Pesquisar este blog

quarta-feira, junho 12, 2013

Paisagem de interior


A poesia matuta já é um estilo consagrado da literatura brasileira. 

Nomes como Patativa do Assaré, Catulo da Paixão Cearense e Zé da Luz são conhecidos em todo o país como os principais representantes do gênero. 

Um pouco menos famoso que os três, mas podendo ser considerado tão importante quanto, é Jessier Quirino, poeta paraibano que vem se destacando por seu estilo humorístico. 

É dele o poema abaixo, intitulado “Paisagem de interior”. Curtam:

Matuto no mêi da pista
menino chorando nu
rolo de fumo e beiju
colchão de palha listrado
um par de bêbo agarrado
preto véio rezador
jumento jipe e trator
lençol voando estendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Três moleque fedorento
morcegando um caminhão
chapéu de couro e gibão
bodega com surtimento
poeira no pé de vento
tabulêro de cocada
banguela dando risada
das prosa do cantador
buchuda sentindo dor
com o filho quase parido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Bêbo lascando a canela
escorregando na fruta
num batente, uma matuta
areando uma panela
cachorro numa cadela
se livrando das pedrada
ciscador corda e enxada
na mão do agricultor
no jardim, um beija-flor
num pé de planta florido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Mastruz e erva-cidreira
debaixo dum jatobá
menino querendo olhar
as calça da lavadeira
um chiado de porteira
um fole de oito baixo
pitomba boa no cacho
um canário cantador
caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um motorista cangueiro
um jipe chêi de batata
um balai de alpercata
porca gorda no chiqueiro
um camelô trambiqueiro
avelós e lagartixa
bode véio de barbicha
bisaco de caçador
um vaqueiro aboiador
bodegueiro adormecido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Meninas na cirandinha
um pula corda e um toca
varredeira na fofoca
uma saca de farinha
cacarejo de galinha
novena no mês de maio
vira-lata e papagaio
carroça de amolador
fachada de toda cor
um bruguelim desnutrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Uma jumenta viçando
jumento correndo atrás
um candeeiro de gás
véi na cadeira bufando
radio de pilha tocando
um choriço, um manguzá
um galho de trapiá
carregado de fulô
fogareiro abanador
um matador destemido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um soldador de panela
debaixo da gameleira
sovaqueira, balinheira
uma maleta amarela
rapariga na janela
casa de taipa e latada
nuvilha dando mijada
na calçada do doutor
toalha no aquarador
um terreiro bem varrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um forró de pé de serra
fogueira milho e balão
um tum-tum-tum de pilão
um cabritinho que berra
uma manteiga da terra
zoada no mêi da feira
facada na gafieira
matuto respeitador
padre, prefeito e doutor
os home mais entendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Jessier Quirino é paraibano de Campina Grande, arquiteto por profissão, poeta por vocação, vive atualmente em Itabaiana. É o autor dos livros “Paisagem de Interior”, “A Miudinha”, “O Chapéu Mau”, “O Lobinho Vermelho” e “Agruras da Lata D’Água”, além de cordéis, causos, musicas e outros escritos.

Dilma lança novo programa contra pobreza


Em duas semanas de novela, a Pilar de “Amor à Vida” já gerou mais empregos e benefícios que Dilma Rousseff em dois anos de mandato

Diego Rebouças (*)

A Presidenta está um poço de chateação. Ainda mais depois de descobrir que foi a própria Caixa Econômica Federal que sambou em cima das datas do Bolsa Família e transformou as agências num Carnaval fora de época – o CarnaCaixa.

Para dar a volta por cima e provar que, assim como Susana Vieira, nossa Governante-mor é muito mais que uma “Personalidade da Mídia”, Dilma decidiu lançar seu mais novo programa de erradicação da miséria, um aplicativo que reduz a Pobreza a colega de Facebook.

Assim, a partir da semana que vem, se você estiver interessado em se livrar da vidinha de carnês e prestações, basta ir lá em “amigos”, localizar o perfil da Pobreza e clicar em “desfazer amizade”. 

Indolor, silencioso e simples. 

Lembrando que o botão de “cutucar” permanece, tanto para os viciados em perigo quanto para os nostálgicos masoquistas.

Não para por aí. Ainda no segundo semestre de 2013, o Governo planeja disponibilizar a Pobreza também como perfil do Linkedin. 

Assim, as pessoas com mais dificuldade de deixar o passado de vacas magras para trás poderão entrar no site e receber informações como:

Confira o que a Pobreza tem feito ultimamente

Pobreza atualizou o seu perfil

Pobreza is now connected with Pindaíba

Etc. etc. etc.

Para que o novo Programa de extermínio da Pobreza alcance sucesso completo, basta que todos os brasileiros tenham internet e consigam acessar algum dos sites citados com a conexão ½G oferecida atualmente pelas nossas operadoras. 

É ou não é supimpa num nível über? 

Mais fácil que isso, só ganhar sozinho na Mega-Sena.


(*) Diego Rebouças, 30, é roteirista, jornalista e autor do livro “Travessia”, publicado pela Livros Ilimitados

À mesa com Henfil e Quino


Por Mouzar Benedito (*)

Era final de 1981, e eu, desempregado, demitido do Senai como militante de esquerda, andava catando frilas aqui e ali para pagar o aluguel. 

Foi quando recebi um telefonema da Global Editora. Fiquei surpreso.

José Carlos Venâncio, editor da Global, me oferecia um trabalho muito bom. 

Contou que tinha muita vontade de publicar uma versão brasileira da revista “Mafalda”, entrou em contato com Quino e fez sua proposta.

Quino topava, com uma condição: que Henfil fizesse a versão brasileira. Mas o Henfil era muito ocupado, não tinha tempo para isso. 

José Carlos falou sobre essa dificuldade com Paulo Schilling, chegado havia pouco tempo do exílio e autor de alguns livros que a Global publicaria.

Apesar da grande diferença de idade, Paulo Schilling era meu amigo desde que chegou a São Paulo, e disse ao dono da editora: “Tenho um amigo que pode fazer a tradução. Você podia propor que o Henfil dê ‘um tapa’ na versão dele e ela sairia no nome dos dois”.

José Carlos consultou o Henfil e o Quino, e os dois toparam. 

Quino, na época, morava entre a Itália e a Argentina. Passava seis meses em cada país. 

E dias depois veio a São Paulo para assinar o contrato com a editora e conversar sobre a versão que faríamos.

Assim, eu me vi ao lado do dono da Global, almoçando com o Quino e o Henfil, dois ídolos para mim. 

Eu já havia colaborado com o “Pasquim” e tinha ido algumas vezes à sede do jornal, no Rio, mas, naquele período, o Henfil morava no Rio Grande do Norte, nunca o tinha visto. 

E comprava todas as revistas do Quino, não só as da Mafalda, mas também as de seus cartuns, sempre arrasadores.

No almoço, Henfil argumentou que as versões em que transformavam a Mafalda em não argentina eram meio bestas, ficavam sem graça. 

Eu tinha visto a versão portuguesa e a italiana e concordei. 

Perdiam muito do sentido original.

Então, ele propôs que fizéssemos uma versão meio para o portunhol, mantendo em espanhol algumas palavras que qualquer brasileiro entendesse, e também a pontuação, com pontos de exclamação e interrogação “de cabeça para baixo”, nos inícios de frases em que esses pontos apareciam no fim.

Quino relutou um pouco, mas acabou aceitando.

Quando fiz a versão, lembrei ao José Carlos que a letra também faz parte do desenho, do estilo do autor, então o letrista deveria manter o formato da escrita original. 

Mas ele não ligou nem pediu isso ao letrista. Saiu com letras diferentes.

Mesmo assim, os 30 mil exemplares de tiragem da primeira edição se esgotaram rapidamente. E a Global só editou até o número 5 da revista, em 1982. Uma pena.

Tempos depois, o “Pasquim”, com dificuldades econômicas, pediu que ex-colaboradores voltassem a colaborar, mas de graça. 

Fiz um texto e levei ao Henfil; ele estava morando em São Paulo, e seu apartamento tinha virado uma espécie de sucursal do “Pasquim” aqui. 

Continuei levando textos pra ele, semanalmente.

Um dia ele me disse que tinha parado com seu quadro “TV Homem”, de um minuto por dia, até então apresentado dentro do programa “TV Mulher”, na Globo.

A Editora Abril havia comprado quatro horas diárias da TV Gazeta e levou o Henfil e seu quadro para lá. Ele me chamou para ser um dos atores improvisados. 

Disse que pensava em fazer um filme, “Tanga (Deu no New York Times?)”, e queria que eu fizesse o papel de guerrilheiro, por causa do meu visual. 

Sua ideia ao me levar para a TV era que eu fosse me acostumando a ficar diante da câmera sem me incomodar com ela.

Fiquei uns dois ou três meses trabalhando com ele, até que um dia tentaram censurar um dos quadros, ele brigou com a produção e saiu. Assim acabou minha breve carreira de “artista” televisivo.

Nesse dia, ele pegou uma carona comigo até sua casa e me deu um exemplar do seu livro “Diário de um Cucaracha”, cuja segunda edição fora lançada pouco antes. 

E ainda me brindou com essa caricatura e esse autógrafo.



(*) Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro.

Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher).

Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo.

É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia).


Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Bruno Tolentino dando nome aos boys


Há pouco mais de 12 anos, o poeta Bruno Tolentino, que morreu na manhã de uma quarta-feira, no dia 27 de junho de 2007, concedia uma entrevista à revista VEJA que gerou muito barulho – e protestos daqueles que se sentiram “injustiçados” por um homem franzino, recém-chegado de uma espécie de exílio que durara 30 anos, mas dono de uma palavra contundente. São as Páginas Amarelas da edição n.º 1436, de 20 de março de 1996. O título: “Quero o país de volta”.

É, senhoras e senhores, a entrevista é impressionante. Acabo de relê-la e, confesso, somei à tristeza pela morte do Bruno um suspiro entrecortado pelo desalento. O feitiço do tempo nos persegue. É claro que dá para discordar disso ou daquilo, mas o diagnóstico de Bruno Tolentino é impecável. Nos dias que correm, prestem especial atenção à sua crítica à academia brasileira. O homem que ensinou em Oxford, Essex e Bristol afirmava só conseguir entrar numa universidade brasileira “disfarçado de cachorro”.

Por Geraldo Mayrink

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário.

Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke.

O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Chair. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil “As Horas de Katharina”, e no fim do ano passado mais dois, “Os Deuses de Hoje” e “Os Sapos de Ontem” – todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.

Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador João Guilherme Merchior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma.

Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti.

Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA – Por que tantas brigas ao mesmo tempo?

TOLENTINO – Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

Por que não?

Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

Qual o problema?

Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?

Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

O que você tem contra a música popular?

Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.

Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio, achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?

Não sabem inglês, nem alemão nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase “ele tem um pássaro”, que é literal, mas que, em alemão, quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?

Na República das Letras, ainda estamos à espera das diretas-já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”. Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras, e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: “Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e...” É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?

O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e – como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? – o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?

A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

Caramba... Não sobra nenhum crítico brasileiro?

Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim...

O senhor também não sobra?

Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos críticos e poetômanos. Infelizmente, ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?

Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

O senhor poderia dar exemplos disso?

Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. “Faz a melhor imitação de poesia que já li”, dizia. Parecia piada, mas não era.

O senhor acha que a imitação é ruim?

A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?

Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

Então as universidades não servem para nada?

A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?

O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil “ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas”, como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos “grandes centros” produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o “rigor” (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado...

É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

Tem a ver com o quê?

A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

O senhor não está exagerando, sendo duro demais?

Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.

Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país...

O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?

Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

NOTA DO EDITOR DO MOCÓ:


O jornalista e escritor Geraldo Mayrink morreu no dia 27 de agosto de 2009, aos 67 anos, em São Paulo, de problemas decorrentes de câncer no pulmão e na boca. Seu corpo foi cremado em Vila Alpina, após velório no Cemitério São Pedro. Deixou mulher, Maria do Carmo, e os filhos Marieta e Gustavo. Nascido em Juiz de Fora (MG), em 1942, Geraldo Flávio Dutra Mayrink iniciou a carreira em sua cidade, no jornal Binômio. Depois rumou para Belo Horizonte, onde trabalhou no Diário de Minas, hoje extinto.

Sua carreira continuou no Rio, em O Globo e Jornal do Brasil, além da Revista da Rio Gráfica Editora. Ele deixou também sua marca em revistas, como Manchete, Veja (da qual foi diretor), Isto É, Afinal e Revista da Goodyear. Em São Paulo, atuou ainda no Diário do Comércio, no Estado e no Jornal da Tarde, do qual foi também colunista. No total, foram mais de 30 anos na atividade jornalística.

Em suas reportagens, Mayrink deixava uma marca pessoal, pois não se limitava a narrar fatos, mas os questionava e os lia além da superfície – sempre com ironia fina, fugindo à tentação do politicamente correto, com coerência e bom humor. É o que se observa no livro “Obrigado pela Lembrança” (Editora Unimarco, 2000), seleção de reportagens, memórias e ensaios, alguns inéditos.


Seu principal interesse era a relação humana, tema de “Escuridão ao Meio-Dia” (Record), publicado em 2005 sobre as condições masculina e feminina. Já a paixão pelo cinema originou o ensaio “O Cinema e a Crítica Paulista” (Nova Stella, 1986). Mayrink também escreveu a biografia do ex-presidente Juscelino Kubitschek, “Memorando” (teatro, em parceria com Fernando Moreira Salles, Companhia das Letras, 1993) e “Travessia” (reportagem sobre a agricultura brasileira, Grifo, 1995). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quinta-feira, junho 06, 2013

Morre Oraldo Grunhevaldo, o último poeta concreto


Edson Aran

Conheci Oraldo Grunhevaldo nos anos 80. Na época, eu era um escritor em início de carreira e ele já era o intelectual renomado, que escrevia na “Ilustrada” e privava da intimidade de Caetano Veloso.

No mundo apressado e ignorante de hoje, talvez o nome de Oraldo Grunhevaldo não toque nenhum sininho na sua cabeça. Mas ele foi um dos pilares do edifício do Concretismo, ao lado dos Irmãos Campos, Décio Piccinini, Pedro de Lara e Ferreira Gullar.

Há, no entanto, quem afirme que Ferreira Gullar e Pedro de Lara eram a mesma pessoa, visto que não existe nenhuma foto dos dois juntos. Eu, particularmente, acho que Haroldo de Campos e Aracy de Almeida é que eram a mesma pessoa. Mas sou uma voz isolada neste acalorado debate cultural.

Naqueles distantes anos 80, o concretismo ainda era incrivelmente conceituado. Só mais tarde, os poetas concretos passariam a ser perseguidos pela carrocinha de cachorro, sendo respeitados apenas pelo Arnaldantunes, embora isso não signifique muita coisa.

Oraldo Grunhevaldo sempre foi um intelectual gentil e atencioso. Quando o conheci, ele interrompeu uma tradução de dez anos de um hai-kai do Bashô só para falar comigo. Lembro-me, até hoje, de suas sábias palavras: “Merda! Vou ter que começar tudo de novo!”.

Nos anos que se seguiram, o poeta não parou de produzir seus poemas, enfisemas e dilemas, mas se dedicou a cimentar sua fama de polemista, encrenqueiro e criador de caso. É famosa sua discussão com Bruno Tolentino sobre a poesia de Oswald de Andrade, que só terminou quando a vizinhança chamou a polícia para apartar.

Alinhado com a esquerda, Oraldo Grunhevaldo sempre defendeu o projeto petista, apoiando Lula em 1995, 1999, 2003 e 2007. Isso não resolveu muito, já que as eleições foram em 1994, 1998, 2002 e em 2006.

Seja como for, o intelectual desencantou-se com Lula quando estourou o escândalo do Mensalão. No início, Grunhevaldo defendeu o PT, que considerava vítima de uma conspiração burguesa, mas mudou de ideia quando acessou sua conta corrente e viu que não havia depósito nenhum.

A última polêmica que teve Oraldo Grunhevaldo como protagonista foi em 2010, quando o cantor Chico Buarque ganhou um Jabuti. Na época, a intelectualidade brasileira se dividiu. Metade achava Chico um tesão e a outra metade o achava um gato.

Grunhevaldo entrou na discussão argumentando, ferozmente, que o Jabuti só deveria ser outorgado a quem não tivesse animal de estimação – e Chico já tinha dois: um papagaio fanho e um pequinês marxista. O poeta pedia, ainda, que o cantor lindão devolvesse o Jabuti à natureza. Chico, em resposta, colocou uma coleira no Jabuti e passeou a tarde inteira com ele pelo Leblon.

Mas apesar de suas posições sempre polêmicas, ninguém jamais colocou em dúvida a homérica produção intelectual de Oraldo Grunhevaldo. Seu último trabalho, a tradução de “Finnegans Wake”, levou 80 anos para ficar pronta, tendo começado antes mesmo do lançamento do original. Intitulada “Levantaí Finegão”, a obra é ainda mais impenetrável e ilegível que o livro de James Joyce, o que faz de Grunhevaldo o melhor tradutor de Joyce de todo o planeta. Quiçá, planetas vizinhos.

Nos últimos anos, Oraldo Grunhevaldo se recolheu à solidão do seu sítio em Santa Ignorância do Mato Alto (MT), onde se dedicou a produzir lindos poemas concretos com areia, argamassa e tijolo. Um desses poemas despencou em cima dele na última semana, justo quando ele ia colocar o ponto final. É por essas e outras que José Saramago é cada vez mais apreciado.

