som das músicas lançadas pelos teatros de revista e pelas emissoras de rádio. Era o equivalente da época às playlists virais, só que com muito mais suor e infinitamente menos algoritmos.

Com o desaparecimento gradual dos cordões, começaram a surgir os blocos carnavalescos. Menos pomposos, menos organizados e muito mais próximos daquilo que o brasileiro faz de melhor: reunir amigos, improvisar e descobrir depois como tudo vai funcionar. Alguns se estruturaram dentro das comunidades e deram origem aos blocos de samba. Outros abraçaram definitivamente o caos criativo e ficaram conhecidos como blocos de sujos.

Dos blocos de samba nasceram gigantes do carnaval carioca. O Vai Como Pode virou Portela. O Arengueiros transformou-se em Mangueira. O Prazer da Serrinha deu origem ao Império Serrano. O que prova que muitas das maiores instituições do país começaram exatamente como costumam começar as melhores ideias brasileiras: sem planejamento estratégico, sem consultoria e sem a menor noção de onde aquilo iria parar.

Já os blocos de sujos seguiram outro caminho. Deles surgiram os famosos clóvis, ou bate-bolas. Segundo os estudiosos, o nome deriva da palavra inglesa “clown”. Segundo o folião médio, deriva provavelmente da capacidade que essas figuras tinham de assustar crianças e adultos com igual eficiência.

Os clóvis lembravam antigos arlequins medievais, personagens que carregavam bastões e, em épocas menos civilizadas, bexigas cheias de urina para arremessar nos desafortunados que cruzassem seu caminho. Em outras palavras, eram a prova definitiva de que o conceito de “brincadeira carnavalesca” já foi interpretado de maneira bastante flexível ao longo da história.

Outros blocos de sujos, como os de mascarados e nega maluca, também conquistaram espaço no carnaval de rua. Eram manifestações em que a improvisação reinava absoluta, a organização era tratada como um detalhe dispensável e o improviso resolvia tudo. Ou quase tudo.

Porque, no fundo, essa talvez seja a maior invenção do carnaval brasileiro: transformar a desordem em tradição, o improviso em patrimônio cultural e a bagunça em espetáculo. E fazer isso com tanta convicção que ninguém ousa chamar de confusão. Chamamos de folia.

Nenhum comentário: