4. Os bailes carnavalescos de antigamente
eram uma verdadeira salada musical sem qualquer compromisso com a coerência.
Tocava-se de tudo: polca, lundu, tango safado, samba, marchinha, frevo, jongo,
cateretê e o que mais aparecesse pela frente. Ninguém parecia preocupado em
saber se os ritmos combinavam entre si. O importante era cantar, pular, fazer
cordão e esquecer por alguns dias que a vida real continuava esperando logo ali
na quarta-feira de cinzas.
Mas nada se
comparava aos famosos banhos de mar à fantasia, uma invenção que só poderia ter
surgido de uma época em que as pessoas encaravam o ridículo com muito mais
entusiasmo do que hoje. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, multidões
vestiam fantasias de papel-crepom, desfilavam orgulhosamente pelas praias e, em
seguida, mergulhavam no mar.
O resultado era
previsível: em poucos minutos, as fantasias começavam a desmanchar e a água
adquiria tonalidades que fariam qualquer órgão ambiental moderno entrar em
estado de alerta máximo. Felizmente, os foliões usavam roupa de banho por
baixo, evitando que o espetáculo terminasse num escândalo ainda maior do que já
era.
Enquanto isso,
a indústria internacional da bagunça fazia sua contribuição para o progresso do
carnaval brasileiro. A França mandou a serpentina em 1892. A Espanha respondeu
enviando o confete no mesmo ano. E a França, aparentemente inconformada em
perder a disputa, despachou em 1903 o lança-perfume, uma engenhoca carregada de
éter perfumado destinada a transformar qualquer salão de baile numa mistura de
perfumaria, laboratório químico e campo experimental de paquera.
Essas três
maravilhas da civilização ocidental ajudaram a impulsionar os corsos, espécie
de desfile motorizado onde a elite da época descobriu que era possível exibir
seus automóveis e sua animação ao mesmo tempo. Os carros conversíveis
desfilavam enfeitados com bandeirolas, panos coloridos e passageiros
estrategicamente acomodados em qualquer lugar disponível, inclusive sobre a
capota rebaixada. As moças, sempre observadas com especial interesse pela
plateia masculina, exibiam fantasias e saias que provocavam mais comentários do
que muitos discursos parlamentares da época.
Nas calçadas, o
povo se apertava para assistir ao espetáculo. Nos carros, os foliões travavam
verdadeiras guerras de confete e serpentina. Ao final da noite, as avenidas
pareciam ter sido atacadas por uma fábrica de papel enlouquecida. Quilômetros
de serpentina se enroscavam nos veículos, montanhas de confete cobriam o chão e
litros de lança-perfume evaporavam alegremente enquanto desconhecidos se
transformavam em conhecidos, conhecidos viravam namorados e alguns namorados
provavelmente viravam problemas para resolver depois do carnaval.
No Rio de
Janeiro, o corso tomava conta da Avenida Rio Branco e avançava até a Beira-Mar,
Flamengo e Botafogo. Era um desfile onde a velocidade não interessava a
ninguém. Afinal, o objetivo não era chegar a algum lugar, mas exibir-se pelo
maior tempo possível. Como toda moda baseada na ostentação pública, o corso
acabou vítima do progresso. Os carros fechados e as limusines decretaram o fim
da festa motorizada. Ficou difícil jogar serpentina pela janela quando o
automóvel parecia mais um cofre ambulante do que um carro de carnaval.
Restaram então
as batalhas de confete, que funcionavam como uma espécie de Copa do Mundo da
folia de bairro. Durante semanas, blocos e torcidas organizavam festas
preparatórias, consumindo quantidades industriais de confete, serpentina e
lança-perfume. As disputas envolviam canto, dança, animação e, principalmente,
a eterna competição para provar que o bloco rival não passava de um bando de
foliões sem ritmo e sem futuro. Muitas dessas batalhas atravessavam a madrugada
e avançavam até o amanhecer.
Em alguns
casos, a empolgação era tão grande que superava a dos próprios dias oficiais de
carnaval. Era o Brasil mostrando mais uma vez seu talento histórico para
transformar qualquer reunião de amigos, um pouco de música e uma quantidade
irresponsável de papel picado numa celebração digna de entrar para a história.

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