6. Na década de 1960, enquanto os ranchos
agonizavam lentamente e as grandes sociedades caminhavam para o museu das boas
lembranças, os blocos carnavalescos perceberam que, no Brasil, até a bagunça
precisa de estatuto, diretoria e ata de fundação.
Assim nasceu,
em 28 de setembro de 1965, a Federação dos Blocos Carnavalescos. A ideia era
simples: organizar aquilo que havia sido criado justamente para escapar da
organização. Surgiram então duas categorias.
De um lado, os
blocos de enredo, que sonhavam em ser escolas de samba quando crescessem. Do
outro, os blocos de empolgação, cuja principal virtude era não complicar o que
já funcionava muito bem: gente cantando, bebendo, dançando e ocupando as ruas
sem pedir licença a ninguém.
Entre os mais
famosos estavam o Bafo de Onça (foto), o Cacique de Ramos, os Boêmios do Irajá e o
Cordão do Bola Preta, sobreviventes de uma linhagem carnavalesca que sempre
preferiu a alegria ao regulamento, embora acabasse inevitavelmente produzindo
ambos.
O Bafo de Onça
foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos
anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado
Sebastião Maria, um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma
espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado
de onça-pintada.
Seu Tião tinha
ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas
fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o
início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de
Cinzas.
Ocorre que o
seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as
festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das
carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram
criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome
do bloco, claro, nasceu prontinho.
As escolas de
samba, por sua vez, nasceram bem longe dos camarotes, dos patrocínios
milionários e das transmissões televisivas. Surgiram nos redutos populares do
Rio de Janeiro, frequentados quase exclusivamente por negros pobres que se
reuniam para tocar samba, dançar e preservar costumes herdados da África.
Era uma
atividade considerada suspeita pelas autoridades da época, que enxergavam crime
em qualquer reunião de pessoas pobres que demonstrasse estar se divertindo
demais.
A polícia
reprimia. Os sambistas resistiam. A polícia voltava. Os sambistas continuavam
sambando. Foi uma disputa longa, mas o samba possuía uma vantagem estratégica
decisiva: era muito mais divertido.
A chegada de
migrantes nordestinos ao Rio de Janeiro, no final do século 19, ajudou a dar
forma e organização a esses agrupamentos. Em outras palavras, enquanto a elite
discutia projetos para modernizar a cidade, o povo tratava de modernizar o
carnaval.
Curiosamente,
as escolas de samba nem sequer se chamavam escolas de samba. O termo só surgiu
em 1928, quando Ismael Silva fundou a Deixa Falar, no Estácio. Como a sede
ficava próxima de uma Escola Normal, os sambistas passaram a brincar dizendo
que também eram professores. A piada pegou. Como tantas coisas no Brasil, uma
das instituições culturais mais importantes do país nasceu de uma brincadeira.
Logo vieram
outras escolas, como Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. Naquela época,
porém, elas estavam muito longe dos espetáculos cinematográficos atuais.
Eram parecidas
com blocos e cordões, sem grandes preocupações coreográficas, sem alegorias
monumentais e, principalmente, sem a obsessão competitiva que mais tarde
transformaria o desfile numa espécie de Copa do Mundo do brilho, da pluma e do
isopor. Mas o crescimento foi inevitável.
Aos poucos, as
escolas deixaram de ser simples agrupamentos de bairro para se transformar em
organizações complexas. A partir dos anos 1960, administrar uma escola de samba
já exigia habilidades equivalentes às de um executivo de multinacional. Era
preciso arrecadar dinheiro, organizar eventos, contratar serviços, administrar
conflitos internos, coordenar milhares de pessoas e ainda garantir que ninguém
esquecesse a letra do samba-enredo na hora decisiva.
Nascia, assim,
um fenômeno tipicamente brasileiro: uma manifestação popular criada para
celebrar a espontaneidade que acabou exigindo planejamento estratégico,
cronograma, orçamento, logística e gestão de pessoas.

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