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terça-feira, dezembro 14, 2010

Cabeça e coração

por Sérgio Augusto

E se eu lhe dissesse que Orson Welles era botafoguense? Você, possivelmente, dirá que estou mentindo ou delirando.

Primeiro, porque Orson Welles não se interessava por esportes. Segundo, porque quando passou seis meses no Brasil nunca o levaram a um campo de futebol. Terceiro, porque se estimulado a fazer média com algum clube nativo, o escolhido, provavelmente, teria sido o Fluminense, o bicampeão da cidade quando o cineasta desembarcou no Rio, em fevereiro de 1942, para filmar o malogrado documentário It's All True.

OK, admito: é mentira. Um delírio da minha imaginação, desvairada por um exemplar de 1968 do Livro de Cabeceira do Homem, que há tempos avistei na vitrina da livraria Dantes, simpático sebo do Leblon cujo livreiro, Flamínio Lobo, não por acaso, é botafoguense.

Claro que aquela edição específica estava exposta com tamanho destaque porque em sua capa cintilava o escudo do Botafogo. Claro que ao vislumbrar, dentro da estrela solitária, o rosto de Orson Welles, pensei em voz alta: “Eu bem que desconfiava.” E, antes que fosse tarde demais, entrei na livraria e arrematei o precioso volume.

Bastou abri-lo para verificar que o cineasta, infelizmente, nada tinha a ver com o grêmio de General Severiano. Sua presença na capa se devia a uma célebre entrevista, concedida ao crítico e dramaturgo inglês Kenneth Tynan, que a revista traduzira. Apesar do nome, o Livro de Cabeceira do Homem era uma revista em formato de livro.

Quanto ao escudo do Botafogo, outro entrevistado justificava sua presença: Carlos Roberto, aquele incansável meio-de-campo alvinegro que carregava piano para o Gerson e parecia fadado a brilhar também na Copa do Mundo que aconteceria dois anos depois, no México.

Mas não houve jeito: hipnotizado pela sincrética imagem de Welles e a estrela solitária, voltei para casa convencido de que o diretor de Cidadão Kane e o Botafogo haviam sido feitos um para o outro. Quem conhece a dramática trajetória dos dois há de concordar comigo.

O que diria dessa fantasia o poeta Paulo Mendes Campos? Como ele era vivo em 1968, é bem possível que tenha lido aquele Livro de Cabeceira do Homem e também idealizado a falstaffiana figura de Welles entre os torcedores do Glorioso, quiçá como chefe da torcida, que luxo!

Pois ninguém gostava mais de brincar de “adivinhar” os times do coração (ou da alma) de artistas, poetas e escritores do que Paulinho. Segundo ele, Michelangelo, por exemplo, era Botafogo. Assim como Stendhal, Bach, Dostoievski e Rimbaud. Já Rafael, Flaubert, Mozart, Baudelaire e Machado de Assis eram Fluminense. Leonardo Da Vinci era Flamengo. Balzac, Beethoven, Tolstoi e Verlaine, também. Por incrível que pareça, Camões não era Vasco, mas Flamengo.

Paulinho, como se sabe, era visceralmente alvinegro. “Partilhamos defeitos e qualidades comuns”, confessou numa crônica. Para em seguida enumerá-los:

“Nos meus torneios, quando mais preciso manter os números do placar, bobeio num lance, faço gol contra, comprometo, tal qual o Botafogo, uma difícil campanha.

A mim e a ele soem acontecer sumidouros de depressão, dos quais irrompemos eventualmente para a euforia de uma tarde luminosa.

Sou preto e branco também, quero dizer, me destroço para pinçar nas pontas do mesmo compasso os dualismos do mundo, não aceito o maniqueísmo do bem e do mal, antes me obstino em admitir que no branco existe o preto e no preto, o branco.

(...)

O Botafogo é de futebol e regatas; também eu sou de bola e de penosas travessias aquáticas.

O Botafogo é um clube com temperamento amadorístico, mas forçado, a fim de não ser engolido pelas feras, a profissionalizar-se ao máximo; também sou cem por cento um coração amador, compelido a viver a troco de soldo.

Reagimos ambos quando menos se espera; forra-nos, sem dúvida, um estofo neurótico. Se a vida fosse lógica, o Botafogo deixaria de levar o futebol a sério, fechando suas portas; eu, se a vida fosse lógica, deixaria de levar o mundo a sério, fechando os meus olhos.

O Botafogo é capaz de quebrar lanças por um companheiro injustiçado pela Federação; eu aguardo a azagaia de uma justiça geral.

(...)

O Botafogo é capaz de cometer uma injustiça brutal a um filho seu, e rasgar as vestes com as unhas do remorso; como eu.

O Botafogo põe gravata e vai à macumba cuidar de seu destino; eu meto o calção de banho e vou à praia discutir com Deus.

O Botafogo não se dá bem com os limites do sistema tático; tem que ser como eu, dramaticamente inventado na hora.

(...)

O Botafogo é paixão, é Brasil, é confusão; Campos Paulo Mendes é paixão, Brasil, confusão.

O Botafogo conquistou um campeonato esmagando inesperadamente o Fluminense de 6 a 2; uma vez, enfrentei um dragão enorme e entrei no castelo encantado.

O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu; o Botafogo sem Garrincha seria menos Botafogo, como eu; o Botafogo tem um pé em Minas Gerais, como eu; o Botafogo tem um possesso, como eu; o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu; ultimamente, o Botafogo anda cheio de cobras e lagartos, como eu.

O Botafogo é mais abstrato do que concreto; tem folhas secas; alterna o fervor com a indolência; às vezes, estranhamente, sai de uma derrota feia mais orgulhoso e mais botafogo do que se houvesse vencido; tudo isso, eu também.

Enfim, senhoras e senhores, o Botafogo é um tanto tantã (que nem eu). E a insígnia de meu coração é também (literatura) uma estrela solitária.”

Em nenhum momento de sua vida Paulinho queixou-se da burrice de seu alter ego de chuteiras. Para ele, nem o mais incompetente plantel botafoguense merecia ser chamado de burro. Verdade que não viveu o bastante para conhecer a equipe que atuou no Brasileirão de 2002, mas é possível que mesmo diante dela resistisse à tentação de sublimar um time de sumidades, vestido com o uniforme alvinegro, como fez o jornalista inglês Mark Perryman com a alva camisa do Tottenham Hotspur.

Fanático torcedor do Hotspur, Perryman um dia desesperou-se com a estupidez de seus jogadores e resolveu substituí-los na imaginação, idealizando um dream team, um time dos sonhos, com craques do espírito, do goleiro ao ponta-esquerda: um autêntico escrete-cabeça de que jamais pudesse se envergonhar.

A camisa número 1, entregou-a a Albert Camus, sem dúvida o goleiro com maior Q.I. da história do futebol, pois antes de virar o escritor, ensaísta, dramaturgo e pensador que todos admiramos, Camus defendeu muita bola num time amador argelino.

Na zaga, dois beques da pesada: os filósofos Friedrich Nietzsche e Ludwig Wittgenstein. Na lateral-direita, Simone de Beauvoir. Do outro lado, mais um parisiense da Rive Gauche, Jean Baudrillard.

Dividindo a intermediária e o meio-de-campo, William Shakespeare e o chinês Sun Tzu. Na ponta-direita, Oscar Wilde. Na esquerda, o jamaicano Bob Marley. Enfiados no miolo do ataque, dois aríetes italianos: Umberto Eco e Antônio Gramsci.

Para montar seu dream team, Perryman foi obrigado a recorrer a nove craques estrangeiros. Nem os súditos da Coroa britânica que integravam a equipe torciam pelo Hotspur, que, aliás, ainda não fazia parte da liga inglesa quando Wilde era uma espécie de Garrincha da eloqüência nos salões londrinos.

É nisso que dá torcer por um clube sem tradições. Digo mais: sem as tradições do Botafogo. Vou mais longe: sem as tradições intelectuais do Botafogo.

Se os botafoguenses quisessem e a necessidade os obrigasse a tanto, poderiam montar um dream team - aliás, mais de um dream team - só com craques do espírito, afetiva e efetivamente ligados ao Botafogo.

A fama do Botafogo como clube de intelectuais só em parte se deve ao fato de que em suas linhas, ao longo dos anos e às vezes simultaneamente, atuaram jovens com curso superior completo, como os médicos Carvalho Leite, Álvaro Lopes Cançado (o popular Nariz) e o Afonsinho da década de 1960, o advogado Heleno de Freitas, o engenheiro Luiz Menezes e o arquiteto Otávio de Morais. Esse acúmulo de jogadores com formação universitária apenas reforçou uma reputação cujas origens remontam ao início do século passado.

Em 1916, quando os cinco times mais importantes do Rio organizaram um festivo quadrangular com equipes formadas por jogadores veteranos e alguns dirigentes, o Fluminense entrou em campo com o apelido de Hipotéticos, o Flamengo com o de Aquáticos e o América com o de Utopistas.

Embora fizesse jus ao cognome dado ao Flamengo, que até como clube de regatas nasceu depois do Botafogo, coube ao grêmio da estrela solitária o epíteto de Teóricos. Coincidência ou não, os Teóricos levaram a melhor no torneio. E ainda ficaram com o troféu de artilheiro, conquistado por Paulo Azeredo, campeão infantil em 1910, já veterano em 1916, e três vezes presidente do clube nas cinco décadas seguintes.

Schmidt, Bilac e Vinicius, Paulinho, Sabino e Clarice; Glauber, Otto, Verissimo, Ivan e Antônio Cândido.

Que tal este time? Tão atemporal e espetacular ele é que até me permiti armá-lo à antiga, como os times de futebol do período 1880-1925 e os de botão da minha infância, com dois zagueiros, três jogadores na intermediária e cinco atacantes.

Schmidt é o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt, golquíper de praia e dirigente do Botafogo, responsável direto pela fusão do Club de Regatas Botafogo com o Botafogo Football Club - além de autor de um livro de poesias intitulado Estrela Solitária. Bilac é o poeta Olavo Bilac, botafoguense histórico.

Vinicius é o de Moraes, o incomparável bardo da Bossa Nova, que assim reagiu quando um magnata norte-americano insistiu para que ele desistisse de voltar para o Brasil e continuasse morando na Califórnia: “Me diga, sinceramente, uma coisa, mr. Buster, o senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O senhor sabe lá o que é ter uma jaboticabeira no quintal? O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”

Paulinho, claro, é o Mendes Campos, e Sabino, o seu colega mineiro Fernando Sabino. Clarice é a Lispector, propositalmente escalada na lateral esquerda porque não resisti ao devaneio de vê-la contendo os impetuosos avanços de Simone de Beauvoir, num eventual confronto com o dream team de Mark Perryman no Maracanã do imaginário. Com Glauber Rocha, Otto Lara Resende, Luis Fernando Verissimo, Ivan Lessa e Antônio Cândido de Mello e Souza (sim, nosso maior crítico literário tem alma alvinegra) no ataque, convenhamos, não tem pra ninguém.