Oraldo Grunhevaldo deixa dois filhos: Vaginalda Grunhevalda, estilista, e Analdo Grunhevaldo, hipster. Suas últimas palavras foram “aaaarrrgggghh!”, que muitos consideram ser seu último poema.

Eu sempre me lembrarei de Oraldo Grunhevaldo. Uma vez caminhávamos tranquilamente pelo parque do Ibirapuera, catalogando assaltos, quando ele me perguntou, cheio de sabedoria: “Escuta, quem é esse porra de Arnaldantunes, afinal?”.



Edson Aaran é autor de cinco livros. O mais recente, “Delacroix Escapa das Chamas” (Editora Record), é uma sátira futurista passada na São Paulo de 2068. Sua série de cartuns “O Totalmente Dispensável Almanaque Inútil do Aran” é publicada mensalmente no Folhateen. Ele foi diretor das revistas Playboy, Sexy e redator-chefe da Vip. É um tuiteiro compulsivo e sua conta é @EdsonAran.

A poesia nordestina, segundo Carpinejar


O escritor, jornalista e professor universitário Fabrício Carpinejar, disse, nesta quarta-feira, 5, durante o Bate-Papo literário no Salão do Livro do Piauí (Salipi), que a poesia é mais forte no Nordeste do que em outras regiões do Brasil.

“Aqui a poesia é cantada, é uma poesia do assalto. Aqui não tem como ser tímido, a poesia é mais falada, é uma coisa mais arraigada na cultura da região. Aquela coisa de encenar e personificar e personagem do cordel. Aqui a poesia é do chão e não aquela feita por autores que querem ganhar prêmio”, disse .

O autor foi a grande atração desta terça-feira, 5, do 16º Seminário língua Viva,  evento que acontece ao mesmo tempo do Salipi, com a apresentação de palestras, oficinas, bate-papo literário e apresentações artísticas.

Fabrício Carpinejar disse também não acreditar na máxima de que brasileiro não gosta de ler poesia.

“O que faz um escritor é ter um pai e uma mãe que contem histórias. Um livro é um pretexto para a convivência e todo mundo gosta de ler”, afirma.

Sucesso na internet, onde tem um blog muito acessado e seus textos viraram febre nas redes sociais, o escritor destaca que a rede mundial de computadores possibilitou uma nova forma de viver a literatura.


“A internet da uma oportunidade de provocar, de sair do lugar comum que não havia antes. Hoje é preciso escrever mais do que falar. Aliás, nunca se escreveu tanto. Na internet tu conhece uma autor pelo Twitter, daí então tu compra o livro dele e passa acessar o blog. Ele se tornar uma espécie de cumplice porque tu já convive com ele, manda até e-mail desafiando suas ideias. A internet possibilita isso”, afirma.

Figura contumaz em salões de livro por todo o Brasil, Carpinejar enaltece o papel desses eventos na formação de novos leitores.

“É de suma importância, primeiro para trocar experiências de leitura e desmistificar os escritores. O autor é um mediador vivo da sua obra, ele tem que despertar a paixão, para que o leitor conte as páginas do livro para saber o que vai acontecer ao fim da história. Acho que é isso que precisamos repassar ao leitor, que o livro é uma espécie de fogo que se alastra”, finaliza.

O 11º Salão do Livro do Piauí começou no dia 2 e segue até o domingo, 9, com palestras, apresentações musicais, atividades para o público infantil e feira de livros.


O evento, que ocorre no Complexo Cultural da Praça Pedro II, no Centro de Teresina, homenageia os centenários de Vinicíus de Moraes, Permínio Asfora e Rubem Braga.

Morre a jornalista e escritora Scarlet Moon


Filha do escritor amazonense Ramayan de Chevalier, a jornalista, atriz e escritora Scarlet Moon de Chevalier, de 62 anos, morreu na madrugada desta quarta-feira em sua casa, no Rio de Janeiro.

Segundo o jornal Bom Dia Brasil, da TV Globo, ela sofria, havia três anos, da síndrome de Shy-Drager, uma doença degenerativa, e não resistiu a uma parada cardiorespiratória.

Scarlet foi casada por 28 anos com o cantor e compositor Lulu Santos. Ela deixa os filhos Gabriela, Christovam e Theodora, de relacionamentos anteriores (que o cantor tratava como se fossem dele), e dois netos.

Em seu perfil no Twitter, Lulu descreveu a notícia da morte da ex-mulher como “devastadora” e a homenageou com versos de um de seus maiores hits, Tão Bem.

“Ela me encontrou, eu estava por aí num estado emocional tão ruim, me sentindo muito mal, sozinho, perdido, andando de bar em bar...”
O cantor também lembrou do tempo em que estiveram juntos e disse que o relacionamento “foi eterno enquanto durou”. Lulu contou também que acompanhou de perto a luta de Scarlet contra a doença.

“Os últimos anos foram uma batalha morro acima contra uma devastadora doença degenerativa q lhe roubou a vida em vida, e isto, em mim, sempre doeu a mais ñ caber. Perdemos Miss Moon para uma moléstia cruel.”


Lulu presta homenagem à ex-mulher no Twitter

A jornalista ficou conhecida por seu jeito irreverente de apresentar o programa de entrevistas Noites Cariocas, da TV Record, ao lado de Nelson Motta, nos anos 1980.

Ela também apresentou o Fantástico e o Jornal Hoje nos anos 1970.

A relevância artística de Scarlet na cena cultural brasileira dos anos 1980 foi celebrada pela cantora Rita Lee, que escreveu a música Scarlet Moon em sua homenagem.

A canção foi gravada por Lulu em seu disco de estreia, Tempos Modernos, lançado em 1982.

