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sexta-feira, agosto 07, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 6

 


6. Na década de 1960, enquanto os ranchos agonizavam lentamente e as grandes sociedades caminhavam para o museu das boas lembranças, os blocos carnavalescos perceberam que, no Brasil, até a bagunça precisa de estatuto, diretoria e ata de fundação.

Assim nasceu, em 28 de setembro de 1965, a Federação dos Blocos Carnavalescos. A ideia era simples: organizar aquilo que havia sido criado justamente para escapar da organização. Surgiram então duas categorias.

De um lado, os blocos de enredo, que sonhavam em ser escolas de samba quando crescessem. Do outro, os blocos de empolgação, cuja principal virtude era não complicar o que já funcionava muito bem: gente cantando, bebendo, dançando e ocupando as ruas sem pedir licença a ninguém.

Entre os mais famosos estavam o Bafo de Onça (foto), o Cacique de Ramos, os Boêmios do Irajá e o Cordão do Bola Preta, sobreviventes de uma linhagem carnavalesca que sempre preferiu a alegria ao regulamento, embora acabasse inevitavelmente produzindo ambos.

O Bafo de Onça foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria, um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião tinha ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de Cinzas.

Ocorre que o seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, claro, nasceu prontinho.

As escolas de samba, por sua vez, nasceram bem longe dos camarotes, dos patrocínios milionários e das transmissões televisivas. Surgiram nos redutos populares do Rio de Janeiro, frequentados quase exclusivamente por negros pobres que se reuniam para tocar samba, dançar e preservar costumes herdados da África.

Era uma atividade considerada suspeita pelas autoridades da época, que enxergavam crime em qualquer reunião de pessoas pobres que demonstrasse estar se divertindo demais.

A polícia reprimia. Os sambistas resistiam. A polícia voltava. Os sambistas continuavam sambando. Foi uma disputa longa, mas o samba possuía uma vantagem estratégica decisiva: era muito mais divertido.

A chegada de migrantes nordestinos ao Rio de Janeiro, no final do século 19, ajudou a dar forma e organização a esses agrupamentos. Em outras palavras, enquanto a elite discutia projetos para modernizar a cidade, o povo tratava de modernizar o carnaval.

Curiosamente, as escolas de samba nem sequer se chamavam escolas de samba. O termo só surgiu em 1928, quando Ismael Silva fundou a Deixa Falar, no Estácio. Como a sede ficava próxima de uma Escola Normal, os sambistas passaram a brincar dizendo que também eram professores. A piada pegou. Como tantas coisas no Brasil, uma das instituições culturais mais importantes do país nasceu de uma brincadeira.

Logo vieram outras escolas, como Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. Naquela época, porém, elas estavam muito longe dos espetáculos cinematográficos atuais.

Eram parecidas com blocos e cordões, sem grandes preocupações coreográficas, sem alegorias monumentais e, principalmente, sem a obsessão competitiva que mais tarde transformaria o desfile numa espécie de Copa do Mundo do brilho, da pluma e do isopor. Mas o crescimento foi inevitável.

Aos poucos, as escolas deixaram de ser simples agrupamentos de bairro para se transformar em organizações complexas. A partir dos anos 1960, administrar uma escola de samba já exigia habilidades equivalentes às de um executivo de multinacional. Era preciso arrecadar dinheiro, organizar eventos, contratar serviços, administrar conflitos internos, coordenar milhares de pessoas e ainda garantir que ninguém esquecesse a letra do samba-enredo na hora decisiva.

Nascia, assim, um fenômeno tipicamente brasileiro: uma manifestação popular criada para celebrar a espontaneidade que acabou exigindo planejamento estratégico, cronograma, orçamento, logística e gestão de pessoas.

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