E no banco de reservas? É, aquele lá, é mesmo o Lucio Rangel, sentado ao lado de seu amigo Orestes Barbosa. Como só pode dispor de cinco jogadores no banco, a comissão técnica - formada por João Saldanha, Armando Nogueira e Sandro Moreira - optou pelos cineastas Carlos Diegues e Ruy Guerra, e, por razões táticas, pelo embaixador Walther Moreira Salles, que além de craque nas finanças, na diplomacia e no mecenato, é pai de três outros orgulhos alvinegros, Walter, João e Pedro Moreira Salles, e amicíssimo do presidente do clube, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Todos esses senhores me eram inteiramente desconhecidos quando virei Botafogo, sendo que três deles (Waltinho, João e Pedro) ainda nem haviam nascido. Não usei o verbo virar levianamente. Eu de fato virei Botafogo. Meio envergonhado confesso que até os seis anos de idade fui um torcedor passivo e inconsciente do Vasco da Gama. Passivo porque mero herdeiro da estima de meu lusitano pai pelo clube da cruz-de-malta. Inconsciente porque, afinal de contas, eu tinha apenas seis anos de idade em 1948.

Torcer pelo Vasco às vésperas da década de 1950 era como torcer pelo Chicago Bulls na década de 90. Talvez fosse o mais poderoso time de futebol do país. Fora campeão em 1945, em 1947, e forneceria a base da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 50. Mas o Botafogo até que não fazia feio naquela época, muito pelo contrário. Emplacara quatro vice-campeonatos seguidos: 44-45-46-47. Mas não foi essa honrosa regularidade que me fez virar a casaca, como então se dizia - sem qualquer alusão ao Vasco, cujo grito de guerra era assim: “Casaca! Casaca! Casaca! Zaca! Zaca! A turma é boa, é mesmo da fuzarca! Vasco!”

O responsável pela “traição” foi um colega de jardim-de-infância, chamado Carlos Lúcio, que pouco depois desapareceria para sempre da minha vida, sem deixar rastro. Carlos Lúcio torcia pelo Botafogo porque seu pai torcia pelo Botafogo; ou seja, era um botafoguense passivo e inconsciente. Embora se lixasse para o fato de eu ser vascaíno, a mim incomodava não torcer pelo time do meu melhor amigo.

Um dia, me enchi de coragem e pedi a meu pai permissão para torcer pelo Botafogo, não lhe sonegando a razão de tão drástica atitude. Ele, crente tratar-se de um capricho infantil e passageiro, me deu, sem qualquer advertência, o seu nihil obstat - e ficou esperando, estoicamente, a minha volta ao redil cruzmaltino. Ainda bem que esperou sentado.

Na tarde de 28 de novembro de 1948, ei-lo sentado nas arquibancadas de General Severiano, tendo ao lado o filho único e apóstata, que saboreava sua primeira incursão a um estádio de futebol como um presente de Natal antecipado. Em campo, a equipe da casa e o time do Flamengo. Uma vitória rubro-negra colocaria o Vasco em excepcional vantagem na disputa pelo título, nos condenando, na melhor das hipóteses, ao quinto vice-campeonato consecutivo. O Flamengo vinha de uma convincente vitória sobre o Fluminense, e logo deu mostras de que estava mesmo embalado, fechando o primeiro tempo com 2 a 0 no placar.

Na cabeça de meu pai, faltavam apenas 45 minutos para a minha reconversão ao culto vascaíno. Esquecera-se de que, naquela temporada, o Botafogo se especializara em virar o jogo no segundo tempo. Dois meses antes, derrotara o próprio Vasco por 2 a 1, depois de estar perdendo por 1 a 0. E uma semana antes daquele confronto com o Flamengo, repetira a façanha com o Olaria, marcando nos 19 minutos finais os três gols de que necessitava para transformar uma derrota por 3 a 1 numa vitória por 4 a 3.

Contra o Flamengo, não foi diferente: viemos com tudo na etapa final, e vencemos por 5 a 3. Minha estréia como torcedor não podia ter sido mais auspiciosa.

Duas semanas depois, a grande decisão. Para o Vasco, para o Botafogo e para meu pai, ainda esperançoso de que uma derrota alvinegra, tida como líquida e certa pela torcida adversária, e a conseqüente perda do campeonato - justamente para o Vasco - apagariam o meu, com perdão pelo trocadilho, botafogo de palha.

Sua esperança começou a definhar com um minuto e meio de jogo, quando Paraguaio marcou, de cabeça, o primeiro tento alvinegro. Placar final: Botafogo 3 a 1. Voltei para casa campeão. E absolutamente convicto de que a minha insígnia não era mesmo a cruz-de-malta, mas a estrela solitária.

Quase 20 anos depois, ávido por compartilhar comigo todas as emoções que o Botafogo nos oferecia na década de 1960, meu pai também acabou virando a casaca, comovente gesto de solidariedade paterna, que eu saiba, sem similar nos anais futebolísticos.

Para compensar a minha deserção, o Vasco ganhou, em 1948, um ilustre trânsfuga alvinegro. Até parece coisa de português: logo no ano em que seu time conquistou o campeonato da cidade, enfiando três no Vasco, o botafoguense Francis Hime cismou de virar vascaíno.

Imagine o transtorno que sua defecção causou na família, toda ela alvinegra, com profundas ligações com o clube. Profundas, vírgula, profundíssimas. Afinal de contas, já havia um Hime no primeiro time que o Botafogo mandou a campo, em outubro de 1904: Norman Hime, que aprendera futebol na Inglaterra. E dois anos depois, seu irmão Gilbert entraria no time, consagrando-se em poucos meses como artilheiro do Campeonato Carioca.

Já que estou falando de apostasias vascaínas, peço licença para saltar duas décadas (depois eu volto) e pegar um garoto de 4 anos, chamado Arthur Dapieve, que tinha tudo para crescer devoto de São Januário, como seu pai, mas viu a luz a tempo. Levado ao Maracanãzinho, para uma récita do Circo de Moscou, deparou-se pela primeira vez com um vendedor de bandeirolas de clubes e pediu que lhe comprassem uma.

Liberado pelo pai para escolher a que mais lhe agradasse, Dapieve desprezou a do Vasco, a do Flamengo, a do Fluminense, hesitando alguns segundos entre a do Botafogo (“com aquela magnética estrela solitária sobre fundo negro”) e a do América (“com aquele lindo e singelo vermelho-sangue”). A magnética estrela afinal suplantou a rubra singeleza americana, e o Botafogo ganhou mais um torcedor. Daqueles que acreditam, piamente, que futebol não é DNA, é destino.

Aliás, se fosse DNA, Sérgio Porto jamais teria se bandeado, na juventude, para as hostes tricolores. Único torcedor do Fluminense de uma família de botafoguenses, ele virou a casaca para livrar-se da esquizofrênica situação de vestir a camisa de um clube (jogava pólo aquático pela equipe das Laranjeiras) e torcer por outro. Tudo bem, compreende-se; mas Sérgio não precisava ficar gozando o resto da família por sua fidelidade a um clube pelo qual, segundo ele, não fazia o menor sentido torcer: “Botafoguense é aquele que não tem coragem de ser Flamengo, nem classe para ser Fluminense.”

Ora, torcer por um time de massa, como o Flamengo, não é prova de coragem, mas de comodismo e falta de imaginação. Não vejo muita diferença entre torcer por clubes de massa e só ler best sellers, por exemplo, ou só ir ao cinema para assistir a sucessos de bilheteria e amarrar-se em pagode, axé music e outras inanidades de enorme apelo popular.

Botafoguense que se preza despreza até os clubes mais populares de outros estados e países. Sua falta de sintonia com os preferidos das multidões é fruto de uma necessidade orgânica de ir contra a corrente, de repelir o gregarismo e, em última análise, esquivar-se do populismo.

Apesar de elitista, como, no fundo, são todos os intelectuais, o botafoguense não tem as veleidades aristocráticas que deram ao tricolor a ilusão de que em suas veias corre sangue azul. O Botafogo, a seu modo um time de massa - massa cinzenta -, não só surgiu como um repto juvenil ao estabelecido e aburguesado Fluminense, seu mais antigo rival (daí porque chamam cada partida entre os dois de “clássico vovô”), como continuou sendo, em vários aspectos, o seu avesso. Nosso símbolo é o fogo, não uma caixa de pó-de-arroz.

Ao criar tipos simbólicos para cada clube do Rio, nos anos 1940, o caricaturista argentino Mollas imaginou para o Botafogo a figura do Pato Donald, que, como todos sabem, é um sujeito irascível, que briga pelos seus direitos e não leva desaforos para casa. Para o Fluminense, Mollas escolheu a figura de um cartola. Se eu fosse tricolor teria protestado, mas os tricolores, pelo visto, se sentiram muito bem representados. E de fato o foram.

Se os tricolores da arquibancada se julgam seres superiores, imagine o grau de soberba dos seus paredros. Em 1911, por exemplo, o Fluminense perdeu, altivamente, nove jogadores de seu time campeão porque seus cartolas decidiram ignorar os protestos de toda a equipe contra a inopinada substituição do centroavante Alberto Borgerth, líder e capitão do time, pelo zagueiro Ernesto Paranhos, imposta pela comissão técnica.

Naquele mesmo ano, os dirigentes do Botafogo preferiram abandonar a Liga Metropolitana (e arcar com as terríveis conseqüências dessa aparente bravata) a abster-se de apoiar integralmente dois de seus jogadores, punidos com penas exorbitantes por uma briga em campo.

Como bem lembrou Mário Filho, numa crônica para a Manchete Esportiva, enquanto o Fluminense “preferiu perder um time a deixar de ser o que era, isto é, o Fluminense”, o Botafogo solidarizou-se com o seu plantel e chutou o pau da barraca, “para continuar mais Botafogo do que nunca”. Classe é isso.

Prometi que voltaria aos anos 1940 e estou cumprindo a promessa. Do contrário, perderia as conversões de dois expoentes do meu dream team: Luis Fernando Verissimo e Ivan Lessa.

Morando em Porto Alegre, o menino Luis Fernando torcia, em primeiro lugar, pelo Internacional; era um colorado. Mas seu segundo time, naturalmente, disputava o Campeonato Carioca. A exemplo dos mineiros, os gaúchos (vide João Saldanha e Luiz Mendes, outro colorado de origem) tinham especial simpatia pelo Botafogo, que a Minas e ao Sul ia com freqüência disputar amistosos e buscar reforços.