Autora dos livros Dr. Roni e Mr. Quito (biografia do irmão, Ronald de Chevalier, o Roniquito, figura conhecida no Rio nos anos 60 e 70) e de Areias Escaldantes, Scarlet assinava, desde 1996, a coluna Abalo, do caderno Zona Sul, do jornal O Globo.


A página de Scarlet no Facebook informava que o velório seria realizado no Cemitério São João Batista até as 16h de quarta e que seu corpo seria cremado nesta quinta-feira.

Mistério marca leilão de mural do artista Banksy em Londres


Um mistério rodeia o segundo leilão do mural do artista britânico Banksy que desapareceu do bairro londrino de Wood Green em fevereiro, quando a obra foi retirada de um muro da região e levada aos Estados Unidos para ser vendida.

O mural de Banksy reapareceu em Londres, onde foi a leilão novamente pela casa Sincura Group, informou nesta terça-feira, 4, a emissora BBC.

A obra foi posta à venda no último domingo, 2, com um preço mínimo de US$ 1,3 milhão (cerca de R$ 2,7 milhões).

A Sincura ainda não se pronunciou sobre o resultado do leilão e se a obra foi arrematada.

Se o mural, que foi ligeiramente restaurado, não alcançar o preço mínimo, será vendido a uma colecionadora dos EUA, informou a casa de leilões, que não quis fornecer mais detalhes sobre a transação.

Em fevereiro, poucas semanas depois de ser removido misteriosamente do bairro londrino, o mural de Banksy, que mostra um menino costurando bandeiras britânicas, apareceu pela primeira vez nos catálogos de um leilão da casa Fine Art Auctions, em Miami, que chegou a negar que a obra tivesse sido fruto de um roubo, embora tenha retirado o mesmo de leilão nas semanas seguintes.

No entanto, por causa dos protestos dos moradores de Wood Green, que consideravam que o mural era um presente do grafiteiro à comunidade, a obra teve que ser retirada horas antes da concretização de sua venda.


O trabalho do artista urbano, cuja verdadeira identidade é um mistério, apareceu pela primeira vez em uma parede do bairro de Wood Green, ao norte de Londres, em maio de 2012, antes das celebrações oficiais pelos 60 anos do reinado de Elizabeth 2ª.

Em novo livro, Bridget Jones ‘caça’ homem pelo Twitter


Cartaz do filme “O Diário de Bridget Jones”, de 2001

Mais velha e experiente, mas ainda profundamente envolvida nos mesmos dilemas e problemas amorosos.

Essa é a personagem de Bridget Jones: Mad About the Man, novo livro de Helen Fieldings, autora da saga que virou best-seller e deu origem a filmes igualmente bem-sucedidos.

No romance, segundo o site do jornal The Guardian, a autora coloca a protagonista no mundo do namoro virtual, que procura um amor através do Twitter e outras redes sociais.

Segundo especulações, o novo romance será baseado nos perigos da bebida e as tentativas da quase quarentona Bridget Jones em ser mãe.

Com lançamento previsto para 10 de outubro no Reino Unido, a escritora inglesa Helen Fieldings volta à ativa catorze anos depois de No Limite da Razão, segundo volume da série que vendeu mais de 15 milhões de cópias em quarenta países.

A partir de um trecho do livro divulgado nesta semana, dá para ver que a jornalista solteirona vai passar por situações embaraçosas:

“Quarta-feira, 24 de outubro de 2012

23:27. Apenas preciso apertar ENVIAR. É ótimo, não é?

Você vê, este é o problema com o mundo moderno. Se fosse nos dias de carta, eu jamais teria encontrado seu endereço, pegado uma caneta, um pedaço de papel, envelope, selo e saído às 23:30 para encontrar uma agência de correio. Um texto tem origem a partir da ponta de um dedo, como uma bomba nuclear ou um míssil.

REGRA NÚMERO 1 DO NAMORO

JAMAIS ESCREVER UM TEXTO BÊBADA”

Um novo filme sobre a personagem também está sendo produzido com Renée Zellweger como protagonista.

Mas, diferente de O Diário de Bridget Jones e Bridget Jones: No Limite da Razão, o novo longa não estará relacionado com um romance de Helen Fieldings, e sim com antigos contos da escritora.

O Bebê de Bridget Jones tem estreia prevista para 2014.


O filme quer repetir o sucesso dos dois primeiros filmes da série, que arrecadaram, respectivamente, 281 e 262 milhões de dólares ao redor do mundo. 

quarta-feira, junho 05, 2013

10 coisas pra não dar no Dia dos Namorados


Depois de muita insistência, você convenceu sua namorada a encarar um canguru perneta no Dia dos Namorados. Ocorre que qualquer relacionamento amoroso se baseia na lei econômica do custo-benefício, isto é, dependendo do quão valioso seja o presente que você der, ela vai retribuir ou não com o presente que você quer. Preste atenção no que você NÃO deve dar se não quiser morrer na mão...

1. VALE PRESENTE

Se você namora alguém que te dá uma merda dessas é porque a criatura caga e anda pra você, não te conhece, não sabe o que você gosta ou não quis ter trabalho nem perder tempo em procurar uma porcaria melhor. A recíproca é verdadeira. Em vez de canguru perneta, sua namorada pode muito bem retribuir o mimo com um Vale Pé-Na-Bunda.

 2. PERFUME DO BOTICÁRIO/ÁGUA DE CHEIRO/JEQUITI/CONTEM 1G

Quatro palavras para a criatura cretina quem dá isso de presente: vai-tomar-no-cu. Vale também para bombons e cestas de café da manhã.

 3. MEIA/GRAVATA/CUECA/PIJAMA

Dar meia, cueca e outras porcarias do tipo é sacanagem ou é presente que avó e tia velha encalhada sem-noção dão no Natal. Se você ganhar uma meia da namorada, mande ela se foder. E jogue o presente na privada e dê a descarga.  O mesmo vale pra quem quer presentear a namorada com calcinha, sutiã, meia-calça, pijama ou shortinho de lycra...

