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quinta-feira, agosto 06, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 4

 


4. Os bailes carnavalescos de antigamente eram uma verdadeira salada musical sem qualquer compromisso com a coerência. Tocava-se de tudo: polca, lundu, tango safado, samba, marchinha, frevo, jongo, cateretê e o que mais aparecesse pela frente. Ninguém parecia preocupado em saber se os ritmos combinavam entre si. O importante era cantar, pular, fazer cordão e esquecer por alguns dias que a vida real continuava esperando logo ali na quarta-feira de cinzas.

Mas nada se comparava aos famosos banhos de mar à fantasia, uma invenção que só poderia ter surgido de uma época em que as pessoas encaravam o ridículo com muito mais entusiasmo do que hoje. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, multidões vestiam fantasias de papel-crepom, desfilavam orgulhosamente pelas praias e, em seguida, mergulhavam no mar.

O resultado era previsível: em poucos minutos, as fantasias começavam a desmanchar e a água adquiria tonalidades que fariam qualquer órgão ambiental moderno entrar em estado de alerta máximo. Felizmente, os foliões usavam roupa de banho por baixo, evitando que o espetáculo terminasse num escândalo ainda maior do que já era.

Enquanto isso, a indústria internacional da bagunça fazia sua contribuição para o progresso do carnaval brasileiro. A França mandou a serpentina em 1892. A Espanha respondeu enviando o confete no mesmo ano. E a França, aparentemente inconformada em perder a disputa, despachou em 1903 o lança-perfume, uma engenhoca carregada de éter perfumado destinada a transformar qualquer salão de baile numa mistura de perfumaria, laboratório químico e campo experimental de paquera.

Essas três maravilhas da civilização ocidental ajudaram a impulsionar os corsos, espécie de desfile motorizado onde a elite da época descobriu que era possível exibir seus automóveis e sua animação ao mesmo tempo. Os carros conversíveis desfilavam enfeitados com bandeirolas, panos coloridos e passageiros estrategicamente acomodados em qualquer lugar disponível, inclusive sobre a capota rebaixada. As moças, sempre observadas com especial interesse pela plateia masculina, exibiam fantasias e saias que provocavam mais comentários do que muitos discursos parlamentares da época.

Nas calçadas, o povo se apertava para assistir ao espetáculo. Nos carros, os foliões travavam verdadeiras guerras de confete e serpentina. Ao final da noite, as avenidas pareciam ter sido atacadas por uma fábrica de papel enlouquecida. Quilômetros de serpentina se enroscavam nos veículos, montanhas de confete cobriam o chão e litros de lança-perfume evaporavam alegremente enquanto desconhecidos se transformavam em conhecidos, conhecidos viravam namorados e alguns namorados provavelmente viravam problemas para resolver depois do carnaval.

No Rio de Janeiro, o corso tomava conta da Avenida Rio Branco e avançava até a Beira-Mar, Flamengo e Botafogo. Era um desfile onde a velocidade não interessava a ninguém. Afinal, o objetivo não era chegar a algum lugar, mas exibir-se pelo maior tempo possível. Como toda moda baseada na ostentação pública, o corso acabou vítima do progresso. Os carros fechados e as limusines decretaram o fim da festa motorizada. Ficou difícil jogar serpentina pela janela quando o automóvel parecia mais um cofre ambulante do que um carro de carnaval.

Restaram então as batalhas de confete, que funcionavam como uma espécie de Copa do Mundo da folia de bairro. Durante semanas, blocos e torcidas organizavam festas preparatórias, consumindo quantidades industriais de confete, serpentina e lança-perfume. As disputas envolviam canto, dança, animação e, principalmente, a eterna competição para provar que o bloco rival não passava de um bando de foliões sem ritmo e sem futuro. Muitas dessas batalhas atravessavam a madrugada e avançavam até o amanhecer.

Em alguns casos, a empolgação era tão grande que superava a dos próprios dias oficiais de carnaval. Era o Brasil mostrando mais uma vez seu talento histórico para transformar qualquer reunião de amigos, um pouco de música e uma quantidade irresponsável de papel picado numa celebração digna de entrar para a história.

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