Quando, em 1948, o centro-médio (ou center-half, como então se dizia) Ávila, ídolo do Internacional, transferiu-se para General Severiano - por sinal, numa transação intermediada por Luiz Mendes -, Verissimo embeiçou-se de vez pelo Botafogo. E nunca mais deixou de ser um dos mais ilustres botafoguenses dos pampas.

Recém-chegado dos Estados Unidos, onde passara parte da infância, por pouco Ivan Lessa não adotou o América, clube de simpatia de seu pai, o escritor Orígenes Lessa. Ainda sem time, quando foi morar na avenida Atlântica, Ivan, como outros pirralhos de Copacabana, acabou sucumbindo à inescapável mística de Heleno de Freitas.

“Sou Botafogo porque tive um béguin pelo Heleno lá pelos 10 anos de idade”, confessou-me o meia-esquerda do meu time-cabeça. Em 1946 Ivan raramente perdia um racha na Bolívar e na Barão de Ipanema, duas ruas de Copacabana onde o “boa pinta e falador” Heleno podia ser visto quase todo dia, a pé ou ao volante de um cinematográfico carro esporte em dois tons de azul. Ora no restaurante Dolly (hoje Nino’s), na esquina da Bolívar com Domingos Ferreira, às vezes espiando o futebol de praia, quando não participando de uma linha de passe na areia, onde quer que estivesse o mais glamouroso craque brasileiro de todos os tempos reinava absoluto na princesinha do mar.

Outro que teve um béguin por Heleno foi Armando Nogueira. Mal chegado de sua terra natal, Xapuri (Acre), Armando ainda nem apreciara direito os encantos do Rio quando, na tarde de 10 de setembro de 1944, um primo o levou ao estádio de General Severiano para assistir, em pé, bem no meio da arquibancada, a um Botafogo x Flamengo. Não um Botafogo x Flamengo qualquer, mas o que entraria para o folclore do futebol carioca como o “jogo do senta”, pois, a certa altura, os atletas do Flamengo, inconformados com um gol - de resto, legítimo, de Geninho - sentaram em campo e se recusaram a continuar jogando.

De nada adiantou o trabalho de relações-públicas intensamente executado, durante a partida, pelo primo rubro-negro: “Aquele ali é o Zizinho, um monstro... aquele outro é o Jaime, joga como um príncipe... esse aí é o Pirilo.” Armando só tinha olhos para o time que trazia no peito uma estrela de cinco pontas, “radiosa como a luz da tarde ensolarada”.

“Foi de vê-la reluzir no peito de Heleno de Freitas que se deu a revelação”, recordaria Armando numa crônica confessional que só em 2003 resolveu tornar pública.

Mais de meio século depois, ele ainda se perguntava por que não escolhera torcer pelo Flamengo, que já era o time mais querido do Rio, acabara de sagrar-se bicampeão carioca e muitas outras alegrias prometia à sua torcida. “Afinidades eletivas, meus amigos”, revelou o cronista. “Coisas do coração. Mistérios da alma. Premonição, talvez, pois, no final do jogo, o Botafogo daria a volta olímpica saudando a sua torcida. Tinha goleado o Flamengo, ganhando de cinco a dois. Heleno marcara dois belos gols, um deles, de cabeça. Uma testada bíblica!”

Logo Armando descobriria outras afinidades: “O Botafogo tem tudo a ver comigo: por fora, é claro-escuro, por dentro, é resplendor; o Botafogo é supersticioso, eu também sou. O Botafogo é bem mais que um clube - é uma predestinação celestial. Seu símbolo é uma entidade divina. Feliz da criatura que tem por guia e emblema uma estrela. Por isso é que o Botafogo está sempre no caminho certo. O caminho da luz. Feliz do clube que tem por escudo uma invenção de Deus.”

Não tive a ventura de ver Heleno jogar. Já peguei Pirilo em seu lugar. Meu primeiro ídolo foi Nilton Santos, que era chamado apenas de Santos quando estreou no Botafogo, na temporada de 1948. Os ídolos da garotada do meu tempo geralmente eram os jogadores que sabiam marcar gols ou, então, evitá-los com muita dose de sorte e algum espalhafato.

Nem atacante, nem goleiro, Nilton Santos, o ídolo improvável, impôs-se como um jogador singular, absolutamente fora-de-série, muito à frente do seu tempo, um craque de vanguarda, lato sensu: um zagueiro que, ao contrário dos demais, não se limitava a defender, aventurando-se com inusitada regularidade até a área adversária, para trocar passes, fazer lançamentos e arriscar perigosos chutes a gol.

Foi com ele que nasceu o ala moderno: inexpugnável lá atrás e agressivo lá na frente. Exímio em qualquer posição, majestoso no trato com a bola e inteligente das travas da chuteira ao topete, não ganhou numa rifa o apelido de Enciclopédia do Futebol; nem foi obra de cupinchagem a sua consagração como o melhor lateral-esquerdo do mundo em todos os tempos, depois de ganhar as Copas do Mundo de 1958 e 1962.

Nenhum outro jogador, nem mesmo Heleno de Freitas e Garrincha, encarnou o espírito botafoguense com a perfeição, com a plenitude de Nilton Santos. Em parte porque nenhum outro vestiu tantas vezes a camisa do Botafogo. Foram ao todo 719 jogos, em 16 temporadas. Isto mesmo: 16 anos.

Pois é, houve um tempo em que os jogadores de futebol não trocavam de clube como quem troca de carro, relógio, celular e namorada, logrando identificar-se mais profunda e sinceramente com seus times e estabelecendo com a torcida um vínculo, uma cumplicidade, hoje impensáveis.

Nilton Santos fez mais do que vestir o uniforme alvinegro durante 16 anos. O Botafogo foi o único clube profissional de sua vida. Fidelidade igual nunca se viu.

Cresci, estudei e me iniciei no jornalismo assistindo às suas exibições, sempre de gala, no Botafogo e nas seleções carioca e brasileira. Quando ele foi o biografado do mês, no quinto número da revista Vida do Crack, em setembro de 1953, arrumei um jeito de comprar dois exemplares: um para recortar as fotos e montar um álbum, outro para guardar.

Diante da resistência de minha mãe, que alegava já ter gastado comigo naquele mês uma pequena fortuna em gibis e ingressos de cinema, apelei para minha avó, que ao ouvir as palavras “vida do Santos” persignou-se, lascou um conselho (“Isto mesmo, meu filho, é melhor você ler sobre a vida dos santos do que histórias em quadrinhos”) - e depositou na minha mão o dobro do que eu lhe mendigara.

O álbum há muito se perdeu, mas o segundo exemplar da Vida do Crack está comigo até hoje, em perfeito estado de conservação, guardado como se fosse a Bíblia de Mongúncia. Depois então que o próprio craque o autografou, seu valor tornou-se rigorosamente inestimável. “Se eu fosse você, não o trocaria nem por um desenho do Michelangelo”, me aconselhou João Moreira Salles. Falava a sério. E ele nem viu a Enciclopédia jogar ao vivo.

Por causa de Nilton Santos, mais de uma geração de torcedores empolgou-se pelo Botafogo e nem sequer o abandonou nos melancólicos campeonatos da primeira metade dos anos 1950. Que o digam Carlos (Cacá) Diegues e Ruy Solberg.

Nascido em Maceió, Cacá mudou-se para o Rio aos sete anos de idade. Fiel ao bairro onde sua família, alagoana e torcedora do CSA, instalara-se, escolheu de pronto o Botafogo, desprezando a opção dos demais Diegues pelo tricolor das Laranjeiras.

Cacá, porém, só crismou sua escolha depois de ver com os próprios olhos os milagres que o santo plural de seu time fazia em campo. Milagres que Ruy Solberg testemunhava com maior freqüência e de pertinho, pois jogando no juvenil do Botafogo, no início da década de 1950, volta e meia cruzava com a Enciclopédia no gramado de General Severiano.

Ao contrário de nobilíssimos botafoguenses de raiz como Bebeto de Freitas, Elena Landau e Júlio Rego, que já nasceram ungidos pela estrela solitária - Bebeto é sobrinho de João Saldanha e primo de Heleno de Freitas; os pais de Elena e Júlio foram remadores do Botafogo - Ruy Solberg é, como eu, um convertido; o que só o engrandece.

Ainda garoto deixou-se enfeitiçar pela visão de uma bandeira vermelha desfraldada na janela de um ônibus, e entregou seu coração ao time pelo qual Ivan Lessa e Arthur Dapieve perigaram de torcer. O desencanto se deu em 1954, no jogo decisivo do Campeonato Carioca, contra o Flamengo.

Mal a bola começou a rolar no Maracanã, Tomires, um jagunço que o técnico Fleitas Solich pusera ao lado de Pavão na zaga rubro-negra, deu um pontapé no atacante Alarcon, o cérebro do América, que saiu de maca para não mais voltar.

Injuriado com a passividade de seu time, que botou o galho dentro e em nenhum momento ousou desfazer, na marra, sua inferioridade numérica (naquele tempo não eram permitidas substituições, e o América jogou com dez atletas até o fim), Ruy decidiu ali mesmo mudar de torcida. Como já pertencia ao quadro juvenil alvinegro, optou pelo Botafogo, escolha que Nilton Santos e Garrincha ajudariam a sacramentar.

Curiosa essa aproximação de botafoguenses com o América. Logo o América, que tantas aprontou com o Botafogo nas primeiras décadas do século passado. Perdemos o título de 1908, para o Fluminense, por causa de dois tropeços diante da equipe rubra, que, vale salientar, adotou a cor vermelha naquele ano (antes jogara toda de preto e, por outra breve temporada, de vermelho e preto).

Nossa única derrota na triunfal campanha de 1910 foi para a equipe de Campos Salles, que também nos impôs o único revés do campeonato de 1914 e não nos deu trégua no torneio seguinte.

A saída do Botafogo da Liga, em 1911, começou com uma entrada violenta de um jogador americano no artilheiro alvinegro.

No returno de 1929, o América nos enfiou uma goleada de 11 a 2.

Passamos por todos os adversários, em 1932, menos pelo América.

E se conquistamos o título de 1930 com sua ajuda, retribuímos a gentileza no campeonato seguinte, tirando o Vasco do páreo para que o time de Sílvio, Alemão e Carola levasse a taça para Campos Salles.

Apesar da corriqueira associação do América com o inferno e o diabo, é o clube da estrela solitária que, já no nome, encarna com maior consistência todas essas metafóricas relações com o elemento que mais contribuiu para civilizar o homem primitivo: o fogo.

O América não é o verdadeiro time do capeta e com fogo na roupa. O verdadeiro time do capeta e com fogo na roupa é o BotaFOGO. Basta examinar sua camisa.

Ou você não sabia da milenar fama dos tecidos listrados como “coisa do demo”? Eu tampouco sabia até ler um fascinante ensaio do historiador e paleógrafo francês Michel Pastoureau, intitulado O Pano do Diabo.