 4. UM CARTÃO

Essa merda sozinha não é presente! Num fode, porra! Enrola o cartão e envia no cu!

 5. QUALQUER BOSTA COMPRADA EM LOJAS DE R$ 1,99

Se você não tem grana pra comprar um presente legal, não compre nada. Se a pessoa gostar mesmo de você, vai compreender. Mas se você achar que uma merda destas lojas pode ser considerada um presente, você é uma criatura muito escrota.

 6. UM URSINHO DE PELÚCIA

É o tipo de presente que baranga gosta de receber e babaca gosta de dar. A coisa piora quando o indivíduo decide jogar o perfume dele no ursinho de pelúcia. É caso para esterilizar... os dois!

 7. LIVROS DE AUTO AJUDA

Presente dado por namorado sem criatividade, cafona, com péssimo gosto para leitura e que, provavelmente, pensou em dar também o CD da Ana Carolina, mas desistiu porque ia ficar muito caro.  Um corno desses só conhece papai-e-mamãe e olhe lá!

 8. FLORES

Vai murchar, vai feder e a pessoa vai jogar fora. Quando alguém perguntar o que ela ganhou no Dia dos Namorados, não vai nem se lembrar.

 9. CELULAR XING-LING COMPRADO NO CAMELÔ

Fala sério... Isso é o fundo do poço. Você merece cuspe na cara só de pensar em dar essa merda.

 10. UM PÉ NA BUNDA


Terminar o relacionamento no Dia dos Namorados só pra economizar a grana do presente é o 5º subsolo do fundo do poço. Você é uma criatura digna de pena e vai morrer sem saber que catzo é canguru perneta. Eu aconselharia um terapeuta, mas é mais barato você cometer suicídio.

Canivete suíço completa 130 anos


O canivete suíço faz 130 anos de inovação em 2014. Antecipamos a comemoração de uma das maiores invenções do século 19

Até a invenção do smartphone, ele foi o rei dos bolsos espertos e o símbolo do homem elegante e prevenido. Entre os gadgets mecânicos, não tem rival – e não consta que seja possível fazer um parto com um iPhone.

Não foram as situações extremas, no entanto, que fizeram a fama do canivete suíço, mas a prontidão para toda eventualidade. Abrir o vinho no piquenique, consertar a haste dos óculos, apertar um parafuso ou apenas ser colecionado.

São 81 os "aplicativos" da versão mais completa, que inclui termômetro, barômetro e altímetro (e custa R$ 1.831).

O mecanismo que permite abrigar tantas lâminas dobráveis (existentes desde a Roma antiga) foi criado com precisão de relojoeiro em 1894, pelo cuteleiro Karl Elsener, cujos herdeiros continuam no comando da empresa.

Recentemente associado ao mercado de luxo por produtos que traem, de certa forma, sua vocação democrática, o canivete se mantém inoxidável na estima de consumidores e fabricantes.

“Ele sempre será o produto do coração”, diz Urs Wyss, executivo da Victorinox, marca líder de mercado, no QG da empresa.


 A fábrica fica no vilarejo de Ibach, no vale do canivete suíço, com lagos, montanhas nevadas e vaquinhas, todas suíças.

Se há um lugar onde de fato chove canivete, é ali. Desenvolvido para forjar diariamente 60 mil unidades, o maquinário cospe 360 modelos diferentes. O Brasil compra 100 mil unidades anuais.

Há ainda os modelos sob encomenda: com bisturi, para servir como brinde para médicos, ou o Master Craftsman, com que a Nasa equipava seus astronautas.

A Casa Branca costumava encomendá-los para presentear visitantes, como também fazia, nos anos 1970, o poderoso Henry Kissinger (secretário de Estado dos EUA entre 1973 e 1977), que fez estampar canivetes com o brasão do Departamento de Estado.

Os tempos de fato são outros – sobretudo depois do 11 de Setembro.

A proibição de carregar objetos cortantes em aviões foi uma punhalada na Victorinox, que fala em queda de 30% nos negócios, obrigando-a a intensificar a diversificação (roupas, bagagens, relógios) que já vinha desde 1989.

A proibição teria impedido, por exemplo, o salvamento de uma criança engasgada com uma bala durante uma viagem de avião, na Índia, em 1976.

O petiz foi salvo por um médico que fez uma traqueostomia com o canivete de um passageiro.
“Isso precisa ser dito na sua reportagem”, diz Wyss, com ar grave.


Existem ainda as amolações com as cópias chinesas – a Victorinox persegue judicialmente os falsificadores.
“Assim que ganhamos um processo, aparece um novo fabricante”, queixa-se Wyss.

Para completar, mínguam também as encomendas do cliente que ajudou a construir a grife.

A crise de 2008 forçou a redução de contingente do Exército suíço, que todo ano equipa com um canivete e um fuzil seus 10 mil recrutas, além dos oficiais.

Motivo de chacota do humorista Jerry Seinfeld, que protagonizou um quadro hilário em que soldados suíços tentam se defender com as inofensivas faquinhas, os modelos militares na verdade têm trava de segurança e lâminas próprias para o campo de batalha e podem ser usados como baionetas.

Há ainda modelos específicos para jogar golfe, para velejar e para operações de resgate –  este, fosforescente, é ideal para quebrar vidros de carros e faz microfuros no para-brisa.

Com tantas possibilidades ao alcance da mão, espanta que boas almas escrevam para a fábrica sugerindo novas funções, como integrar um smartphone ou um minikit de maquiagem, com espelho, batom e sombras.


Adotar as sugestões não está nos planos da Victorinox, afirma Wyss – o smartphone, diz ele, pode desvirtuar a vocação mecânica das faquinhas (ainda que já existam modelos com pen drive).

Já maquiagem não atende ao público-alvo da marca, eminentemente masculino.

A fábrica em Ibach mantém um serviço de reparação de canivetes enviados por clientes do mundo inteiro, que, a um preço simbólico (R$ 20), recupera relíquias de família.