Listras. As Sagradas Escrituras já não as recomendavam. Está no Levítico: “Não levarás sobre ti uma veste que seja feita de dois.” Dois tons, bem entendido. A fama, portanto, não é antiga, é antiqüíssima. Pastoreau, contudo, fez do século XII o seu ponto de partida, por ter sido naquela centúria que os carmelitas causaram escândalo com seus primitivos mantos barrados.

Nem um apelo do papa Alexandre IV, em 1260, conseguiu convencê-los a adotar uma veste lisa. Os muçulmanos sempre usaram mantos listrados numa boa; daí a pinimba da Igreja, avessa a qualquer parentesco com hábitos orientais.

De mais a mais, os tecidos listrados eram então usados - em vestimentas, cintos, fitas, capuzes e barretes - por judeus, heréticos, bufões, saltimbancos, carrascos, prostitutas, leprosos e outros excluídos da sociedade daquele tempo. Caim, Judas, Dalila e Salomé também haviam feito das listras um involuntário emblema de seu opróbrio.

Nos países germânicos do século XIII, as roupas dos bastardos, servos e condenados eram obrigatoriamente listradas. Acreditava-se que eles perturbavam ou pervertiam a ordem estabelecida e precisavam ser reconhecidos a distância.

Lúcifer e todas as criaturas satânicas eram quase sempre apresentados em trajes barrados, durante a Idade Média. Esse rígido esquema sinalético arrefeceu um pouco no Renascimento, mas a reputação do pano listrado só mudaria substancialmente do final do século XVIII em diante, depois de representar, na França, a vitória do bem (burguês) contra o mal (aristocrático), o triunfo da marginalidade, e, no Novo Mundo, a implantação da democracia moderna, raiada de stripes forever.

Negativas nos uniformes dos campos de concentração nazistas e dos presidiários do cinema e dos quadrinhos, as listras expandiram-se positivamente por outros corpos: de crianças, banhistas, marujos e esportistas, seus mais benignos usuários.

A semiologia das listras é infinita e encontrou em Pastoureau um hermeneuta de ampla visão. Ampla o suficiente para incluir em seu inventário até as riscas do calção do Obelix, do dentifrício Signal e das camisas do Racing e do Juventus.

Certo, o Botafogo não foi o único clube brasileiro a adotar um uniforme com listras verticais. Mas foi certamente o primeiro a usar, nestas paragens, listras verticais em branco e preto.

O detalhe do branco e preto é de suma importância, na medida em que expressa uma dicotomia rica em simbolismos - bem e mal, dia e noite, luz e treva, sol e lua, razão e instinto, alegria e luto, pureza e vício - inapelavelmente diluída pela nossa vocação para o dualismo, pela nossa inclinação para assimilar valores contraditórios e aparentemente irredutíveis.

Guiados por uma estrela e pelo fogo que Prometeu roubou do céu e Lúcifer levou para o inferno, nós, botafoguenses, somos bons e maus, cerebrais e supersticiosos, racionais e passionais, eufóricos e deprimidos, fanáticos e blasés, apolíneos e dionisíacos. O Botafogo não é preto, nem branco: é preto e branco, e branco e preto.

Outra peculiaridade do Botafogo foi ter sido o primeiro time alvinegro com meias de cor cinza, mistura chiquíssima. Este detalhe sempre intrigou o artista plástico Carlos Zilio. “A justificativa que encontro para isto”, teoriza o ilustre botafoguense, “pode ser buscada nas principais concepções sobre a cor. Se, para a teoria de Newton, o branco é o somatório das cores, para a de Goethe, a síntese é o cinza. Minha opinião e crença são de que a opção pela cor cinza nas meias, feita pelo Botafogo, tem a ver com a sua profunda intuição romântica.”

No final dos anos 1940, Mário Filho explicou assim a alma alvinegra: “Ser botafoguense é mais do que pertencer a um clube, a um grande clube. É pertencer a uma casta, com o seu tipo especialíssimo, inconfundível.”

Que tipo seria este? Para o grande cronista esportivo, um sujeito acima de tudo romântico, que ouve mais a voz do coração que a da cabeça, um impulsivo, audaz e anacrônico mosqueteiro: “A única flor retardatária de capa-e-espada que surgiu depois de 1900, um D'Artagnan sempre pronto a desembainhar a espada e a se meter em encrencas, a arriscar até a própria vida por uma coisinha.”

Nelson Rodrigues foi menos feliz do que seu irmão Mário Filho, pois nos botafoguenses só vislumbrou o pessimista inato e o masoquista impenitente. “Ponham uma barba postiça num jogador do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível. Por quê? Porque há, no alvinegro, a emanação específica de um pessimismo imortal.” E não parou aí.

Em outra oportunidade, definiu o torcedor botafoguense como um cara que compra o seu ingresso “como quem adquire o direito, que lhe parece sagrado e inalienável, de sofrer”, sentindo-se feliz e realizado “quando arranca os cabelos e chora lágrimas de esguicho.”

Não somos criaturas pateticamente melodramáticas, que se descabelam com um vasto sorriso de gratificação na alma, mas algo superior: somos trágicos, no melhor e mais grego sentido da palavra. Trágicos de nascença, já que o Botafogo Futebol Clube só virou de Futebol e Regatas depois que um de seus atletas morreu de repente, fulminado por um infarto, numa quadra de basquete.

“Somos trágicos como os gregos, na época em que o mundo ainda não era povoado por homens cinzentos, mas por heróis”, ponderou João Moreira Salles com o amigo tricolor Marcos Caetano, tentando consolá-lo pelo 1 a 0 que o São Caetano acabara de impor ao Fluminense, na Copa João Havelange de 2000. “Nossas derrotas, assim como nossas vitórias, nunca são óbvias e jamais podem ser pressentidas”, prosseguiu, relembrando um recente e fatal tropeço do Botafogo diante do Santa Cruz, jogando em casa (única vitória do time pernambucano fora de Recife na Copa João Havelange de 2000), e a perda da Copa do Brasil para o Juventude, em 1999. “Isso é verdadeiramente magnífico, é grande, imenso, do tamanho dos grandes tombos, não da história, mas do mito: isso é Édipo, é Antígona, é Rei Lear e é Hamlet.”

Quando vencemos, superando obstáculos supostamente intransponíveis, como o Vasco de Ademir, o Flamengo de Zico, e Golias que tais, afivelamos a persona de Davi e nos sentimos, crê João, “mais vivos do que jamais um flamenguista se sentirá”, pois essa é a nossa vida, a nossa sina, da qual devemos nos orgulhar, porque é ela “que nos torna imensos”, imensos como os trágicos personagens de Homero, Shakespeare e Dostoievski.

Cá entre nós, Orson Welles, que antes de atingir a glória eterna tantos revezes sofreu em sua carreira e diversas vezes viu-se forçado a atuar em filmes de segunda categoria, não podia mesmo ter outro time.

O advogado e jornalista Nelson Paes Leme, botafoguense hereditário, vai mais longe: segundo ele, o cineasta tornou-se de fato um simpatizante do alvinegro quando aqui veio rodar It’s All True. A prova dessa conversão lhe foi fornecida por seu pai, Luiz Paes Leme, célebre, entre outras façanhas, por ter sido um dos fundadores da União Nacional de Estudantes.

Dissidência da velha Casa do Estudante do Brasil, a UNE, a exemplo do Botafogo, surgiu como um desafio juvenil ao establishment. Presidida pela socialite Ana Amélia Carneiro de Mendonça, mulher do legendário goleiro do Fluminense Marcos Carneiro de Mendonça, a Casa do Estudante do Brasil não só tinha raízes tricolores como, na visão da juventude menos acomodada da época, não movia um dedo contra a ditadura getulista.

Para angariar fundos para a recém-criada UNE, a estudantada liderada por Luiz Paes Leme organizou uma Festa da Mocidade (espécie de Congresso de Ibiúna do Estado Novo), no Calabouço, a alguns metros de distância da Casa do Estudante do Brasil. “Foi um megaevento para a época”, salienta Nelson, “e Welles participou ativamente da festa.

Meu pai e outros jovens ligados à família Aranha, todos botafoguenses e amigos de Carlito Rocha, submeteram o cineasta àquele tipo de lavagem cerebral que fazemos com sobrinhos e netos, antes que eles elejam outro time. Meteram na cabeça dele que o ‘quente’ no futebol carioca era o nosso alvinegro e ele aderiu de imediato ao time da estrela solitária.”

Resumo da ópera: Orson Welles não precisou ir a um campo de futebol no Rio para escolher o time de sua simpatia. Bastou-lhe o Calabouço. Do resto da catequese deve ter-se ocupado Vinicius de Moraes, que acompanhou o cineasta a tudo quanto é canto da cidade e com ele tomaria aulas de direção, em Los Angeles, no final dos anos 1940.



Nota do gerente do mocó:
Este post é meu presente de Natal para os seis botafoguenses que conheço em Manaus - Aureo Petita, Orlando Farias, Mário Adolfo, Mário Adolfo Filho, Marcus Vinicius e Murilo Rayol. Evoé!

segunda-feira, dezembro 13, 2010

A Pedra da Roseta desse tal de rock'n'roll

Talvez seja impossível encapsular uma bomba atômica explodindo. Da mesma forma, nem sempre é possível saber o momento exato em que uma lenda nasce.

Só que foi justamente isso o que aconteceu quando todos viram a capa do primeiro LP de Elvis Presley, lançado em 1956.

Mas, antes de chegar a esse momento supremo, vamos voltar um pouco para ver como tudo realmente aconteceu.

O rosto de Elvis Presley foi a segunda figura mais reproduzida do século 20 - só perde para Mickey Mouse.

Ocorre que, lá no início, ele até era confundido com um artista negro. Para saber que ele era realmente um tímido rapaz branco, era necessário olhar suas fotos.

Elvis começou a gravar na pequena Sun Records, em 1954, e logo foi descoberto por um ladino empresário de música country chamado “Colonel” Tom Parker.

Ele sabia que tinha ouro nas mãos e, aos poucos, passou a explorar a imagem do rapaz.

Mas o futuro Rei do Rock não estava muito preocupado com nenhuma revolução estética eminente.

Com o cabelo engordurado pela indefectível brilhantina, Presley também não gastava muito dinheiro com roupa.

Tocava basicamente no circuito country do sul dos Estados Unidos e não tinha a menor afeição pelas roupas de caubói.

Seu uniforme era formado por paletós ligeiramente largos, surrados e básicos.

Dessa forma, ele fez seu nome no sul da América, tocando em feiras, ginásios e onde mais tivesse gente disposta a pagar.

Mesmo com um orçamento reduzido, o Colonel fazia o possível para que esses shows fossem fotografados.

Em julho de 1955, Elvis estava se apresentando na Flórida quando foi fotografado em plena ação. O material foi guardado, mas teria uso certo alguns meses depois do show.