O público volta e meia também envia, espontaneamente, relatos de façanhas realizadas com as minilâminas vermelhas: histórias de resgates no Himalaia, reparos na estação espacial Mir e aventuras nos sete mares, além de curiosidades como a do alemão que ajudou no comovente parto de uma jumenta.

Já o americano Gilbert Levin deixou o seu cair na estação de tratamento de esgoto onde trabalhava -e, quatro anos depois, ao esvaziá-lo para manutenção, encontrou-o praticamente intacto.

E, sim, parece ser real a história do Dr. John Ross, um médico canadense que fez pelo menos seis amputações com a serrinha do seu canivete, num hospital rural em Uganda.


Não tente fazer em casa – mas, caso precise, não deixe de esterilizá-lo com uma boa fervura, como fez o Dr. Ross.

“O humor estava refém do traço”, diz autora do Pintinho


Marina Azaredo

Talvez você nunca tenha ouvido esse nome, mas Alexandra Moraes, 31 anos, é uma “celebridade da internet”, uma das tantas que surgiram com a popularização das redes sociais – e principalmente do Twitter – há alguns anos. A coisa começou meio despretensiosa. Ela tinha virado mãe, estava meio entediada, desenhou no Paint um pintinho e uma galinha e começou a colocar ali diálogos e ideias que surgiam em conversas com amigos, uma coisa meio nonsense, meio irônica, meio engraçadinha.

Depois do sucesso no Twitter, veio o Tumblr, o Facebook e, por fim, o Pintinho saiu da internet: Alexandra acaba de lançar O Pintinho - Mais um Filho de Mãe Brasileira, pela editora recém-criada Lote 42, com 80 tiras selecionadas entre toda a sua produção.

“A gente tentou chegar nas melhores tiras, mas isso é menos de um terço da produção total. Tentamos alinhar mais ou menos tematicamente, mas um alinhamento bem frouxo mesmo, sem capítulos, sem nada, para que fluíssem as historinhas”, disse Alexandra em entrevista por telefone ao portal Terra.

Em uma conversa em que se dividiu entre as perguntas da repórter e os pedidos de atenção de seu filho, Benjamin, hoje com 5 anos, ela falou também sobre a afirmação de Arnaldo Branco logo no início do livro de que é o Pintinho é o que de melhor surgiu no humor nacional nos últimos anos e de que é a prova que a ideia é mais importante do que o traço.

“Nem sempre o cara que tem o melhor desenho tem a melhor piada. Eu tô bem longe de dizer que sou eu que tenho a melhor piada, não é isso, mas acho que durante um bom tempo a gente ficou refém demais do traço, e talvez a internet mesmo tenha possibilitado o aparecimento de gente que consegue conjugar as duas coisas”, opinou.

Na entrevista a seguir, Alexandra fala sobre o surgimento do Pintinho, que também já está nas páginas da Folha de S. Paulo, sobre o tipo de humor que se faz hoje e sobre as suas fontes de inspiração para criar os diálogos: “acho que é mais o dia a dia mesmo. Eu me fodo bastante”.


Você criou o Pintinho quando estava completando um ano de maternidade. Foi fruto do tédio?

É, foi um pouco isso. Um pouco de tédio, mas também uma piadinha que surgiu em uma lista de amigos. Não tinha nada a ver com a formatação de hoje, não era um diálogo entre uma galinha e um pintinho. Eram vários pintinhos e várias galinhas. Aí eu tirei dois personagens e comecei a fazer os diálogos. Mas foi isso, uma brincadeira boba, sem compromisso. Eu tinha desenhado esses dois personagens e pensei em aproveitá-los com diálogos bobos, coisas que eu não tinha mais onde colocar. Então aquilo ali serviu pra mim como um suporte para essas discussõezinhas, para umas frases, umas questões que acabavam surgindo de conversas mesmo. Depois comecei a colocar num blog que eu tinha na época. E, em 2010, veio o Tumblr.

Quando você percebeu que o Pintinho estava ficando famoso?

Eu não sei te dizer exatamente quando foi, porque no começo era mais gente conhecida mesmo, gente que comentava que tinha gostado, que tinha visto algum quadrinho. E foi meio que acho que pelo Twitter, porque era mais fácil de ter esse retorno. E aí as pessoas que eu conhecia começaram a contar que alguém tinha compartilhado, alguém que não tinha conexão nenhuma comigo. Mas foi difícil. Ainda hoje eu fico bastante surpresa com o alcance que acabou tendo o que era só uma brincadeira. Hoje, na internet, 16 mil pessoas que curtiram uma fan page é até pouco. Tem o Suricate Seboso, o Bode não sei das contas (Bode Gaiato), os caras têm 800 mil curtir, são fenômenos. O Pintinho tem uma constância, um público fiel, mas quando chegou ali nos mil curtir, 5 mil, 6 mil me assustou de alguma maneira. Eu pensei “poxa, que legal que tem gente que realmente gosta e que tá além desse meu círculo”, porque o meu círculo realmente é muito pequeno. Foi meio isso.

O Arnaldo Branco diz no livro que você é o que de melhor surgiu no humor nacional recentemente. Por que mesmo assim você reluta em ser chamada de quadrinista?

Não sei se bondade é a melhor palavra, porque não é exatamente isso, mas enfim, é umagentileza dele dizer isso. E eu sou a maior fã do Arnaldo, mais do que qualquer coisa. Mas eu tenho essa limitação do desenho, o meu desenho é muito cru, muito pobre até. Eu sei que essa pobreza tem uma graça, mas os caras que fazem quadrinhos mesmo fazer todo dia, na mão, é com tinta. Eu tenho um respeito muito grande pelo trabalho deles e, quando você vai entrando nesse mundo, você pensa “pô, mas eu não sou nenhum deles”, “não tenho o talento que eles têm”, “não tô elaborando esse desenho da maneira que eles elaboram”. Eu acho que o meu trabalho é um pouquinho diferente desse quadrinho tradicional, que é realmente muito mais trabalhado e muito mais bem acabado do que o meu acaba sendo. Mas é de coração.