Quando Parker conseguiu negociar o passe de Elvis com a multinacional RCA-Victor (pagando à Sun a bagatela de 35 mil dólares), era a hora de multiplicar a histeria das garotas sulistas por toda a América.

A RCA era muito poderosa na área country e tinha em seu cast artistas na linha mais popular, sem o refinamento de uma Capitol, que gravava Frank Sinatra, Nat “King” Cole e outros.

No dia 10 de janeiro de 1956, Elvis entrou no estúdio da RCA de Nashville para gravar Heartbreak Hotel, seu primeiro single. Ao seu lado, Steve Sholes, o homem responsável por sua contratação.

Em seguida, Elvis fez suas primeiras aparições na TV e o magnetismo de sua imagem falou por si.

Finalmente, em abril, a canção chegou ao primeiro lugar.

Sholes respirou aliviado, mas ainda tinha muito trabalho pela frente. Ele queria ver um LP com o nome de Elvis sem muita perda de tempo.

O rock estava dando seus primeiros passos e não existia essa coisa chamada “LP de rock and roll”.

Astros de música country e R&B às vezes lançavam álbuns, mas as vendas eram geralmente fracas.

Muitos permaneciam em um selo sem nunca ver seu trabalho compilados em um disco de 12 polegadas.

Os LPs eram veículos para artistas do pop branco e romântico, trilhas sonoras e grandes orquestras. E, na RCA, singles e álbuns eram organismos totalmente separados.

Departamentos que não interagiam tomavam conta dos produtos.

O single não era um “trailer” do álbum, era um produto em si.

Assim, Heartbreak Hotel não entrou no LP - àquela altura sem nome nem repertório.

Elvis tinha acabado de participar de algumas sessões na RCA, mas elas não eram suficientes.

Para “encher” o LP, Steve Sholes usou gravações feitas na Sun Records que permaneciam inéditas.

Bem, o público não precisava saber! E também não precisava saber que a foto da capa fora tirada alguns meses antes, naquele show na Flórida.

O Colonel não perdeu tempo em trazer o material arquivado para ilustrar o disco.

A foto em preto e branco feita por William S. Randolph, conhecido como Popsie, mostrava Elvis de olhos fechados, com a bocarra aberta, exibindo as amígdalas.

Magérrimo e vestido com um daqueles ternos vagabundos, parecia dar cabo do pobre violão. Pura energia primal.

A foto foi ampliada ao máximo para que nenhum efeito fosse perdido.

No canto esquerdo, “Elvis” escrito em rosa e, embaixo, “Presley” em verde.

Com sua singular mistura de rosa, branco, preto, verde e violência musical pura, não à toa a imagem foi homenageada duas décadas depois na obra-prima do punk London Calling, do The Clash. Tudo começou ali.

A contracapa da estréia do Rei trazia um pequeno texto dizendo que Elvis se tornaria a maior sensação dos próximos tempos. E mais algumas fotos tiradas nos estúdios da RCA no começo daquele ano.

No dia 5 de maio de 1956, o disco com a capa berrante ocupava a primeira posição nos Estados Unidos. A história tinha sido feita.

Um disco 100% roqueiro dava um chega pra lá em álbuns de crooners e orquestras.

O impacto visual da capa foi imediato e a RCA reproduziu a foto em dois EPs que saíram em seguida.

Porém, para o segundo disco, a gravadora mudou tudo. Elvis foi fotografado em cores, de lado, dedilhando oniricamente um violão. A capa não era nem um pouco roqueira.

A RCA passou a apostar na boa-pinta do garoto de Tupelo, exibindo-o como um típico galã de Hollywood.

No Brasil, Elvis Presley teve capa e repertório totalmente diferentes.

 O álbum (disputado a tapa pelos colecionadores do mundo todo) reproduzia a capa de um EP americano que destacava Elvis, Bill Black (baixista) e Scotty Moore (guitarrista).

Mas logo a RCA tupi lançaria os EPs com a capa americana da estréia de Elvis. Foi desse jeito que os brasileiros conheceram esta lendária foto.

Nosso amor de ontem

Desde que surgiu, há mais de 35 anos, o punk pode ter se transformado, mas sempre esteve ao nosso lado. E, mais do que pela música, especialmente pela atitude e pelo visual.

Olhe para a capa do primeiro álbum dos Ramones. Assim como a música do quarteto de Nova York, o trabalho de arte do disco não tem nada de sofisticado ou elaborado.

Quatro caras desajeitados com as costas na parede tentando parecer cool.

Qualquer mané que está começando e tem uma banda de garagem imita essa pose clássica.

Os tijolos irregulares, a parede pichada, tudo virou clichê, mas começou aqui, em meados de 1975 - sim, meu amigo, há mais de três décadas, e os caras eram Joey, Dee Dee, Johnny e Tommy Ramone.

Foi uma foto simples, tirada em preto e branco e que não levou muito tempo para ser feita.

Anos depois, o empresário Danny Fields comentou esse momento histórico: “A gente já tinha tudo pronto, então o disco era como uma declaração de intenções. A foto da capa foi a mesma coisa. Foi só colocá-los no beco atrás do CBGB e certificar-se de que estavam no foco. Eles já tinham inventado a si próprios”.

Foi fácil mesmo, já que a banda e a pessoa que a clicou eram bastante amigas.

Eles tinham se conhecido no clube CBGB, onde os Ramones haviam descolado um espaço como uma das "bandas da casa". Com isso, veio um contrato com a Sire.

A história dos bastidores do primeiro álbum dos Ramones é também a improvável saga da fotógrafa Roberta Bayley. Ela foi uma das mais importantes figuras a forjar a estética punk.

Durante os anos 70, Roberta e sua câmera estiveram presentes em momentos emblemáticos da música daquela década. Ela trabalhou na Inglaterra com Malcolm Mclaren, tomou conta da portaria do CBGB e colaborou no antológico fanzine Punk, de John Holmstrom.

Em frente de suas lentes também passaram Blondie, New York Dolls, Iggy Pop, Heartbreakers, Television, Sex Pistols, Richard Hell (com quem morou por algum tempo) e muitos outros.

Mais do que ninguém, Roberta teve chance de observar os Ramones em seu habitat e no apogeu de sua criatividade. Ela sabe de muita coisa que se escondia por trás das jaquetas de couro e dos óculos escuros. Ainda assim, a resolução da capa foi coisa dela.

Alguns arranjos foram feitos. Apesar de Joey ser o vocalista e líder não declarado, ninguém queria que ele se sobressaísse muito em relação aos outros, tarefa um tanto difícil se levarmos em conta a altura do cara.

Aos poucos, Roberta foi posicionando os amigos como peças de xadrez que tinham que se encaixar de maneira impecável.

Da esquerda para direita a coisa ficou assim: Johnny, como sempre desafiador e confiante, coloca a mão no bolso e encara a lente.

Preste atenção na pose do baixinho Tommy. Para que ele não ficasse muito abaixo dos outros, Roberta pediu que ele subisse na muretinha da parede.

Joey, por outro lado, está ligeiramente inclinado para não parecer gigantesco em relação aos colegas.

À direita, Dee Dee, tenso, com ar de que não vê a hora de acabar com aquilo.

A sessão de Roberta gerou mais frutos. Um outtake da foto foi usado pela gravadora Sire com o intuito de promover o grupo nas revistas especializadas.

O anúncio dizia: “Os Ramones são tão punky (sic) que vocês vão ter de reagir”.

A pose era mais engraçada do que a oficial. Johnny faz cara de bobo, Tommy tenta segurar o riso, Joey cinicamente mostra os dentes e Dee Dee continua querendo dar no pé.

Embaixo da foto, opiniões de publicações como o New Musical Express, Village Voice, Circus Magazine e Hit Parader.

No pé da página, a frase: “A música deles varreu o beco... agora vai varrer o país!”

A opinião de Charles Shaar Murray, do NME, acerta na mosca: “Eles são tão engraçados que parecem ter saído de alguma história em quadrinhos. São tão coesos e poderosos que vão encantar aqueles que se apaixonam pelo verdadeiro rock’n’roll.”

O tempo passou, os Ramones viraram ícones pop e ficaram grandes demais para a vizinhança do CBGB. Foi natural um certo distanciamento. Mas o carinho permaneceu.

Quando Dee Dee Ramone morreu de overdose, em junho de 2002, Roberta relembrou o velho amigo.

Segundo a fotógrafa, ele era ao mesmo tempo charmoso e enervante.

Um indivíduo único e criativo, que parecia uma criança em seu desejo de chocar e agradar ao mesmo tempo.

Obviamente, Roberta ficou mais chegada do sempre simpático e acessível Joey Ramone.

Em um tributo ao falecido cantor, ela lembrou que uma vez levou o sobrinho menor de idade ao CBGB, prometendo ao gerente que deixaria o moleque longe do álcool.

Quando o conduziu para conhecer Joey, a primeira coisa que o Ramone fez foi levar o garoto ao banheiro e arranjar-lhe uma cerveja.

Outro nome importante na saga do quarteto aparece nesse primeiro disco: Arturo Vega. O artista foi responsável pelo desenvolvimento visual da banda.

Na contracapa, havia uma imagem de uma típica águia americana, segurando um taco de beisebol como um porrete - e aquilo virou o distintivo Ramone por excelência.

Vega era amigão dos caras e sua casa foi o “ponto Ramones”. Era um mistura de armazém e quartel-general e muitas entrevistas e sessões de fotos foram realizadas lá.

Quando o álbum saiu, no começo de 1976, não dá para dizer realmente que o mundo virou de pernas para o ar. Ramones chegou à modesta 111ª posição da Billboard.

Mas muita gente se inspirou naquelas canções curtas e incendiárias criadas por aqueles quatro personagens do subúrbio nova-iorquino.

Incluindo todo mundo que se disse punk nos anos seguintes.

A capa mais desbundada de um disco de rock em todos os tempos

Em 1967, enquanto os Beatles trancafiaram-se por quatro meses nos estúdios para fazer sabia-lá-Deus-o-que, o mundo girou rapidamente. Hendrix, Pink Floyd, psicodelismo, LSD, rádios piratas. I Want to Hold Your Hand já não podia sonorizar o planeta.

Por intermédio de Peter Asher (irmão de sua namorada, Jane Asher, e metade do duo Peter & Gordon), Paul McCartney conheceu o mexicano John Dunbar, formado em artes em Cambridge, fanático por jazz radical, Duchamp, Beethoven e literatura beat.

Em fevereiro de 1966, Peter Asher e John Dunbar uniram forças com o livreiro Barry Miles e fundaram a Indica Bookshop & Gallery. Foi lá que Lennon comprou o Livro Tibetano dos Mortos, que o inspirou a compor Tomorrow Never Knows e, algum tempo depois, conheceu Yoko Ono. E foi lá que Miles apresentou o marchand Robert Fraser a Paul McCartney.