Em algum momento você pensou em aprimorar o desenho?

Não. Não mesmo. Porque eu acho que ficaria uma coisa artificial, talvez falsa. Não seria muito útil eu mudar aquele desenho porque eles já estavam ganhando uma vida própria. Então pra mim não foi uma questão, não pensei em fazer um curso ou tentar elaborar e aplicar algum tipo de técnica mais sofisticada nem nada.


Você concorda que a ideia é mais importante do que o traço? Isso revela uma mudança nos quadrinhos?

Eu acho que, ao mesmo tempo que eu mesma enxergo nessa questão do desenho uma força muito importante dos quadrinhos, tem o problema da piada também, porque nem sempre o cara que tem o melhor desenho tem a melhor piada. Eu tô bem longe de dizer que sou eu que tenho a melhor piada, não é isso, mas acho que durante um bom tempo a gente ficou refém demais do traço, e talvez a internet mesmo tenha possibilitado o aparecimento de gente que consegue conjugar as duas coisas ou que se esforça em busca de ideias legais que encontrem suporte no traço. Então acho que a gente caminha pra encontrar essa harmonia. E, em muitos casos, ela já foi encontrada: tem o Angeli, o Laerte, o Fernando Gonsales, que é incrível. São bem importantes as duas coisas. Mas o traço também sem ideia não vai existir. Num contexto de humor, eu digo, porque é óbvio que nem todo desenho precisa ser engraçado.

Então a ideia é mais necessária para o traço do que o traço para a ideia?

Aí você me pegou. É porque essa é uma frase forte do Arnaldo (Branco), que serve para ilustrar o meu trabalho, mas eu não sei se serve para definir o que é mais importante agora. Eu acho que tem essa questão de você ter tido um período, uma produção muito apoiada no humor de salão, alguns vícios que ficaram do humor mais social e muito pesado num certo sentido. Então foi ficando pobre, porque você precisa arejar justamente com ideias. Então, quando se alinha as duas coisas, você tem um contexto ideal.

Como surgiram os outros personagens?

Eles são meio caricaturais. Tem o Abortinho, que é um feto abortado amigo do Pintinho, tem o Zé Sexo, que é essa caricatura meio inspirada no Zé Celso a partir do nome que um conhecido meu cunhou para ele, tem a diretora da escola, que é uma personagem mais amargona, o dinossauro ateu... Eles foram surgindo a partir da necessidade de colocar alguma outra coisa nesse contexto. Acho que o primeiro de todos - e o terceiro personagem que surgiu além dois - foi o Zé Sexo mesmo, porque eu acho graça nisso de ter essa ilustração dessa figura, que é muito peculiar e defende um tipo de arte e que está sempre evocando Baco e não sei mais quem. Então eles foram surgindo disso. Eu não sentei para planejar, não pensei “preciso fazer um outro personagem agora”, então eles surgiram com a piada mesmo.


Em que você se inspira?

Acho que é mais o dia a dia mesmo. Eu me fodo bastante. Então pra mim é isso, apesar das dificuldades, do dia a dia e das coisas que tendem a amargurar a gente, para mim ver a vida com um pouco de humor sempre foi natural, desde que eu era pequena. Sempre foi uma coisa de que eu gostava, gostava de contar piada, gostava de rir, de ouvir piada, de ver A Escolinha do Professor Raimundo. Essas eram as minhas diversões quando eu era pequena, então eu não tive que fazer esforço para tentar rir das coisas, foi meio natural.

Como surgem as ideias para as tiras?

Ah, vou juntando pequenas desgraças. E eu gosto muito de andar, de andar de ônibus, eu acho que são momentos bastante propícios para de repente ter ideias, para ir pensando na vida, nas coisas. É como, sei lá, ver um filme, ler um livro. É aquilo que eu tava falando sobre oxigenar a cabeça mesmo, porque é dali que vão sair ideias novas. Não adianta ficar bitolado assim “ah, eu preciso ter ideia, eu preciso fazer alguma coisa”, porque é justamente quando elas mais faltam.

O Pintinho evoluiu desde os primeiros quadrinhos?

Acho que sim. Ele era bem mais cru no começo, menos elaborado, menos preocupado. Acho que é uma questão de timing, de menos silêncio, mesmo tendo bastante espaço vazio ali na tira. Também tem o tom das coisas, que antes era pesado demais, nonsense demais. Mas ao mesmo tempo acho que não chega a renegar, foi um caminho que era pra ter sido percorrido mesmo, eu acho.


O Arnaldo Branco também escreve que você não perdoa a esquerda, principalmente a nova esquerda. Por que as críticas à esquerda?

Ah, foi acontecendo. Acho que você não precisa ser nenhum reacionário para identificar esses vícios. Isso de botar no Facebook Guarani Kaiowá... Acho que é uma postura que vai esvaziando o sentido das próprias causas, é uma caricatura mesmo. Quem estudou numa universidade, ou trabalha numa redação de jornal, sabe que tem um pensamento que impera ali que não aceita muita contestação. Em outros tempos foram outras causas, mas hoje é essa coisa da ecologia, umas preocupações sociais que descem meio de paraquedas. A direita também tem aspectos caricatos, mas hoje o que tem mais força para virar piada está coincidentemente mais alinhado com a esquerda.

As 80 tiras que estão no livro são as melhores?


A gente tentou chegar nas melhores, mas isso é menos de um terço da produção total do site. Tentamos alinhar mais ou menos tematicamente, mas um alinhamento bem frouxo mesmo, sem capítulos, sem nada, para que fluíssem as historinhas. A gente fez uma seleção grande e dividiu esse material: parte dele para o primeiro livro e parte para o livro que ainda vai vir. Não sei quando, mas será esse ano ainda.