Fraser era gay, heroinômano, aristocrático e rico de nascença - seu pai mexia com o mercado financeiro e era conselheiro da Tate Gallery. Paul o considera até hoje sua maior influência artística formativa. Com ele, comprou quadros, foi a instalações, viajou para assistir a concertos de música erudita e experimentou drogas variadas.

Quando os Beatles começaram a pensar na capa do álbum que gravavam havia quatro longos meses em clima de total mistério, foi inevitável que Fraser estivesse envolvido.

A idéia básica por trás de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band era a de que os Beatles interpretassem a tal banda do sargento Pepper como seu alter ego hippie.

Paul chamou Robert Fraser e explicou que, para a imagem de capa, imaginava o tal grupo - os Beatles em uniformes de banda militar coloridos acetinados - em uma sala forrada com fotos de seus ídolos.

Outras idéias transportavam os quatro bigodudos de Liverpool para uma imaginária pracinha de cidade do interior, em algum evento com o prefeito adornado com arranjos florais e coisas do tipo.

Fraser sugeriu que, pelo tom nostálgico da coisa e pela enormidade de elementos populares, o homem certo para realizá-la seria Peter Blake.

Blake era um inglês de Kent, famoso pelos quadros repletos de colagens que misturavam peças de memorabilia, pin-ups, capas de disco, brinquedos fora de moda, fotografias triviais e molduras insuspeitas.

Estudou arte folclórica, lecionou em várias universidades inglesas e morou por algum tempo nos Estados Unidos, quando desenhou para o jornal Sunday Times. Já era um nome de ponta da pop art britânica.

A partir da idéia de Paul, imaginou a bandinha de metais entre um grande arranjo de flores em que se lê BEATLES, sendo laureada por uma multidão de celebridades vindas de recordações mais ou menos desconexas dos músicos - James Dean, Dylan Thomas, Karl Marx, Fred Asteire, Aleister Crowley, Edgard Allan Poe, Oscar Wilde, Tony Curtis, Paramahansa Yogananda e outros gurus de George Harrison, entre outros.

O ex-fotógrafo da Vogue Michael Cooper foi indicado por Fraser (seu amigo do circuito gay inglês, com quem abrira um estúdio no bairro de Chelsea) para clicar a instalação de Blake.

A idéia original, de uma imagem ao ar livre, acabou substituída pelo maior conforto que o estúdio de Cooper oferecia. Para acomodar tanta informação visual, os Beatles solicitaram à EMI uma capa dupla.

Blake cuidou de um encarte com diversas imagens e insígnias para recortar. Era um autêntico projeto de pop art.

Foi também o início de uma era de extravagâncias no rock. Uma capa, geralmente gerida pelo próprio departamento de arte das gravadoras, custava em torno de 25 ou 50 libras.

Em Sgt. Pepper, só a direção de arte de Robert Fraser somada ao cachê de Michael Cooper custaram 1,5 mil libras. Peter Blake levou 200, mas entrou com um processo décadas depois pedindo reavaliação do valor.

Os direitos de uso das fotografias das celebridades também passaram das mil libras.

O disco foi lançado em 10 de junho de 1967, vendeu 10 milhões de cópias e se tornou imediatamente um marco na cultura ocidental.

Se Peter Blake (que foi transforado em sir em 2002) não recebeu nem mais um tostão de direitos, sua obra mais famosa lhe garantiu um belo lugar na história da música e das artes.

E isso, como diz o outro, não tem preço.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Com ajuda do metal e do rap, música eletrônica solta suas bruxas


Por Marcus Vinicius Brasil, do G1

Sobre o palco, dois rapazes vestem máscaras de caveira, feitas de fibra de vidro e colocadas sobre capuzes.

À frente da dupla, a vocalista se esgoela de olhos fechados ao microfone usando um vestido de plástico preto, que a faz parecer embalada num saco de lixo.

A cena estranha se passa durante um show da banda paulistana The 666 Order, representante nacional do gênero que está sendo chamado de “witch-house”, ou “house da bruxa”, em blogs e publicações especializadas.

O principal representante do estilo é o trio americano Salem, formado pelos músicos John Holland (teclado), Heather Marlatt (vocais) e Jack Donoghue (rimas).

Sua maior influência é o rap produzido em Houston pelo DJ Screw (morto em 2000, vítima de uma overdose).

Screw desenvolveu uma técnica em que reduzia a velocidade das músicas nos toca-discos para produzir uma sonoridade arrastada, entorpecida.

Criado em fevereiro deste ano, o The 666 Order conta com os produtores musicais Cello Zero e Zack Wire mais a cantora Chloe de Wolf.

Os três produzem uma mistura de música eletrônica com thrash metal, em que vale o uso de notas soturnas de piano, urros assustadores no meio das faixas.

“Nossas influências são Black Sabbath, Slayer, Megadeth e Daft Punk. Queríamos fazer essa mistura de metal bem obscuro com eletrônico”, diz Cello, que produz há cerca de seis anos.

Sobre o palco, nenhuma guitarra: eles usam dois teclados sintetizadores, bateria eletrônica e sampler.

Seu primeiro lançamento, o EP “I have a bad feeling about this”, acaba de ser lançado pelo selo virtual capixaba Smoke Island.

Os músicos Zack Wire, Chloe De Wolf e Cello Zero formam o 666 Order

Salem: ícone do baile das bruxas

Com vocais cheios de eco e teclados que parecem ter saído de um filme de terror em faixas como “Sick” e “Asia”, o Salem tem visual - dos clipes à capa dos discos - todo pensado para provocar arrepios.

Nas apresentações, eles usam máquina de fumaça e projeções de carros pegando fogo.

Capa do álbum King night, do trio americano Salem

E deu certo: desde que surgiram, em 2006, fizeram shows em eventos importantes, como o South by Southwest, no Texas. O primeiro álbum, “King night”, foi elogiado pela crítica e bem comentado na web.

Entre esses feitos, o mais recente foi ter composto a trilha-sonora para o desfile da grife francesa Givenchy.

“Compartilhamos um monte de música entre nós e dividimos muitas ideias. O Salem é onde nossas estéticas se encontram”, disse Donogue em entrevista à revista americana “XLR8R”.

E não é apenas o Salem que vem fazendo a fama da witch-house. Há uma porção de grupos que têm sido associados ao rótulo, por compartilharem desse som obscuro e medonho: caso do americano Creep, formado pelas produtoras Lauren Flax e Lauren Dillard.

Seu primeiro single, “Days”, será lançado no dia 20 de dezembro e conta com a colaboração de Romy Madley Croft, integrante do The xx.

As faixas são lentas e com melodias eletrônicas sinistras, ainda que a sonoridade seja mais “limpa”, menos distorcida, que a do Salem.

“Ainda sou obcecado por tudo que eu ouvia no colegial e nos anos 90. Portishead, The The, Catherine Wheel, shoegaze, trip-hop... Então caí na cena rave, e em Detroit me eduquei bem na house e na dance music”, diz Lauren.

Capa de EP do projeto oOoOO

Essas bandas também compartilham o gosto por nomes bizarros. Um bom exemplo é o oOoOO (pronuncia-se “oh”, como um suspiro).

Também entusiasta de Portishead, Christopher Dexter Greenspan, cabeça do projeto, começou a compor sob esse pseudônimo há cerca de um ano.

“Eu estava estudando para me tornar um acadêmico, pesquisador na área de urbanismo e neurose coletiva. Então percebi que me sentar numa biblioteca e observar a luz do sol se mover lentamente ao longo da mesa não era o que eu queria para minha vida”, diz Dexter.

Essa dramaticidade toda aparece também em suas músicas. Com um LP engatilhado para o ano que vem, ele reunirá faixas como "Nosummr4u" e "Burnout eyess" – dois exemplos em que o americano faz música eletrônica com altas doses de melancolia e suspense.

A lista de grupos continua, e vai longe: Balam Acab, White Ring, Xix, Silent Diane...

“Gêneros não passam de opiniões glorificadas. As pessoas vão lhe categorizar não importa o que você faça. É importante que nós não fiquemos presas num estilo particular”, diz Lauren Flax, do Creep, mostrando ceticismo quando perguntada sobre a opinião dela sobre o destino da witch-house.

“Eu realmente não me importo”, disse Marlatt, do Salem, à “XLR8R”.

Ainda que essas bandas voltem para as catacumbas de onde saíram, quando passar o barulho em torno de seu surgimento, elas já serviram para algo: revelar novos nomes da eletrônica que, com ou sem bruxarias, vale a pena ficar de olho.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Candinho e Inês realizam show de lançamento do DVD

Dando continuidade aos shows de lançamento do DVD "Em cada Palmo desse Chão", os artistas Candinho e Inês fazem show nesta quinta-feira, 9, a partir das 21h, no Fino da Bossa Bar, em clima de confraternização.

Além da dupla, que já conta 25 anos de estrada, participam também do espetáculo os artistas Célio Cruz, Lucinha Cabral, Lili Andrade e Verônica Lima.

No repertório, canções de sucesso, como Faróis, Loucos animais, Renovação, Seu Moço, Uma canção para Manaus e muito mais.

O couvert artístico custa R$ 10,00. O DVD estará disponíveis para venda a R$ 25,00.

Outras informações podem ser obtidas pelos telefones 9112-3481 (Inês) ou 9128-9590 (Candinho) ou ainda 8404-7562 (Marcus).

Grato e saudações

César Wanderley

9211-6155 e 8155-0212

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Eu tenho amor ao tricolor!


Por Lucio Bezerra de Menezes

Eu nasci Fluminense e o meu coração Tricolor.

Escolhi o Tricolor porque nos anos 60, ainda menino, ouvia as transmissões futebolísticas pelas ondas do radio. Lembro Oduvaldo Cozzi e seu inesquecível bordão: “Aplica-lhe o rodopio!”; Waldir Amaral emprestava especial emoção ao campeonato carioca quando dizia: “indivíduo competente” e “o relógio marca”; Mario Vianna chancelava: ”Goool legal!!!”; e Jorge Cury arrematava: “Anotem...tempo e placar no maior do mundo”.

Aquelas transmissões mexiam com o meu imaginário, o Maracanã me despertava um fascínio sem par e o futebol carioca indubitavelmente tinha muito mais charme que os demais. Não há o que discutir, sobra fascínio e excede charme ao Clube das “...três cores que traduzem tradição...”, isso me arrebatou.

Alem disso havia um componente definitivo: aquele brilho no olhar do Papai quando se referia ao FLUMINENSE era comovente. Aí não tive dúvida, o FLUZÃO e o brilho no olhar do papai haviam me cooptado completamente. Isso numa época em que o Santos e Pelé encantavam o mundo;

Tornei-me Fluminense porque comungo do pensamento do mais que ilustre Tricolor, Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”;

Declaro-me Tricolor porque gosto da vida e a vida é matizada, ainda que às vezes se me apresente em preto e branco. Pior é saber que para um sem número de infelizes a vida não tem cor;

Abracei o FLU porque o plano vertical me atrai mais que qualquer outro, é como se essa linha me levasse ao infinito, ao céu, a plenitude, a glória;

Apaixonei-me pelo Clube das Laranjeiras porque é prazeroso sair por aí trajando a sua camisa e chamar a atenção por não ser mais um, mas um;

Reverencio o NENSE porque um verso do seu Hino assim proclama: “Vence Fluminense com o verde da esperança, pois quem espera sempre alcança”. Eu tenho, desde sempre, Vitória e Esperança como companhias inseparáveis;

Optei pelo FLUZÃO porque senti e ainda sinto o coração acelerar quando o time entra em campo;

Quis o Fluminense porque dá uma vontade danada de soltar a voz a cada gol marcado;

Uni-me ao Tricolor porque senti e sinto uma felicidade incomensurável quando vencemos uma partida de futebol, ainda que por um placar mínimo e mesmo que não seja um clássico;

Decidi pelo FLU porque o FLU não me entorpece;

Entreguei-me ao Clube das Laranjeiras porque Tricolor que é Tricolor não é dado a espalhafato, não confunde amor com idolatria;

Aceitei o NENSE porque o NENSE me aceitou;

Preferi o FLUZÃO pela classe que é só nossa. Classe que nos faz conscientes de que futebol é apenas um espetáculo, não mais;

Aderi ao Fluminense, porque o verdadeiro Tricolor jamais tripudia sobre os vencidos;

Orgulho-me do Tricolor porque quando a derrota nos faz visita ou um título nos escapa o sofrimento não se cria;

Aplaudo o FLU porque é mantra do bom Tricolor: “ O melhor ainda está por vir”;

Incorporei-me ao imenso patrimônio do NENSE porque entendo o torcedor contrário como concorrente não como inimigo;

Integrei-me ao FLUZÃO, porque definitivamente “eu tenho amor ao Tricolor”.

Confundo-me com o Tricolor, porque, simplesmente, não houve, não há e nem haverá outro sequer parecido, imagina igual;

Sou Fluminense por todos os motivos expostos e pelos não expostos;

Amo, finalmente, o Clube das Laranjeiras, porque a razão sempre me deu razão, porque o Fluminense é poesia, é Time de Guerreiros, porque sei que lá em cima, os Tricolores: Luiz Bezerra de Menezes, Antonio Jeferson Brasil, Cartola e Tom Jobim me incentivam; porque aqui em baixo, Arthur Moreira Lima, Carlinhos Vergueiro, Noca da Portela, Fagner e Ivan Lins me embalam e porque outros não menos notáveis e tão mais próximos me alegram e brindam a felicidade de ser FLUMINENSE: Francisco Cruz (Chicão), Ariosto Braga, Armando Viana, Enéas Neto, Antonio Claudio Izel, Adalberto (Carneiro), Ildefonso Rocha, Rafael (Rafinha), Zezão, meu tio Theófilo Mesquita, meu irmão Luiz Ricardo (Cadinho), minha irmã Heloisa (Lolô), meu filho Lúcio Ricardo e tantos outros mais.

DÁ-LHE FLUZÃO!!!!!

P.S. 1 - Hoje aumentei o meu harém, além de Vitória e Esperança, agora tenho a Glória.
P. S. 2 - Um beijo ao meu filho Pedro Luiz que escolheu o Corinthians para amar, por que não?


ENQUANTO ISSO, EM UMA BANCA DE JORNAIS NO RIO DE JANEIRO...


Olha aí, meu brother Lucio, como já começaram as provocações!

No mínimo, o editor da 1ª página desse jornal deve ser flamenguista... ou botafoguense... ou vascaíno... ou cruzeirense... ou corintiano... ou gremista... whatever...

The Clash: London Calling vai virar filme

O clássico London Calling, do The Clash, vai virar filme: Mick Jones e Paul Simonon, integrantes remanescentes da banda, estão trabalhando em cima do making-of do disco de 1979 para contar sua história e retratar a participação de Guy Stevens na produção de um dos álbuns mais famosos do punk-rock.

Ainda sem nome, o filme terá roteiro escrito por Jez Butterworth (A Última Legião e Jogo de Poder) e a produção fica por conta de Paul Trijbits e Alison Owen, mãe da cantora Lily Allen. As gravações começarão no ano que vem e o elenco ainda não foi escolhido.

Joe Strummer, frontman da banda que faleceu em 2002, também ganhará uma cinebiografia: Joe Public, que está sendo escrito por Paul Viragh, não tem cronograma definido.

Preocupações políticas e musicais não eram as únicas coisas que importavam para a única banda que importava naqueles anos fluviais.

O The Clash sempre teve consciência do valor do impacto visual no rock.

Afinal de contas, estilo era o motor do punk inglês e, ainda que a banda não fosse espalhafatosa e provocadora como os Sex Pistols, o Clash cuidava de detalhes como signos, bottons, chapéus, cintos e cabelos besuntados com brilhantina desde suas primeiras fotos publicitárias.

O assalto estético propagado pelo punk era fundamental no plano de dominação que a banda pretendia aplicar nos Estados Unidos.

Antes de London Calling, havia a fúria punk de The Clash (1977), cuja selvageria tratava da recessão econômica e do caos social que atacava Londres.

O som de rock clássico de Give’em Enough Rope (1978) tampouco foi suficiente para conquistar o público americano - entrou na modestíssima posição 128 da parada em abril de 1979 - e a CBS franzia a testa preocupada com o poder de alcance de sua aposta, cujo contrato estipulara cifras inéditas para o mundo punk.

O primeiro sinal de que as correntes do estilo e a barreira americana poderiam ser rompidas veio em junho de 1978 com o reggae-dub White Man in Hammersmith Palais.

Ao menos os integrantes do Clash acreditavam firmemente em sua internacionalização.

Em sua primeira turnê americana, Pearl Harbor’79, no início daquele ano, o The Clash escolheu nomes como Sam & Dave, Bo Diddley e Screamin’ Jay Hawkins para a abertura de seus shows, tática do tipo política da boa vizinhança, mas que também revelava o fascínio pelas raízes e pelas legendas do rock’n’roll que apareceria em London Calling.

No segundo giro pelos Estados Unidos, no mesmo ano, o The Clash embarcou da Inglaterra ao lado da fotógrafa Pennie Smith e do designer Ray Lowry, para documentar as apresentações e, depois, criar a arte do próximo disco.

Estudante da Twickenham Art School no fim da década de 60, Smith não gostava particularmente de fotografia ou de rock quando foi chamada para colaborar (de graça) na revista alternativa Frendz.

Aliás, era completamente alheia ao rock da época até conhecer o jornalista Nick Kent, que a levou para a publicação New Musical Express.

Nesse semanário, fez várias capas, incluindo a da turnê do Led Zeppelin de 1973, e ficou amiga do futuro companheiro de viagem Lowry.

A foto que se tornou uma das capas de disco mais conhecidas da música pop foi tirada durante uma apresentação do The Clash no Palladium Theater, em Nova York, no dia 21 de setembro.

O show transcorria bem (na concepção punk do termo), mas o baixista Paul Simonon irritava-se cada vez mais, possivelmente por causa do som de seu instrumento que ouvia pelas caixas de retorno.

Smith percebeu a ira do baixista e passou a acompanhar seus movimentos.

Foi então que, com fumaça saindo pelas ventas, Simonon ergueu o contrabaixo acima da cabeça e o arremessou para baixo, espatifando-o contra o chão.

Próxima da cena, Smith não temeu ser atingida por um naco do instrumento e clicou.

Confiante de que conseguira uma boa foto, ela revelou o filme, mas decepcionou-se em seguida: a imagem de Simonon não tinha foco.

Joe Strummer, contudo, afirmou categoricamente que aquela seria a capa do disco, não arredando pé nem mesmo diante dos argumentos técnicos da fotógrafa.

Depois de ampliada, Smith percebeu que realmente tinha registrado uma imagem poderosa.

A superação da crise de identidade, o rompimento com as limitações sonoras e estéticas, a gana em abrir outras portas para o rock e um novo mercado para si próprio - o Clash tinha nas mãos um instantâneo que espelhava as mudanças detonadas com London Calling.

No departamento de arte da gravadora CBS, em Londres, Ray Lowry utilizou a mesma tipografia do disco de estréia de Elvis Presley, em verde e rosa, com a idéia de que London Calling tornava o rock novamente perigoso, como ele havia sido em meados dos anos 50.

Strummer e Mick Jones, os líderes da banda, ganharam espaço somente na contracapa, mas não reclamaram.

Quem sempre se lamentava ao ver a arte gráfica do disco era o próprio Paul Simonon. "Devia ter usado um baixo reserva. O que destruí era muito bom!"

London Calling expandia não somente o som do Clash para o reggae, o rockabilly, o jazz e o R&B como também levava fisicamente o grupo para a América e seu caos de informações e misturas culturais.

O título puxava os holofotes do mundo pop de volta para a capital inglesa, só para ganhar as credenciais e pisar no solo americano.

Definitivamente, o Clash não estava mais entediado com os EUA, como cantara no disco de estréia.

Apesar de duplo, London Calling foi vendido a preço de LP simples e teve excelente aceitação nos EUA, chegando ao 27º posto da parada no início de 1980.

Por pouco não foi intitulado The New Testament, mas presunção tinha limite até para os ingleses.

João Broco


Amaral Cavalcante (*)

Havia um Ministério das Endemias Rurais - ou algo assim - cuidando dos barriga d’água, nordestinos hospedeiros da esquistossomose.

Uma lombriga insidiosa que se escondia no caramujo e debilitava de amarelidão e inchaço o pobre sofredor. Problema nacional.

Cuidava o Governo Federal de erradicá-la nos idos de 60, usando, pasmem os senhores, de métodos tão modernos como a exibição de curtas em super-oito, didáticos e de fácil produção, nos rincões do interior.

Eu mesmo tive a primeira emoção cinematográfica assistindo a curtas exibidos no oitão da Igreja de Sant’Ana, em Simão Dias (um fenômeno tecnológico sem igual), onde me eduquei sobre não cagar na beira do rio e a tomar cuidado com os nefastos caramujos.

Fiquei ciente de que o bichinho saía percorrendo uma linha pontilhada do cocô para o caramujo e dele para um pobre menino, desenhado sem pinta, que andava de bobeira por ali.

Cadê que eu nunca esqueci? A emoção do cinema ficou aquela maravilha na minha cabeça.

Em Itaporanga d’Ajuda, instalou-se um posto médico de referência estadual onde, por força da lei, todo mundo devia se submeter a um diagnóstico pós-exame de fezes obrigatório. Vinha gente de todo canto.

Vai que um dia a minha elegante amiga Maroquinha lá estava esperando os resultados na ante-sala cheia de conhecidos, quando irrompe o conterrâneo João Broco, doidão respeitável da nossa Simão Dias, sobraçando diligente uma lata de leite Ninho.

- Dona Maroquinha, tá por aqui? Onde é que entrega as bosta?...

Vergonha!

Maroquinha se escondeu detrás da enorme bolsa em napa dourada (que pontuava naquele tempo o vestuário elegante de qualquer mulher) e saiu de fininho.

João, vistoso nos seus 120 quilos de pança, nem percebeu.

Adernando o esvoaçante capote tomou rumo e, com a lata de quilo já aberta no nariz da atendente, lascou:

– Será que dá, minha fia?

Fedor da peste!

Mas esse João Broco merece mais: consta que era sobrinho-neto do Barão de Santa Rosa e, portanto, o doido exponencial da cidade.

Morava numa rua boa, a janela sempre aberta pra vender galinha.

Saía, de capotão negromonte, ruínas de bico esfolado e tresloucado olhar, oferecendo poedeiras para cria e frangotes de abate. Bordejava nas janelas das famílias:

- Quem não compra é porque é pobre!

Mamãe comprava sempre que pobre era o que não se podia ser, naquela Simão Dias.

Só que era muito displicente, o maluco do João Broco: trancava a porta fazendo não sei o que lá pra dentro e deixava, ao léu da rua, o seu criatório galináceo, para ciscar besteiras na sarjeta.

Um dia, estávamos brincando de gude - jogo de cinco búricas com direito à luz de papone - quando uma galinha pedrês do sobrecu estufado engoliu a bola rajada, jóia do meu plantel. Grande prejuízo.

Era nada menos que a temida Caterpila, capaz de detonar, no teco, qualquer besteirinha de vidro que se colocasse entre ela e o pódio, no último buraco. Uma legenda olímpica.

Catila, vulgarmente conhecida, era respeitada até na gandaia da Rua do Pastinho, onde, de vez em quando, eu me aventurava garantido pela grandalhice do meu primo Carlinhos de Valério, um gordo mole de briga que, muito raramente, assoava o nariz, mas dava medo de grandão que era.

Certa vez, depois eu volto à galinha pedrês, fomos de turma ao pastinho aplicar o golpe do pau-de-bosta, que era o seguinte: um pau melado na ponta e você sabe de que é uma briga simulada.

- Fi duma égua, sua mãe tá na torre!

Junta gente, chega, chega, aí vem um besta querendo apartar.

- Então, segure o pau que vai ser na mão mesmo!

É ele segurando e o pau escorregando o troçoio nojento na mão do otário. Fedor da peste!

Mas e a galinha, como foi?

Não havia como deixar por menos: até a meia noite, cada um ia à janela do doido gritar:

- Seu João Broco, a galinha já cagou?

E isso só acabou de manhã, quando João Broco (sobrinho-neto do Barão) solicitou providências enérgicas, na janela lá de casa, e foi prontamente atendido com a simples exibição do cinturão do meu pai.

O que já é outra história... mas era cada lapada!


Amaral Cavalcante é jornalista, poeta e boêmio. Contatos através do email: folha.da.praia@terra.com.br

Causos de Bambas: Roniquito

Segundo conta Ruy Castro, no livro “Ela é Carioca”, o economista Roniquito de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon, foi o verdadeiro inventor da palavra aspone (assessor de porra nenhuma).

Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava: “Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!”

Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça.

Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximaria de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e diria alguma coisa tão ofensiva que faria o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.

Era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e agüentou firme.

Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe: “Chega ou quer mais?”. E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: “Cansou, filho da puta?”.

Nascido em Manaus, filho do escritor Ramayana de Chevalier, Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa.

Umas dessas foi o cronista Antonio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle’s Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão.

Para ele, homem de televisão era seu amigo Walter Clark, então diretor comercial da TV Rio e que estava calado na mesa, temendo o pior.

Roniquito ofendia Antonio Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o “Sirica”, também sentado com eles.

Maria aguentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: “Antonio Maria, você foi parido por um ânus!”.

Ao ouvir isso, Maria ficou vermelho e atirou-se enfurecido sobre Roniquito, Walter e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por “Sirica” e mais uns dez.

Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10.

A primeira frase de Roniquito para Walter foi: “Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre...”. Nunca mais se separaram.

Nos anos 60 Walter contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral.

Quando Walter saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da Globo a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista.

Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por Carlinhos de Oliveira: “Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma”. A palavra, consagrada nacionalmente, ainda não chegou ao Aurélio.

Mas não era bem assim. Na própria Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um aspone. Numa época de crise, por exemplo, ajudara a equacionar uma pesada dívida da Globo para com a Receita Federal.

Era um economista brilhante, ex-aluno de Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen e fora o orador da sua turma (da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares).

Em fins dos anos 50, saíra da faculdade para um emprego na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser ministro do Planejamento do governo Geisel - e sendo derrotado por ele no xadrez.

Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação.

E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faukner.

Suas estantes era impecáveis, com os livros organizados por assunto, todos sempre à mão. Em música era capaz de assobiar até os clássicos.

Parte dessa erudição lhe vinha de família: seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico (o Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindú).

Ramayana carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier; dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, Scarlet Moon de Chevalier.

Por intermédio de Ramayana, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais.

Na mesma época, para exibir Roniquito, Ramayana mandou-o imitar Rui Barbosa para Lucio Cardoso. Roniquito imitou Rui à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lucio ficou fascinado: “Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!”.

Muitos anos depois, Lucio deu-lhe para ler os originais de seu romance “Crônica da casa assassinada” e pediu-lhe sua opinião.

Mas, quando Lúcio o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lucio e começou a gritar o insulto que, na sua opinião mais o ofenderia: “Faukner do Méier! Faukner do Méier!”.

A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: “Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?”.

Fernando gaguejou: “Bem... Nelson Rodrigues, é claro”.

Mas Roniquito fulminou: “E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”.

Fez pior com o suave Antonio Callado, a quem perguntou se já tinha lido Faulkner. Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. “Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta”, disse Roniquito.

Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimônia com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar.

Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou: “Nem essa?”. E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada.

Em outra visita de autoridades à Globo, Roniquito perguntou a Pratini de Moraes, ministro dos Transportes do governo Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: “Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo”.

De outra feita, no governo Geisel, quando Roniquito conversava com o seu amigo, o ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: “Não estou falando com fabricante de lençóis”.

Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção - Walter era o contrário.

Mas a maior sem-cerimômia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história muito bem contada por Ferdy Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do governo, a pedido de Nascimento Silva.

Naquela manhã ele levara o visitante a almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna. Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques – muitos uísques, porque o americano não enjeitava o serviço.

Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no MAM para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro.

Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: “O senhor tem fogo?”.

Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como “Whatthegoddamfuckdoyouthinkyouredoin’” e foi também abotoado.

Os dois foram levados para o 3º Distrito, na rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa: “I’m an American shitizen! Call the embashy!”.

O delegado perguntou: “Quê que o gringo tá falando?”.

“Ele tá dizendo que a polícia no Brasil é uma merda”, traduziu Roniquito.

“Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!”, bramiu o delegado.

O americano pediu para usar o telefone. Roniquito traduziu: “Ele está dizendo que no Brasil ninguém respeita os direitos humanos”.

“Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!”, ganiu o delegado.

O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo.

Roniquito sussurrou para o delegado: “Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura facista”.

Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo.

Mas, por causa de Roniquito, conclui Ferdy, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos – tendo como pivô um palito de fósforo.

Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, sequestrado em 1970.

Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar.

A poção que o fazia passar de Dr. Jekyll a Mr. Hyde (ou de Dr. Roni a Mr. Quito, segundo Marcos de Vasconcelos) vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto.

Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia o seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá.

Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, “A palavra é...”.

No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando.

A dona da casa achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: “Roniquito, a palavra é...”.

E Roniquito, meio zonzo de sono: “Ca-ra-lho”.

Naturalmente, foi expulso pelo filho da dona da casa.

Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era a sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical.

Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os “caminhos da democracia no Brasil”. Propunham “estratégias de ação”.

Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: “Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?”. O debate acabou ali.

Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio’s. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Miguel Couto.

Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio’s e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: “O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?”.

Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve seqüelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982.

Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber - mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça.

Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, “Tomando café, Roniquito?”, respondeu: “Estou. Irish cofee” (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca.

Quando teve o enfarte fatal, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois. Foi enterrado com o pé no gesso e de olhos abertos.

O anúncio da sua morte no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito: “Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava”.

E Paulo Francis escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo: “Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer – virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que análises ou contramodelos. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava”.

Causos de Bambas: Nelson Dantas

O ator Nelson Dantas entrou num ônibus especial, ar refrigerado, conhecido como Frescão. O motorista barrou-o na porta:

– O senhor me desculpe, mas de bermudas não pode entrar.

– Escoteiro pode? – perguntou Nelson.

Podia. Levantando os três dedos da mão direita, antes de abancar-se e iniciar a leitura, declamou o brado do clã:

– Sempre alerta!

Causos de Bambas: Max Von Stuckart

Na tarde de domingo dia 14 de agosto de 1955, em Copacabana, ocorreu um dos mais tenebrosos incêndios no Rio de Janeiro: o do hotel e Boate Vogue, que na época era uma das mais famosas do Brasil e a mais grã fina da cidade.

A boate Vogue era de propriedade do barão austríaco Max Von Stuckart e era muito freqüentada por colunáveis da época.

Vários cantores e cantoras famosas se apresentaram lá, como Dolores Duran, Aracy de Almeida, Antonio Maria, Inezita Barroso, Dick Farney e Elizeth Cardoso, entre outros.

Das cinco vitimas fatais do incêndio. duas pessoas se jogaram do edifício em chamas, entre elas o cantor americano Warren Hayes. O prédio foi demolido posteriormente.

Alguns meses depois do sinistro, a empregada de Marise Miranda Freitas, nervosíssima, dá um toque para a patroa:

– Dona Marise, telefonou um estrangeiro com um nome muito cabuloso. Ele soletrou pra mim, mas o nome era muito, muito cabuloso. Não guardei.

Mais tarde, encontrando-se com o barão Max Von Stuckart, o mistério se soluciona:

– Mas seu emprrregada serr um imbecil. Soletrrei minha nome inteirrinha e o burra nón em-tem-teu! Nón em-tem-teu! – dispara o austríaco, furioso.

Marise, desconfiada:

– Max, como é que você soletrou?

– S de Stanislaw, T de Theodor, U de Ulrich, C de Conrad, K de Kirchoff, A de Andrews, R de Romanovitch e T de titio.